E a moedinha de Deus, onde está?

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, onde nós vamos encontrar a moedinha de Deus? Onde que nós vamos encontrar aquela imagem colocada na moedinha de Deus? Já que a de Cesar nós sabemos onde está! Já que a de César nós temos que entregar a César! Mas, Nosso Senhor disse: “Dai a Deus o que é de Deus”. E a moedinha de Deus, onde está? E a medalhinha de Deus, onde está? E o anel de Deus, onde está? É essa que é a questão da nossa vida. Então São Paulo vai responder: “Ele é a imagem de Deus vivo”. Nosso Senhor Jesus Cristo é a nossa moedinha. Nosso Senhor Jesus Cristo encarnando-se, vindo para morrer por nós, foi Ele que pagou a Cesar o que é de Cesar. Foi Ele quem pagou ao demônio o que é do demônio. Foi Ele que deu a Deus aquilo que é de Deus, ou seja, nossas almas.

É, então, em Nosso Senhor, é, então, na Sua Igreja que nós vamos encontrar a moedinha de Deus, a imagem de Deus. Porém, muito diferente da imagem que nós vemos na moeda do mundo, na moeda de César. A moeda de Deus é eficaz. A moeda de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, derrama Seu sangue por nós. Ela é viva! Não é uma moedinha de latão, não é uma moedinha de prata, nem de ouro. Ela é de carne e osso e ela derramou seu sangue. Se nós encontrássemos uma moedinha com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo representando aquilo que Ele pagou a Deus por nós, ela estaria coberta de sangue, ela está coberta de sangue. E essa moeda que está coberta de sangue é a Igreja. É ali que nós encontramos esta moeda. É ali que nós encontramos esta medalhinha porque é religiosa. É ali que nós encontramos esta aliança porque é uma nova aliança feita no Seu sangue.

É assim, então, que nós temos que procurar na nossa vida como que nós vamos lidar nesse comércio santo – e não se espantem com essa palavra porque a própria liturgia usa o comércio que se estabeleceu na encarnação do Verbo, dia primeiro de janeiro, na festa da Oitava de Natal, as antífonas falam desse comércio santo que Deus realizou enviando o Seu Filho para morrer por nós. Se Ele fez um comércio conosco, Ele fez uma aliança. Nós temos um anel! Nós temos um anel que é a nossa parte, Ele tem um anel que é a parte d’Ele. Ele é o anel de Deus, Ele nos faz o laço com Deus. Mas, Ele é também uma imagem religiosa, então é uma medalhinha. Uma medalhinha que nós carregamos no peito, não com um cordãozinho de ouro, mas no coração. E essa medalha foi impregnada em nossas almas no dia do batismo. Essa medalha é um caráter sacramental. Essa medalha é a imagem de Jesus Cristo dentro de nós e é exatamente assim que a doutrina católica e São Paulo nos ensinam.

Nós somos configurados como uma planta é enxertada na outra planta, nós somos enxertados em Cristo pelo batismo. Então, a medalha religiosa de Nosso Senhor está dentro de nós. Nós somos ela. Nós nos transformamos em medalha. Nós nos fizemos medalha porque queremos morrer com Ele. Fomos mortos com Ele no batismo pelas águas do batismo, para ressuscitarmos com Ele na vida eterna. E somos também fruto desse comércio. Então somos também uma moedinha, não apenas uma aliança. Não apenas uma medalha, mas também uma moedinha. E para sermos justos temos que dar a Nosso Senhor Jesus Cristo aquilo que Ele deu por nós. Se Ele fez o comércio com o Pai, se Ele entregou-se à morte por nós, se Ele tornou-se um comércio espiritual para nossa salvação, cabe a nós darmos a nossa parte: estarmos a altura desse comércio que Ele fez por nós.

Mas, não parece tão fácil assim. Nós queremos isso tudo. Tudo isso tudo é uma linda teoria, tudo isso é uma espiritualidade elevada. Mas, quando nós nos encontramos na nossa vida do dia-a-dia, as coisas não são tão bem assim. Aquela moedinha de ouro já não é tão de ouro, já virou meio manchada. Naquela medalhinha a imagem de Jesus já não está tão nítida. E a aliança? Onde mesmo foi que eu pus a minha parte? Não sei mas onde guardei a minha aliança. Onde será que eu pus? Em que gaveta eu escondi? Porque ela já não está mais no meu dedo, já não representa mais aquilo que eu troquei com Ele, aquilo que eu firmei com Ele, aquele trato que eu fiz com Ele para ser todo dele, para estar inteiramente entregue nas mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, diz São Paulo, eu tenho por mim que aquele que iniciou a obra da santificação em nossas almas, Ele mesmo aperfeiçoará, Ele mesmo tornará perfeita, Ele mesmo terminará essa obra. É isso que São Paulo acaba de nos ensinar. Então aí nós vemos uma laço entre o evangelho e a epístola. Essa obra é Nosso Senhor que faz em nós.

Então, onde está a nossa aliança? Onde está a nossa medalhinha? Temos que recuperar! Recuperar através de quê? Dos atos da nossa vida. Temos que olhar pra nós mesmos e dizer: será que tudo que eu faço corresponde a essa imagem viva do Deus que é o rosto d’Ele em mim, marcado pelo Batismo, continuado pela Eucaristia.

Eu trago Jesus para dentro de mim na Eucaristia. Ele fez-se pão para ser comido por mim e eu ser nutrido por Ele. Será que todos os domingos quando eu venho na Missa – ou dias de semana – é assim que eu comungo? Nós podemos saber através dos atos da nossa vida. Nós podemos saber se nós verdadeiramente estamos cumprindo aquela caridade que São Paulo põe no final do seu texto dizendo assim: é nessa caridade que nós temos que viver, é neste amor mútuo que nós temos que viver, e não na intriga, e não nas obras da carne, e não nas obras do pecado, e não na falta de caridade, e não no egoísmo que nos fechamos dentro de nós mesmos como se não fôssemos nós agraciados por esse comércio divino. Se nós não tivéssemos sido salvos pelo seu sangue, mas nós fomos. Então marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter batismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter crismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo de caráter sacerdotal, para que cada um na sua função, cada um vivendo na Comunhão do Santos, amando-se uns aos outros na Comunhão dos Santos, nós possamos dizer com o salmo Ecce quam bonum et quam iucundum habitare fratres in unum, como é bom os irmãos estarem num convívio mútuo, como é bom os irmãos serem imagem uns dos outros, como é bom nós formarmos dentro de nossa casa, dentro de nossa capela um tesouro de moedinhas todas elas com a marca de Jesus Cristo.

Quando que nós vamos economizar? Quando que nós vamos fazer uma poupança de amor, poupança de caridade? Todos com sua moedinha dentro da Casa do Senhor, todos com sua moedinha diante do altar do Senhor, oferecendo essa moedinha como um sacrifício, como morte, como ressurreição?

É assim que nós temos que conviver com isso, conviver com essa realidade que está dentro de nós e tirar de nossas vidas tudo aquilo que mancha a medalha, que mancha o comércio, que mancha a aliança que nós temos com Nosso Senhor. E isso a gente faz todos os dias quando a intriga toma conta de uma sociedade, que seja casa, que seja a capela, às vezes no trabalho.

Pensem nos pecados da língua. Quantas e quantas vezes é pela fala que nós ofendemos, que nós intrigamos, que nós fazemos complôs, que nós dividimos. É assim que o homem vive. E muitas vezes o homem vive assim dividindo e nos seus complozinhos achando que estão agradando a Deus, esquecendo-se que isso está escurecendo a beleza, o brilho daquele ouro da moedinha de Jesus Cristo. Então nós temos que olhar para as nossas vidas e dizer: será que eu lustro ela todos os dias pelos meus atos? Será que eu correspondo ao sangue que Ele derramou por nós? Na prática. Não é teoria espiritual, é a prática do dia-a-dia. Porque aquele que me ama cumpre os meus mandamentos na prática, no concreto, no irmão que está ali do meu lado.

Tenhamos, então, cuidado! Andemos com circunspecção como diz São Paulo – se não me engano domingo passado ou retrasado – prestemos atenção onde estamos indo nessa trilha que Jesus traçou para nós, para nos levar até a vida eterna, porque é muito bonito tudo que a Igreja nos ensina, é muito bonito todos os textos espirituais que a gente lê, mas, se nós não praticarmos isso com exigências, se nós não formos fortes para vencer os nossos vícios, para abandonar a impureza do mundo, para abandonar a grossura da língua… É assim que a gente vive, porque da boca do homem sai muita maldade.

Então, tenhamos cuidado ao falar. Tenhamos cuidado ao lidar uns com os outros. Tenhamos cuidado com as palavras que usamos e com o espírito com que usamos essas palavras, para que reine dentro de nós o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo marcado no sangue redentor, marcado na cruz que Ele carregou por nós, para que nós possamos alcançar a vida eterna.

SERMÃO DE 05/11/2017 – Niterói – RJ

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