As três festas da inocência

Por Dom Lourenço Fleichman

Caríssimos irmãos,

são grandes os mistérios do Natal, do tempo do Natal. O ciclo do Natal, que vai até a festa da purificação de Nosso Senhor, a apresentação de Jesus no templo, dia 2 de fevereiro. Todo esse tempo se resume praticamente na noite de Natal e nós devemos voltar à noite de Natal o tempo todo porque é essa noite de Natal, o nascimento de Jesus em Belém, que explica todos esses mistérios que nós atravessamos ao longo desse tempo do Natal.

A Virgem Maria e São José, a Sagrada Família, a epifania, tudo isso que virá pela frente, até mesmo a própria apresentação do menino Jesus no Templo tem sua razão de ser no nascimento de Jesus em Belém. Virão os pastores, virão os magos e nós continuamos celebrando o nascimento de Jesus em Belém. Continuamos de joelhos aos pés da creche, aos pés dessa manjedoura onde Jesus nasceu, adorando o filho de Deus, adorando Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós vimos na Missa do Dia, no Natal, com aquele evangelho que é o prólogo de São João, como que a Igreja nos traz a realidade da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, a missão do Filho encarnando-se para nascer de Maria Virgem e morrer na cruz por nós. Toda essa realidade acompanha também a oitava de Natal.

Nós festejamos Santo Estêvão no dia 26, nós festejamos São João Evangelista no dia 27 e nós festejamos os Santos Inocentes no dia 28. E essas três festas, 26, 27 e 28, têm alguma relação também com Nosso Senhor. Claro que, quando nós pensamos em Santo Estêvão, primeiro lugar, pensamos na inocência de um diácono que foi escolhido pelos apóstolos como auxiliares, aqueles sete diáconos, que está no Ato dos Apóstolos. E Santo Estêvão, que tinha uma inteligência da Encarnação muito profunda como aparece no próprio Atos dos Apóstolos, ele tentava convencer os judeus nas sinagogas, tentava mostrar para os judeus os erros de não aceitarem o Messias, de não aceitar Nosso Senhor. Foi apedrejado na porta da cidade. Foi martirizado. Protomártir é chamado assim o primeiro que morre por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, Santo Estêvão entra dentro do ciclo Natal. Entra por causa dessa relação direta: o primeiro que derramou seu sangue, vestiu-se de sangue para entrar na eternidade, já junto com Nosso Senhor, na hora que Ele morre na cruz, Santo Estevão estava ali esperando com São José e os santos profetas do Antigo Testamento. Mas ele derramou seu sangue. Ele foi o primeiro a derramar seu sangue, realmente adulto, porque os santos inocentes também derramaram seu sangue. Santo Estêvão!

Por que razão São João Evangelista? São João que nós ouvimos no prólogo do Evangelho no dia de Natal, São João que encostou a sua cabeça no coração Jesus, é outro tipo de vida, outro tipo de santidade. Não é aquela pureza da inocência de um sangue derramado, mas é a mesma pureza da inocência tão adolescente quanto Santo Estêvão, mas que viveu do amor, que é marcado pela caridade. Não uma caridade que vai até a morte, mas uma caridade que vai até a compreensão de tudo que aconteceu no seio da Santíssima Trindade para que nos explique no princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o verbo era Deus. Esse é São João Evangelista. Esse é o São João Virgem. Esse é São João na pureza da sua inocência que vai viver todos os anos de sua vida até a velhice, é o único apóstolo que não morre mártir. Escolhido pela Igreja para ser festejado junto da creche, junto do Presépio, junto do Natal.

E depois, no dia 28, os Santos inocentes. Vocês conhecem. Foram martirizados por Herodes. Herodes soube pelos magos que havia nascido o rei de Israel e cheio de inveja no coração, cheio de ódio no coração, não tendo como encontrar esse rei que nasceu, simplesmente manda matar todas as crianças nascidas abaixo de dois anos e, dizem os historiadores, que foram cerca de duas mil crianças martirizadas nesse dia. Imagine a dor daquelas mães tentando esconder seus filhos, tentando esconder suas crianças para que não fossem martirizadas. Imagine a alegria dessas mães quando chegaram no Céu e descobriram que seus filhos foram mártires por Nosso Senhor Jesus Cristo, que estavam lá no Céu esperando por elas. A dor e a alegria misturadas na mesma festa, misturadas na mesma inocência daquelas criancinhas que foram batizadas pelo sangue, batizadas como mártires pelo sangue. Por causa de Nosso Senhor Jesus Cristo elas foram mortas e a Igreja nos faz celebrar então verdadeiramente como Mártires, apesar de que o protomártir é Santo Estevão porque é adulto.

Essas três festas são as três festas da inocência porque Jesus nasce inocente na gruta de Belém. Jesus nasce criancinha. Ele completamente incapaz de qualquer pecado, Deus tendo a natureza divina junto à natureza humana não tinha menor condição de que houvesse um deslize e Ele pudesse pecar. Não havia essa possibilidade em Nosso Senhor. Ele chama a si na sua Igreja três Santos ou dois Santos e mais aqueles milhares de Santos para festejar a castidade, para festejar a pureza, para festejar as virtudes que nos são necessárias para entender o que é o Natal, pra compreender mais profundamente o que é estarmos diante de uma festa de Natal, de uma oitava de Natal, às vésperas de um outro ano que começa. Isso é para amanhã. Amanhã nós veremos isso: o outro ano que começa. Agora nós temos que continuar vivendo diante de Nosso Senhor através dessas virtudes.

São Estevão, que ensinava os judeus e morre inocente por Nosso Senhor Jesus Cristo.

São João, que ensinava aos judeus O Logos, o Verbo que era e que é Deus, e que recosta sua cabeça no coração de Jesus e vive dessa caridade, desse amor, nos ensina a caridade e esse amor.

E os Santos Inocentes que não falaram nada, não ensinaram nada, não podiam falar, mas que dão seu sangue e o sangue deles é que é o louvor que eles realizam para esta criancinha que nasceu em Belém.

Tudo isso nesta festa que vem nos lembrar a nossa herança. Nesse domingo, dentro da oitava que vem nos lembrar: nós somos herdeiros em Deus, nós somos herdeiros com Cristo porque Ele conquistou com o seu sangue a herança que nos foi dada do Céu, já que nós não merecemos o Céu. Então somos herdeiros com Cristo, vem nos lembrar a Missa de hoje, porque somos filhos por adoção. Não somos filhos por natureza como Jesus é Filho por natureza de Deus, mas somos filhos porque fomos adotados. Ele quis nos adotar, Ele quis nos chamar para sua família, Ele quis nos dar a sua herança que é o Céu. Estarmos não apenas na presença d’Ele para toda eternidade no Céu, mas recebendo dentro de nós a transformação que nos fará deuses, verdadeiramente divinizados porque estaremos venda Deus face a face. Ele estará como que tomando conta do nosso ser, como que explodindo nosso ser em luz, explodindo nossos ser em graça, em virtude para sempre, numa felicidade sem fim no Céu.

Então que venha Santo Estêvão, que venha São João Evangelista que venham os Santos Inocentes para nos ensinar enquanto nós estivemos aqui, porque na hora da nossa morte nós temos que já estar orientados para a vida eterna, orientados para a virtude, orientados para o Céu. Quando a morte vai ser aproximando, nós devemos ter no coração um único pensamento: nada mais me serve nesse mundo a não ser a vida eterna, a não ser o outro mundo, a não ser estar com Cristo para sempre nos ares, sermos recebidos por Ele nos ares, como diz São Paulo em uma de suas epístolas. Como que nós podemos garantir que estaremos com Ele no Céu, na vida eterna, na felicidade eterna, senão meditando nesses mistérios do Natal, meditando em todos os mistérios de Cristo. Virá depois a quaresma para nos fazer penitência, virá a ressurreição de Nosso Senhor no Domingo de Páscoa e tudo isso vai enchendo o coração do católico para que ele possa dizer: Sim, é verdade. O meu caminho nessa vida é passageiro. Eu não me apego a nada nessa vida porque tenho que me apegar é na vida eterna e estarei com Cristo para sempre na vida eterna.

Peçamos então a São José e Nossa Senhora – os dois são citados no início do evangelho – eles estavam ali ouvindo aquelas maravilhas todas, olhando para aquela criança todos os dias enquanto eles estiveram em Belém. Ficavam ali olhando para aquela criança. Depois pegaram Ele no colo, fugiram para o Egito. Só depois que voltaram para casa em Nazaré. Todo esse tempo, o menino Jesus ali crescendo em sabedoria, crescendo em Graça. A graça de Deus estava com Ele, diz  o Evangelho. A graça de Deus estava com a natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. A graça da natureza divina, que é Ele próprio, estava com a natureza humana em Jesus Cristo. E Ele vivia assim, nessa felicidade, já nessa contemplação do Pai, nessa contemplação da vontade do Pai, que fazia as suas delícias, fazia sua alegria.

Que seja também para nós que nada das nossas obrigações nesse mundo, nada dos nossos amores desse mundo nos faça desviar 1 cm da direção da vida eterna, da direção do Céu. Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, amém.

Niterói, 31 de dezembro de 2017

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