Somos capazes de ser para o próximo, para os nossos familiares, aquilo mesmo que Cristo foi para nós

Por Pe. Flávio

Queridos fiéis, a liturgia segue trazendo para a nossa contemplação os mistérios da encarnação de Nosso Senhor, guiando nossas meditações com os textos das missas que temos a alegria de rezar.

A liturgia realmente nos entrega o conhecimento dos segredos íntimos de Deus, Nosso Senhor, esperando o nosso interesse, esperando o nosso desejo de alcançar toda a riqueza, toda a alegria, toda a fortaleza que o conhecimento de Deus nos dá.

Até o dia de hoje a liturgia havia estendido pela comemoração da oitava do Natal, a visão do Menino Deus recém-nascido, deitado numa caminha de palha. Durante o tempo do advento, que é uma preparação para a noite de Natal, os textos das missas nos fizeram considerar o mundo sem Nosso Senhor, que sofria no paganismo a perda da verdade, a perda da fé e a perda do sentido sobrenatural e altíssimo da vida humana. Nos fez considerar também o tempo do advento as misérias do povo judeu, que possuía a fé, que possuía a verdade mas não tinha as forças necessárias para alcançar a santidade que se lhe tinha sido mostrada. Assim, eles esperavam esse Messias que revelaria todos os mistérios íntimos de Deus e estabeleceria uma nova vida de felicidade e santidade até então impossível.

Mas, para nossa surpresa, esse Salvador quis nascer pobre e encontrar abrigo em um estábulo de animais, já nos alertando, então, que a sua obra não buscaria nenhuma glória humana e muito menos mundana. Assim, durante esses dias da oitava de Natal a Igreja insistiu na contemplação desse Salvador tão surpreendente que iniciou pela virtude da pobreza a obra da reparação das nossas misérias.

No entanto, hoje, com a festa da Sagrada Família, a liturgia deu um novo passo nessa apresentação da obra de Nosso Senhor quando nos faz meditar hoje sobre o primeiro efeito social da obra de Cristo, que é justamente a família. Se a descida de Nosso Senhor dos céus para entrar nesse mundo para encarnar-se é a manifestação visível da graça oculta que baixa também dos céus para entrar nas nossas almas, a festa da Sagrada Família é a contemplação do crescimento dessa obra de santificação interior que começa a dar frutos visíveis. A graça depositada no fundo da nossa alma deve crescer até transformar todo o mundo, até construir uma cristandade. Mas, para isso, deve primeiro necessariamente gerar uma família. Antes de gerar um conjunto de estados deve gerar uma família, necessariamente.

Que a obra da restauração interior das almas frutifique necessariamente na construção de uma família católica, nos ensina de modo muito claro que o sentido íntimo e último dessa pequena sociedade é verdadeira e essencialmente sobrenatural, sendo um instrumento de Nosso Senhor para realizar a obra da salvação das almas. Todos os pais de família devem ter muito claro diante de si que a sua dignidade, que a beleza e a altura do dever de Estado que se lhe entrega consiste bem na entrega de si mesmo a Nosso Senhor como instrumento para a obra da Redenção.

A vida matrimonial também deve ser entendida em razão da salvação das almas e, assim, de um modo particular, de modo próprio, também implica uma consagração a Deus, Nosso Senhor, em um estado especial de união com Ele. No entanto, queridos fiéis, se é verdade que uma família católica é a obra de excelência de uma vida interior, a primeira obra social de uma vida espiritual, por esse mesmo motivo também vai sofrer as consequências das feridas das nossas almas, dos nossos pecados, das nossas limitações e das nossas misérias. É um bem enorme ser capaz de ver a grandeza celestial e sobrenatural dessa obra de Deus Nosso Senhor, mas para evitar um idealismo que terminaria sendo um remédio falsificado ineficaz, São Paulo, na sua epístola, nos dá um choque de realidade, nos mostra a realidade concreta e passa a maior parte do texto da sua epístola pedindo que aprendamos a ter misericórdia, paciência, bondade, magnanimidade. Que saibamos entregar e oferecer nossas qualidades, nossa sabedoria, para que sejam os bens comuns da nossa família e, principalmente, que saibamos suportar as misérias uns dos outros e saibamos perdoar uns aos outros.

São Paulo sabe perfeitamente que a vida familiar também é cheia de dificuldades. É quando nós temos diante dos nossos olhos a grandeza divina que é uma família católica e ao mesmo tempo as misérias humanas que padecemos. É quando vamos poder entender profundamente a natureza da obra da Encarnação, a natureza da obra da redenção que quis intencionalmente valer-se desse instrumento onde o poder divino vai ser capaz de transformar até mesmo nossas imperfeições em meios extraordinários de santidade. Como então Nosso Senhor realizar essa obra? O primeiro e mais imediato efeito santificador que realiza a família católica e que também se dá em uma família religiosa, é este bem que menciona São Paulo, de colocar à disposição de todos, de comunicar a todos os membros da família as qualidades, as perfeições, as capacidades e os bens que cada indivíduo possui. Desse modo, por exemplo, uma criança recém-nascida se beneficia e possui como sua a sabedoria e a fortaleza dos seus pais. Do mesmo modo, por exemplo também, como o marido desfruta como sua da fina e aguçada percepção dos corações que está dotada sua esposa, São Paulo nos manda possuir a humildade, a paciência, a doçura, a mansidão. Mas, todas estas virtudes já são, de certo modo, nossas se eu as encontro na alma dos meus irmãos. Assim, numa família católica todas as virtudes são exaltadas, são comunicadas, do mesmo modo como os defeitos são facilmente detectados, diminuídos, e remediados pelo amor e pela virtude dos demais. De outro modo, estaríamos abandonados a nossa própria sorte. Seríamos uma vítima indefesa de nós mesmos, com a expectativa um pouco absurda de obter as forças extra ordinárias para curar em mim mesmo aquilo no qual eu sou fraco.

Em todo caso, queridos fiéis, essa não é a razão mais profunda e mais bonita da eficácia da família como instrumento de santificação nas mãos de Deus, Nosso Senhor. A razão mais alta está apresentada por São Paulo quando diz: perdoe uns aos outros como Cristo os perdoou. Esse é o princípio fundamental.

Nossa vida espiritual é essencialmente um processo pelo qual nós vamos nos conformando, pouco a pouco, com as virtudes e a santidade de Nosso Senhor. A santidade é possuir as virtudes de Cristo, e o céu é a felicidade infinita própria do Filho de Deus. Mas, somente Cristo, Nosso Senhor, é filho de Deus por natureza. Desse modo é fácil entender que o sentido verdadeiro da nossa vida é ser igual, imitar a Nosso Senhor. O que nos ensina São Paulo nessa pequena frase é que só vamos realizar completamente essa semelhança com Cristo quando formos capazes de ser para o próximo, para os nossos familiares, aquilo mesmo que Cristo foi para nós, quando nos amou, nos buscou e entregou sua vida por nós quando ainda éramos pecadores.

Nosso Senhor não começa a nos amar depois que fomos santificados, que fomos justificados, ao contrário, fomos santificados e justificados pelo amor de Nosso Senhor, que foi primeiro, que nos buscou primeiro. A obra da nossa santificação vai estar completa quando tenhamos um coração semelhante ao Sagrado Coração de Jesus. Foi o Sagrado Coração que quis encarnar-se para salvar os pecadores.

Por isso São João na sua epístola ensina, diz de modo muito claro, que aquele que diz que ama a Deus e odeia ao seu próximo é um mentiroso porque a plena caridade de Deus, o verdadeiro amor de Deus, Nosso Senhor, ama e entrega a sua vida até a morte e uma morte de cruz. Não existe ninguém que seja mais próximo, que seja mais unido a nossa alma que a nossa própria família. Nossa família é então esse instrumento maravilhoso de santificação querido por Deus com todas as dificuldades que nascem de uma união, de uma reunião de homens feridos pelo pecado original, porque é nela que primeira, imediata e propriamente possuímos um irmão, ao qual podemos realizar esse amor que entrega a própria vida. E, como disse Nosso Senhor, não existe amor mais grande.

Queridos fiéis, descobrir os mistérios da obra da redenção é dizer com outras palavras que descobrimos e entendemos os mistérios da cruz. É culpa da nossa pequena fé que não sejamos capazes de ver toda a grandeza e toda a beleza da obra da cruz, que sempre nos enche de medo, esse medo do sacrifício, esse medo da entrega total de si mesmo.

É por isso que Nosso Senhor nos presenteou com essa escola de contemplação que é a liturgia guiando nossa fé pelas belezas infinitas e divinas dessa sua obra. Hoje a missa nos ensina a ver que o mistério da redenção, o mistério da cruz, o mistério da caridade e do amor de Deus são aspectos distintos da mesma obra mostrando-nos a beleza e a eficácia da cruz aplicada a um lugar muito concreto e muito próximo, como são as nossas famílias.

Uma cruz enviada por Deus, Nosso Senhor, e bem recebida é capaz de transformar uma reunião de pessoas imperfeitas, uma sociedade de pessoas imperfeitas. Quando o mais provável nessa sociedade é que se reunissem para machucarem-se uns aos outros, a graça de Deus, Nosso Senhor, a cruz de Deus, Nosso Senhor permite transformar essa sociedade na antecipação nesta vida da perfeita entrega de si mesmo que realiza a primeira e mais perfeita família que já existiu, que é a sociedade íntima e amorosa das três pessoas da Santíssima Trindade. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Sermão da Festa da Sagrada Família, 07/01/2018

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