A primeira semana da pregação de Jesus

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos,

há uma passagem de São Paulo que o apóstolo nos diz que tudo que está escrito nas Sagradas Escrituras está escrito para nossa edificação. Nós temos, de fato, que tirar da Sagrada Escritura, do Evangelho, sobretudo do Novo Testamento, muitas e muitas verdades e muitas e muitas consolações. Quando nós paramos para ler um pouquinho os evangelhos descobrimos tantas coisas que mesmo depois de muitos e muitos anos, já envelhecendo, a gente continua descobrindo coisas novas. Como diz lá também Nosso Senhor no Evangelho: o pai de família tira do seu tesouro coisas novas e velhas.

Assim, eu queria trazer pra vocês hoje nesse evangelho das bodas de Caná a explicação de por que razão a Igreja nos traz no segundo domingo depois da epifania essa passagem. Nós sabemos que a festa da epifania comporta três mistérios, três etapas. Primeiro lugar, a festa dos Reis Magos. Os reis pagãos chegando para adorar o Salvador, para adorar aquele que veio para salvar toda a humanidade e depositar aos pés de Jesus as suas coroas. Suas coroas políticas porque Jesus deve reinar sobre todas as nações.

Em segundo lugar, é também festejado aquilo que nós festejamos ontem na oitava da epifania, dia 13, que é o batismo de Jesus no Rio Jordão. São João Batista batizando Jesus num batismo de penitência, num batismo de água, que ainda não é o batismo católico, mas, está sendo ali instituído o batismo católico, aquele único batismo que lava o pecado original e nos torna filhos de Deus.

E, em terceiro lugar, na festa da epifania, já na antífona de magnificat da epifania, está presente também esse primeiro milagre de Jesus nas bodas de Caná. Mas, tudo isso acontece num momento do Evangelho muito especial. Eu queria trazer pra vocês, então, alguma coisa sobre o espírito do Natal, que, ainda estamos como que terminando com o batismo de Jesus, que nos mostra como que a Igreja é sabia quando nos traz esses textos da escritura para nossa consolação e nossa edificação. Vocês sabem que a terceira missa do Natal, a missa do dia, tem como evangelho o prólogo de São João. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus… é magnífico isso, que a Igreja tenha trazido no Natal aquilo que é mais elevado dentro da Santíssima Trindade, da encarnação do Verbo, a grandeza de Nosso Jesus Cristo, que está presente neste prólogo de São João. Termina no versículo 14 do primeiro capítulo de São João. O verbo se fez carne e habitou entre nós. E vimos a sua glória. A glória do Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Continua São João dessa forma, e aí a gente não tem mais o costume de ler porque na passagem do prólogo que a gente lê na missa não estão o versículo 15, 16, 17 e 18.

João Batista dá testemunho dele e exclama: eis Aquele de quem eu disse O que vem depois de mim é maior do que eu porque existia antes de mim. Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. A grandeza da manifestação de São João Batista quando ele aponta Nosso Senhor no Rio Jordão é muito profunda. Dele nós recebemos graça sobre graça. Só Deus pode dar graça sobre graça. E ele continua: pois a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. E ai é São João Evangelista que fala. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai foi quem o revelou.

A manifestação da Santíssima Trindade impressionante que é o Natal, que é a terceira missa do natal, nós vamos ver como que a continuação nos traz até as bodas de Caná. Este foi o testemunho de João Batista quando judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: quem és tú? E ele declarou: eu não sou Cristo. Ora, essa passagem, que é a continuação do primeiro capítulo São João, está no Evangelho no segundo domingo do advento, preparação do Natal. Então a Igreja não saiu ainda daqui. Volta um pouquinho e vem adiante, mas nos trazendo sempre as explicações referentes à natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu não vou ler toda a passagem porque vocês tem isso no missal e já passou o segundo domingo do advento, mas a preparação do Natal nos passa sobre isso, e São João vai dizer então: Esse é Aquele de quem eu não sou digno de desatar as correias do calçado. Este diálogo está no nosso evangelho do segundo domingo. Este diálogo se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando – segundo domingo do advento.

Acontece que não para aí, e o texto diz assim: no dia seguinte, e isso é um dado importante: dia seguinte. Passou um dia daquele dia em que São João aponta Nosso Senhor. No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É este de quem eu falava pra vocês: eu não sou Cristo mais vira Cristo, que eu não conheço e Ele perdoará os pecados. É este! – ele aponta para os fariseus – é este de quem eu disse: depois de mim virá um homem que me é superior porque existe antes de mim. Eu não o conhecia, mas se vim batizar em água é para que Ele se torne conhecimento em Israel. Evangelho de ontem, batismo de Nosso Jesus Cristo, oitava da epifania.

João havia declarado: eu vi o Espírito descer do céu em forma de uma pomba e repousar sobre Ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me mandou batizar em água disse-me: sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo. Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus. Este é o evangelho de ontem do batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São João Evangelista continua: no dia seguinte, mas uma vez, então já é o terceiro dia, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos, e avistando Jesus que ia passando disse: eis o Cordeiro de Deus. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-se Jesus, e vendo que o seguiam perguntou-lhes: que procurais? Disseram: Rabi, que quer dizer mestre, onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e ficaram com Ele aquele dia. Era cerca da hora décima.

Olhem os detalhes temporais, cronológicos, que São João vai dando. Era a hora decima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido. Então, nós temos já aqui um apóstolo, Santo André, presente esta grande aventura dos primeiros momentos da evangelização, dos primeiros momentos da pregação do Evangelho. E é saboroso, é de um frescor impressionante a gente ver a primavera da Igreja. A Igreja nascendo com Nosso Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos. Foi, então, André, logo à procura de seu irmão e disse-lhe: achamos o Messias. Ele não diz outra coisa, não. Achamos o Messias, que quer dizer o Cristo. E levou-o a Jesus. E Jesus fixando nele o olhar disse: tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas, que quer dizer pedra. Pronto! Já estava ali presente o primeiro Papa. Já estava ali presente o chefe dos apóstolos.

No dia seguinte, parece brincadeira mas, no dia seguinte, está escrito aqui, tinha Jesus a intenção de dirigir-se à Galiléia, Cana da Galiléia. O primeiro milagre é lá no norte, Ele vai fazer uma viagem. No dia seguinte, o quarto dia, tinha Jesus a intenção de dirigir-se à Galiléia. Encontrou Felipe e disse-lhe: segue-me! Felipe era natural de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei e que os profetas anunciaram. É Jesus de Nazaré, Filho de José. E aí aparece a figura de São José, misteriosa, escondida, calada. Pela primeira vez São José vai estar ali presente, porque foi nomeado. Eles sabiam que Ele era filho de José. Respondeu-lhe Natanael: pode porventura vir coisa boa de Nazaré? Felipe retrucou: vem e vê! Mesma frase que Jesus disse a André.

Jesus viu Natanael que lhe veio ao encontro e disse: eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade. Natanael perguntou-lhe: de onde me conheces? Respondeu Jesus: antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estava debaixo da figueira. Falou-lhe Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel! Pronto! A gente pode fechar a Bíblia e dizer: Pronto, está tudo dito. Não precisa de mais nada. Natanael foi o primeiro que, não apenas depois de João Batista, disse: esse é o Messias. Esse é o que tira o pecado do mundo, que nos traz graça sobre graça. Agora, Natanel diz: tu és o Filho de Deus, o rei de Israel. E Jesus replicou-lhe: porque eu te disse que te vi debaixo da figueira acreditaste. Verás coisas maiores do que esta. E ajuntou: em verdade, em verdade vos digo, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem, que é a visão de Jacó, da escada de Jacó, que ele vê os anjos subindo e descendo sobre a Pedra. (Um parêntesis). Jacó dorme no caminho pra casa de Labão para encontrar sua esposa. Ele dorme e põe uma pedra como travesseiro e no dia seguinte ele vê essa visão maravilhosa da escada. Uma escada que subia até o céu e que tocava na terra na pedra dele. Então, ele unge aquela pedra e faz um altar, e sacrifica nesse altar. E essa pedra é Cristo, evidentemente. Então, Nosso Senhor diz  a mesma coisa que aconteceu com Jacó.

Três dias depois. Nós estamos, então, com uma semana do primeiro momento em que São João Batista viu Jesus. Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia. É o  nosso evangelho. Nós estamos dentro do Natal. Nós estamos dentro de todo esse acontecimento que Igreja nos traz no tempo do Natal. Claro que não o natal do nascimento de Jesus, porque Jesus já é adulto. Onde está São José São José? Não está presente nas bodas de Caná. São José já tinha morrido. Jesus adulto, Jesus com 30 anos começa seu Evangelho e São José já tinha morrido, mas imaginem a participação espiritual de São José nas bodas de Caná. Por que razão Nossa Senhora se dirige a Jesus? Eles não tem mais vinho. Se São José estivesse vivo, ela teria dito: José eles não tem mais vinho. Ele é o esposo, Ele é o marido, Ele que vai resolver o problema. Mas, ela se dirige ao Filho porque Ele assumiu o papel de chefe da casa. Um homem de 30 anos que realmente acompanha sua mãe nessa festa de casamento, nas bodas de Caná. Eles não tem mais vinho. Mulher, o que isso tem a ver comigo e contigo? Não chegou a minha hora.

Todas essas coisas maravilhosas e o Corção, em um  texto maravilhoso, apesar de ser um leigo, – eu tenho que trazer esse testemunho – ele se pergunta e ele pergunta pros padres por que razão Jesus chama ela de mulher e não de mãe. E os padres dão explicações exegéticas muito complicadas e vão citar muitos autores. E o Corção diz: sinto muito exegetas. Eu acho que não é nada disso. Ele fala mulher para colocar o primeiro milagre na pauta feminina. Ele chama mulher porque aconteceu um fato feminino: Nossa Senhora, mulher, dirige-se ao seu Filho e diz: eles não tem mais vinho, faça alguma coisa. Jesus diz: não chegou a minha hora. Mas, ela, como mulher, diz: façam o que Ele mandar, porque Ele fará.

É claro que nós sabemos que, misticamente, para nós trata-se da mediação de Nossa Senhora. O primeiro milagre de Jesus e a primeira mediação de Nossa Senhora. Nossa Senhora medianeira de todas as graças, Nossa Senhora intercessora junto a seu Filho pra todos os milagres. Pro milagre do nosso batismo, pro milagre do casamento… Tudo isso é a vida cristã, tudo isso é a nossa vida católica e que se passa assim com esse frescor de primavera, com as manhãs que vão se sucedendo…

A primeira semana da pregação de Jesus… Nós somos testemunhas de um tempo cronológico de uma semana. Passou-se um dia, dois dias, três dias, quatro dias e, depois, três dias. Passaram-se sete dias e Jesus estava ali passeando, encontrando as pessoas, respondendo aos fariseus – como nós vimos também no advento – depois subindo, viajando até a Galiléia para estar presente em Caná e fazer esse primeiro milagre.

Tenhamos, então, um certo gosto pela leitura do Evangelho. Às vezes, as pessoas dizem assim: não consigo rezar, eu fico meio entediado, fico distraído. Peguem o Evangelho. Mas, leiam o evangelho com calma, leiam o Evangelho vendo esses pequenos detalhes, como eu trouxe para vocês esses dias que se sucederam. Ou a uma frasezinha que, de repente, nos joga lá no céu, lá no seio da Santíssima Trindade. Os mistérios estão presentes em todo o Evangelho. Que seja São João, que tinha como finalidade provar a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não estava preocupado com cronologia, ele não estava preocupado com a história da vida de Jesus, ele estava preocupado em dizer: esses judeus precisam crer que Jesus é Deus, é o filho de Deus que veio para nos salvar. E, mesmo assim, ele nos traz detalhes pitorescos sobre cronologia também. Vocês veem, por exemplo, quando Judas recebe de Jesus um bocado de pão molhado no vinho, que é o sinal que Jesus deu a São João Evangelista, esse mesmo que escreve de quem será o traidor, Judas toma o pão e sai. O único evangelista que diz “era noite” é São João. Era noite, e é claro que era noite do espírito. Para ele, é místico. Era noite do espírito, eram as trevas do pecado que estavam ali na frente dele. Era noite. É assim que nós temos que compreender essas coisas do Evangelho. Vamos ler essas coisas.

Agora vamos nos preparar para a Semana Santa. Nós temos toda uma quaresma para ler as paixões, pra ler todo esse tempo que Jesus foi pregando o evangelho e, sobretudo, no terceiro ano de sua pregação, quando os fariseus e os judeus já estão enervados e querendo matá-lo e não conseguem, e a autoridade Jesus que afasta eles. Tudo isso é preparação para a Semana Santa. Não pensem que é simplesmente nós fazermos os objetos que nós precisamos para ter uma semana santa, não. Existe uma preparação espiritual, que é a mais importante.

Então, que seja nesse domingo as bodas de cana um exemplo de como nós podemos crescer espiritualmente, simplesmente abrindo o Evangelho e lendo. Nosso Missal, por exemplo, preparar nossa Missa quando estamos vindo pra cá, ou no sábado à noite. Qual é a Missa de amanhã? O que a Igrejas traz para nossa edificação na epístola? No Evangelho? Eu não teria tempo agora de falar sobre a epístola mas, se vocês relerem a epístola, vão ver todas as virtudes que São Paulo enumera aos romanos e que, muitas vezes nós falamos assim: será que eu trato próximo assim como ele diz? Será que eu sou tão bom assim como ele gostaria que eu fosse? Nós temos muito que crescer, muito que aprender espiritualmente.

Fortaleza, 14/01/2018

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