A purificação do coração e o temor filial de Deus são condições do progresso da nossa santificação

Pelo Diácono Rafael

Descendo do monte o Senhor, acudiu a Ele a multidão porque não podiam subir mais alto. Assim as palavras de São Jerônimo ao comentar o evangelho de hoje. Evangelho que relata que Nosso Senhor desce da montanha depois de haver pregado o sermão da montanha. Nosso Senhor desce por misericórdia, pra poder levar às almas dos judeus que ainda não eram capazes de compreender a doutrina que ele tinha ensinado durante o sermão da montanha. Essa doutrina consistia na virtude da fé aperfeiçoada até o mais alto grau, até estar unida com a caridade. Nosso Senhor vê os judeus que ainda não estavam prontos para entender essa doutrina. E não só não estavam prontos pra entender, mas também não estavam prontos para praticar. Elevando a fé dos judeus quando Ele desce, o evangelho de hoje já nos mostra dois exemplos desta fé unida à caridade: o exemplo se vê no leproso que se aproxima de Nosso Senhor e no servo do centurião.

Segundo São Tomás, a lepra significa as doenças espirituais que são interiores mas que ficam evidentes exteriormente. Quais são essas doenças? Essas doenças são a impureza do coração e a malícia da vontade. No leproso é considerado, segundo os comentadores, o pecador que comete pecado por malícia. Não é o dominado pelos vícios, mas o que é dominado pela sua própria vontade. Não é capaz de ver os princípios da fé e aceitar no seu coração e colocá-lo em prática. A impureza do coração, a impureza das coisas, vem da mistura dessa união de algo superior com algo inferior, que não é capaz de levantar senão que, além de não levantar, rebaixa a natureza da coisa superior. Assim aconteceu com o pecado original e assim acontece conosco quando pecamos. A mistura da prata com ouro faz com que a prata seja mais valiosa, mas a mistura da prata com o ferro a rebaixa, faz com que a prata perca o seu valor e passe a ter um valor inferior, ao mesmo valor que ela já tinha antes. Essa impureza introduzida no nosso coração pelo pecado original e renovada muitas vezes por nós com os nossos pecados, ela só pode ser purificada com o movimento contrário. O pecado faz com que o homem deixe o seu caminho reto em direção a Deus e se volte às criaturas, que são inferiores a Ele, que estão ao serviço dEle. O homem termina por adorar as criaturas. Com o pecado, ele se ajoelha diante da criaturas e dá o culto que era somente devido a Deus. Desvia o sentimento. Não só o sentimento, mas desvia o ato de adoração que era devido a Deus pra dar a uma coisa inferior.

Assim, traz Nosso Senhor, no evangelho de hoje, o exemplo do leproso. Um exemplo da virtude da força da fé unida à caridade. A gente podia meditar um pouco sobre todas as virtudes que praticou e celebrou ao se aproximar de Nosso Senhor, todos os passos do seu caminho de conversão até chegar aos pés de Nosso Senhor e pedir a sua cura, mas tem duas exposições fundamentais no progresso da nossa santificação, no progresso da nossa vida espiritual. Duas virtudes, ou seja, dois efeitos próprios da virtude da fé que se manifestam hoje, tanto na figura do leproso quanto na do centurião. O leproso se aproxima de Nosso Senhor e faz realmente o movimento contrário. Ele pede a Nosso Senhor: “se tu queres, hoje eu posso estar limpo”. Ato de fé, e ato que demonstra o que a fé é capaz de fazer na alma do cristão, do católico que não só entende com a inteligência os princípios da fé, mas que também coloca no seu coração a prática desses princípios. E esse elemento é a purificação do coração.

Se o pecado introduz uma malícia na vontade do homem, a fé, a virtude da fé purifica o coração do homem, justamente pra fazer com que seja possível esse movimento contrário ao pecado. Nosso Senhor não só dá a fé ao leproso, mas faz que essa fé unida à caridade seja princípio da purificação do seu coração. Esta fé formada, uma vez unida à caridade, inclina o leproso a dizer: “se queres pode limpar-me”. Nosso Senhor cura o leproso da sua má vontade, dando-lhe a fé e ao mesmo tempo deixa uma ordem, uma ordem para que ele mantenha a pureza do seu coração.

A pureza do seu coração só vai ser mantida, uma vez restabelecida pela fé, com dois princípios que Nosso Senhor deixa bem claro pra ele e que São Tomás explica em sentido espiritual, quando Ele diz: “vai mostra-te ao sacerdote e faz a oferta que Moisés ordenou para servir-te de testemunho”. Duas coisas: “vai e mostra-te ao sacerdote” e, a segunda coisa, “oferece a oferta que Moisés ordenou para servir-te de testemunho”. Isso se aplica ao leproso curado com o coração reto iluminado pela fé e se aplica a nós. “Mostra-te ao sacerdote”, explica São Tomás, Nosso Senhor coloca ai a necessidade de ir ao sacerdote. A confissão, os sacramentos, são os meios ordinários que deixou Nosso Senhor para a purificação do nosso coração, a purificação da alma. “Mostra-te ao sacerdote” significa realmente entregar e mostrar ao sacerdote as nossas intenções, dificuldades, pra que o sacerdote nos dê o alimento espiritual do conselho, para que nos dê ou nos volte a dar a graça santificante por meio da absolvição sacramental.

E depois “fazer a oferta”, São Tomás segue explicando, dizendo “fazer a oferta” podia significar cumprir o preceitos legais da lei de Moisés, porque ainda a perfeição da caridade não havia se estabelecido como uma lei universal no lugar da lei antiga, ou seja, o Novo Testamento. Mas, aqui significa em especial o cumprimento dos mandamentos. Fazer a vontade de Nosso Senhor é o melhor meio de manter um coração reto.

Manter o coração reto significa manter o coração em ordem a Deus, Nosso Senhor. Se não praticamos essas duas coisas, essas duas ordens que deixou Nosso Senhor para manter o nosso coração reto, na medida que o pecado domina a nossa alma, na medida que o pecado vai tomando espaço no nosso dia, a retitude do coração vai diminuindo e, com a retitude do coração, a fé. A fé se vai perdendo como foi perdida no Vaticano II, não só por uma questão de princípios, mas por uma falta de cumprimento do que Nosso Senhor quer. Os homens ficaram tíbios. Deixaram de fazer a vontade de Nosso Senhor e como castigo a inteligência fica escurecida, a inteligência começa aceitar coisas que antes não aceitaria de nenhum modo. Os princípios de fé que eram evidentes e que eram tão claros na infância e na adolescência durante a nossa vida católica, perde o sentido. Perde realmente o sentido porque falta essa união de caridade com Nosso Senhor. Buscar o sacerdócio e cumprir os mandamentos.

A gente vê o milagre de Nosso Senhor que cura o leproso e cura também o servo do centurião. A transformação da alma do leproso passa também a mesma transformação do centurião. Ainda que o milagre externo haja sido a cura do servo, mais maravilhosa foi a cura do centurião. A fé que ele demonstrou, a profissão de fé que ele deu a Nosso Senhor, que ele colocou, foi fruto de uma segunda disposição produzida pela fé inicial que dá Nosso Senhor, mas que, unida à caridade, chega à sua perfeição, que é o temor de Deus. Se o centurião fez um ato de humildade dizendo: “Senhor, não sou digno que entres em minha morada. Dizes uma palavra e meu servo será curado”. Se essa humildade chegou ao máximo de seu esplendor, ao máximo da sua manifestação externa, foi porque antes a virtude da fé deu a ele uma disposição também fundamental pra santificação, e que permitiu a ele esse ato de humildade. E essa disposição é o temor de Deus. Temor esquecido hoje. Temor que deveríamos ter na forma mais perfeita, já que estamos na época da plenitude da caridade, já que temos todos os meios.

O temor é um certo medo de separar-se de Deus ou o cuidado de não comparar-se, de não se colocar ao mesmo nível de Deus. Só que esse temor pode ser inspirado por duas coisas. Pode ser inspirado pelo medo do castigo ou pode ser inspirado pelo amor a Deus, Nosso Senhor, o amor à autoridade. Esse amor ele é inspirado certamente pelo conhecimento. Ele não é inspirado de forma intuitiva como se vê hoje, uma fé intuitiva que se fundamenta sentimentos, não. O temor de Deus tem como fundamento o conhecimento à luz da fé. Iluminado pela fé, o centurião tem um conhecimento de Deus que produz na sua alma uma estima de Deus, como um bem imenso. E essa estima o faz entender que separar-se de Deus ou pretender igualar-se a Deus é um grande mal. E a esse temor corresponde a atitude do centurião no evangelho. “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada”. Se a purificação do coração é condição do progresso da nossa santificação, o temor filial de Deus também, porque é disposição mais perfeita. É aí, nesse temor verdadeiro em que vemos claramente que a nossa fé está não só robustecida pela caridade, mas está fundamentada na caridade.

Deus faz um milagre na inteligência do centurião pra fazer compreender quem era Deus e quem era ele. A nós, Nosso Senhor deixou meios ordinários pra fazermos entender quem é Deus e que somos nós. Se recebemos a fé como centurião, se recebemos a caridade como o centurião, recebemos também mais coisas que o centurião, porque recebemos instrução da Igreja, recebemos a doutrina dos pastores fiéis a Nosso Senhor que mantém a nossa fé. E isso já é receber mais do que recebeu o centurião. Evidentemente o centurião esteve diante de Nosso Senhor, o viu. Mas, quantos outros centuriões não tiveram esse meio? E nós temos ordinariamente todos os dias a oportunidade de aumentar o Nosso temor a Deus, aumentando assim todas as nossas virtudes pelo conhecimento da fé. Nosso Senhor deixou o Catecismo, deixou a Sagrada Escritura, deixou os padres para explicá-la, deixou todos os meios em que nós não temos desculpa pra não conhecê-lo

O temor de Deus, se ele faz crescer as virtudes ele também faz com que as nossas disposições em relação a Deus, a nossa fé seja protegida, porque o temor de Deus evita os perigos que podem colocar em risco a nossa separação, a separação da nossa alma de Deus, bem infinito. Não podemos deixar que a nossa inteligência seja obscurecida, tanto pela falta do temor de Nosso Senhor, quanto pela malícia. Então é necessário, assim como o leproso, purificar o coração. E é necessário como o centurião, temer a Deus. A fé eleva o temor servil do homem, o medo dos castigos. A obra de amor ao temor filial.

Nós vemos na história da Igreja com tantos santos – São Francisco de Sales, Santa Terezinha do Menino Jesus… – que por conhecimento da grandeza de Deus e da visão real da miséria do homem, amaram a Deus e chegaram a uma santidade tão grande e que hoje estão em nossos altares sendo admirados por nós, e que pedimos a eles graças para que possamos fazer o mesmo também. O temor leva a proteger a fé e leva a fortalecer a fé. Temer a Deus, então, é cuidar de saber bem o catecismo, é cuidar de ler bons livros, é cuidar de evitar a curiosidade, de discussões vãs que não nos levam ao céu. Temer a Deus é saber orientar a inteligência pro fundamental: o conhecimento de Nosso Senhor e o desprezo do mundo.

Assim como Nosso Senhor desce e faz essa perfeição, assim como Nosso Senhor entra na alma desses dois – do leproso e do Centurião – Ele entra na nossa alma hoje. Aproveitemos a Santa Missa, que é o meio pelo qual, assim como Nosso Senhor desceu da montanha porque os judeus não eram capazes de subir e ir ao seu encontro, Nosso Senhor desce do céu e se coloca ao altar para descer ao altar dos nossos corações, ao altar da nossa alma e provocar a mesma disposição e fazer crescer as mesmas disposições que ele produziu no coração do centurião e do leproso. Aproveitemos Nosso Senhor na eucaristia. Façamos uma boa comunhão. Peçamos a Deus a graça da purificação do nosso coração e do temor de Deus. Peçamos à santíssima virgem, ela que foi a mais pura de todas as almas redimidas por Nosso Senhor, que nos ajude nesse caminho de purificação do nosso coração e de fortalecimento da nossa fé e de temor de Nosso Senhor.

Niterói, 21/01/2018

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