Como distinguir a verdade católica do erro

por São Vicente de Lérins

Dado que a Escritura nos aconselha: “interroga teu pai, e ele te contará; os teus avós, e eles te dirão”; “ouve as palavras dos sábios”; e também: “Meu filho, não te esqueças da minha lei, e guarda no teu coração os meus preceitos”; a mim, Peregrino, último dentre todos os servos de Deus, pareceu-me coisa de não pouca utilidade consignar, com a ajuda de Deus, os ensinamentos que fielmente recebi dos Santos Padres. Fazê-lo me é absolutamente necessário por causa de minha debilidade, para assim ter à mão algo que supra, pela leitura assídua, as deficiências de minha memória. Além disso, levam-me a empreender este trabalho não somente a utilidade da obra, senão também a consideração dos tempos e a oportunidade do lugar.

Quanto ao tempo, já que ele leva tudo que há de humano, também nós devemos, em compensação, roubar-lhe algo que nos seja útil para a vida eterna, sobretudo porque, ao vermos se aproximar o terrível juízo divino, nos inclinamos a pôr maior empenho no estudo de nossa religião; por outro lado, a astúcia dos novos hereges exige de nós uma vigilância e uma atenção cada vez maiores.

Quanto ao lugar porque, afastados da multidão e elo comércio dos homens, habitando a tranquilidade e o isolamento da cela de um mosteiro, podemos pôr em prática, sem temor de sermos distraídos, o que o salmista canta: “parai e reconhecei que eu sou Deus”. A razão do nosso propósito convém ainda no fato de que, embora certamente tenhamos por algum tempo nos ocupado com as várias e tristes tempestades da vida secular, finalmente encontramos refúgio, por inspiração de Cristo Nosso Senhor, no porto da religião, sempre o mais seguro para todos. Deixados para trás os ventos da vaidade e do orgulho, agora me esforço em aplacar a Deus mediante o sacrifício da humildade cristã, para poder assim evitar não somente os naufrágios da vida presente, como também as chamas da futura.

Tendo posto minha confiança no Senhor, devo, pois, dar começo a esta obra, cuja finalidade é registrar por escrito tudo o que nos foi transmitido por nossos pais e que recebemos para nossa custódia, fazendo-o com a fidelidade de um simples relator, antes do que com a presunção de parecer autor. Guardarei, não obstante, a seguinte regra: não me estender a tudo, limitando-me ao essencial; escrever de modo claro, de fácil compreensão, sem me preocupar demais com elegância e esmero, de sorte que a maior parte das ideias pareçam antes indicadas que desenvolvidas.

Escrevam bela e corretamente os que a isso se sintam levados por ofício ou por confiança em seu próprio talento. Quanto a mim, bastam-me estas anotações em socorro de minha memória (ou antes, da minha falta de memória). Com a ajuda de Deus, não deixarei de as corrigir e completar a cada dia, meditando no que tenho aprendido. Assim, pois, no caso de estas notas se perderem e caírem em mãos de pessoas santas, rogo-lhes não se apressarem a censurar algo que ainda esperava por ser retificado e corrigido, como prometi.

 REGRA PARA DISTINGUIR A VERDADE CATÓLICA DO ERRO

Após interrogar com frequência, cuidado e atenção numerosíssimas pessoas, destacadas em santidade e doutrina, sobre como distinguir por meio de uma regra segura, geral e normativa, a verdade da fé católica da falsidade perversa da heresia, quase todas me responderam o mesmo: “Todo cristão que queira desmascarar as intrigas dos hereges que brotam ao nosso redor, evitar suas armadilhas e manter-se íntegro e incólume na fé imaculada, deve, com a ajuda de Deus, adornar a sua fé de duas maneiras: em primeiro lugar, com a autoridade da lei divina, e com a tradição da Igreja Católica”. Contudo, alguém poderia objetar: visto que o cânon das Escrituras é por si só perfeito para tudo, que necessidade há de se acrescentar a autoridade da interpretação da Igreja?

Precisamente porque a Escritura, por sua própria sublimidade, não é entendida por todos de modo idêntico e universal. De fato, as mesmas palavras são interpretadas de maneira diferente por uns e por outros. Poderíamos dizer que existem tantas interpretações quantos leitores. Vemos, por exemplo, que Novaciano explica a Escritura de um modo, Sabélio de outro, Donato, Ário, Eunômio, Macedônio, de outro; e de maneira diversa a interpretam Fotino, Apolinário, Prisciliano, Joviniano, Pelágio, Celéstio e, em nossos dias, Nestório. É, pois, sumamente necessário, por causa das tão numerosas e intrincadas faces do erro, que a linha de interpretação dos Profetas e dos Apóstolos se faça segundo a norma do sentido Católico e da Igreja. Na Igreja Católica é preciso pôr o maior cuidado para manter o que se crê em todas as partes, sempre e por todos. Eis o que é verdadeira e propriamente católico, segundo a ideia de universalidade que se encerra na própria etimologia da palavra. Mas isso será conquistado se nós seguirmos a universalidade, a antiguidade, o consenso geral. Seguiremos a universalidade se professarmos a única e verdadeira fé a que a Igreja inteira professa em todo o mundo; a antiguidade, se não nos separarmos de nenhuma forma dos sentidos que foram proclamados por nossos santos predecessores e padres; o consenso geral, por último, se, nesta mesma antiguidade, abraçarmos as definições e as doutrinas de todos, ou de quase todos, os bispos e mestres.

EXEMPLO DE COMO APLICAR A REGRA

Qual deverá ser a conduta de um católico, se alguma pequena parte da Igreja se separar da comunhão na fé universal?

Não cabe dúvida de que deverá antepor a saúde do corpo inteiro a um membro podre e contagioso.

Mas, e se se trata de uma novidade herética que não está limitada a um pequeno grupo, que ameaça contagiar a Igreja inteira?

Em tal caso, o cristão deverá fazer todo o possível para aderir à antiguidade, a qual não pode mais, evidentemente, ser alterada por nenhuma novidade mentirosa.

E se na antiguidade se descobre que um erro foi compartilhado por dois ou três homens, ou mesmo por toda uma cidade, ou por uma região inteira?

Neste caso deve-se ter o máximo cuidado em preferir os decretos universais e antigos da Igreja Católica, se houver, à temeridade e à ignorância daqueles poucos.

E se surgir uma nova opinião sobre a qual nada foi ainda definido?

Então é preciso indagar sobre as opiniões dos nossos maiores, daqueles que, em diversos tempos e lugares, sempre permaneceram na comunhão e na fé da única Igreja Católica e vieram a ser mestres comprovados, para confrontá-las com a nova opinião. E tudo aquilo que tiver sido sustentado, escrito e ensinado aberta, frequente e constantemente, não por um ou dois apenas, mas por todos juntos com um mesmo e único sentido, entenda que isto mesmo deve ser crido sem vacilação alguma.

EXEMPLOS DE RECURSO À UNIVERSALIDADE E À ANTIGUIDADE CONTRA O ERRO

Para pôr em mais relevo tudo quanto disse, documentarei com exemplos minhas asserções, disso tratando me deterei mais, não suceda que o desejo de ser breve a toda custa me faça deixar para trás coisas importantes.

Nos tempos de Donato, uma parte considerável da África precipitou-se nas loucuras do erro deste heresiarca. Esquecendo-se de seu nome, de sua religião, de sua profissão de fé, antepuseram a sacrílega temeridade de um só indivíduo à Igreja de Cristo. Os que então se opuseram ao ímpio cisma permaneceram unidos às Igrejas (católicas) no mundo inteiro e, entre todos os africanos, somente aqueles que se encontravam dentro do santuário da fé católica puderam ser salvos. Assim fazendo, deixaram às gerações futuras o exemplo egrégio de como se deve sempre preferir a salvação de todos à loucura de um só ou de uns poucos.

Um caso análogo sucedeu quando o veneno da heresia ariana contaminou não só uma pequena região, senão quase todo o orbe, até o ponto de que quase todos os bispos latinos, alguns obrigados com violência, outros, seduzidos e enganados, foram ofuscados por certa espécie de trevas em suas mentes e já não podiam distinguir, em meio de tanta confusão de ideias, qual o caminho seguro a seguir. Somente o verdadeiro e fiel discípulo de Cristo que preferiu a antiga fé à nova perfídia não foi contaminado por aquela peste contagiosa.

Com o perigo que se sucedeu naquela época se mostram suficientemente as graves calamidades que um dogma inventado pode gerar. Não somente as coisas menores, mas até as instituições de máxima importância foram abaladas. Tudo se revolucionou: parentescos, amizades, famílias, e também cidades, povos, nações. O Império Romano foi sacudido até seus fundamentos, transtornado de cima a baixo. Pois quando a sacrílega inovação dos arianos, como nova Bellona ou Fúria, uma vez seduzido até mesmo o Imperador de todos os homens, após subjugar todos os mais elevados membros do palácio imperial às suas novas leis, não deixou de perturbar e transtornar toda coisa, privada e pública, profana e religiosa, sem fazer distinção entre o bom e o mau, entre o verdadeiro e o falso, mas atacando confiantemente quem quer que lhe passasse pela frente, como se estivesse em um lugar superior.

As esposas foram desonradas, as viúvas ultrajadas, as virgens profanadas. Demoliram-se mosteiros, dispersaram-se os clérigos; os diáconos foram açoitados, e os sacerdotes enviados ao exílio. Cárceres e minas se encheram de santos. Muitíssimos, lançados fora de suas cidades, andaram errantes sem ter onde dormir, até que nos desertos, nas covas, entre rochas íngremes pereceram miseravelmente, vítimas dos animais selvagens, da nudez, da fome e da sede.

E todas estas coisas, acaso não tem outra origem, senão quando são introduzidas superstições humanas em lugar do dogma celeste, quando a antiguidade bem fundada é socavada pela criminosa novidade, quando aquilo que foi estabelecido pelos antigos é violado, quando os decretos dos Padres são desprezados, as definições dos nossos maiores anuladas, quando a concupiscência de novidades profanas não se refreia dentro dos limites castíssimos da tradição sagrada e imaculada?

TESTEMUNHO DE SANTO AMBRÓSIO

É possível que alguém pense que eu invento ou exagero por amor à antiguidade e ódio às novidades. Se alguém assim pensar, peço que ao menos creia em Santo Ambrósio, no segundo livro dedicado ao imperador Graciano. Deplorando a perversidade dos tempos, exclamou ele: “O Deus todo-poderoso, com nosso sangue e sofrimento pagamos abundantemente as matanças de confessores, o exílio de bispos e tantas outras coisas ímpias e nefandas. Ficou claríssimo que não pode estar seguro quem violou a fé”.

E, no terceiro livro da mesma obra: “Guardemos fielmente os preceitos de nossos Padres e não rompamos com insolente temeridade o selo da herança. Porque nem nossos antepassados, nem as Potestades, nem os Anjos, nem os Arcanjos ousaram abrir aquele profético livro selado: apenas Cristo tem o direito de abri-lo (Ap 5, 15)”.

Qual de nós se atreveria a violar o livro sacerdotal, selado por confessores e consagrado por tantos mártires? Mesmo aqueles que, compelidos pela violência, o tentaram, imediatamente repeliram o engano em que haviam caído e retornaram à fé antiga. Aqueles que não o ousaram fizeram-se confessores e mártires. Como renegar a fé destes cuja vitória preconizamos? Preconizamos certamente, ó venerável Ambrósio. Preconizamos inteiramente, e louvando-os admiramos. Pois quem seria tão tolo que, não podendo igualá-los, não desejasse ao menos imitar a estes homens que força alguma conseguiu desviar da fé dos Padres? Ameaças, lisonjas, esperança de vida, temor à morte, guardas, corte, imperador, autoridades, não serviram de nada: homens e demônios foram impotentes diante deles.

Seu tenaz apego à antiga fé os fez, aos olhos do Senhor, dignos de grandes recompensas de modo que, por meio deles, Deus quis restaurar as igrejas prostradas, voltar a infundir vida aos povos mortos espiritualmente, restituir aos sacerdotes as coroas caídas.

Com as lágrimas dos bispos que permaneceram fiéis, Deus, como uma fonte celestial, limpou, não as fórmulas materiais, mas a mancha moral da nova impiedade. Por meio deles, enfim, reconduziu o mundo inteiro, ainda sacudido pela violenta e repentina tempestade da heresia, da nova perfídia à antiga fé, da recente insanidade à primitiva saúde, da cegueira das novidades à luz de antes.

Porém, o que principalmente devemos considerar nesta coragem quase divina dos confessores é que, naquele período, foi por meio deles que a antiguidade de toda a Igreja universal recebeu sua defesa, e não apenas a crença de uma parte dela.

Não seria possível que homens tão grandes empregassem tamanho esforço para defender as suposições errôneas e contraditórias de um ou dois indivíduos, ou que se consagrassem inteiramente à defesa da opinião irrefletida de uma pequena província. Ao contrário, aderiram aos decretos e definições de todos os bispos da Santa Igreja, herdeiros da verdade apostólica e católica, preferindo a própria morte à traição da antiga fé universal.

Por isso mereceram alcançar glória tão grande, ao ponto de serem considerados não apenas confessores, mas, com todo direito, príncipes dos confessores.

Da obra “Comonitório”.

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