A penitência prepara o santo. Sermão do 4º Domingo da Quaresma

Por Dom Lourenço Fleichman, Fortaleza, 2014

Meus caríssimos irmãos, não deixa de ser interessante nós vermos esses homens da Palestina, judeus que esperavam a séculos a vinda do Messias, ao verem o milagre que Jesus fizera com cinco pãezinhos alimentando uma multidão de quatro mil homens, imediatamente conceberam na sua cabeça naturalista, ou seja, muito terrena, muito horizontal, pouco espiritual, a ideia de que aquele homem devia ser rei, porque o rei vai distribuir pão para toda a gente e não haverá mais pobreza no mundo. Diversas vezes no evangelho nós vemos essa diferença entre a pobreza e a riqueza. O pobre querendo ser rico e Jesus dizendo: não é por aí! Não vim aqui para trazer riquezas para vocês, eu vim para trazer a vida sobrenatural, eu vim para que vocês entendessem que não é o horizontal que nos interessa, porque não só de pão vive o homem. Nem só de pão vive o homem, mas Jesus multiplicou os pães porque eles estavam com fome e enfraquecidos, pois há dias seguiam Nosso Senhor e estavam necessitados daquele alimento material. Ah, Ele dá! Nosso Senhor nos dá o alimento material. Ele nos dá o necessário para viver desde que nós tenhamos nossas mentes e espíritos colocados nas coisas do Céu, nas coisas de Deus e não nas coisas da terra.

Essa diferença entre a vida natural e a vida sobrenatural, infelizmente, nós temos uma tendência muito grande de perder. Temos a tendência muito grande de não compreender e de estarmos sempre voltados para as coisas da terra, para as coisas da nossa casa, da nossa vida, que são importantes, têm seu lugar. Nós temos responsabilidades a cumprir também nessa ordem, mas não quando Deus está na nossa frente. Não quando as coisas de Deus estão na nossa frente.

Nós acabamos de ouvir uma epístola, uma leitura em que São Paulo nos fala de duas igrejas. Nos fala da sinagoga dos judeus, nos fala do regime religioso revelado aos homens no Antigo Testamento, e nos fala da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque uma é escrava. É escrava a quê? A muitas coisas. A sinagoga era escrava à lei de Deus, por exemplo. A lei revelada por Moisés. Escrava por quê? Porque a lei não convertia. São Paulo explica isso. A lei não tinha força para perdoar os pecados, enquanto que a vida da graça, que é trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo, perdoa os pecados e leva pro Céu. É assim, então, que quando veem Nosso Senhor Jesus Cristo os judeus ficaram como que preocupados… e a nossa vida religiosa? E a lei de Moisés? E todo o apego que nós temos a estas cerimônias que Moisés nos prescreveu, que os fariseus ficavam exigindo de Jesus e Jesus não dava a eles? Então São Paulo vai dizer: “ela deve ser expulsa; a escrava com seu filho, deve ser expulsa a sinagoga com seus filhos” porque esta religião caducou com a Nova Aliança que Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu no seu sangue.

Temos aí mais uma vez a vida natural, que era a Lei de Moisés, para dar aos homens pelo menos a noção de que haviam pecado, e a lei sobrenatural do evangelho que nos traz a graça santificante, nos transforma por dentro, nos torna aptos a caminhar quarenta dias e quarenta noites no deserto. E já que nós citamos quarenta dias e quarenta noites no deserto, que seja Elias até o Monte Horeb, que seja Moisés ao subir a Montanha do Sinai e entrar naquela nuvem tenebrosa. Nosso Senhor nos ensina que é através da penitência, que é através do jejum, que é através do afastamento do mundo que nós preparamos nossos corações para enfrentar o combate espiritual da nossa vida. Porque o que foi para Elias e o que foi para Moisés, o que foi para todos os homens que se preparavam com jejum e com penitência para enfrentar todo tipo de perigo no Antigo Testamento, como nós lemos? O que foi para Jesus quarenta dias no deserto, sem comer e sem beber para enfrentar as três tentações do demônio? Não que ele fosse cair nas tentações, mas para nos mostrar que nós também podemos não cair nas tentações.

Faltam três semanas de Quaresma. Nós já passamos três semanas. Quinta-feira passada marca a metade da Quaresma. E na metade da Quaresma a Igreja relaxa um pouquinho. E por causa desse pequeno relaxamento na penitência a missa de hoje poderia ser celebrada com um paramento cor de rosa, diminuindo um pouco o rigor do roxo. Por causa da metade da Quaresma, na missa de hoje o nosso Órgão pode tocar. Poderíamos ter tido algumas flores no altar. Essas coisas na Quaresma não existem, mas no quarto domingo existem, como que uma concessão que a Igreja nos faz para nos dizer: fizeram penitência até agora? Pois continuem, eu dou um pouco de alívio para que as três semanas que faltam: quarta da quaresma, primeira da Paixão e a Semana Santa, que é a segunda da Paixão, seja vivida numa verdadeira penitência.

Que nós possamos recobrar o ânimo. Se desanimamos depois da segunda, terceira semana… que nós possamos voltar ao jejum e a penitência, que começamos, mas que talvez não tenhamos continuado. Porque esse tempo é um tempo de conversão. Esse tempo é um tempo de tornar nossos corações sobrenaturais como São Paulo e como Jesus exige daqueles homens que queriam fazê-lo rei. Ele saiu, se escondeu, porque Ele não veio aqui para ser rei dos povos e sim para ser rei de todos os homens lá no Céu.

Cabe então a cada um de nós lembrarmos: o que é o jejum? O que é a penitência? Por que razão devemos nós mortificar nosso corpo? Nós sabemos muito bem que temos inclinações contrárias à santidade. Em primeiro lugar, dentro de nós, que é a soberba da vida, a mais grave de todas. O orgulho que toma conta e faz com que cada um de nós seja o centro do mundo. Cada um de nós com sua opinião, cada um de nós com seu entendimento, cada um de nós com sua vontade, impondo-a a todos os outros é a mais terrível das concupiscência. E nós deveríamos todos os dias ao acordar, pedir e suplicar a Deus a virtude da humildade, para podermos ter relações com nossas famílias, nosso trabalho, nossa escola… que não sejam movidas pela soberba da vida.

A concupiscência dos olhos, que faz com que esse mundo moderno nos ofereça todo o tipo de riqueza, todo o tipo de coisas que nós temos que comprar, e que nós temos que comprar, e temos que comprar… porque se não comprarmos, nós vamos estar sendo vistos pelos outros como pessoas pobres, pessoas que não valem nada. E a concupiscência coça na mão e a gente quer gastar dinheiro, e a gente precisa ser rico para gastar dinheiro. Terrível a concupiscências dos olhos, que nos move para o pecado! Pecado das coisas que brilham diante de nós e que nos levam para o inferno. Principalmente as parafernálias tecnológicas, redes sociais, computadores e smartphones, sobretudo para crianças. Temos que prestar atenção com essas coisas porque vicia e depois nós não conseguimos mais nos livrar disso. Diminui drasticamente nossas obrigações, diminui drasticamente nossas orações! O tempo que nós teríamos para ler um livro espiritual na Quaresma, não temos porque estamos lá trocando mensagens idiotas com os nossos amigos, falsos amigos de internet!

Depois, a concupiscência da carne, que move a nossa sensibilidade. Que move nossa sensibilidade a quê? A dizer: jejum hoje, logo hoje que estou cansado? Não vou fazer jejum não! Eu tenho que comer, eu preciso comer! Então vai a penitência pelo ralo e não se faz penitência alguma porque coitadinho de nós, estamos muito cansados enriquecendo e ganhando dinheiro para poder comprar o último smartphone que saiu.

Tudo isso é falsificação da nossa vida, tudo isso é um afastamento da ordem que a Igreja estabeleceu para a nossa santidade, para que nós possamos chegar ao céu. E Nosso Senhor nos explica na missa de hoje: largue a escrava que só leva pro inferno e viva da livre, daquela que é nossa mãe, daquela que nos traz sacramentos verdadeiros, que nos enche a alma de graças espirituais e que nos transforma em Cristo, que fazem com que o amor que brota em nosso coração seja um amor verdadeiro.

Eu separei para vocês algumas palavras de São Basílio Magno, um sermão sobre a penitência, onde ele diz que a penitência e o jejum geram vida dentro de nós, faz uma concepção de vida espiritual dentro de nós. A penitência, o jejum, nutrem nosso corpo e nossa alma. Ou vocês não acreditam naquela passagem do livro de Daniel: quando os três jovens estão na corte de Babilônia e vivem do jejum e são mais vigorosos do que os filhos de Babilônia que comiam todos os manjares, carnes e folhas do Rei Nabucodonosor.

A penitência e o jejum fortalecem! Fortalecem o quê? Diz, São Basílio, a virilidade do homem para que os homens voltem a ser verdadeiramente homens porque hoje não são mais. Estão enfraquecidos, amolecidos pelo sentimentalismo.

A penitência prepara o santo porque confirma na fé a nossa alma. Fortalece a vida espiritual dentro de nós. A penitência e o jejum tornam sábio o legislador, inclinam a alma à temperança verdadeira e produzem verdadeira piedade. É isso que nós temos que ouvir dos santos. Não apenas uma mitigação da penitência, mas ao contrário, um incentivo para que nós façamos uma boa Quaresma. Para que nós tenhamos a liberdade de viver da graça de Deus. Para que nós possamos restaurar na sociedade o equilíbrio que foi perdido. Eu falei há pouco da virilidade do homem que já não tem mais, como também a feminilidade desapareceu e a ordem da sociedade entre o homem e a mulher foi invertida e com isso a sociedade está em plena decadência. É, então, através da penitência, através de uma sabedoria mais elevada que o homem torna-se homem e chefia a sua casa. A mulher torna-se dócil e feminina e enche de amor o lar onde ela estiver. Tudo isso desapareceu da nossa sociedade, vocês sabem muito bem.

Vamos então pedir à Virgem Maria, a São José que nós possamos aprender com eles a viver verdadeiramente das virtudes, da força, da espiritualidade sobrenatural. Não do sentimentalismo que nos leva a qualquer consideração bonitinha da vida espiritual, mas da vida sobrenatural verdadeira. Forte, heroica que vence a si mesmo, que vence as tentações e que transforma o coração em uma residência, uma morada, um lugar onde Nosso Senhor Jesus Cristo vem repousar para nos trazer um dia a salvação eterna. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Reflexões Quaresmais dos Sermões de Dom Lourenço Fleichman

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