Como proceder na tentação [Parte II]: Resistir à tentação

Por Adolph Tanquerey

Esta resistência será diversa conforme a natureza das tentações. Há umas que são frequentes, mas pouco graves. Para essas a melhor tática é o desprezo, como tão bem explica São Francisco de Sales: “Quanto a essas pequenas tentações de vaidade, suspeita, tristeza, ciúme, inveja, afeiçõezinhas e outras semelhantes ninharias, que, como moscas e mosquitos nos andam passando por diante dos olhos, e umas vezes nos picam nas faces, outras no nariz… a melhor resistência que lhes podemos fazer é não nos afligirmos, porque nada disto nos pode causar dano, ainda que nos pode enfadar, contanto que tenhamos firme resolução de querer servir a Deus. Desprezai, pois, estes pequenos assaltos e não vos ponhais nem sequer a considerar o que querem dizer. Deixai-os zunir à roda dos ouvidos, quanto quiserem… como se faz com as moscas.

Aqui ocupamo-nos sobretudo das tentações graves: é preciso combate-las prontamente, energicamente, com constância e humildade.

PRONTAMENTE: Sem discutir com o inimigo, sem hesitação alguma ao princípio, como a tentação não firmou ainda o pé solidamente em nossa alma, é bastante fácil rechaça-la. Se esperarmos que lance raízes na alma, será muito mais difícil. Por conseguinte, nada de parlamentar com o tentador. Associemos a ideia de prazer ilícito a tudo quanto há de mais repugnante, a uma serpente, a um traidor que nos quer apanhar de sobressalto, e lembremo-nos da palavra dos nossos Livros Santos: “Foge dos pecados como da vista duma cobra, porque se te aproximares deles, apoderar-se-ão de ti”. E foge-se orando e aplicando o espírito a qualquer outro assunto.

ENERGICAMENTE: não com moleza e como de má vontade, o que pareceria convidar a tentação a voltar, mas com força e vigor, testemunhando o horror que tal proposição nos causa: “arreda, satanás, vade satana”. É, porém, diversa a tática que se deve empregar segundo o gênero das tentações. Se se trata de prazeres atraentes, é necessário afastar-se e fugir, aplicando fortemente a atenção a um assunto diferente que nos possa absorver o espírito. A resistência direta não faria geralmente senão aumentar o perigo. Se a tentação é repugnância em cumprir o próprio dever, antipatia, ódio, respeito humano, o melhor é, muitas vezes, afrontar a tentação, considerar francamente a dificuldade de rosto e apelar para os princípios da fé, para dela triunfar.

COM CONSTÂNCIA: é que às vezes a tentação, vencida por um instante, volta com novo furor, e o demônio reconduz do deserto sete espíritos piores do que ele. A esta pertinácia do inimigo é mister opor resistência não menos tenaz: quem combate até o fim é que ganha a vitória. Mas então, para haver maior segurança de triunfar, importa dar a conhecer a tentação ao diretor espiritual.

É este o conselho que dão os Santos, em particular Santo Inácio e São Francisco de Sales: “porque notai, diz este último, que a primeira condição que o maligno propõe à alma que quer enganar, é o silêncio, como fazem aqueles que querem seduzir as mulheres e as donzelas, que por entrada proíbem que elas comuniquem as propostas aos pais ou maridos. Pelo contrário, Deus, em suas inspirações, requer sobre todas as coisas que as façamos reconhecer pelos nossos superiores e diretores”. E, na verdade, parece que anda vinculada uma graça especial a esta manifestação da consciência: tentação descoberta é tentação meio vencida.

COM HUMILDADE: é ela, efetivamente, que atrai a graça, e a graça é que nos dá a vitória. O demônio, que pecou por orgulho, foge diante dum ato sincero de humildade, e a tríplice concupiscência, que tira a sua força da soberba, é facilmente vencida, quando por assim dizer, a decapitamos pela humildade.

Da obra “A vida espiritual explicada e comentada”.

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