A Igreja se modifica para o primeiro domingo da Paixão

[Por Dom Lourenço Fleichman]

Meus caríssimos irmãos, a Igreja se modifica para o primeiro domingo da Paixão: os véus roxos cobrem as nossas imagens, já não há mais a cruz, ela está velada para que a crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte na cruz, não esteja apenas representada num pedaço de pau, num pedaço de gesso, mas dentro do nosso coração. Nós é que somos a cruz, nós é que carregamos Jesus crucificado a partir desse domingo.

Quinze dias que nós temos para viver esta crucifixão, para viver esta morte de Cristo, para acompanhar passo a passo a sua paixão para poder estar com Ele na ressurreição. Então, aproveitemos o tempo. Se até agora, quatro semanas de quaresma não foi o suficiente para que nós nos convertêssemos, para que nós entendêssemos a importância de esvaziar de nós mesmos nossas considerações, nossos pensamentos, nossas atitudes, pelo menos agora nós podemos fazê-lo. Pelo menos agora podemos preparar a nossa Semana Santa de um modo mais eficaz, porque agora nem mais posso dizer: “Vou fazer jejum por causa de mim, para eu me aperfeiçoar”. Agora nós temos que fazer jejum por causa de Cristo crucificado. Ele morreu por nós, Ele deu sua vida por nós e nós temos que alguma coisa fazer, não podemos ficar sentados brincando, ganhando dinheiro, pensando nas coisas do mundo e Jesus morrendo por nós. Não é justo isso. Cabe a todos os católicos, um tempo de mortificação. Nos foi dado quatro semanas pra trás, não aproveitamos ou aproveitamos pouco, pois aproveitemos melhor agora porque já não conta mais eu e sim Nosso Senhor crucificado.

Então os véus roxos marcam nosso coração, marcam de certa forma até mesmo a nossa psicologia para que a espiritualidade cresça, para que nós possamos entender esta comunhão com Cristo morto, esta comunhão ao pé da cruz com Maria e São João Evangelista. São João recebe de Jesus esta palavra: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe”. Nesse momento, nós estamos ali em São João Evangelista, nós recebemos essa filiação que Nossa Senhora aplica a todos nós. Então, vamos acompanhar a Via Sacra, vamos acompanhar o tempo da Paixão, vamos acompanhar a flagelação com ela, ao lado dela e ela vai nos ensinar porque esteve de pé ao lado da cruz, esteve de pé para nos mostrar o caminho da verdade, para nos mostrar o caminho do céu. E é justamente esse caminho da verdade que Nosso Senhor põe em relevo no evangelho de hoje. Toda a discussão que Ele tem com os fariseus é em torno da verdade, porque Ele é a verdade e os fariseus não acreditam nele, eles não acreditam na palavra de Jesus e diz diversas vezes: “Vós não credes na minha palavra”. Mas a minha palavra o que é? Ora, nós sabemos o que a palavra de Cristo é. Ele é a palavra, Ele é o verbo eterno, Ele é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Então, nós cremos na Sua palavra, nós cremos n’Ele, porque falou-se no céu, disseram alguma coisa lá do céu, o Pai falou e Cristo encarnou-se no seio da Virgem Maria. A palavra foi transmitida para que nós a ouvíssemos, para que nós a escutássemos e esta palavra é a verdade, e se esta palavra saiu do Pai para se tornar Filho, em Jesus Cristo, significa que a verdade é Deus. E, de fato, a verdade é Deus. Ele é o único ser necessário, Ele é o único ser que não tem contingência, não tem tempo, não precisa deixar de existir para vir a existir e depois deixar novamente de existir. Ele é sempre e Ele é eterno. Então Deus é assim, Deus é a verdade e esta verdade é eterna, independente do mundo.

Vejam como vai longe a nossa consideração sobre o tempo da Paixão. Cristo é a verdade, mas essa verdade é Deus, está na eternidade, independente de Cristo. O verbo sim porque, necessariamente, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Mas Jesus nasce de Maria Virgem no tempo, transmite da eternidade para o tempo a verdade que Deus é. Há uma palavra que é dita para que a verdade eterna de Deus apareça nesse mundo e nós a escutássemos, aprendêssemos com ela e crêssemos nela. Essa é a ordem que faz com que a verdade única e eterna, que é o próprio Deus, faz-se vida no nosso mundo, faz-se vida na nossa terra. Ela ecoa nessa terra: “Abraão que vós dizeis que é vosso pai, na fé, viu-me. Ele me viu e passou, ele teve a alegria de compreender que eu viria e que, eu vindo, era a verdade de Deus que estaria nesta terra”. Todos os patriarcas, todos os profetas tiveram um contato com a verdade de Deus porque Deus aparecia para eles, falava-lhes e ensinava-lhes as coisas. Então, eles tinham um contato com Deus, mas eles não podiam ainda entender o que é Jesus Cristo porque é a própria palavra de Deus, encarnada ali para que nós tocássemos, como diz São João Evangelista. Para que nós sentíssemos, para que nós conversássemos, comêssemos junto com Ele e recebêssemos d’Ele, então, aquele ensinamento que torna-se Igreja. Torna-se Igreja porque a verdade eterna vem em Jesus Cristo. Jesus funda a Igreja. E o que é a Igreja senão a detentora da verdade? Aquela que tem por missão espalhar a verdade por todos os homens. “Ide por todas as nações ensinando esta doutrina”, foi o que Jesus disse aos apóstolos no momento da ascensão. Ensinando esta doutrina, ou seja, essa verdade de fé, uma verdade que deve ser crida, uma verdade que deve estar dentro de nós como sendo a própria presença de Deus em nós.

Então, a Igreja recebe a verdade com a autoridade divina para nos transmitir a mesma verdade de Deus e ela nos transmite. Sois cristão? Sim, sou cristão com a graça de Deus, faço o sinal do cristão: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Está resumindo toda a nossa fé, tudo aquilo que Jesus disse, tudo aquilo que Jesus palavra falou está resumido no sinal da cruz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Santíssima Trindade, a encarnação do verbo na cruz e a nossa salvação, nossa redenção. Pela cruz nós nos salvamos, pela cruz nós estamos unidos a esse Cristo que é palavra da verdade e que é morte na cruz. Então, aquela palavra transmitida para a Igreja, aquela palavra que a Igreja nos traz no dia do nosso batismo e que é enxertada em nós, como diz São Paulo, para que brote frutos abundantes, esta palavra torna-nos, de uma certa forma, o próprio Cristo. Nós renascemos em Cristo, diz São Paulo, nós somos um só corpo com Ele. Nós formamos um só corpo que é a Igreja, mas também individualmente nós somos um só com Ele por causa do batismo e esta unidade com a verdade, esta unidade que nos une na nossa fé que está na inteligência a essa verdade eterna, a essa verdade da Igreja, a um dogma católico, esta verdade que está dentro de mim torna-se vida, torna-se comunhão.

Então, se no batismo nós ouvimos pela primeira vez, misticamente, dentro de nós uma palavra da verdade que nos transformou em uma nova criatura, na eucaristia nós recebemos a comunhão com a mesma palavra da verdade e aí ela torna-se caridade, torna-se obra, ela torna-se amor. É assim que vive o cristão, é assim que vive o católico e é por isso que quando fazemos o nosso sinal da cruz nós devemos entender essas coisas, o nosso sinal da cruz não poderia ser feito com as negligências que nós costumamos fazer, ao contrário, toda vez que nós fôssemos fazer o sinal da cruz nós deveríamos levar um choque porque agora vai acontecer uma coisa diferente, vai acontecer um rito, agora eu vou estar comungando com Cristo na verdade eterna que é Deus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um sinal da cruz bem feito. Crianças, quando fizerem o sinal da cruz façam com atenção porque é Cristo que está dentro de nós, é Cristo que está comungando conosco no batismo e na eucaristia. E é por isso que nós podemos entender, sim, os fariseus não receberam a palavra e Nosso Senhor atacou-os e disse: “Vocês não creem em mim. Vocês não aceitam esta palavra que é o próprio Deus”. E joga isto, então, para o retorno de Cristo para o céu. “A minha glória não é minha, foi Ele que me enviou, a glória é d’Ele, a glória é Deus, a glória é Pai, Filho e Espírito Santo, e é para esta glória que eu vou. Eu não preciso lutar por ela, eu estou nela, porque há quem dê testemunho de mim”.

E assim nós vamos então compreendendo, vendo a gravidade da situação da vida católica, da fé católica quando nós estamos em comunhão com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vale a pena conhecer a doutrina, vale a pena estudar o nosso catecismo, vale a pena rezar o nosso terço, porque tudo isso é a fé na inteligência, o amor no coração. Tudo isso vai, como que numa ebulição espiritual dentro de nós, nos elevando, sanando nossas feridas, nos fazendo amar de verdade, conhecer a Nosso Senhor Jesus Cristo de verdade e ter, na Semana Santa, uma compreensãozinha um pouquinho mais profunda dos ritos que nós vamos assistir. Cuidado com os horários, cheguem cedo, aproveitem de todos os momentos, abram seu missal, vamos preparar os ritos da Semana Santa. Domingo que vem é Domingo de Ramos, é grandioso demais para simplesmente nós chegarmos aqui como se fosse qualquer domingo. Nós temos que preparar isso, temos que ensinar para as crianças o que significa aquele ramo, porque que nós vamos cantar louvores a Jesus Cristo que entrou em Jerusalém num burrinho, para que nós também estejamos ali diante d’Ele colocando ramos e flores pelo caminho para que ele passe e venha no nosso coração. É o lugar, o altar, a morte dele e sua ressurreição.

Tenhamos, então, como critério a verdade eterna que chega até nós por Nosso Senhor Jesus Cristo, a verdade eterna que chega até nós pela Santa Igreja Católica. Porque na leitura de Isaías esta verdade eterna, esta verdade da Igreja parece aquilo que nós estamos vivendo hoje na Igreja para defender a verdade. Nós somos marginalizados, nós somos perseguidos, nós somos mortos todo dia por amor à verdade, por amor à Jesus Cristo, que é a verdade, por amor à Sua Igreja, que é a verdade. E essa leitura de Isaías nos mostra várias frases em que essa verdade é aplicada perfeitamente ao drama que nós vivemos há cinquenta anos, a essa situação da Igreja porque somos consolados por Deus. Ele vê a nossa perseguição, Ele vê o estado em que estamos e nos consola. “Eu te ouvi no tempo favorável, auxiliei-te no dia da salvação. Eu te conservei, eu te construí por uma aliança do povo para restaurares a terra, para possuíres as heranças devastadas”. O que significa as heranças devastadas? Senão a fé abandonada pelas autoridades da Igreja, senão a fé vilipendiada por Vaticano II. As heranças devastadas, nós somos herdeiros da verdade, e elas foram devastadas e Nosso Senhor vem em nosso socorro e diz: “Eu vou fazer vocês restaurarem a terra”, ou seja, restaurarem a vida da Igreja e devolver, possuir as heranças devastadas. Para dizeres aos que estão em cadeias: “Sai da prisão!” e aos que estão nas trevas: “Vede a luz!”. Ao longo dos caminhos encontrarão com que se alimentar e em todas as planícies haverá o que comer para eles.

Ora, nós estamos famintos, tiraram o nosso pão, tiraram o nosso alimento espiritual e Nosso Senhor vem em nosso socorro e colocou padres com a Santa Missa verdadeira em todas as planícies, ou seja, em toda a Terra para que ninguém desfalecesse pelo caminho, para que no meio do deserto houvesse o que comer. E nós estamos num deserto. É muito impressionante isso quando nós aplicamos à crise da Igreja. “Não padecerão fome, nem terão sede. Não os molestará o calor do sol porque O que tem compaixão deles os governará”.

Nós estamos desgovernados pelas autoridades da Igreja e Aquele que tem compaixão de nós, ou seja, Deus, nos governa Ele mesmo e nos dá tudo o que nós precisamos para desenvolver a nossa fé católica. “Os levará a beber as fontes das águas e reduzirei a caminho todos os meus montes, tudo aquilo que é difícil se tornará um caminho fácil e as Minhas veredas serão alteadas. Eis, eles virão de longe, aqueles do setentrião e do mar. Aqueles outros da terra do meio dia, ou seja, do sul. Louvai céus, regozija-te terra, fazei retinir ó montes louvores festivos”.

Eu assinalava ontem que a Igreja nos chama para louvores festivos em plena Quaresma. Por que? Porque nós fomos salvos por Ele, porque Ele veio em nosso encontro, Ele veio nos alimentar no meio do deserto. Então temos motivos, sim, de nos alegrar. Ele consolou o Seu povo e Ele se compadecerá de Seus pobres, que somos nós, abandonados. Entretanto, disse Sião, os homens de Sião disseram: “Senhor, o Senhor me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim”. A tentação que nós temos de dizer: “temos que fugir para um lado ou temos que fugir para o outro, vamos ser sedevacantistas ou vamos para o progressismo, que temos que obedecer, Ele nos desamparou, o Senhor se esqueceu de mim”. E Deus diz: “Por ventura pode uma mulher esquecer-se de seu menino de peito, de sorte que não tenha compaixão do seu filho?” E a resposta de Isaías é impressionante, de Deus falando em Isaías: “Sim, ela pode, até mesmo isso pode acontecer, e mesmo que isso aconteça Eu não me esquecerei de ti”, diz o Senhor onipotente. É por isso que nós temos que perseverar, é por isso que nós temos que praticar a nossa Quaresma, é por isso que nós temos que amar a Deus acima da normalidade da nossa vida, porque Ele nos conduz pelo deserto, Ele nos consolou no meio das tribulações, Ele nos alimentou quando nós estávamos abandonados, Ele veio em nosso socorro por compaixão porque ele sofre conosco o que nós sofremos na Igreja.

Então tenhamos, nesse tempo da Paixão, uma consciência católica profunda de dizer: “Não é possível que eu continue nessa negligência. Vou me santificar pelo menos nesses quinze dias”. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Primeiro domingo da Paixão, Niterói, 2017 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s