Peça a Deus um diretor espiritual e conserve-o sem buscar outro

“Obedecei aos vossos superiores, porque eles velam como quem há de dar conta das vossas almas”(Hb 13, 17).

Aquele que obedece à Igreja de Cristo, não obedece a uma autoridade humana, mas ao próprio Deus, pois Ele disse: “Quem vos ouve, a mim ouve”. Jamais se perdeu uma alma com a obediência; jamais se salvou uma alma sem a obediência. (São Filipe Néri). Aquele que menospreza a obediência, diz São Bernardo, e deixa-se guiar por suas próprias luzes ou paralisar por seus temores, não precisa de demônio que o tente; ele mesmo se faz demônio para si.

Guardemo-nos de temer que um diretor prudente possa enganar-se no que nos prescreve, ou que ele não conheça suficientemente o estado de nossa consciência, porque julgamos não lha ter aberto com bastante clareza. Com semelhantes temores a obediência seria sempre eludida ou suspensa. Se o vosso diretor não vos tivesse compreendido e conhecido bem, ou se não vos tivésseis explicado com clareza, ele teria continuado a interrogar-vos. Se não o fez, é porque se acha suficientemente informado.

Não é a nós que Deus manifesta o estado de nossa alma, mas àquele que deve guiar-nos em seu lugar. Baste-te ouvir de sua boca que estás em bom caminho e que a misericórdia e a graça de Deus estão contigo: deves acreditá-lo e obedecer nisto como em tudo o mais. “Porque, diz São João da Cruz, não se submeter inteiramente ao que diz o confessor, é orgulho e falta de fé.”

Não basta que a obediência regule nossas obras exteriores, é preciso ainda que ela dirija nossa inteligência e nossa vontade. Não te contentes, portanto, de executar o que ela te ordena, mas crê e abraça o que ela te manda crer e querer. É nessa submissão interior que consiste particularmente o mérito da santa obediência.

Que a tua obediência seja simples, pronta, sem reservas e sem inquietudes. Simples, porque não deves submetê-la ao raciocínio, mas determiná-la com este único pensamento: DEVO OBEDECER; pronta, porque é a Deus que deves obedecer; sem reservas, porque a obediência se estende a tudo o que não viola a lei de Deus; sem inquietudes, porque aquele que obedece a Deus não pode extraviar-se. Esse pensamento deve bastar-te para afastar todo o temor de errar ou de ter errado.

A quem escolher para dirigir-te assim no caminho da virtude? Eis o que diz São Francisco de Sales sobre esse ponto tão importante: Vai, disse Tobias ao seu filho, quando quis mandá-lo a um país desconhecido, vai procurar um homem prudente que te conduza. O mesmo te digo a ti, Filotéia: Queres sinceramente entrar no caminho da devoção? Procura então um bom guia que te conduza. De todos os conselhos, este é o mais necessário e o mais importante.

Mas quem encontrará semelhante amigo? O sábio responde: Aquele que teme a Deus, isto é, o humilde que deseja ardentemente avançar na vida espiritual, pede a Deus com fervor que te dê um que seja segundo o seu coração e não duvides de que Ele te dará um sábio e fiel condutor, ainda que para isso tenha de te mandar um anjo, como ao jovem Tobias.

E com efeito, ele deverá ser um anjo para ti, isto é, quando Deus o tiver enviado a ti, já não deverás considerá-lo como um simples homem. Vê nele o representante de Deus, e tem confiança, pois que o mesmo Deus te conduzirá e te instruirá por seu intermédio. Acrescenta à confiança uma sinceridade total, falando-lhe de coração aberto e confiando-lhe fielmente o bem e o mal que há em ti. Com isso o bem estará mais seguro e o mal se enfraquecerá, tua alma se tornará mais forte nos sofrimentos e mais moderada nas satisfações. Ajunta à confiança um religioso respeito, mas em tão justa medida que a veneração não diminua a confiança, e a confiança não faça perder o respeito.

Confia nele com o respeito de uma filha para com o seu pai, e respeita-o com a confiança de um filho para com a sua mãe. Numa palavra, essa amizade que deve ser forte e delicada, deve ser toda espiritual, toda santa, toda sagrada e toda divina.

Encontram-se muito menos diretores do que se pensa, que sejam capazes deste ministério. É necessário que ele seja cheio de caridade, de ciência e de prudência. Se faltar uma dessas três qualidades, a escolha não estará sem perigo. Repito, pede a Deus um diretor, e quando o tiveres encontrado, agradece à divina majestade e conserva-o, sem buscar outro. Vai a Deus com toda a simplicidade, com humildade e confiança, porque farás indubitavelmente uma felicíssima viagem.

Nota, finalmente, que o diretor e o confessor podem não ser a mesma pessoa. Quantas almas dirigia São Francisco de Sales, das quais não era confessor! Ao diretor, diz ele, a alma deve descobrir-se totalmente. Ao confessor acusam-se simplesmente os próprios pecados para receber a absolvição.

[por Robert Mialhe, em A MEDIDA DAS VIRTUDES.

Avisos para a vida cotidiana adaptados do P. QUADRUPANI]

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