A criação do mundo e do tempo, e que interpretação se deve dar ao descanso de Deus

Por Santo Agostinho

É único e simultâneo o princípio da criação do mundo e dos tempos

O início da criação do mundo e o início do tempo são simultâneos. Sendo correta a distinção entre eternidade e tempo, […] as Sagradas Escrituras, que gozam da máxima veracidade, dizem que no princípio fez Deus o céu e a terra, dando a entender que antes nada fez, pois, se houvesse feito algo antes do que fez, diriam que no princípio o houvera feito. O mundo não foi feito no tempo, mas com o tempo. O que se faz no tempo faz-se depois de algum tempo e antes de algum, depois do passado e antes do futuro. Mas não podia haver passado algum, porque não existia criatura alguma, cujos mutáveis movimentos o fizessem. O mundo foi feito com o tempo e em sua criação foi feito o movimento mutável. É o que parece indicar também a ordem dos seis ou sete primeiros dias. Nomeiam-se, neles, a manhã e a tarde, até a criação de todas as coisas feitas por Deus. Qual a natureza desses dias é coisa inexplicável, talvez mesmo incompreensível.

Como eram os primeiros dias, que tiveram, segundo a narração, manhã e tarde, antes da criação do Sol

Vemos que os dias conhecidos não tem tarde, senão em relação com o pôr do Sol, nem manhã, senão em relação com seu nascimento. Pois bem, os três primeiros dias transcorreram sem Sol, pois sua criação, segundo o Gênesis, se deu no quarto dia. É verdade que primeiro se narra que foi feita a luz pela palavra de Deus, entre ela e as trevas Deus fez separação e à luz chamou dia e às trevas, noite. Mas de que luz se trata e de que movimento alternativo? Sejam quais forem a tarde e a manhã feitas, é certo que os escapam aos sentidos e, não podendo entendê-lo tal qual é, deve, sem a menor vacilação, ser crido. Trata-se de luz corpórea, colocada longe de nossos olhos, nas partes superiores do mundo, luz que mais tarde acendeu o Sol, ou pelo nome de luz está significada a Cidade Santa nos santos anjos e nos espíritos bem-aventurados, da qual diz o Apóstolo: Aquela Jerusalém de cima, nossa mãe eterna nos céus, e em outro lugar: Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não o somos da noite nem das trevas? Se é assim, podemos entender também convenientemente de algum modo a tarde e a manhã desse dia. A interpretação seria que a ciência da criatura, em comparação com a do Criador, de certo modo entardece e de igual maneira amanhece e se faz manhã, quando se endereça e ao louvor e amor ao Criador. E não declina de noite, quando por causa da criatura não abandona o Criador. Ademais, ao enumerar os dias, a Escritura não interpôs nenhuma só vez a palavra noite. Em nenhuma passagem diz: Foi feita a noite, mas: Fez-se tarde e manhã, primeiro dia. A mesma coisa no segundo dia e nos demais. O conhecimento da criatura em si mesma é, por assim dizer, mais descolorido que seu conhecimento na Sabedoria de Deus, como na arte por que foi feita. Justamente por isso é possível dizer-se, com maior propriedade, tarde, em lugar de noite, tarde que, como já dissemos, quando se refere ao louvor e amor ao Criador, passa a ser manhã. E isso, quando se faz no conhecimento de si mesma, dá origem ao primeiro dia. Quando no conhecimento do firmamento, chamado céu, feito entre as águas superiores e as inferiores, dá origem ao segundo dia. Quando se faz no conhecimento da terra, do mar e de todas as plantas que por suas raízes se fincam na terra, dá origem ao terceiro dia. Quando no conhecimento dos luzeiros maior e menor, de todas as estrelas, dá origem ao quarto dia. Quando se faz no conhecimento de todos os animais das águas, peixes e aves, dá origem ao quinto dia. Quando no conhecimento de todos os animais terrestres e do próprio homem, ao sexto dia.

Interpretação que se deve dar ao descanso de Deus depois da criação, efetuada em seis dias

Que no sétimo dia Deus tenha descansado de todas as suas obras e o tenha santificado, não deve de modo algum ser entendido infantilmente, como se Deus se houvesse fatigado, trabalhando, Ele, que disse e foram feitas, com palavra inteligível e eterna, não sonora e temporal. O descanso de Deus significa o descanso dos que descansam em Deus, como a alegria da casa significa a alegria dos que se alegram em casa, embora os faça estar alegres não a casa, mas outra coisa qualquer. Quanto mais se a beleza da própria casa alegra os moradores! E mais se não apenas se chama alegre pela figura retórica que pelo continente significa o conteúdo, como quando se diz: os teatros aplaudem os prados mugem, quando naqueles os homens é que aplaudem e nestes os bois é que mugem, mas também pela figura que significa o efeito pela causa, como se diz rosto alegre aquele que significa alegria de quem, ao vê-lo, se alegrará. Está muito conforme com a autoridade profética, que narra o descanso de Deus, dizer que por ele se significa o descanso daqueles que descansam nele e Ele faz descansar. A profecia também promete aos homens a que se dirige e a seus autores que, depois das boas ações que Deus opera neles e por eles, nele terão descanso eterno, se nesta vida se aproximam dele pela fé. No antigo povo de Deus foi o que se figurou, segundo o preceito da Lei, pelo repouso do sábado. De acordo com isso, a mim me parece melhor tratar com maior esmero desse ponto no lugar devido.

A Cidade de Deus, Parte 2, Livro 11 – Cap. 6 a 8.

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