O uso de elementos e materiais na liturgia

O homem não é somente o rei e senhor da criação, é também o seu pontífice. No exercício da sua função sacerdotal apodera-se dos elementos da natureza “que gemem escravos da corrução” e oferta-os a Deus como tributo de submissão. E Deus, por nobre condescendência, faz desses elementos o canal da efusão da sua graça.

O homem não é um puro espírito. Para se elevar à contemplação do invisível, precisa de subir uma escada de símbolos que impressionem os sentidos, antes de lhe falarem à alma. Por isso “desde sempre os homens ligaram aos grandes fenômenos da natureza e aos produtos de utilidade universal uma significação simbólica em harmonia com o uso natural”.

“A água que leva e refresca, tem na linguagem dos sinais e na linguagem religiosa o sentido duma purificação. O fogo que queima, purifica como a água; é luz, ilumina. O azeite lenifica, adoça, fortifica, abranda. O sal dá e conserva aos alimentos o seu sabor. Destas palavras 

derivam em todas as línguas humanas expressões ou metáforas que são a tradução dessas ideias primitivas. Diz-se um zelo de fogo, o sal da sabedoria, falar com unção, etc.”.

“A Igreja que recolheu tão preciosamente as tradições do culto moisaico e as pepitas de ouro que rolavam no meio do lodo dos cultos pagãos, e que tirou tão maravilhoso partido da poesia da natureza para a sua Liturgia, não podia deixar de adotar alguns destes ritos tão expressivos e tão profundos”. (DOM CABROL, Liv. Pr. Ant. Cap. XXIV, p.333 a).

Fiel continuadora da obra do seu divino Esposo, a Igreja imitou em seus Sacramentais o que Jesus tinha instituído para o Sacrifício e os Sacramentos. No Sacrifício Jesus Cristo renova incruentamente a sua imolação, transubstanciando em seu Corpo a substância do pão que o homem corta, esbulha, moi, amassa; e em Seu Sangue, substância do vinho, fluido delicioso que jorra apenas de uvas esmagadas, dilaceradas. E, consumando o Sacrifício, dá-se em alimento no Sacramento da Eucaristia sob os acidentes do pão que nutre, e do vinho que vivifica.

A Igreja toma em suas mãos os frutos da terra, traça sobre eles o gesto abençoador do divino Mestre, profere palavras de um puro lirismo – ações de graças e súplicas – roçai-os com água benta, perfuma-os com o odor do incenso. E esses frutos que robustecem o corpo do homem, tornados sacramentais, avigoram lhe também a alma.

O Sopro

O Espírito ou Sopro de Deus flutuava sobre as águas, nos dias da criação; irrompia impetuoso sobre os apóstolos no Pentecostes. Deus soprou sobre a face de Adão no dia em que o formou do lodo da terra; Jesus soprou sobre os apóstolos, dando-lhes o Espírito Santo.

A insuflação era outrora, na disciplina do catecumenato, e ainda hoje no ritual do batismo ou da bênção do crisma e do óleo dos catecúmenos, a cerimônia mais expressiva do exorcismo: expulsa da alma ou dos elementos o espírito das trevas. Na bênção da água batismal, simboliza a fecundidade.

A Água

A água… “ninguém sabe donde vem, nem aonde se perde”. “Onda celeste, vaga calcada pelos passos de Jesus, enclausurada pelos montes, não é prisioneira; quebrada nos rochedos, logo se reforma: derramada na terra, ainda subsiste. Leva em seu dorso as montanhas e não é esmagada. É contida nas profundezas do céu, e jorra das entranhas da terra. Espargida pela face do globo, lava tudo e nada a lava” (Benção de água, na dedicação das Igrejas).

a) As suas qualidades naturais e a sua intervenção na história da humanidade (Dilúvio, Mar Vermelho, Jordão) fizeram da água o elemento litúrgico por excelência. Aparece no culto dos ídolos e é frequentemente usada no ritual moisaico como símbolo de expiação e purificação.

b) Na Nova Aliança é elevada à dignidade de matéria do Sacramento da Regeneração. Prepara-a para tão sublime missão uma bênção solene que tem lugar no Sábado Santo e no Sábado do Pentecostes, na qual “sob inspiração religiosa se sente um sopro de poesia e como que um eflúvio primaveril” (DOM CABROL, Liv. Pr. Ant. Cap. XXIV, p.336).

c) No Sacrifício da Missa uma gota de água é infundida no vinho que será transubstanciada no Sangue de Jesus. Recorda a água que saiu do lado de Cristo, aberto pela lança; simboliza a união das duas naturezas divina e humana, na pessoa do verbo, e a incorporação de todos os fiéis no corpo místico de Jesus.

d) O ritual da Dedicação das Igrejas contém exorcismos especiais para o sal, água, cinza e vinho. Exorcizados e misturados, estes elementos recebem uma nova benção – trecho de poesia lírica em que são contidas as virtudes naturais da água. Com esta mistura, o Bispo traça cinco cruzes na mesa do altar, asperge todo o altar ao redor sete vezes e as paredes interiores da Igreja três vezes.

e) Todos os Domingos, antes da Missa solene, a água recebe uma benção especial que a transforma num sacramental com o poder de afugentar os demônios, curar as doenças, purificar das imundícies do pecado. Com essa água é aspergida a assembleia litúrgica, ao Domingo, antes dos santos mistérios, benzem-se os fiéis ao entrar no templo e purificam-se em suas casas (Ver no Antigo Testamento a aspersão e purificação com água misturada com a cinza da vítima expiatória, (Num. 22). Esta água é também usada, juntamente com determinadas fórmulas, para benzer imagens, paramentos, escapulários, casas, frutos, etc., etc.

f) O Ritual Romano contém ainda várias bênçãos em honra de determinados Santos: Santa Adelaide, Santo Alberto, Santo Inácio, S. Vicente de Paulo, etc. Tais bênçãos fazem da água – bebida necessária ao organismo humano – um medicamento salutar para o corpo e para a alma.

O óleo

O fruto da oliveira é símbolo da alegria; imagem da fecundidade; princípio de incorruptibilidade, suavidade e força. A benção do Criador confere-lhe novas virtudes: – consagração, purificação da alma, remissão dos pecados, cura de doenças.

Já no Antigo Testamento o óleo servia para consagrar sacerdotes e reis; era empregado em todas as grandes funções litúrgicas: nos sacrifícios, nas purificações legais, na consagração dos altares.

No Novo Testamento o óleo é derramado sobre a fronte dos hóspedes (Lc. 8, 46); com ele são ungidos os doentes (Mc. 6, 13; Jo. 5, 14); a Madalena unge os pés de Jesus quando vivo (Lc. 7, 46; Jo. 11, 2; 11, 3) e procura ungir-lhe o corpo depois de morto (Mc. 16, 1); a eleição, a confirmação divina chama-se unção (At. 4, 27; 10, 38), etc.

O Testamentum D. N. J. C., anterior, pelo menos em parte, ao século IV, e, no século V, o Pontifical de Serapião de Thmuis e as Constituições Apostólicas contém bênçãos para o óleo.

Atualmente a benção do óleo é um dos ritos mais solenes da Liturgia. Efetua-se nas catedrais, na Missa da Quinta-feira santa. Antes da doxologia do Cânon, o Pontífice desce com os seus Assistentes e Ministros à entrada do presbítero onde o aguardam doze Sacerdotes, sete Diáconos e sete Subdiáconos. Ali benze o óleo dos enfermos. Sobe ao altar para consumar o Sacrifício e, depois da Comunhão, vem benzer no mesmo lugar e ainda com maior solenidade o crisma e o óleo dos catecúmenos.

a) O óleo dos enfermos constitui a matéria de um Sacramento – a Unção dos enfermos. Esta Unção é comumente chamada Extrema-Unção, mas impropriamente; pois, no pensamento da Igreja, este sacramento não é a preparação direta e última para a morte (esta é o Sacramental da Encomendação da alma); mas um meio de alcançar a saúde da alma e a do corpo e de tornar as faculdades mais ágeis e fortes para o combate da agonia. Também é usado para a unção da parte exterior dos sinos.

b) O óleo dos catecúmenos simboliza o poder sacerdotal e real de que participa o batizado – regale sacerdotium (1Pd. 2, 9). Por isso se ungem com ele não só as mãos dos sacerdotes, o braço direito e as costas dos reis e rainhas, mas também o peito e as costas dos catecúmenos.

c) O crisma – mistura de óleo e bálsamo – é infundido, com o óleo dos catecúmenos, na água batismal, e derramado sobre a cabeça dos batizados e dos Bispos. É matéria do Sacramento da Confirmação. Emprega-se também na Dedicação das Igrejas, na consagração dos altares e dos cálices e no batismo dos sinos.

O sal

Na liturgia mosaica o sal entrava em grande número de oblações e sacrifícios como princípio de incorruptibilidade. Na liturgia cristã, no batismo é deposto na língua do neófito como sinal de alimento celeste e símbolo de sabedoria; na benção da água, é infundido neste elemento para lhe comunicar a fecundidade; na dedicação e reconciliação das igrejas é ajuntado à mistura da cinza, água e vinho, para purificá-los e tornar salubres. O Ritual contém duas bênçãos que fazem do sal uma medicina para os animais e um remédio para curar da raiva.

A luz

a) – O ritual do batismo termina pela entrega ao batizado de uma vela acesa – símbolo da luz da fé que lhe ilumina a alma. Ao Acólito no momento da ordenação também lhe é entregue uma vela, mas apagada, como sinal da transmissão de um poder e de um encargo. Pelo contrário, em todas as Ordens menores e maiores são os ordenados que se aproximam do altar com uma vela, que ao Ofertório entregam acesa ao Pontífice. O mesmo fazem as virgens, à Missa da sua consagração; os Bispos Abades e Abadessas oferecem duas velas.

b) – O Direito Romano conferia a certos magistrados a honra de serem precedidos de círios acessos. Os Sumos Pontífices adotaram este costume. Sete Acólitos com círios acesos abriam o cortejo pontifical quando este se dirigia do secretarium para onde se iam celebrar os augustos Mistérios. Os castiçais eram colocados diante do altar e ali ficaram durante o Ofício litúrgico. Mais tarde foram postos em cima da mesa do altar e a negligência humana não tardou a inventar um processo mais cômodo de satisfazer as exigências litúrgicas: deixar permanentemente no altar os sete castiçais (reduzidos a seis por simetria no século XV, ficando reservado o número sete para as Missas pontificais que os Bispos celebram nas igrejas da sua jurisdição); e servir-se, no cortejo, de castiçais suplementares.

Acesas nas igrejas, nas casas, nas procissões e nos funerais, as luzes honram, adoram, rezam e expulsam os príncipes das trevas.

c) As velas são benzidas solenemente no dia 2 de fevereiro. Esta bênção foi ajuntada no século XII à procissão “das Candeias” _ rito aniversário da Purificação de Nossa Senhora, de origem jerosilimitana, introduzido em Roma no século VII. Fora deste dia, as velas são benzidas com uma fórmula mais breve do ritual.

d) Outra benção de grande solenidade e simbolismo faz parte da liturgia pascal: a bênção do fogo novo, ferido da pederneira, e a do círio pascal. Este rito é a efusão do antigo “Laus cerei”, subsistente no “Praeconium paschale”, Exultet, e do Ofício vespertino, “Lucernário”, de origem judaica. O círio pascal arde em todos os ofícios litúrgicos solenes do tempo pascal até ao fim do Evangelho da Ascenção. É mergulhado três vezes na água batismal na benção do Sábado Santo e da Vigília do Pentecostes.

e) – O Ritual contém ainda bênçãos especiais mais em honra de S. Braz, S. Raimundo e do Rosário.

O incenso

O uso do incenso – elemento purificador, símbolo de oração, homenagem de adoração – é um desses ritos universais com que todas as religiões honram a divindade. O ritual moisaico empregava o incenso em muitos sacrifícios, só ou com outros perfumes; tinha também o altar dos perfumes em que se queimava incenso de manhã e de tarde.

Os cristãos adotaram cedo o uso do incenso. Em Jerusalém, no século IV, já se empregava em todos os grandes Ofícios, como atesta a peregrina galega Etéria.

Hoje o incenso é queimado em todas as grandes funções litúrgicas, nomeadamente na Missa solene, Laudes e Vésperas solenes durante o cântico do Evangelho, nas exéquias, procissões, dedicação das Igrejas, bênção dos sinos, cinzas, ramos, velas, etc.

A cinza

A cinza é o símbolo do luto, da dor, da penitência; é a imagem da fragilidade humana.

No Antigo Testamento lê-se que os judeus, para expiar os seus pecados ou apartar de si as tribulações da doença; fome e guerra se cobriram de cinza, se prostravam na cinza, ou comiam o pão misturado com cinza. A cinza dos holocaustos era tida como sagrada. Por vezes, misturada com água servia para aspergir e purificar a assembleia ou os penitentes.

Na liturgia católica a cinza é empregada no princípio da Quaresma, na quarta-feira de cinza. Primitivamente só os penitentes públicos, depois de confessadas às culpas, eram vestidos de cilícios, cobertos de cinza e expulsos do templo. À medida que a penitência pública foi caindo em desuso, este rito foi-se simplificando e estendendo a todos os fiéis (século IX). Subsiste ainda com as suas orações de origem galicana e com um cerimonial reduzido, mas de uma simplicidade emocionante.

A liturgia da dedicação das Igrejas contém um rito muito particular, anterior ao século VII. No pavimento da igreja são traçadas com cinza duas linhas transversais, em forma de Cruz de Santo André. O pontífice com a extremidade do báculo escreve com numa delas o alfabeto grego e noutra o alfabeto latino. Este rito imitado do direito romano é a tomada de posse e a delimitação do terreno que vai ser consagrado a Cristo. Ainda no mesmo ritual a cinza é misturada com água, sal e vinho para exorcizar o altar e o templo. A bênção da cinza é tirada do ritual da Quarta-feira de cinza. A ideia de penitência aparece assim vinculada ao novo templo, casa de Deus, casa de santidade – Domum Dei decet sanctitude.

Os ramos

A bênção dos Ramos é um dos ritos mais antigos da Liturgia. Remonta ao século IV e é de origem jerosilimitana. Foi introduzida no Ocidente no século VIII. As fórmulas recitadas ou cantadas atualmente são muito arcaicas, mas de composição híbrida. Antigamente não eram empregadas todas, mas somente as que o presidente da assembleia escolhesse. As cerimônias são uma adaptação da solene procissão com que os habitantes de Jerusalém comemoravam a entrada triunfante de Jesus na cidade santa. Os ramos benzidos são como que um sacramental permanente que excita as almas a buscarem a paz por meio da vitória sobre os seus inimigos.

O Ritual contém também uma bênção dos Ramos em honra de São Pedro Mártir.

Seria longo e inútil enumerar os restantes elementos da criação que a Liturgia eleva e consagra, utilizando-os no exercício da sua missão de glorificar a Deus e santificar os homens.

Fonte: Curso de Liturgia Romana, de Dom Antonio Coelho, OSB.

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