Impressões sobre como era o temperamento de Nossa Senhora

Sermão de Dom Lourenço Fleichman

Caríssimos irmãos,

Início de tudo, início do ano, primeira missa do ano do ano litúrgico é sempre muito impressionante nós chegarmos no primeiro domingo do Advento e a Igreja vestir-se de roxo e preparar-nos para o Natal através de quatro semanas de penitência de oração e de meditação.

Pensando um pouquinho no que tem acontecido essas últimas semanas, vocês sabem que nós lançamos há pouco tempo, há quinze dias praticamente, a Confraria dos Homens Castos, e eu fiquei meio submergido. Já são mais de trezentos inscritos, eu tive que me organizar e ainda nem enviei todas as coisas que precisava enviar, porque foi uma resposta imediata,sobretudo nos primeiros dias, em que eram sessenta… setenta se inscrevendo…

as semanas da gravidez de Nossa Senhora

Mas, por causa disso, ocorreu que nós precisávamos meditar um pouquinho sobre Nossa Senhora, já que ela é a Virgem Maria, Imaculada Conceição, que nós vamos festejar sábado que vem na festa da nossa padroeira. É necessário, talvez, nós pensarmos em primeiro lugar que o tempo de preparação para o Natal é o tempo de Nossa Senhora. É o tempo em que nós devemos nos inclinar um pouco mais para nossa Mãe do Céu, para meditar um pouco nesse mistério insondável da sua imaculada conceição. Sábado nós vamos falar mais sobre isso, é claro, por que é o dia da festa dela. Mas todas as semanas do Advento são as semanas da expectação, as semanas da gravidez de Nossa Senhora. Nossa Senhora esperando o Menino Jesus, o Salvador. E Ele virá!Certamente Ele virá todos os anos espiritualmente em nós, na Igreja, para renovar a sua vinda em Belém. Mais do que isso, para fazer com que haja realmente um nascimento de Jesus espiritual em nós. A espera da segunda vinda nós já falamos no domingo passado, não precisamos repetir. Agora, precisamos olhar para ela e pensarmos nesse grande primeiro mistério que acontece quando Deus, na sua ordenação da Santíssima Trindade, encarnando Seu Filho para a nossa salvação, prevê que a mãe d’Esse filho será isenta do pecado original.Uma graça que ela recebe de em atenção a alguma coisa que vai acontecer ainda no futuro, ela é preservada do pecado original. Isso para nós deveria ser motivo de muitas meditações durante o ano, mas especialmente no Advento.

pensemos no que é o pecado original

O que significa ser ela isenta do pecado original? Em primeiro lugar pensemos no que é o pecado original. Claro, todo mundo sabe que o pecado original é o pecado cometido por Adão e Eva. Então,aconteceu um fato histórico, um pecado gravíssimo, talvez o mais grave de toda a história da humanidade. Eles caíram não precisando cair. Pecaram por orgulho,porque queriam ser mais do que eram, por enganação do demônio, mas foram fracos e pela vaidade e pelo orgulho aceitaram comer o fruto que Deus tinha proibido que comessem. As consequências para eles nós conhecemos. Perderam os dons preternaturais, perderam a graça de Deus, foram expulsos do Paraíso, tiveram que viver novecentos e tantos anos atrás de virtudes, trabalhando para serem pessoas retas, honestas, amantes e tementes a Deus, para se salvarem. Nada disso eles precisavam ter passado porque estavam no Paraíso. E do Paraíso eles passariam para o Céu. Não precisavam ter passado por tanto sofrimento, não precisavam ter visto o seu próprio filho matando o irmão, não precisavam saber que viria toda uma humanidade de milhares e milhares de anos a sofrer as consequências desse pecado. Tudo isso eles passaram à toa. Tudo isso eles passaram sem precisar.

Nós não somos culpados do pecado original

Nós somos herdeiros do pecado original. O pecado original nasce conosco, dentro de nós de um modo diferente porque nós não fizemos o ato de pecado que Adão e Eva fizeram. Nó somos herdeiros. Como que ele está dentro de nós? Ele não está como uma culpa. Nós não somos culpados do pecado original. Somos culpados, sim, dos nossos pecados atuais. Tudo que agente faz depois a gente é culpado, mas do pecado original nós não somos culpados.

um obstáculo para a vida da graça

O que é então dentro da alminha que nasce nesse mundo o pecado original? É uma espécie de obstáculo. É como aquela rocha que foi rolada na frente do sepulcro de Jesus e que impediria Nosso Senhor de sair do sepulcro. Claro que não impediu,porque Ele passou por cima. Mas há um obstáculo dentro de nós para a vida da graça. A porta do Paraíso está fechada para nós e o que mantém a porta fechada é o pecado original. Todos os homens nascem com este obstáculo. Esse obstáculo é retirado no batismo, quando nós somos batizados. E daí a grande necessidade de todas as almas serem batizadas rapidamente assim que nascem, para que não haja obstáculo entre a alminha que nasce e Deus Nosso Senhor, para que Ele seja realmente Pai. Para que Nosso Senhor Jesus Cristo seja realmente rei daquela alma que nasceu, quanto mais rápido, quanto mais cedo a criança for batizada,melhor. Retira-se o obstáculo, Jesus Cristo assume aquela alma e vem com a Sua graça e ela se torna filha de Deus.

A ferida do pecado original

Porém, o pecado original que nós conhecemos, o pecado original que nasce conosco, retirado no batismo, mantém dentro de nós pela vida toda o reato do pecado, a reação, a consequência. E essa consequência, dela nós não escapamos. É a natureza decaída. A natureza de Adão e eva, a natureza humana foi ferida, perdeu os dons preternaturais e perdeu o domínio que com esses dons Adão e Eva tinham sobre as suas paixões. Nada disso nós temos mais. Essa consequência do pecado original, essa ferida do pecado original nós guardamos. É uma cicatriz que nós vamos levar para sempre.

Por causa dessa ferida, por causa dessa consequência nós todos lutamos a vida toda para tentar melhorar nossos defeitos dominantes. É exatamente aí que está o problema. Deixem de lado os nossos pecados atuais – isso depois a gente vai ao confessionário, a gente se arrepende, a gente pede perdão a Deus, a gente chora. Pra poder ir pro Céu. Porque se não chorar pelos pecados a gente não vai poder ir para o céu não.Mas, Deus dá a graça e a gente chora pelos pecados. O problema não é esse. O problema são os nossos defeitos, essa natureza decaída, como que ela se manifesta para nós.

Os quatro temperamentos

Então nós vamos conhecer aqueles quatro temperamentos, aquela Revista Permanência famosa que esgota toda hora porque todo mundo quer conhecer seu temperamento. Então tem o colérico, que sai brigando com todo mundo. Tem o sanguíneo que é meio relaxado, muito boa praça, mas é relaxado com as coisas, apesar de ser ativo. Tem o melancólico que recebe tudo como se fosse o mundo todo contra ele. E tem o fleumático que pode desabar o mundo e ele continua lendo o jornalzinho dele, não está nem aí. Tá pegando fogo a casa? Chama os bombeiros. Os quatro temperamentos estão presentes na nossa frente e nós ficamos lutando contra eles, querendo saber como nós somos e como corrigir esses defeitos. Então vejam: nós temos um obstáculo que é retirado pelo batismo. Nós temos uma natureza decaída que vai se inclinar para o pecado, já não tem mais o domínio da razão sobre as paixões. As paixões tendem a tomar a dianteira e nos levar pro pecado. E temos os temperamentos contra os quais nós lutamos dentro de nós.

como é o temperamento de Nossa Senhora?

A Virgem Maria não tem nada disso, nada. Não teve o pecado original porque foi preservada. Não precisou ser batizada para retirar o obstáculo porque ela foi concebida sem o pecado original. Não tendo o obstáculo também não tem a consequência do obstáculo, que é a natureza decaída e, não tendo a natureza decaída, como é o temperamento de Nossa Senhora? Como nós poderíamos conhecer Nossa Senhora se ela viveu há dois mil anos atrás. Mas nós podemos tirar algumas consequências disso, algumas impressões sobre como era o temperamento de Nossa Senhora. Porque, vejam, em primeiro lugar ela não tinha inclinação para o pecado. Não tendo a natureza decaída ela tinha aquele domínio pleno da sua razão sobre as suas paixões que Eva conhecera antes do pecado, que Adão conhecera antes do pecado. Nossa Senhora mantinha esse pleno domínio de sua alma sobre tudo que ela fazia, sobre tudo que ela conhecia,principalmente nesse momento em que começa o Advento para ela e que o anjo Gabriel aparece no meio da sua casa para dizer que ela será a Mãe de Deus. Imaginem como que aquela natureza de Nossa Senhora, tendo pleno domínio da sua vontade sobre as suas paixões, ouve um anjo – e ela sabia que era um anjo vindo do Céu – dizer para ela que ia ser mãe e ela responde para o anjo: “Eu não vou ser mãe. Eu fiz uma promessa a  Deus que viveria castamente com meu marido e não seria mãe. Como se fará isso se eu tenho uma promessa, um voto de não ser mãe?”  E o anjo acalma Nossa Senhora e diz a ela: “Senhora, o Espírito Santo virá sobre ti, e aquele que há de nascer de ti é obra de Deus, é obra da graça, será o Altíssimo, Filho do Altíssimo, será o Senhor de toda a Terra, será o Salvador do mundo”. -“Faça-se em mim segundo a Tua palavra”. Tudo isso demonstra o domínio da alma de Nossa Senhora sobre suas paixões. Ela não tinha esses problemas que nós temos. Na mesma hora, se um anjo aparecesse para um de nós e dissesse: “Vocês vão ser mãe, ou pai, de Deus”. O que isso pode trazer de vantagem para mim? Deixa eu examinar bem se eu vou enriquecer, se eu vou ter uma bela casa, se eu vou ter um bom carro….”, imediatamente as paixões vão começar a fervilhar dentro de nós. Nós não teríamos a isenção que Nossa Senhora tinha porque não tinha aquela inclinação perversa. Assim era e assim é a alma de Nossa Senhora com seu corpo, com sua alma no Céu.

Os quatro temperamentos em Nossa Senhora

Nós sabemos que os filósofos estudando os temperamentos nos trazem mais ou menos como que os homens se comportam dentro da natureza decaída com seus quatro temperamentos. Em Nossa Senhora, se é que verdade que nós temos qualidades e defeitos pelos temperamentos, em Nossa Senhora só tinha as qualidades. Ela tinha ao mesmo tempo o ímpeto do colérico, aquele ímpeto de fazer as coisas até o fim, de realizar a obra que precisava ser realizada. O colérico tem isso. Ele vai e faz! Ele não se incomoda com os obstáculos, ele ultrapassa os obstáculos, ele vence e cumpre o seu dever. Isso,Nossa Senhora tinha. Evidentemente ela não tinha o outro lado do colérico, que é de se irritar com as pessoas e de se irritar com as situações e não aceitar que as coisas não deem certo. Ela fazia isso pacífica, ela vencia sempre sem se alterar, porque ela tinha a qualidade do colérico, mas não o defeito. Nossa Senhora também tinha em alto grau a qualidade do sanguíneo, que tem um modo agradável de agir com as pessoas. O sanguíneo é mais superficial. Ele não está tão interessado em terminar logo o seu trabalho, muitas vezes ele deixa até de lado. Não que ele não se importe com o trabalho, mas ele não tem aquele ímpeto,aquela força que tem o colérico, mas ele tem um jeito que o colérico não tem:ele se dá bem com todo mundo. Ele é agradável com todos. Nossa Senhora também era agradável com todos. Não tinha ninguém que não tenha chegado perto de Nossa Senhora e que tenha saído aborrecido – “que mulher chata!”, jamais da vida. Todas as pessoas que chegaram junto a Nossa Senhora, chegaram para agradecer, chegaram para receber alguma coisa boa, uma boa palavra, uma sabedoria, uma visão das coisas de Deus. Vejam como Nossa Senhora estava presente entre os apóstolos naquele retiro espiritual que eles fizeram esperando Pentecostes. A Mãe da Igreja – a Igreja declarou – Nossa Senhora é Mãe da Igreja por causa disso. Ela orientava os apóstolos. Ela é recebida por São João em sua casa para explicar para São João todas as coisas maravilhosas que ele foi colocar no seu evangelho.

Nossa Senhora tinha – agora vai ficar difícil –do melancólico. O que Nossa Senhora podia bem ter do melancólico? Ora, o melancólico também tem suas qualidades. E a primeira delas é uma certa profundidade na visão das coisas. E a segunda delas é uma certa sensibilidade,uma sensibilidade humana, um modo de se preocupar com o próximo. O defeito do melancólico ela não tinha: se preocupar demais consigo mesmo e se achar o centro do universo, ferido, porque os outros “não prestam atenção em mim”. Isso ela não tinha.Mas ela tinha a sensibilidade maternal que fez dela a mãe de todos os homens. Nosso Senhor chamou São João e disse “Eis ai tua mãe”, e neste gesto de Nosso Senhor ela era entregue a todos nós, a toda a humanidade para ter a sensibilidade de se preocupar como mãe.

E Nossa Senhora tinha as qualidades do fleumático, porque podia cair o mundo ela sabia muito bem o que fazer, sabia muito bem como se comportar, mas ela não tinha uma preocupação exagerada com aquelas coisas. Ela sabia muito bem que Deus proviria todo o necessário para aquela obra que ela tinha que fazer. Imaginem Nossa Senhora com nove meses de gravidez, saindo de Nazaré em cima de um burrinho, atravessar duzentos e tantos quilômetros para chegar na Judeia, para chegar em Belém. Ela podia ter dito “Não, José. Não vou não! Eles que venham nos prender”, mas ela foi. Imaginem Nossa Senhora chegando em Belém e não tendo lugar para eles na hospedaria e tendo que se abrigar num estábulo. Ela poderia ter dito a José “Está vendo para onde você está me levando! É essa vida que você quer que eu tenha? Eu sou a Mãe de Deus”, mas ela ficou quieta. E São José arrumou – e nós já vimos isso em outras meditações – ajeitou aquele presépio e os anjos vieram e tornaram aquele presépio um palácio para ela. Em tudo ela confiava na Divina Providência. E ela sabia que Nosso Senhor viria em seu socorro, o próprio Filho que ela carregava. Do mesmo modo que ao pé da cruz ela estava de pé porque ela era colérica; estava pacífica porque ela era fleumática. Ela estava de bem com todos aqueles soldados porque ela era melancólica; e ao mesmo tempo ela tinha aquela sensibilidade para com as filhas de Jerusalém, para com Maria Madalena, para com São João, que estavam ali com ela. E seu Filho, claro, crucificado, ela tinha com ele uma relação toda especial de mãe – e de mãe preservada do pecado original. Vejam o que Nossa Senhora pode ser para nós um assunto, um motivo, um tema de meditação para todas as semanas do Advento. É muito rico! A alma de Nossa Senhora é de uma riqueza insondável e nós poderíamos meditar assim e ainda continuar meditando sobre muitos outros aspectos dela.

espelhar-nos em Nossa Senhora

Hoje eu quis mostrar por causa da grande pureza de ela ter sido concebida sem pecado original que o domínio que ela tinha sobretudo é um modelo para nós, e nós devemos também olhar para os nossos próprios temperamentos, corrigir aquilo que nosso temperamento tem pra ser corrigido,espelhar-nos em Nossa Senhora, que tinha a perfeição da sua alma e, sobretudo, fugir dos pecados recorrendo a ela que nunca pecou. Poderia ter pecado? Sim,poderia ter pecado porque é humana, mas não tinha inclinação nenhuma para o pecado, como Adão e Eva também não tinham e pecaram. Ela, ao contrário, a Nova Eva, vestida de humildade, revestida de pureza total foi um modelo para as nossas vidas para que nós possamos durante esse Advento meditar nas grandezas dos mistérios do Natal do seu Filho Salvador que nasce em Belém para nos salvar, para nos trazer a vida eterna, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Niterói, 02/12/2018

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