Constituição Dogmática Sobre A Fé Católica – DEI FILIUS

Concílio Vaticano I -Sessão III (24-04-1870) –  Papa Pio IX

Agora, porém, Nós, juntamente com todos os bispos do mundo que conosco governam a Igreja, congregados no Espírito Santo neste Concílio Ecumênico, sob a nossa autoridade, apoiados na palavra de Deus, quer escrita quer transmitida por Tradição, conforme a recebemos santamente conservada e genuinamente exposta pela Igreja Católica, resolvemos professar e declarar, desta cátedra de Pedro, diante de todos, a salutar doutrina de Cristo, proscrevendo e condenando, com o poder divino a Nós confiado, os erros contrários.

Cap I. – Deus, Criador de todas as coisas

A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber [cân. 1-4].

Este único e verdadeiro Deus, por sua bondade e por sua virtude onipotente, não para adquirir nova felicidade ou para aumentá-la, mas a fim de manifestar a sua perfeição pelos bens que prodigaliza às criaturas, com vontade plenamente livre, criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo [IV Concílio de Latrão].

Tudo o que Deus criou, conserva-o e governa-o com sua providência, atingindo fortemente desde uma extremidade a outra, e dispondo de todas as coisas com suavidade [cf. Sb 8,1 ]. Pois tudo está nu e descoberto aos seus olhos [Hb 4,13 ], mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas.

Cap. II – A Revelação

A mesma Santa Igreja crê e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas; pois as perfeições invisíveis tornaram-se visíveis depois da criação do mundo, pelo conhecimento que as suas obras nos dão dele [Rm 1,20 ]; Mas que aprouve à sua misericórdia e bondade revelar-se a si e os eternos decretos da sua vontade ao gênero humano por outra via, e esta sobrenatural, conforme testemunha o Apóstolo: Havendo Deus outrora falado aos pais pelos profetas, muitas vezes e de muitos modos, ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo Filho [Hb 1,1 s ; cân. 1].

A esta revelação divina deve-se certamente atribuir o poder em todos, mesmo nas condições atuais do gênero humano, conhecer expeditamente, com firme certeza e sem mistura de erro, aquilo que nas coisas divinas não é de per si inacessível à razão humana. Contudo, não se deve dizer que a revelação é absolutamente necessária por este motivo, mas porque Deus, em sua infinita bondade, ordenou o homem para o fim sobrenatural, isto é, para participar dos bens divinos, que estão inteiramente acima da compreensão humana; pois nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem penetrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que o amam [1Cor 2,9 ; cân. 2 e 3].

Esta revelação sobrenatural, porém, segundo a doutrina da Igreja universal, definida pelo Concílio Tridentino, está contida nos livros e nas tradições não escritas que, recebidas pelos Apóstolos da boca do próprio Cristo, ou que transmitidas como que mão em mão pelos próprios Apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo, chegaram até nós [Concílio Tridentino]. E estes livros do Antigo e do Novo Testamento, inteiros e com todas as suas partes, conforme vêm enumerados no decreto do mesmo Concílio e se encontram na antiga edição latina da Vulgata, devem ser aceitos como sagrados e canônicos. E a Santa Igreja os tem como tais, não por terem sido redigidos somente por obra humana e em seguida aprovados pela sua autoridade, nem somente por conterem a revelação isenta de erro, mas porque, escritos soba inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor, e como tais foram confiados à mesma Igreja [cân. 4].

Todavia, já que o salutar decreto dado pelo Concílio Tridentino sobre a interpretação da Sagrada Escritura para corrigir espíritos petulantes é erradamente exposto por alguns, Nós, renovando o mesmo decreto, declaramos que o seu sentido é que, nas coisas da fé e da moral, pertencentes à estrutura da doutrina cristã, deve-se ter por verdadeiro sentido da Sagrada Escritura aquele que foi e é mantido pela Santa Madre Igreja, a quem compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação da Sagrada Escritura; e que, por conseguinte, a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada Escritura contrariamente a este sentido ou também contra o consenso unânime dos Santos Padres.

Cap. III – A fé

Visto que o homem depende inteiramente de Deus como seu Criador e Senhor, e que a razão criada está inteiramente sujeita à Verdade incriada, somos obrigados a prestar, pela fé, à revelação de Deus, plena adesão do intelecto e da vontade [cân. 1]. Esta fé, porém, que é o início da salvação humana, a Igreja a define como uma virtude sobrenatural pela qual, inspirados e ajudados pela graça, cremos ser verdade o que Deus revelou, não devido à verdade intrínseca das coisas, conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus, autor da revelação, que não pode enganar-se nem enganar [cân.2]. Pois, segundo o testemunho do Apóstolo, a fé é o fundamento firme das coisas esperadas, uma prova das coisas que não se vêem [Hb 11,1 ].

Não obstante, para que a homenagem de nossa fé estivesse em conformidade com a razão [cf. Rm 12,1 ], quis Deus ajuntar ao auxílio interno do Espírito Santo os argumentos externos da sua revelação, isto é, os fatos divinos, e sobretudo os milagres e as profecias, que, por demonstrarem abundantemente a onipotência e a ciência infinita de Deus, são sinais certíssimos as revelação divina, acomodados que são à inteligência de todos [cân. 3 e 4]. Foi por isso que Moisés, os profetas e principalmente o próprio Jesus Cristo fizeram muitos e manifestíssimos sinais e profecias; e dos Apóstolos lemos: Eles, porém, partiram e pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a sua palavra com os sinais que a acompanhavam [Mc 16,20 ]. E em outro texto se lê: E temos ainda mais firme a palavrados profetas, à qual fazeis bem de atender, como a uma candeia que alumia em um lugar tenebroso [ 2Pd 1,19 ].

Embora, porém, a adesão da fé não seja de modo algum um movimento cego do espírito, ninguém, contudo, pode crer na pregação evangélica, como se exige para conseguira salvação, sem a iluminação e a inspiração do Espírito Santo, que a todos faz encontrar doçura em consentir e crer na verdade [Concílio II Arausicano]. Pelo que, [já] a própria fé em si, embora não opere pela caridade [cf. Gl 5,6 ], é um dom de Deus, e o seu exercício é um ato salutar, pelo qual o homem presta livre obediência ao próprio Deus, prestando consentimento e cooperação à sua graça, à qual poderia resistir [cân. 5].

Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus.

Como, porém, sem a fé é impossível agradar a Deus [Hb 11,6 ] e chegar ao consórcio dos seus filhos, ninguém jamais pode ser justificado sem ela, nem conseguir a vida eterna se nela não permanecer até o fim [Mt 10,22 ;24,13 ]. E para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja, e a muniu com os sinais manifestos da sua instituição, para que pudesse ser por todos reconhecida como guarda e mestra da palavra revelada.

Porquanto somente à Igreja Católica pertencem todos os caracteres, tão numerosos e tão admiravelmente estabelecidos por Deus para tornar evidente a credibilidade da fé cristã. Além disso, a Igreja em si mesma, pela sua admirável propagação, exímia santidade e inesgotável fecundidade em todos os bens, pela sua unidade católica e invicta estabilidade, é um grave e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho irrefragável da sua missão divina. Donde resulta que a mesma Igreja, como um estandarte que se ergue no meio das nações [Is 11,12 ], não só convida os incrédulos a entrarem no seu grêmio, mas também garante a seus filhos que a fé que professam se baseia em fundamento firmíssimo. A este testemunho acresce o auxílio eficaz da virtude do alto. Porquanto o benigníssimo Senhor excita e ajuda com a sua graça os que vagueiam no erro, a fim de poderem chegar ao conhecimento da verdade [1Tm 2,4 ]. E aos que chamou das trevas à luz maravilhosa [1Pd2,9 ], confirma-os com sua graça, para que permaneçam nesta mesma luz, não os abandonando senão quando primeiro abandonado por eles. Pelo que, de maneira alguma é igual a condição daqueles que, pelo dom celeste da fé, abraçaram a verdade católica, e dos que, levados por opiniões humanas, seguem uma religião falsa; pois os que receberam a fé sob o Magistério da Igreja, jamais poderão ter justa razão de alterar ou por em dúvida esta mesma fé [cân. 6]. E por isso, dando graças a Deus Pai, que nos fez idôneos de participar da sorte dos santos na luz [Cl 1,12 ], não menosprezemos tão grande vantagem, mas, pondo os olhos em Jesus, autor e consumador da fé [Hb 12,2 ], conservemos firme a profissão da nossa esperança [Hb 10,23 ].

Cap. IV – A fé e a razão

O consenso constante da Igreja Católica tem também crido e crê que há duas ordens de conhecimento, distintas não só por seu princípio, mas também por seu objeto; por seu princípio, visto que numa conhecemos pela razão natural, e na outra pela fé divina; e por seu objeto, porque, além daquilo que a razão natural pode atingir, propõe-se-nos a crer mistérios escondidos em Deus, que não podemos conhecer sem a revelação divina [cân. 1]. E eis porque o Apóstolo, que assegura que os gentios conheceram a Deus por meio das suas obras [Rm 1,20 ], discorrendo, todavia, sobre a graça e verdade que foram anunciadas por Jesus Cristo [cf. Jo 1,17 ], diz: Falamos da sabedoria de Deus em mistério, que fora descoberta e que Deus predestinou antes dos séculos, para nossa glória. A qual nenhum dos poderosos deste mundo conheceu…, a nós, porém, o revelou Deus pelo seu Espírito; porque o Espírito tudo penetra, também as coisas profundas de Deus [1Cor 7,8-10 ]. E o próprio Unigênito glorifica ao Pai, porque escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos [cf. Mt 11,25 ].

Em verdade, a razão, iluminada pela fé, quando investiga diligente, pia e sobriamente, consegue, com a ajuda de Deus, alguma compreensão dos mistérios, e esta frutuosíssima quer pela analogia das coisas conhecidas naturalmente, quer pela conexão dos próprios mistérios entre si e com o fim último do homem; nunca, porém, se torna capaz de compreendê-los como compreende as verdades que constituem o seu objeto próprio, pois os mistérios divinos, por sua própria natureza, excedem de tal modo a inteligência criada, que, mesmo depois de revelados e aceitos pela fé, permanecem ainda encobertos com os véus da mesma fé, e como que envoltos em um nevoeiro, enquanto durante esta vida vivermos ausentes do Senhor; pois andamos guiados pela fé, e não pela contemplação [2Cor 5,6 s ].

Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, jamais pode haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer à verdade. A vã aparência de tal contradição nasce principalmente ou de os dogmas da fé não terem sido entendidos e expostos segundo amente da Igreja, ou de se terem as simples opiniões em conta de axiomas certos da razão. Por conseguinte, definimos como inteiramente falsas qualquer asserção contrária a uma verdade de fé [V Concílio de Latrão].

Ademais a Igreja, que juntamente com o múnus apostólico de ensinar recebeu o mandato de guardar o depósito da fé, tem também de Deus o direito e o dever de proscrevera ciência falsa [1Tm 6,20 ], a fim de que ninguém se deixe embair pela filosofia e por sofismas pagãos [cf. Cl 2,8 ; cân 2]. Eis por que não só é vedado a todos os cristãos defender como legítimas conclusões da ciência tais opiniões reconhecidamente contrárias à fé, máxime se tiverem sido reprovadas pela Igreja, mas ainda estão inteiramente obrigados a tê-las por conta de erros, revestidas de uma falsa aparência de verdade.

E não só não pode jamais haver desarmonia entre fé e a razão, mas uma serve de auxílio à outra, visto que a reta razão demonstra os fundamentos da fé, e cultiva, iluminada com a luz desta, a ciência das coisas divinas; e a fé livra e guarda a razão dos erros, enriquecendo-a de múltiplos conhecimentos. Por isso a Igreja, longe de se opor ao cultivo das artes e das ciências humanas, até as auxilia e promove de muitos modos. Porquanto não ignora nem despreza as vantagens que delas dimanam para a vida humana; pelo contrário, ensina que, derivando elas de Deus, o Senhor das ciências [1Rs 2,3 ], se forem bem empregadas, conduzem para Deus, com o auxílio de sua graça. Nem proíbe [a Igreja] que tais disciplinas, dentro de seu respectivo âmbito, façam uso de seus princípios e métodos próprios; mas, reconhecendo embora esta justa liberdade, admoesta cuidadosamente que não admitam em si erros contrários à doutrina de Deus ou ultrapassem os próprios limites, invadindo e perturbando o que é do domínio da fé.

Pois a doutrina da fé, que Deus revelou, não foi proposta ao engenho humano como uma descoberta filosófica a ser por ele aperfeiçoada, mas foi entregue à Esposa de Cristo como um depósito divino, para ser por ela finalmente guardada e infalivelmente ensinada. Daí segue que sempre se deve ter por verdadeiro sentido dos dogmas aquele que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido, nem a título de uma inteligência mais elevada, afastar-se deste sentido [cân. 3]. Cresçam, pois, e multipliquem-se abundantemente, tanto em cada um como em todos, tanto no homem individual como em toda a Igreja, segundo o progresso das idades e dos séculos, a inteligência, a ciência e a sabedoria, mas somente no seu gênero, isto é, na mesma doutrina, no mesmo sentido e no mesmo pensamento [ Vicente de Lirino, Commonitorium, nº 28. ML 50, 668 (c. 23)].

Cânones [sobre a fé católica]
Sobre Deus, Criador de todas as coisas

Cân. 1 – Se alguém negar que há um só Deus verdadeiro, Criador e Senhor das coisas visíveis e invisíveis – seja excomungado [cf. nº 1782].

Cân. 2 – Se alguém não envergonhar de afirmar que além da matéria nada existe – seja excomungado [cf. nº 1783].

Cân. 3 – Se alguém disser que a substância ou essência de Deus é a mesma que a substância ou essência de todas as coisas – seja excomungado [cf. nº 1782].

Cân. 4 – Se alguém disser que as coisas finitas tanto as corpóreas como as espirituais, ou ao menos as espirituais, emanaram da substância divina; ou que pela manifestação ou evolução da essência divina se originaram todas as coisas; ou, finalmente, que Deus é um ser universal ou indefinido, que, ao ir-se determinando, daria origem à universalidade das coisas, distinta em gênero, espécie e nos indivíduos – seja excomungado.

Cân. 5 – Se alguém não professar que o mundo e todas as coisas nele contidas, quer espirituais, quer materiais, foram por Deus tiradas do nada segundo toda a sua substância [ cf. nº 1783]; ou disser que Deus criou, não com vontade inteiramente livre, mas com a mesma necessidade com que se ama a si mesmo [cf. nº 1783]; ou negar que o mundo foi feito para a glória de Deus – seja excomungado.

Sobre a revelação

Cân.1 – Se alguém disser que o Deus uno e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas – seja excomungado [cf. nº 1785].

Cân. 2 – Se alguém afirmar ser impossível ou ao menos inconveniente que o homem seja instruído por revelação divina sobre Deus e o culto a ele devido – seja excomungado [cf. nº 1786].

Cân. 3 – Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus guindado a um conhecimento e perfeição que excedam o natural, mas que [o homem] deve por si mesmo, progredindo sempre, chegar finalmente a possessão de toda a verdade e de todo o bem – seja excomungado.

Cân. 4 – Se alguém não admitir como sagrados e canônicos os livros da Sagrada Escritura, inteiros e com todas as suas partes, conforme foram enumerados pelo sacrossanto Concílio de Trento, ou lhes negar a inspiração divina – seja excomungado.

Sobre a fé

Cân. 1 – Se alguém afirmar que a razão humana é de tal modo independente, que Deus não possa impor-lhe a fé – seja excomungado [cf. nº 1789]

Cân. 2 – Se alguém disser que a fé divina não se distingue do conhecimento natural de Deus e da moral, e que portanto para a fé divina não se requer que a verdade revelada seja crida por causa da autoridade de Deus que a revela – seja excomungado [cf. nº 1789].

Cân. 3 – Se alguém disser que a revelação divina não pode tornar-se mais compreensível por meio de sinais externos, e que portanto os homens devem ser motivados à fé só, pela experiência interna individual ou por inspiração privada – seja excomungado [cf. nº1790].

Se alguém disser que não pode haver milagres, e que portanto todas as narrações deles, também as contidas na Sagrada Escritura, se devem relegar ao reino da fábula e do mito; ou disser que os milagres nunca podem ser conhecidos com certeza, nem se pode por eles provar a origem divina da religião cristã – seja excomungado [cf. nº 1790].

Cân. 5 – Se alguém disser que o assentimento à fé cristã não é livre, mas resulta necessário dos argumentos da razão humana; ou disser que a graça de Deus só é necessária para a fé viva, que opera pela caridade [Gl 5,6 ] – seja excomungado [cf. nº 1795 s].

Cân. 6 – Se alguém afirmar ser idêntica a condição dos fiéis e a daqueles que ainda não chegaram a fé única e verdadeira, assim que os católicos possam ter justa razão para duvidar da fé que abraçaram sob o Magistério da Igreja, suspendendo o assentimento até terem concluído a demonstração científica da credibilidade e veracidade da sua fé – seja excomungado [cf. nº 1795 s].

Sobre a fé e a razão

Cân. 1 – Se alguém disser que na revelação divina não nenhum mistério verdadeiro e propriamente dito, mas que todos os dogmas da fé podem ser compreendidos e demonstrados pela razão, devidamente cultivada, por meio dos princípios naturais – seja excomungado [cf. nº 1795 sq].

Cân. 2 – Se alguém disser que as ciências humanas devem ser tratadas com tal liberdade que as suas conclusões, embora contrárias à doutrina revelada, possam ser retidas como verdadeiras e não possam ser proscritas pela Igreja – seja excomungado [cf. nº 1797-1799].

Cân. 3 – Se alguém disser que às vezes, conforme o progresso das ciências, se pode atribuir aos dogmas propostos pela Igreja um sentido diverso daquele que ensinou e ensina a Igreja – seja excomungado [cf. nº 1800].

Por isso Nós, cumprindo o supremo ofício pastoral que nos cabe exercer, pedimos insistentemente pelas entranhas de Jesus Cristo a todos os fiéis cristãos, especialmente aos chefes e aos que exercem o ofício de ensinar, e mandamos, com a autoridade do mesmo Deus e Salvador nosso, que se esforcem por eliminar e afastar da Santa Igreja tais erros, e por difundir a luz da fé pura e verdadeira.

Porém, já que não é possível evitar a heresia, a não ser fugindo também daqueles erros que se aproximam mais ou menos dela, lembramos a todos o dever de observar também as Constituições e os Decretos pelos quais esta Santa Sé proscreve e proíbe tais opiniões perversas, que não vêm aqui enumeradas.

A terra boa que dá bom fruto é a virtude sobrenatural

Do sermão de Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, várias vezes no evangelho Nosso Senhor usa a metáfora da semente. Na missa de hoje nós estamos diante de duas sementes diferentes: a boa semente e a semente maligna, a erva daninha, a cizânia que, depois, entrou na linguagem comum como sendo uma palavra designando a rixa, a briga, a confusão, ou seja, a erva má realmente.

Acontece que nessa missa de hoje a semente boa é a semente do trigo. Essas duas sementes representam a nossa vida, representam aquilo que nós deveríamos ser – a boa semente – e, aquilo que de fato nós somos quando nascemos – uma semente ruim, uma natureza contaminada, uma natureza ferida pelo pecado original. É mais ou menos assim que nós podemos entender essas duas sementes opostas, esses dois mundos diferentes que se duelam um contra o outro dentro de nós. Porque nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, nós fomos feitos para conhecer e amar a Deus para sempre na eternidade. Essa é a boa semente. Esta semente plantada pelo senhor, pelo pai de família, por Deus quando cria em Adão e Eva a humanidade com a finalidade de levá-los à gloria eterna, à transformação. Uma transformação completa do nosso ser na luz beatífica, e então não haverá mais cizânia, não haverá mais semente ruim nenhuma. No céu não existe isso. O Céu é um trigal amarelado pronto para ser colhido pelos ceifadores.

Mas infelizmente essa natureza que Deus criou em nós com a capacidade de conhecer e amar, com essa capacidade de ter a inteligência das coisas, com a capacidade de possuir o bem porque rechaçamos o mal, tudo isso Deus pôs nessa sementinha do trigo que é a nossa alma espiritual. Então, quando Adão e Eva estavam lá no Paraíso terrestre estavam dormindo, ou seja, desatentos, o demônio tentou Eva e ela caiu, e Adão caiu, e o pecado original foi realizado, imediatamente a cizânia foi plantada dentro do coração do homem. E se não fosse a bondade e a misericórdia de Deus eles teriam sido fulminados nessa hora, por causa da infinitude do pecado. Um ato contra a bondade de Deus criador, um ato contra a bondade de Deus restaurador que queria levá-los para a visão beatífica. Nada indicava que o homem deveria ter se inclinado para aquele orgulho terrível de querer ser igual a Deus, de querer ser Deus. Não pode! Nós hoje sabemos que não pode, mas eles lá não entenderam. Estavam dormindo e o inimigo plantou essa semente da cizânia. Exatamente assim aconteceu quando Eva viu aquela serpente subindo pela árvore oferecendo um fruto: “Coma desse fruto. Que beleza de fruto saboroso. Bom para a vista, bom para o paladar”. E Eva caiu desgraçadamente no pecado e, ainda, levou seu marido, que não deveria ter caído.

Então, naquela natureza que era toda voltada para o conhecimento e o amor de Deus, introduz-se o lado ruim, essa inclinação perversa que nós herdamos dos nossos primeiros pais. Somos devedores de um pecado e marcados, manchados por esse pecado e não poderíamos resistir ao inferno se não fosse pela bondade de Nosso Senhor que envia Seu filho para resgatar o gênero humano morrendo na cruz por nós.

Duas tendências na nossa natureza: uma no trigo e a outra na cizânia.

Em outra passagem do evangelho, Nosso Senhor mostra o que acontece quando nossas vidas se desenvolvem de acordo com o bem e o que acontece com nossas almas quando nossa vida se desenvolve de acordo com o mal. Ia o semeador pelo caminho semeando sua semente e uma parte da semente caiu na beira da estrada e foi comida pelos pássaros, outra parte caiu no meio do pedregulho e secou por causa da falta de umidade, outra parte caiu no meio dos espinhos e foi sufocada por eles; mas, diz Nosso Senhor, uma parte caiu na terra boa e deu fruto. Cem por um. Cem por um é muita coisa! Cem por um é uma grandeza muito grande nos frutos que nós poderíamos tirar se nossa alminha, nossa sementinha tivesse caído numa terra boa. Ela pode cair numa terra boa, basta nós praticarmos a virtude. Essa terra boa que dá bom fruto é a virtude sobrenatural, o resultado do batismo que nos traz a fé, a esperança e a caridade. Essa é a sementinha que cai na terra boa. Não nos interessam as outras! Não nos interessa que os pássaros do céu venham comer a sementinha que Deus plantou para nós, não nos interessa que ela brote, mas não tenha umidade e logo ela seca ou que ela seja sufocada pelos espinhos, ou seja, Nosso Senhor diz, os deleites da vida, as preocupações com o mundo. Também nessa parábola a semente tem uma função específica, não pela natureza decaída, mas pela natureza boa que Deus quer ver no céu, na sua eternidade, desenvolvida na caridade. Tudo isso está presente também nessa outra parábola, do semeador com sua semente, mas há uma terceira parábola em que Nosso Senhor fala também da semente que é aquela sementinha da mostarda, a menorzinha de todas as sementes que é lançada na terra e quando ela cresce vira uma árvore a ponto de que os pássaros do céu vêm fazer seus ninhos. E isso aí já não é mais comparação entre a vida má e a vida boa, esse é o resultado real da nossa vida quando nós vivemos na graça.

É para isso que Deus nos criou. É para isso que Deus manteve a Terra com tantos bilhões de homens ao longo de todos esses milhares de anos. Para que aquela semente que ele plantou se torne uma grande árvore. Para que todos os irmãos venham em volta. Para que as árvores se conheçam uma à outra para que os pássaros do céu venham fazer seus ninhos.

A vida da virtude, a vida do bem. A beleza daquilo que acontece na alma. Numa alma inclinada para o pecado, que tem essa tara dentro de si e, no entanto, vive da graça, dos sacramentos, do amor de Deus. Não há nada mais lindo na Terra, diz Santa Catarina de Sena, do que uma ama em estado de graça. Se nós víssemos o que é uma alma em estado de graça, morreríamos diante da beleza que é isso porque é o céu presente aqui na nossa Terra. Então cabe a cada um de nós vermos como nós vamos tratar essa sementinha que Deus plantou numa terra boa para que ela dê fruto de cem por um, se desenvolva e os pássaros do céu venham fazer seus ninhos, para que cresça em nossos corações a fé, a esperança e a caridade. Nós acabamos de ouvir São Paulo dizendo: cuidado com as relações entre vocês, cuidado com as rixas e as dissensões porque devemos viver preocupados com o próximo, com os pássaros que virão nos galhos da nossa alma para fazer seus ninhos, para ter uma boa relação conosco e toda a nossa vida deve ser centrada nesta vida de caridade. Partindo de Deus, da oração, da graça nós desenvolvemos em nós essa beleza espiritual que atrai as almas, as amizades espirituais e, mais do que tudo, atrai Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo, lá do alto do céu, olha para nós propício, inclinado a nos perdoar se ele encontra em nós estes atos de caridade que marcam a vida do católico. Não sejamos uma erva daninha, uma árvore que dá mal fruto, porque será cortada e lançada ao fogo. Sejamos uma boa semente que no final dos nossos dias será ceifada e levada ao celeiro de Deus, que é o céu, o paraíso.

Sejamos, então, um bom fruto, esse pão da vida. Estejamos em comunhão com Jesus Cristo que é o pão da vida. Sejamos um só trigo com ele, moído no amor da caridade para fazermos o alimento espiritual que será para nós a vida eterna, a contemplação de Deus no paraíso, essa união de amor completa e total que nós teremos para com Deus e para com todos os eleitos, todos os anjos do céu. O céu é uma grande festa, um grande banquete, para lá nós devemos nos dirigir. Basta nós praticarmos as virtudes, fugirmos de nós mesmos, do nosso defeito, do nosso pecado para procurarmos em Deus o resultado dessa semente que cresce e nos conduz para a vida eterna.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Niterói, 10 de fevereiro de 2019

A pena perpétua do inferno não contradiz à justiça divina

Não contradiz à justiça divina sofrer alguém a pena perpétua, porque nem as leis humanas exigem que as penas sejam medidas pelo tempo para serem adequadas à culpa. Ora, para os pecados de adultério, de homicídio, cometidos que são em breve tempo, a lei humana impõe, às vezes, o exílio perpétuo, ou até mesmo a morte, pela qual para sempre o criminoso é afastado da sociedade. Se o exílio não é perpétuo, isso é por acidente, porque a vida humana não é perpétua, mas parece que a intenção do juiz é punir o criminoso perpetuamente. Por isso, também não é injusto se, para um pecado feito momentaneamente no tempo, Deus impuser uma pena eterna.

Deve-se também considerar que ao pecador é inflingida pena eterna, mas somente àquele que não se arrepende do pecado, e, assim, nele, o pecado perdura até a morte. E porque na sua intenção peca para sempre, é razoável que Deus o puna eternamente.

Além disso, cada pecado cometido contra Deus tem um certo grau infinito, se considerarmos que ele é cometido contra Deus. É certo que quanto mais importante é a pessoa contra quem se peca, tanto mais grave é o pecado: considera-se de maior gravidade dar uma tapa num militar, que num camponês; e, de muito maior gravidade, se for dada num príncipe ou no rei. Ora, sendo Deus de grandeza infinita, a ofensa contra Ele cometida, é, de certo modo, infinita. Logo, a pena devida a essa ofensa deve ser também, de certo modo, infinita.

Essa pena, porém, não pode ser infinita de modo intensivo, porque nada de criado é infinito em intensidade. Resta, por conseguinte, que ao pecado mortal é devida uma pena de duração infinita.

Ademais, ao que pode ser corrigido, a pena temporal lhe é imposta para a correção ou purificação. Se, portanto, alguém não mais pode ser corrigido do pecado, porque a sua vontade está obstinadamente firme no pecado, como acontece com os condenados acima descritos, a sua pena não pode também ter fim.


Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino, Capítulo CLXXXIII