A terra boa que dá bom fruto é a virtude sobrenatural

Do sermão de Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, várias vezes no evangelho Nosso Senhor usa a metáfora da semente. Na missa de hoje nós estamos diante de duas sementes diferentes: a boa semente e a semente maligna, a erva daninha, a cizânia que, depois, entrou na linguagem comum como sendo uma palavra designando a rixa, a briga, a confusão, ou seja, a erva má realmente.

Acontece que nessa missa de hoje a semente boa é a semente do trigo. Essas duas sementes representam a nossa vida, representam aquilo que nós deveríamos ser – a boa semente – e, aquilo que de fato nós somos quando nascemos – uma semente ruim, uma natureza contaminada, uma natureza ferida pelo pecado original. É mais ou menos assim que nós podemos entender essas duas sementes opostas, esses dois mundos diferentes que se duelam um contra o outro dentro de nós. Porque nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, nós fomos feitos para conhecer e amar a Deus para sempre na eternidade. Essa é a boa semente. Esta semente plantada pelo senhor, pelo pai de família, por Deus quando cria em Adão e Eva a humanidade com a finalidade de levá-los à gloria eterna, à transformação. Uma transformação completa do nosso ser na luz beatífica, e então não haverá mais cizânia, não haverá mais semente ruim nenhuma. No céu não existe isso. O Céu é um trigal amarelado pronto para ser colhido pelos ceifadores.

Mas infelizmente essa natureza que Deus criou em nós com a capacidade de conhecer e amar, com essa capacidade de ter a inteligência das coisas, com a capacidade de possuir o bem porque rechaçamos o mal, tudo isso Deus pôs nessa sementinha do trigo que é a nossa alma espiritual. Então, quando Adão e Eva estavam lá no Paraíso terrestre estavam dormindo, ou seja, desatentos, o demônio tentou Eva e ela caiu, e Adão caiu, e o pecado original foi realizado, imediatamente a cizânia foi plantada dentro do coração do homem. E se não fosse a bondade e a misericórdia de Deus eles teriam sido fulminados nessa hora, por causa da infinitude do pecado. Um ato contra a bondade de Deus criador, um ato contra a bondade de Deus restaurador que queria levá-los para a visão beatífica. Nada indicava que o homem deveria ter se inclinado para aquele orgulho terrível de querer ser igual a Deus, de querer ser Deus. Não pode! Nós hoje sabemos que não pode, mas eles lá não entenderam. Estavam dormindo e o inimigo plantou essa semente da cizânia. Exatamente assim aconteceu quando Eva viu aquela serpente subindo pela árvore oferecendo um fruto: “Coma desse fruto. Que beleza de fruto saboroso. Bom para a vista, bom para o paladar”. E Eva caiu desgraçadamente no pecado e, ainda, levou seu marido, que não deveria ter caído.

Então, naquela natureza que era toda voltada para o conhecimento e o amor de Deus, introduz-se o lado ruim, essa inclinação perversa que nós herdamos dos nossos primeiros pais. Somos devedores de um pecado e marcados, manchados por esse pecado e não poderíamos resistir ao inferno se não fosse pela bondade de Nosso Senhor que envia Seu filho para resgatar o gênero humano morrendo na cruz por nós.

Duas tendências na nossa natureza: uma no trigo e a outra na cizânia.

Em outra passagem do evangelho, Nosso Senhor mostra o que acontece quando nossas vidas se desenvolvem de acordo com o bem e o que acontece com nossas almas quando nossa vida se desenvolve de acordo com o mal. Ia o semeador pelo caminho semeando sua semente e uma parte da semente caiu na beira da estrada e foi comida pelos pássaros, outra parte caiu no meio do pedregulho e secou por causa da falta de umidade, outra parte caiu no meio dos espinhos e foi sufocada por eles; mas, diz Nosso Senhor, uma parte caiu na terra boa e deu fruto. Cem por um. Cem por um é muita coisa! Cem por um é uma grandeza muito grande nos frutos que nós poderíamos tirar se nossa alminha, nossa sementinha tivesse caído numa terra boa. Ela pode cair numa terra boa, basta nós praticarmos a virtude. Essa terra boa que dá bom fruto é a virtude sobrenatural, o resultado do batismo que nos traz a fé, a esperança e a caridade. Essa é a sementinha que cai na terra boa. Não nos interessam as outras! Não nos interessa que os pássaros do céu venham comer a sementinha que Deus plantou para nós, não nos interessa que ela brote, mas não tenha umidade e logo ela seca ou que ela seja sufocada pelos espinhos, ou seja, Nosso Senhor diz, os deleites da vida, as preocupações com o mundo. Também nessa parábola a semente tem uma função específica, não pela natureza decaída, mas pela natureza boa que Deus quer ver no céu, na sua eternidade, desenvolvida na caridade. Tudo isso está presente também nessa outra parábola, do semeador com sua semente, mas há uma terceira parábola em que Nosso Senhor fala também da semente que é aquela sementinha da mostarda, a menorzinha de todas as sementes que é lançada na terra e quando ela cresce vira uma árvore a ponto de que os pássaros do céu vêm fazer seus ninhos. E isso aí já não é mais comparação entre a vida má e a vida boa, esse é o resultado real da nossa vida quando nós vivemos na graça.

É para isso que Deus nos criou. É para isso que Deus manteve a Terra com tantos bilhões de homens ao longo de todos esses milhares de anos. Para que aquela semente que ele plantou se torne uma grande árvore. Para que todos os irmãos venham em volta. Para que as árvores se conheçam uma à outra para que os pássaros do céu venham fazer seus ninhos.

A vida da virtude, a vida do bem. A beleza daquilo que acontece na alma. Numa alma inclinada para o pecado, que tem essa tara dentro de si e, no entanto, vive da graça, dos sacramentos, do amor de Deus. Não há nada mais lindo na Terra, diz Santa Catarina de Sena, do que uma ama em estado de graça. Se nós víssemos o que é uma alma em estado de graça, morreríamos diante da beleza que é isso porque é o céu presente aqui na nossa Terra. Então cabe a cada um de nós vermos como nós vamos tratar essa sementinha que Deus plantou numa terra boa para que ela dê fruto de cem por um, se desenvolva e os pássaros do céu venham fazer seus ninhos, para que cresça em nossos corações a fé, a esperança e a caridade. Nós acabamos de ouvir São Paulo dizendo: cuidado com as relações entre vocês, cuidado com as rixas e as dissensões porque devemos viver preocupados com o próximo, com os pássaros que virão nos galhos da nossa alma para fazer seus ninhos, para ter uma boa relação conosco e toda a nossa vida deve ser centrada nesta vida de caridade. Partindo de Deus, da oração, da graça nós desenvolvemos em nós essa beleza espiritual que atrai as almas, as amizades espirituais e, mais do que tudo, atrai Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo, lá do alto do céu, olha para nós propício, inclinado a nos perdoar se ele encontra em nós estes atos de caridade que marcam a vida do católico. Não sejamos uma erva daninha, uma árvore que dá mal fruto, porque será cortada e lançada ao fogo. Sejamos uma boa semente que no final dos nossos dias será ceifada e levada ao celeiro de Deus, que é o céu, o paraíso.

Sejamos, então, um bom fruto, esse pão da vida. Estejamos em comunhão com Jesus Cristo que é o pão da vida. Sejamos um só trigo com ele, moído no amor da caridade para fazermos o alimento espiritual que será para nós a vida eterna, a contemplação de Deus no paraíso, essa união de amor completa e total que nós teremos para com Deus e para com todos os eleitos, todos os anjos do céu. O céu é uma grande festa, um grande banquete, para lá nós devemos nos dirigir. Basta nós praticarmos as virtudes, fugirmos de nós mesmos, do nosso defeito, do nosso pecado para procurarmos em Deus o resultado dessa semente que cresce e nos conduz para a vida eterna.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Niterói, 10 de fevereiro de 2019

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