Os primeiros passos para o tempo de penitência

Sermão de Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, é sempre impressionante nós entrarmos na igreja e o padre estar vestido de roxo. Aquelas felicidades e alegrias do Natal começam a dissipar-se. Já vinham diminuindo com os paramentos verdes do tempo depois da epifania e agora nós entramos já nessa seriedade que o roxo nos traz.

Temos penitências a fazer

A Quaresma está chegando e a Igreja nos apresenta três semanas de preparação para a preparação. A Quaresma é preparação para a Páscoa, preparação para a nossa conversão. E o tempo da septuagésima que engloba a septuagésima que é hoje, sexagésima que é domingo que vem, e a quinquagésima que é o domingo dentro do carnaval, estes três domingos preparam nossos espíritos para iniciarmos a Quaresma sem muitas delongas, sem diminuições daquele foco que nós devemos ter na conversão. Temos penitências a fazer, então nós já começamos a amansar um pouquinho as festas e os prazeres para nos lembrarmos: daqui a pouco estaremos fazendo penitência, uma séria penitência. Precisamos por causa de nossas próprias almas, precisamos nos converter. Precisamos também por causa de nossos queridos parentes, a esposa, o marido, os filhos ou outras pessoas da família. Precisamos de penitência por causa das pessoas que nos envolvem quando nós estamos diante de Nosso Senhor no altar. Todos da capela, essa família espiritual que forma-se em torno desse altar, nós temos obrigações uns para com os outros. Mas também devemos fazer penitência por todo o mundo. E um mundo que abandonou Nosso Senhor, um mundo que não suporta mais o verdadeiro evangelho. E quando eu digo que o mundo não suporta mais o verdadeiro evangelho, eu não falo apenas dos pagãos, mesmo os católicos de hoje já não suportam mais o evangelho, já não aceitam mais nem mesmo as leis da Igreja, quanto mais o Decálogo que nos impõe regras de vida, moral, e que os homens estão muito longe de cumprir.

O evangelho dos operários da vinha

São Gregório Magno divide o tempo da humanidade em diversas épocas, cada uma delas correspondendo a um desses operários: os que vão trabalhar na primeira hora, os que vão na terceira hora, na hora sexta, na hora nona, na undécima hora, que é o tempo da Igreja. Eu gostaria de resumir rapidamente dizendo que nós temos um primeiro tempo da humanidade, que é Adão e Eva. Fomos criados em Adão e Eva. Dogma de fé, deixe-me lembrar. Não é estória para pessoas muito simples, que não entendiam nada do que se dizia, então Moisés teria inventado essa estorinha para as crianças. Não é assim, não! Dogma de fé católico: Adão e Eva existiram. Nós temos obrigação de crer porque está revelado assim.

A presença de Deus o tempo todo no Paraíso terrestre

O tempo de Adão e Eva antes do pecado é o primeiro tempo da humanidade. É um tempo de uma certa felicidade, é verdade. Imaginem o que era aquele Paraíso terrestre. Não é apenas por causa dos frutos maravilhosos que eles comiam, das águas brilhantes daqueles córregos… Não era apenas pelo fato de que, inocentes, eles viviam sem roupas. Eles não precisavam, não tinha malícia no coração deles. Não era pelo fato de que eles dominavam o conhecimento de toda natureza pela ciência infusa, que é própria dos anjos, e que Adão e Eva tinham como dom preternatural. Não é pelo fato de que eles eram imortais ou que eles não podiam sofrer ou ficar doentes… O principal do Paraíso terrestre era Deus. Era a presença de Deus o tempo todo com Adão e Eva. Aparecia na brisa da tarde todos os dias Deus para conversar com Adão. Esse era o ambiente espiritual no qual viveram nossos primeiros pais. Não se sabe muito bem quanto tempo isso durou, mas foi tempo suficiente para que Adão tivesse visto passar todos os animais na frente dele, para que ele tivesse dado nome a cada um dos animais. E o nome corresponde à essência de cada animal. Foi tempo suficiente para que Deus adormecesse Adão e tirasse Eva da sua costela e que apresentasse Eva no primeiro casamento da humanidade. Que beleza de casamento! Naquele ambiente espiritual, naquela presença divina, Deus conduz sua filha primeira pela nave da natureza para apresentar a Adão e formar o primeiro casal. E dali todos nós nascemos. Não havia pecado, não havia sombra de pecado, não havia tendência para o pecado. Tudo era na inocência e na felicidade.

Deus não queria isso, essa felicidade ainda era pouco para Deus. Deus não queria isso para Adão e Eva, Deus queria Ele próprio, que Ele fosse o paraíso, a vida eterna de Adão e Eva, o conhecimento infuso e o conhecimento beatífico, que é muito maior do que o conhecimento infuso. Então pediu apenas uma coisinha: não coma desse fruto. Vocês conhecem muito bem a história, não vou narrar tudo. Eles caem desgraçadamente pela tentação do demônio, de satanás, daquela serpente que aparece para Eva e que toca no ponto fraco dela que era o orgulho.

O segundo tempo da humanidade

Então começa com o pecado original o segundo tempo da humanidade que, de certa forma, durará até o último dia. É o tempo em que o pecado entrou no mundo. Nós sabemos que o pecado ainda está no mundo, então não terminou esse segundo tempo da humanidade, o tempo do pecado. Com o pecado, toda aquela maravilha do paraíso terrestre desmancha-se, tudo desaparece, tudo explode. Sabe quando as crianças veem esses filmes em que os lugares maravilhosos de repente destroem-se, caem prédios e tudo em cima de todo mundo? Então, foi mais ou menos assim. Não é pura imaginação não, foi assim que aconteceu e o resultado disso foi um tremendo deserto. Ali onde estava o paraíso terrestre hoje é um grande deserto, nada brota, tudo queima. Nós sabemos o que é tudo queimar, nesse mês de dezembro nós tivemos um exemplo do que é um deserto, tudo queimou aqui em Niterói. Mas lá foi muito pior porque além de ter perdido as florestas, além de ter perdido os frutos maravilhosos e os animaizinhos e todo aquele conhecimento infuso e toda aquela ciência que eles tinham, perderam Deus. Perderam a presença de Deus, aquela coisa maravilhosa, o maior trunfo do paraíso eles jogaram fora. Deus retirou-se da presença de Adão e Eva, já não vinha mais conversar na brisa da tarde.

O pecado dos filhos de Adão e Eva – o nosso pecado

Adão ficou só, ele e Eva. Tiveram filhos e os filhos foram desgraça para eles porque Caim matou Abel, e entrou na humanidade, então, o novo pecado, não mais de Adão e Eva, mas os pecados dos filhos de Adão e Eva. E esse pecado terrível de Caim é o nosso pecado. Cada vez que nós cometemos um pecado deveríamos ter na nossa frente Caim matando seu irmão, porque não é diferente. Qualquer pecado mortal afasta Deus de nós, rouba o Paraíso do nosso coração e Caim, mais uma vez, mata o seu irmão Abel, dentro de nós.

Esse é o regime em que o mundo estava vivendo e era uma regime de condenação, um regime de inferno, um regime de castigo eterno. Esse foi o resultado desse terrível pecado de Adão e Eva, e estaria assim o mundo se Deus não tivesse tido misericórdia. Se Deus não tivesse pensado em restaurar aquele paraíso, não mais o terrestre, agora o Paraíso do Céu, em devolver aos homens uma capacidade, uma possibilidade de voltar atrás, bater no peito e dizer “perdão, Senhor, tende piedade de mim, pobre pecador”, como nós vemos no evangelho do publicano e do fariseu. Olhando para o chão, sem ousar levantar os olhos, ele batia no peito e dizia “perdão, Senhor, tende piedade de mim, pecador” e nós todos estamos presentes em Caim matando Abel e no publicano chorando seus pecados.

Acontece que, no meio dessa desgraça do pecado que dura até hoje, desse mundo de pecados em que nós assistimos atônitos por que razão os homens não saem desse mar de pecados, por que razão eu não saio desse mar de pecados, por que temos essa concupiscência que nos empurra para os prazeres ilícitos, que nos empurra para todos tipo de pecado, para querer coisas maravilhosas como se nós tivéssemos ainda saudades daquele paraíso perdido que nos empurra sobretudo para o orgulho, para a soberba da vida que nos torna deuses e nós respondemos à serpente como Eva respondeu “serei como Deus, eu quero ser como Deus”. Cada vez que a soberba bate em nosso coração, é o pecado de Eva que nós estamos refazendo.

O regime do pecado e o regime da salvação

Então no meio dessa tendência toda, Deus promete o salvador. Deus envia o salvador e Jesus Cristo se encarna no seio da Virgem Maria. Está solucionada a humanidade, não completamente. Porque é verdade que ele veio, é verdade que ele morreu na cruz por nós, é verdade que ele trouxe a solução, mas agora depende de nós. Agora nós temos as duas coisas, nós temos as duas idades, nós temos Caim e nós temos Abel. É verdade que não é só Caim, agora nós temos Abel também, o sucessor de Abel, o inocente, aquele que oferece um sacrifício que é aceito por Deus, o sucessor de Abraão, aquele que oferece seu próprio filho Isaac sobre o altar do sacrifício e todos os patriarcas, então, serão de alguma forma imagem, figura, tipo daquele Jesus Cristo que virá do seio da Virgem Maria para efetivamente morrer na cruz e nos salvar. Então, hoje, os dois regimes estão presentes: o regime do pecado e o regime da salvação. Esse é o tempo que nós vivemos, o tempo em que nós continuamos miseráveis, continuamos pecando, continuamos com orgulho no nosso coração, continuamos matando Abel em nós, continuamos matando Jesus Cristo em nós. Mas, ao mesmo tempo, temos o resultado da vinda d’Ele que são os sacramentos da Igreja, que é a própria Igreja os trazendo o único canal de graças que nos resta que é a cruz de Nosso Senhor.

Aquele que tenta fugir da cruz encontra a desgraça na sua vida

Então a cruz é plantada dentro da nossa vida no dia em que somos batizados. O batismo apaga o pecado original e planta cruz. Nós não estamos livres da confusão, não estamos livres da contradição. É então em torno da cruz que nós vamos passar toda a nossa vida. E aquele que tenta fugir da cruz encontra a desgraça na sua vida, porque ela virá pior do outro lado. Nós temos que nos acostumar a sermos dóceis com os sofrimentos que Deus nos manda nessa vida, a sermos dóceis uns com os outros, olhar para o próximo, que seja a esposa, o marido, que sejam os filhos, que sejam papai e mamãe, qualquer um que esteja em torno de nós, temos que nos acostumar a olhar para eles com os olhos daqueles que esperam a salvação em Deus e aceitam a cruz. Porque nós é que somos cruz para os olhos dos outros, não eles para nós. Nós somos muito piores do que os outros, o próximo é sempre melhor do que nós. E nós podemos sempre melhorar, depende só de nós. Que os próximos que estão em torno de nós melhorem, depende deles. Mas, nós temos algo a fazer. Não apenas em melhorar para com eles, como também aceitar melhor os defeitos de cada um. Esse é o regime em que nós vivemos e quantas vezes nós queremos fugir da cruz. Quantas vezes nós queremos esquecer que somos operários… não sei mais de que hora nós somos operários. Uns vieram cedo, já batizados, se formaram na religião e continuaram a sua vida toda. Outros vieram tarde, se converteram já adultos. Talvez tenham chegando hoje na capela e descoberto então que existe ainda catolicismo na face da terra, porque lá fora já acabaram com tudo.

A visão beatífica

Acontece que essa vida que nós vivemos vai acabar. Todos nós passamos pela morte, todos nós imitamos Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi o primeiro que morreu efetivamente. Todos morreram antes de Cristo, mas não para ir para o Céu. O Céu estava fechado! Jesus morre e abre o Céu para que nós e todos os antigos, e todos os futuros, pudéssemos encontrar aquele paraíso perdido, mas agora renovado agora em Deus, a vida eterna, a visão beatífica. Agora já não haverá mais fruto proibido, agora é apenas o gozo eterno da felicidade em Deus. A visão beatífica que tudo enche. Não há mais busca de ciência desse mundo, não queremos mais a partícula de Deus, não queremos saber como que tudo começou e quando que a vida foi posta sobre a terra… Nós sabemos isso pela revelação, mas os cientistas jamais poderão saber isso. Lá nós veremos toda a verdade em Deus, na visão beatífica. E essa felicidade já não será mais a conversa de Deus conosco na brisa da tarde, será a conversa de Deus conosco o tempo todo, o dia inteiro, o único dia da eternidade. Nós estaremos lá! Esse é o pagamento que o pai de família faz. Chama seu mordomo e paga a todos os seus operários. E nós receberemos esse pagamento se formos fiéis no nosso trabalho, se não reclamarmos porque os outros receberam também, se estivermos mais olhando para a bondade daquele dono da vinha que nos assalariou do que para a comparação com o próximo, querendo bater, querendo matar, querendo ser Caim matando seu irmão Abel.

Tempo de penitência e início de uma conversão verdadeira

Que lição de vida! O que podemos nós mais pedir a Deus, senão esse evangelho de hoje? O que precisamos nós mais do que isso para sabermos como agir no dia a dia, em cada momento da nossa vida?

Está tudo resumido nesse evangelho de hoje: sermos melhores, mudarmos interiormente, convertermo-nos com a ajuda da graça, com a ajuda dos sacramentos, com a ajuda da Virgem Maria. E que ela possa realmente olhar para nós como mãe. Porque ainda tem isso: nesse Paraíso nós temos mãe. Adão e Eva nem isso tinham. E nós ainda temos a Mãe de Deus que está olhando por nós no seu trono, esperando e chamando, e querendo que nós estejamos com ela.

Então que seja esse início de tempo de penitência o início de uma conversão verdadeira. E quando chegar Quarta-feira de cinzas, o Primeiro Domingo da Quaresma, nós estejamos já empenhados em conversão, já tenhamos feito retiro espiritual. Aqueles que não vão pro retiro, que passem esse carnaval retirados em casa, rezando, lendo, e não nesses mundanismos pecaminosos que os homens inventaram para si. Peçamos então a Nossa Senhora essa graça de começarmos os primeiros passos do tempo de penitência e que o roxo seja agradável para nós, trazendo para nós a conversão e a vida eterna. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!

Niterói, 17/02/2019

Um comentário em “Os primeiros passos para o tempo de penitência”

  1. Todos os sermões dele são extraordinários! Melhor ainda é estar lá e escutar ele falando!!!

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