Senhor, eu quero ser essa boa terra

Sermão de Dom Lourenço Fleichman

Caríssimos irmãos, nós falávamos outro dia sobre as três sementes. E uma delas nos é apresentada na Missa de hoje. No evangelho, Nosso Senhor tem o cuidado de falar sobre a semente, o que é a semente, e de falar sobre a terra que recebe essa semente, quais os tipos de recepção nós damos a essa semente que é a Palavra de Deus. Mas Ele não explica muito sobre o semeador.

A encarnação de Cristo é a semente sendo lançada nessa terra

Quem é o semeador? Claro, nós sabemos: o semeador é Deus. Mas, como Deus, se Deus não tem campo, nem semente, nem instrumentos para semear? Deus não colhe. Deus, lá na sua eternidade, simplesmente é. “Eu sou Aquele que sou”. Então nós podemos dizer: Deus é o semeador: sim. Mas, Deus é o semeador não jogando a semente lá do Céu. Ele traz as sementes através da encarnação. A encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo é que é o lançamento das sementes sobre esta vida para que nós possamos recebê-la.

Existem dois modos de Nosso Senhor Jesus Cristo lançar esta semente sobre toda a humanidade. E toda a humanidade vai recebê-la de um modo diverso. O primeiro é pela própria encarnação. O fato de Nosso Senhor ter se encarnado, o Verbo de Deus – a semente é o Verbo de Deus, a Palavra de Deus semeada entre nós. Nosso Senhor é o Verbo de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ele se encarna, ele recebe uma natureza. O fato de Ele ter vindo ao mundo é a semente sendo jogada no mundo, Ele é a palavra semeada para que nós possamos nos salvar. Então, o primeiro modo de Deus semear o seu campo através de um homem – porque Ele mesmo não tem campo, nem semente – é Nosso Senhor Jesus Cristo que, como homem, vai semear essa semente. É através da própria encarnação. Ele recebe a nossa natureza, e aí já é a semente sendo lançada nessa terra.

A palavra revelada também é semeada na terra através da Sua Igreja

Mas acontece que existe um segundo modo de a semente de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Palavra que Ele é, a realidade íntima do próprio Cristo que é Deus revelado, esta palavra revelada, também é semeada na terra através da Sua Igreja. Ele veio, Ele morreu na cruz, Ele pregou o evangelho, aquela palavra foi semeada por toda a terra, mas depois Ele voltou pro Céu. Ele subiu pro Céu e reina no Seu trono de glória sobre tudo aquilo que acontece aqui na terra. E Ele faz isso através da Sua Igreja. Nas mãos da santa Igreja Ele deixa essa ordem, essa autoridade, esse poder de continuar semeando a Palavra de Deus, continuar ensinando, pregando, santificando, corrigindo, salvando. Então, dois modos de como Jesus Cristo nos envia a semente que é a Sua própria palavra, que é o Seu próprio ser. Ele mesmo vindo, encarnando-se e, Ele mesmo dando à Sua Igreja, ao Papa, aos bispos, a toda essa hierarquia católica, a toda união de caridade que une aqueles fiéis que um dia saíram de uma pia batismal e formam membros da Igreja, todo esse Corpo Místico de Cristo também semeia a semente que é a Palavra de Deus.

E é por isso, por ser do Céu, que essa semente é algo de maravilhoso. Por ser divina, por ser revelação, não depende da nossa ciência, não depende de nós concordarmos ou discordarmos, não depende de nós abrirmos a semente pra ver o que tem no núcleo dela e saber se realmente era boa semente, que vai germinar ou não. Ele falou e esta semente é a Sua Palavra. Ela entra em nossos ouvidos, e aí é que entra a dificuldade: como que nós vamos ouvir esta Palavra de Deus, esta semente que é semeada no nosso campo? Como estrada? Como pedrugulho? Como espinho? Ou como terra boa? É claro que nós todos queremos ser uma boa terra onde a semente frutifica e dá frutos cem por um. Todos nós queremos isso. Todos nós temos uma veleidade, uma primeira inclinação de dizer: “bom, eu sou católico, fui batizado, fiz primeira comunhão, recebo Jesus na eucaristia, então eu quero sim ser uma boa terra para dar frutos cem por um. Eu quero ir pro Céu”. Mas, muitas vezes esse “querer ir pro Céu” é meio fraquinho. Quero ir pro Céu, mas tantas coisas boas que o mundo me oferece são os espinhos. Nosso Senhor explicou aos apóstolos sobre os espinhos que trazem todas essas coisas boas e sufocam aquela plantinha que acaba de brotar daquela boa semente de Deus. E aí nós recuamos e não vamos adiante, não assumimos o papel real de um católico que crê com todas as forças de sua alma “Jesus Cristo é Deus, Filho de Deus encarnado, Segunda pessoa da Santíssima Trindade, que nos traz a salvação”. Nós nos esquecemos dessas coisas porque somos levados por muitos afazeres, somos levados por muitas coisas do mundo. Ou então, nem isso: se for no meio do pedregulho não tem a unidade do batismo, não tem nem a água do batismo para nos salvar. E se for no meio da estrada, as sementes não caem em terra nenhuma, são as aves do céu vêm comer e os homens pisoteá-las.

Imaginem a luz de Deus no Céu

Tudo isso é a realidade e nós devemos então renovar em nossos corações um certo adubo que precisa ser colocado na terra para que, de fato, ela seja uma terra boa. E que é esse adubo? Como que a Igreja – porque é a Igreja que hoje nos traz isso – como que ela vai alimentar essa terra para que ela possa frutificar em nós essa palavra divina, maravilhosa, espetacular, que converte, que nos transforma, que nos faz um só com Cristo para que nós possamos ingressar no Paraíso e continuarmos para toda a eternidade sendo um só com Ele, numa vida de caridade, de felicidade, de amor, de visão, de conhecimento. A ciência beatífica, a ciência da luz do Céu, imaginem o que pode ser isso. Qualquer luz um pouco diferente que nós vemos nesse mundo já nos encanta, imaginem a luz de Deus no Céu. Todos nós deveríamos almejar alcançar essa visão, ver com os nossos olhos uma luz maravilhosa que cativa nossa alma e nos faz ficar para toda a eternidade simplesmente olhando para ela. É isso que nós devemos fazer. E quando nós aceitamos ficar toda a eternidade simplesmente olhando para ela, brota em nosso coração o amor, o verdadeiro amor de Deus, aquele que é o Espírito Santo alimentando nossas almas. E lá no Céu! Isso no grau máximo que cada um de nós vai poder amar. Amarmos no infinito, amar com o próprio amor divino… o que mais nós podemos desejar senão isso?

Dedicar um tempo considerável às coisas de Deus

Adubo? O adubo é a oração. O adubo é o sacrifício. O adubo são os sacramentos da Igreja. São essas coisas que nos alimentam. E se nós temos a perseverança de rezar todos os dias – e de rezar de verdade, não é fazer três Ave-Marias correndo na hora que acorda e pronto, esquece de Deus o resto do dia. É rezar mesmo. Dedicar um tempo considerável às coisas de Deus, então Ele vai se aproximando de nós. Ele vai crescendo dentro de nós, Ele vai dando frutos dentro de nós. Se nós pensarmos nos pequenos sacrifícios que nós temos condições de oferecer todos os dias em união com Jesus crucificado. Por que razão temos que exigir todos os nossos direitos, se nós não valemos nada. Se alguém fosse investir em nós, se Deus lá no alto do Céu dissesse assim: vou investir naquele coração. Vamos ver o quanto custa, vamos ver o valor de mercado daquele coração. Ele só ia encontrar dívidas. E vendo aquele grande buraco de dívidas na nossa alma, Ele diria: Eu vou colocar meu dinheiro naquele coração que se degradou pelos pecados, que se tornou uma grande dívida, porque Eu faria isso? Qual interesse que eu tenho em fazer isso? Mas Ele vai e faz: morre e paga a nossa dívida. Essa é a realidade da nossa alma, é assim que nós vivemos. E é por isso que nós temos que olhar para o Céu e dizer: “Senhor, eu quero ser essa boa terra. Fazei com que minhas pobres orações, aquele terço que eu rezo todos os dias – é verdade que não é todos os dias, tem dias que eu não rezo, é verdade que faz dois meses que eu não rezo – fazei que aquele terço que eu rezo todos os dias comece amanhã. Amanhã eu começo a rezar o terço todo dia. É mais ou menos assim que funciona a nossa vida. Mas nós podemos mudar isso.

Olhar para o Céu com esperança

Nós podemos olhar para o Céu com esperança, nós podemos saber que Ele vem para nos levantar com sua direita santa. Nós sabemos que Ele pode nos dar uma força nova, e aí sim, nós rezarmos o terço todos os dias, porque aquele que reza vai pro Céu e o que não reza vai pro inferno. Não tem como sem oração, sem sacrifícios nós corrigirmos os defeitos da nossa alma. Não tem como sem nós pararmos a correria do dia e nos dedicarmos a Ele, pelo amor d’Ele, pelo louvor d’Ele, pela ação de graças… não tem como nós recuperarmos aquela grande dívida que Ele pagou por nós, mas exige que nós estejamos à altura dela.

Peçamos então a Nossa Senhora, ela é proprietária do campo. Nosso Senhor prega a palavra e ela dá à luz a Ele para que se torne semente, para que aquela palavra frutifique dentro de nós. Então ela tem todo interesse em fazer com que seu campo seja fértil, maternal. E ela vem então nos alimentar com a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus, para que nós possamos mudar um pouquinho nossa vida, mudar nossas considerações, nossas intenções e recebermos da Igreja aquele adubo que fará com que nós possamos receber essa semente, a Palavra Divina, a palavra que converte, a palavra que eleva, a palavra que nos conduz ao Paraíso e vermos esses cem por um de frutos que nos foi prometido, e que é verdade, é a pura realidade. Eis que nós aceitamos o trabalho da santificação. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!

Niterói, 24/02/2019

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