Ocasiões em que parece não termos mais forças para resistir

Por São Francisco de Sales

A Providência de Deus é admirável e infinita. Intervém em tudo e tudo faz reverter em glória Sua. Deus fornece aos homens todos os meio necessários para chegarem ao seu fim.  O sol comunica a sua luz e virtude a todo o universo. Sem ele não haveria beleza nem bondade neste mundo corpóreo.

A Providência e a Bondade divinas animam todas as almas para a sua salvação e convidam todos os corações para o seu amor e serviço, sem que ninguém se subtraia às suas celestes influências. Com esta intenção Deus nos fez à Sua imagem e semelhança pela encarnação, depois da qual sofreu a morte para remir e salvar toda a raça humana.

É fora de dúvida que devíamos contemplar cem vezes por dia esta amorosa Providência de Deus que tem sempre o seu coração voltado para nós.

Deus meu, quanto prazer deviam ter as nossas inteligências, nos frequentes pensamentos da vossa divindade, pois que é tão boa, tão bela e tão doce para conosco e tão disposta a comunicar-se soberanamente!

Ah, quanto Deus nos ama! Como nos protege e conduz suavemente! Quer que sejamos seus. Não procuremos pois outros braços para descansar  senão os da Sua Divina Providência. Não espalhemos ao longe a nossa vista e não descansemos o espírito senão n’Ele. Contentemo-nos de sermos governados por ele. Não pensemos tanto em nós e vivamos sempre ao sabor da Sua Divina Providência. Tudo irá muito bem se a nossa alma não seguir outro caminho e os nossos negócios sairão bem quando Deus nos assistir. Pode morrer a criança quando estiver nos braços de um Pai poderosíssimo?

Nada desejeis. Deixai-vos, bem como todos os vossos negócios, aos cuidados da Providência Divina. Deixai-a fazer de vós o que quiser, assim como as criancinhas se deixam governar por suas mães. Leve-vos no seu braço direito ou esquerdo, como queira. Uma criança não tem escolha. Deite-vos ou levante-vos, deixai-a obrar, porque é uma boa Mãe que sabe melhor o que nos convém do que nós mesmos. Quero dizer que se a Providência divina permitir que vos sucedam aflições e mortificações, não as recuseis, mas aceitai-as de bom grado, amorosa e tranquilamente. E se as não envia, não as desejeis, e preparai assim o vosso coração para receber os acidentes diversos da Providência Divina. Não digo só na doçura e paz das prosperidades, o que cada um sabe fazer, mas nas tempestades e desventuras, o que é próprio dos filhos de Deus. Arme-se contra mim o céu, amotinem-se a terra e os elementos. Declarem-me guerra todas as criaturas. Nada temo. Basta-me saber que estou com Deus e que Deus está comigo.

Volte-nos Nosso Senhor para a direita ou para a esquerda. Aperte-nos e dê-nos cem voltas, como Jacó. Volte-nos de um lado para outro, dê-nos mil males. Não o deixaremos contudo sem nos dar a Sua eterna benção. Nunca o nosso bom Deus nos abandona senão para melhor nos reter. Nunca nos deixa senão para nos guardar melhor. Nunca luta conosco, senão para se entregar a nós e nos abençoar.

Ó Deus, que felicidade é resignarmo-nos assim à vontade do nosso doce Salvador, por um abandono do nosso ser ao Seu bom juízo e à Sua santa Providência! Como seríamos felizes, se submetendo a nossa vontade à Deus, o adorássemos quando nos envia tribulações como no tempo das consolações, crendo que os diversos sucessos que nos envia a Sua divina mão,são para utilidade nossa, para nos purificar na Sua santa caridade!

Embarquemo-nos, pois, no mar da Providência divina, sem alimentos, sem remos, sem velas, e finalmente sem preparativo algum. Mas deixemos a Nosso Senhor todo o cuidado dos nossos negócios, sem réplica nem temor algum. A Sua bondade suprirá tudo.

Nosso Senhor ensinou-me a confiar na Sua Providência divina desde a minha juventude, e se tornasse a nascer, quereria deixar-me governar, até nas coisas mínimas, por Ele, com uma simplicidade de criança e um desprezo profundo de toda prudência humana. É para mim um grande gosto caminhar com os olhos fechados, conduzido pela Providência. Os Seus desígnios são impenetráveis, mas sempre doces e suaves para os que n’Ele confiam. Deixemos pois conduzir a nossa alma, que está no seu barco, e ele nos levará a bom porto. Felizes os que confiam no que pode como Deus  e quer com Pai dar-nos tudo o que é bom. Desgraçados pelo contrário os que põem a sua confiança na criatura. Esta compromete tudo, dá pouco e faz pagar caro o que dá.

Finalmente, já que a Providência divina é assim para conosco, sejamos por tal forma seus que a ninguém pertençamos senão a Ele, porque ninguém pode servir a dois senhores.

A Providência não difere o seu socorro senão para provocar a nossa confiança. Se nosso Pai Celeste não nos concede tudo o que pedimos, é para nos conservar perto de Si e dar-nos lugar a impeli-la por uma doce violência, como o fez bem notar aos dois peregrinos de Emaús, com os quais não parou senão ao declinar do dia e quando eles o obrigaram. Nada nos separe pois do seu amor. Esteja o nosso coração lânguido, moribundo ou vivo, nenhuma vida tenha senão n’Ele e por Ele, e seja Ele sempre o Deus do nosso coração.

Ruja embora a tempestade, não morrereis porque estais com Jesus. Se vos assaltar o temor, gritai: “Ó meu Salvador, salvai-me!” Dar-vos-á a mão, apertai e ide contentes sem filosofar sobre o vosso mal. Enquanto São Pedro confiou, não o submergiu a tempestade. Mas quando temeu, afogou-se.

O temor é um mal ainda maior que o próprio mal. Quanto a mim, há ocasiões em que me parece não ter mais forças para resistir, e que se se apresentasse a ocasião, sucumbiria. Mas então mais confio em Deus, e por mais certo tenho que em presença da ocasião Deus me revestiria com a Sua força e devoraria os meus inimigos como argueiros.

Espero que Deus vos fortificará cada vez mais, e nos pensamentos ou antes tentações de tristeza, pelo receio de que o vosso furor e atenção não durem sempre, respondei uma vez por todas, que os que confiam em Deus não serão confundidos, e que tanto relativamente ao espírito como ao corpo, se entregais a Deus os vossos cuidados, Ele vos sustentará. Sirvamos pois hoje a Deus e Ele amanhã providenciará. Cada dia terá seu cuidado. Não vos lembreis de amanhã, porque Deus, que reina hoje, reinará amanhã. Ou não vos enviará males, ou se vos enviar, dar-vos-á a coragem precisa para os suportar. Se sois tentados, não desejeis ser livres das tentações. É bom que as experimentemos pra termos ocasião de as combater e colher vitórias. Isto serve para praticar as virtudes mais excelentes e estabelecê-las solidamente na alma.

Por conseqüência, tende os olhos erguidos para Deus. Engrandecei a coragem na santa humildade, fortificai a sua doçura, confirmai-a na igualdade, tornai o vosso espírito perfeitamente senhor das tendências e paixões, não permitais que as apreensões reinem em vossas almas. Tenho atravessado muitos caminhos com a divina graça. A mesma graça se vos apresentará nas ocasiões seguintes e vos livrará das dificuldades e maus caminhos, embora tivesse de mandar um anjo para vos conduzir aos sítios mais perigosos.

Não volteis a vista para as enfermidades e fraquezas, senão para humilhardes e nunca para desanimardes. Vede muitas vezes Deus à vossa direita e os dois anjos que vos destinou, um para a vossa pessoa e outra para a direção da vossa família. Pedi-lhes que vos forneçam ordinariamente o conhecimento da vontade divina, que contemplem as inspirações que Nossa Senhora quer que recebais de seu seio cheio de amor. Não contempleis esta variedade de imperfeições que vivem em nós e em todas as pessoas que Nosso Senhor e Nossa Senhora nos confiaram, senão pra vos conservar no santo temor de ofender a Deus, mas nunca para vos espantar, porque não é necessário examinar se cada erva e cada flor requerem o seu particular cuidado no jardim.

Da obra Pensamentos Consoladores

Quais são os deveres dos pais para com seus filhos?

Voltemos o olhar para a Sagrada Família, mais especialmente no mistério de Jesus encontrado no Templo pela Santíssima Virgem e por São José.

O primeiro dever é alimentá-lo. Por alimento, devemos entender todo o necessário para viver: alimentos, roupas, moradia. Desse modo, o pai de família deve trabalhar para atender às necessidades de sua família. Neste aspecto, cumpre ensinar à criança o dever da gratidão.

O segundo dever é instruí-lo. Há duas instruções: a comum, recebida na escola, e a religiosa, proporcionada com o catecismo. Jesus alude à segunda quando responde à Sua Mãe quando ela o encontra no Templo: “não devo me ocupar das coisas de meu Pai?”

A primeira instrução oferece à criança algumas “receitas” para a vida presente. Tem verdadeira importância e não se deve descuidar dela, porque ao filho instruído será mais fácil ganhar a vida. Mas a segunda instrução proporciona ao filho os meios para alcançar mais tarde a felicidade eterna. Essa última instrução, portanto, oferece ao filho o máximo bem, e é a mais necessária, já que dela depende sua eternidade, ditosa ou infeliz. Os pais que se descuidam dela são gravemente culpáveis (daí a importância da escolha de uma escola verdadeiramente católica).

O terceiro dever é educá-lo. Quer dizer, corrigi-lo e incentivá-lo, uma vez que a criança tem defeitos – inimigos de sua alma – assim como qualidades e talentos que devemos fazer frutificar. Esse não foi o caso da Santíssima Virgem e de São José, pois eles não tiveram jamais de corrigir o Menino Jesus. Ele só tinha virtudes. Mas Ele e Nossa Senhora foram as únicas crianças desse gênero; assim, o dever de todo pai é ter em conta aqueles dois elementos com vistas à educação da criança. O que diz a Santa Escritura a respeito? “Não poupes nada na correção do filho”. E em outra parte: “Um cavalo sem domar se torna insuportável, e a criança abandonada à sua vontade se torna insolente”.

Essas palavras se aplicam muito bem à criança malcriada. E creio que muitos pais criam mal seu filho descuidando-se desse terceiro dever. Não basta corrigi-lo; é preciso corrigi-lo bem, quer dizer, adequar o castigo à falta. Muito frequentemente tenho visto pais castigarem de maneira inconsiderada; pode-se ter certeza de que nesse caso o castigo não produzirá bons frutos, mas más consequências. Normalmente o castigo tem como primeira finalidade a correção e, portanto, deve ser proporcional à falta.

São Pedro Damião dizia: “Aquele que não repreende seus filhos quando roubam ovos, há de vê-los logo roubando cavalos. Quem no começo era só um ladrãozinho se tornará com o tempo um grande ladrão”.

Um provérbio diz: “Quem ama castiga”. Em geral, quando se leva a criança a reconhecer sua falta e a arrepender-se (a meu ver, isso é o mais importante), ela aceitará o castigo, pois as crianças têm um grande senso de justiça (a menos que já tenham sido deformadas nesse aspecto).

O quarto dever é dar bom exemplo. Tal pai, tal filho. Tal mãe, tal filha. A atitude dos pais é o livro com o qual os filhos se instruem. Um provérbio diz, com razão, que se aprende mais com os olhos do que com os ouvidos. O bom exemplo dos pais é o melhor catecismo do filho. Não basta que os pais evitem o mal; é necessário que façam o bem, que rezem a Deus de manhã e de noite, que assistam à Missa no domingo, que recebam regularmente os Sacramentos e que cumpram todos os deveres cristãos.

Pelas Irmãs da Fraternidade São Pio X, texto completo no link https://permanencia.org.br/drupal/node/5484