O pecado que escondermos na confissão é o pior de todos

Do sermão de Dom Lourenço Fleichman

A Missa de hoje começa nos falando da misericórdia de Deus. O evangelho nos fala dos pecadores. Evidentemente nós temos que unir as duas coisas.

A misericórdia de Deus para conosco, que somos pecadores

Nós somos uma dessas ovelhas perdidas, nós nos desgarramos também do rebanho de Nosso Senhor. Nossos pecados, nossas misérias, nossas imperfeições mesmo que são coisas da natureza. O pecado é um ato: eu vou lá e faço, contra os mandamentos de Deus. Desobedeço! Algo consciente, algo que eu sei e quero. Sou fraco e não consigo resistir, e caio.

Contra o pecado vem um ato, também meu, em que eu digo: “Não vou fazer!”. É claro que nosso ato sozinho às vezes não tem força pra isso, precisamos da graça de Deus. Precisamos da ajuda divina para poder impor ao ato pecaminoso um ato virtuoso que vai eliminar o pecado, e nós vamos dizer: “Não farei o pecado! Não pecarei!” Antes a morte que o pecado, dizia São Domingos Sávio. “Eu prefiro morrer do que cometer um pecado”. Quantos e quantos mártires morreram porque um imperador, um prefeito ou um pagão qualquer impunha a eles um ato de religião, um ato de idolatria, um ato em favor de um falso deus, e eles diziam: “Antes a morte do que o pecado!” E morriam! Morriam um atrás do outro. E nós não temos coragem nem mesmo de dar nossa vida por Nosso Senhor.

Ato de pecado se resolve com ato de virtude. A virtude contrária àquele pecado. A gente pratica e sai do pecado. A natureza é mais difícil. As imperfeições da natureza estão enraizadas. É um certo vinco da nossa alma, uma marca indelével na nossa alma que nos conduz a certos atos de imperfeição que podem gerar atos de pecados. Não necessariamente são pecaminosos, mas já são fraquezas, já são inclinações ruins, já são coisas que não são da perfeição da alma de Deus. Quando nós pensamos na alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pensamos na alma da Virgem Maria, imaculada, protegida contra o pecado original, aqui nós encontramos natureza perfeita, nós encontramos natureza em que todas as forças espirituais, todas as forças da inteligência, da vontade, ou seja, a razão, vão em favor do domínio de si para que não aconteça de se cair no pecado. Nós, não! Nós fomos marcados pelo pecado original. O pecado original é perdoado no batismo, apagado no batismo, mas a natureza continua imperfeita, continua caindo nessas misérias, nessas imperfeições. Significa que nós não podemos aperfeiçoar a nossa natureza? Não é verdade! Nós podemos aperfeiçoar. Mas, não nós. Não por um ato nosso. “Eu não vou mais ser preguiçoso!” Nós podemos repetir isso diante do espelho todos os dias e nós vamos continuar sendo preguiçosos se temos esse defeito na nossa alma. Ou violento que, de certa forma, é o contrário do preguiçoso. E por aí vai…

Como fazer para corrigir nossa natureza?

Nosso Senhor Jesus Cristo corrige. Aquilo que nós não podemos fazer por obra própria, nós pedimos. Pedimos humildemente, pedimos incessantemente, com perseverança e, Nosso Senhor talvez ouça a nossa oração. Talvez não logo no início, talvez demore. Mas, um dia, Ele ouve. Então nós vamos mudando, nós vamos tendo atitudes já não mais tão próximas daquelas imperfeições. De repente, as pessoas começam a ver que houve um crescimento espiritual. “Aquela pessoa era tão violenta, batia em todo mundo, xingava todo mundo. Agora, não. Agora se controla!” E a gente percebe nas pessoas que vivem da oração, que vivem e que pedem que Nosso Senhor venha em socorro. Nós percebemos essa melhora. Isso é patente. Dentro de casa, uma criança que é bem educada pelos seus pais, os pais percebem que a criança está melhorando. E essas são as realidades que nós podemos considerar para nós mesmos, nós podemos melhorar na nossa natureza. É evidente que uma natureza aperfeiçoada pela graça consegue impor atos de virtude contra os atos de pecado com mais facilidade porque a virtude vai se acumulando e as perfeições que são adquiridas pela perfeição ajudam as virtudes a serem praticadas. Mas, de um modo geral, nós olhamos para o nosso coração e percebemos a nossa grande fraqueza, percebemos que somos ovelhas desgarradas. Nosso Senhor então vem, deixa as noventa e nove lá no redil e vem em busca das nossas almas. E ao nos encontrar no meio do deserto, todos feridos pelo pecado, todos famintos pela fome de Deus, Ele nos toma nos seus ombros.

Voltando pra casa nos ombros de Nosso Senhor

Agora, imagine nossa situação de voltarmos para casa nos ombros de Nosso Senhor! Como não vem no coração de uma alma, de uma ovelha, um sentimento de agradecimento, de ação de graças, de reconhecimento, de abandono nas costas daquele Deus que nos sustenta? É assim que nós devemos nos considerar quando vemos a nossa miséria, os nossos pecados, a nossa fraqueza, mas, também vemos Jesus nos tomando nos ombros e nos carregando para casa. É necessário que haja em nossas almas um reconhecimento de que atitude? Nosso Senhor poderia perfeitamente, e seria justo, se Ele nos abandonasse no deserto. Seria justo se, por causa dos nossos pecados, nos largasse perdidos, morrendo de fome e de sede, sendo devorados pelos lobos. Não haveria injustiça nenhuma da parte de Deus porque nós merecemos isso por causa da gravidade dos pecados que nós cometemos. Um único pecado já tem valor infinito porque Deus é infinito. Então quando nós estamos nos ombros, o que nós podemos esperar senão um ato de misericórdia? Não de justiça, porque a justiça seria que Ele nos abandonasse, mas um ato de misericórdia. Que Deus olhe para nós com um olhar de misericórdia. Que Deus nos perdoe. Que Deus ouça o nosso grito de perdão: “Senhor, perdoai-me, eu não faço mais. Eu prometo que eu não faço mais”.

O orgulho pode tornar o pecado já cometido ainda maior

Então nós vamos vendo como que na nossa vida espiritual cabe entrarem aqueles elementos do ato próprio de misericórdia, que é o perdão. Deus precisa me perdoar dos meus pecados, mas como pode Deus perdoar os meus pecados se nem mesmo no confessionário eu quero ir? “Confessionário?! Eu estar ali falando todas as minhas misérias para um homem sentado ali do outro lado? Jamais da vida!”. Então o orgulho vem tornar aquele pecado maior ainda, porque nós não queremos nos confessar. É verdade, existe um constrangimento. Todos nós passamos por este constrangimento de revelar os segredos dos pecados que nós cometemos. Se fosse para revelar os segredos das virtudes, todo mundo ia pra internet para publicar. Mas os segredos do pecado machucam a gente. Então nós temos uma resistência e não queremos ir ao confessionário. Mas o confessionário é o sacramento que Jesus inventou para distribuir misericórdia, para ir ao deserto buscar a ovelha desgarrada. Então nós temos que obedecer a Ele. Vamos ao confessionário! O caminho da casa é o confessionário! Pois então estejamos no confessionário. […]

Regularmente nós precisamos de confissão. Precisamos de confissão porque caímos no pecado, somos fracos. E até quando Ele nos perdoará? Até quando Ele suportará a nossa indigência, a nossa fraqueza, a nossa fome, a nossa nudez? Até quando ele vai usar de misericórdia diante de um ato de justiça que para ele seria fácil, em que ele diria: “Largo essa alma no deserto porque merece estar no deserto”. E não é assim que Ele age. O confessionário está ali aberto todos os dias para que nós possamos pedir perdão dos nossos pecados. Então Ele realmente nos toma no ombro e nos leva pra casa.

O pecado que escondermos é o pior de todos

É claro que quando Nosso Senhor Jesus Cristo penetra na nossa alma no confessionário, quando nós estamos arrependidos dos pecados e que nós cumprimos aquele rito de declarar os pecados, a confissão dos pecados, todos os pecados, não podemos esconder. Se nós escondermos um é esse o pior de todos, é esse que nós temos mais vergonha e é esse que nós não queremos confessar, ou porque nós temos uma vergonha que não cabe diante do Salvador, daquele que dá sua vida por nós, ou porque nós não estamos tão arrependidos assim. Então é necessário que haja essa confissão tranquila, essa confissão como de quem está realmente tendo uma visão de Deus. Imagine se nós tivéssemos Nosso Senhor Jesus Cristo aparecendo para nós como apareceu para Santa Margarida Maria no Sagrado Coração de Jesus, imediatamente nós diríamos tudo: “Senhor eu entrego os pontos. Eu falo todos os meus pecados. Agora não tem mais homem nenhum atrás de mim, é apenas a Vós que eu quero dizer todos os meus pecados”. E nós diríamos.  Diríamos chorando todos os nossos pecados e Ele poria a mão sobre nossa cabeça e diria: “Teus pecados estão perdoados”. Mas, como não é Nosso Senhor Jesus Cristo que nós vemos, não é uma visão mística, é simplesmente um rito da Igreja, um rito da Igreja que ela recebeu de Cristo para trazer essa visão do perdão até o último dia para todos nós. Imagina! Imagina o que é estar vivendo no Século XXI, 2019, 2020, 2050, 2400…, não importa, já é muito longe d’Ele. Já passou muito tempo do tempo em que Jesus morreu na cruz e, no entanto, Jesus está presente diante de nós porque Ele deu pra Sua Igreja o Batismo, a Crista, a Eucaristia, a Confissão, a Extrema-Unção…, todos os sacramentos para que chegassem 2000, 3000, 1500 anos depois de Cristo chegasse até nós o eco do Seu sangue, que ecoa ainda hoje e que vibra ainda hoje nos corações por causa desses sete sacramentos que Ele deu para a Igreja. A Igreja tem autoridade para dizer eu te perdoo dos teus pecados. Como que a Igreja faz isso? Através de um sacerdote que é o próprio Cristo sentado no confessionário para ouvir os nossos pecados. Então não há a visão de Cristo, mas há a verdade de Cristo. Alter Christus, o sacerdote de Cristo que está ali emprestando os seus ouvidos para ouvir, que está ali sentado como um juiz no tribunal para julgar, e que está ali levantando sua mão para perdoar. E é necessário que nós passemos por isso, que nós tenhamos essa simplicidade de dizer ao sacerdote todos os nossos pecados por mais graves que sejam, porque haverá uma mão de Deus pousada sobre a nossa cabeça. A misericórdia de Deus imediatamente se aplica sobre nós e nós somos perdoados.

Sair do confessionário dizendo: eu não faço mais isso

É verdade que existem algumas necessidades no nosso ato de confissão. Primeira é o arrependimento, eu já falei sobre isso. Segundo é a confissão, também já falei. Terceiro: o bom propósito. É necessário que a gente saia do confessionário dizendo para si mesmo: “Eu não faço mais isso”. Aquele ato que é ato de virtude e que impõe a nós uma força nova, uma vitória nova sobre nós mesmos. E nós vamos dizer: “Eu não farei mais esse pecado”. É evidente que quando nós dizemos isso, é toda uma estrutura que gira em torno do pecado que deve desabar. Ela precisa ser destruída. Começando com a internet. Hoje o maior foco de pecado é a internet. Então desligue! É foco de pecado o celular? Quebre-o! Jogue-o fora! “Vou viver sem o celular? Não posso viver sem o celular! Não posso fazer aquele contatozinho eletrônico, antes de dormir vou ficar uma hora, duas horas, três horas, quatros horas… transmitindo, transmitindo…, e mensagens… e fofocas”. Aí, uma hora não aguenta mais e dorme. Isso tem que acabar porque é por aí que entra o pecado. É necessário que haja uma certa consciência da alma que sai do confessionário, de romper com essa doença. Que seja o celular, que seja a internet, que seja alguma outra coisa qualquer, pode ser um livro. Tudo isso são situações que nós devemos por diante de nós quando nós saímos do confessionário, com bom propósito; “Não faço mais esse pecado!”

Estando colocadas essas circunstâncias da boa confissão, cabe ainda um certo juízo da nossa parte de saber o que significa ir ao confessionário, quando a Igreja nos chama ao confessionário. E ela diz: quando o pecado é grave, quando o pecado é mortal. Se aquele pecado está na alma e, não arrependida na hora da nossa morte, nós vamos pro inferno. E essa realidade de ir pro inferno não pode existir, não é possibilidade para nós de ir pro inferno. Mas quando nós somos apegados a um pecado mortal, nós acabamos aceitando isso. Se alguém pergunta “você quer ir pro inferno?”, “Não, de jeito nenhum”, mas nos nossos atos nós estamos dizendo “Sim, eu vou pro inferno. Eu prefiro ir pro inferno porque eu não quero me desvencilhar desse vício, não aguento, não consigo”. E não temos recurso à oração. Não queremos nem rezar. Então o orgulho vai se fechando como um animal que estrangula, como um lobo que devora a ovelha no deserto. Então é necessário que haja da nossa parte uma compreensão, atitude forte que nós devemos ter, e o Divino Espírito Santo vem nessa hora com Seus dons sagrados para nos dar a força para vencer. […]

Então, que seja por causa da misericórdia de Nosso Senhor a transmissão desse sacramento do perdão, desse sacramento do amor de Deus nos perdoando, a Igreja, que passa pelo sacerdote, o nosso confessionário na medida certa para o nosso crescimento espiritual, que tudo isso esteja representado nesse Bom Pastor que toma nossas almas sobre os seus ombros e nos leva de volta para casa. De modo que essa casa seja um dia a casa definitiva do Céu. Que nós possamos estar com Nosso Senhor, aí sim, na glória de Deus para sempre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!

Niterói, 30/06/2019

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