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Preparação para a Quaresma: que ela venha como um santo exercício que nos é proposto para nossa santificação

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

Meus caríssimos irmãos, nós estamos às portas da Quaresma. Importa para nós prestarmos atenção nesses domingos de preparação para a Quaresma, de modo que chegando a quarta-feira de cinzas, ela não venha como carnaval, ela não venha como um dia qualquer, de mundanidades, mas ela venha como realmente um início de um santo exercício, o exercício que nos é proposto todos os anos pela Igreja para nossa santificação, para nossa conversão.

A igreja compreende muito bem as dificuldades que nós temos para levar adiante todos os dias do ano a graça de Deus, uma graça vibrante, uma graça iluminada. Ela sabe que nós somos atraídos covardemente pelo demônio, pelo mundo e pela carne: os nossos três inimigos. Então a Igreja nos propõe antes daquela passagem, antes daquela ressurreição, antes da Páscoa, que é necessário um tempo de penitência. E esse tempo de penitência é para valer, não é qualquer penitência. É para nós fazermos jejuns sim, e para tomarmos a mortificação como um critério de vida e fecharmos o nosso computador e fecharmos a nossa vida de festas e de churrascos na sexta-feira – porque hoje em dia só se faz churrasco na sexta-feira. Porque não é tempo de fazer churrasco, não é tempo de diversão, é tempo de penitência. Ou será que Jesus não morreu por nós? Ou será que a cruz de Nosso Senhor é apenas uma imagem que nós colocamos no altar? Ou talvez, quem sabe, em algum canto da casa, bem escondido?

 Domingo passado, septuagésima, a Igreja nos trouxe aquelas horas do dia, diversas horas do dia, para marcar como o pecado original atuou ao longo de nossa vida, como o pecado original marcou e nos desviou do caminho do Céu. Hoje, de modo um pouco semelhante, já não são mais as horas do dia, mas são as diversas situações em que a graça de Deus, não mais o pecado – agora é a solução do pecado – a graça de Deus, vai ser dada. A semente, o Verbo, a palavra que vem do Céu, a palavra que é Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, ela nos é oferecida como remédio para este mundo enlouquecido que nos arrasta para o pecado. E se arrasta para o pecado, arrasta para o inferno. 

 Nós somos devedores de Adão e Eva, nós somos devedores do seu pecado, o pecado original. Quando nós somos batizados, apaga o pecado original, mas a natureza continua inclinada para as concupiscências, e logo ela vai pecar. Então nós necessitamos desse mistério divino. O reino de Deus é um grande mistério, e nós temos que viver dentro dele para compreendermos como que nós fazemos para escapar da avalanche, para escapar do incêndio, para escapar do terremoto, que nos conduz ao inferno.

Então o Verbo de Deus sopra sobre a Terra, desde que Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou e nós acabamos de passar pelo mistério do Natal, desde que Ele nasceu entre nós, Ele distribui a todas as nossas almas o mistério do seu Verbo, o mistério da sua palavra divina. E Nosso Senhor diz aos discípulos “para vocês que conhecem o mistério – porque eu sou o mistério, eu sou a palavra encarnada – é uma coisa, para os outros eu falo em parábolas, para que ouvindo não ouçam, ouvindo não entendam”, “porque a fé vêm pelos ouvidos”, dirá São Paulo. Isso significa que nós temos que ter os ouvidos muito atentos, os olhos muito abertos para percebermos como que essa graça vai cair sobre as nossas almas, e em que situação da vida. 

Para que a Quaresma seja verdadeiramente uma Quaresma, é necessário a prática de certas virtudes, certas virtudes que nós esquecemos, deixamos de lado.

Então vejam, a palavra de Deus sopra nas nossas almas e cai no meio da estrada, calcada pelos homens, ou seja, eles passam pela estrada e deixam de lado, ninguém presta atenção. Significa nossas almas na indiferença religiosa, nossas almas que não querem prestar muita atenção nessa história de pecado, de graça, de céu e de inferno. “Ah, não é nada disso não, nós temos que aproveitar a vida”, e vai deixando passar o tempo sem oração, sem sacrifício, sem que haja realmente uma necessidade de olhar para o Céu e dizer “eu preciso conquistar este Céu”. Para o indiferente não é bem assim. “Deus é bom, Deus vai levar todo mundo para o Céu”. Pague para ver! Qual é a chance? Toda a revelação dizendo que não é assim, enquanto o mundo atual, ou seja, um grãozinho de tempo, completamente corrompido, dizendo que não tem nada disso não, que talvez nem Deus exista. Então nós pagamos para ver. Vamos para o Céu ou vamos para o inferno? Vamos praticar a virtude ou vamos praticar o vício? O vício gostoso, ah é!  O vício dá prazer”, dá! E é isso que nós vamos fazer, porque é o que  mundo fica colocando isso na internet todo dia para a gente. Se nós fizermos isso nós pereceremos para sempre. 

Então, contra a indiferença religiosa é necessário que haja no nosso coração força, fortaleza, paciência. Dará frutos na paciência, ou seja, saber sofrer. Saber sofrer junto com a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Começa já aquele mistério da palavra divina, entrando dentro de nós, para nós dizermos “a palavra não pode cair no meio da estrada, nós não podemos ser indiferentes a ela. Nós temos que, ao contrário, levá-la para terra boa”. 

Segundo caso, que Nosso Senhor apresenta “a palavra cai no pedregulho”. A palavra cai no pedregulho, porque o nosso coração é o pedregulho, somos nós que somos o pedregulho, nossa alma é o pedregulho. Ora, o pedregulho é o símbolo do orgulho. Não é que nós não recebamos o mistério, a palavra de Deus. Nosso Senhor diz “recebeu, recebeu mas não frutificou, foi sufocado, recebeu mas não deu frutos, porque não tinha umidade”. Ora, nós também somos assim. Quando a palavra de Deus cai em nossos corações e que nós, de alguma forma nos levantamos com essa índole de ser mais do que nós devemos ser, de querer ser mais inteligentes do que podemos ser, e querer achar que nós somos muito bons porque não matamos ninguém – como hoje em dia se diz assim “eu não mato ninguém, eu sou bom, vou para o céu, eu não mato ninguém”. Não, não é assim, o orgulho é a terceira concupiscência, a soberba da vida, é o mal do século XXI. A criancinha já olha para o pai dizendo “sei mais do que você”, o jovem já chega para o professor e diz assim “ você não entende nada”, e esse orgulho vai brotando e vai crescendo. Mas Nosso Senhor diz “eu falo em parábolas, para que eles ouçam e não entendam”. E é aí que está: Eles acham que sabem, mas não sabem nada, são ignorantes! São ignorantes porque nós só podemos conhecer a verdade através do mistério do Verbo divino, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo através da sua Igreja, da sua Missa, da oração, da penitência e das alegrias espirituais da Páscoa e todo o mistério da liturgia. Então contra o orgulho, a humildade.

A humildade é a virtude que nos faz conhecermos tal como nós somos. E conhecendo a nossa miséria, conhecendo o nosso nada, conhecendo também as nossas forças e as nossas virtudes, porque Deus no-las deu, nós vamos saber ponderar e estar no lugar certo, que é o nosso. Se nós somos filhos, submissos aos nossos pais; se nós somos alunos, aprendendo com nossos professores; se nós somos súditos, obedecendo às ordens do rei.E assim dói! Então a humildade é uma virtude principalíssima na nossa conversão, é uma virtude que traz para nós a verdade sobre nós mesmos. 

Depois Nosso Senhor diz que a semente cai entre espinhos; Brota, mas junto com a semente brotam os espinhos que a sufocam, e aí as riquezas, as diversões, o mundo profano, o mundo lá de fora, o mundo que não é capela, o mundo que não é Igreja. Esse mundo que seduz a todos nós, esse mundo que com seus brilhos, com seus ouros, com suas tecnologias, que vai arrastando, arrastando, e viciando e trazendo no coração do homem esta espécie de concupiscência nova, de que não consegue se livrar de um aparelho, de que não consegue se livrar de ficar conversando, de ficar fofocando, trocando ideias, perdendo tempo, sem produzir frutos. Foi o que Nosso Senhor disse “não produz frutos”, e é a nossa vida atual, é uma vida infrutífera, porque nós estamos só ligados com as coisas superficiais, e perdendo tempo com Internet e essas coisas. Então jamais nós vamos produzir frutos. Não produzimos frutos intelectuais, porque não estudamos ainda aquilo que deveríamos estudar. A Santa Religião é um tesouro de conhecimentos e aqueles que se afastam dos critérios próprios de um católico, mesmo que estudem muito, se desviam do caminho de Deus, do Verbo, do mistério e da verdade única e gloriosa, que nós veremos face a face na vida eterna. 

Também aqueles que não produzem frutos dentro do coração, porque já não têm mais caridade. Vivem do amor próprio, vivem só pensando em si, não têm humildade, não têm a fortaleza e se perdem nas diversões do mundo, voltando todo o seu pensamento e todas as suas atitudes para si próprio. Eles chamam aí fora de egoísmo, nós chamamos de amor próprio. Amor próprio significa o falso amor de si mesmo, que nos faz considerar falsamente quem nós somos, achando que nós somos mais, que nós podemos mais e que nós amamos mais, mas na verdade só amamos a nós mesmos. São Paulo dirá “o deus deles está ao ventre”, ou seja dentro de nós mesmos, nas nossas tripas. É isso que nós amamos quando não queremos o verdadeiro amor, que é Deus. É Deus que ilumina a nossa inteligência, é Deus que nos dá uma razão de combater na paciência, que é a esperança, é Deus que nos dá um verdadeiro amor no Espírito Santo dentro de nós.

E finalmente, Nosso Senhor nos dá a solução do problema. O que Ele pede para nós? Que o nosso coração seja uma terra fecunda, seja uma terra úmida, seja uma terra limpa, arada, preparada. E a Quaresma é essa preparação. Preparada para que Ele fale, Ele sopre e caia com abundância, com o orvalho do Céu, com a chuva temporã. Essa semente para brotar dentro de nós, que Ele faz brotar, que Ele faz frutificar. Então os nossos esforços não vêm de nós, vêm D’Ele. Cabe a cada um de nós ter um coração paciente, um coração dócil, um coração entregue a esta ação divina, a esta ação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é uma ação dos sentimentos. Não é porque nós vamos ficar chorando e se lamentando ou então rindo, achando tudo muito aquecido no coração, não é assim. O verdadeiro amor de Nosso Senhor Jesus Cristo muitas vezes nos torna crucificados, por causa de uma doença, por causa de uma dificuldade que nós temos em casa, por causa de uma dificuldade que nós temos no trabalho, uma amizade que nós perdemos, tudo isso fere o nosso coração e nós sangramos com o Cristo.

É assim então, que nós temos o exemplo de São Paulo. Nessa epístola extraordinária da Sexagésima, São Paulo fala sobre ele mesmo. Parece que ele fala com orgulho, mas é a sumidade da humildade; parece que ele fala sobre as suas fraquezas, mas é a sumidade da sua fortaleza. São Paulo é o exemplo que a Igreja nos traz para tudo aquilo que ela nos ensina com essa parábola do semeador que saiu para semear a sua semente. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Niterói, 16/02/2020

1 comentário em “Preparação para a Quaresma: que ela venha como um santo exercício que nos é proposto para nossa santificação

  1. Uma boa explicação pra quaresma 🙏☺️ Que seja feita a vontade de Deus não a nossa amo 💖

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