:: SERMÕES

Amar a Deus exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados.

... o que significa cumprir as nossas obrigações? Não é fazer o trabalho que nós temos que fazer, isso vem depois. Primeiro: amar a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus de um modo prático, não apenas belas intenções que nós temos de vez em quando, mas de um modo prático; na nossa oração em primeiro lugar, na nossa vida espiritual, cumprindo nossas obrigações espirituais. Para mostrarmos a Nosso Senhor: “Senhor, quando eu me levanto no domingo, que vou para a Missa eu estou cumprindo as minhas obrigações e, no entanto, é por amor que eu faço”.

Sermão de Dom Lourenço Fleichman, OSB

Caríssimos irmãos,

São Paulo abre o domingo de hoje nessa parte do ensinamento… Todo domingo nós temos um ensinamento a ouvir, faz parte da nossa Missa, faz parte do preceito. É por isso que em todas as Missas do domingo é necessário um sermão para explicar, para meditar as palavras que nós ouvimos na epístola e, sobretudo, no evangelho, assim como também em outros textos da Missa. Mas, ele diz: Rogo-vos que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados. Que vocação é essa se não o nosso batismo? Hoje mesmo nós fizemos batismo de duas crianças já grandinhas, que já compreendem o que significa o batismo e responderam, inclusive, as perguntas. E nós, quando nós renovamos as promessas do nosso batismo, será que passa pela nossa cabeça nesse momento todos os atos da nossa vida, como talvez passe no momento em que Nosso Senhor vem nos chamar? Tantos e tantos morrendo, e no momento da morte certamente Nosso Senhor nos dá uma visão de toda a nossa vida. Estou pronto ou não estou pronto?

Hoje nós precisamos estar prontos, hoje nós precisamos renovar no fundo do nosso coração as promessas que nós fizemos através dos nossos padrinhos, ou nós mesmos, no dia do nosso batismo, no dia em que o pecado original foi completamente apagado da nossa alma e que Nosso Senhor Jesus Cristo tomou conta do nosso coração. Então ele apresenta os meios para nós sermos salvos, os meios para nós irmos para o céu, e é necessário estar atento a isso. E o primeiro deles ele acaba de nos dizer: Amarás ao Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com toda a tua alma, com todo o teu espírito. Esse amor de Deus, acima de todas as coisas que é necessário antes de tudo para nós. Amar a Deus, amar a Deus de verdade. E quando diante da morte nós passamos toda a nossa vida num relâmpago, é evidente que do outro lado da balança estará o amor de Deus. Será que eu amei a Deus verdadeiramente?

Não há como todos serem monges! Cada um tem seu dever de estado, cada um tem suas obrigações. E cumprir os mandamentos começa pelas obrigações. Não foi o que Nossa Senhora disse em Fátima para Lúcia? “Nos últimos tempos a grande mortificação será cumprir seu dever de estado”. Mas isso não é mortificação, isso é obrigação. E ela sabia disso. Nossa Senhora sabia que era só a nossa obrigação e que isso não tinha prêmio nenhum. Mas os últimos tempos serão tempos estranhos, então, quem cumprir suas obrigações já estará no bom caminho. E o que significa cumprir as nossas obrigações? Não é fazer o trabalho que nós temos que fazer, isso vem depois. Primeiro: amar a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus de um modo prático, não apenas belas intenções que nós temos de vez em quando, mas de um modo prático; na nossa oração em primeiro lugar, na nossa vida espiritual, cumprindo nossas obrigações espirituais. Para mostrarmos a Nosso Senhor: “Senhor, quando eu me levanto no domingo, que vou para a Missa eu estou cumprindo as minhas obrigações e, no entanto, é por amor que eu faço”. Eu preciso desenvolver no meu coração o verdadeiro amor de Deus mesmo quando eu cumpro obrigações. Há uma conjunção, há uma união daquilo que nós fazemos porque é obrigatório fazer, por exemplo vir à Missa no domingo e que nós somamos a isso um ato de amor voluntário e livre, “eu quero estar na Missa, eu preciso estar na Missa, porque é através da Missa que eu vou aprender a amar Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nosso Senhor depois de ter nos dado o caminho da salvação através do primeiro mandamento, o maior de todos, o máximo de todos: amar a Deus, dessa forma complexa que ele apresenta diante de nós, ele vai falar sobre o segundo mandamento. O segundo mandamento é amar ao próximo como a si mesmo. E ele diz uma coisa importantíssima, que é preciso nós compreendermos: a segunda tábua é semelhante a primeira, ou seja, os sete mandamentos que sobram na segunda tábua são semelhantes aos da primeira tábua, que são relativas a Deus. Amar a Deus, honrar o Santo nome de Deus e cumprir os preceitos que Deus nos estabelece na vida. Quando nós ouvimos que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro, é necessário nós olharmos para a nossa vida mais uma vez e dizer. “Muito bem, eu já vi num relâmpago que o meu amor por Deus não foi tão intenso como poderia ser, eu cumpria apenas as minhas obrigações, e olhe lá. Eu poderia ter colocado meu coração também naquilo que a fé me obrigava a fazer. Agora, eu tenho que fazer isso em relação ao próximo”.

E em primeiro lugar amar ao pai e à mãe com todas as forças da alma, amar ao pai e à mãe como sendo delegados de Deus para receberem o nosso amor. Mas não é isso que nós dizemos no catecismo, nós dizemos honrar pai e mãe, não dizemos amar. E o catecismo de Trento vai explicar: Não é amar não, é honrar, porque aquele que honra já ama, aquele que só ama, pode amar e não honrar. Então não basta dizer eu amo meus pais de todo o meu coração, não, é necessário honrar aos pais e isso significa uma dose de amor que é necessário por tudo que nós recebemos deles, pelo fato de que é o caminho também para nós alcançarmos o amor de Deus, mas mais do que isso, nós devemos respeito, nós devemos silêncio, nós não podemos levantar a voz, nós não podemos falar como se fosse um coleguinha nosso, nós falamos com nossos pais de outra forma, e é preciso aprender isso. No mundo atual é preciso reaprender isso, porque nós esquecemos. E tratamos todos sem a menor cerimônia, estejamos diante do papa, ou diante de um bispo, e a gente vê isso. Nós temos que ter certos ritos. E esse rito que se tem diante do bispo, se tem também com um sacerdote, se tem com os pais dentro de casa, se tem também quando se senta à mesa. Uma coisa que eu tive que ensinar muitos aqui; não se senta à mesa para uma refeição sem camisa, não se anda sem camisa. São coisas que o mundo moderno não está nem aí, as pessoas vão nos supermercados sem camisa, o que é, além do mais, falta de caridade para com os outros. Então nós temos muito o que aprender nesses dois mandamentos que Nosso Senhor nos apresenta.

Eu queria trazer para vocês curiosamente neste domingo, que é o terceiro domingo de setembro. No terceiro domingo de setembro a igreja nos traz o livro de Tobias. Eu sempre recomendo que leiam o livro de Tobias, é tão próximo de nós. Tobias era um homem muito piedoso, um homem muito santo. Se casa com Ana, tem um filho ao qual ele dá o nome de Tobias, seu próprio nome. Eles são deportados para a Síria e lá ele tem a amizade do rei, que deixava ele ir onde ele quisesse. E quando todos se reuniam para as grandes refeições e banquetes, ele descia para Jerusalém para louvar o Senhor. Era uma viagem longa, mas o rei permitia. E ele ia para Jerusalém chorar os seus pecados, era um homem santo. Mas depois morre o rei e vem seu filho e começa a perseguir os hebreus. Era proibido enterrar os mortos dos hebreus e Tobias enterrava escondido. Não é o que nós estamos fazendo hoje? Estamos enterrando nossos mortos, alguns até com proibição do estado de nós irmos lá para fazer o culto necessário. Aquele homem cumpria os mandamentos, aquele homem vivia preocupado, “será que a vida que eu estou levando é a vida de amor de Deus que eu deveria estar levando?”. Mas, se nós queremos amar a Deus sobre todas as coisas, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma, virá o sofrimento, todo aquele que ama a Jesus Cristo passa por provações, está escrito isso. E nós também passamos por provações.

Então acontece de um passarinho fazer suas necessidades, que vão cair no olho de Tobias. Depois que ele já estava cansado de tanto passar a noite enterrando os mortos ele dorme, e ali cai o esterco do passarinho no olho dele, e ele fica cego. E aí vem toda a história do filho que vai com São Rafael, o Arcanjo, para encontrar-se com Sara. E Sara, no momento em que Tobias, o pai, rezava em sua casa por causa dos mortos, Sara rezava longe dali. E curiosamente a Sagrada Escritura quis revelar para nós que a oração dos dois juntou-se diante de Deus, e Deus então envia o filho Tobias para ir buscar um pouquinho de dinheiro porque eles estavam pobres, não podiam trabalhar. Foi perseguido pelo rei Senaqueribe, não podia trabalhar, teve seus bens todos levados. E mais uma coisa curiosa do livro de Tobias: cita Jó, o santo Jó, e compara os sofrimentos de Tobias com os sofrimentos de Jó. É muito curioso e isso deve nos fazer refletir. Mas o fato é que Tobias filho vai encontrar-se com um sujeito que precisava pagar uma dívida para o seu pai e vai se casar com Sara, porque todos os maridos com quem ela ia se casar morriam antes de se casar com eles, e era desprezada pelo povo porque matava os maridos. E foi nessa hora que ela rezava e que encontraram-se a oração de Sara com a oração de Tobias, “eu estou aqui querendo cumprir os vossos mandamentos” os dois falaram isso ao mesmo tempo. E foi então Tobias até lá, encontrou-se por acaso com Sara, que era filha daquele homem que devia o dinheiro para Tobias, e casa-se com ela. E voltam para a casa de Tobias. O anjo Rafael então, aplica o remédio que tiraram do peixe e cura a cegueira de Tobias. Tudo isso em torno de cumprir os mandamentos de Deus de um modo piedoso, de um modo profundo.

Eu preciso falar um pouquinho sobre isso: as nossas confissões.

A nossa confissão é o sacramento que nos traz de volta para os mandamentos de Deus, para o amor de Deus acima de tudo e para o amor do próximo também. Acontece que nós estamos vendo que estamos vivendo num tempo parecido com o de Tobias, nós estamos sofrendo coisas parecidas com as de Jó. As nossas confissões não podem ser um pique, “eu vou lá, me confesso porque aí eu vou comungar, todo mundo vai ver que eu estou comungando”, passa dois, três dias e a gente tem que voltar para o confessionário. Prestem atenção, nós não podemos viver assim.  Àqueles que estão voltando de três em três dias ao confessionário ou toda semana que seja: nós não podemos viver assim. A confissão é um sacramento e nós temos que respeitar esse dom maravilhoso de Deus que quis que nós tivéssemos solução para as nossas fraquezas, defeitos e pecados antes da morte. A disposição do fiel é para que ele recupere o verdadeiro amor de Deus, mas não para que ele faça um pique para vir comungar. Isso é o abuso do sacramento. E é preciso entender que esse sacramento da confissão exige de nós certas atitudes. A primeira delas nos ensina o catecismo: é a contrição dos pecados. E a contrição significa “quebrar”, algo se quebra dentro de nós. É precisa quebrar o apego aos pecados, é preciso vencer os vícios que nos levam de volta ao pecado às vezes no mesmo dia da confissão.

Eu tenho perguntado: qual o efeito que o sacramento produz na nossa alma? O padre abaixa sua mão fazendo um sinal da Cruz, que é de Jesus Cristo, não é dele, explode no nosso coração a graça santificante que nós não merecemos, mas que Ele dá de graça. O que Ele exige de nós? A confissão certinha de todos os pecados sem esconder nenhum. Às vezes a gente esquece, mas esquecimento não é esconder. E o que acontece dentro de nós? Nós recuperamos a amizade de Deus, nós saímos no confessionário como nós saímos da pia batismal, quase. Não é exatamente igual por causa da pena temporal, mas vamos abstrair essa questão. E o que vamos nós fazer com aquela alma recuperada, com aquela alma lavada? Vamos sujar ela no mesmo dia, no dia seguinte, daqui a dois dias, na mesma semana? Então não teve efeito nenhum. Teve efeito sobre a minha alma, mas não teve efeito sobre a minha vontade. Não serviu de nada para mim? Tem alguma coisa errada. As pessoas estão morrendo e Tobias está enterrando.

Eu suplico a todos: vamos parar com isso, vamos entender o que é o sacramento da confissão, vamos entender que amar a Deus com todas as forças, com toda a alma, com todo o espírito, com toda a vontade, com todo amor, exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados. Nós temos que vencer isso, porque se nós não vencermos esses vícios, os vícios nos vencerão. Qual a probabilidade das pessoas que ficam “confessa…, cai;  confessa…, cai;”, de morrer num momento que está confessado? É mínima, é mínima! Certamente vai morrer no momento em que estiver com o pecado mortal, porque passa a maior parte do tempo em pecado mortal. É uma questão matemática. Será que nós temos tantas dificuldades na vida para viver uma vida cristã, para rezarmos todos os dias, para virmos para Missa, sermos perseguidos pelas autoridades tanto civis quanto espirituais, para depois ir para o inferno assim, de graça? Não é possível, eu não creio que isso seja possível, que passa na cabeça de alguém, mas se não passa isso na cabeça de ninguém e no entanto estamos todos voltando para o confessionário três dias depois, então nós estamos cegos.

Vamos ouvir o que São Paulo acaba de nos dizer: Vivestes segundo a vocação a que fostes chamados, segundo esse batismo maravilhoso que nos lavou do pecado original, que abriu a porta do Paraíso para nós. Prestemos atenção ao amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua vida por nós sem precisar morrer do jeito que morreu. Pensemos que nós estamos enterrando nossos mortos. Vocês não estão percebendo que alguma coisa está acontecendo no mundo? Nós precisamos amar a Deus com essa força que Nosso Senhor veio nos lembrar.

Então, que a Missa de hoje seja um momento em que nós vamos refletir um pouco mais sobre as nossas confissões, sobre os nossos pecados, não para ficarmos acabrunhados pelo pecado, mas ao contrário, para nos livrarmos dele e para termos a felicidade, a alegria, a amizade, a caridade e todos os frutos da caridade brotando no nosso coração, porque Jesus Cristo derramou seu sangue por nós, e como dizia Santa Catarina de Sena “indo ao confessionário, vou ao sangue”. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

XVII Domingo depois de pentecostes – 2021

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