O verdadeiro católico e o herege

por São Vicente de Lérins

De tudo o que dizemos, parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica – nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia – mas que, desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.
Sabe que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, e que constitui, antes, uma tentação, instruído especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo: “Pois é conveniente que até haja heresias, para que também os que são de uma virtude provada sejam manifestados entre vós”. Como se dissesse: Deus não extirpa imediatamente os autores de heresias para que os que são de uma virtude provada se manifestem, isto é, para mostrar até que ponto se é tenaz, fiel e constante no amor à fé católica.
da obra “Comonitório”

A ordem hierárquica entre os membros da Igreja

Carta enviada aos Coríntios por Clemente I de Roma por volta do ano 96 (Trechos)

[…] como nos foi dado intuirmos as profundezas do divino intelecto, é nosso dever cumprir em boa ordem tudo aquilo que o Senhor nos ordenou fazer, de acordo com os tempos estabelecidos.

Ele ordenou que as oblações e as funções litúrgicas fossem realizadas não de modo confuso e desordenado, mas em tempos e horas determinados.

Ele estabeleceu, com sua suprema autoridade, onde e por quem devem ser celebradas, para que Continuar lendo A ordem hierárquica entre os membros da Igreja

Somos capazes de ser para o próximo, para os nossos familiares, aquilo mesmo que Cristo foi para nós

Por Pe. Flávio

Queridos fiéis, a liturgia segue trazendo para a nossa contemplação os mistérios da encarnação de Nosso Senhor, guiando nossas meditações com os textos das missas que temos a alegria de rezar.

A liturgia realmente nos entrega o conhecimento dos segredos íntimos de Deus, Nosso Senhor, esperando o nosso interesse, esperando o nosso desejo de alcançar toda a riqueza, toda a alegria, toda a fortaleza que o conhecimento de Deus nos dá.

Até o dia de hoje a liturgia havia estendido pela Continuar lendo Somos capazes de ser para o próximo, para os nossos familiares, aquilo mesmo que Cristo foi para nós

Oração dos Cristeros ao final do Rosário

Composta pelo mártir católico Anacleto González Flores, assassinado por defender a Igreja, em 1º de abril de 1927 pelo governo anticatólico do México

Jesus misericordioso,

Meus pecados são mais numerosos que as gotas de sangue que derramastes por mim. Não mereço pertencer ao exército que defende os direitos de Tua Igreja e que luta por Ti. Quisera nunca haver pecado para que assim minha vida fosse uma oferenda agradável aos Teus olhos. Lava-me das minha iniquidades e limpa-me dos meus pecados. Por tua Santa Cruz, por minha Mãe Santíssima de Guadalupe, perdoa-me. Não soube fazer penitência dos meus pecados; por isso quero receber a morte como um castigo merecido por eles. Não quero lutar, nem viver, nem morrer, senão por Ti e por Tua Igreja.

Mãe Santa de Guadalupe, acompanha em sua agonia este pobre pecador. Concede-me que meu último grito na terra e meu primeiro cântico no céu seja: Viva Cristo Rei!

Símbolo Quicumque

Atribuído a Santo Atanásio

Todo o que quiser ser salvo, antes de tudo é necessário que mantenha a fé católica; se alguém não a conservar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre.

A fé católica é que veneremos um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, não confundindo as pessoas, nem separando a substância, pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual à glória, coeterna a majestade. Continuar lendo Símbolo Quicumque

As três festas da inocência

Por Dom Lourenço Fleichman

Caríssimos irmãos,

são grandes os mistérios do Natal, do tempo do Natal. O ciclo do Natal, que vai até a festa da purificação de Nosso Senhor, a apresentação de Jesus no templo, dia 2 de fevereiro. Todo esse tempo se resume praticamente na noite de Natal e nós devemos voltar à noite de Natal o tempo todo porque é essa noite de Natal, o nascimento de Jesus em Belém, que explica todos esses mistérios que nós atravessamos ao longo desse tempo do Natal.

A Virgem Maria e São José, a Sagrada Família, a epifania, tudo isso que virá pela frente, até mesmo a própria apresentação do menino Jesus no Templo tem sua razão de ser no nascimento de Jesus em Belém. Virão os pastores, virão os magos e nós continuamos celebrando o nascimento de Jesus em Belém. Continuamos de joelhos aos pés da creche, aos pés dessa manjedoura onde Jesus nasceu, adorando o filho de Deus, adorando Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós vimos na Missa do Dia, no Natal, com aquele evangelho que é o prólogo de São João, como que a Igreja nos traz a realidade da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, a missão do Filho encarnando-se para nascer de Maria Virgem e morrer na cruz por nós. Toda essa realidade acompanha também a oitava de Natal.

Nós festejamos Santo Estêvão no dia 26, nós festejamos São João Evangelista no dia 27 e nós festejamos os Santos Inocentes no dia 28. E essas três festas, 26, 27 e 28, têm alguma relação também com Nosso Senhor. Claro que, quando nós pensamos em Santo Estêvão, primeiro lugar, pensamos na inocência de um diácono que foi escolhido pelos apóstolos como auxiliares, aqueles sete diáconos, que está no Ato dos Apóstolos. E Santo Estêvão, que tinha uma inteligência da Encarnação muito profunda como aparece no próprio Atos dos Apóstolos, ele tentava convencer os judeus nas sinagogas, tentava mostrar para os judeus os erros de não aceitarem o Messias, de não aceitar Nosso Senhor. Foi apedrejado na porta da cidade. Foi martirizado. Protomártir é chamado assim o primeiro que morre por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, Santo Estêvão entra dentro do ciclo Natal. Entra por causa dessa relação direta: o primeiro que derramou seu sangue, vestiu-se de sangue para entrar na eternidade, já junto com Nosso Senhor, na hora que Ele morre na cruz, Santo Estevão estava ali esperando com São José e os santos profetas do Antigo Testamento. Mas ele derramou seu sangue. Ele foi o primeiro a derramar seu sangue, realmente adulto, porque os santos inocentes também derramaram seu sangue. Santo Estêvão!

Por que razão São João Evangelista? São João que nós ouvimos no prólogo do Evangelho no dia de Natal, São João que encostou a sua cabeça no coração Jesus, é outro tipo de vida, outro tipo de santidade. Não é aquela pureza da inocência de um sangue derramado, mas é a mesma pureza da inocência tão adolescente quanto Santo Estêvão, mas que viveu do amor, que é marcado pela caridade. Não uma caridade que vai até a morte, mas uma caridade que vai até a compreensão de tudo que aconteceu no seio da Santíssima Trindade para que nos explique no princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o verbo era Deus. Esse é São João Evangelista. Esse é o São João Virgem. Esse é São João na pureza da sua inocência que vai viver todos os anos de sua vida até a velhice, é o único apóstolo que não morre mártir. Escolhido pela Igreja para ser festejado junto da creche, junto do Presépio, junto do Natal.

E depois, no dia 28, os Santos inocentes. Vocês conhecem. Foram martirizados por Herodes. Herodes soube pelos magos que havia nascido o rei de Israel e cheio de inveja no coração, cheio de ódio no coração, não tendo como encontrar esse rei que nasceu, simplesmente manda matar todas as crianças nascidas abaixo de dois anos e, dizem os historiadores, que foram cerca de duas mil crianças martirizadas nesse dia. Imagine a dor daquelas mães tentando esconder seus filhos, tentando esconder suas crianças para que não fossem martirizadas. Imagine a alegria dessas mães quando chegaram no Céu e descobriram que seus filhos foram mártires por Nosso Senhor Jesus Cristo, que estavam lá no Céu esperando por elas. A dor e a alegria misturadas na mesma festa, misturadas na mesma inocência daquelas criancinhas que foram batizadas pelo sangue, batizadas como mártires pelo sangue. Por causa de Nosso Senhor Jesus Cristo elas foram mortas e a Igreja nos faz celebrar então verdadeiramente como Mártires, apesar de que o protomártir é Santo Estevão porque é adulto.

Essas três festas são as três festas da inocência porque Jesus nasce inocente na gruta de Belém. Jesus nasce criancinha. Ele completamente incapaz de qualquer pecado, Deus tendo a natureza divina junto à natureza humana não tinha menor condição de que houvesse um deslize e Ele pudesse pecar. Não havia essa possibilidade em Nosso Senhor. Ele chama a si na sua Igreja três Santos ou dois Santos e mais aqueles milhares de Santos para festejar a castidade, para festejar a pureza, para festejar as virtudes que nos são necessárias para entender o que é o Natal, pra compreender mais profundamente o que é estarmos diante de uma festa de Natal, de uma oitava de Natal, às vésperas de um outro ano que começa. Isso é para amanhã. Amanhã nós veremos isso: o outro ano que começa. Agora nós temos que continuar vivendo diante de Nosso Senhor através dessas virtudes.

São Estevão, que ensinava os judeus e morre inocente por Nosso Senhor Jesus Cristo.

São João, que ensinava aos judeus O Logos, o Verbo que era e que é Deus, e que recosta sua cabeça no coração de Jesus e vive dessa caridade, desse amor, nos ensina a caridade e esse amor.

E os Santos Inocentes que não falaram nada, não ensinaram nada, não podiam falar, mas que dão seu sangue e o sangue deles é que é o louvor que eles realizam para esta criancinha que nasceu em Belém.

Tudo isso nesta festa que vem nos lembrar a nossa herança. Nesse domingo, dentro da oitava que vem nos lembrar: nós somos herdeiros em Deus, nós somos herdeiros com Cristo porque Ele conquistou com o seu sangue a herança que nos foi dada do Céu, já que nós não merecemos o Céu. Então somos herdeiros com Cristo, vem nos lembrar a Missa de hoje, porque somos filhos por adoção. Não somos filhos por natureza como Jesus é Filho por natureza de Deus, mas somos filhos porque fomos adotados. Ele quis nos adotar, Ele quis nos chamar para sua família, Ele quis nos dar a sua herança que é o Céu. Estarmos não apenas na presença d’Ele para toda eternidade no Céu, mas recebendo dentro de nós a transformação que nos fará deuses, verdadeiramente divinizados porque estaremos venda Deus face a face. Ele estará como que tomando conta do nosso ser, como que explodindo nosso ser em luz, explodindo nossos ser em graça, em virtude para sempre, numa felicidade sem fim no Céu.

Então que venha Santo Estêvão, que venha São João Evangelista que venham os Santos Inocentes para nos ensinar enquanto nós estivemos aqui, porque na hora da nossa morte nós temos que já estar orientados para a vida eterna, orientados para a virtude, orientados para o Céu. Quando a morte vai ser aproximando, nós devemos ter no coração um único pensamento: nada mais me serve nesse mundo a não ser a vida eterna, a não ser o outro mundo, a não ser estar com Cristo para sempre nos ares, sermos recebidos por Ele nos ares, como diz São Paulo em uma de suas epístolas. Como que nós podemos garantir que estaremos com Ele no Céu, na vida eterna, na felicidade eterna, senão meditando nesses mistérios do Natal, meditando em todos os mistérios de Cristo. Virá depois a quaresma para nos fazer penitência, virá a ressurreição de Nosso Senhor no Domingo de Páscoa e tudo isso vai enchendo o coração do católico para que ele possa dizer: Sim, é verdade. O meu caminho nessa vida é passageiro. Eu não me apego a nada nessa vida porque tenho que me apegar é na vida eterna e estarei com Cristo para sempre na vida eterna.

Peçamos então a São José e Nossa Senhora – os dois são citados no início do evangelho – eles estavam ali ouvindo aquelas maravilhas todas, olhando para aquela criança todos os dias enquanto eles estiveram em Belém. Ficavam ali olhando para aquela criança. Depois pegaram Ele no colo, fugiram para o Egito. Só depois que voltaram para casa em Nazaré. Todo esse tempo, o menino Jesus ali crescendo em sabedoria, crescendo em Graça. A graça de Deus estava com Ele, diz  o Evangelho. A graça de Deus estava com a natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. A graça da natureza divina, que é Ele próprio, estava com a natureza humana em Jesus Cristo. E Ele vivia assim, nessa felicidade, já nessa contemplação do Pai, nessa contemplação da vontade do Pai, que fazia as suas delícias, fazia sua alegria.

Que seja também para nós que nada das nossas obrigações nesse mundo, nada dos nossos amores desse mundo nos faça desviar 1 cm da direção da vida eterna, da direção do Céu. Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, amém.

Niterói, 31 de dezembro de 2017

O natal comercial, o amigo oculto, o presente…, é claro, animam nossas festas de família, mas a gente sabe que não é isso o Natal

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos…

Somos chamados nesta semana a uma última preparação do Natal porque a quarta semana de Natal não acontece este ano, já que o quarto domingo já é na véspera de Natal. Então, nesta terceira semana somos chamados a prestar um pouco mais atenção de dois modos: primeiro, pela novena de natal que começou ontem. É uma novena litúrgica que vai acompanhando os textos litúrgicos nesse tempo de Advento de Natal e Ela nos traz então uma certa união com tudo aquilo a que a Igreja nos apresenta ao longo deste mês de dezembro e sobretudo com a própria festa de Natal. Então, façam uma novena. No meio dessa novena temos também as orações, as antífonas Ó. A Igreja chama Nosso Senhor: Veni! Veni! Veni! Ela dá a Nosso Senhor diversos títulos do antigo testamento para que aqueles todos que foram figuras e aqueles nomes todos que foram usados para designar o Messias sejam agora usados para que nós chamemos o Messias a esse novo nascimento que liturgicamente nós comemoramos no Natal. Então é muito importante tudo isso, faz parte da cultura católica, faz parte da espiritualidade.

Nós precisamos desenvolver em nossos corações um conhecimento dessas coisas porque o Natal é sobretudo isso. Muito mais do que qualquer outra coisa que estejamos acostumados a ver, o Natal é Missa. O Natal são três Missas no dia de Natal. O Natal são quatro semanas de preparação. E, nessa terceira semana, além das antífonas Ó e da novena nós temos também as têmporas de dezembro. Ou seja, penitência. Não é na penitência que a gente faz o advento? Então, vamos fazer mais ainda. Vamos prestar mais atenção de fazer um jejum no meio da semana, na quarta, na sexta e no sábado, porque Nosso Senhor vai nascer para nós. Vale a pena um esforço desligar a televisão, sair desse celular que escraviza as almas e se dedicar um pouco mais a uma leitura, uma leitura espiritual, porque é muito importante. Se nós não temos isso então sobra o Natal comercial, sobra o amigo oculto, sobra o presente que, é claro, anima nossas festas de família, mas a gente sabe que não é isso o Natal.

Há uma importância muito grande para nós estarmos diante de Nosso Senhor num presépio, diante de Nosso Senhor na nossa Missa, porque Ele nasce e, ao nascer, inicia-se todo o ciclo que vai nos levar à Semana Santa, que vai nos levar no cerne do mistério de Nosso Senhor, nos salvando para que a gente possa ter o céu. Tudo isso é muito sério, muito importante.

Então, nessa semana de penitência, nessa semana de têmporas de dezembro, a Igreja nos chama São João Batista, mais uma vez São João Batista, em uma situação diferente. Agora são os fariseus que vão a João Batista, não mais os discípulos de São João Batista que vão a Nosso Senhor pra perguntar: és tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? Agora os fariseus vão a João Batista: és tu aquele que há de vir? Não, eu não sou o Cristo. Imediatamente São João responde: eu não sou o Cristo. Então quem és tu? Por que estais pregando esse batismo de penitência?  És tu um profeta que há de vir? Não sou. És tu Moisés? És tu Elias? Não sou. Eu sou a voz do que clama no deserto. Eu sou aquele que vem para preparar o Messias. Eu sou aquele que vem para endireitar os caminhos dos homens para que recebam o Messias, porque Ele não será recebido.

Então a Igreja nos faz olhar pra São João Batista para que nós possamos reconhecer Nosso Senhor. Não foi São João Batista que apontou Jesus no Jordão? Eis o Cordeiro de Deus. Eis aquele que tira os pecados do mundo. Nenhum profeta tira pecado do mundo, só Deus. E São João aponta Nosso Senhor e diz: este é o Messias, este é Deus, este vem para tirar os pecados dos homens, para nos salvar. E se Nosso Senhor Jesus Cristo é apontado por São João Batista, e ele diz aqui também no texto de hoje: eu vim para mostrar aquele que há de vir depois de mim, aquele que vem depois de mim e é antes de mim. Se Ele é antes de mim é porque é Deus. Aquele a quem eu não sou digno de desatar a correia dos seus sapatos. Ele aponta Nosso Senhor. Diversas vezes São João Batista aponta Nosso Senhor.

E o que fazemos nós com Jesus quando São João Batista nos mostra ele? Viramos as costas. Nós temos um uma comunicação muito importante pra fazer aqui no celular agora nós temos que entrar nesse Facebook pra poder socialmente estarmos vivos, quando, na verdade, quem nos dá a vida é Nosso Jesus Cristo e sem Ele não há vida nessa terra. Sem Nosso Senhor não há vida para os homens e sem Nosso Senhor não há vida para os povos. E é por isso que os povos não vão encontrar a paz porque desviaram seus olhos do rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não querem mais Nosso Senhor como sendo seu Deus. Recusam a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, que conquistou com seu sangue na cruz este direito de reinar sobre todos os povos, sobre todas as almas, sobre nossas famílias. Quando que Nosso Senhor vai realmente estar presente em nossas famílias como soberano? Como Deus adorado, louvado, com todos os fins da oração colocados aos seus pés para que nós possamos crescer espiritualmente? Quando que nós vamos olhar pra Nosso Senhor e dizer: Este é aquele que há de vir. Este é o Messias esperado. E esta espera que aquele povo fez durante séculos nós não precisamos mais fazer, porque ele já veio.

Então, nós podemos olhar para Nosso Senhor, nós podemos estar na beira do Jordão. Nós podemos estar com São João Batista recebendo esses fariseus que tinham maldade no coração, que eram orgulhosos, que não queriam saber de Nosso Senhor porque vinha atrapalhar a política deles. E São João então aponta Nosso Senhor: eu sou só o amigo do esposo. Ele é o esposo. Ele vem pra restaurar a humanidade com Deus. Ele vem para fazer esta união de matrimônio espiritual da humanidade com Deus, lavando os nossos pecados com o Seu sangue. Nós não podemos tirar do Natal a realidade de Nosso Senhor. Ele não nasce bonitinho em Belém simplesmente pra ser uma criancinha. Ele vem para morrer, Ele vem para oferecer seu sangue, Ele vem para nos salvar. E é isso que a Igreja faz quando chama Nosso Senhor nesse tempo do advento. Vem para nos salvar, vem para nos levar pro céu.

Tudo isso é um dos aspectos do advento que deve estar presente em nossas almas para que nós possamos nos lembrar que tudo acontece nessas quatro semanas em preparação à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Encarnação do verbo já aconteceu lá em 25 de março: a anunciação do Anjo Gabriel à Virgem Maria. Ele já está aqui na terra, está no seio da Virgem Maria. Passam-se nove meses e, em 25 de dezembro, Nosso Senhor nasce em Belém. Todos conhecem a história. As crianças representam a historinha de São José e Nossa Senhora chegando em Belém, não tendo lugar para eles na estalagem. E eles vão para essa estrebaria. E ali, naquela estrebaria, na companhia dos animais, ainda não chegaram nem mesmo os pastores, nasce o Salvador do mundo. Nasce a Estrela de Belém, nasce Aquele que vem para realmente iluminar nossas almas e nos transformar por dentro.

Natal é essa transformação espiritual de nossas almas em Nosso Jesus Cristo. É nos tornarmos semelhantes a Ele, é termos pela graça santificante que Ele conquista na cruz, a semelhança. Aquela semelhança lá que está no início do Gênesis, quando Deus cria Adão e Eva à Sua imagem e semelhança. A semelhança é a graça. Ser criado à imagem de Deus é ser inteligente e ter a vontade livre para amar a Deus acima de todas coisas. Mas só com a graça santificante é que nós somos semelhantes a Deus, ou seja, feitos um só com Ele, amalgamados com Ele, transformados n’Ele, divinizados n’Ele, como dizem os Padres da Igreja. Nós nos tornamos Deus com Ele, claro que espiritualmente, não fisicamente. Mas, para isso é necessária uma certa atenção. Se nós estivermos sonolentos, se nós estivermos na nossa vida profana de todo dia, nós vamos passar o Natal e vai sobrar só os brinquedos, vai sobrar só os presentes, o que é muito pouco pra nós, é muito pouco pra Igreja. A Igreja reclama de nós algo mais do que isso. Reclama o rosto de Jesus transformando nossas almas. Reclama a graça santificante nos fazendo semelhantes a Ele para que nós possamos já conhecer algo do que é o céu aqui na terra pela liturgia. Pelo ciclo da liturgia nós vamos acompanhando o que é verdadeiramente nossa adoração no céu, que virá um dia, depois da nossa morte. Estaremos lá, face a face diante de Deus, transformados para sempre n’Ele, para cantar e louvar Sua majestade para sempre. E a Igreja diz: para sempre lá, não. Para sempre aqui. Nossa obrigação de católicos é fazer essa adoração e esse louvor aqui. E é por isso que ela nos traz esses textos tão maravilhosos que servem de meditação, que servem de alívio para essa confusão de vida que nós estamos, nesse mundo estranho. Nesse mundo estranho porque recusa Nosso Senhor Jesus Cristo, recusa o Império da Igreja sobre nós. […] Mas é necessário que Ele reine, é necessário que Ele seja nosso Deus. É necessário que nossa oração se dirija a Ele todos os dias. E não é uma oraçãozinha rápida, não. É parar, rezar, e se concentrar. Porque se não nós não vamos nos transformar n’Ele, não vamos viver da graça. Vamos cumprir um obrigaçãozinha ali de rezar mas… de que adianta isso?

Estejamos então aos pés de Nosso Senhor. Peçamos a São João Batista: mostre-nos Jesus, aponte-nos o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus, aquele que veio como um cordeirinho que não reclama ser tosquiado e ser sacrificado para salvar a humanidade e que nós estejamos mergulhados nesse sangue Salvador para termos com Ele a felicidade da vida no céu. Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém.

Niterói, 17 de dezembro de 2017.

O nascimento de Maria Santíssima

Pelo Padre Manoel José Gonçalves Couto

O nascimento de Maria Santíssima é todo cheio de glória para ela, e todo cheio de vantagem para nós. Para ela foi o princípio de sua grandeza, e para nós foi a origem de nossa felicidade. Se contemplamos o nosso nascimento e o de Maria, que total diferença? No nosso tudo motivos de tristeza, lágrimas e temor, e no de Maria tudo motivos de prazer, consolação e esperanças.

Como entramos nós todos neste mundo? Como principiamos os nossos dias? Amaldiçoados pelo pecado original, nós aparecemos neste mundo escravos do demônio, marcados com o selo de sua maldade, aborrecidos aos olhos do nosso Criador, excluídos de ver a Deus e de o gozarmos jamais, enfim, inteiramente desgraçados.

Tudo isto são motivos de tristeza, lágrimas e temor.

Mas já não acontece assim com o nascimento de Maria Santíssima, nem pode temer-se coisa alguma semelhante. Conhecida por Deus desde a eternidade como a mais fiel às suas graças e mais obediente à sua lei, ele a encheu de bênçãos logo desde o princípio e a fez feliz e bem-aventurada logo no seu nascimento. O dragão infernal nunca teve império sobre ela.

Nunca foi infeccionada de culpa, porque o Criador a privilegiou logo na sua origem, e a enriqueceu de graças ainda mesmo antes dela nascer. Tantas foram estas graças, que excedem as de todos os Santos e Anjos, diz São Vicente.

Santificada por Deus dentro ainda do ventre de sua mãe Santa Ana, ela recebeu graça, não gota a gota, mas sim em grande enchente. Quando Deus escolhe alguém para algum empreendimento raro, Ele lhe concede as graças proporcionadas, assim o diz São Vicente.

Logo que grande multidão de graças não derramaria Deus sobre Maria, logo desde seu nascimento, se o mesmo Deus a escolhera para o mais alto empreendimento, isto é, para Mãe do Divino Salvador?! Ah! É por isso que o Arcanjo Gabriel a saudou, dizendo: – Deus vos salve, cheia de graça. Sim, Maria é cheia de graça, é um brilhante raio da luz eterna e um espelho sem mancha da divina Majestade.

Nasce Maria, nasce uma flor toda bela e engraçada. Sempre cheirosa e imarcescível, que desde a sua origem brilha mais do que a rosa entre os espinhos. Nasce Maria, e nasce a glória de Jerusalém, a alegria de Israel e honra do seu povo. Nasce Maria, e nasce a brilhante aurora que dissipa as trevas da medonha noite da culpa. Nasce a luminosa estrela da manhã, que com os seus luminosos raios das melhores virtudes há de mostrar o caminho da salvação: nasce Maria finalmente, nasce uma menina cheia de bênçãos e luzes do Céu, com o seu Criador a enriqueceu por um raro privilégio.

Dizem muitos Santos Padres, que Maria logo na sua conceição recebeu de Deus um perfeito uso de razão, uma grande luz divina correspondente à graça de que foi enriquecida. De sorte que podemos acreditar que Maria, logo desde sua conceição, conhecia as verdades eternas, a beleza das virtudes, a bondade infinita de Deus, o direito que Deus tem de ser amado, principalmente por ela, por causa das imensas graças que já lhe tinha concedido. Já eram imensas as graças que Maria recebera na sua conceição, e como desde então ela nunca esteve ociosa, como faria frutificar este tão grande capital de graças?! Ah, Maria é um mar de graças sobrenaturais!

Desde a sua conceição toda aplicada em amar a Deus, ela o amava sempre e com todas as forças do seu espírito, crescia sempre no amor divino e nas mais sublimes virtudes. Finalmente crescia mais na virtude e na perfeição, do que no corpo e na idade!…
Maria, quantas mais graças recebia, tanto mais se adiantava em perfeição e santidade, de sorte que se no primeiro momento ela recebeu mil graus de graça, no segundo recebeu dois mil, no terceiro três mil, no quarto quatro mil, e assim em graças bem como em virtudes! Ó Virgem Santíssima, com toda a razão podeis dizer: Eu sendo pequenina já comecei a agradar ao Altíssimo… Imitai, meninos, imitai Maria Santíssima nos seus primeiros anos.

Ela logo desde pequenina ia aumentando sempre nas virtudes, e vós? Vós sempre aumentando nos vícios, por meio de modas indecentes, por via de pragas e más palavras, por desobediência aos vossos pais e mães ou mestres, já irados, já teimosos, cheios de preguiça, finalmente por estes e outros pecados já tereis perdido a inocência, já sereis amigos e aliados do demônio, deserdados do Céu, e herdeiros do inferno.

Ó, quão cedo começastes a dar passos para o inferno! Que bem depressa perdestes a inocência! Vós deveis imitar a vossa Mãe Santíssima nos seus primeiros anos, no amor de Deus, na obediência, na humildade, no silêncio, na diligência, na pureza, e nas demais virtudes. Mas já vedes que não a tendes imitado: logo que há de ser de vós? Que deveis agora fazer, e nós todos? Arrepender-nos do passado e emendar-nos para o futuro, imitando-a daqui por diante, amando sempre a Deus, praticando sempre a virtude, e fugindo do vício: sobretudo consagremo-nos a ela, tomemo-la por nossa Mãe, sem nunca deixarmos de lhe rezar a sua coroazinha todos os dias.

Retirado do livro “Missão Abreviada”.

Comunidade de Tradição Católica em Parnaíba-PI. Tradição Católica no Brasil. Missa Tridentina no Piauí.