Maria é um mar de graças sobrenaturais

Por  Pe. Manoel José Gonçalves Couto

O nascimento de Maria Santíssima é todo cheio de glória para ela, e todo cheio de vantagem para nós. Para ela foi o princípio de sua grandeza, e para nós foi a origem de nossa felicidade. Se contemplamos o nosso nascimento e o de Maria, que total diferença? No nosso tudo motivos de tristeza, lágrimas e temor, e no de Maria tudo motivos de prazer, consolação e esperanças.

Como entramos nós todos neste mundo? Como principiamos os nossos dias? Amaldiçoados pelo pecado original, nós aparecemos neste mundo escravos do demônio, marcados com o selo de sua maldade, aborrecidos aos olhos do nosso Criador, excluídos de ver a Deus e de o gozarmos jamais, enfim, inteiramente desgraçados. Tudo isto são motivos de tristeza, lágrimas e temor.

Mas já não acontece assim com o nascimento de Maria Santíssima, nem pode temer-se coisa alguma semelhante. Conhecida por Deus desde a eternidade como a mais fiel às suas graças e mais obediente à sua lei, ele a encheu de bênçãos logo desde o princípio e a fez feliz e bem-aventurada logo no seu nascimento. O dragão infernal nunca teve império sobre ela. Nunca foi infeccionada de culpa, porque o Criador a privilegiou logo na sua origem, e a enriqueceu de graças ainda mesmo antes dela nascer. Tantas foram estas graças, que excedem as de todos os Santos e Anjos, diz São Vicente.

Santificada por Deus dentro ainda do ventre de sua mãe Santa Ana, ela recebeu graça, não gota a gota, mas sim em grande enchente. Quando Deus escolhe alguém para algum empreendimento raro, Ele lhe concede as graças proporcionadas, assim o diz São Vicente. Logo que grande multidão de graças não derramaria Deus sobre Maria, logo desde seu nascimento, se o mesmo Deus a escolhera para o mais alto empreendimento, isto é, para Mãe do Divino Salvador?! Ah! É por isso que o Arcanjo Gabriel a saudou, dizendo: – Deus vos salve, cheia de graça. Sim, Maria é cheia de graça, é um brilhante raio da luz eterna e um espelho sem mancha da divina Majestade.

Nasce Maria, nasce uma flor toda bela e engraçada. Sempre cheirosa e imarcescível, que desde a sua origem brilha mais do que a rosa entre os espinhos. Nasce Maria, e nasce a glória de Jerusalém, a alegria de Israel e honra do seu povo. Nasce Maria, e nasce a brilhante aurora que dissipa as trevas da medonha noite da culpa. Nasce a luminosa estrela da manhã, que com os seus luminosos raios das melhores virtudes há de mostrar o caminho da salvação: nasce Maria finalmente, nasce uma menina cheia de bênçãos e luzes do Céu, com o seu Criador a enriqueceu por um raro privilégio.

Dizem muitos Santos Padres, que Maria logo na sua conceição recebeu de Deus um perfeito uso de razão, uma grande luz divina correspondente à graça de que foi enriquecida. De sorte que podemos acreditar que Maria, logo desde sua conceição, conhecia as verdades eternas, a beleza das virtudes, a bondade infinita de Deus, o direito que Deus tem de ser amado, principalmente por ela, por causa das imensas graças que já lhe tinha concedido. Já eram imensas as graças que Maria recebera na sua conceição, e como desde então ela nunca esteve ociosa, como faria frutificar este tão grande capital de graças?! Ah, Maria é um mar de graças sobrenaturais! Desde a sua conceição toda aplicada em amar a Deus, ela o amava sempre e com todas as forças do seu espírito, crescia sempre no amor divino e nas mais sublimes virtudes. Finalmente crescia mais na virtude e na perfeição, do que no corpo e na idade!

Maria, quantas mais graças recebia, tanto mais se adiantava em perfeição e santidade, de sorte que se no primeiro momento ela recebeu mil graus de graça, no segundo recebeu dois mil, no terceiro três mil, no quarto quatro mil, e assim em graças bem como em virtudes! Ó Virgem Santíssima, com toda a razão podeis dizer: Eu sendo pequenina já comecei a agradar ao Altíssimo… Imitai, meninos, imitai Maria Santíssima nos seus primeiros anos. Ela logo desde pequenina ia aumentando sempre nas virtudes, e vós? Vós sempre aumentando nos vícios, por meio de modas indecentes, por via de pragas e más palavras, por desobediência aos vossos pais e mães ou mestres, já irados, já teimosos, cheios de preguiça, finalmente por estes e outros pecados já tereis perdido a inocência, já sereis amigos e aliados do demônio, deserdados do Céu, e herdeiros do inferno. Ó, quão cedo começastes a dar passos para o inferno! Que bem depressa perdestes a inocência! Vós deveis imitar a vossa Mãe Santíssima nos seus primeiros anos, no amor de Deus, na obediência, na humildade, no silêncio, na diligência, na pureza, e nas demais virtudes. Mas já vedes que não a tendes imitado: logo que há de ser de vós? Que deveis agora fazer, e nós todos? Arrepender-nos do passado e emendar-nos para o futuro, imitando-a daqui por diante, amando sempre a Deus, praticando sempre a virtude, e fugindo do vício: sobretudo consagremo-nos a ela, tomemo-la por nossa Mãe, sem nunca deixarmos de lhe rezar a sua coroazinha todos os dias.

Fonte: Missão abreviada

A detestação dos pecados (coletânea de citações do Catecismo Romano)

  • Consiste a penitência interior em converter-nos a Deus de todo o coração; em aborrecer e odiar os pecados cometidos; em firmar-nos no determinado propósito de mudar de vida e corrigir os maus costumes: mas tudo isso na esperança de conseguirmos perdão da misericórdia divina. A esta penitência se associa, quase como companheira da detestação dos pecados, uma certa dor e tristeza, uma perturbação sensível a que muitos dão o nome de paixão.
  • Dela formularam os Padres do Concilio de Trento a seguinte definição; “Contrição é uma dor da alma, e uma detestação do pecado cometido, com o firme propósito de não tornar a pecar”.
  • Através desta definição, os fiéis hão de reconhecer que a essência da contrição não consiste apenas em deixar alguém de pecar, ou em decidir uma mudança de vida, ou até em começá-la realmente; mas, antes de tudo, em odiar e detestar os erros da vida passada.
  • Já que definimos a contrição como uma dor, cumpre advertir os fiéis não suponham que seja uma dor perceptível aos sentidos corporais. Pois a contrição é um ato da vontade. Santo Agostinho explicava que a dor (sensível) é uma companheira da penitência, mas não é a própria penitencia.
  • Todavia, os Padres do Concílio usaram da expressão “dor”, para designar a detestação e o ódio do pecado, Já porque assim lhe chamam as Sagradas Escrituras – por exemplo, nas palavras de David: “Até quando nutrirei dúvidas em minha alma, e dor em meu coração, durante o dia inteiro?”; já porque, da própria contrição, nasce uma dor na parte inferior da alma, sede da concupiscência.
  • Havia, pois, cabimento em se definir como dor a contrição, porque esta causa dor realmente.
  • Há muita propriedade em chamar contrição a detestação dos pecados, de que estamos tratando, porque o termo exprime, perfeitamente, a ação violenta dessa dor.
  • A força do arrependimento deve contundir e triturar os nossos corações, que a soberba deixou empedernidos. Por isso, a nenhuma outra dor se aplica essa designação, nem à dor que sentimos pela morte de pais ou filhos, ou por qualquer outra desgraça. E’ um termo privativo, para exprimir a dor que nos empolga, quando perdemos a graça de Deus e a inocência da alma. Sem embargo, existem ainda outras expressões para designar a detestação dos pecados. Chama-se também contrição do coração. Os Santos Padres chamavam-lhe também compunção do coração, e gostavam desse termo, ‘para intitular as obras que escreveram sobre a penitência. Pois, do mesmo modo que se cortam os tumores com um ferro, para que possa vazar o pus acumulada: assim também se cortam os corações com o escalpelo da contrição, para que possam eliminar o veneno mortal do pecado. Por essa mesma semelhança, o Profeta Joel considera a contrição como o ato de rasgar o coração: “Convertei-vos a Mim, de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas, com lamentos. E rasgai os vossos corações”.
  • A dor pelos pecados deve ser suma e máxima, de maneira que se não possa conceber outra maior.
  • Se devemos amar a Deus sobre todas as coisas, devemos pela mesma razão detestar, acima de tudo, o que nos traz inimizade com Deus.
  • Demais, se Deus é o maior bem, entre todas as coisas dignas de serem amadas, o pecado é o maior mal entre todas as coisas que o homem deve odiar. Portanto, pela mesma razão que nos leva a reconhecer, em Deus, o objeto de um amor absoluto e soberano, devemos também tomar-nos de um ódio inexcedível contra o pecado.
  • Como, no sentir de São Bernardo, a caridade não comporta limites, porque a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida, assim também não se pode por limites à detestação do pecado.
  • Há pessoas que pela morte dos filhos experimentam uma dor mais sensível, do que pela torpeza do pecado. Aplique-se o mesmo princípio, quando as lágrimas não acompanham a veemência da contrição. Sem embargo, são elas desejáveis e muito recomendáveis conforme o declaram as incisivas palavras de Santo Agostinho: “Não tens entranhas de caridade cristã, se choras um corpo de que a alma se separou, e não choras uma alma da qual Deus se apartou…
  • Deus não faz delongas em nos dar o perdão, e com amor paternal acolhe o pecador, desde que este caia em e se converta ao Senhor, detestando em geral todos os seus pecados, com a intenção de recordá-los mais tarde, na medida do possível, para detestar cada um deles em particular.
  • Antes de tudo, peça também os auxílios da divina graça, para não recair nos mesmas pecados, que tanto lhe pesa haver cometido.
  • Só com o receio de agravar em alguma coisa a majestade de Deus, largamos então definitivamente o hábito de pecar.

Matéria, forma e efeito dos 7 Sacramentos

TRECHO DA BULA EXSULTATE DEO, DE 22/11/1439 (CONCÍLIO DE FLORENÇA – DZ 1310-1328)

[…]Em quinto lugar, para facilitar a compreensão aos armênios de hoje e de amanhã, redigimos nesta brevíssima fórmula a doutrina sobre os sacramentos. Os sacramentos da nova Lei são sete: batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, e diferem muito dos sacramentos da antiga Lei. Aqueles, de fato, não produziam a graça, mas significavam somente que ela teria sido concedida pela paixão de Cristo; estes nossos sacramentos, ao contrário, não apenas contêm em si a graça, como também a comunicam a quem os recebe dignamente.

Destes, os primeiros cinco são voltados para a perfeição individual de cada um, os últimos dois para o governo e a multiplicação de toda a Igreja. Pelo batismo de fato, nós renascemos espiritualmente; com a confirmação crescemos na graça e nos robustecemos na fé. Uma vez renascidos e fortificados, somos nutridos com o alimento da divina Eucaristia. Se com o pecado adoecemos na alma, somos espiritualmente curados pela penitência; espiritualmente e também corporalmente, segundo o que mais aproveita à alma, pela extrema-unção. Com o sacramento da ordem a Igreja é governada e se multiplica espiritualmente, mediante o matrimônio aumenta corporalmente.

Todos estes sacramentos constam de três elementos: das coisas, que constituem a matéria, das palavras, que são a forma, e da pessoa do ministro, que confere o sacramento com a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz. Se faltar um destes elementos, não é efetuado o sacramento.

Entre esses sacramentos há três – batismo, confirmação e ordem – que imprimem caráter indelével, ou seja, um sinal espiritual que distingue <quem o recebe> dos outros, pelo que não podem ser reiterado na mesma pessoa. Os outros quatro não imprimem o caráter e portanto se admite repeti-los na mesma pessoa.

O primeiro de todos os sacramentos é o batismo, porta de ingresso à vida espiritual; por meio dele nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E como por causa do primeiro homem a morte entrou no mundo [cf. Rm 5, 12], se nós não renascermos da água e do Espírito, não poderemos, como diz a verdade, entrar no reino de Deus [cf. Jo 3, 5].

Matéria deste sacramento é a água pura e natural, não importa se quente ou fria.

A forma são as palavras: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Não negamos, porém, que também com as palavras: “Seja batizado o tal servo de Cristo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ou com as palavras “O tal, com as minhas mãos, é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, se administre o verdadeiro batismo. De fato, a causa principal da qual o batismo tira sua eficácia é a santa Trindade, enquanto a causa instrumental é o ministro, que exteriormente confere o sacramento; se o ato conferido pelo mesmo ministro se exprime com a invocação da santa Trindade, é realizado o sacramento.

Ministro deste sacramento é o sacerdote, a quem por ofício compete batizar; mas em caso de necessidade pode administrar o batismo não só um sacerdote ou um diácono, mas também um leigo, uma mulher e até um pagão ou herege, mas que use a forma da Igreja e queira fazer o que faz a Igreja.

Efeito deste sacramento é a remissão de toda culpa original e atual e de toda pena relativa. Não se deve, portanto, impor aos batizados nenhuma penitência pelos pecados anteriores ao batismo, e os que morrem antes de cometer qualquer culpa são recebidos logo no reino dos céus e acedem à visão de Deus.

O segundo sacramento é a Confirmação, cuja matéria é o crisma consagrado pelo bispo, composto de óleo, que significa a luz da consciência, e de bálsamo, que significa ao perfume da boa fama.

A forma são as palavras: “Te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

O ministro ordinário é o bispo. E, enquanto para as outras unções basta um simples sacerdote, esta só o bispo pode conferi-la, porque só dos Apóstolos, de quem os bispos fazem as vezes, se lê que davam o Espírito Santo com imposição da mão, como mostra a leitura dos Atos dos Apóstolos: “Quando os apóstolos que estavam em Jerusalém souberam que a Samaria tinha acolhido a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Quando eles chegaram, rezaram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois não tinha ainda descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados no nome do Senhor Jesus. Então impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” [At 8, 14-17]. A confirmação, na Igreja, tem mesmo o lugar daquela imposição da mão. Lê-se, todavia, que alguma vez com licença da Sé Apostólica e por um motivo razoável e urgentíssimo, também um simples sacerdote tenha administrado o sacramento da confirmação com crisma consagrado pelo bispo.

O efeito deste sacramento, já que por ele é conferido o Espírito Santo para a fortaleza, como foi dada aos apóstolos no dia de Pentecostes, é que o cristão possa corajosamente confessar o nome de Cristo. Por isso, o confirmando é ungido sobre a fronte, sede do sentido de vergonha, para que não se envergonhe de confessar o nome de Cristo e sobretudo a sua cruz, que segundo o Apóstolo é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos [cf. 1 Cor 1, 23]; e por isso é marcado com o sinal da cruz.

O terceiro sacramento é a Eucaristia, cuja matéria é o pão de trigo e o vinho de uva, ao qual antes da consagração se deve acrescentar alguma gota de água. A água é acrescentada porque, segundo o testemunho dos santos Padres e Doutores da Igreja, exposto nas precedentes discussões, se crê que o Senhor mesmo tenha usado vinho misturado com água na instituição deste sacramento.

E também, porque isto convém ao memorial da paixão do Senhor. Pois o bem-aventurado Papa Alexandre, quinto <sucessor> depois do bem-aventurado Pedro, diz: “Nas oblações dos sacramentos apresentadas ao Senhor durante a celebração da Missa, sejam oferecidos em sacrifício apenas o pão e o vinho misturado com água. Não se deve, pois, oferecer no cálice do Senhor só o vinho ou só a água, mas ambos, justamente porque se lê que uma e outra coisa, isto é, o sangue e a água, jorraram do lado de Cristo [cf. Jo 19, 34]”.

Além disso, significa o efeito deste sacramento: a união do povo cristão a Cristo. A água, de fato, significa o povo, segundo a expressão do Apocalipse: muitas águas, muitos povos [cf. Ap 17, 15]. E o Papa Júlio, o segundo <sucessor> depois do bem-aventurado Silvestre, diz: “O cálice do Senhor deve ser oferecido, segundo as disposições dos cânones, com água e vinho misturados, porque na água se prefigura o povo e no vinho se manifesta o sangue de Cristo; quando, portanto, se mistura no cálice a água com vinho, o povo é unido a Cristo, e a multidão dos fiéis é coligada e juntada àquele em que crê”.

Se, portanto, quer a santa Igreja Romana instruída pelos beatíssimos apóstolos Pedro e Paulo, quer todas as outras Igrejas de latinos e gregos, iluminadas por esplêndidos exemplos de santidade e de doutrina, têm observado desde o início da Igreja, e ainda observam, este rito, parece incorreto que alguma outra região discorde daquilo que é universalmente observado e racionalmente fundado. Decretamos,pois, que também os armênios se conformem a todo o resto do mundo cristão e que seus sacerdotes, na oblação do cálice, acrescentem alguma gota de água ao vinho, como foi dito.

A forma deste sacramento são as palavras com as quais o Salvador o produziu. O sacerdote, de fato, produz este sacramento falando in persona Christi. E em virtude dessas palavras, a substância do pão se transforma no corpo de Cristo e a substância do vinho em sangue. Isto acontece, porém, de modo tal que o Cristo está contido inteiro sob a espécie do pão e inteiro sob a espécie do vinho e, se também estes elementos são divididos em partes, em cada parte da hóstia consagrada e de vinho consagrado está o Cristo inteiro.

O efeito que este sacramento opera na alma de quem o recebe dignamente é a união do homem ao Cristo. E como, pela graça, o homem é incorporado a Cristo e unido a seus membros, segue-se que este sacramento, naqueles que o recebem dignamente, aumenta a graça e produz na vida espiritual todos os efeitos que o alimento e a bebida materiais produzem na vida do corpo, alimentando-o, fazendo-o crescer, restaurando-o e deleitando-o. Neste sacramento, como diz o Papa Urbano [IV], recordamos a grata memória do nosso Salvador, somos afastados do mal e confortados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e graças.

O quarto sacramento é a Penitência, do qual são como que a matéria os atos do penitente, distintos em três grupos: o primeiro é a contrição do coração, que consiste na dor do pecado cometido acompanhada do propósito de não pecar para o futuro. O segundo é a confissão oral, na qual o pecador confessa integralmente ao seu sacerdote todos os pecados de que tem memória. O terceiro é a penitência pelos pecados, segundo o arbítrio dos sacerdote; à qual se satisfaz especialmente por meio da oração, do jejum e da esmola.

A forma deste sacramento são as palavras da absolvição que o sacerdote pronuncia quando diz: “Eu te absolvo”. O ministro deste sacramento é o sacerdote, que pode absolver com autoridade ordinária ou por delegação do superior. O efeito deste sacramento é a absolvição dos pecados.

O quinto sacramento é a Extrema-unção, cuja matéria é o óleo de oliveira , consagrado pelo bispo. Este sacramento não deve ser administrado senão a um enfermo para o qual se teme a morte; ele deve ser ungido nestas partes: sobre os olhos por causa da vista, sobre as orelhas por causa da audição, sobre as narinas por causa do olfato, sobre a boca por causa do gosto e da palavra, sobre as mãos por causa do tato, sobre os pés por causa dos passos, sobre os rins por causa dos prazeres que ali residem.

A forma do sacramento é esta: “Por esta unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor te perdoe tudo quanto cometeste com a vista”; expressões semelhantes se pronunciarão ao ungir as outras partes.

O ministro deste sacramento é o sacerdote. O efeito é a saúde da mente e, se aproveita à alma, também a do corpo. Deste sacramento o bem-aventurado apóstolo Tiago diz: “Há entre vós um enfermo? Que mande vir os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele ungindo-o com o óleo no nome do Senhor. E a oração feita com fé salvará o enfermo: o Senhor o aliviará e, se estiver com pecados, lhe serão perdoados” [Tg 5, 14].

O sexto é o sacramento da Ordem, cuja matéria é aquilo cuja transmissão confere a ordem. Assim o presbiterado é transmitido com a entrega do cálice com vinho e da patena com o pão; o diaconado com a entrega do livro do Evangelho; o subdiaconado com a entrega de um cálice vazio tendo em cima uma patena vazia. E, de modo análogo, para os outros <graus>, pela entrega das coisas inerentes ao ministério correspondente.

A forma do sacerdócio é a seguinte: “Recebe o poder de oferecer o sacrifício na Igreja pelos vivos e pelos mortos, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”. Para as outras ordens será usada a forma a referida por extenso no Pontifical Romano. Ministro deste sacramento é o bispo. E efeito consiste no aumento da graça para que o ordenando seja um digno ministro de Cristo.

O sétimo é o sacramento do Matrimônio, símbolo da união de Cristo e da Igreja, segundo as palavras do Apóstolos: “Este mistério é grande, digo-o em referência a Cristo e à Igreja” [Ef 5, 32]. Causa eficiente do sacramento é, segundo a regra, o mútuo consentimento expresso em palavras e presencialmente.

Atribui-se ao matrimônio um bem tríplice. O primeiro consiste em aceitar a prole e educá-la para o culto de Deus; o segundo, na fidelidade que um cônjuge deve observar em relação ao outro; o terceiro, na indissolubilidade do matrimônio, porque esta significa a união indissolúvel de Cristo e da Igreja. De fato, se bem que, por motivo de fornicação, seja permitido a separação de cama, não é permitido, porém, contrair outro matrimônio, pois o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo.

[…]

Depois de explicado tudo isso, os referidos oradores dos armênios, em seu próprio nome, <em nome> dos seus patriarcas e também de todos os armênios, aceitam, recebem e abraçam, com toda a devoção e obediência, este mui salutar decreto sinodal, com todos os seus capítulos, declarações, definições, ensinamentos, preceitos e estatutos e toda a doutrina neles contida, bem como tudo aquilo que sustenta e ensina a santa Sé Apostólica e a Igreja romana. Além disso, aceitam com veneração os Doutores e santos Padres aprovados pela Igreja romana. Qualquer pessoa ou doutrina por esta reprovada e condenada, também eles a consideram reprovada e condenada.

Quando cometemos um pecado nós sabemos que estamos fazendo algo de errado

Por Dom Lourenço Fleichman

Caríssimos irmãos, é todo o mistério do pecado original, todo o mistério do Batismo, todo o mistério da natureza decaída e da natureza do céu, é o que está hoje presente na Missa. Em primeiro lugar nós vemos Nosso Senhor receber um chefe da sinagoga, daqueles judeus que queriam matá-lo, e que se prostra diante d’Ele. Essa atitude de prostração é uma atitude de adoração que só é devida a Deus. Então, ele já começa reconhecendo que ele acredita, ele crê que Nosso Senhor é Deus e diz a ele: basta impor a tua mão e ela vivera.

É curioso como que Nosso Senhor reage. Ele não diz uma palavra. Aliás, Ele não diz palavra em hora nenhuma nesse milagre da ressurreição da filha do chefe da sinagoga. Nem na hora em que ele se levanta para ir até a sua casa, nem na hora que Ele chega e que toma a menina pela mão. E não diz a ela: levanta minha filha.

Surge, disse Ele para o filho da viúva de Naim, e ele se levantou do caixão, aquele que já estava morto. Não! Ele apenas toma a menina pela mão e ela levanta. Ele não precisa dizer nenhuma palavra. Outro dia nós falávamos sobre os sinais que Jesus estabelece nos seus milagres. E ali não teve muito sinal. Ele apenas foi e deu a mão à menina e ela se levantou porque, sendo Deus, Ele faz, Ele pensa e Ele quer e as coisas se realizam, e as coisas se criam.

Diferente foi o milagre da cura daquela mulher que padecia de um fluxo de sangue doze anos. Ela apenas encosta na franja das vestes de Nosso Senhor.  Ele se volta e diz: tem confiança, tua fé te salvou. E ela fica curada, diz o texto do evangelho. E essa é a verdade, ela fica curada naquela hora. Dois milagres diferentes, dois milagres com atitudes diferentes de Nosso Senhor.

Mas, porque razão nós sofremos tanto? Porque razão tanta doença? Porque razão a morte nos chega, nos faz passar para outra vida? Por causa do pecado original. Faz pouco tempo, eu estava lendo uma matéria de faculdade em que, claro, eles sempre atacam a Igreja, então dizia porque pra Igreja tudo é pecado? Eu tive vontade de responder, mas não respondi. Achei melhor não responder. Talvez eles não mereçam e a gente lance pérolas aos porcos. Para a Igreja tudo é pecado, e eu responderia: Não! Não é para Igreja que tudo é pecado, é pra consciência do homem que tudo é pecado. Porque quando o homem peca ele sabe que pecou e o pecado é uma consequência do pecado original. Nós pecamos porque a nossa natureza continua uma natureza enfraquecida. A gente diz natureza decaída. Por causa do pecado original Nosso Senhor Deus quis transmitir a todos os filhos de Adão e Eva aquela perda da graça santificante, aquela perda dos dons preternaturais.

Nós já não temos mais o domínio sobre nossas paixões e por isso caímos no pecado. Essa é a condição do homem e ele tem consciência disso. Quando nós cometemos um pecado nós sabemos que estamos fazendo algo de errado. A lei natural foi posta no nosso coração de tal forma que, mesmo um índio na Amazônia, um pagão lá na Ásia, em qualquer lugar, quando o homem peca ele sabe que pecou. E é bom ao homem ter essa lei natural no coração, porque sabendo que pecou pode voltar atrás. É dado ao homem essa capacidade de retornar, de voltar-se e pedir perdão a Deus, Nosso Senhor.

Claro, se nós temos notícia do Evangelho, nos convertemos a Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único e verdadeiro Deus. E se nós não temos notícia do Evangelho? Aquele Deus criador e remunerador, essa noção todos os homens tem. Então é dada ao homem a capacidade de pedir perdão pelos seus pecados. Isso é muito importante, mas enquanto Ele não voltar, enquanto não houver o fim do mundo e a ressurreição da carne, enquanto nós não formos julgados, nós estaremos sobre o regime de natureza decaída. Isso significa que nós temos que, de alguma forma, participar da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. São Paulo explica isso claramente, explicitamente.

Cabe a nós tomarmos a nossa cruz. Carregarmos a cruz atrás de Jesus. Seguirmos a Jesus como o próprio Cristo disse. E é por isso que nos vem o sofrimento. É por isso que temos tantas dificuldades na vida. É por isso que uma pessoa pode passar a vida toda envolta em uma doença grave. E é por isso que nós morremos.

Tudo isso faz parte da economia da salvação. Tudo isso faz parte da Redenção. Nós fomos chamados a sermos um povo redimido do pecado por causa do sangue que Jesus derramou sobre a cruz. E ele quer a nossa participação, porque não seria justo que nós pecássemos e Ele, só, pagasse. Imagine a multiplicação dos pecados se nós soubéssemos que todos os nossos pecados já estão pagos, e que nós não precisamos mais fazer nada. Não haveria freio, não haveria temperança que segurasse nossos atos, e os homens estariam pecando cada vez mais, e a injustiça se estabelecendo cada vez mais. Mas, Nosso Senhor não quis assim. Ele estabeleceu que Ele pagava por todos nós, e que nós estaríamos colaborando participando do sangue que Ele derramou, com a nossa parte que é o sacrifício da nossa vida, o sacrificiozinho, as pequenas coisas que a gente oferece, mesmo uma doença grave.

O que pode ser uma doença grave para um homem que, através da doença, pode compreender a sua vida espiritual, pode se unir a Nosso Senhor crucificado, perto do inocente que é Deus, que envia seu filho pra assumir a nossa natureza humana e morre na cruz por nós?  Completamente inocente, sem jamais ter feito um só pecado e sem jamais poder fazer um só pecado. A Jesus era impossível fazer um pecado, e no entanto ele pagou por todos os pecados duramente. Então é bom para nós oferecermos os nossos pequenos sacrifícios com paciência, com resignação, porque com isso nós estaremos preparando o nosso céu. Céu: muitas vezes nós perdemos a noção do céu.

São Paulo, na epístola que acabamos de ouvir, ele fala de dois mundos. Ele fala do mundo da carne e do mundo do espírito. Ele fala do mundo dos homens na terra e fala que nós somos cidadãos dos céus, que nós devemos ter nossa vida colocada no céu. E aí eu respondo a esses universitários, professores universitários: a Igreja jamais resumiu tudo no pecado. Ela sempre resumiu tudo no céu, no prêmio. Se nós vivermos santamente, se nós seguirmos os preceitos de Nosso Senhor, nós teremos uma recompensa eterna. E essa recompensa eterna é a visão beatífica. É ver com os nossos olhos a Deus, que é invisível. Nossos olhos se tornarão capazes de ver o invisível porque nós somos espírito, como Ele é espírito. E a Igreja, ao contrário, insiste a tempo e contratempo no céu, na felicidade, no fim último das nossas vidas. É pra isso que nós fomos feitos. É para estarmos com Deus no céu vendo-o face a face. Estando na frente, prostrados diante do trono do Cordeiro, do trono de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse é o pensamento da Igreja. Podem abrir os evangelhos, podem abrir as epístolas. Todos os doutores da Igreja sempre falaram do pecado como sendo a nossa condição de natureza decaída, mas com a solução dada, a solução da vida eterna, a solução daqueles que são resgatados pelo sangue de Cristo, e que, fazendo um pequeno esforço, se comportam bem e vão pro céu. Ao contrário, o mundo de hoje não dá solução alguma pros dramas que continuam existindo. Eles podem dizer que só a Igreja que pensa no pecado, nós não somos felizes, nós vamos ter muitas riquezas. E qual a solução quando eu peco e que a minha consciência me diz: pecaste, meu amigo. Qual a solução que o mundo dá? Nenhuma, continue no pecado.

A única solução que agora nos últimos tempos eles inventaram, que jamais os homens pensaram nisso, é que não é pecado, não tem pecado. Eles estão dando martelada na cabeça pra tentar esconder a consciência que o homem tem do pecado pra dizer: não há pecado, peque à vontade, não tem problema nenhum, não. Faça qualquer coisa, você é livre pra fazer qualquer coisa. A única liberdade que você não tem é de ser católico. Isso você não tem. Porque se for, nós vamos te atacar.

Então, eles são muito pluralistas. Eles são pra todas religiões, mas se você é católico e mantém fielmente a doutrina do Evangelho, eles te atacam. Então, nós temos que tomar um certo cuidado.

São Paulo, na epístola, nos fala das consequências do pecado. E essas consequências do pecado que São Paulo fala aqui, hoje, nessa epistola, são coisas escondidas no coração do homem. As rixas, as divisões, as comunidades que se dividem por causa do amor próprio, por causa da vontade própria, por causa da fofoca, de WhatsApp, essas coisas. Todo mundo se divide por causa dessas coisas escondidas. As famílias brigam por causa dessas coisas e os homens brigam nas suas sociedades. E São Paulo está dizendo: olha, é assim que vocês estão vivendo, vocês estão vivendo em brigas, estão vivendo em rixas. Mas, nós somos cidadãos dos céus, e lá no céu nós teremos outra vida, de onde nós esperamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo[…].

É esse ensinamento da Igreja, ele diz, o qual transformará o nosso corpo de miséria fazendo semelhante ao Seu próprio corpo glorioso[…]. Se Ele é Deus, tudo está aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo e com esse poder Ele transformará o nosso corpo e nós teremos um corpo espiritualizado, um corpo ágil, um corpo capaz de atravessar as paredes e capaz de atravessar o mundo, com nossa consciência completamente colocada na adoração constante, eterna.[…]

Vocês podem compreender o que é nós estarmos diante de Deus e vermos a Santíssima Trindade? Coisa que hoje para nós não podemos compreender. Nós veremos o Pai, o Filho e o Espírito Santo num só Deus. Esse grande mistério da Santíssima Trindade estará diante de nós, como dois mais dois é igual a quatro. E essa grandeza de Deus todo dia renovada, toda hora renovada. No céu não tem dia, nem hora. O momento da eternidade todo renovado para que nós tenhamos a contemplação daquela verdade que nos repousa, daquela verdade que repousa nossa inteligência. Jamais nós precisaremos procurar solução de equação nenhuma, jamais nós teremos que procurar solução dos dramas do mundo, porque teremos Deus diante de nós e conheceremos Ele tal como Ele é. É essa que é a verdadeira doutrina da Igreja. O pecado é a consequência que nós vivemos na miséria da nossa vida. Todo mundo sabe disso, todo mundo compreende isso, todo mundo se esforça pra ser melhor pessoa, melhor cidadão. Nós somos cidadãos. Cidadania, todo mundo só fala nisso.

Mas, porque  temos que melhorar? Porque nós somos maus. Porque nós carregamos essa natureza decaída. Isso é uma evidência. Mas, o outro lado da moeda é a graça de Deus que nos eleva, é a graça de Deus que nos cura, é a graça de Deus que, na hora da nossa morte, nos leva pro céu. Estaremos nós diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos tomando pela mão. Ele ressuscitou a filha daquele homem tomando-a pela mão, nós também seremos ressuscitados. Ele nos tomará pela mão. Nós recuperaremos nosso corpo glorioso e estaremos para sempre com Ele no Paraíso, para sempre com Ele na vida eterna, na visão beatífica, na felicidade que não acaba mais. Tudo isso é a nossa doutrina, tudo isso é ser católico.

Tenhamos, então, um grande apreço por aquilo que Nosso Senhor nos ensinou. Sem sentimentalismos baratos, sem enganações como o mundo quer nos impor.   Apenas conhecendo verdadeiramente quem nós somos, trabalhando nessa vida para corrigir nossos defeitos, para sermos melhores uns com os outros, e com isso mereceremos estar para sempre no Paraíso.

Niterói, 12/11/2017

 

E a moedinha de Deus, onde está?

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, onde nós vamos encontrar a moedinha de Deus? Onde que nós vamos encontrar aquela imagem colocada na moedinha de Deus? Já que a de Cesar nós sabemos onde está! Já que a de César nós temos que entregar a César! Mas, Nosso Senhor disse: “Dai a Deus o que é de Deus”. E a moedinha de Deus, onde está? E a medalhinha de Deus, onde está? E o anel de Deus, onde está? É essa que é a questão da nossa vida. Então São Paulo vai responder: “Ele é a imagem de Deus vivo”. Nosso Senhor Jesus Cristo é a nossa moedinha. Nosso Senhor Jesus Cristo encarnando-se, vindo para morrer por nós, foi Ele que pagou a Cesar o que é de Cesar. Foi Ele quem pagou ao demônio o que é do demônio. Foi Ele que deu a Deus aquilo que é de Deus, ou seja, nossas almas.

É, então, em Nosso Senhor, é, então, na Sua Igreja que nós vamos encontrar a moedinha de Deus, a imagem de Deus. Porém, muito diferente da imagem que nós vemos na moeda do mundo, na moeda de César. A moeda de Deus é eficaz. A moeda de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, derrama Seu sangue por nós. Ela é viva! Não é uma moedinha de latão, não é uma moedinha de prata, nem de ouro. Ela é de carne e osso e ela derramou seu sangue. Se nós encontrássemos uma moedinha com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo representando aquilo que Ele pagou a Deus por nós, ela estaria coberta de sangue, ela está coberta de sangue. E essa moeda que está coberta de sangue é a Igreja. É ali que nós encontramos esta moeda. É ali que nós encontramos esta medalhinha porque é religiosa. É ali que nós encontramos esta aliança porque é uma nova aliança feita no Seu sangue.

É assim, então, que nós temos que procurar na nossa vida como que nós vamos lidar nesse comércio santo – e não se espantem com essa palavra porque a própria liturgia usa o comércio que se estabeleceu na encarnação do Verbo, dia primeiro de janeiro, na festa da Oitava de Natal, as antífonas falam desse comércio santo que Deus realizou enviando o Seu Filho para morrer por nós. Se Ele fez um comércio conosco, Ele fez uma aliança. Nós temos um anel! Nós temos um anel que é a nossa parte, Ele tem um anel que é a parte d’Ele. Ele é o anel de Deus, Ele nos faz o laço com Deus. Mas, Ele é também uma imagem religiosa, então é uma medalhinha. Uma medalhinha que nós carregamos no peito, não com um cordãozinho de ouro, mas no coração. E essa medalha foi impregnada em nossas almas no dia do batismo. Essa medalha é um caráter sacramental. Essa medalha é a imagem de Jesus Cristo dentro de nós e é exatamente assim que a doutrina católica e São Paulo nos ensinam.

Nós somos configurados como uma planta é enxertada na outra planta, nós somos enxertados em Cristo pelo batismo. Então, a medalha religiosa de Nosso Senhor está dentro de nós. Nós somos ela. Nós nos transformamos em medalha. Nós nos fizemos medalha porque queremos morrer com Ele. Fomos mortos com Ele no batismo pelas águas do batismo, para ressuscitarmos com Ele na vida eterna. E somos também fruto desse comércio. Então somos também uma moedinha, não apenas uma aliança. Não apenas uma medalha, mas também uma moedinha. E para sermos justos temos que dar a Nosso Senhor Jesus Cristo aquilo que Ele deu por nós. Se Ele fez o comércio com o Pai, se Ele entregou-se à morte por nós, se Ele tornou-se um comércio espiritual para nossa salvação, cabe a nós darmos a nossa parte: estarmos a altura desse comércio que Ele fez por nós.

Mas, não parece tão fácil assim. Nós queremos isso tudo. Tudo isso tudo é uma linda teoria, tudo isso é uma espiritualidade elevada. Mas, quando nós nos encontramos na nossa vida do dia-a-dia, as coisas não são tão bem assim. Aquela moedinha de ouro já não é tão de ouro, já virou meio manchada. Naquela medalhinha a imagem de Jesus já não está tão nítida. E a aliança? Onde mesmo foi que eu pus a minha parte? Não sei mas onde guardei a minha aliança. Onde será que eu pus? Em que gaveta eu escondi? Porque ela já não está mais no meu dedo, já não representa mais aquilo que eu troquei com Ele, aquilo que eu firmei com Ele, aquele trato que eu fiz com Ele para ser todo dele, para estar inteiramente entregue nas mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, diz São Paulo, eu tenho por mim que aquele que iniciou a obra da santificação em nossas almas, Ele mesmo aperfeiçoará, Ele mesmo tornará perfeita, Ele mesmo terminará essa obra. É isso que São Paulo acaba de nos ensinar. Então aí nós vemos uma laço entre o evangelho e a epístola. Essa obra é Nosso Senhor que faz em nós.

Então, onde está a nossa aliança? Onde está a nossa medalhinha? Temos que recuperar! Recuperar através de quê? Dos atos da nossa vida. Temos que olhar pra nós mesmos e dizer: será que tudo que eu faço corresponde a essa imagem viva do Deus que é o rosto d’Ele em mim, marcado pelo Batismo, continuado pela Eucaristia.

Eu trago Jesus para dentro de mim na Eucaristia. Ele fez-se pão para ser comido por mim e eu ser nutrido por Ele. Será que todos os domingos quando eu venho na Missa – ou dias de semana – é assim que eu comungo? Nós podemos saber através dos atos da nossa vida. Nós podemos saber se nós verdadeiramente estamos cumprindo aquela caridade que São Paulo põe no final do seu texto dizendo assim: é nessa caridade que nós temos que viver, é neste amor mútuo que nós temos que viver, e não na intriga, e não nas obras da carne, e não nas obras do pecado, e não na falta de caridade, e não no egoísmo que nos fechamos dentro de nós mesmos como se não fôssemos nós agraciados por esse comércio divino. Se nós não tivéssemos sido salvos pelo seu sangue, mas nós fomos. Então marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter batismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter crismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo de caráter sacerdotal, para que cada um na sua função, cada um vivendo na Comunhão do Santos, amando-se uns aos outros na Comunhão dos Santos, nós possamos dizer com o salmo Ecce quam bonum et quam iucundum habitare fratres in unum, como é bom os irmãos estarem num convívio mútuo, como é bom os irmãos serem imagem uns dos outros, como é bom nós formarmos dentro de nossa casa, dentro de nossa capela um tesouro de moedinhas todas elas com a marca de Jesus Cristo.

Quando que nós vamos economizar? Quando que nós vamos fazer uma poupança de amor, poupança de caridade? Todos com sua moedinha dentro da Casa do Senhor, todos com sua moedinha diante do altar do Senhor, oferecendo essa moedinha como um sacrifício, como morte, como ressurreição?

É assim que nós temos que conviver com isso, conviver com essa realidade que está dentro de nós e tirar de nossas vidas tudo aquilo que mancha a medalha, que mancha o comércio, que mancha a aliança que nós temos com Nosso Senhor. E isso a gente faz todos os dias quando a intriga toma conta de uma sociedade, que seja casa, que seja a capela, às vezes no trabalho.

Pensem nos pecados da língua. Quantas e quantas vezes é pela fala que nós ofendemos, que nós intrigamos, que nós fazemos complôs, que nós dividimos. É assim que o homem vive. E muitas vezes o homem vive assim dividindo e nos seus complozinhos achando que estão agradando a Deus, esquecendo-se que isso está escurecendo a beleza, o brilho daquele ouro da moedinha de Jesus Cristo. Então nós temos que olhar para as nossas vidas e dizer: será que eu lustro ela todos os dias pelos meus atos? Será que eu correspondo ao sangue que Ele derramou por nós? Na prática. Não é teoria espiritual, é a prática do dia-a-dia. Porque aquele que me ama cumpre os meus mandamentos na prática, no concreto, no irmão que está ali do meu lado.

Tenhamos, então, cuidado! Andemos com circunspecção como diz São Paulo – se não me engano domingo passado ou retrasado – prestemos atenção onde estamos indo nessa trilha que Jesus traçou para nós, para nos levar até a vida eterna, porque é muito bonito tudo que a Igreja nos ensina, é muito bonito todos os textos espirituais que a gente lê, mas, se nós não praticarmos isso com exigências, se nós não formos fortes para vencer os nossos vícios, para abandonar a impureza do mundo, para abandonar a grossura da língua… É assim que a gente vive, porque da boca do homem sai muita maldade.

Então, tenhamos cuidado ao falar. Tenhamos cuidado ao lidar uns com os outros. Tenhamos cuidado com as palavras que usamos e com o espírito com que usamos essas palavras, para que reine dentro de nós o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo marcado no sangue redentor, marcado na cruz que Ele carregou por nós, para que nós possamos alcançar a vida eterna.

SERMÃO DE 05/11/2017 – Niterói – RJ

Sermão de 29/10/2017 – Festa de Cristo Rei

por DOM LOURENÇO FLEICHMAN

Meus caríssimos irmãos, antes de nós darmos a nosso Senhor Jesus Cristo a atitude de submissão que um súdito deve ao seu Rei do Céu, nós deveríamos pensar um pouquinho no modo como os homens ao longo da história deram essa submissão aos reis da terra. Quase que é conatural aos homens terem reis. Todos os povos sempre tiveram reis desde a mais longínqua antiguidade. Desde que as cidades começaram a se organizar que os homens foram se espalhando sobre a terra, imediatamente apareceram aqueles que chefiavam aqueles povos, aquelas tribos, aquelas cidades. Apenas um povo, muitos séculos depois, não tinha rei. E esse povo era o povo hebreu.

Os homens inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer ao rei da terra e os hebreus inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer aquele que os tinha escolhido, que os tinha tirado do Egito, que tinha dado para eles a terra prometida aonde nasceria o Messias. O povo hebreu esperava isso e sabia que era através daquela realeza de Deus, daquele governo divino, daquele povo escolhido, que eles tinham a revelação. Eles sabiam que era assim. Não é porque eles fossem melhores do que os outros. Eles sabiam muito bem quais eram os seus pecados, mas eles sabiam que por um motivo que eles não entendiam, Deus tinha escolhido a eles para que ali nascesse o salvador.

Todos os povos tinham seus reis e esses reinados foram crescendo, foram tornando opulentos, ricos, poderosos. O próprio povo de Israel sofreu desse poder de reis que cercavam a nação dos hebreus. Foram para a Babilônia. Nabucodonosor os escravizou. Os assírios em outra ocasião também levaram uma parte do povo na galileia para o cativeiro. E assim a história de Israel era toda ela marcada por uma relação difícil com outros povos. Às vezes também de colaboração, como foi o caso por exemplo de Abraão quando foi atacado por cinco reis ele fez união com outros reis e perseguiram aqueles reis e venceram.

Quando o povo de Israel dirigi-se a Deus para dizer: “Nós também queremos reis. Veja senhor os outros povos. Veja a beleza dos seu palácios, veja a riqueza desses reinos e nós não somos nada, somos apenas um povo”, Deus diz a eles: “Vocês não precisam de rei porque Eu sou o vosso rei e o poder que eu exerço sobre vós é o mesmo poder que eu exerço sobre todos os outros povos. E se eles tem reis é porque eu coloquei-os lá. Mas o povo insistiu e Deus disse: “Muito bem! Vocês querem reis da terra, então tereis reis da terra”. E foi através desses reis que veio a corrupção dentro de Israel.

Vocês conhecem a história de Salomão.  Davi, apesar de ser o grande amigo de Deus, um grande santo, que caiu naquele pecado horrível e foi castigado por isso. Mas depois Salomão tornou o reino de Israel o mais poderoso de toda a história. Mas, caiu ele também em um pecado muito pior do que de seu pai, caiu na idolatria. Davi jamais tinha caído na idolatria, caiu no pecado da carne. E Deus castiga Salomão rompendo o laço que ele tinha de realeza com o povo de Israel. Apenas mantém sob o poder de Salomão a tribo de Judá por causa de Davi, e ele diz a Salomão: “Eu só não te extermino completamente por causa do teu pai”. Então mantém essa cisão, esse cisma dentro de Israel (entre o reino de Israel e o reino de Judá) que vai durar até a época de Nosso Senhor Jesus Cristo, até a destruição do templo.

Ora, ao longo de toda essa história, todo o antigo testamento, os homens tinham uma inclinação, uma facilidade de obedecer. Uma inclinação de reconhecer que deveria haver homens mais poderosos do que o simples lavrador para ordenar a vida do povo para ordenar a vida daquela nação, e obedeciam com uma certa facilidade. Nosso Senhor Jesus Cristo morre na cruz. Nosso senhor Jesus Cristo conquista a realeza, como homem, para toda a humanidade, para todo o tempo. Muito bem, esse é o objeto da festa de Cristo Rei. Mas, se me permitem, pulemos um pouco a cruz pulemos um pouco a coroa que Jesus carrega ensanguentada na sua cabeça e que lhe dá essa prerrogativa de governar todos os povos, e olhemos um pouquinho para o início do Cristianismo, logo depois da ressurreição da ascensão. Quando os apóstolos começam a espalhar o evangelho por todas as nações são martirizados, como ontem nós vimos São Simão e São Judas. Mas, a lei de Deus começa a se espalhar e aqueles reis, antigos reis pagãos, começam a oferecer suas coroas para o Rei dos Reis, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Começam a reconhecer a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os próprios reis, tornando-se católicos, depositam o seu poder nos pés de Nosso Senhor. E, junto com eles, as nações. Junto com eles, os povos. Vocês conhecem a história de Clóvis que foi o primeiro dos reis bárbaros a se converter ao Cristianismo e com ele o povo dos francos que dá origem à França. Vocês conhecem a história de Vladimir. Os eslavos que em Kiev, onde hoje é a Ucrânia, também se faz batizar no rio e com ele todo o seu povo. E assim, muitos daqueles reis quando se convertiam levavam o povo todo a se converter ao Cristianismo. E foram então tornando-se lugares tementes do Rei dos Céus, como dizia Santa Joana d’Arc.

Obedeciam em primeiro lugar aquele Rei, que era o Rei dos Reis e governavam seus povos em nome d’Ele. Governavam seus povos por causa do Evangelho, favorecendo o  evangelho. Isso é a Idade Média. Mas, compreendam o espírito do medieval – diferente de tudo que esses livros de história ensinam – o espírito do medieval era um espírito de docilidade. Aqueles homens tinham uma facilidade muito grande de oferecer a sua obediência aos governantes, aos reis, àqueles que carregavam uma coroa. Agora, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, é sacramentalizada a coroa. Não que se torne um sacramento, mas era o bispo que impunha a coroa aos reis e ungia a cabeça dos reis, como Saul e Davi e os reis de Israel tinham sua cabeça ungida pelos profetas. Então há um lado religioso e o povo continuava tendo a mesma índole de obediência natural, boa, inocente. Havia, é claro, os momentos de revolução, de revolta, e matavam o rei aqui e matavam outro ali. Isso acontecia, é verdade, por causa do pecado original. Mas não era uma organização, não era institucionalizada a revolta e a revolução como vai ser a partir da Renascença, em que os homens vão recusar o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, a Idade Média quebra-se com esse espírito de autonomia dos homens, quebra-se com o espírito de que os homens são eles próprios os governantes das suas cabeças e que eles não devem ter reis, mas escolher ali um governante, um administrador. E surge então o liberalismo, o individualismo com todas as doutrinas do humanismo que começam com a quebra da Idade Média. A relação dos homens para com os seus reis começa a mudar e vai terminar com a guilhotina, vai terminar com a morte dos reis e o desaparecimento dos reinados católicos. Eram reinos católicos. Brigavam entre si, disputavam por motivos bobos e bestas, muitas vezes por motivos de heranças, é verdade, por causa do pecado original, não por causa da realeza em si. Não era o fato de ter reis que fazia o erro daquele regime, mas apenas a inclinação perversa que nós carregamos no coração. Mas o que acontece é que os séculos vão passando e os homens vão se pervertendo. No momento em que perde-se aquela linha ascendente civilizacional em que os reis vão se santificando e procurando santificar o seu povo, vão se convertendo e procurando converter o seu povo, no momento em que isso se rompe a linha civilizacional desce e começa uma decadência que vai afetar a relação de cada um com os seus governantes. E é nessa democracia liberal em que nós vivemos hoje graças à Revolução Francesa, graças ao sangue derramado de todos aqueles nobres que tinham motivo de ser. Tinha uma razão de ser a nobreza. Os livros de história vão dizer que eles eram os perversos, que maltratavam os servos. Eles não entendem nada. Eles falsificam e mentem. Não era assim, a relação dos homens não era essa. Tudo isso é mentira de historiadores marxistas que querem denegrir a Igreja o tempo todo.

Mas, nós somos herdeiros deles. Infelizmente, do ponto de vista civilizacional, nós somos herdeiros da revolução. E nós somos imbuídos de um espírito revolucionário dentro de nós. Já está muito longe o tempo em que os homens dobravam-se à obediência ao seu rei com uma naturalidade, um amor, e gostavam de estar com o rei. Os reis medievais não eram aqueles reis milionários dos tempos do absolutismo, dos tempos da Renascença. Isso vem depois que eles quebram a Idade Média, depois que eles perdem a fé. Na Idade Média, não. Os reis eram simples. Saiam juntos com seus súditos e a vida dos reis não era muito diferente da vida dos outros. Claro que ele tinha que governar e era necessário que ele governasse. E a sua família governava também.

É assim que nós recebemos essa herança maldita de um espírito liberal, de uma democracia liberal e de um espírito de autonomia que faz desaparecer do coração do homem uma coisa cândida, uma coisa linda que existia, que era a inocência do filho em relação ao seu pai e do súdito em relação ao seu rei. Isso desapareceu. E o que nós vivemos hoje no mundo moderno é realmente um pecado contra a piedade, um pecado contra a virtude que faz com que o homem naturalmente se incline a obediência. Se incline à obediência do seu pai e se incline à obediência de seu rei. E também se incline à obediência à Igreja, porque também faz parte da obediência. E aí nós encontramos a razão de ser da fundação dessa festa de Cristo rei pelo Papa Pio XI porque, compreendendo que os homens já não queriam mais obedecer uns aos outros, já não tinham mais a inclinação de obediência à realeza, ao rei que carregava uma coroa em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, era necessário fortalecer o coração dos homens com um espírito que devolvesse alguma coisa disso. Então vamos festejar Jesus Cristo Rei. Rei das nações, Rei político das nações. Não que Ele vá instituir uma teocracia, não que Ele vá instituir papas ou bispos para governar os povos, mas Ele vai instituir governantes para em nome d’Ele governar os povos, em nome d’Ele obedecer à Igreja, em nome d’Ele como conduzir os homens a salvação eterna que é o objetivo final, o fim último de todos os homens.

Então, quando nós pensamos que Jesus, como Deus, é Rei e Senhor, Criador e Redentor, não tem discussão nenhuma, […] ele manda e ele desmanda. Agora, Jesus Cristo como homem, a natureza humana uni-se à natureza divina numa única pessoa: é a união hipostática, o dogma da nossa fé nos ensina isso. Nós cremos em Jesus Cristo, um só seu filho Nosso Senhor que encarnou-se no seio da Virgem Maria. Morreu na cruz para nos salvar. E volta pro céu. A natureza humana de Jesus é a natureza humana de Jesus, mas ela está unida em uma mesma pessoa, ou seja, hipostaticamante, à natureza divina, de modo que os atos de Cristo eram atos de Deus e os atos humanos de Cristo também eram realizados pelo próprio Deus. E por isso Ele é infinito. E por isso Ele é todo poderoso. E por isso ele conquista com seu sangue o poder sobre todos os povos e todas as nações, obrigando-as a obedecerem o evangelho, obrigando-as a serem católicas, obrigando-as a acatar uma consagração ao seu sagrado coração que Ele conquistou por amor de nós, derramando Seu sangue para nossa salvação.

Mas, voltemos ao espírito moderno. E eu pergunto: ainda é possível para nós, homens da democracia liberal, pessoas vivendo em um mundo em que os filhos já não obedecem mais seus pais, em que os homens já não obedecem mais a Igreja, em que os alunos não obedecem mais seus mestres, é possível para nós compreendermos o teológico e humano da festa de Cristo Rei? Eu não sei. Sinceramente eu não sei se estamos em condições de compreender isso, porque talvez se nós tivéssemos realmente a condição de compreender o que é dobrar nosso joelho diante de Nosso Senhor enquanto homem, porque Ele é Rei, então os homens estariam vivendo de um modo um pouco diferente do que vivem. Nós estaríamos vivendo de um modo diferente do que vivemos por causa dessa autonomia de que eu falo tanto, por causa desse espírito de orgulho que cega o coração do homem, que cega o nosso coração.

Nós também somos contaminados por esse espírito porque vivemos no século, porque somos desse tempo e não temos como escapar disso. Os homens vão produzindo autonomias uma atrás da outra. Vamos sendo obrigados a acompanhar a vida porque temos que estar em uma escola, porque temos que estar em um trabalho, porque temos que governar uma cidade, qualquer que seja o homem. Então, nós católicos também estamos contaminados e precisamos prestar atenção e usar a festa de Cristo Rei para dizer como que eu posso restaurar meu coração. A humildade, a castidade, a modéstia, todas as virtudes que me movem a dobrar a minha cabeça diante de Deus, a dobrar a minha cabeça diante de Jesus Cristo Rei. A dobrar a minha cabeça diante de meu pai. Não responder a ele, saber respeitar. A dobrar a minha cabeça diante dos meus mestres que aprenderam antes de mim e que, mesmo ganhando seu salário, se dedicam às crianças, se dedicam a ensinar. E só isso já seria suficiente para nós termos um respeito imenso por eles mas não se tem mais. Como que eu vou voltar a dobrar a minha cabeça à Igreja, ao dogma católico, aos padres que nos orientam? E tudo isso está contaminado nas nossas vidas, não é só lá fora não. Nós perdemos contato com essa piedade, nós perdemos contato com Cristo Rei.

Então seria necessário restaurar um pouco isso. Seria necessário pensar um pouquinho nessas virtudes que nos devolvem a inocência, a candura. Nos devolve essa simplicidade de olhar que faz com que a nossa obediência seja fácil como eram os medievais, como eram os hebreus, como eram os povos antigos mesmo com seus reis pagãos. E Deus usava eles todos. Mesmo os pagãos eram usados por Deus. Foi Ciro, um rei pagão da Pérsia, que foi lá vencer a Babilônia e devolver pro povo de Israel a Palestina. Não foi nenhum enviado de Deus, foi um rei pagão. Ele usa os reis pagãos também porque ele é o Senhor dos Senhores. Ele é que determina nosso destino, ele é que explica por qual caminho temos que seguir. Mas nós nos cegamos diante disso. Nós hoje somos homens cegos, somos homens que estamos há 600 anos seguindo um caminho de autonomia, seguindo um caminho de liberdade, seguindo um caminho de afastamento da ordem que Deus estabeleceu no coração dos homens para que as coisas andassem segundo uma determinada vontade divina.

Peçamos então a Nosso Senhor Jesus Cristo que devolva isso. Para que Ele possa devolver isso a nós, temos que abrir nosso coração na docilidade, temos que compreender nossos pecados, temos que compreender a rudeza do nosso orgulho. Mas se nós fizermos assim, então, Ele toca o nosso coração e nós vamos saber dar a Ele essa obediência, dar a Ele essa submissão, dar a Ele esse amor que significa entregar-se em todos os níveis da ordem das coisas, em todos os níveis da hierarquia das coisas, entregar amorosamente à obediência.

Capela Nossa Senhora da Assunção, Fortaleza-CE.

Comunidade de Tradição Católica em Parnaíba-PI. Tradição Católica no Brasil. Missa Tridentina no Piauí.