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Deus semeando trigo no seu campo

Sermão de Dom Lourenço Fleichman

Se nós compreendêssemos a beleza da criação

Caríssimos irmãos, assim foi no início do tempo, Deus plantou o seu trigo. Tudo que Ele criou, a maravilha da criação, todos os astros, a ordem que está nesses astros todos, desde o momento em que o mundo começou a se embelezar por obra da Providência Divina, preparando o lugar onde seria criado o homem para depois então nascer o Salvador, tudo isso é obra das mãos de Deus com uma beleza que poderia nos trazer uma certa contemplação suficiente pro resto das nossas vidas. Se nós compreendêssemos a beleza da criação, se nós pudéssemos vislumbrar um pouco aquilo que na sua pureza inicial estava presente na vida de Adão e Eva, aquele Paraíso era o menos de tudo. O Paraíso era para eles um lugar de delícias, mas era um lugarzinho no centro daquela terra maravilhosa que Deus criou para o homem. O centro daquelas estrelas, milhares e miríades de estrelas que Deus criou para o homem, todos os sóis e todos os sistemas planetários foram feitos para embelezar a noite do homem e iluminar o seu dia. E ali viviam Adão e Eva. Viviam em plena felicidade e não precisavam de mais nada. Toda essa criação posta para a admiração e a contemplação dos nossos primeiros pais. É o trigo, é trigo na nossa parábola. Está ali crescendo, amadurecendo, tornando-se aquela plantação dourada que sacode ao vento e que tanto fez escreverem os poetas sobre a beleza da plantação do trigo.

e vem, então, o pecado original

Muito mais variado do que o trigo. As florestas, os rios, as montanhas, tudo que acontece na natureza quando faz sol e as plantinhas crescem, quando chove e molha e rega as plantinhas, quando cai a neve para que no inverno aquelas plantinhas hibernem para poderem explodir de vida na primavera. Tudo foi feito nessa beleza inicial e estava assim no paraíso de Adão e Eva. Veio o inimigo do homem, diz o texto do evangelho, e semeou a cizânia, semeou a feiura, semeou o pecado. Começa com a serpente aparecendo para Eva, tentando a mulher naquela fraqueza do seu espírito: “Sereis como deuses” e vem, então, o pecado original. A mulher cai, desgraçadamente cai naquela conversa fiada do demônio e aceita, no seu orgulho profundo, ser mais do que era – que já não era tudo o que podia ser porque era dependente da costela de Adão, foi criada com aquela referência do homem. Ele, o chefe da família e, ela, a companheira. Ela, aquela que vinha para dar a ele os filhos e juntos formarem aquela primeira sociedade na família, que hoje está sendo destruída pelo mundo.

Assim, então, Adão e Eva poderiam ter vivido numa felicidade muito maior se seus filhos tivessem nascido na confirmação da glória. Se eles tivessem nascido depois de eles terem vencido a tentação, teriam sido confirmados na glória e todos os homens teriam nascido já no Paraíso, já na vida eterna, já na visão beatífica de Deus. Se Deus determinasse que haveria a humanidade, porque talvez bastaria para ele ter Adão e Eva na contemplação da Sua beleza, do Seu ser, e não precisaria de outros seres. A multiplicidade de homens vem um pouco pelo pecado, vem um pouco para resgatar o pecado e fazer com que aquela concentração de visão e de amor que eles teriam e que perderam pelo pecado seja então recuperada pela multidão dos eleitos, daqueles todos que Deus criou e viu que seriam salvos. Na sua pré-visão, Ele já sabe todos os que são salvos e todos os que são condenados. E não poderia deixar de ser assim, porque Deus vive no presente eterno, nós é que passamos o tempo, mas Ele, no Seu presente eterno, vê o início e o fim das nossas vidas.

continuamos nós vivendo das consequências do pecado

O pecado vem porque o inimigo do homem semeia o pecado no meio do trigo, no meio da criação, no meio da beleza daquele Paraíso terrestre. E Adão e Eva caíram no pecado. Não foi só Eva, não! Adão a acompanhou! Eva teve a fraqueza dela e Adão teve a dele. Eva teve a fraqueza de mulher, fraca no seu juízo, fraca no seu entendimento. Adão teve sua fraqueza: a sedução da mulher. Assim é até hoje. Até hoje continuamos nós vivendo dessas mesmas consequências do pecado. É aí que está a missa de hoje, é aí que está o resultado de eles terem pecado. Foram expulsos do Paraíso, Deus colocou o querubim com uma espada de fogo para fechar a porta do Paraíso, para que não acontecesse que algum dos seus filhos invadisse o Paraíso e comesse do fruto da árvore da vida, que estava no centro do Paraíso, que é a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi necessário fechar o Paraíso, foi necessário transformá-lo num deserto, para que viesse no seu tempo o Salvador. E aí sim, a árvore da vida fosse plantada de vez no centro da Terra, em Jerusalém, onde Jesus Cristo morreu. O fato é que todos nós, filhos de Adão e Eva, nascemos com o pecado original. À exceção da Virgem Maria, todos nós, todos os homens – e isso é um dogma de fé – todo católico não tem nem que pestanejar, sabe que Adão e Eva existiram, sabe que eles pecaram no primeiro pecado e sabe que Deus transmitiu este pecado a todos os descendentes de Adão e Eva, que somos nós e toda a humanidade, exceção feita da Virgem Maria. Ela, preservada do pecado original para que dela nascesse o Salvador, isso nós sabemos também, não precisamos discutir.

uma privação da graça

Então, o pecado original é transmitido para nós. E todos os homens nascem com esse desregramento que é o pecado original. Não se trata de uma culpa. É preciso que, de vez em quando, nós voltemos à doutrina do pecado original porque hoje ele já não é mais considerado. Mesmo dentro das igrejas já não se fala mais do pecado original. Por causa disso chegam à conclusão que o inferno está vazio, ou mesmo não existe, que Deus é bom demais e vai levar todos pro Paraíso. Não acreditam nem em Adão e Eva, quanto mais no pecado original. Como poderiam acreditar no pecado original se eles não acreditam em Adão e Eva? Não são católicos, perderam a fé. Essa que é a realidade.

Mas nós acreditamos em Adão e Eva, e sabemos que eles pecaram. Está escrito na Bíblia, Deus revelou isso aos homens. E quando eles pecaram, Deus, por castigo transmitiu a toda a humanidade aquela marca do pecado. Não de um pecado atual, nós não nascemos pecadores no sentido de já termos um pecado atual nosso a pagar. É uma privação da visão de Deus, uma privação da graça. Todos os homens nascem sem alguma coisa, e essa alguma coisa é necessária para que o homem, no seu estado de natureza decaída, porque somos filhos de Adão e Eva, pecadores, então já não temos mais aqueles dons preternaturais que nos elevavam a não pecar mais, a não morrer, a não sofrer, a não ter dor, todos nós então nascemos com essa privação da graça. E essa privação da graça nos inclina a pecar. Então a criancinha chega na idade da razão, quando ela tem a noção exata de que se ela fizer aquele ato ela vai estar ofendendo a Deus – a criança chega aos seis…, sete… anos nessa compreensão – “não é apenas papai e mamãe que eu vou estar desobedecendo, é Deus. E isso me leva pro inferno, se eu fizer”, e ela faz assim mesmo, cometeu o seu primeiro pecado. É por isso que na educação das criancinhas é absolutamente necessário levar as crianças a treinar a obediência, a treinar a veracidade, a não aceitar que uma criança minta, não aceitar que ela desobedeça ou que ela seja egoísta com seus irmãozinhos e tudo mais que vocês conhecem, para que , chegando na idade da razão ela possa dizer “sim” a Deus e “não” ao pecado.

aprendendo nos primeiros anos de vida

É muito importante que o primeiro ato da criança seja um ato de virtude, porque ela aprendeu, ela foi aprendendo nos primeiros anos de vida, ela foi aprendendo e formando o seu caráter nos seus primeiros aninhos da vida. Os pais não podem perder tempo na correção dos seus filhos. Nasceu, já tem que ser corrigido porque nasceu na natureza decaída. Então ele já nasce tendo que ser corrigido. Alguma coisa tem ali no olhar dele que já não é tão inocente quanto a gente acha porque a natureza dele vai em um caminho de perda do controle da razão sobre os seus sentimentos. É claro que a criança recém-nascida ainda não manifestou nada disso, mas é muito cedo que a criança manifesta, muito cedo a criança começa a fazer as suas birrinhas, e essa birrinha já tem que ser corrigida. Os pais precisam orientar os filhos: aqui quem manda são os pais e não a criança. E a criança tem que aprender que tem certas regras na vida desde muito cedo. E vai fazer chorando ou não chorando. Não tenham medo do choro da criança, é uma forma de ela reagir, de ela impor a sua vontade, e os pais não podem ter medo disso, ao contrário, tem que dar um sorriso e ordenar a coisa direito, segundo o bem daquela criança que é a vontade do pai e da mãe. Tudo isso é marca do pecado original na alma das criancinhas. É preciso que nos primeiros anos a criança já vá sendo formada porque aos quatro…, cinco anos ela já está preparada para fazer seu primeiro ato de virtude sobrenatural ou seu primeiro pecado. Qual será o desejo dos pais católicos que seja o primeiro ato de seus filhos? É claro que vai ser a virtude. Então trabalhem nesses primeiros anos de vida porque não é assim: “depois a gente vai ver o que que ele vai ser”. Não! É agora que é preciso formar essas crianças, no início da infância dos seus filhos.

a reposição daquilo que Adão e Eva perderam

Mas o fato é que não apenas as criancinhas sofrem pelo pecado original, mas nós carregamos essa tara a vida toda. E precisamos entender que a ausência da graça, que o pecado original sendo uma privação, é então necessário que haja a reposição daquilo que Adão e Eva perderam, e foi o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez instituindo os sete sacramentos. O Batismo é a restituição de uma situação mediana, porque nós não vamos recuperar a natureza íntegra, isso só depois no Paraíso. A natureza íntegra com nossa razão, tanto natural quanto sobrenatural, dominando sobre nossas paixões, só no Paraíso. Mas a graça consegue pelo menos restaurar uma parte disso porque nós podemos voltar do pecado para a vida. Podemos voltar do pecado que mancha a alma para a vida que limpa nossa alma. Então o Batismo vai fazer com que a criança recupere a graça de Deus. Aquela criança torna-se filha de Deus. A gente diz isso de um modo um pouco banal, mas vamos parar e pensar: estamos voltando ao Paraíso perdido quando saímos da pia batismal. Mais um ponto para os pais prestarem atenção: seus filhos precisam não apenas do Batismo, mas também das atitudes próprias do batizado. Essas atitudes próprias significa vida de oração, em primeiro lugar. Se são filhos de Deus então têm que fazer companhia a Deus. Mas Deus está lá no Paraíso. Então a companhia a Deus significa oração. Oração constante, oração todo dia. E não tem choro de criança que vai impedir a criança de rezar. Vai rezar chorando, mas tem que habituar-se em rezar todos os dias. E o que nós vemos? Os pais se incomodam com o choro da criança, atrapalha a vida deles. A criança fica pirracenta e, então, não reza, não obedece não faz o que os pais querem e isso vai viciando a criança e caminhando ela para o drama do pecado. Então é ali, nesse momento em que, batizada, a criança tem obrigações para com Deus.

introduzir costumes católicos nas crianças

Vamos ensinar nossas crianças a rezarem de verdade, a se habituarem com a oração, porque na idade da inocência, batizadas e não ainda na idade da razão a oração da criança tem um poder que nós não podemos imaginar, porque são inocentes. É necessário não apenas fazer com que as crianças rezem, mas contar com a oração das crianças. Explicar para a criança que tem uma pessoa doente na família e a ela vai rezar pelo tio, pela tia, pela avó… Tudo isso faz parte da vida de uma família católica. Onde está o Sagrado Coração de Jesus? Onde está o oratoriozinho onde a criança vai rezar? Essas coisas são necessárias.

Outro ponto: é preciso introduzir costumes católicos nas crianças. Missa dominical, a criança precisa entrar no ritmo da missa dominical desde pequenininha porque aquilo vai se tornando para ela uma respiração, vai se tornando para ela o mesmo do comer e do dormir, a criança sabe quais são os ritmos da casa e quando não tem alguma coisa ela estranha. Hora de dormir, hora de visitar a vovó… a criancinha vai percebendo isso. A missa também:  Quantas vezes as crianças falam para os seus pais: “Ué, não vamos para a missa hoje?”, porque os pais trocaram o horário da missa ou alguma coisa assim. É necessário dar às crianças essa formação de elas se acostumarem, se habituarem com o horário da missa e, dentro do horário da missa, é claro que a criança muita pequenininha tem as suas dificuldades, mas logo ela tem que se habituar com a ordem da missa. E a ordem da missa significa silêncio. Papai está em silêncio, a criança tem que ficar em silêncio também. E são os pais que vão mais uma vez que vão dar à criança o critério e se ela não obedecer ela precisa ser corrigida para se habituar com aquele momento em que ela está ali para rezar, mesmo que a sua capacidade de oração ainda seja muito pequena para o tempo que se passa na missa.

Tudo isso é Deus semeando trigo no seu campo, tudo isso é Deus corrigindo o nascimento da cizânia, da erva daninha que o inimigo do homem lançou no seu campo. Tudo isso é Deus dizendo àqueles operários: “Deixem crescer a erva junto com o trigo e na época da colheita nós separamos o trigo para o celeiro de Deus, que é o Céu, o Paraíso, e queimamos a erva daninha“. É esse o ensinamento que nós temos pra tirar da missa de hoje: lembrarmos da existência dessa inclinação perversa que nós guardamos dentro de nós por causa do pecado original, trabalharmos ativamente para corrigirmos essa tendência através da vida de oração, através da vida de estudo sério, e através dessa educação dada às crianças para formar na família um núcleo de presença diante de Deus de oração verdadeira e de vida da virtude, que deve brilhar na vida do católica. Em  nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!

Niterói, 11/11/2018

 

 

 

Cânon acerca do Batismo dos hereges, no I Sínodo de Arles

Papa Silvestre I

Com referência aos africanos, já que aplicam um costume próprio deles, a saber, de rebatizarem, foi decidido que, se alguém vem para a Igreja procedente de uma heresia, deve-se interroga-lo sobre o Símbolo da fé e, se se constatar que foi batizado no Pai, no Filho e no Espírito Santo, imponha-se-lhe tão somente a mão, para que receba o Espírito Santo; se às perguntas demonstrar que não conhece esta Trindade, seja batizado.

 I Sínodo de Arles, Cân. 9. Iniciado em 01/08/314, sob o pontificado do Papa Silvestre I. (Denzinger-Hunermann, 123)

Matéria, forma e efeito dos 7 Sacramentos

TRECHO DA BULA EXSULTATE DEO, DE 22/11/1439 (CONCÍLIO DE FLORENÇA – DZ 1310-1328)

[…]Em quinto lugar, para facilitar a compreensão aos armênios de hoje e de amanhã, redigimos nesta brevíssima fórmula a doutrina sobre os sacramentos. Os sacramentos da nova Lei são sete: batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, e diferem muito dos sacramentos da antiga Lei. Aqueles, de fato, não produziam a graça, mas significavam somente que ela teria sido concedida pela paixão de Cristo; estes nossos sacramentos, ao contrário, não apenas contêm em si a graça, como também a comunicam a quem os recebe dignamente.

Destes, os primeiros cinco são voltados para a perfeição individual de cada um, os últimos dois para o governo e a multiplicação de toda a Igreja. Pelo batismo de fato, nós renascemos espiritualmente; com a confirmação crescemos na graça e nos robustecemos na fé. Uma vez renascidos e fortificados, somos nutridos com o alimento da divina Eucaristia. Se com o pecado adoecemos na alma, somos espiritualmente curados pela penitência; espiritualmente e também corporalmente, segundo o que mais aproveita à alma, pela extrema-unção. Com o sacramento da ordem a Igreja é governada e se multiplica espiritualmente, mediante o matrimônio aumenta corporalmente.

Todos estes sacramentos constam de três elementos: das coisas, que constituem a matéria, das palavras, que são a forma, e da pessoa do ministro, que confere o sacramento com a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz. Se faltar um destes elementos, não é efetuado o sacramento.

Entre esses sacramentos há três – batismo, confirmação e ordem – que imprimem caráter indelével, ou seja, um sinal espiritual que distingue <quem o recebe> dos outros, pelo que não podem ser reiterado na mesma pessoa. Os outros quatro não imprimem o caráter e portanto se admite repeti-los na mesma pessoa.

O primeiro de todos os sacramentos é o batismo, porta de ingresso à vida espiritual; por meio dele nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E como por causa do primeiro homem a morte entrou no mundo [cf. Rm 5, 12], se nós não renascermos da água e do Espírito, não poderemos, como diz a verdade, entrar no reino de Deus [cf. Jo 3, 5].

Matéria deste sacramento é a água pura e natural, não importa se quente ou fria.

A forma são as palavras: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Não negamos, porém, que também com as palavras: “Seja batizado o tal servo de Cristo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ou com as palavras “O tal, com as minhas mãos, é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, se administre o verdadeiro batismo. De fato, a causa principal da qual o batismo tira sua eficácia é a santa Trindade, enquanto a causa instrumental é o ministro, que exteriormente confere o sacramento; se o ato conferido pelo mesmo ministro se exprime com a invocação da santa Trindade, é realizado o sacramento.

Ministro deste sacramento é o sacerdote, a quem por ofício compete batizar; mas em caso de necessidade pode administrar o batismo não só um sacerdote ou um diácono, mas também um leigo, uma mulher e até um pagão ou herege, mas que use a forma da Igreja e queira fazer o que faz a Igreja.

Efeito deste sacramento é a remissão de toda culpa original e atual e de toda pena relativa. Não se deve, portanto, impor aos batizados nenhuma penitência pelos pecados anteriores ao batismo, e os que morrem antes de cometer qualquer culpa são recebidos logo no reino dos céus e acedem à visão de Deus.

O segundo sacramento é a Confirmação, cuja matéria é o crisma consagrado pelo bispo, composto de óleo, que significa a luz da consciência, e de bálsamo, que significa ao perfume da boa fama.

A forma são as palavras: “Te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

O ministro ordinário é o bispo. E, enquanto para as outras unções basta um simples sacerdote, esta só o bispo pode conferi-la, porque só dos Apóstolos, de quem os bispos fazem as vezes, se lê que davam o Espírito Santo com imposição da mão, como mostra a leitura dos Atos dos Apóstolos: “Quando os apóstolos que estavam em Jerusalém souberam que a Samaria tinha acolhido a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Quando eles chegaram, rezaram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois não tinha ainda descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados no nome do Senhor Jesus. Então impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” [At 8, 14-17]. A confirmação, na Igreja, tem mesmo o lugar daquela imposição da mão. Lê-se, todavia, que alguma vez com licença da Sé Apostólica e por um motivo razoável e urgentíssimo, também um simples sacerdote tenha administrado o sacramento da confirmação com crisma consagrado pelo bispo.

O efeito deste sacramento, já que por ele é conferido o Espírito Santo para a fortaleza, como foi dada aos apóstolos no dia de Pentecostes, é que o cristão possa corajosamente confessar o nome de Cristo. Por isso, o confirmando é ungido sobre a fronte, sede do sentido de vergonha, para que não se envergonhe de confessar o nome de Cristo e sobretudo a sua cruz, que segundo o Apóstolo é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos [cf. 1 Cor 1, 23]; e por isso é marcado com o sinal da cruz.

O terceiro sacramento é a Eucaristia, cuja matéria é o pão de trigo e o vinho de uva, ao qual antes da consagração se deve acrescentar alguma gota de água. A água é acrescentada porque, segundo o testemunho dos santos Padres e Doutores da Igreja, exposto nas precedentes discussões, se crê que o Senhor mesmo tenha usado vinho misturado com água na instituição deste sacramento.

E também, porque isto convém ao memorial da paixão do Senhor. Pois o bem-aventurado Papa Alexandre, quinto <sucessor> depois do bem-aventurado Pedro, diz: “Nas oblações dos sacramentos apresentadas ao Senhor durante a celebração da Missa, sejam oferecidos em sacrifício apenas o pão e o vinho misturado com água. Não se deve, pois, oferecer no cálice do Senhor só o vinho ou só a água, mas ambos, justamente porque se lê que uma e outra coisa, isto é, o sangue e a água, jorraram do lado de Cristo [cf. Jo 19, 34]”.

Além disso, significa o efeito deste sacramento: a união do povo cristão a Cristo. A água, de fato, significa o povo, segundo a expressão do Apocalipse: muitas águas, muitos povos [cf. Ap 17, 15]. E o Papa Júlio, o segundo <sucessor> depois do bem-aventurado Silvestre, diz: “O cálice do Senhor deve ser oferecido, segundo as disposições dos cânones, com água e vinho misturados, porque na água se prefigura o povo e no vinho se manifesta o sangue de Cristo; quando, portanto, se mistura no cálice a água com vinho, o povo é unido a Cristo, e a multidão dos fiéis é coligada e juntada àquele em que crê”.

Se, portanto, quer a santa Igreja Romana instruída pelos beatíssimos apóstolos Pedro e Paulo, quer todas as outras Igrejas de latinos e gregos, iluminadas por esplêndidos exemplos de santidade e de doutrina, têm observado desde o início da Igreja, e ainda observam, este rito, parece incorreto que alguma outra região discorde daquilo que é universalmente observado e racionalmente fundado. Decretamos,pois, que também os armênios se conformem a todo o resto do mundo cristão e que seus sacerdotes, na oblação do cálice, acrescentem alguma gota de água ao vinho, como foi dito.

A forma deste sacramento são as palavras com as quais o Salvador o produziu. O sacerdote, de fato, produz este sacramento falando in persona Christi. E em virtude dessas palavras, a substância do pão se transforma no corpo de Cristo e a substância do vinho em sangue. Isto acontece, porém, de modo tal que o Cristo está contido inteiro sob a espécie do pão e inteiro sob a espécie do vinho e, se também estes elementos são divididos em partes, em cada parte da hóstia consagrada e de vinho consagrado está o Cristo inteiro.

O efeito que este sacramento opera na alma de quem o recebe dignamente é a união do homem ao Cristo. E como, pela graça, o homem é incorporado a Cristo e unido a seus membros, segue-se que este sacramento, naqueles que o recebem dignamente, aumenta a graça e produz na vida espiritual todos os efeitos que o alimento e a bebida materiais produzem na vida do corpo, alimentando-o, fazendo-o crescer, restaurando-o e deleitando-o. Neste sacramento, como diz o Papa Urbano [IV], recordamos a grata memória do nosso Salvador, somos afastados do mal e confortados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e graças.

O quarto sacramento é a Penitência, do qual são como que a matéria os atos do penitente, distintos em três grupos: o primeiro é a contrição do coração, que consiste na dor do pecado cometido acompanhada do propósito de não pecar para o futuro. O segundo é a confissão oral, na qual o pecador confessa integralmente ao seu sacerdote todos os pecados de que tem memória. O terceiro é a penitência pelos pecados, segundo o arbítrio dos sacerdote; à qual se satisfaz especialmente por meio da oração, do jejum e da esmola.

A forma deste sacramento são as palavras da absolvição que o sacerdote pronuncia quando diz: “Eu te absolvo”. O ministro deste sacramento é o sacerdote, que pode absolver com autoridade ordinária ou por delegação do superior. O efeito deste sacramento é a absolvição dos pecados.

O quinto sacramento é a Extrema-unção, cuja matéria é o óleo de oliveira , consagrado pelo bispo. Este sacramento não deve ser administrado senão a um enfermo para o qual se teme a morte; ele deve ser ungido nestas partes: sobre os olhos por causa da vista, sobre as orelhas por causa da audição, sobre as narinas por causa do olfato, sobre a boca por causa do gosto e da palavra, sobre as mãos por causa do tato, sobre os pés por causa dos passos, sobre os rins por causa dos prazeres que ali residem.

A forma do sacramento é esta: “Por esta unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor te perdoe tudo quanto cometeste com a vista”; expressões semelhantes se pronunciarão ao ungir as outras partes.

O ministro deste sacramento é o sacerdote. O efeito é a saúde da mente e, se aproveita à alma, também a do corpo. Deste sacramento o bem-aventurado apóstolo Tiago diz: “Há entre vós um enfermo? Que mande vir os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele ungindo-o com o óleo no nome do Senhor. E a oração feita com fé salvará o enfermo: o Senhor o aliviará e, se estiver com pecados, lhe serão perdoados” [Tg 5, 14].

O sexto é o sacramento da Ordem, cuja matéria é aquilo cuja transmissão confere a ordem. Assim o presbiterado é transmitido com a entrega do cálice com vinho e da patena com o pão; o diaconado com a entrega do livro do Evangelho; o subdiaconado com a entrega de um cálice vazio tendo em cima uma patena vazia. E, de modo análogo, para os outros <graus>, pela entrega das coisas inerentes ao ministério correspondente.

A forma do sacerdócio é a seguinte: “Recebe o poder de oferecer o sacrifício na Igreja pelos vivos e pelos mortos, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”. Para as outras ordens será usada a forma a referida por extenso no Pontifical Romano. Ministro deste sacramento é o bispo. E efeito consiste no aumento da graça para que o ordenando seja um digno ministro de Cristo.

O sétimo é o sacramento do Matrimônio, símbolo da união de Cristo e da Igreja, segundo as palavras do Apóstolos: “Este mistério é grande, digo-o em referência a Cristo e à Igreja” [Ef 5, 32]. Causa eficiente do sacramento é, segundo a regra, o mútuo consentimento expresso em palavras e presencialmente.

Atribui-se ao matrimônio um bem tríplice. O primeiro consiste em aceitar a prole e educá-la para o culto de Deus; o segundo, na fidelidade que um cônjuge deve observar em relação ao outro; o terceiro, na indissolubilidade do matrimônio, porque esta significa a união indissolúvel de Cristo e da Igreja. De fato, se bem que, por motivo de fornicação, seja permitido a separação de cama, não é permitido, porém, contrair outro matrimônio, pois o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo.

[…]

Depois de explicado tudo isso, os referidos oradores dos armênios, em seu próprio nome, <em nome> dos seus patriarcas e também de todos os armênios, aceitam, recebem e abraçam, com toda a devoção e obediência, este mui salutar decreto sinodal, com todos os seus capítulos, declarações, definições, ensinamentos, preceitos e estatutos e toda a doutrina neles contida, bem como tudo aquilo que sustenta e ensina a santa Sé Apostólica e a Igreja romana. Além disso, aceitam com veneração os Doutores e santos Padres aprovados pela Igreja romana. Qualquer pessoa ou doutrina por esta reprovada e condenada, também eles a consideram reprovada e condenada.