Arquivo da tag: Cristo Rei

Sermão de 29/10/2017 – Festa de Cristo Rei

por DOM LOURENÇO FLEICHMAN

Meus caríssimos irmãos, antes de nós darmos a nosso Senhor Jesus Cristo a atitude de submissão que um súdito deve ao seu Rei do Céu, nós deveríamos pensar um pouquinho no modo como os homens ao longo da história deram essa submissão aos reis da terra. Quase que é conatural aos homens terem reis. Todos os povos sempre tiveram reis desde a mais longínqua antiguidade. Desde que as cidades começaram a se organizar que os homens foram se espalhando sobre a terra, imediatamente apareceram aqueles que chefiavam aqueles povos, aquelas tribos, aquelas cidades. Apenas um povo, muitos séculos depois, não tinha rei. E esse povo era o povo hebreu.

Os homens inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer ao rei da terra e os hebreus inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer aquele que os tinha escolhido, que os tinha tirado do Egito, que tinha dado para eles a terra prometida aonde nasceria o Messias. O povo hebreu esperava isso e sabia que era através daquela realeza de Deus, daquele governo divino, daquele povo escolhido, que eles tinham a revelação. Eles sabiam que era assim. Não é porque eles fossem melhores do que os outros. Eles sabiam muito bem quais eram os seus pecados, mas eles sabiam que por um motivo que eles não entendiam, Deus tinha escolhido a eles para que ali nascesse o salvador.

Todos os povos tinham seus reis e esses reinados foram crescendo, foram tornando opulentos, ricos, poderosos. O próprio povo de Israel sofreu desse poder de reis que cercavam a nação dos hebreus. Foram para a Babilônia. Nabucodonosor os escravizou. Os assírios em outra ocasião também levaram uma parte do povo na galileia para o cativeiro. E assim a história de Israel era toda ela marcada por uma relação difícil com outros povos. Às vezes também de colaboração, como foi o caso por exemplo de Abraão quando foi atacado por cinco reis ele fez união com outros reis e perseguiram aqueles reis e venceram.

Quando o povo de Israel dirigi-se a Deus para dizer: “Nós também queremos reis. Veja senhor os outros povos. Veja a beleza dos seu palácios, veja a riqueza desses reinos e nós não somos nada, somos apenas um povo”, Deus diz a eles: “Vocês não precisam de rei porque Eu sou o vosso rei e o poder que eu exerço sobre vós é o mesmo poder que eu exerço sobre todos os outros povos. E se eles tem reis é porque eu coloquei-os lá. Mas o povo insistiu e Deus disse: “Muito bem! Vocês querem reis da terra, então tereis reis da terra”. E foi através desses reis que veio a corrupção dentro de Israel.

Vocês conhecem a história de Salomão.  Davi, apesar de ser o grande amigo de Deus, um grande santo, que caiu naquele pecado horrível e foi castigado por isso. Mas depois Salomão tornou o reino de Israel o mais poderoso de toda a história. Mas, caiu ele também em um pecado muito pior do que de seu pai, caiu na idolatria. Davi jamais tinha caído na idolatria, caiu no pecado da carne. E Deus castiga Salomão rompendo o laço que ele tinha de realeza com o povo de Israel. Apenas mantém sob o poder de Salomão a tribo de Judá por causa de Davi, e ele diz a Salomão: “Eu só não te extermino completamente por causa do teu pai”. Então mantém essa cisão, esse cisma dentro de Israel (entre o reino de Israel e o reino de Judá) que vai durar até a época de Nosso Senhor Jesus Cristo, até a destruição do templo.

Ora, ao longo de toda essa história, todo o antigo testamento, os homens tinham uma inclinação, uma facilidade de obedecer. Uma inclinação de reconhecer que deveria haver homens mais poderosos do que o simples lavrador para ordenar a vida do povo para ordenar a vida daquela nação, e obedeciam com uma certa facilidade. Nosso Senhor Jesus Cristo morre na cruz. Nosso senhor Jesus Cristo conquista a realeza, como homem, para toda a humanidade, para todo o tempo. Muito bem, esse é o objeto da festa de Cristo Rei. Mas, se me permitem, pulemos um pouco a cruz pulemos um pouco a coroa que Jesus carrega ensanguentada na sua cabeça e que lhe dá essa prerrogativa de governar todos os povos, e olhemos um pouquinho para o início do Cristianismo, logo depois da ressurreição da ascensão. Quando os apóstolos começam a espalhar o evangelho por todas as nações são martirizados, como ontem nós vimos São Simão e São Judas. Mas, a lei de Deus começa a se espalhar e aqueles reis, antigos reis pagãos, começam a oferecer suas coroas para o Rei dos Reis, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Começam a reconhecer a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os próprios reis, tornando-se católicos, depositam o seu poder nos pés de Nosso Senhor. E, junto com eles, as nações. Junto com eles, os povos. Vocês conhecem a história de Clóvis que foi o primeiro dos reis bárbaros a se converter ao Cristianismo e com ele o povo dos francos que dá origem à França. Vocês conhecem a história de Vladimir. Os eslavos que em Kiev, onde hoje é a Ucrânia, também se faz batizar no rio e com ele todo o seu povo. E assim, muitos daqueles reis quando se convertiam levavam o povo todo a se converter ao Cristianismo. E foram então tornando-se lugares tementes do Rei dos Céus, como dizia Santa Joana d’Arc.

Obedeciam em primeiro lugar aquele Rei, que era o Rei dos Reis e governavam seus povos em nome d’Ele. Governavam seus povos por causa do Evangelho, favorecendo o  evangelho. Isso é a Idade Média. Mas, compreendam o espírito do medieval – diferente de tudo que esses livros de história ensinam – o espírito do medieval era um espírito de docilidade. Aqueles homens tinham uma facilidade muito grande de oferecer a sua obediência aos governantes, aos reis, àqueles que carregavam uma coroa. Agora, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, é sacramentalizada a coroa. Não que se torne um sacramento, mas era o bispo que impunha a coroa aos reis e ungia a cabeça dos reis, como Saul e Davi e os reis de Israel tinham sua cabeça ungida pelos profetas. Então há um lado religioso e o povo continuava tendo a mesma índole de obediência natural, boa, inocente. Havia, é claro, os momentos de revolução, de revolta, e matavam o rei aqui e matavam outro ali. Isso acontecia, é verdade, por causa do pecado original. Mas não era uma organização, não era institucionalizada a revolta e a revolução como vai ser a partir da Renascença, em que os homens vão recusar o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, a Idade Média quebra-se com esse espírito de autonomia dos homens, quebra-se com o espírito de que os homens são eles próprios os governantes das suas cabeças e que eles não devem ter reis, mas escolher ali um governante, um administrador. E surge então o liberalismo, o individualismo com todas as doutrinas do humanismo que começam com a quebra da Idade Média. A relação dos homens para com os seus reis começa a mudar e vai terminar com a guilhotina, vai terminar com a morte dos reis e o desaparecimento dos reinados católicos. Eram reinos católicos. Brigavam entre si, disputavam por motivos bobos e bestas, muitas vezes por motivos de heranças, é verdade, por causa do pecado original, não por causa da realeza em si. Não era o fato de ter reis que fazia o erro daquele regime, mas apenas a inclinação perversa que nós carregamos no coração. Mas o que acontece é que os séculos vão passando e os homens vão se pervertendo. No momento em que perde-se aquela linha ascendente civilizacional em que os reis vão se santificando e procurando santificar o seu povo, vão se convertendo e procurando converter o seu povo, no momento em que isso se rompe a linha civilizacional desce e começa uma decadência que vai afetar a relação de cada um com os seus governantes. E é nessa democracia liberal em que nós vivemos hoje graças à Revolução Francesa, graças ao sangue derramado de todos aqueles nobres que tinham motivo de ser. Tinha uma razão de ser a nobreza. Os livros de história vão dizer que eles eram os perversos, que maltratavam os servos. Eles não entendem nada. Eles falsificam e mentem. Não era assim, a relação dos homens não era essa. Tudo isso é mentira de historiadores marxistas que querem denegrir a Igreja o tempo todo.

Mas, nós somos herdeiros deles. Infelizmente, do ponto de vista civilizacional, nós somos herdeiros da revolução. E nós somos imbuídos de um espírito revolucionário dentro de nós. Já está muito longe o tempo em que os homens dobravam-se à obediência ao seu rei com uma naturalidade, um amor, e gostavam de estar com o rei. Os reis medievais não eram aqueles reis milionários dos tempos do absolutismo, dos tempos da Renascença. Isso vem depois que eles quebram a Idade Média, depois que eles perdem a fé. Na Idade Média, não. Os reis eram simples. Saiam juntos com seus súditos e a vida dos reis não era muito diferente da vida dos outros. Claro que ele tinha que governar e era necessário que ele governasse. E a sua família governava também.

É assim que nós recebemos essa herança maldita de um espírito liberal, de uma democracia liberal e de um espírito de autonomia que faz desaparecer do coração do homem uma coisa cândida, uma coisa linda que existia, que era a inocência do filho em relação ao seu pai e do súdito em relação ao seu rei. Isso desapareceu. E o que nós vivemos hoje no mundo moderno é realmente um pecado contra a piedade, um pecado contra a virtude que faz com que o homem naturalmente se incline a obediência. Se incline à obediência do seu pai e se incline à obediência de seu rei. E também se incline à obediência à Igreja, porque também faz parte da obediência. E aí nós encontramos a razão de ser da fundação dessa festa de Cristo rei pelo Papa Pio XI porque, compreendendo que os homens já não queriam mais obedecer uns aos outros, já não tinham mais a inclinação de obediência à realeza, ao rei que carregava uma coroa em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, era necessário fortalecer o coração dos homens com um espírito que devolvesse alguma coisa disso. Então vamos festejar Jesus Cristo Rei. Rei das nações, Rei político das nações. Não que Ele vá instituir uma teocracia, não que Ele vá instituir papas ou bispos para governar os povos, mas Ele vai instituir governantes para em nome d’Ele governar os povos, em nome d’Ele obedecer à Igreja, em nome d’Ele como conduzir os homens a salvação eterna que é o objetivo final, o fim último de todos os homens.

Então, quando nós pensamos que Jesus, como Deus, é Rei e Senhor, Criador e Redentor, não tem discussão nenhuma, […] ele manda e ele desmanda. Agora, Jesus Cristo como homem, a natureza humana uni-se à natureza divina numa única pessoa: é a união hipostática, o dogma da nossa fé nos ensina isso. Nós cremos em Jesus Cristo, um só seu filho Nosso Senhor que encarnou-se no seio da Virgem Maria. Morreu na cruz para nos salvar. E volta pro céu. A natureza humana de Jesus é a natureza humana de Jesus, mas ela está unida em uma mesma pessoa, ou seja, hipostaticamante, à natureza divina, de modo que os atos de Cristo eram atos de Deus e os atos humanos de Cristo também eram realizados pelo próprio Deus. E por isso Ele é infinito. E por isso Ele é todo poderoso. E por isso ele conquista com seu sangue o poder sobre todos os povos e todas as nações, obrigando-as a obedecerem o evangelho, obrigando-as a serem católicas, obrigando-as a acatar uma consagração ao seu sagrado coração que Ele conquistou por amor de nós, derramando Seu sangue para nossa salvação.

Mas, voltemos ao espírito moderno. E eu pergunto: ainda é possível para nós, homens da democracia liberal, pessoas vivendo em um mundo em que os filhos já não obedecem mais seus pais, em que os homens já não obedecem mais a Igreja, em que os alunos não obedecem mais seus mestres, é possível para nós compreendermos o teológico e humano da festa de Cristo Rei? Eu não sei. Sinceramente eu não sei se estamos em condições de compreender isso, porque talvez se nós tivéssemos realmente a condição de compreender o que é dobrar nosso joelho diante de Nosso Senhor enquanto homem, porque Ele é Rei, então os homens estariam vivendo de um modo um pouco diferente do que vivem. Nós estaríamos vivendo de um modo diferente do que vivemos por causa dessa autonomia de que eu falo tanto, por causa desse espírito de orgulho que cega o coração do homem, que cega o nosso coração.

Nós também somos contaminados por esse espírito porque vivemos no século, porque somos desse tempo e não temos como escapar disso. Os homens vão produzindo autonomias uma atrás da outra. Vamos sendo obrigados a acompanhar a vida porque temos que estar em uma escola, porque temos que estar em um trabalho, porque temos que governar uma cidade, qualquer que seja o homem. Então, nós católicos também estamos contaminados e precisamos prestar atenção e usar a festa de Cristo Rei para dizer como que eu posso restaurar meu coração. A humildade, a castidade, a modéstia, todas as virtudes que me movem a dobrar a minha cabeça diante de Deus, a dobrar a minha cabeça diante de Jesus Cristo Rei. A dobrar a minha cabeça diante de meu pai. Não responder a ele, saber respeitar. A dobrar a minha cabeça diante dos meus mestres que aprenderam antes de mim e que, mesmo ganhando seu salário, se dedicam às crianças, se dedicam a ensinar. E só isso já seria suficiente para nós termos um respeito imenso por eles mas não se tem mais. Como que eu vou voltar a dobrar a minha cabeça à Igreja, ao dogma católico, aos padres que nos orientam? E tudo isso está contaminado nas nossas vidas, não é só lá fora não. Nós perdemos contato com essa piedade, nós perdemos contato com Cristo Rei.

Então seria necessário restaurar um pouco isso. Seria necessário pensar um pouquinho nessas virtudes que nos devolvem a inocência, a candura. Nos devolve essa simplicidade de olhar que faz com que a nossa obediência seja fácil como eram os medievais, como eram os hebreus, como eram os povos antigos mesmo com seus reis pagãos. E Deus usava eles todos. Mesmo os pagãos eram usados por Deus. Foi Ciro, um rei pagão da Pérsia, que foi lá vencer a Babilônia e devolver pro povo de Israel a Palestina. Não foi nenhum enviado de Deus, foi um rei pagão. Ele usa os reis pagãos também porque ele é o Senhor dos Senhores. Ele é que determina nosso destino, ele é que explica por qual caminho temos que seguir. Mas nós nos cegamos diante disso. Nós hoje somos homens cegos, somos homens que estamos há 600 anos seguindo um caminho de autonomia, seguindo um caminho de liberdade, seguindo um caminho de afastamento da ordem que Deus estabeleceu no coração dos homens para que as coisas andassem segundo uma determinada vontade divina.

Peçamos então a Nosso Senhor Jesus Cristo que devolva isso. Para que Ele possa devolver isso a nós, temos que abrir nosso coração na docilidade, temos que compreender nossos pecados, temos que compreender a rudeza do nosso orgulho. Mas se nós fizermos assim, então, Ele toca o nosso coração e nós vamos saber dar a Ele essa obediência, dar a Ele essa submissão, dar a Ele esse amor que significa entregar-se em todos os níveis da ordem das coisas, em todos os níveis da hierarquia das coisas, entregar amorosamente à obediência.

Capela Nossa Senhora da Assunção, Fortaleza-CE.