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Quatro considerações para sofrer bem

Por São Luis Maria Grignion de Montfort

Para ajudá-lo a sofrer bem, adquira o bom hábito de refletir nesses quatro pontos:

1. O olho de Deus

Primeiramente, o olho de Deus, que, como um grande rei do alto de uma torre, observa com satisfação seu soldado no meio da batalha, e elogia sua coragem. O que de Deus atrai a atenção pela Terra? Serão reis e imperadores em seus tronos? Com frequência Ele nos olha sim com desprezo. Serão as grandes vitórias dos exércitos, pedras preciosas, ou o que quer que seja grande aos olhos dos homens? Não, “o que é altamente pensado pelos homens é repulsivo aos olhos de Deus”. O que, então, ele olha com prazer e satisfação, e do que ele pede conta aos anjos e mesmo aos demônios? É aquele que está lutando contra o mundo, contra o demônio, e somente ele pelo amor de Deus, o único que carrega sua cruz alegremente. Como o Senhor disse a Satã, “Não viu sobre a Terra uma maravilha imensa que todo céu contempla com admiração? Já viu meu servo Jó, que está sofrendo por minha causa?”

2. A mão de Deus

Em segundo lugar, considerem a mão de Deus, que permite que nos sobrevenham males de toda natureza, desde o maior até o menor. A mesma mão que aniquilou um exército de cem mil homens é a que faz cair a folha da árvore e um cabelo de suas cabeças; a mão que espremeu tão duramente Jó, gentilmente lhes toca com uma tribulação leve. É a mesma mão que faz o dia e a noite, o arco-íris e a escuridão, o bem e o mal. Ele permitiu as ações pecaminosas lhe machucarem; ele não é causa de suas maldades, mas Ele permite as ações. Se qualquer um, então, lhes trata como Shimei tratou o Rei David, lhes cobrindo de insultos e lhes atirando pedras, digam a si mesmo, “Não nos vinguemos deles. Deixemos que Ele atue, pois o Senhor dispôs que se fizesse dessa maneira. Reconheço que mereço todo tipo de ultrajes, e é com toda justiça que Deus me castiga. Detenham-se mãos! Refreia-se língua! Não golpeie, não diga uma palavra. É verdade que esse homem me ataca, essa mulher me insulta, mas eles são representantes de Deus, que da parte de sua misericórdia vêm me castigar amistosamente. Não irritemos, pois, sua justiça, usurpando os direitos de sua vingança. Nem menosprezemos sua misericórdia resistindo aos amorosos golpes de seus açoites, para que Ele me entregasse, em vez disso, à justiça absoluta da eternidade.” Por outro lado, Deus em seu infinito poder e sabedoria o sustenta, enquanto aos outros ele aflige. Com uma mão ele entrega à morte, com a outra ele dá a vida. Ele o humilha até o pó e depois o eleva, e com ambas mãos ele alcança uma extremidade de sua vida à oura, com carinho e poder; com carinho, não lhe permitindo ser tentado além de suas forças, com poder, apoiando-o com sua graça na proporção à violência e duração da tentação ou aflição; com poder novamente, por vir dele mesmo, como ele nos conta através de sua Santa Igreja, “sustentá-lo na beira do precipício, guiá-lo a uma estrada incerta, ocultá-lo no calor abrasador, protegê-lo na chuva e do frio que o congela, carregá-lo em seu cansaço, ajudá-lo em suas dificuldades, fortificá-lo em caminhos escorregadios, ser seu refúgio no meio das tempestades ” (Oração para uma Viagem).

3. As feridas e sofrimentos de Cristo crucificado

Em terceiro lugar, reflitam nas feridas e sofrimentos de Cristo crucificado. Ele mesmo nos contou, “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera”. Vejam com os olhos corporais e através dos olhos de sua contemplação, se sua pobreza, destituição, desgraça, aflição, desolação são como as minhas; olhem para mim que sou inocente e lamente porque vocês são culpados! O Espírito Santo nos diz, através dos Apóstolos, a contemplarmos Cristo crucificado. Ele nos manda amarmos com esse pensamento, arma mais penetrante e terrível contra todos nossos inimigos que todas as demais armas. Quando vocês são assaltados pela pobreza, má reputação, aflição, tentação e outras cruzes, armem-se com o escudo, peitoral, capacete e espada de dois gumes, que é a lembrança de Cristo crucificado. Vocês haverão de encontrar a solução para todo problema e os meios de conquistar todos seus inimigos.

4. Acima, o céu; abaixo, o inferno

Em quarto lugar, olhe pra cima e veja a bela coroa que lhe aguarda no céu se você carregar bem sua cruz. Foi essa recompensa que sustentou os patriarcas e profetas em sua fé e perseguições; que inspirou os apóstolos e mártires em seus trabalhos e tormentos. Os patriarcas podiam dizer com Moisés, “Nós preferiríamos ser afligidos como o povo de Deus, e sermos felizes com Ele para sempre a curtir por um instante os prazeres do pecado.” E os profetas poderiam dizer com David, “Nós sofremos perseguição pela recompensa.” Os apóstolos e mártires poderiam dizer com São Paulo, “Por nossos sofrimentos como sentenciados à morte, como espetáculo para o mundo, para os anjos e os homens, somos como lixo e anátema do mundo, pelo imenso peso de glória que nos produz a momentânea e ligeira tribulação.” Olhemos para o alto e vemos os anjos, que exclamam, “Cuidai para não apropriar-se da coroa que está marcada com a cruz que você recebeu, se você suportá-la bem, um outro irá carregá-la como convém e a arrebatará consigo. Lute bravamente e sofra pacientemente, nos dizem os santos, e você receberá o reino eterno.” Finalmente, escute ao Nosso Senhor, que lhe diz, “Eu darei minha recompensa somente aquele que sofre e é vitorioso pela paciência.” Contemplemos abaixo o lugar onde nós merecemos e que nos espera no inferno na companhia dos bandidos e todos aqueles que não se arrependeram, se nós sofrermos como eles sofreram, com sentimentos de ressentimentos, má vontade e vingança. Exclamemos com Santo Agostinho, “Senhor, trate como sua vontade nesse mundo por meus pecados, contanto que os perdoem na eternidade.”

Da obra “Carta aos amigos da cruz”

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