:: SERMÕES

O que temos nós a ver com o feitor iníquo da parábola?

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

A parábola do administrador infiel – Lucas 16, 1-8

“E o senhor louvou o feitor iníquo por ter procedido prudentemente, porque os fílhos deste século são mais hábeis na sua geração que os filhos da luz.”

Caríssimos irmãos,

Nós nos perguntamos muitas vezes o que temos nós a ver com esse feitor iníquo (do evangelho) para que seja dado um elogio como esse. Por que razão Nosso Senhor diz que devemos espelhar nossa prudência e a nossa religiosidade, nessa prudência mundana, profana, desse feitor iníquo? Na verdade, nós deveríamos nos perguntar é como nós devemos fazer para que a nossa prudência sobrenatural, a nossa sabedoria espiritual nos leve a ter para as coisas de Deus e para as coisas da nossa vida o mesmo zelo, a mesma preocupação, a mesma intensidade de amor que os profanos têm nas suas coisas, nos seus afazeres. Como que nós podemos lidar com a nossa vida sobrenatural, com essa mesma igualdade de intensidade, de preocupação, de estar o tempo todo focado naquilo que interessa a eles. E a chave dessa questão para nós, está nessa epístola de São Paulo aos romanos, quando ele diz: “É pelo Espírito que vós vivereis, não pelas coisas da carne”. Então nós temos que aprender a lidar com as coisas da nossa vida profana, da carne, com os critérios espirituais de qualquer batizado. Nós fomos elevados a uma outra vida: a vida de Cristo. Nós fomos configurados com Cristo e enxertados na vida Dele e na alma D’Ele. Somos feitos uma mesma planta, diz São Paulo. Somos uma mesma planta com Ele. Não é possível que o batismo não traga para nós consequências nos nossos atos, em todos os atos. Não apenas quando nós rezamos, mas também quando nós saímos para o trabalho, quando nós vamos ganhar dinheiro. É necessário ganhar dinheiro na vida moderna, e ai daquele que negligenciar essa obrigação! É necessário nós cuidarmos da escola e estudarmos. As crianças precisam estudar. Obrigação das crianças. Com que espírito vão elas então, cuidar dessas coisas? Nós somos católicos quando rezamos e profanos quando cuidamos das coisas do mundo? Não é assim. 

Nós fomos transformados em “in ictu oculi” (em um piscar de olhos), “fez assim” e nossa alma já não é mais a mesma, somos outra pessoa. E é necessário que essa outra pessoa tenha atitudes, atos próprios de uma alma consagrada, de uma alma que foi assumida pela própria Alma Divina. Deus nos assumiu como seus filhos, coerdeiros de Cristo somos nós. Por causa do espírito. É pelo espírito que nós viveremos. Como que nós podemos realizar as obras do espírito, como que nós devemos realizar as obras que realmente interessam para nós, para nos levar para o Paraíso? É aí que está toda a questão: com o mesmo amor que os profanos agem nas suas obras. É isso que Nosso Senhor está dizendo para nós. Então, como fazer com que as coisas aconteçam do modo correto?

Em primeiro lugar, nós temos uma relação para com Deus. Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. Será o único no Céu. Aqui na terra não é o único, mas é o principal. E deve ser o principal. Nós devemos estar com esta ideia presente em tudo aquilo que nós fazemos. O primeiro critério nosso para ganhar dinheiro é Deus. O primeiro critério nosso para construir uma casa é Deus. O primeiro critério nosso para passar de ano na escola é Deus. É sempre Ele que tem a primazia, é sempre Ele que tem a finalidade última da nossa vida. É Ele. Nós não podemos deixá-lo de lado hora nenhuma, em nada que nós fazemos. E não é fácil isso, porque nós nos envolvemos com as coisas do mundo, nós nos envolvemos com as nossas necessidades. São lícitas, são boas, precisamos disso, mas esquecemos de Deus. E vamos usando critérios, e alguém apita no nosso ouvido: “Olha, faz assim”, ” vá por ali”,  “dê um jeitinho”, e nós esquecemos que Deus olha tudo aquilo que nós fazemos e que nós temos uma obrigação de finalizar tudo em Deus, na perfeição divina que está dentro de nós pela graça.

 Então Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. E depois nós temos um segundo, que somos nós mesmos, nós precisamos trabalhar para a vida eterna. Tudo que nós fazemos nessa vida deve ter como finalidade a vida eterna. Então temos que nos dedicar às coisas de Deus e temos que nos dedicar às coisas profanas, do mundo, com a intenção de irmos para o Céu. Eu não posso fazer nada que desvie a minha alma da vida eterna, que desvie a minha alma da salvação. Qualquer coisa que seja proposta pelo mundo moderno ou pelo melhor amigo que seja, que vá me provocar um pecado, nós temos que recusar. E nós temos que recusar todos os instrumentos do pecado que pululam hoje no mundo, e que são muitos, e que são realmente instrumentos de pecado, e que estão aí, nessas coisas todas que o mundo inventou e que vai desviando nossa capacidade de trabalhar em tudo por causa do amor de Deus. 

 Em terceiro lugar, nós temos que olhar em volta de nós e olharmos para o nosso próximo. O amor de Deus em primeiro lugar, o amor de si mesmo como modelo do amor do próximo. E quando nós nos dedicamos ao próximo, nós devemos fazer isso sempre com um critério católico, sempre com um critério espiritual, sempre com o olhar do Céu. Do mesmo modo que eu quero o Céu para mim eu tenho que querer o Céu para aquele que está do meu lado, pode ser o pai, a mãe, os filhos, pode ser um amigo, pode ser um companheiro de trabalho, pode ser um mendigo na rua. Nós temos que nos preocupar com a salvação das almas. “O que será dessa pobre coitada mulher que carrega seu filho pobre, que não tem dinheiro, que é miserável, que está deitada numa calçada? O que acontecerá com seu filho? Entrará no Paraíso? Quando eu estiver no Paraíso, eu vou encontrá-lo lá?”. Pelo menos um olhar de misericórdia, pelo menos uma Ave Maria nós devemos rezar, nós temos essa obrigação. Muitas vezes não temos mais condição de dar uma esmola no sinal. Um moleque pede esmola, e vai cheirar cola com aquele dinheirinho que a gente dá para ele. Não, não somos obrigados a fomentar o inferno dele. Mas temos que nos preocupar. Temos que rezar pelo menos uma Ave Maria, temos que ser espirituais e termos critérios espirituais. 

Que os homens cuidem das coisas materiais, mas nós cuidamos das coisas espirituais para aqueles que nós não podemos cuidar completamente. Daqueles que nós temos condições de cuidar completamente, desses nós temos que cuidar do espírito e da carne, do espírito e do corpo. 

 Santo Ambrósio, numa leitura de matinas dessa noite, mostra como que nós podemos nos enganar nesse modo de encarar as coisas de Deus e as coisas dos homens. E ele diz “os judeus muitas vezes são zelosos” naquela época não havia protestante, nós poderíamos dizer o mesmo com os protestantes, “são zelosos, são piedosos, querem agradar a Deus”, mas se perdem. Por que eles se perdem? Porque não conhecem a Deus pela verdadeira ciência, diz Santo Ambrósio, não amam a Deus pela verdadeira sabedoria, pela verdadeira caridade. Isso falando dos judeus. Então quando eles se circuncisam, não agradam a Deus. E por que não agradam a Deus? Porque veio Jesus Cristo e elevou o judaísmo a outro nível, ao nível do batismo sacramental, que nos torna iguais, semelhantes a Deus. Não é mais um sinal de pertencer a uma raça, pertencer a um povo. A circuncisão caducou, não serve mais. Então quando eles fazem, podem está fazendo com um sentimento bom, mas não serve para a  vida eterna deles, não leva para o Céu, já não faz parte da vida religiosa, já não faz parte da religião revelada. A mesma coisa nós podemos dizer de tudo aquilo que acontece no mundo moderno. E hoje em dia, são as seitas que estão em volta de nós, com seus altos falantes, gritando do nosso ouvido, e muitas vezes são pessoas boas, são pessoas piedosas. E muitas vezes nós ouvimos “Ah, mas eles são piedosos”, são piedosos no mundo, são piedosos sem eficácia, porque a religião deles não é a religião revelada, não é a religião de Jesus Cristo. Qual a eficácia que pode ter a oração? Nenhuma. No máximo pode fazer deles pessoas boazinhas. Mas isso não leva para o Céu. 

 Então, qual nossa atitude para com eles? 

Uma preocupação verdadeira. “O que acontecerá com aquele pobre pastor que está enganado, que é honesto na sua preocupação com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que está enganado, porque ensinaram errado para ele, o caminho dele é o caminho do inferno?”  

 Então nós temos que rezar por eles, temos que converter o mundo todo, nós temos que carregar esse mundo todo nas costas: na oração, no sacrifício, na penitência. Rezar por todos esses que se desviaram do reto caminho, para que eles voltem para o caminho da salvação, para que eles voltem para a luz de Jesus Cristo, o verdadeiro Cristo. Então tudo isso são atitudes que nós temos que ponderar. Com que espírito nós rezamos? Com que espírito nós trabalhamos? Com que espírito nós encontramos as pessoas lá fora? E eles? Com que espírito eles fazem essas coisas? Qual o papel que nós temos para trazer de volta essas almas ao caminho da salvação? 

 Então, quando nós ouvimos Nosso Senhor falar, deste feitor iníquo, que por causa da perda do emprego, vai dar um desconto a todos os seus devedores do seu senhor, e com isso vai sair dali para talvez encontrar outro emprego, Nosso Senhor diz: está vendo? Ele teve cuidado para se preparar para o momento em que ele perdeu o emprego. E nós temos cuidado para não perdermos o Céu? Nós temos cuidado para não perdermos o Paraíso? É isso que Nosso Senhor está tentando nos dizer. E muita das vezes nós somos surdos, não ouvimos as suas palavras, não entendemos o que realmente Ele quer dizer, e vamos agindo no mundo com aquele critério profano, imitando todos os colegas do trabalho, todas as pessoas da rua, todos os jornais que inventam moda todo dia e nós vamos mergulhando nessa moda, e vamos mergulhando nos seus filmes e nós vamos mergulhando nas suas séries, e vamos contaminado nosso espírito e perdemos contato com essa espiritualidade.  

 Existe um livro do Père Emmanuel – esse que tem alguns livros já editados pela Permanência – tem um livrinho que eu ainda não editei, mas gostaria de editar, que se chama “O católico do mundo e o católico do evangelho”, católico que vive com os critérios do mundo e católico que vive com os critérios do evangelho. Como que nós vamos viver? Qual vai ser o efeito da nossa oração? Como nós vamos viver para que realmente nosso catolicismo não seja apenas de palavras soltas no ar, mas que seja eficazes no amor de Deus, produzam em nosso coração o amor de Deus, e façam com que esse amor seja realmente uma transformação das nossas almas? Se nós não tivermos nossa vida focada, centrada com critérios sobrenaturais de vida de oração e também de vida lá fora, no mundo, então nós nos perderemos. É fácil o mundo nos engolir, com todas as nossas orações, e elas passarão a ser vazias, como a circuncisão dos judeus é vazia, como Santo Ambrósio nos ensina.

 Então peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo que sopre em nós o verdadeiro espírito pelo qual nós trabalhamos em tudo na vida, de modo a não perder o caminho da salvação.

2 comentários em “O que temos nós a ver com o feitor iníquo da parábola?

  1. Lari Oliveira

    Irmâos,excelente! Estás meditações estão compiladas em livro..? Se nâo estâo..pensar nisso! Maravilha de meditação com profundidade.

    Curtido por 1 pessoa

    • Márcio Regis

      Olá. Temos a graça de ter essas meditaçãoes todo o.domingo na hora do preceito.
      Boa ideia. Seria bom mesmo ter redigidas em um pequeno livro .
      Obrigado!

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