:: TEXTOS SELECIONADOS

O caminho do céu para o pobre é o sofrimento; para o rico é a esmola

O Grande Preceito da Esmola

1 – Porque razão Deus, que é o Pai comum e Benfeitor de todos os homens, faz nascer uns na pobreza e outros na opulência? Porque, diz Santo Agostinho, uma vez  estabelecida a ordem atual das coisas, esta desigualdade é necessária para a sua conservação. Efetivamente, se não houvesse pobres, não haveria nem trabalho, nem indústria, nem obediência, nem mando; de onde se conclui que a opulência e a pobreza são dois laços que unem o gênero humano.

2 – Mas o Pai celeste não esqueceu por isso seus filhos pobres, que são objeto das suas mais caras complacências, pois que ele mesmo quis que seu filho nascesse, vivesse e morresse pobre.

3- No mesmo modo que Deus remedia a secura da terra com o orvalho e abundantes chuvas, também quer que o supérfluo dos ricos remedie a indigência dos pobres. Aquele que reparte com os pobres o supérfluo, não lhe faz um dom ou favor, mais cumpre um dever imposto por esse Deus, que é o pai previdente e o senhor absoluto do pobres.

4 – Há duas qualidades de supérfluo: uma diz respeito ao que nos é necessário para viver, outra diz respeito às exigências do nosso estado; a primeira devemos empregá-la nas necessidades extremas do próximo, a segunda nas suas ordinárias necessidades e com maior razão nas suas graves precisões.

5 – Cada qual tem o direito de viver com a decência correspondente ao seu estado; mas esta conveniente decência não forma um todo indivisível, pois ainda que a este estado se acrescentem muitas coisas, dele não se sai, assim como ainda que dali se tiverem muitas outras, não nos aviltamos.

6 – Daqui resulta que não se pode estabelecer uma regra uniforme e invariável para determinar na prática o que é supérfluo; por isso depende de muitas circunstâncias reunidas, e é por esta razão que, segundo São Tomás, em tais matérias devemos seguir a opinião de uma pessoa sábia e prudente.

7 – É certo, algumas vezes, que o que não é necessário ao sustento da vida e às exigências do nosso estado, deve ser considerado como supérfluo: porém devemos fazer isto, quando tenhamos examinado o nosso estado segundo as regras da moderação cristã, da qual a nenhum fiel é lícito apartar-se.

8 – Muitos ricos há que não conhecem nada de supérfluo no seu estado, porque se entregam a um luxo, que devora todas as suas riquezas. Aquele que quiser viver como o rico avarento de que fala o Evangelho, não achará nunca nem pão nem ao menos uma migalha para dar a Lázaro.

9 – Estes ricos tornam inútil o grande preceito da esmola, e são culpados de um grave roubo, sacrificando a sua cega e sórdida ambição o patrimônio destinado por Deus a sustentar os pobres. Tertuliano chama-lhes ricos predestinados ao inferno, para diferença dos ricos caritativos, que são predestinados à glória. O caminho do céu para o pobre é o sofrimento; o caminho do céu para o rico é a esmola.

10 – O deixar uma quantia razoável para as necessidades ordinárias e extraordinárias da vida não é amontoar supérfluo; mas sim proceder conforme manda a prudência. Assim como toda a comida é temperada com sal, assim toda a virtude deve ser temperada com a prudência e precaução.

11 – O que acabamos de dizer aplica-se sobre tudo aos pais, que devem poupar tudo que é necessário para bem educar seus filhos, e dar às suas filhas um dote segundo o seu estado e meios. Fazer isto, não é amontoar supérfluo; mas sim prover ao necessário; pois aos pais ou aqueles que os substituem são obrigados, por dever de justiça, a dar a seus filhos essa educação e dote.

12 – Mas para ser previdente para com seus filhos não é necessário ser cruel para com os pobres. De todas as heranças que podeis deixar a vossos filhos, a mais bela é o exercício da caridade. A família do homem caritativo será sempre abençoada por aquele Deus, que manda dar esmola.

13 – O dever da esmola não obriga a renunciar aquilo que o nosso estado ou condição exige. A virtude como já dissemos no princípio deste livro com Santo Agostinho, não é outra coisa senão a ordem: logo, aquilo que não é bem ordenado não é virtude.

14 – Há certas pessoas que para darem mais abundantes esmolas faltam ao reconhecimento e à generosidade para com aqueles de quem receberam serviços ou favores: isto é um erro. As virtudes respeitam-se mutuamente e dão-se as mãos; nenhum exige o que é devido a outra.

15 – Não cuides que tendes obrigação de socorrer todos os necessitados; isso não é possível. Quando tiverdes distribuído um numero de esmolas, que segundo o juízo de uma pessoa prudente, é proporcionado aos vossos meios, tereis satisfeito ao vosso dever para com Deus e para com o próximo, e deveis viver sossegados.

16 – É necessário usar de prudência na repartição das esmolas. É impossível imaginar quantas pessoas fingem necessidade ou exageram, para serem socorridas. Cumpre pois evitar a demasiada credulidade e ser prudente no exercício desta obra de misericórdia, para que a esmola caia na mão do que é verdadeiramente necessitado, e não na daquele que se finge pobre, como acontece muitas vezes. Se todas as esmolas fossem bem repartidas, não haveria tantos verdadeiramente necessitados. Muitos pessoas para não errarem em matéria tão difícil, confiam a distribuição das esmolas, em todo ou em parte, ao seu pároco ou diretor, porque estes em razão do seu ministério são ordinariamente os que estão mais no caso de saber onde está a verdadeira miséria.

17 – Lembrai-vos do grande conselho que dão os santos: É mister que aquele que tem muito dê muito; que o que tem pouco dê pouco; e que aquele que nada tem possua ao menos o desejo de dar: pois diante de Deus a boa vontade daquele que dá ou deseja dar tem mais merecimento que a mesma dadiva. O pequeno donativo da viúva, de que nos fala o Evangelho, foi mais agradável a Deus que as pomposas ofertas feias pelos ricos faustosos.

18 – Amai também a esmola espiritual. Um prudente conselho, uma virtuosa exortação, uma consolação salutar, uma visita a um enfermo, a proteção dada a uma viúva ou a um órfão, a uma pessoa abandonada ou perseguida, são esmolas tanto mais meritórias diante de Deus, quanto ordinariamente são menos brilhantes aos olhos dos homens.

do Almanaque Tradição Católica

2 comentários em “O caminho do céu para o pobre é o sofrimento; para o rico é a esmola

  1. Lari Oliveira

    Caríssimos, quem faz textos tão primorosos?
    É uma bela homilia que,ao lermos e meditarmos…se instala em definitivo nos nossos corações.

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  2. Jair Klauster

    POR QUE EXISTEM POBRES? POR QUE UNS TEM MUITO E OUTROS E NÃO TEM O SUFICIENTE PARA VIVER?

    Bem, Jesus nasceu pobre, viveu como pobre e trabalhou no meio dos pobres. Isso mostra que Jesus está do lado dos pobres. Naquele tempo a sociedade estava dividida, os ricos, o império romano, o poder religioso e os pobres. Os pobres eram os mais sofridos e abandonados. Jesus veio como esperança para os pobres, e condenou os ricos. Disse que era mais fácil um camelo passar no furo de uma agúlha que um rico entrar no reino do céu,

    Vejam o que disseram alguns santos da Igreja sobre o tema.

    “Como pode ser bom aquele que possui riqueza? Não é bom, exceto quando dá aos outros. Enquanto ele a guardar para si não pode ser bom. Entretanto, como algo pode ser bom se, guardado, mostra que somos maus e, distribuído, mostra que somos bons? O que nos torna bons não é o ter, mas o não ter riquezas.

    – São João Crisóstomo, +407 (Homilia 13 sobre a I Carta a Timóteo)”

    Vejam outros santos o que disseram sobre o tema.

    “O uso dos bens é determinado pela necessidade, que pode ser satisfeita com muito pouco. Deus nos deu a possibilidade do uso, mas apenas dentro dos limites do necessário. É, portanto, um absurdo que apenas uns poucos vivam entre delícias, enquanto muitos se acham na miséria.
    – São Clemente de Alexandria, +215 (O pedagogo)

    “Aquele que despoja um homem de suas vestes recebe o nome de saqueador. E aquele que, podendo fazê-lo, não veste a nudez do mendigo, merece por acaso outro nome? Ao faminto pertence o pão que você retém. Ao homem nu, o manto que você guarda até nos seus cofres. Ao que anda descalço, o calçado que apodrece em sua casa. Ao miserável, o dinheiro que você guarda escondido”.

    – São Basílio Magno, +379 (Homilia 6, 6-8)

    ***

    Aqueles que não compartilham o que receberam causam cruelmente a morte de seus próximos, porque todos os dias matam todos os que morrem de pobreza, negando-lhes socorro e apenas acumulando riquezas para si próprios. Quando damos aos pobres algo de que necessitam, não estamos dando o que é nosso, mas estamos desenvolvendo o que lhes pertence. Estamos pagando uma dívida de justiça, e não realizando uma obra de misericórdia.

    – São Gregório Magno, +604 (Regra Pastoral)

    ***

    Quem quiser dar lugar ao Senhor em suas vidas deve se alegrar não com a posse de bens materiais, mas em compartilhar bens comuns. Os primeiros cristãos transformaram em bens comuns seus bens individuais. Por acaso perderam o que consideravam seus bens? Não. Se seus bens continuassem como propriedades exclusivas, cada um teria apenas o que era seu. Mas, quando transformaram em bens comuns seus bens individuais, cada um passou a ter como seus os bens que eram dos demais.

    – Santo Agostinho, +430 (Comentário ao Salmo 131)

    ***

    Deus conduziu o ser humano à comunhão, dando primeiramente as suas coisas e colocando à disposição de todos os homens, como ajuda, o seu Verbo. Fez tudo para todos. Todas as coisas são, por isso, um bem comum, e os ricos não devem pretender mais do que os outros. Dizer: “Tenho até de sobra, por que não desfrutaria?” não é nem humano nem social. Eis, ao contrário, a prova do amor: “tenho, então por que não dar aos pobres?”

    – São Clemente de Alexandria, +215 (O pedagogo)”

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