A vantagem que os Anjos levam em nobreza sobre os homens, e a que os homens levam sobre os Anjos. Diferença das naturezas angelical e humana.

Por Pe. Antônio Vasconcellos 

Esta grande diferença das naturezas angelical e humana, deu Deus a entender, criando os homens na terra e os anjos no Céu. A casa há de ser proporcionada ao morador. Para o rústico basta uma casa de palha, ou de quatro taipas de terra. Para o nobre e príncipe, são os edifícios elevados e palácios altos e dourados. Por este respeito, Deus deu ao homem a casa na terra e de terra como a um lavrador rústico. E aos Anjos, os palácios altos, dourados e estrelados, como a príncipes e a este fim os criou no céu empíreo, ao qual por esta razão o chama Santo Isidoro, Caelum Angelorum. E ainda nos nomes, mostrou Deus esta diferença, porque ao homem  pôs  Deus  o  nome de terra, chamando-o de Adão, que quer dizer, Terreno. E aos Anjos o nome da mais nobre e formosa criatura corporal, que Deus criou que é a luz.

Porque conforme Santo Agostinho sobre o Gênesis quando Deus disse, Fiat lux. Faça-se a luz. Entendeu não só a luz corporal, mas também os Anjos, aos quais quer dizer este Santo Doutor que Deus criou naquela conjunção, dando a entender, assim como a luz dá formosura e lustre a todas as coisas (pois uma flor e uma rosa às escuras não têm graça, nem formosura) assim também, a nobreza, o lustre e formosura de toda a natureza, eram os Anjos. Por esta razão, falando Sofrônio com os santos Anjos, espantado de sua grande nobreza diz assim: “Com muita razão vos chamam, ó espíritos celestes, os segundos luzeiros, que por uma bem-aventurada emanação, procedeis da primeira e original luz: como criaturas que sem meio algum, recebeis em vós, quanto é possível, aquele infinito e perfeitíssimo resplendor do único, e trino principado. E depois de o receberdes o comunicais aos demais espíritos e inteligências.” E São Dionísio Areopagita falando dos Anjos, diz nas suas palavras: “chama aos Anjos substâncias santíssimas, antiquíssimas, como portais da Santíssima Trindade, pelas quais se sai de Deus e entra em Deus. Dos Anjos para dentro não há mais que Deus. De Deus para fora, a primeira coisa são os Anjos e depois do substancial dos Anjos, não há mais, que o supersubstancial, que é a Santíssima Trindade.”

Conforme a tal nobreza e parentesco tão próximo de Deus, se pode bem duvidar, com que termo falaremos mais apropriadamente aos Anjos, e qual lhes é mais devido. Pois, não sabemos o objetivo que Deus fizeste para este efeito, como as dos reis da terra, que limitam uns a Majestade para si, e para seus filhos Alteza. Para os demais senhores, excelência, ou senhoria, conforme a preeminência de cada um. Mas aos Anjos, qual destes títulos será mais conveniente? Se cremos como São Jerônimo, como a príncipes, que são, lhe devemos o título de Alteza e assim interpreta aquele lugar de luz, o Anjo, levantou as mãos para louvar e engrandecer a Deus. E se houver quem diga, como o Profeta Davi, colocando o Anjo somente um pouco acima do homem e este um pouco abaixo do Anjo, assim abaixastes o homem um pouco mais que os Anjos, por onde parece que não é a vantagem que os Anjos levam aos homens, tão eminente, como se tem mostrado? Responde-se, que uma coisa é tratar do lugar natural, que uma coisa de si tem; e outra é tratar do que tem por conta e estimação divina.

Os japoneses fazem muitas vezes estima de um tripé de ferro velho em muito maior grau do que se fosse prata, ou de ouro, sendo o preço do ferro tão baixo, como sabemos. Porém, a estimação é muito grande devido à antiguidade da obra e nome do mestre. Em um mapa mundi, se buscamos a Índia, achá-la-emos a um, ou dois palmos distante de Portugal. Na realidade está distante dele três mil léguas. Porque um é o lugar real, o outro é o que lhe dá o cosmógrafo no seu mapa mundi.

Assim havemos de entender, que o homem na estimação divina está um pouco abaixo do Anjo, isto é o que diz o Profeta, que logo o faz príncipe e lhe acrescenta outras honras a esta conta: “Coroaste-o Senhor, diz o Profeta, com uma coroa de glória e de honra, e fizeste-o príncipe, e governador, e presidente de vossas obras.” Porém na distância e lugar natural, fica o homem muito abaixo, e os Anjos são os que ficam acima de todas as coisas criadas. E tanta é a sua nobreza, que diz Santo Agostinho: “A natureza Angélica precede a todo o criado em honra e dignidade.” São Bernardo e São Vicente Ferrer passam adiante e chegam a dizer, “que somos, os homens, como uns cachorrinhos e umas ovelhinhas em comparação a príncipes que são os Anjos.

Aos quais a grande nobreza de sua natureza e as excelências de que Deus sobre todas as outras naturezas os dotou, foram por ventura ocasião da irremediável perdição de todos os que deles arruinaram-se com o pecado.”

Muitas razões dão os Santos e Doutores, pela qual Cristo nosso Senhor, não remiu os Anjos (resgatando-os do pecado, pelo qual ficaram em perpétuo cativeiro) assim como resgatou os homens nascendo e morrendo por eles, como se pode ver em Santo Tomás – terceira parte, q.1. Porém Santo Agostinho tem para si, que “Deus estranhou tanto a culpa nos Anjos e deu-se por tão agravado com o pecado que cometeram, pela grande nobreza e excelência em que os criou tão avantajados a todas as outras criaturas, que vendo que nem as circunstâncias com que os acreditou e autorizou, foram bastantes para os enfrear e conservar os bens, que possuíam; decidiu, que não mereciam remediá-los pois, não usaram de sua nobreza, para deixar de caírem em tanta baixeza.” Entendemos, diz Santo Agostinho, que “a culpa dos Anjos foi julgada por tanto mais grave, quanto sua natureza era mais nobre e elevada – porque tanto menos razão tinham de pecar do que nós tivemos, quanto eram mais avantajados que nós.”

Por esta mesma razão mandava Deus no levítico oferecer por um só pecado de um Sacerdote, o mesmo que pelo pecado de todo o povo – que é um bezerro. E perguntamos, qual é a causa, pela qual Deus pede igual satisfação pelo pecado de um homem, do que pede por tantos homens, quantos há em um povo inteiro? Responde Teodoreto, “que o fez para nos ensinar, quão alto é o estado e dignidade do Sacerdote.” E São Crisóstomo responde, “que Deus o fez, porque quanto maior é a nobreza e autoridade do que peca, tanto é maior o castigo dos pecados.” Por onde entendemos quão grande é a nobreza da natureza Angélica, pois Deus por ela estranhou tanto seu pecado que em justo castigo, a deixou sem remédio e aos que souberam conservá-la na alteza do estado, em que os pôs, honrou tanto e escolheu na terra por trono, em quem despacha nossos requerimentos e nos reconcilia em sua amizade; conserva nela visando nestes bem-aventurados espíritos para remédio de nossos males.

É bem verdade que a natureza humana em alguns merecimentos, excede à angélica. A primeira e maravilhosa obra sobre todas as obras da Encarnação do Verbo divino, em que o filho de Deus, recebe em sua própria pessoa eterna, a natureza humana perfeita, de maneira que Deus é Homem e o Homem Deus, por conseguinte adorado de toda a natureza angélica e humana. Nunca lemos, diz São Paulo, que Deus se fizesse Anjo. Nunquam Angelos apprebendit. E lemos nas escrituras, que Deus se havia de fazer homem e se fez, da geração de Abraão, como solenemente tinha prometido. Pela qual excelência os santos Anjos tiveram sempre muito respeito aos homens, principalmente depois da Encarnação do filho de Deus.

Conta Lactâncio em um tratado dos Anjos, que havia na Inglaterra um Religioso de São Bento, que via muitas vezes o seu Anjo e falava com ele. Não se incomodava o Anjo, que lhe fizesse muitas reverências. Um dia perguntou o Religioso ao Anjo, porque não o incomodava fazer-lhe aquelas cortesias, pois levanta grande gosto em fazê-las e entendia que tinha nisso grande merecimento. Respondeu o Anjo nesta forma: “depois que Deus todo poderoso tomou carne humana e subiu aos céus – nós fazemos mui especial reverência aos homens e muito mais do que antes fazíamos. Porque vemos a natureza humana no céu acima de toda a Angélica e vemos que Deus todo poderoso a quis resgatar com o preço do sangue e morte de seu unigênito filho”. E por esta causa o Anjo no Apocalipse, não quis receber de São João a honra que lhe dava. Antes se fez servo seu e de todos seus irmãos, por honra e glória do nome de Cristo. E este serviço que fazemos aos homens, encomendado por Cristo, nós o estimamos e prezamos muito, por mais baixos e mesquinhos que os homens sejam. E se eles quisessem ser os que deviam, nós lhe faríamos assinalados serviços do corpo e da alma, como no tempo passado fazíamos no Egito aos santos ermitões e contemplativos, que viviam no desterro.

A segunda, excedem os homens aos Anjos no merecimento da redenção humana. Porque os homens foram remidos pela sacratíssima paixão e morte do filho de Deus humanado, e os Anjos caídos, não.  Em tanta conta teve Deus ao homem, que criou, vendo-o perdido por sua fraqueza e por astúcia e engano do soberbo e malicioso demônio.

A terceira, tem o homem vantagem ao Anjo na glorificação de ambas as naturezas espiritual e corporal de que é composto. Porque além da glória substancial da alma divina, visão e fruição eterna que tem como o Anjo, alcança o homem glória consubstancial dos dotes do corpo, como adiante veremos, e dos cinco sentidos corporais de que o Anjo carece por não ter corpo. Com os Anjos, gozarão os homens da divindade do Redentor, alcançando com suas almas a divina vista, com a qual contemplando a glória do Redentor, também alcançarão em seus sentidos glorificação eterna.

A figura deste merecimento, foi a repartição, que o Patriarca José fez com seus irmãos. Porque no convite que lhes deu, a porção de Benjamim excedeu cinco partes a mais da ração de cada um dos outros, porque Benjamim era irmão de José de pai e de mãe, e os outros somente de pai. Assim, o homem, que não só da parte de Pai Eterno, de quem foi criado, com o Anjo, tem parentesco com Cristo, mas também da parte de mãe, a Virgem Santíssima, pela natureza humana que recebeu é seu irmão inteiro. E como no convite do Reino da glória excederá à glória dos Anjos, com a glória dos cinco sentidos, que recebera do glorioso corpo de Cristo.

O quarto merecimento e privilégio em que excede a natureza humana é a exaltação da glória. Porque a humanidade no filho de Deus e em sua gloriosa Mãe, é sublimada e exaltada sobre os coros Angélicos. De Cristo Senhor Nosso, diz São Paulo, falando da alteza a que foi levantado. Está assentado à direita da divina Majestade nos céus, tanto é mais alto que os Anjos, quanto mais excelente nome herdou e alcançou que eles. Porque nunca a algum Anjo disse Deus, tu és meu filho, eu te gerei, como disse a Cristo, seu filho. Da Sacratíssima Mãe de Deus canta a Igreja: foi levantada sobre os coros Angélicos no Reino celestial, o que de nenhum outro santo a Igreja canta.

Davi viu São Gregório Magno a dizer, tratando do respeito com que nos falam os Anjos, depois da Encarnação do filho de Deus. Aqueles de quem, com os fracos e desprezíveis faziam pouco caso, já mudam o estilo com eles e os respeitam como companheiros. Daqui veio, diz o Santo, que Lot e Josué adoraram Anjos e eles não lhes proibiram. E São João, querendo no Apocalipse adorar o Anjo, ele o avisou que tal não fizesse.

Qual é a causa porque antes da vinda de Cristo os Anjos deixavam-se adorar pelos homens, porém depois da vinda do Senhor não permitem que os adorem? A causa é, porque nossa natureza que no princípio eles desprezaram, depois que a viram unidas ao Verbo acima da sua, temem de a ver prostrada diante de si, nem se atrevem já a desprezá-la como inferior, a quem no reino do céu honram, nem se desonram em ter o homem por irmão e companheiro, quando tem sobre si e adoram ao homem Deus. Daqui procede a estima em que os Anjos tem o lugar de Trono, em que servem a Deus na terra, e que despacham nossos requerimentos e nos reconcilia em sua amizade e conserva nela, pela ocasião que tem de nos valerem e ajudarem nos remédios de nossos males.

Fonte: Tratado do anjo da guarda. Livro primeiro – Parte segunda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s