Modo de socorrer os moribundos

Pelo Pe. Manuel José Gonçalves Couto

Modo de socorrer os moribundos que nunca fizeram confissão geral, e que viveram sempre no descuido de sua salvação, confessando-se apenas de ano a ano.

                Convém que em todas as povoações haja uma pessoa de virtude, podendo ser um sacerdote, mas, na falta dele, qualquer homem ou mulher de zelo e caridade que saiba ler. Apenas se saiba que alguma pessoa está enferma na povoação, logo esta pessoa de caridade deve ir visitar a dita enferma ou enfermo. Depois de a cumprimentar e conversar alguma coisa, deve consolá-la se estiver aflita; deve confortá-la e animá-la se estiver desesperada; deve pacificá-la e sossegá-la se estiver impaciente; persuadindo-lhe que se conforme com a vontade de Nosso Senhor, porque não se pode salvar sem passar por algum purgatório. E então que melhor é padecer neste mundo aquelas dores, que no outro chamas de fogo, e talvez por muitos anos. Se a enfermidade for grave e ela disser que não tem mal nenhum, prudentemente deve desenganá-la e mostrar-lhe o perigo em que está, que facilmente pode morrer, como tem acontecido a muitos enfermos e grandes pecadores, os quais morreram sem o esperar. E como não esperavam morrer daquela vez, não se prepararam para a morte, e assim morreram desgraçadamente.

                 Depois de algumas destas coisas, deve-lhe falar em confissão, que convém confessar-se, que os sacramentos não fazem agravar a moléstia, antes sendo eles dignamente recebidos até muitas vezes dão a saúde corporal, e que até não há coisa que mais console um enfermo do que uma confissão bem feita, que isto se observa todos os dias em imensos pecadores que verdadeiramente se convertem e confessam – e que deve ser uma confissão geral, conforme o tempo o permitir, porque as confissões de ano são quase todas nulas por falta de verdadeira dor. Quem se confessa de ano a ano quase nunca se emenda. Ora, quem não se emenda, não dá provas de verdadeira conversão. E por isso, a confissão deve ser geral, ainda mesmo nessa hora, e ninguém deve sossegar sem ela. Resolvido a fazer a sua confissão geral, deve-se-lhe chamar o melhor confessor que aparecer, ainda que seja de léguas distante,[…] um sacerdote de ciência e virtude.

                Mas se o enfermo não quiser sujeitar-se a estas direções? Nesse caso, deve alistado na Confraria do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria, na qual se roga pelos pecadores. Deve o diretor com o povo recitar por ele uma ladainha, e aplicar por ele as comunhões que puder naqueles dias. Todas as pessoas devotas se devem empenhar na conversão daquele enfermo. Finalmente, devem levar a medalha indulgenciada, e a lançá-la ao pescoço. É por este modo que se tem convertido muitos e grandes pecadores na ocasião de grave enfermidade. Temos disto imensos exemplos.

                Pecadores que já não se tinham confessado há muitos anos, cheios de crimes, e que morreram com a maior satisfação interior, dizendo muitos deles com lágrimas nos olhos: Ó Santa Religião! Ó Religião Católica! Quão tarde te conheci! Ah, tu és a religião da paz e da felicidade neste e no outro mundo! Ó quanto é doce morrer convertido verdadeiramente para Deus! Eu nunca pensei que era tão suave o jugo do Senhor! Agora sim, agora é que eu morro com a maior satisfação, e na paz do mesmo Senhor.

                Mas quem poderá ter esta satisfação na hora da sua morte? Todos quantos se confessarem verdadeiramente arrependidos, porque dado o caso que o arrependimento seja verdadeiro, o perdão é certo, seja na hora em que for. Por isso ninguém desesperar da sua salvação, ainda mesmo na hora da morte, porque a misericórdia de Deus é infinita para com o pecador verdadeiramente arrependido. Depois de recebidos os sacramentos da Santa Igreja, compete ao Confessor visitá-lo, e assistir-lhe, e neste caso ele bem sabe os seus deveres. Mas se ele não puder por ter outras obrigações, então essa pessoa de caridade é que lhe deve assistir, dizendo-lhe aquilo que melhor lhe convier à sua salvação. E é uma das coisas principais que faça testamento, se tem de que. E se o enfermo estiver em maior perigo, pode dizer-lhe as seguintes orações, mas muito devagar, para que ele possa acompanhar e também dizer.

Orações para dizer com os moribundos

                Ó meu Deus, eu vos entrego a minha alma. Eu desprezo voluntariamente todas as coisas deste mundo, que não são mais do que uma pura vaidade. De todo o meu coração me arrependo, e muito me pesa de todos os meus pecados, e isto só pelo amor para com o meu Deus. Eu prometo fazer todos os esforços para não cair nas culpas que tão frequentemente cometo, e das quais desejo sinceramente emendar-me. Eu creio em um só Deus, que são três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. Creio firmemente tudo o que a Santa Igreja ensina que se deve crer, e assim o creio porque Deus o disse, e Ele é a própria verdade, e por isso não nos pode enganar, nem ser enganado. Eu espero na bondade de Deus o perdão dos meus pecados, e a graça de o servir fielmente na terra, a fim de o possuir eternamente no Céu. Eu amo ao meu Deus com todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, por Ele ser infinitamente bom e amável, e amo também ao meu próximo como a mim mesmo e por amor do meu Deus. Totalmente me entrego à disposição da santíssima vontade de Deus, e estou pronto para padecer, viver ou morrer, como for do seu agrado. Eu sinceramente desejo que se cumpra em mim agra e sempre a sua santíssima vontade. E quero sofrer pacientemente todos os trabalhos que Ele me enviar. Eu encomendo a minha alma ao Sagrado Coração de Jesus e ao Santíssimo Coração de Maria. Dignai-vos, ó meu bom e dulcíssimo Jesus, esconder-me dentro da chaga de vosso sacrossanto lado. E vós, ó gloriosíssima Virgem Maria, minha amorosíssima Mãe e advogada, defendei-me das ciladas dos inimigos, recolhendo-me dentro do vosso maternal coração. Diletíssimo Anjo da minha guarda, São José, São Joaquim, Santa Ana, Santo do meu nome, vós, ó Santos e anjos todos sede meus protetores, alcançai-me as graças de que agora mais necessito, e assisti-me todos na hora da minha morte, para depois ser como vós glorificado lá nos Céus. Amém.

                Meu Jesus, e meu Juiz, perdoai-me antes de me julgar. Meu Deus, ó quem nunca vos tivera ofendido! Vós não merecíeis ser tratado como eu vos tratei, por isso me arrependo de vos ter ofendido, bondade infinita. Eu vos tenho abandonado, tenho desprezado a vossa graça, tenho-vos perdido voluntariamente, perdoai-me por amor, e em nome do Vosso Filho. Pecados malditos, que me tendes feito perder a Deus, eu vos detesto, aborreço e abomino. Daqui por diante em todo o tempo que me restar de vida eu quero amar-vos, por isso, meu Jesus, tende piedade de mim. Em expiação dos meus pecados eu vos ofereço a minha morte, e todos os sofrimentos que nela experimentar. Vós, Senhor, tendes razão de me castigar, porque vos ofendi muito, mas eu vos peço que me castigueis nesta vida, e me perdoeis na outra. Ó Mãe Santíssima, obtende-me uma verdadeira contrição de meus pecados, o perdão e a perseverança.

                Meu Deus, porque sois uma bondade infinita, digno de um amor infinito, eu vos amo mais que tudo, mais do que a mim mesmo, de todo o coração Vos amo, Senhor. Eu não sou digno de Vos amar, porque Vos ofendi, mas pelo amor de Jesus fazei que eu Vos ame. Ó meu Jesus, eu quero sofrer e morrer por Vós, que tanto sofrestes e morrestes por mim. Tratai-me, Senhor, como Vos agradar, mas não me priveis da felicidade de Vos amar. Quando poderei dizer, ó meu Deus: Eu não posso jamais perder-Vos? Ah, eu só queria amar-Vos tanto quanto Vós mereceis. Ó Mãe Santíssima, atraí-me todo a Deus. Obtende-me a graça de amar muito a Deus sequer tanto quanto O tenho ofendido.

                Meu Deus, se tem sido muitos e muito grandes os meus pecados, muito maior ainda é a Vossa misericórdia, porque é infinita. E assim arrependido verdadeiramente como estou, e com o propósito firme de nunca mais pecar, espero que me tereis perdoado, e que me dareis a bem-aventurança, porque me criastes e remistes com o Vosso preciosíssimo sangue.

                Meu Senhor Jesus Cristo, que por meu amor sofrestes uma morte acompanhada de incompreensíveis tormentos, em comparação dos quais nada é o que eu sofro. Se até agora, entregue ao mundo, só procurava as suas comodidades e os seus gozos, agora, que desenganado das suas vaidades só aspiro a felicidade do Céu, aceito todas as dores, padecimentos, e a mesma morte. E tudo isto reunido aos merecimentos da Vossa paixão e morte, tudo ofereço ao Vosso Eterno Pai em satisfação dos meus pecados. Aumentai, Senhor em mim estes sentimentos, nos quais quero viver e morrer.

                Tende Piedade de mim, ó meu Deus, porque a minha alma pões em Vós a Sua confiança. Ah, se chegam os meus inimigos para procurarem a minha ruina e devorarem a minha alma. Mas Vós, Senhor, sois a minha luz e a minha salvação. Sois Vós, Senhor, meu Jesus, toda a minha esperança.

                Ó meu Jesus, eu quero dar sobre este leito da morte uma pública satisfação à Vossa infinita Majestade por mim ofendida. Aceito a morte, e todas as dores, moléstias e aflições que padeço, em satisfação dos meus pecados. Não Vos lembreis mais, Senhor, dos pecados da minha mocidade, nem das minhas ignorâncias. Se quereis, meu Deus, que eu morra, estou pronto, faça-se a Vossa vontade, quero morrer. Se quereis que eu viva, assim seja, faça-se a Vossa vontade. Eu desejo e quero fazer ou padecer aquilo que vós quereis que eu faça ou padeça. O meu coração está pronto para tudo, para viver, para morrer, para ir para o Céu, e para se demorar cá na terra. Eu descanso em Vós, ó meu Deus. Eu me entrego a Vos. Eu Vos entrego o cuidado do meu corpo, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Nada mais tenho a pedir-vos, senão que façais de mim o que Vos agradar. Amado Jesus, José e Maria, o meu coração Vos dou, e alma minha. Amado Jesus, José e Maria, assisti-me na minha última agonia. Amado Jesus, José e Maria, expire em paz entre Vós a alma minha. (Isto pode repetir-se por várias vezes, se se julgar conveniente).

                (Quando o enfermo já estiver sem fala, poderá pedir-se por ele do modo seguinte):

                Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, seja contigo, alma cristã. E por Sua paixão e sagrados merecimentos, sejas perdoada, amparada e livre destas angústias. A Santíssima Virgem seja tua advogada, e te alcance de Deus esforço e aumento de esperança. Te livre de todo o perigo, aparte de ti toda a tentação, e não te deixe enquanto não entrares na glória. Todos os Anjos e Santos roguem por ti, e te alcancem as graças de que agora mais necessitas. Aquele verdadeiro Deus, que é fonte de misericórdia, seja contigo. Ele te conforte e te console. Ele te ampare e te alumie. Ele te guie neste temeroso caminho para a pátria dos bem-aventurados. Ele te leve a essa pátria celestial por ministério de seus santos Anjos. Ele te livre destas agonias.  Ele receba as tuas dores em desconto dos teus pecados por Sua infinita misericórdia. O piedoso Senhor, que te criou, te dê inteiro sentido para o chamares com firme esperança, e mande lançar fora deste lugar todo o espírito maligno e tentador, toda a tristeza e má tentação.

                Os santos Anjos estejam aqui contigo enquanto não saíres deste mundo, e te levem à glória. E quando for vontade de Nosso Senhor tirar-te deste mundo, dele te apartes com a remissão dos teus pecados e cheio de gozo. Em nome de Deus Pai, Todo-Poderoso, que te criou, em nome de Deus Filho, que te remiu, e em nome do Divino Espírito Santo, que te alumiou, aparta-te e sai desse corpo mortal com o favor e amparo de todos os Anjos e Santos. Deus se sirva dar-te lugar de descanso e gozo de paz eterna na Santa Cidade de Jerusalém triunfante. Deus misericordioso, Deus clemente e piedoso, ponde os olhos favorável neste Vosso servo, ouvi-o propício, e concedei-lhe piedoso o perdão de todas as suas fraquezas e pecados, pois de todo o seu coração vo-lo pede por meio de sua humilde confissão. Renovai, Pai Divino, e reparai as quebras e ruínas desta alma, e os pecados que ela fez e contraiu, ou pela fraqueza de sua carne, ou pela astúcia e engano do demônio, os perdoai-lhe. Admiti-a e a incorporai no corpo da Vossa Igreja triunfante, como membro vivo dela, e remida com o sangue precioso de Vosso Filho. Amparai, Senhor, esta alma, e socorrei-a. Ela não tem posto sua esperança senão em Vossa misericórdia, por isso admiti-a em Vossa graça e amizade. Eu te encomendo, irmão (ou irmã) a Deus Todo-Poderoso, a quem peço te ampare e favoreça como criatura Sua, para que ao saíres deste mundo chegues a ver teu Criador, que do pó da terra te formou. Quando tua alma sair do corpo, te saia a receber um exército brilhante de santos Anjos, para te acompanhar, defender e festejar-te. O glorioso colégio dos Apóstolos te favoreça, sendo juízes assessores de tua causa. As triunfadoras legiões dos Mártires te amparem. A nobilíssima caterva dos ilustres Confessores te recolham no meio, e te confortem. Os coros das Santas Virgens, alegres e contentes, te recebam. Toda aquela bem-aventurada companhia de cortesãos celestes com estreitos abraços de verdadeira amizade te deem entrada no seio glorioso dos Patriarcas. Manso, piedoso e aprazível te apareça Nosso Senhor Jesus Cristo, e te dê lugar entre aqueles que para sempre assistem na sua presença. Nunca chegues a experimentar o horror das trevas eternas, nem as penas que atormentam os condenados. Satanás se renda com toda a sua quadrilha. E quando passares por diante dele, acompanhada dos Anjos, ele trema e se retire às trevas da sua caverna infernal. Deus se levante em teu favor, e os teus inimigos sejam desbaratados e fujam da tua presença. Os malditos demônios, inimigos rebeldes, se desfaçam como o fumo no ar. E os justos, contentes e alegres, se sentem contigo à mesa celestial. Cristo, que por ti foi crucificado, te livre do inferno. Cristo, que por ti deu a sua vida, te livre da morte eterna. Cristo, Filho de Deus vivi, te ponha entre os prados e florestas do Paraíso. E como verdadeiro pastor te reconheça por ovelha do Seu rebanho. Ele te absolva de todos os teus pecados e te assente à Sua direita entre os escolhidos e predestinados. Deus te faça tão ditosa, que vejas teu Redentor face a face, que assistas em sua presença, que reconheças a Sua Divindade claramente, e que gozes da doçura de sua eterna contemplação por todos os séculos dos séculos. Amém. (Isto se pode repetir mais vezes, se se julgar conveniente, e também rezar a Ladainha de Nossa Senhora, mas em lugar de responderem Rogai por nós, dirão Rogai por ele (ou por ela).

                Logo que morre um enfermo, deve fazer-se tenção que ele nas chamas abrasadoras do Purgatório, porque muito raros são os que vão imediatamente para o Céu. Mesmo alguns Santos tem caído no Purgatório. E então todos devem acudir a apagar-lhe aquele fogo abrasador.  E com que? Com missas ditas, e ouvidas com esmolas, orações , ofícios e votos de renuncia, isto é, dar-lhe todo o satisfatório e indulgências por certo tempo.

Matéria, forma e efeito dos 7 Sacramentos

TRECHO DA BULA EXSULTATE DEO, DE 22/11/1439 (CONCÍLIO DE FLORENÇA – DZ 1310-1328)

[…]Em quinto lugar, para facilitar a compreensão aos armênios de hoje e de amanhã, redigimos nesta brevíssima fórmula a doutrina sobre os sacramentos. Os sacramentos da nova Lei são sete: batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, e diferem muito dos sacramentos da antiga Lei. Aqueles, de fato, não produziam a graça, mas significavam somente que ela teria sido concedida pela paixão de Cristo; estes nossos sacramentos, ao contrário, não apenas contêm em si a graça, como também a comunicam a quem os recebe dignamente.

Destes, os primeiros cinco são voltados para a perfeição individual de cada um, os últimos dois para o governo e a multiplicação de toda a Igreja. Pelo batismo de fato, nós renascemos espiritualmente; com a confirmação crescemos na graça e nos robustecemos na fé. Uma vez renascidos e fortificados, somos nutridos com o alimento da divina Eucaristia. Se com o pecado adoecemos na alma, somos espiritualmente curados pela penitência; espiritualmente e também corporalmente, segundo o que mais aproveita à alma, pela extrema-unção. Com o sacramento da ordem a Igreja é governada e se multiplica espiritualmente, mediante o matrimônio aumenta corporalmente.

Todos estes sacramentos constam de três elementos: das coisas, que constituem a matéria, das palavras, que são a forma, e da pessoa do ministro, que confere o sacramento com a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz. Se faltar um destes elementos, não é efetuado o sacramento.

Entre esses sacramentos há três – batismo, confirmação e ordem – que imprimem caráter indelével, ou seja, um sinal espiritual que distingue <quem o recebe> dos outros, pelo que não podem ser reiterado na mesma pessoa. Os outros quatro não imprimem o caráter e portanto se admite repeti-los na mesma pessoa.

O primeiro de todos os sacramentos é o batismo, porta de ingresso à vida espiritual; por meio dele nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E como por causa do primeiro homem a morte entrou no mundo [cf. Rm 5, 12], se nós não renascermos da água e do Espírito, não poderemos, como diz a verdade, entrar no reino de Deus [cf. Jo 3, 5].

Matéria deste sacramento é a água pura e natural, não importa se quente ou fria.

A forma são as palavras: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Não negamos, porém, que também com as palavras: “Seja batizado o tal servo de Cristo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ou com as palavras “O tal, com as minhas mãos, é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, se administre o verdadeiro batismo. De fato, a causa principal da qual o batismo tira sua eficácia é a santa Trindade, enquanto a causa instrumental é o ministro, que exteriormente confere o sacramento; se o ato conferido pelo mesmo ministro se exprime com a invocação da santa Trindade, é realizado o sacramento.

Ministro deste sacramento é o sacerdote, a quem por ofício compete batizar; mas em caso de necessidade pode administrar o batismo não só um sacerdote ou um diácono, mas também um leigo, uma mulher e até um pagão ou herege, mas que use a forma da Igreja e queira fazer o que faz a Igreja.

Efeito deste sacramento é a remissão de toda culpa original e atual e de toda pena relativa. Não se deve, portanto, impor aos batizados nenhuma penitência pelos pecados anteriores ao batismo, e os que morrem antes de cometer qualquer culpa são recebidos logo no reino dos céus e acedem à visão de Deus.

O segundo sacramento é a Confirmação, cuja matéria é o crisma consagrado pelo bispo, composto de óleo, que significa a luz da consciência, e de bálsamo, que significa ao perfume da boa fama.

A forma são as palavras: “Te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

O ministro ordinário é o bispo. E, enquanto para as outras unções basta um simples sacerdote, esta só o bispo pode conferi-la, porque só dos Apóstolos, de quem os bispos fazem as vezes, se lê que davam o Espírito Santo com imposição da mão, como mostra a leitura dos Atos dos Apóstolos: “Quando os apóstolos que estavam em Jerusalém souberam que a Samaria tinha acolhido a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Quando eles chegaram, rezaram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois não tinha ainda descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados no nome do Senhor Jesus. Então impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” [At 8, 14-17]. A confirmação, na Igreja, tem mesmo o lugar daquela imposição da mão. Lê-se, todavia, que alguma vez com licença da Sé Apostólica e por um motivo razoável e urgentíssimo, também um simples sacerdote tenha administrado o sacramento da confirmação com crisma consagrado pelo bispo.

O efeito deste sacramento, já que por ele é conferido o Espírito Santo para a fortaleza, como foi dada aos apóstolos no dia de Pentecostes, é que o cristão possa corajosamente confessar o nome de Cristo. Por isso, o confirmando é ungido sobre a fronte, sede do sentido de vergonha, para que não se envergonhe de confessar o nome de Cristo e sobretudo a sua cruz, que segundo o Apóstolo é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos [cf. 1 Cor 1, 23]; e por isso é marcado com o sinal da cruz.

O terceiro sacramento é a Eucaristia, cuja matéria é o pão de trigo e o vinho de uva, ao qual antes da consagração se deve acrescentar alguma gota de água. A água é acrescentada porque, segundo o testemunho dos santos Padres e Doutores da Igreja, exposto nas precedentes discussões, se crê que o Senhor mesmo tenha usado vinho misturado com água na instituição deste sacramento.

E também, porque isto convém ao memorial da paixão do Senhor. Pois o bem-aventurado Papa Alexandre, quinto <sucessor> depois do bem-aventurado Pedro, diz: “Nas oblações dos sacramentos apresentadas ao Senhor durante a celebração da Missa, sejam oferecidos em sacrifício apenas o pão e o vinho misturado com água. Não se deve, pois, oferecer no cálice do Senhor só o vinho ou só a água, mas ambos, justamente porque se lê que uma e outra coisa, isto é, o sangue e a água, jorraram do lado de Cristo [cf. Jo 19, 34]”.

Além disso, significa o efeito deste sacramento: a união do povo cristão a Cristo. A água, de fato, significa o povo, segundo a expressão do Apocalipse: muitas águas, muitos povos [cf. Ap 17, 15]. E o Papa Júlio, o segundo <sucessor> depois do bem-aventurado Silvestre, diz: “O cálice do Senhor deve ser oferecido, segundo as disposições dos cânones, com água e vinho misturados, porque na água se prefigura o povo e no vinho se manifesta o sangue de Cristo; quando, portanto, se mistura no cálice a água com vinho, o povo é unido a Cristo, e a multidão dos fiéis é coligada e juntada àquele em que crê”.

Se, portanto, quer a santa Igreja Romana instruída pelos beatíssimos apóstolos Pedro e Paulo, quer todas as outras Igrejas de latinos e gregos, iluminadas por esplêndidos exemplos de santidade e de doutrina, têm observado desde o início da Igreja, e ainda observam, este rito, parece incorreto que alguma outra região discorde daquilo que é universalmente observado e racionalmente fundado. Decretamos,pois, que também os armênios se conformem a todo o resto do mundo cristão e que seus sacerdotes, na oblação do cálice, acrescentem alguma gota de água ao vinho, como foi dito.

A forma deste sacramento são as palavras com as quais o Salvador o produziu. O sacerdote, de fato, produz este sacramento falando in persona Christi. E em virtude dessas palavras, a substância do pão se transforma no corpo de Cristo e a substância do vinho em sangue. Isto acontece, porém, de modo tal que o Cristo está contido inteiro sob a espécie do pão e inteiro sob a espécie do vinho e, se também estes elementos são divididos em partes, em cada parte da hóstia consagrada e de vinho consagrado está o Cristo inteiro.

O efeito que este sacramento opera na alma de quem o recebe dignamente é a união do homem ao Cristo. E como, pela graça, o homem é incorporado a Cristo e unido a seus membros, segue-se que este sacramento, naqueles que o recebem dignamente, aumenta a graça e produz na vida espiritual todos os efeitos que o alimento e a bebida materiais produzem na vida do corpo, alimentando-o, fazendo-o crescer, restaurando-o e deleitando-o. Neste sacramento, como diz o Papa Urbano [IV], recordamos a grata memória do nosso Salvador, somos afastados do mal e confortados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e graças.

O quarto sacramento é a Penitência, do qual são como que a matéria os atos do penitente, distintos em três grupos: o primeiro é a contrição do coração, que consiste na dor do pecado cometido acompanhada do propósito de não pecar para o futuro. O segundo é a confissão oral, na qual o pecador confessa integralmente ao seu sacerdote todos os pecados de que tem memória. O terceiro é a penitência pelos pecados, segundo o arbítrio dos sacerdote; à qual se satisfaz especialmente por meio da oração, do jejum e da esmola.

A forma deste sacramento são as palavras da absolvição que o sacerdote pronuncia quando diz: “Eu te absolvo”. O ministro deste sacramento é o sacerdote, que pode absolver com autoridade ordinária ou por delegação do superior. O efeito deste sacramento é a absolvição dos pecados.

O quinto sacramento é a Extrema-unção, cuja matéria é o óleo de oliveira , consagrado pelo bispo. Este sacramento não deve ser administrado senão a um enfermo para o qual se teme a morte; ele deve ser ungido nestas partes: sobre os olhos por causa da vista, sobre as orelhas por causa da audição, sobre as narinas por causa do olfato, sobre a boca por causa do gosto e da palavra, sobre as mãos por causa do tato, sobre os pés por causa dos passos, sobre os rins por causa dos prazeres que ali residem.

A forma do sacramento é esta: “Por esta unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor te perdoe tudo quanto cometeste com a vista”; expressões semelhantes se pronunciarão ao ungir as outras partes.

O ministro deste sacramento é o sacerdote. O efeito é a saúde da mente e, se aproveita à alma, também a do corpo. Deste sacramento o bem-aventurado apóstolo Tiago diz: “Há entre vós um enfermo? Que mande vir os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele ungindo-o com o óleo no nome do Senhor. E a oração feita com fé salvará o enfermo: o Senhor o aliviará e, se estiver com pecados, lhe serão perdoados” [Tg 5, 14].

O sexto é o sacramento da Ordem, cuja matéria é aquilo cuja transmissão confere a ordem. Assim o presbiterado é transmitido com a entrega do cálice com vinho e da patena com o pão; o diaconado com a entrega do livro do Evangelho; o subdiaconado com a entrega de um cálice vazio tendo em cima uma patena vazia. E, de modo análogo, para os outros <graus>, pela entrega das coisas inerentes ao ministério correspondente.

A forma do sacerdócio é a seguinte: “Recebe o poder de oferecer o sacrifício na Igreja pelos vivos e pelos mortos, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”. Para as outras ordens será usada a forma a referida por extenso no Pontifical Romano. Ministro deste sacramento é o bispo. E efeito consiste no aumento da graça para que o ordenando seja um digno ministro de Cristo.

O sétimo é o sacramento do Matrimônio, símbolo da união de Cristo e da Igreja, segundo as palavras do Apóstolos: “Este mistério é grande, digo-o em referência a Cristo e à Igreja” [Ef 5, 32]. Causa eficiente do sacramento é, segundo a regra, o mútuo consentimento expresso em palavras e presencialmente.

Atribui-se ao matrimônio um bem tríplice. O primeiro consiste em aceitar a prole e educá-la para o culto de Deus; o segundo, na fidelidade que um cônjuge deve observar em relação ao outro; o terceiro, na indissolubilidade do matrimônio, porque esta significa a união indissolúvel de Cristo e da Igreja. De fato, se bem que, por motivo de fornicação, seja permitido a separação de cama, não é permitido, porém, contrair outro matrimônio, pois o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo.

[…]

Depois de explicado tudo isso, os referidos oradores dos armênios, em seu próprio nome, <em nome> dos seus patriarcas e também de todos os armênios, aceitam, recebem e abraçam, com toda a devoção e obediência, este mui salutar decreto sinodal, com todos os seus capítulos, declarações, definições, ensinamentos, preceitos e estatutos e toda a doutrina neles contida, bem como tudo aquilo que sustenta e ensina a santa Sé Apostólica e a Igreja romana. Além disso, aceitam com veneração os Doutores e santos Padres aprovados pela Igreja romana. Qualquer pessoa ou doutrina por esta reprovada e condenada, também eles a consideram reprovada e condenada.