Para nós, católicos, que procuramos viver neste mundo sem desmerecer o nome de Cristo, que procuramos guardar um mínimo de coerência e de fidelidade, quando não um sincero desejo de santidade, chegamos neste final de 2008 2019 a mais um Natal. Para eles não.
Nós, católicos, que, ao levantar pela
manhã, dobramos os joelhos e piedosamente fazemos o Sinal da Cruz e a oração da
manhã; que durante o dia, entre conduções e cachações, tentamos rezar uma
dezena do Terço ou, quem sabe, o Terço inteiro; nós que, ao regressar ao lar,
antes de deitar, agradecemos por termos sobrevivido, por termos correspondido a
alguma graça, e mesmo amado, de amor canhestro e sem jeito, nesses dias de
Natal poderemos cantar com júbilo nosso Adeste Fidelis e nossa felicidade
será pura e verdadeira.
A deles não!
Para nós é mais um Natal, sempre novo
porque a graça é a única novidade neste mundo; para eles tudo é velho, pior!
velhaco, corrompido, ultrapassado, pois não há nada de novo sob o sol. Por que
festejam, então? Porque trocam presentes, se não buscam a santidade, se não
rezam, se não crêem nesta Criança, nesse Deus, “que hoje nasceu para
nós”? Ah!, se ao menos eles fossem coerentes com sua soberba, se soubessem
rechaçar de todo o Cristo, não tentando desejar uma Felicidade que não lhes pertence
e que, no fundo, desprezam. Permitam-me dizer: eu odeio a tal Solidariedade.
Nada mais falso do que a falsa bondade dessa gente que sai por aí dando abraços
em todos que encontram, os mesmos que na véspera desprezavam e de quem se riam.
Que paz é essa? Que mundo é esse?
Esse mundo ainda treme de um
estremecimento profundo. Seus alicerces ainda vibram enquanto telhas e janelas
racham em pedaços; esse mundo ainda teme ver desabar toda a sua estrutura.
Evacuar! é o grito que seguram na garganta e que deverá ser gritado quando a
coisa toda desabar. “E não ficará pedra sobre pedra”. O problema é
que o mundo não é um edifício. O mundo globalizado que sonhou com o governo
mundial, que pregou a religião única da Liberdade Religiosa a todo preço, criou
essa situação: evacuar para onde? O que acontece com as pessoas quando, presas
no alto de um edifício que desaba ou pega fogo, não encontram mais saída? Num
ato de desespero, de medo, de terror, lançam-se no abismo porque têm medo de
sofrer. Assim acontecerá com esses homens das finanças, com os governantes
falsos de um mundo de mentirinha. Porém, eles não têm para onde correr.
Descobriram a grande mentira. O mundo financeiro já ruiu, e os governantes
foram obrigados a mexer suas peças no tabuleiro, mudar sua estratégia e fingir
que oferecem muita segurança às empresas quebradas e aos cidadãos assustados.
Parece fácil e parece um alívio: alguns bilhões disso para você, outros bilhões
daquilo para o outro… e não esqueçam de produzir novelas para as 6, para as 7,
para as 8 horas, porque o povo tem direito a se divertir. E no meio do caminho,
tem o Natal, para aliviar todas as tensões. Ora, creio que a tsunami de 2008 é
bem pior do que a do Natal de 2004. Naquela, morreram alguns milhares e
partiram para o juizo diante de Deus. Nessa, é toda a humanidade que se atola
na mentira para esconder a sem vergonhice e a falsa moral dos grandes desse
mundo. Você acredita em Barack Obama? Você acredita no livre mercado da China,
ou na “conversão” de Cuba? Pois continuem, sigam em frente. Não há
Natal para vocês, pois o que vocês festejam é falso como o mundo em que
vivemos.
Só existe um Natal verdadeiro, mas este
está escondido aos olhos do mundo. Só existe o Natal onde a fé nos transporta,
ilumina a inteligência e nos revela um mundo maravilhoso que só podemos
conhecer em Deus. E este mundo da fé, este mundo do Paraíso, existe de verdade,
existe de modo mais verdadeiro do que o dinheiro que você usa e o crédito que
eles lhe dão a peso de ouro e que lhe dá a ilusão de que você sobrevive. O
mundo da fé é a única realidade que ainda subsiste, e é por isso que só os
católicos podem viver o Natal. A diferença entre a felicidade mundana e a
felicidade católica é que a primeira só existe por três coisas: dinheiro,
prazeres e liberdades totais. Já a verdadeira felicidade prescinde do dinheiro,
dando ao pobre a capacidade de se alegrar, apesar do pouco. Ela despreza os
prazeres sensuais da gula, do álcool ou da carne; ao contrário, ela clama os
católicos a se privarem dessas coisas para melhor se prepararem para o Natal.
E, por fim, a felicidade cristã torna ridícula a falsa liberdade desse mundo
nos fazendo dobrar os joelhos diante de uma Criança, de um Deus Menino, deitado
numa manjedoura, “porque não tinha lugar para eles na estalagem”.
É por isso que eu queria dizer para vocês, quer sejam meus paroquianos ou leitores e amigos que nos leem aqui, preparem-se neste Natal para uma festa sobrenatural, para as alegrias vividas na fé, no conhecimento das realidades misteriosas e fantásticas que Deus nos reserva lá no céu e das quais Ele vai nos falando aqui na terra, em cada festa litúrgica, em cada Natal. Abram seus missais e leiam estas missas com suas antífonas, seus textos maravilhosos que nos ensinam tanto, que nos fazem conhecer Jesus como ele é, como ele vive hoje no céu. Na sua segunda vinda Ele virá nas nuvens (eu creio, porque assim está escrito). Caberá, então, reconhecermos este Rosto adorável que um dia vimos no sorriso de uma Criança, nas nossas orações diante do Presépio.
Por Dom Lourenço Fleichman
Fonte: https://permanencia.org.br/drupal/node/706