O natal comercial, o amigo oculto, o presente…, é claro, animam nossas festas de família, mas a gente sabe que não é isso o Natal

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos…

Somos chamados nesta semana a uma última preparação do Natal porque a quarta semana de Natal não acontece este ano, já que o quarto domingo já é na véspera de Natal. Então, nesta terceira semana somos chamados a prestar um pouco mais atenção de dois modos: primeiro, pela novena de natal que começou ontem. É uma novena litúrgica que vai acompanhando os textos litúrgicos nesse tempo de Advento de Natal e Ela nos traz então uma certa união com tudo aquilo a que a Igreja nos apresenta ao longo deste mês de dezembro e sobretudo com a própria festa de Natal. Então, façam uma novena. No meio dessa novena temos também as orações, as antífonas Ó. A Igreja chama Nosso Senhor: Veni! Veni! Veni! Ela dá a Nosso Senhor diversos títulos do antigo testamento para que aqueles todos que foram figuras e aqueles nomes todos que foram usados para designar o Messias sejam agora usados para que nós chamemos o Messias a esse novo nascimento que liturgicamente nós comemoramos no Natal. Então é muito importante tudo isso, faz parte da cultura católica, faz parte da espiritualidade.

Nós precisamos desenvolver em nossos corações um conhecimento dessas coisas porque o Natal é sobretudo isso. Muito mais do que qualquer outra coisa que estejamos acostumados a ver, o Natal é Missa. O Natal são três Missas no dia de Natal. O Natal são quatro semanas de preparação. E, nessa terceira semana, além das antífonas Ó e da novena nós temos também as têmporas de dezembro. Ou seja, penitência. Não é na penitência que a gente faz o advento? Então, vamos fazer mais ainda. Vamos prestar mais atenção de fazer um jejum no meio da semana, na quarta, na sexta e no sábado, porque Nosso Senhor vai nascer para nós. Vale a pena um esforço desligar a televisão, sair desse celular que escraviza as almas e se dedicar um pouco mais a uma leitura, uma leitura espiritual, porque é muito importante. Se nós não temos isso então sobra o Natal comercial, sobra o amigo oculto, sobra o presente que, é claro, anima nossas festas de família, mas a gente sabe que não é isso o Natal.

Há uma importância muito grande para nós estarmos diante de Nosso Senhor num presépio, diante de Nosso Senhor na nossa Missa, porque Ele nasce e, ao nascer, inicia-se todo o ciclo que vai nos levar à Semana Santa, que vai nos levar no cerne do mistério de Nosso Senhor, nos salvando para que a gente possa ter o céu. Tudo isso é muito sério, muito importante.

Então, nessa semana de penitência, nessa semana de têmporas de dezembro, a Igreja nos chama São João Batista, mais uma vez São João Batista, em uma situação diferente. Agora são os fariseus que vão a João Batista, não mais os discípulos de São João Batista que vão a Nosso Senhor pra perguntar: és tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? Agora os fariseus vão a João Batista: és tu aquele que há de vir? Não, eu não sou o Cristo. Imediatamente São João responde: eu não sou o Cristo. Então quem és tu? Por que estais pregando esse batismo de penitência?  És tu um profeta que há de vir? Não sou. És tu Moisés? És tu Elias? Não sou. Eu sou a voz do que clama no deserto. Eu sou aquele que vem para preparar o Messias. Eu sou aquele que vem para endireitar os caminhos dos homens para que recebam o Messias, porque Ele não será recebido.

Então a Igreja nos faz olhar pra São João Batista para que nós possamos reconhecer Nosso Senhor. Não foi São João Batista que apontou Jesus no Jordão? Eis o Cordeiro de Deus. Eis aquele que tira os pecados do mundo. Nenhum profeta tira pecado do mundo, só Deus. E São João aponta Nosso Senhor e diz: este é o Messias, este é Deus, este vem para tirar os pecados dos homens, para nos salvar. E se Nosso Senhor Jesus Cristo é apontado por São João Batista, e ele diz aqui também no texto de hoje: eu vim para mostrar aquele que há de vir depois de mim, aquele que vem depois de mim e é antes de mim. Se Ele é antes de mim é porque é Deus. Aquele a quem eu não sou digno de desatar a correia dos seus sapatos. Ele aponta Nosso Senhor. Diversas vezes São João Batista aponta Nosso Senhor.

E o que fazemos nós com Jesus quando São João Batista nos mostra ele? Viramos as costas. Nós temos um uma comunicação muito importante pra fazer aqui no celular agora nós temos que entrar nesse Facebook pra poder socialmente estarmos vivos, quando, na verdade, quem nos dá a vida é Nosso Jesus Cristo e sem Ele não há vida nessa terra. Sem Nosso Senhor não há vida para os homens e sem Nosso Senhor não há vida para os povos. E é por isso que os povos não vão encontrar a paz porque desviaram seus olhos do rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não querem mais Nosso Senhor como sendo seu Deus. Recusam a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, que conquistou com seu sangue na cruz este direito de reinar sobre todos os povos, sobre todas as almas, sobre nossas famílias. Quando que Nosso Senhor vai realmente estar presente em nossas famílias como soberano? Como Deus adorado, louvado, com todos os fins da oração colocados aos seus pés para que nós possamos crescer espiritualmente? Quando que nós vamos olhar pra Nosso Senhor e dizer: Este é aquele que há de vir. Este é o Messias esperado. E esta espera que aquele povo fez durante séculos nós não precisamos mais fazer, porque ele já veio.

Então, nós podemos olhar para Nosso Senhor, nós podemos estar na beira do Jordão. Nós podemos estar com São João Batista recebendo esses fariseus que tinham maldade no coração, que eram orgulhosos, que não queriam saber de Nosso Senhor porque vinha atrapalhar a política deles. E São João então aponta Nosso Senhor: eu sou só o amigo do esposo. Ele é o esposo. Ele vem pra restaurar a humanidade com Deus. Ele vem para fazer esta união de matrimônio espiritual da humanidade com Deus, lavando os nossos pecados com o Seu sangue. Nós não podemos tirar do Natal a realidade de Nosso Senhor. Ele não nasce bonitinho em Belém simplesmente pra ser uma criancinha. Ele vem para morrer, Ele vem para oferecer seu sangue, Ele vem para nos salvar. E é isso que a Igreja faz quando chama Nosso Senhor nesse tempo do advento. Vem para nos salvar, vem para nos levar pro céu.

Tudo isso é um dos aspectos do advento que deve estar presente em nossas almas para que nós possamos nos lembrar que tudo acontece nessas quatro semanas em preparação à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Encarnação do verbo já aconteceu lá em 25 de março: a anunciação do Anjo Gabriel à Virgem Maria. Ele já está aqui na terra, está no seio da Virgem Maria. Passam-se nove meses e, em 25 de dezembro, Nosso Senhor nasce em Belém. Todos conhecem a história. As crianças representam a historinha de São José e Nossa Senhora chegando em Belém, não tendo lugar para eles na estalagem. E eles vão para essa estrebaria. E ali, naquela estrebaria, na companhia dos animais, ainda não chegaram nem mesmo os pastores, nasce o Salvador do mundo. Nasce a Estrela de Belém, nasce Aquele que vem para realmente iluminar nossas almas e nos transformar por dentro.

Natal é essa transformação espiritual de nossas almas em Nosso Jesus Cristo. É nos tornarmos semelhantes a Ele, é termos pela graça santificante que Ele conquista na cruz, a semelhança. Aquela semelhança lá que está no início do Gênesis, quando Deus cria Adão e Eva à Sua imagem e semelhança. A semelhança é a graça. Ser criado à imagem de Deus é ser inteligente e ter a vontade livre para amar a Deus acima de todas coisas. Mas só com a graça santificante é que nós somos semelhantes a Deus, ou seja, feitos um só com Ele, amalgamados com Ele, transformados n’Ele, divinizados n’Ele, como dizem os Padres da Igreja. Nós nos tornamos Deus com Ele, claro que espiritualmente, não fisicamente. Mas, para isso é necessária uma certa atenção. Se nós estivermos sonolentos, se nós estivermos na nossa vida profana de todo dia, nós vamos passar o Natal e vai sobrar só os brinquedos, vai sobrar só os presentes, o que é muito pouco pra nós, é muito pouco pra Igreja. A Igreja reclama de nós algo mais do que isso. Reclama o rosto de Jesus transformando nossas almas. Reclama a graça santificante nos fazendo semelhantes a Ele para que nós possamos já conhecer algo do que é o céu aqui na terra pela liturgia. Pelo ciclo da liturgia nós vamos acompanhando o que é verdadeiramente nossa adoração no céu, que virá um dia, depois da nossa morte. Estaremos lá, face a face diante de Deus, transformados para sempre n’Ele, para cantar e louvar Sua majestade para sempre. E a Igreja diz: para sempre lá, não. Para sempre aqui. Nossa obrigação de católicos é fazer essa adoração e esse louvor aqui. E é por isso que ela nos traz esses textos tão maravilhosos que servem de meditação, que servem de alívio para essa confusão de vida que nós estamos, nesse mundo estranho. Nesse mundo estranho porque recusa Nosso Senhor Jesus Cristo, recusa o Império da Igreja sobre nós. […] Mas é necessário que Ele reine, é necessário que Ele seja nosso Deus. É necessário que nossa oração se dirija a Ele todos os dias. E não é uma oraçãozinha rápida, não. É parar, rezar, e se concentrar. Porque se não nós não vamos nos transformar n’Ele, não vamos viver da graça. Vamos cumprir um obrigaçãozinha ali de rezar mas… de que adianta isso?

Estejamos então aos pés de Nosso Senhor. Peçamos a São João Batista: mostre-nos Jesus, aponte-nos o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus, aquele que veio como um cordeirinho que não reclama ser tosquiado e ser sacrificado para salvar a humanidade e que nós estejamos mergulhados nesse sangue Salvador para termos com Ele a felicidade da vida no céu. Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém.

Niterói, 17 de dezembro de 2017.

E a moedinha de Deus, onde está?

Por Dom Lourenço Fleichman

Meus caríssimos irmãos, onde nós vamos encontrar a moedinha de Deus? Onde que nós vamos encontrar aquela imagem colocada na moedinha de Deus? Já que a de Cesar nós sabemos onde está! Já que a de César nós temos que entregar a César! Mas, Nosso Senhor disse: “Dai a Deus o que é de Deus”. E a moedinha de Deus, onde está? E a medalhinha de Deus, onde está? E o anel de Deus, onde está? É essa que é a questão da nossa vida. Então São Paulo vai responder: “Ele é a imagem de Deus vivo”. Nosso Senhor Jesus Cristo é a nossa moedinha. Nosso Senhor Jesus Cristo encarnando-se, vindo para morrer por nós, foi Ele que pagou a Cesar o que é de Cesar. Foi Ele quem pagou ao demônio o que é do demônio. Foi Ele que deu a Deus aquilo que é de Deus, ou seja, nossas almas.

É, então, em Nosso Senhor, é, então, na Sua Igreja que nós vamos encontrar a moedinha de Deus, a imagem de Deus. Porém, muito diferente da imagem que nós vemos na moeda do mundo, na moeda de César. A moeda de Deus é eficaz. A moeda de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, derrama Seu sangue por nós. Ela é viva! Não é uma moedinha de latão, não é uma moedinha de prata, nem de ouro. Ela é de carne e osso e ela derramou seu sangue. Se nós encontrássemos uma moedinha com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo representando aquilo que Ele pagou a Deus por nós, ela estaria coberta de sangue, ela está coberta de sangue. E essa moeda que está coberta de sangue é a Igreja. É ali que nós encontramos esta moeda. É ali que nós encontramos esta medalhinha porque é religiosa. É ali que nós encontramos esta aliança porque é uma nova aliança feita no Seu sangue.

É assim, então, que nós temos que procurar na nossa vida como que nós vamos lidar nesse comércio santo – e não se espantem com essa palavra porque a própria liturgia usa o comércio que se estabeleceu na encarnação do Verbo, dia primeiro de janeiro, na festa da Oitava de Natal, as antífonas falam desse comércio santo que Deus realizou enviando o Seu Filho para morrer por nós. Se Ele fez um comércio conosco, Ele fez uma aliança. Nós temos um anel! Nós temos um anel que é a nossa parte, Ele tem um anel que é a parte d’Ele. Ele é o anel de Deus, Ele nos faz o laço com Deus. Mas, Ele é também uma imagem religiosa, então é uma medalhinha. Uma medalhinha que nós carregamos no peito, não com um cordãozinho de ouro, mas no coração. E essa medalha foi impregnada em nossas almas no dia do batismo. Essa medalha é um caráter sacramental. Essa medalha é a imagem de Jesus Cristo dentro de nós e é exatamente assim que a doutrina católica e São Paulo nos ensinam.

Nós somos configurados como uma planta é enxertada na outra planta, nós somos enxertados em Cristo pelo batismo. Então, a medalha religiosa de Nosso Senhor está dentro de nós. Nós somos ela. Nós nos transformamos em medalha. Nós nos fizemos medalha porque queremos morrer com Ele. Fomos mortos com Ele no batismo pelas águas do batismo, para ressuscitarmos com Ele na vida eterna. E somos também fruto desse comércio. Então somos também uma moedinha, não apenas uma aliança. Não apenas uma medalha, mas também uma moedinha. E para sermos justos temos que dar a Nosso Senhor Jesus Cristo aquilo que Ele deu por nós. Se Ele fez o comércio com o Pai, se Ele entregou-se à morte por nós, se Ele tornou-se um comércio espiritual para nossa salvação, cabe a nós darmos a nossa parte: estarmos a altura desse comércio que Ele fez por nós.

Mas, não parece tão fácil assim. Nós queremos isso tudo. Tudo isso tudo é uma linda teoria, tudo isso é uma espiritualidade elevada. Mas, quando nós nos encontramos na nossa vida do dia-a-dia, as coisas não são tão bem assim. Aquela moedinha de ouro já não é tão de ouro, já virou meio manchada. Naquela medalhinha a imagem de Jesus já não está tão nítida. E a aliança? Onde mesmo foi que eu pus a minha parte? Não sei mas onde guardei a minha aliança. Onde será que eu pus? Em que gaveta eu escondi? Porque ela já não está mais no meu dedo, já não representa mais aquilo que eu troquei com Ele, aquilo que eu firmei com Ele, aquele trato que eu fiz com Ele para ser todo dele, para estar inteiramente entregue nas mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, diz São Paulo, eu tenho por mim que aquele que iniciou a obra da santificação em nossas almas, Ele mesmo aperfeiçoará, Ele mesmo tornará perfeita, Ele mesmo terminará essa obra. É isso que São Paulo acaba de nos ensinar. Então aí nós vemos uma laço entre o evangelho e a epístola. Essa obra é Nosso Senhor que faz em nós.

Então, onde está a nossa aliança? Onde está a nossa medalhinha? Temos que recuperar! Recuperar através de quê? Dos atos da nossa vida. Temos que olhar pra nós mesmos e dizer: será que tudo que eu faço corresponde a essa imagem viva do Deus que é o rosto d’Ele em mim, marcado pelo Batismo, continuado pela Eucaristia.

Eu trago Jesus para dentro de mim na Eucaristia. Ele fez-se pão para ser comido por mim e eu ser nutrido por Ele. Será que todos os domingos quando eu venho na Missa – ou dias de semana – é assim que eu comungo? Nós podemos saber através dos atos da nossa vida. Nós podemos saber se nós verdadeiramente estamos cumprindo aquela caridade que São Paulo põe no final do seu texto dizendo assim: é nessa caridade que nós temos que viver, é neste amor mútuo que nós temos que viver, e não na intriga, e não nas obras da carne, e não nas obras do pecado, e não na falta de caridade, e não no egoísmo que nos fechamos dentro de nós mesmos como se não fôssemos nós agraciados por esse comércio divino. Se nós não tivéssemos sido salvos pelo seu sangue, mas nós fomos. Então marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter batismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo do caráter crismal, marca-se um selo dentro de nós que é o selo de caráter sacerdotal, para que cada um na sua função, cada um vivendo na Comunhão do Santos, amando-se uns aos outros na Comunhão dos Santos, nós possamos dizer com o salmo Ecce quam bonum et quam iucundum habitare fratres in unum, como é bom os irmãos estarem num convívio mútuo, como é bom os irmãos serem imagem uns dos outros, como é bom nós formarmos dentro de nossa casa, dentro de nossa capela um tesouro de moedinhas todas elas com a marca de Jesus Cristo.

Quando que nós vamos economizar? Quando que nós vamos fazer uma poupança de amor, poupança de caridade? Todos com sua moedinha dentro da Casa do Senhor, todos com sua moedinha diante do altar do Senhor, oferecendo essa moedinha como um sacrifício, como morte, como ressurreição?

É assim que nós temos que conviver com isso, conviver com essa realidade que está dentro de nós e tirar de nossas vidas tudo aquilo que mancha a medalha, que mancha o comércio, que mancha a aliança que nós temos com Nosso Senhor. E isso a gente faz todos os dias quando a intriga toma conta de uma sociedade, que seja casa, que seja a capela, às vezes no trabalho.

Pensem nos pecados da língua. Quantas e quantas vezes é pela fala que nós ofendemos, que nós intrigamos, que nós fazemos complôs, que nós dividimos. É assim que o homem vive. E muitas vezes o homem vive assim dividindo e nos seus complozinhos achando que estão agradando a Deus, esquecendo-se que isso está escurecendo a beleza, o brilho daquele ouro da moedinha de Jesus Cristo. Então nós temos que olhar para as nossas vidas e dizer: será que eu lustro ela todos os dias pelos meus atos? Será que eu correspondo ao sangue que Ele derramou por nós? Na prática. Não é teoria espiritual, é a prática do dia-a-dia. Porque aquele que me ama cumpre os meus mandamentos na prática, no concreto, no irmão que está ali do meu lado.

Tenhamos, então, cuidado! Andemos com circunspecção como diz São Paulo – se não me engano domingo passado ou retrasado – prestemos atenção onde estamos indo nessa trilha que Jesus traçou para nós, para nos levar até a vida eterna, porque é muito bonito tudo que a Igreja nos ensina, é muito bonito todos os textos espirituais que a gente lê, mas, se nós não praticarmos isso com exigências, se nós não formos fortes para vencer os nossos vícios, para abandonar a impureza do mundo, para abandonar a grossura da língua… É assim que a gente vive, porque da boca do homem sai muita maldade.

Então, tenhamos cuidado ao falar. Tenhamos cuidado ao lidar uns com os outros. Tenhamos cuidado com as palavras que usamos e com o espírito com que usamos essas palavras, para que reine dentro de nós o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo marcado no sangue redentor, marcado na cruz que Ele carregou por nós, para que nós possamos alcançar a vida eterna.

SERMÃO DE 05/11/2017 – Niterói – RJ

Sermão de 29/10/2017 – Festa de Cristo Rei

por DOM LOURENÇO FLEICHMAN

Meus caríssimos irmãos, antes de nós darmos a nosso Senhor Jesus Cristo a atitude de submissão que um súdito deve ao seu Rei do Céu, nós deveríamos pensar um pouquinho no modo como os homens ao longo da história deram essa submissão aos reis da terra. Quase que é conatural aos homens terem reis. Todos os povos sempre tiveram reis desde a mais longínqua antiguidade. Desde que as cidades começaram a se organizar que os homens foram se espalhando sobre a terra, imediatamente apareceram aqueles que chefiavam aqueles povos, aquelas tribos, aquelas cidades. Apenas um povo, muitos séculos depois, não tinha rei. E esse povo era o povo hebreu.

Os homens inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer ao rei da terra e os hebreus inclinavam-se com toda naturalidade a obedecer aquele que os tinha escolhido, que os tinha tirado do Egito, que tinha dado para eles a terra prometida aonde nasceria o Messias. O povo hebreu esperava isso e sabia que era através daquela realeza de Deus, daquele governo divino, daquele povo escolhido, que eles tinham a revelação. Eles sabiam que era assim. Não é porque eles fossem melhores do que os outros. Eles sabiam muito bem quais eram os seus pecados, mas eles sabiam que por um motivo que eles não entendiam, Deus tinha escolhido a eles para que ali nascesse o salvador.

Todos os povos tinham seus reis e esses reinados foram crescendo, foram tornando opulentos, ricos, poderosos. O próprio povo de Israel sofreu desse poder de reis que cercavam a nação dos hebreus. Foram para a Babilônia. Nabucodonosor os escravizou. Os assírios em outra ocasião também levaram uma parte do povo na galileia para o cativeiro. E assim a história de Israel era toda ela marcada por uma relação difícil com outros povos. Às vezes também de colaboração, como foi o caso por exemplo de Abraão quando foi atacado por cinco reis ele fez união com outros reis e perseguiram aqueles reis e venceram.

Quando o povo de Israel dirigi-se a Deus para dizer: “Nós também queremos reis. Veja senhor os outros povos. Veja a beleza dos seu palácios, veja a riqueza desses reinos e nós não somos nada, somos apenas um povo”, Deus diz a eles: “Vocês não precisam de rei porque Eu sou o vosso rei e o poder que eu exerço sobre vós é o mesmo poder que eu exerço sobre todos os outros povos. E se eles tem reis é porque eu coloquei-os lá. Mas o povo insistiu e Deus disse: “Muito bem! Vocês querem reis da terra, então tereis reis da terra”. E foi através desses reis que veio a corrupção dentro de Israel.

Vocês conhecem a história de Salomão.  Davi, apesar de ser o grande amigo de Deus, um grande santo, que caiu naquele pecado horrível e foi castigado por isso. Mas depois Salomão tornou o reino de Israel o mais poderoso de toda a história. Mas, caiu ele também em um pecado muito pior do que de seu pai, caiu na idolatria. Davi jamais tinha caído na idolatria, caiu no pecado da carne. E Deus castiga Salomão rompendo o laço que ele tinha de realeza com o povo de Israel. Apenas mantém sob o poder de Salomão a tribo de Judá por causa de Davi, e ele diz a Salomão: “Eu só não te extermino completamente por causa do teu pai”. Então mantém essa cisão, esse cisma dentro de Israel (entre o reino de Israel e o reino de Judá) que vai durar até a época de Nosso Senhor Jesus Cristo, até a destruição do templo.

Ora, ao longo de toda essa história, todo o antigo testamento, os homens tinham uma inclinação, uma facilidade de obedecer. Uma inclinação de reconhecer que deveria haver homens mais poderosos do que o simples lavrador para ordenar a vida do povo para ordenar a vida daquela nação, e obedeciam com uma certa facilidade. Nosso Senhor Jesus Cristo morre na cruz. Nosso senhor Jesus Cristo conquista a realeza, como homem, para toda a humanidade, para todo o tempo. Muito bem, esse é o objeto da festa de Cristo Rei. Mas, se me permitem, pulemos um pouco a cruz pulemos um pouco a coroa que Jesus carrega ensanguentada na sua cabeça e que lhe dá essa prerrogativa de governar todos os povos, e olhemos um pouquinho para o início do Cristianismo, logo depois da ressurreição da ascensão. Quando os apóstolos começam a espalhar o evangelho por todas as nações são martirizados, como ontem nós vimos São Simão e São Judas. Mas, a lei de Deus começa a se espalhar e aqueles reis, antigos reis pagãos, começam a oferecer suas coroas para o Rei dos Reis, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Começam a reconhecer a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os próprios reis, tornando-se católicos, depositam o seu poder nos pés de Nosso Senhor. E, junto com eles, as nações. Junto com eles, os povos. Vocês conhecem a história de Clóvis que foi o primeiro dos reis bárbaros a se converter ao Cristianismo e com ele o povo dos francos que dá origem à França. Vocês conhecem a história de Vladimir. Os eslavos que em Kiev, onde hoje é a Ucrânia, também se faz batizar no rio e com ele todo o seu povo. E assim, muitos daqueles reis quando se convertiam levavam o povo todo a se converter ao Cristianismo. E foram então tornando-se lugares tementes do Rei dos Céus, como dizia Santa Joana d’Arc.

Obedeciam em primeiro lugar aquele Rei, que era o Rei dos Reis e governavam seus povos em nome d’Ele. Governavam seus povos por causa do Evangelho, favorecendo o  evangelho. Isso é a Idade Média. Mas, compreendam o espírito do medieval – diferente de tudo que esses livros de história ensinam – o espírito do medieval era um espírito de docilidade. Aqueles homens tinham uma facilidade muito grande de oferecer a sua obediência aos governantes, aos reis, àqueles que carregavam uma coroa. Agora, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, é sacramentalizada a coroa. Não que se torne um sacramento, mas era o bispo que impunha a coroa aos reis e ungia a cabeça dos reis, como Saul e Davi e os reis de Israel tinham sua cabeça ungida pelos profetas. Então há um lado religioso e o povo continuava tendo a mesma índole de obediência natural, boa, inocente. Havia, é claro, os momentos de revolução, de revolta, e matavam o rei aqui e matavam outro ali. Isso acontecia, é verdade, por causa do pecado original. Mas não era uma organização, não era institucionalizada a revolta e a revolução como vai ser a partir da Renascença, em que os homens vão recusar o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, a Idade Média quebra-se com esse espírito de autonomia dos homens, quebra-se com o espírito de que os homens são eles próprios os governantes das suas cabeças e que eles não devem ter reis, mas escolher ali um governante, um administrador. E surge então o liberalismo, o individualismo com todas as doutrinas do humanismo que começam com a quebra da Idade Média. A relação dos homens para com os seus reis começa a mudar e vai terminar com a guilhotina, vai terminar com a morte dos reis e o desaparecimento dos reinados católicos. Eram reinos católicos. Brigavam entre si, disputavam por motivos bobos e bestas, muitas vezes por motivos de heranças, é verdade, por causa do pecado original, não por causa da realeza em si. Não era o fato de ter reis que fazia o erro daquele regime, mas apenas a inclinação perversa que nós carregamos no coração. Mas o que acontece é que os séculos vão passando e os homens vão se pervertendo. No momento em que perde-se aquela linha ascendente civilizacional em que os reis vão se santificando e procurando santificar o seu povo, vão se convertendo e procurando converter o seu povo, no momento em que isso se rompe a linha civilizacional desce e começa uma decadência que vai afetar a relação de cada um com os seus governantes. E é nessa democracia liberal em que nós vivemos hoje graças à Revolução Francesa, graças ao sangue derramado de todos aqueles nobres que tinham motivo de ser. Tinha uma razão de ser a nobreza. Os livros de história vão dizer que eles eram os perversos, que maltratavam os servos. Eles não entendem nada. Eles falsificam e mentem. Não era assim, a relação dos homens não era essa. Tudo isso é mentira de historiadores marxistas que querem denegrir a Igreja o tempo todo.

Mas, nós somos herdeiros deles. Infelizmente, do ponto de vista civilizacional, nós somos herdeiros da revolução. E nós somos imbuídos de um espírito revolucionário dentro de nós. Já está muito longe o tempo em que os homens dobravam-se à obediência ao seu rei com uma naturalidade, um amor, e gostavam de estar com o rei. Os reis medievais não eram aqueles reis milionários dos tempos do absolutismo, dos tempos da Renascença. Isso vem depois que eles quebram a Idade Média, depois que eles perdem a fé. Na Idade Média, não. Os reis eram simples. Saiam juntos com seus súditos e a vida dos reis não era muito diferente da vida dos outros. Claro que ele tinha que governar e era necessário que ele governasse. E a sua família governava também.

É assim que nós recebemos essa herança maldita de um espírito liberal, de uma democracia liberal e de um espírito de autonomia que faz desaparecer do coração do homem uma coisa cândida, uma coisa linda que existia, que era a inocência do filho em relação ao seu pai e do súdito em relação ao seu rei. Isso desapareceu. E o que nós vivemos hoje no mundo moderno é realmente um pecado contra a piedade, um pecado contra a virtude que faz com que o homem naturalmente se incline a obediência. Se incline à obediência do seu pai e se incline à obediência de seu rei. E também se incline à obediência à Igreja, porque também faz parte da obediência. E aí nós encontramos a razão de ser da fundação dessa festa de Cristo rei pelo Papa Pio XI porque, compreendendo que os homens já não queriam mais obedecer uns aos outros, já não tinham mais a inclinação de obediência à realeza, ao rei que carregava uma coroa em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, era necessário fortalecer o coração dos homens com um espírito que devolvesse alguma coisa disso. Então vamos festejar Jesus Cristo Rei. Rei das nações, Rei político das nações. Não que Ele vá instituir uma teocracia, não que Ele vá instituir papas ou bispos para governar os povos, mas Ele vai instituir governantes para em nome d’Ele governar os povos, em nome d’Ele obedecer à Igreja, em nome d’Ele como conduzir os homens a salvação eterna que é o objetivo final, o fim último de todos os homens.

Então, quando nós pensamos que Jesus, como Deus, é Rei e Senhor, Criador e Redentor, não tem discussão nenhuma, […] ele manda e ele desmanda. Agora, Jesus Cristo como homem, a natureza humana uni-se à natureza divina numa única pessoa: é a união hipostática, o dogma da nossa fé nos ensina isso. Nós cremos em Jesus Cristo, um só seu filho Nosso Senhor que encarnou-se no seio da Virgem Maria. Morreu na cruz para nos salvar. E volta pro céu. A natureza humana de Jesus é a natureza humana de Jesus, mas ela está unida em uma mesma pessoa, ou seja, hipostaticamante, à natureza divina, de modo que os atos de Cristo eram atos de Deus e os atos humanos de Cristo também eram realizados pelo próprio Deus. E por isso Ele é infinito. E por isso Ele é todo poderoso. E por isso ele conquista com seu sangue o poder sobre todos os povos e todas as nações, obrigando-as a obedecerem o evangelho, obrigando-as a serem católicas, obrigando-as a acatar uma consagração ao seu sagrado coração que Ele conquistou por amor de nós, derramando Seu sangue para nossa salvação.

Mas, voltemos ao espírito moderno. E eu pergunto: ainda é possível para nós, homens da democracia liberal, pessoas vivendo em um mundo em que os filhos já não obedecem mais seus pais, em que os homens já não obedecem mais a Igreja, em que os alunos não obedecem mais seus mestres, é possível para nós compreendermos o teológico e humano da festa de Cristo Rei? Eu não sei. Sinceramente eu não sei se estamos em condições de compreender isso, porque talvez se nós tivéssemos realmente a condição de compreender o que é dobrar nosso joelho diante de Nosso Senhor enquanto homem, porque Ele é Rei, então os homens estariam vivendo de um modo um pouco diferente do que vivem. Nós estaríamos vivendo de um modo diferente do que vivemos por causa dessa autonomia de que eu falo tanto, por causa desse espírito de orgulho que cega o coração do homem, que cega o nosso coração.

Nós também somos contaminados por esse espírito porque vivemos no século, porque somos desse tempo e não temos como escapar disso. Os homens vão produzindo autonomias uma atrás da outra. Vamos sendo obrigados a acompanhar a vida porque temos que estar em uma escola, porque temos que estar em um trabalho, porque temos que governar uma cidade, qualquer que seja o homem. Então, nós católicos também estamos contaminados e precisamos prestar atenção e usar a festa de Cristo Rei para dizer como que eu posso restaurar meu coração. A humildade, a castidade, a modéstia, todas as virtudes que me movem a dobrar a minha cabeça diante de Deus, a dobrar a minha cabeça diante de Jesus Cristo Rei. A dobrar a minha cabeça diante de meu pai. Não responder a ele, saber respeitar. A dobrar a minha cabeça diante dos meus mestres que aprenderam antes de mim e que, mesmo ganhando seu salário, se dedicam às crianças, se dedicam a ensinar. E só isso já seria suficiente para nós termos um respeito imenso por eles mas não se tem mais. Como que eu vou voltar a dobrar a minha cabeça à Igreja, ao dogma católico, aos padres que nos orientam? E tudo isso está contaminado nas nossas vidas, não é só lá fora não. Nós perdemos contato com essa piedade, nós perdemos contato com Cristo Rei.

Então seria necessário restaurar um pouco isso. Seria necessário pensar um pouquinho nessas virtudes que nos devolvem a inocência, a candura. Nos devolve essa simplicidade de olhar que faz com que a nossa obediência seja fácil como eram os medievais, como eram os hebreus, como eram os povos antigos mesmo com seus reis pagãos. E Deus usava eles todos. Mesmo os pagãos eram usados por Deus. Foi Ciro, um rei pagão da Pérsia, que foi lá vencer a Babilônia e devolver pro povo de Israel a Palestina. Não foi nenhum enviado de Deus, foi um rei pagão. Ele usa os reis pagãos também porque ele é o Senhor dos Senhores. Ele é que determina nosso destino, ele é que explica por qual caminho temos que seguir. Mas nós nos cegamos diante disso. Nós hoje somos homens cegos, somos homens que estamos há 600 anos seguindo um caminho de autonomia, seguindo um caminho de liberdade, seguindo um caminho de afastamento da ordem que Deus estabeleceu no coração dos homens para que as coisas andassem segundo uma determinada vontade divina.

Peçamos então a Nosso Senhor Jesus Cristo que devolva isso. Para que Ele possa devolver isso a nós, temos que abrir nosso coração na docilidade, temos que compreender nossos pecados, temos que compreender a rudeza do nosso orgulho. Mas se nós fizermos assim, então, Ele toca o nosso coração e nós vamos saber dar a Ele essa obediência, dar a Ele essa submissão, dar a Ele esse amor que significa entregar-se em todos os níveis da ordem das coisas, em todos os níveis da hierarquia das coisas, entregar amorosamente à obediência.

Capela Nossa Senhora da Assunção, Fortaleza-CE.