A pena perpétua do inferno não contradiz a justiça divina

Não contradiz a justiça divina sofrer alguém a pena perpétua, porque nem as leis humanas exigem que as penas sejam medidas pelo tempo para serem adequadas à culpa. Ora, para os pecados de adultério, de homicídio, cometidos que são em breve tempo, a lei humana impõe, às vezes, o exílio perpétuo, ou até mesmo a morte, pela qual para sempre o criminoso é afastado da sociedade. Se o exílio não é perpétuo, isso é por acidente, porque a vida humana não é perpétua, mas parece que a intenção do juiz é punir o criminoso perpetuamente. Por isso, também não é injusto se, para um pecado feito momentaneamente no tempo, Deus impuser uma pena eterna.

Deve-se também considerar que ao pecador é inflingida pena eterna, mas somente àquele que não se arrepende do pecado, e, assim, nele, o pecado perdura até a morte. E porque na sua intenção peca para sempre, é razoável que Deus o puna eternamente.

Além disso, cada pecado cometido contra Deus tem um certo grau infinito, se considerarmos que ele é cometido contra Deus. É certo que quanto mais importante é a pessoa contra quem se peca, tanto mais grave é o pecado: considera-se de maior gravidade dar uma tapa num militar, que num camponês; e, de muito maior gravidade, se for dada num príncipe ou no rei. Ora, sendo Deus de grandeza infinita, a ofensa contra Ele cometida, é, de certo modo, infinita. Logo, a pena devida a essa ofensa deve ser também, de certo modo, infinita.

Essa pena, porém, não pode ser infinita de modo intensivo, porque nada de criado é infinito em intensidade. Resta, por conseguinte, que ao pecado mortal é devida uma pena de duração infinita.

Ademais, ao que pode ser corrigido, a pena temporal lhe é imposta para a correção ou purificação. Se, portanto, alguém não mais pode ser corrigido do pecado, porque a sua vontade está obstinadamente firme no pecado, como acontece com os condenados acima descritos, a sua pena não pode também ter fim.


Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino, Capítulo CLXXXIII

Desanimar é desconfiar de Deus

Desanimar é desconfiar de Deus, de sua palavra, das suas promessas, da sua bondade, da sua misericórdia, da sua própria justiça, e, sobretudo da sua paternal providência. É bem, pois, como uma falta de fé. Como somos injustos!

O cristão que quer lutar não deve cessar de notar e de recordar que tem diante de si três inimigos: o mundo, o demônio e a carne. O mundo, cuja atmosfera é malsã, nauseabunda, e que deslustra com a sua poeira os corações, mesmo mais religiosos. O demônio que, mesmo decaído, ficou sendo anjo; donde resulta que, se Deus o deixasse fazer, ele seria capaz de pulverizar o universo. Enfim, a carne, isto é, os sentidos que o pecado original ofendeu, o ser todo em que as paixões às vezes refervem com a lava de um vulcão.

Como quereis que a vossa pobre vontadezinha, franzina e raquítica qual flor de inverno, resista, sem nunca desfalecer, a inimigos tão poderosos? Ela pode ser vitoriosa, mas com a condição de se apoiar com humilde confiança em Deus, que é só quem a pode sustentar e lhe assegurar forças: isso deve bastar para afastar do vosso coração toda dúvida capaz de deprimi-lo.

O desânimo é o amor-próprio desiludido, de uma alma que contava consigo mesma e que se aflige com a sua fraqueza, que enrubesce vendo-se vil e desprezível. Toda alma desanimada tem medo. Medo do esforço, medo do sacrifício, medo da opinião dos homens. Se tivéssemos a coragem ferrada no coração, se não temêssemos incomodar-nos, privar-nos, sacudir-nos, vencer-nos, sofrer, agir e ir ao escopo apesar de todos os obstáculos, conservaríamos intactas a força e a firmeza cristãs.

Vede como tudo se encadeia: começa-se pelo tédio e pelo aborrecimento, que roem a alma. Quando alguém tem esse tédio das coisas de Deus, naturalmente volta-se para os prazeres… Quando se começa a morder os prazeres proibidos, quer-se sempre mais. Um primeiro ato acarreta outro…

E logo o hábito, a necessidade intensa, quase necessária, e que se exaspera cada vez mais. Nestas condições, não se pensa mais em Deus nem na própria alma. Foge-se de si mesmo, tem-se medo de entrar na própria consciência, pois se teme encontrar ai o olhar inexorável a quem Caim fugia por toda parte e que o perseguia até no túmulo. Sucedendo-se as quedas, a graça desprezada, contrariada, expulsa, não torna mais, Deus se cala…e a pessoa finalmente cai na impenitência final.

Em resumo, pois, o desânimo é a desconfiança de Deus. A dúvida das suas bondades, uma espécie de negação da divindade. Por ele, desfigura-se o Criador emprestando- Lhe, a nosso respeito, sentimentos indiferentes, baixos, indignos de um Pai. O desânimo é o princípio do desespero, essa última e mais terrível expressão do orgulho! É o pecado de Judas, o pecado de Caim. Precisareis, pois de coragem para lutar contra o desânimo se ele se apresenta; porque, convém confessar, os casos desta terrível e dolorosa doença não são raros.

Lutai! Caíres, talvez; mas na vida espiritual, enquanto se quer lutar nunca se é vencido.

(Padre Baeteman – A Formação da Donzela )

O que temos nós a ver com o feitor iníquo da parábola?

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

A parábola do administrador infiel – Lucas 16, 1-8

“E o senhor louvou o feitor iníquo por ter procedido prudentemente, porque os fílhos deste século são mais hábeis na sua geração que os filhos da luz.”

Caríssimos irmãos,

Nós nos perguntamos muitas vezes o que temos nós a ver com esse feitor iníquo (do evangelho) para que seja dado um elogio como esse. Por que razão Nosso Senhor diz que devemos espelhar nossa prudência e a nossa religiosidade, nessa prudência mundana, profana, desse feitor iníquo? Na verdade, nós deveríamos nos perguntar é como nós devemos fazer para que a nossa prudência sobrenatural, a nossa sabedoria espiritual nos leve a ter para as coisas de Deus e para as coisas da nossa vida o mesmo zelo, a mesma preocupação, a mesma intensidade de amor que os profanos têm nas suas coisas, nos seus afazeres. Como que nós podemos lidar com a nossa vida sobrenatural, com essa mesma igualdade de intensidade, de preocupação, de estar o tempo todo focado naquilo que interessa a eles. E a chave dessa questão para nós, está nessa epístola de São Paulo aos romanos, quando ele diz: “É pelo Espírito que vós vivereis, não pelas coisas da carne”. Então nós temos que aprender a lidar com as coisas da nossa vida profana, da carne, com os critérios espirituais de qualquer batizado. Nós fomos elevados a uma outra vida: a vida de Cristo. Nós fomos configurados com Cristo e enxertados na vida Dele e na alma D’Ele. Somos feitos uma mesma planta, diz São Paulo. Somos uma mesma planta com Ele. Não é possível que o batismo não traga para nós consequências nos nossos atos, em todos os atos. Não apenas quando nós rezamos, mas também quando nós saímos para o trabalho, quando nós vamos ganhar dinheiro. É necessário ganhar dinheiro na vida moderna, e ai daquele que negligenciar essa obrigação! É necessário nós cuidarmos da escola e estudarmos. As crianças precisam estudar. Obrigação das crianças. Com que espírito vão elas então, cuidar dessas coisas? Nós somos católicos quando rezamos e profanos quando cuidamos das coisas do mundo? Não é assim. 

Nós fomos transformados em “in ictu oculi” (em um piscar de olhos), “fez assim” e nossa alma já não é mais a mesma, somos outra pessoa. E é necessário que essa outra pessoa tenha atitudes, atos próprios de uma alma consagrada, de uma alma que foi assumida pela própria Alma Divina. Deus nos assumiu como seus filhos, coerdeiros de Cristo somos nós. Por causa do espírito. É pelo espírito que nós viveremos. Como que nós podemos realizar as obras do espírito, como que nós devemos realizar as obras que realmente interessam para nós, para nos levar para o Paraíso? É aí que está toda a questão: com o mesmo amor que os profanos agem nas suas obras. É isso que Nosso Senhor está dizendo para nós. Então, como fazer com que as coisas aconteçam do modo correto?

Em primeiro lugar, nós temos uma relação para com Deus. Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. Será o único no Céu. Aqui na terra não é o único, mas é o principal. E deve ser o principal. Nós devemos estar com esta ideia presente em tudo aquilo que nós fazemos. O primeiro critério nosso para ganhar dinheiro é Deus. O primeiro critério nosso para construir uma casa é Deus. O primeiro critério nosso para passar de ano na escola é Deus. É sempre Ele que tem a primazia, é sempre Ele que tem a finalidade última da nossa vida. É Ele. Nós não podemos deixá-lo de lado hora nenhuma, em nada que nós fazemos. E não é fácil isso, porque nós nos envolvemos com as coisas do mundo, nós nos envolvemos com as nossas necessidades. São lícitas, são boas, precisamos disso, mas esquecemos de Deus. E vamos usando critérios, e alguém apita no nosso ouvido: “Olha, faz assim”, ” vá por ali”,  “dê um jeitinho”, e nós esquecemos que Deus olha tudo aquilo que nós fazemos e que nós temos uma obrigação de finalizar tudo em Deus, na perfeição divina que está dentro de nós pela graça.

 Então Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. E depois nós temos um segundo, que somos nós mesmos, nós precisamos trabalhar para a vida eterna. Tudo que nós fazemos nessa vida deve ter como finalidade a vida eterna. Então temos que nos dedicar às coisas de Deus e temos que nos dedicar às coisas profanas, do mundo, com a intenção de irmos para o Céu. Eu não posso fazer nada que desvie a minha alma da vida eterna, que desvie a minha alma da salvação. Qualquer coisa que seja proposta pelo mundo moderno ou pelo melhor amigo que seja, que vá me provocar um pecado, nós temos que recusar. E nós temos que recusar todos os instrumentos do pecado que pululam hoje no mundo, e que são muitos, e que são realmente instrumentos de pecado, e que estão aí, nessas coisas todas que o mundo inventou e que vai desviando nossa capacidade de trabalhar em tudo por causa do amor de Deus. 

 Em terceiro lugar, nós temos que olhar em volta de nós e olharmos para o nosso próximo. O amor de Deus em primeiro lugar, o amor de si mesmo como modelo do amor do próximo. E quando nós nos dedicamos ao próximo, nós devemos fazer isso sempre com um critério católico, sempre com um critério espiritual, sempre com o olhar do Céu. Do mesmo modo que eu quero o Céu para mim eu tenho que querer o Céu para aquele que está do meu lado, pode ser o pai, a mãe, os filhos, pode ser um amigo, pode ser um companheiro de trabalho, pode ser um mendigo na rua. Nós temos que nos preocupar com a salvação das almas. “O que será dessa pobre coitada mulher que carrega seu filho pobre, que não tem dinheiro, que é miserável, que está deitada numa calçada? O que acontecerá com seu filho? Entrará no Paraíso? Quando eu estiver no Paraíso, eu vou encontrá-lo lá?”. Pelo menos um olhar de misericórdia, pelo menos uma Ave Maria nós devemos rezar, nós temos essa obrigação. Muitas vezes não temos mais condição de dar uma esmola no sinal. Um moleque pede esmola, e vai cheirar cola com aquele dinheirinho que a gente dá para ele. Não, não somos obrigados a fomentar o inferno dele. Mas temos que nos preocupar. Temos que rezar pelo menos uma Ave Maria, temos que ser espirituais e termos critérios espirituais. 

Que os homens cuidem das coisas materiais, mas nós cuidamos das coisas espirituais para aqueles que nós não podemos cuidar completamente. Daqueles que nós temos condições de cuidar completamente, desses nós temos que cuidar do espírito e da carne, do espírito e do corpo. 

 Santo Ambrósio, numa leitura de matinas dessa noite, mostra como que nós podemos nos enganar nesse modo de encarar as coisas de Deus e as coisas dos homens. E ele diz “os judeus muitas vezes são zelosos” naquela época não havia protestante, nós poderíamos dizer o mesmo com os protestantes, “são zelosos, são piedosos, querem agradar a Deus”, mas se perdem. Por que eles se perdem? Porque não conhecem a Deus pela verdadeira ciência, diz Santo Ambrósio, não amam a Deus pela verdadeira sabedoria, pela verdadeira caridade. Isso falando dos judeus. Então quando eles se circuncisam, não agradam a Deus. E por que não agradam a Deus? Porque veio Jesus Cristo e elevou o judaísmo a outro nível, ao nível do batismo sacramental, que nos torna iguais, semelhantes a Deus. Não é mais um sinal de pertencer a uma raça, pertencer a um povo. A circuncisão caducou, não serve mais. Então quando eles fazem, podem está fazendo com um sentimento bom, mas não serve para a  vida eterna deles, não leva para o Céu, já não faz parte da vida religiosa, já não faz parte da religião revelada. A mesma coisa nós podemos dizer de tudo aquilo que acontece no mundo moderno. E hoje em dia, são as seitas que estão em volta de nós, com seus altos falantes, gritando do nosso ouvido, e muitas vezes são pessoas boas, são pessoas piedosas. E muitas vezes nós ouvimos “Ah, mas eles são piedosos”, são piedosos no mundo, são piedosos sem eficácia, porque a religião deles não é a religião revelada, não é a religião de Jesus Cristo. Qual a eficácia que pode ter a oração? Nenhuma. No máximo pode fazer deles pessoas boazinhas. Mas isso não leva para o Céu. 

 Então, qual nossa atitude para com eles? 

Uma preocupação verdadeira. “O que acontecerá com aquele pobre pastor que está enganado, que é honesto na sua preocupação com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que está enganado, porque ensinaram errado para ele, o caminho dele é o caminho do inferno?”  

 Então nós temos que rezar por eles, temos que converter o mundo todo, nós temos que carregar esse mundo todo nas costas: na oração, no sacrifício, na penitência. Rezar por todos esses que se desviaram do reto caminho, para que eles voltem para o caminho da salvação, para que eles voltem para a luz de Jesus Cristo, o verdadeiro Cristo. Então tudo isso são atitudes que nós temos que ponderar. Com que espírito nós rezamos? Com que espírito nós trabalhamos? Com que espírito nós encontramos as pessoas lá fora? E eles? Com que espírito eles fazem essas coisas? Qual o papel que nós temos para trazer de volta essas almas ao caminho da salvação? 

 Então, quando nós ouvimos Nosso Senhor falar, deste feitor iníquo, que por causa da perda do emprego, vai dar um desconto a todos os seus devedores do seu senhor, e com isso vai sair dali para talvez encontrar outro emprego, Nosso Senhor diz: está vendo? Ele teve cuidado para se preparar para o momento em que ele perdeu o emprego. E nós temos cuidado para não perdermos o Céu? Nós temos cuidado para não perdermos o Paraíso? É isso que Nosso Senhor está tentando nos dizer. E muita das vezes nós somos surdos, não ouvimos as suas palavras, não entendemos o que realmente Ele quer dizer, e vamos agindo no mundo com aquele critério profano, imitando todos os colegas do trabalho, todas as pessoas da rua, todos os jornais que inventam moda todo dia e nós vamos mergulhando nessa moda, e vamos mergulhando nos seus filmes e nós vamos mergulhando nas suas séries, e vamos contaminado nosso espírito e perdemos contato com essa espiritualidade.  

 Existe um livro do Père Emmanuel – esse que tem alguns livros já editados pela Permanência – tem um livrinho que eu ainda não editei, mas gostaria de editar, que se chama “O católico do mundo e o católico do evangelho”, católico que vive com os critérios do mundo e católico que vive com os critérios do evangelho. Como que nós vamos viver? Qual vai ser o efeito da nossa oração? Como nós vamos viver para que realmente nosso catolicismo não seja apenas de palavras soltas no ar, mas que seja eficazes no amor de Deus, produzam em nosso coração o amor de Deus, e façam com que esse amor seja realmente uma transformação das nossas almas? Se nós não tivermos nossa vida focada, centrada com critérios sobrenaturais de vida de oração e também de vida lá fora, no mundo, então nós nos perderemos. É fácil o mundo nos engolir, com todas as nossas orações, e elas passarão a ser vazias, como a circuncisão dos judeus é vazia, como Santo Ambrósio nos ensina.

 Então peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo que sopre em nós o verdadeiro espírito pelo qual nós trabalhamos em tudo na vida, de modo a não perder o caminho da salvação.

Sátira sacrílega no Netflix

Para os que não sabem, o Netflix promove neste Natal uma sátira sacrílega do grupo Porta dos Fundos, provando, mais uma vez, desconhecer os limites entre a comédia e a regra moral que deve nortear todos os nossos atos.

Brincar com a religião dos outros é fácil. Difícil é brincar com a própria religião. No caso do Porta dos Fundos, engraçado seria vê-los fazer humor com a “sagrada família” deles, os Lula da Silva. O noticiário recente sobre a famiglia tem oferecido material suficiente para uma paródia da série Os Sopranos, por exemplo. Fica a sugestão.

O argumento da “liberdade de expressão” não cola. Ninguém imaginaria fazer piada com o Holocausto ou com a escravidão africana nas Américas, satirizando o extermínio dos judeus ou a vida nas senzalas ou nos navios negreiros. Há coisas que são, e devem ser, graves demais para virar comédia.

Se o grupo de bobalhões ficasse confinado em seu canal no YouTube, não haveria muito a fazer, fora as vias judiciais. O YouTube é uma plataforma aberta e gratuita que exibe todo tipo de conteúdo, de palestras sofisticadas a tutoriais de manutenção de geladeiras velhas. Não há seleção prévia, a não ser algumas regras genéricas de conteúdo, que são particularmente austeras quanto à sensibilidade de certos grupos.

Mas à parte a denúncia a posteriori de conteúdos considerados ofensivos – e que serão depois avaliados por examinadores da plataforma que decidirão se o conteúdo sairá ou não do ar – não há muito o que se fazer. Mesmo os anunciantes que aparecem em intervalos regulares durante a transmissão dos vídeos seguem uma ordem aleatória, e se fosse o caso de tentar boicotá-los, seria preciso assistir o conteúdo diversas vezes. A emenda seria pior do que o soneto. A solução, portanto, é ignorá-los.

O caso do Netflix é diferente. Lá os conteúdos são selecionados. Ao optar por exibir um determinado conteúdo, a plataforma confere sua chancela à obra e, direta ou indiretamente, a financia.

Portanto, não há escusa: ao escolher exibir a paródia do Porta dos Fundos, o Netflix ofende seus assinantes católicos, bem como qualquer um com um mínimo de refinamento ético ou estético.

Só resta aos católicos o cancelamento de sua assinatura do Netflix.

Não será nenhum sacrifício: há outras opções no mercado até mais em conta. E, apesar de ser improvável, diante dos graves exemplos de material imoral promovidos anteriormente, havendo uma retratação da empresa, um retorno poderia ser considerado.

Mas, por ora, não cancelar seria um ato de pusilanimidade inaceitável.

O cancelamento da conta do Netflix é um ato pedagógico e, quem sabe até, misericordioso. Mas certamente será divertido. Ateus não acreditam em alma. Mas acreditam em conta bancária. A consciência nunca lhes dói, mas o bolso é seu órgão mais sensível.

Quanto a nós, que sabemos o quanto somos espirituais e devedores da graça da Redenção, pela Cruz de Nosso senhor Jesus Cristo, tenhamos nossas consciências católicas em paz pela defesa da honra de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santa Igreja.

Reprodução do texto “Cancele seu Netflix” da redação do Boletim Permanência

Luta contra os pecados capitais – O orgulho

[Por Adolph Tanquerey]

Esta luta, em substância, não é senão uma espécie de mortificação.

Para completar a purificação da alma e impedir que venha a recair no pecado, é indispensável combater a origem do mal em nós, que é a tríplice concupiscência. Como ela é a raiz dos sete pecados capitais, importa conhecer e combater essas más tendências. De fato, são antes tendências que pecados; chamam-se contudo pecados, porque nos levam ao pecado, e capitais, porque são fonte ou cabeça dum sem-número de pecados.

Eis como essas tendências se prendem com a tríplice concupiscência: da soberba nascem o orgulho, a inveja e a cólera; a concupiscência da carne produz a gula, a luxúria e a preguiça; enfim, a concupiscência dos olhos identifica-se com a avareza ou amor desordenado das riquezas.

A luta contra os sete pecados capitais ocupou sempre um lugar importante na espiritualidade cristã. Cassiano trata dele longamente nas suas Colações e Instituições; distingue oito em lugar de sete, porque separa o orgulho e a vanglória. São Gregório Magno distingue claramente os sete pecados capitais que faz derivar todos do orgulho. Santo Tomás põe-nos também em conexão com o orgulho e mostra como se podem classificar filosoficamente, tendo em conta os fins especiais a que o homem aspira.

A vontade pode tender para um objeto por um duplo movimento: a conquista de um bem aparente ou a fuga de um mal aparente. Ora o bem aparente, procurando pela vontade, pode ser:

1. o louvor ou a honra, bens espirituais, desordenadamente procurados: é o fim especial do vaidoso;

2. os bens corporais, que têm por fim a conservação do indivíduo ou da espécie, agenciados de modo excessivo; são os fins respectivos do guloso e do luxurioso;

3. os bens exteriores; desordenadamente amados, são o fim do avarento.

O mal aparente, que se deseja evitar, pode ser:

1. o esforço necessário para a aquisição do bem, esforço de que foge o preguiçoso;

2. A diminuição da excelência pessoal, que temem e fogem o invejoso e o colérico, ainda que de modo diverso.

Assim se tira a distinção dos sete pecados capitais dos sete fins especiais que norteiam a atividade do pecador. Na prática seguiremos, por ser a mais simples, a divisão que põe em conexão os vícios capitais com a tríplice concupiscência.

O orgulho e os vícios anexos

O orgulho em si mesmo

O orgulho é um desvio daquele sentimento legítimo que nos leva a estimar o que há de bom em nós, e a procurar a estima dos outros na medida em que ela é útil às boas relações que devemos manter com eles. Não há dúvida que podemos e devemos estimar o que Deus pôs em nós de bom, reconhecendo que Ele é o primeiro princípio e o último fim de tudo: é um sentimento que honra a Deus e nos leva a respeitar-nos a nós mesmos. Pode-se, outrossim, desejar que os outros vejam esse bem, que o apreciem e deem por ele glória a Deus, do mesmo modo que devemos reconhecer e estimar as qualidades do próximo: esta mútua estima não faz senão favorecer as boas relações que existem entre os homens.

Mas pode haver desvio ou excesso nestas duas tendências. Por vezes esquece o homem que Deus é autor desses dons, e os atribui a si mesmo: o que é evidentemente desordem, porque é negar, ao menos implicitamente, que Deus é o nosso primeiro princípio. Assim mesmo, pode alguém ser tentado a operar para si próprio, ou para ganhar a estima dos outros, em lugar de trabalhar para Deus e de lhe referir toda a honra do que faz: é também desordem, porque é negar, implicitamente ao menos, que Deus é o nosso último fim. Tal é a dupla desordem que se encontra neste vício.

Pode-se, pois, definir: um amor desordenado de si mesmo que faz que o homem se estime explícita ou implicitamente, como se fosse o seu primeiro princípio ou último fim. É uma espécie de idolatria, porque o homem se considera como o seu próprio Deus, segundo faz notar Bossuet. Para melhor combatermos o orgulho, exporemos: as suas formas principais; os defeitos que ele gera; a sua malícia; os seus remédios.

As principais formas do orgulho

A primeira forma consiste em se considerar a si mesmo o homem, explícita ou implicitamente, como seu primeiro princípio.

Há relativamente poucos que explicitamente se amem de forma tão desordenada que cheguem a considerar-se primeiro princípio de si mesmos.

É o pecado dos ateus que voluntariamente rejeitam a Deus, por não quererem senhor; É deles que fala o Salmista, quando assevera: «Disse o insensato em seu coração: não há Deus». Foi equivalentemente o pecado de Lúcifer, que, pretendendo ser autônomo, recusou submeter-se a Deus; o dos nossos primeiros pais, que, desejando ser como deuses, quiseram conhecer por si mesmos o bem e o mal; o dos hereges, que, como Lutero, se negaram a reconhecer a autoridade da Igreja estabelecida por Deus; e o dos racionalistas que, ufanos da própria razão, não querem submetê-la à fé. É, outrossim, o pecado de certos intelectuais que, demasiadamente orgulhosos para aceitarem a interpretação tradicional dos dogmas, os atenuam e deformam, para os harmonizarem com as suas exigências.

É maior o número dos que caem implicitamente neste defeito, procedendo como se os dons naturais e sobrenaturais, que Deus nos liberalizou, fossem completamente nossos. Reconhece-se, é verdade, em teoria que Deus é o nosso primeiro princípio; mas na prática, tem-se da própria pessoa uma estima desmesurada, como se cada um fosse autor das qualidades que possui.

Há quem se compraza nas suas qualidades e merecimentos, como se fosse único autor deles: «A alma, vendo-se bela, diz Bossuet, deleitou-se em si mesma e adormeceu na contemplação da própria excelência: deixou um momento de se referir a Deus: esqueceu a própria dependência; primeiramente demorou-se e depois se entregou a si mesma. Mas, procurando ser livre até se emancipar de Deus e das leis da justiça, tornou-se o homem cativo do seu pecado».

Mais grave é o orgulho dos que se atribuem a si mesmo a prática das virtudes, como os Estoicos; dos que imaginam que os dons gratuitos de Deus são frutos dos nossos merecimentos e que as nossas boas obras nos pertencem mais que a Deus, quando em realidade é Ele a sua causa principal; ou enfim, dos que nelas se comprazem, como se fossem unicamente suas.

É este mesmo princípio que faz que o orgulhoso exagere as suas qualidades pessoais.

Fecham-se os olhos sobre os próprios defeitos, e remiram-se as qualidades com óculos de aumento; por esse processo chega o homem a atribuir-se qualidades que não possui ou que ao menos não têm mais que a aparência da virtude; e assim é que, dando esmola por ostentação, julgará que é caritativo, quando não passa de orgulhoso; imaginará que é um santo, porque tem consolações sensíveis, ou escreveu belos pensamentos ou excelentes resoluções, quando na realidade está ainda nos primeiros degraus da escala da perfeição. Outros creem ter uma grande alma, porque fazem pouco caso das pequenas regras, querendo-se santificar pelos grandes meios.

Daí a preferir-se injustamente aos demais não vai mais que um passo, examinam-se a lente os defeitos alheios, nos próprios nem se sonha, vê-se o argueiro nos olhos do vizinho, nos próprios não se enxerga a trave. Por este caminho chega muitas vezes o orgulhoso, como o Fariseu, a desprezar os irmãos; outras, sem ir tão longe os rebaixa injustamente no próprio conceito, julgando-se melhor que eles, quando na realidade lhes é inferior. Do mesmo princípio vem procurar dominar os demais e fazer reconhecer a sua superioridade sobre eles.

Com relação aos Superiores, traduz-se o orgulho pelo espírito de crítica e revolta, que leva a espiar os seus mais pequeninos gestos ou passos, para os censurar: quer-se julgar, sentenciar de tudo. Deste modo se torna muito mais difícil a obediência; sente-se enorme dificuldade em acatar a sua autoridade e decisões, em pedir-lhes as licenças necessárias; aspira-se à independência, isto é, em última análise, a ser seu primeiro princípio.

A segunda forma do orgulho consiste em se considerar um a si mesmo explícita ou implicitamente como seu último fim, fazendo as próprias ações sem as referir a Deus e desejando ser louvado, como se elas fossem completamente suas. Este defeito deriva do primeiro, pois, quem se considera como seu primeiro princípio, quer ser também seu último fim. Aqui seria mister renovar as distinções já feitas.

Explicitamente, pouquíssimos são os que se consideram seu último fim, exceto os ateus e os incrédulos.

Muitos são, porém, os que procedem na prática, como se estivessem imbuídos desse erro.

Querem ser louvados, cumprimentados pelas suas boas obras, como se fossem os seus autores principais e tivessem o direito de proceder por sua conta, para satisfação da própria vaidade. Em lugar de referirem tudo a Deus, entendem antes que devem receber felicitações pelos seus pretensos triunfos, como se tivessem direito a toda a honra que daí provém.

Procedem por egoísmo, pelos próprios interesses, dando-se-lhes muito pouco da glória de Deus, e ainda menos do bem do próximo. E assim, vão até o excesso de imaginar praticamente que os outros devem organizar a sua vida para lhes agradarem e prestarem serviço; fazem-se assim centro e, a bem dizer, fim dos demais. Não será isto usurpar inconscientemente os direitos de Deus?

Sem irem tão longe, há pessoas piedosas, que se buscam a si mesmas, se queixam de Deus, quando Ele as não inunda de consolações, se desalentam, quando se veem na aridez, e imaginam assim falsamente que o fim da piedade é gozar das consolações, sendo que em realidade a glória de Deus deve ser o nosso fim supremo em todas as ações, mas sobretudo na oração e nos exercícios espirituais.

É, pois, forçoso confessar que o orgulho, sob uma ou outra forma é defeito muito comum, até mesmo entre as pessoas que se dão à perfeição defeito que nos segue através de todas as fases da vida espiritual e que só conosco morrerá. Os principiantes quase nem sequer dão por ele, porque não se estudam assaz profundamente. Importa chamar-lhes a atenção para este ponto, indicar-lhes as formas mais ordinárias deste defeito, para as tomarem por matéria do exame particular.

Leia a continuação deste texto com os tópicos: Os defeitos que nascem do orgulho; Malícia da vaidade; Defeitos que derivam da vaidade; A malícia do orgulho; Os remédios do orgulho, diretamente no Almanaque Tradição Católica nº43 clicando aqui para baixá-lo gratuitamente.