Antes do fim do mundo a Igreja sofrerá uma prova suprema que será uma verdadeira paixão

por Pe. Emmanuel-André

Deus quis que os destinos da Igreja de seu Filho único fossem traçados de antemão nas Escrituras, como foram os de seu próprio Filho. A Igreja, devendo ser semelhante a Nosso Senhor, sofrerá, antes do fim do mundo, uma prova suprema que será uma verdadeira Paixão. São os detalhes desta Paixão, na qual a Igreja fará ver toda a imensidade de seu amor por seu divino Esposo, que se acham consignados nos escritos inspirados do Antigo e Novo Testamento. Não temos a intenção de assustar ninguém tratando de tal assunto. Diremos mais: ele nos parece conter, ao lado de grandes ensinamentos, grandes consolações.

Certamente é um triste espetáculo ver a humanidade, seduzida e enlouquecida pelo espírito do mal, tentar sufocar e aniquilar a Igreja sua mãe e sua tutora divina. Mas deste espetáculo sai uma luz que nos mostra a história por inteiro em seu verdadeiro aspecto. O homem se agita sobre a terra; mas ele é empurrado por potências que não são da terra. Na superfície da história, o olhar apreende as desordens dos impérios e das civilizações que surgem e desaparecem. Por baixo disto a fé nos faz seguir o grande antagonismo entre Satã e Nosso Senhor; nos faz assistir às astúcias e às violências do espírito imundo, para entrar na casa da qual foi expulso por Jesus Cristo. No fim ele entrará e quererá eliminar Nosso Senhor. Então os véus serão rasgados, o sobrenatural brilhará em toda parte; não haverá mais política propriamente dita; um drama puramente religioso se desenvolverá e envolverá todo o universo.

Pode-se perguntar por que as peripécias deste drama são descritas tão minuciosamente pelos escritores sagrados, já que ele durará pouco tempo? Porque será a conclusão de toda a história da Igreja e do gênero humano. Porque fará ressaltar, com um brilho supremo, o caráter divino da Igreja. Além disso, todas essas profecias têm incontestavelmente o fim de fortificar a alma dos fiéis nos dias da grande prova. Todos os abalos, todos os pavores, todas as seduções que virão assaltá-los, tendo sido preditos tão exatamente, constituirão argumentos em favor da fé combatida e proscrita. A fé, neles se firmará precisamente por aquilo que deveria destruí-la. Mas nós mesmos temos grandes frutos a tirar da consideração desses estranhos e terríveis acontecimentos. Depois de ter falado deles, Nosso Senhor disse a seus discípulos: “Velai e orai, para que sejais encontrados dignos de fugir destas coisas que acontecerão no futuro, e de permanecerdes de pé na presença do Filho do Homem” (Lc 21, 36). Assim, pois, o anúncio desses acontecimentos é um aviso solene dado ao mundo: “Velai e orai para não cairdes em tentação”. (Mt 26, 41).

Não sabeis quando essas coisas acontecerão: velai e orai, para não seres surpreendidos. Sabeis que desde agora a sedução age nas almas, que o mistério da iniquidade faz sua obra. Eis a hora da noite, hora das potências das trevas: Velai para que vossa lâmpada não se apague, orai para que o torpor e o sono não tomem conta de vós. Mas antes levantai vossas cabeças para o céu; pois a hora da redenção se aproxima, pois começam a raiar os primeiros clarões da aurora. (Lc 21, 28).

Depois de ter falado dos ensinamentos, digamos uma palavra sobre as consolações. Nunca se terá visto o mal tão solto; e ao mesmo tempo tão contido pela mão de Deus. A Igreja, como Nosso Senhor, será entregue sem defesa aos carrascos que a crucificarão em todos os seus membros: mas não lhes será permitido quebrar seus ossos, que são os eleitos, assim como com o cordeiro pascal estendido sobre a cruz. A provação será limitada, abreviada por causa dos eleitos; e os eleitos serão salvos; e os eleitos serão todos os verdadeiros humildes. Enfim, a provação acabará por um triunfo inaudito da Igreja, comparável a uma ressurreição. Nesse tempo, e mesmo nos prelúdios da crise suprema, ela verá os restos das nações se converterem. Mas sua mais viva consolação será a volta dos judeus. Os judeus se converterão, seja antes, seja durante o triunfo da Igreja; e São Paulo, que anuncia esse grande acontecimento, não se contém de alegria ao contemplar o que se seguirá. Vê-se como as palavras do salmo podem se aplicar à Igreja: Seguindo a multidão de aflições que encheram meu coração, vossas consolações, Senhor, alegraram minha alma.

OS SINAIS PRECURSORES

A questão do fim do mundo foi discutida desde as origens da Igreja. São Paulo tinha dado sobre esse assunto preciosos ensinamentos aos cristãos de Tessalônica; e como, apesar das instruções orais, os espíritos se deixassem inquietar por predições e rumores sem fundamento, lhes dirigiu uma gravíssima carta para acalmar as inquietações. “ Nós vos rogamos com insistência, lhes diz, meus irmãos, não vos deixeis abalar em vossas resoluções, nem vos perturbeis por qualquer visão, ou falatórios, ou carta supostamente vinda de nós, como se o dia do Senhor estivesse perto”. “ Ninguém de modo algum vos engane! Pois é preciso que antes venha a grande apostasia, e que apareça o homem do pecado, o filho da perdição…”. “Não vos lembrais que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco?”. “E agora vós sabeis o que é que o retém. Pois o mistério da iniquidade já faz sua obra. Aquele que o retém retenha-o, esperando até que seja posto de lado”. (2 Ts 2, 1, 6). Assim o fim do mundo não chegará sem que tenha aparecido um homem apavorantemente mau e ímpio, o filho da perdição. E este, por sua vez, só se manifestará depois da grande apostasia geral, depois do desaparecimento de um obstáculo providencial sobre o qual o Apóstolo havia ensinado de viva voz a seus fiéis.

Fonte: Pe. Emmanuel-andré – O Drama do fim dos tempos – Excertos do Primeiro e segundo artigos , escritos em 1885/1886 – EDIÇÃO ELETRÔNICA PERMANÊNCIA – RIO 2004

O principal motivo da perdição

(Diálogo entre o discípulo e o mestre)

Mestre — Conta-se certa moça, tendo caído por desgraça num desses pecados que tanto envergonham na confissão, vivia triste e desconsolada. Passaram-se assim muitos meses, sem que nenhuma das companheiras da coitada descobrisse a causa de tanta aflição. Nesse ínterim, aconteceu que a sua melhor amiga, muito virtuosa e devota, morreu santamente. Uma noite, a chamam pelo nome, quando está no melhor do sono; reconhece perfeitamente a voz da amiguinha morta que vai repetindo: Confesse-se bem… se você soubesse o quanto Jesus e bom! A moça tomou aquela voz por uma revelação do céu, criou coragem e, decidida, confessou o pecado que era a causa de tanta vergonha e de tantas lágrimas. Naquela ocasião, tamanha foi a sua comoção, tão grande o seu alívio que depois disso, contava o fato a todo o mundo, e repetia por sua vez: “Experimentem e vejam o quanto Jesus é bom”.

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Dia 19 de Janeiro – Meditação: morte de São José

É prática geralmente admitida entre os devotos de São José consagrar-lhe o dia 19 de cada mês. Além da comunhão, costumam fazer outras preces, podendo servir para esse fim as seguintes:

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Vinde, ó Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis e acendei neles o fogo de vosso divino amor.

V. Mandai o vosso Espírito e tudo será criado.

R. E renovareis a face da terra.

OREMOS

Ó Deus, que doutrinastes os corações dos fiéis pela ilustração do Espírito Santo, concedei-nos que pelo mesmo Espírito Santo saibamos o que é reto e gozemos sempre de sua preciosa consolação. Amém.

ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Senhor Meu Jesus Cristo, que tanto amor manifestastes a esse varão justo, a quem na terra dáveis o nome de pai, e que vos gozais nos louvores que damos às virtudes que ele praticou, e às grandezas e privilégios com que Vós mesmo o enriquecestes, fazei que conheçamos essas virtudes e que as pratiquemos.

Intentamos nestes cultos unir-nos ao vosso coração agradecido para com ele agradecer os benefícios que São José vos fez, e sobretudo o muito que temos nós recebido por sua intercessão.

Virgem Santíssima, Esposa amantíssima e amadíssima de São José, vós honrastes este grande santo como ele merecia ser honrado, porque conhecíeis seus méritos e o muito que ele valia, e também porque com o trato contínuo com ele e com os serviços que vos fazia, tinha obrigado o vosso coração, fazei que eu conheça suas virtudes e que as imite, para me fazer digno de seu amor.

Ó glorioso Patriarca, pai nutrício de Jesus, Esposo de Maria, pelo amor que tivestes a estes dois entes queridos, suplico-vos que me alcanceis o amor de Deus e uma devoção constante a estes meus queridos Jesus e Maria, e graça para aproveitar-me deste exercício. Amém.

DIA 19 DE JANEIRO

MEDITAÇÃO

Morte do São José

PONTO 1. — É crença na Igreja que São José morreu no dia 19, e por isso consagra-se este dia a seu culto. Foi ele o santo mais amado de Deus e apesar disso morreu. A santidade não livra da morte, mas previne as consequências.

PONTO 2. — São José foi o homem mais honrado de Deus… A seus anjos chama Deus ministros… a São José chamou pai… e apesar dessa honra não quis Jesus que deixasse de morrer, como não quis o Salvador preservar-se a si mesmo nem a sua Santíssima Mãe da morte… Também tu morrerás, e nada, nem honras, nem a mesma graça de Deus te poderá livrar da morte.

PONTO 3. — São José foi o varão escolhido por Deus para reger e governar sua casa; Falava-lhe pelos anjos… ensinava-lhe Deus diretamente, penetrava nos mistérios de Deus com respeito a seu Filho Divino e… morreu… Não há ciência que nos possa livrar da morte…

FRUTO. — Pensa todos os dias na morte durante alguns instantes.

ORAÇÃO PARA ESTE DIA

Ó glorioso São José, protetor das virgens, guarda fiel a quem Deus confiou Jesus, a inocência mesma, e Maria, a virgem das virgens, eu vos peço e rogo por Jesus e por Maria, esse duplo depósito que vos foi tão querido, que façais que eu conserve meu coração isento de toda impureza, e que puro e casto sirva constantemente a Jesus e a Maria, em uma perfeita castidade. Assim seja.

Para alcançar as graças que pedimos rezaremos em honra do santíssimo nome de São José quatro Pai-Nossos, Ave-Marias e Glória ao Pai com as seguintes jaculatórias:

JACULATÓRIAS

1.— Justíssimo José e Pai nutrício do Verbo encarnado alcançai-nos amor a Jesus e devoção constante a seu Sagrado Coração.

Pai Nosso…

Ave Maria…

Glória ao Pai…

2.— Obedientíssimo Patriarca e cabeça da Sagrada Família, por vosso amor e respeito à Imaculada Virgem nossa Mãe, eu vos peço devoção constante a esta augustíssima Rainha.

Pai Nosso…

Ave Maria…

Glória ao Pai…

3.— Sapientíssimo Patriarca, ilustrado com a verdadeira ciência do céu, pelos altíssimos conhecimentos que vos comunicou o Verbo e Sabedoria do Pai, peço-vos que me alcanceis fé nas verdades reveladas e a perseverança nela.

Pai Nosso…

Ave Maria…

Glória ao Pai…

4.— Esposo castíssimo da Esposa do Espírito Santo, e amador do amor divino, pela ardentíssima caridade com que cuidastes de vosso Deus e pelos sacrifícios que por ele sofrestes, peço-vos a virtude da caridade e amor de Deus até a morte.

Pai Nosso…

Ave Maria…

Glória ao Pai…

ORAÇÃO FINAL PARA TODOS OS DIAS

Felicíssimo Patriarca, tão ternamente amado de Jesus e de Maria, que vos manifestaram esse amor principalmente na morte soberanamente preciosa que tivestes. Que consolação a vossa, meu amantíssimo protetor, quando nesse derradeiro instante, Jesus e Maria, assistindo a vosso lado, defenderam vossa alma dos insultos dos inimigos e a levaram depois ao seio de Abraão. Este instante espantoso há de chegar sem remédio para nós, e ainda na hora menos pensada: que será então de nossas almas? Vossa vida inocente e as heroicas virtudes que praticastes, e sobretudo a presença de vossos queridos Jesus e Maria vos deram essa preciosa tranquilidade com que passastes deste mundo. Mas que será de nós? Iludidos pelos inimigos e pelas paixões, nos entregamos muitas vezes em suas mãos ofendendo a Jesus, que nos há de julgar! Ah! amantíssimo Protetor nosso, à vista de uma vida tão pouco conforme a nossa fé, aguardamos com espanto a morte e a conta que depois dela nos espera! Ó pai e protetor nosso, nós sozinhos não ousaríamos aparecer nesse tão justo tribunal, onde é o mesmo Deus que nos há de julgar. Vimos portanto pedir-vos por vossa preciosíssima morte e é por vosso felicíssimo trânsito, a vossa poderosíssima proteção agora, para que vivendo uma vida digna do título que levamos, mereçamos também vossa proteção e assistência na morte. Manifestai, pai amantíssimo, vosso amor em nossa morte. Protegei-nos então, protetor nosso eficacíssimo, para que morrendo na graça de Deus, vamos convosco à morada felicíssima dos justos gozar de Jesus e de Maria por toda uma eternidade. Amém.

Por que Deus permite que haja heresias na Igreja

Por São Vicente de Lerins

Porém, alguém dirá: por que Deus permite que, com tanta frequência, pessoas insignes da Igreja defendam doutrinas novas entre os católicos? A pergunta é legitima e merece uma resposta ampla e detalhada. Responderei baseando-me não em minha capacidade pessoal, mas na autoridade da Lei Divina e no ensino do Magistério eclesiástico. Ouçamos, pois, a Moisés, que ele nos diga porque Deus por vezes permite que homens doutos, inclusive chamados profetas pelo Apóstolo por causa de sua ciência, ensinem novos dogmas que o Antigo Testamento chama, em seu estilo alegórico, “divindades estrangeiras” , posto que, de fato, os hereges veneram suas próprias opiniões tanto como os pagãos os seus deuses.

Moisés descreve:”Se se levantar no meio de ti um profeta, ou alguém que diga que teve um sonho” – quer dizer, um mestre constituído na Igreja, cujo ensino seus discípulos e ou vintes julgam provir de alguma revelação – “e predisser algum sinal ou prodígio, e suceder o que anunciou…”. Realmente não conheço nenhum mestre que não tenha sido chamado grandioso e de tão grande ciência que não só tenha dado a conhecer os seguidores aquelas coisas que estão ao alcance do conhecimento humano, mas que também não tenham podido mostrar que conheciam de antemão coisas que superam o entendimento humano; ora, quase todos os discípulos afirmaram que assim foram Valentino, Donato, Fotino, Apolinário e os demais inovadores como estes. E como segue Moisés? “e te disser: vamos, sigamos os deuses estranhos, que não conheces, e sirvamo-los”. Que são estes outros deuses senão as doutrinas errôneas e estranhas que ignoravas, quer dizer, novas e inauditas?

E “sirvamo-los”, ou seja, creiamos neles e sigamo-los. Pois bem, que é o que diz Moisés neste caso? Não ouvirás a palavra de tal profeta ou sonhador. Contudo, eu ponho a seguinte questão: Por que Deus não impede que se ensine o que Ele proíbe que se escute? Responde Moisés: “Porque o Senhor vosso Deus vos põe à prova, para se tornar manifesto se o amais ou não de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.”

Assim, pois estão mais claro que a luz do sol o motivo pelo qual de vez em quando a Providência de Deus permite mestres na Igreja que preguem novos dogmas:”Porque o Senhor vosso Deus vos põe à prova”. E certamente que é uma grande prova ver um homem tido por profeta, por discípulo dos profetas, doutor e testemunho da verdade, um homem sumamente amado e respeitado, que de repente se põe a introduzir a escondidas erros perniciosos. Ainda mais quando não há possibilidade de se descobrir imediatamente esse erro, visto que toma as pessoas de surpresa, já que se tem de tal homem um juízo favorável por causa de seus ensinamentos anteriores, e se resiste a condenar ao antigo mestre ao qual nos sentimos ligados pelo afeto.

Da obra “Comonitório”

Nós seremos semelhantes a Deus. Porque nos espantar?

A Semelhança Consumada no Céu

Por Pe. Emmanuel-André

O estado de semelhança da alma com Deus começa aqui na terra e é consumado na vida eterna. Nós seremos semelhantes a Deus (Jo.III,2) quando o vermos como Ele é. Logo, a semelhança na vida presente não é perfeita, absoluta. 

Porque nos espantar? Aqui caminhamos pela fé, diz São Paulo, nosso estado é a fé, é de crer naquilo que não vemos ainda mas veremos um dia. Por isso, tudo em nós, inclusive a semelhança divina, é relativo ao estado de fé, e em conseqüência esta semelhança fica como que coberta por um véu. 

Procuremos chegar a uma compreensão tão clara quanto possível desse mistério. 

Deus habita em todas as criaturas lhes dando o ser; ele habita mais especialmente nas criaturas racionais lhes dando a luz da inteligência e a vida do coração. Porém, de um modo todo especial, Ele habita na alma em estado de graça, associando-a, como diz São Pedro, à sua própria divindade. (IIPe.I,4) 

Não se pode imaginar uma habitação mais íntima que esta última. Deus se põe no centro da alma e as três Pessoas se comunicam a ela com uma familiaridade prodigiosa. É a realização da palavra de Nosso Senhor: “Se alguém me ama, guardará minha palavra…e nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo.XIV,23). 

A união com a alma não poderia ser mais íntima, pois é realizada pelo próprio Espírito Santo. As três Pessoas divinas se comunicam à alma na obscuridade da fé e sem se manifestar a ela. Sim, nesta vida, o mistério da presença divina, da comunicação com a alma, se faz como numa nuvem, ao mesmo tempo luminosa e sombria. 

Na vida eterna, a obscuridade terá desaparecido, a nuvem terá se dissipado, o véu retirado. As três Pessoas da Santíssima Trindade se manifestarão à alma de dentro dela. Elas se manifestarão fazendo brotar, do seio da divindade, uma luz especial que se chama luz de glória. Então a alma verá em si mesma o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que estavam já presentes, mas invisíveis. 

A semelhança com a adorável Trindade será então consumada. Sua inteligência será divinizada pela visão clara de Deus: ela a verá face a face (ICor.XIII,12), como o olho penetrado pela luz do dia. Que coisa maravilhosa! vendo a Deus ela verá todas as coisas em Deus, como num espelho. Ao mesmo tempo ela verá Deus em todas as coisas, dando a todas o ser, a vida e o movimento. A alma amará não somente todas as coisas em Deus, mas também Deus em todas as coisas (ICor.XV,28), de modo que todo seu amor terminará sempre em Deus. Assim a união de amor que a unia a essa fonte de vida se tornará definitivamente indissolúvel. 

Por sua inteligência e por sua vontade, a alma bemaventurada viverá da própria vida da Santíssima Trindade. O espelho de sua inteligência será o Verbo, o espírito de seu coração será o Espírito Santo. Ela viverá dessa vida divina que, sendo perfeitamente simples, contém e sustenta a criação toda. Ela ficará presa em Deus, como uma gotinha num oceano de luz: Deus a penetrará de todos os lados, se refletirá nela, a transformará nele próprio de modo inefável, sobre o qual é preferível calar do que tentar dizer algo. Assim São Paulo, que viu esta transformação no terceiro céu, se contenta em dizer que ela é absolutamente inefável e inconcebível (IICor.XII,4). 

Esta vida inefável e inconcebível está em germe na alma de todo cristão batizado: a glória é apenas a floração completa desta semente divina que é a graça de Deus. Semen Dei (I Jo.III,9) 

Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas?

Com as palavras do primeiro Mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas, Deus nos ordena que o reconheçamos, adoremos, amemos e sirvamos a Ele só, como nosso Soberano Senhor.

Como se deve amar a Deus?
Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma, e com todas as nossas forças.

Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas?
Amar a Deus sobre todas as coisas quer dizer: preferi-Lo a todas as criaturas mais caras e mais perfeitas, e estar disposto a perder tudo antes que ofendê-Lo ou deixar de amá-Lo.

Que quer dizer: amar a Deus com todo o nosso coração?
Amar a Deus com todo o nosso coração quer dizer: consagrar-Lhe todos os nossos afetos.

Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa mente?
Amar a Deus com toda a nossa mente quer dizer: dirigir para Ele todos os nossos pensamentos.

Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa alma?
Amar a Deus com toda a nossa alma quer dizer: consagrar-Lhe o uso de todas as potências da nossa alma.

Que quer dizer: amar a Deus com todas as nossas forças?
Amar a Deus com todas as nossas forças quer dizer: esforçar-se por crescer cada vez mais no amor d’Ele, e proceder de maneira que todas as nossas ações tenham por motivo e por fim o seu amor e o desejo de Lhe agradar.

(Retirado do Catecismo de São Pio X)