Amar a Deus exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados.

Sermão de Dom Lourenço Fleichman, OSB

Caríssimos irmãos,

São Paulo abre o domingo de hoje nessa parte do ensinamento… Todo domingo nós temos um ensinamento a ouvir, faz parte da nossa Missa, faz parte do preceito. É por isso que em todas as Missas do domingo é necessário um sermão para explicar, para meditar as palavras que nós ouvimos na epístola e, sobretudo, no evangelho, assim como também em outros textos da Missa. Mas, ele diz: Rogo-vos que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados. Que vocação é essa se não o nosso batismo? Hoje mesmo nós fizemos batismo de duas crianças já grandinhas, que já compreendem o que significa o batismo e responderam, inclusive, as perguntas. E nós, quando nós renovamos as promessas do nosso batismo, será que passa pela nossa cabeça nesse momento todos os atos da nossa vida, como talvez passe no momento em que Nosso Senhor vem nos chamar? Tantos e tantos morrendo, e no momento da morte certamente Nosso Senhor nos dá uma visão de toda a nossa vida. Estou pronto ou não estou pronto?

Hoje nós precisamos estar prontos, hoje nós precisamos renovar no fundo do nosso coração as promessas que nós fizemos através dos nossos padrinhos, ou nós mesmos, no dia do nosso batismo, no dia em que o pecado original foi completamente apagado da nossa alma e que Nosso Senhor Jesus Cristo tomou conta do nosso coração. Então ele apresenta os meios para nós sermos salvos, os meios para nós irmos para o céu, e é necessário estar atento a isso. E o primeiro deles ele acaba de nos dizer: Amarás ao Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com toda a tua alma, com todo o teu espírito. Esse amor de Deus, acima de todas as coisas que é necessário antes de tudo para nós. Amar a Deus, amar a Deus de verdade. E quando diante da morte nós passamos toda a nossa vida num relâmpago, é evidente que do outro lado da balança estará o amor de Deus. Será que eu amei a Deus verdadeiramente?

Não há como todos serem monges! Cada um tem seu dever de estado, cada um tem suas obrigações. E cumprir os mandamentos começa pelas obrigações. Não foi o que Nossa Senhora disse em Fátima para Lúcia? “Nos últimos tempos a grande mortificação será cumprir seu dever de estado”. Mas isso não é mortificação, isso é obrigação. E ela sabia disso. Nossa Senhora sabia que era só a nossa obrigação e que isso não tinha prêmio nenhum. Mas os últimos tempos serão tempos estranhos, então, quem cumprir suas obrigações já estará no bom caminho. E o que significa cumprir as nossas obrigações? Não é fazer o trabalho que nós temos que fazer, isso vem depois. Primeiro: amar a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus de um modo prático, não apenas belas intenções que nós temos de vez em quando, mas de um modo prático; na nossa oração em primeiro lugar, na nossa vida espiritual, cumprindo nossas obrigações espirituais. Para mostrarmos a Nosso Senhor: “Senhor, quando eu me levanto no domingo, que vou para a Missa eu estou cumprindo as minhas obrigações e, no entanto, é por amor que eu faço”. Eu preciso desenvolver no meu coração o verdadeiro amor de Deus mesmo quando eu cumpro obrigações. Há uma conjunção, há uma união daquilo que nós fazemos porque é obrigatório fazer, por exemplo vir à Missa no domingo e que nós somamos a isso um ato de amor voluntário e livre, “eu quero estar na Missa, eu preciso estar na Missa, porque é através da Missa que eu vou aprender a amar Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nosso Senhor depois de ter nos dado o caminho da salvação através do primeiro mandamento, o maior de todos, o máximo de todos: amar a Deus, dessa forma complexa que ele apresenta diante de nós, ele vai falar sobre o segundo mandamento. O segundo mandamento é amar ao próximo como a si mesmo. E ele diz uma coisa importantíssima, que é preciso nós compreendermos: a segunda tábua é semelhante a primeira, ou seja, os sete mandamentos que sobram na segunda tábua são semelhantes aos da primeira tábua, que são relativas a Deus. Amar a Deus, honrar o Santo nome de Deus e cumprir os preceitos que Deus nos estabelece na vida. Quando nós ouvimos que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro, é necessário nós olharmos para a nossa vida mais uma vez e dizer. “Muito bem, eu já vi num relâmpago que o meu amor por Deus não foi tão intenso como poderia ser, eu cumpria apenas as minhas obrigações, e olhe lá. Eu poderia ter colocado meu coração também naquilo que a fé me obrigava a fazer. Agora, eu tenho que fazer isso em relação ao próximo”.

E em primeiro lugar amar ao pai e à mãe com todas as forças da alma, amar ao pai e à mãe como sendo delegados de Deus para receberem o nosso amor. Mas não é isso que nós dizemos no catecismo, nós dizemos honrar pai e mãe, não dizemos amar. E o catecismo de Trento vai explicar: Não é amar não, é honrar, porque aquele que honra já ama, aquele que só ama, pode amar e não honrar. Então não basta dizer eu amo meus pais de todo o meu coração, não, é necessário honrar aos pais e isso significa uma dose de amor que é necessário por tudo que nós recebemos deles, pelo fato de que é o caminho também para nós alcançarmos o amor de Deus, mas mais do que isso, nós devemos respeito, nós devemos silêncio, nós não podemos levantar a voz, nós não podemos falar como se fosse um coleguinha nosso, nós falamos com nossos pais de outra forma, e é preciso aprender isso. No mundo atual é preciso reaprender isso, porque nós esquecemos. E tratamos todos sem a menor cerimônia, estejamos diante do papa, ou diante de um bispo, e a gente vê isso. Nós temos que ter certos ritos. E esse rito que se tem diante do bispo, se tem também com um sacerdote, se tem com os pais dentro de casa, se tem também quando se senta à mesa. Uma coisa que eu tive que ensinar muitos aqui; não se senta à mesa para uma refeição sem camisa, não se anda sem camisa. São coisas que o mundo moderno não está nem aí, as pessoas vão nos supermercados sem camisa, o que é, além do mais, falta de caridade para com os outros. Então nós temos muito o que aprender nesses dois mandamentos que Nosso Senhor nos apresenta.

Eu queria trazer para vocês curiosamente neste domingo, que é o terceiro domingo de setembro. No terceiro domingo de setembro a igreja nos traz o livro de Tobias. Eu sempre recomendo que leiam o livro de Tobias, é tão próximo de nós. Tobias era um homem muito piedoso, um homem muito santo. Se casa com Ana, tem um filho ao qual ele dá o nome de Tobias, seu próprio nome. Eles são deportados para a Síria e lá ele tem a amizade do rei, que deixava ele ir onde ele quisesse. E quando todos se reuniam para as grandes refeições e banquetes, ele descia para Jerusalém para louvar o Senhor. Era uma viagem longa, mas o rei permitia. E ele ia para Jerusalém chorar os seus pecados, era um homem santo. Mas depois morre o rei e vem seu filho e começa a perseguir os hebreus. Era proibido enterrar os mortos dos hebreus e Tobias enterrava escondido. Não é o que nós estamos fazendo hoje? Estamos enterrando nossos mortos, alguns até com proibição do estado de nós irmos lá para fazer o culto necessário. Aquele homem cumpria os mandamentos, aquele homem vivia preocupado, “será que a vida que eu estou levando é a vida de amor de Deus que eu deveria estar levando?”. Mas, se nós queremos amar a Deus sobre todas as coisas, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma, virá o sofrimento, todo aquele que ama a Jesus Cristo passa por provações, está escrito isso. E nós também passamos por provações.

Então acontece de um passarinho fazer suas necessidades, que vão cair no olho de Tobias. Depois que ele já estava cansado de tanto passar a noite enterrando os mortos ele dorme, e ali cai o esterco do passarinho no olho dele, e ele fica cego. E aí vem toda a história do filho que vai com São Rafael, o Arcanjo, para encontrar-se com Sara. E Sara, no momento em que Tobias, o pai, rezava em sua casa por causa dos mortos, Sara rezava longe dali. E curiosamente a Sagrada Escritura quis revelar para nós que a oração dos dois juntou-se diante de Deus, e Deus então envia o filho Tobias para ir buscar um pouquinho de dinheiro porque eles estavam pobres, não podiam trabalhar. Foi perseguido pelo rei Senaqueribe, não podia trabalhar, teve seus bens todos levados. E mais uma coisa curiosa do livro de Tobias: cita Jó, o santo Jó, e compara os sofrimentos de Tobias com os sofrimentos de Jó. É muito curioso e isso deve nos fazer refletir. Mas o fato é que Tobias filho vai encontrar-se com um sujeito que precisava pagar uma dívida para o seu pai e vai se casar com Sara, porque todos os maridos com quem ela ia se casar morriam antes de se casar com eles, e era desprezada pelo povo porque matava os maridos. E foi nessa hora que ela rezava e que encontraram-se a oração de Sara com a oração de Tobias, “eu estou aqui querendo cumprir os vossos mandamentos” os dois falaram isso ao mesmo tempo. E foi então Tobias até lá, encontrou-se por acaso com Sara, que era filha daquele homem que devia o dinheiro para Tobias, e casa-se com ela. E voltam para a casa de Tobias. O anjo Rafael então, aplica o remédio que tiraram do peixe e cura a cegueira de Tobias. Tudo isso em torno de cumprir os mandamentos de Deus de um modo piedoso, de um modo profundo.

Eu preciso falar um pouquinho sobre isso: as nossas confissões.

A nossa confissão é o sacramento que nos traz de volta para os mandamentos de Deus, para o amor de Deus acima de tudo e para o amor do próximo também. Acontece que nós estamos vendo que estamos vivendo num tempo parecido com o de Tobias, nós estamos sofrendo coisas parecidas com as de Jó. As nossas confissões não podem ser um pique, “eu vou lá, me confesso porque aí eu vou comungar, todo mundo vai ver que eu estou comungando”, passa dois, três dias e a gente tem que voltar para o confessionário. Prestem atenção, nós não podemos viver assim.  Àqueles que estão voltando de três em três dias ao confessionário ou toda semana que seja: nós não podemos viver assim. A confissão é um sacramento e nós temos que respeitar esse dom maravilhoso de Deus que quis que nós tivéssemos solução para as nossas fraquezas, defeitos e pecados antes da morte. A disposição do fiel é para que ele recupere o verdadeiro amor de Deus, mas não para que ele faça um pique para vir comungar. Isso é o abuso do sacramento. E é preciso entender que esse sacramento da confissão exige de nós certas atitudes. A primeira delas nos ensina o catecismo: é a contrição dos pecados. E a contrição significa “quebrar”, algo se quebra dentro de nós. É precisa quebrar o apego aos pecados, é preciso vencer os vícios que nos levam de volta ao pecado às vezes no mesmo dia da confissão.

Eu tenho perguntado: qual o efeito que o sacramento produz na nossa alma? O padre abaixa sua mão fazendo um sinal da Cruz, que é de Jesus Cristo, não é dele, explode no nosso coração a graça santificante que nós não merecemos, mas que Ele dá de graça. O que Ele exige de nós? A confissão certinha de todos os pecados sem esconder nenhum. Às vezes a gente esquece, mas esquecimento não é esconder. E o que acontece dentro de nós? Nós recuperamos a amizade de Deus, nós saímos no confessionário como nós saímos da pia batismal, quase. Não é exatamente igual por causa da pena temporal, mas vamos abstrair essa questão. E o que vamos nós fazer com aquela alma recuperada, com aquela alma lavada? Vamos sujar ela no mesmo dia, no dia seguinte, daqui a dois dias, na mesma semana? Então não teve efeito nenhum. Teve efeito sobre a minha alma, mas não teve efeito sobre a minha vontade. Não serviu de nada para mim? Tem alguma coisa errada. As pessoas estão morrendo e Tobias está enterrando.

Eu suplico a todos: vamos parar com isso, vamos entender o que é o sacramento da confissão, vamos entender que amar a Deus com todas as forças, com toda a alma, com todo o espírito, com toda a vontade, com todo amor, exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados. Nós temos que vencer isso, porque se nós não vencermos esses vícios, os vícios nos vencerão. Qual a probabilidade das pessoas que ficam “confessa…, cai;  confessa…, cai;”, de morrer num momento que está confessado? É mínima, é mínima! Certamente vai morrer no momento em que estiver com o pecado mortal, porque passa a maior parte do tempo em pecado mortal. É uma questão matemática. Será que nós temos tantas dificuldades na vida para viver uma vida cristã, para rezarmos todos os dias, para virmos para Missa, sermos perseguidos pelas autoridades tanto civis quanto espirituais, para depois ir para o inferno assim, de graça? Não é possível, eu não creio que isso seja possível, que passa na cabeça de alguém, mas se não passa isso na cabeça de ninguém e no entanto estamos todos voltando para o confessionário três dias depois, então nós estamos cegos.

Vamos ouvir o que São Paulo acaba de nos dizer: Vivestes segundo a vocação a que fostes chamados, segundo esse batismo maravilhoso que nos lavou do pecado original, que abriu a porta do Paraíso para nós. Prestemos atenção ao amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua vida por nós sem precisar morrer do jeito que morreu. Pensemos que nós estamos enterrando nossos mortos. Vocês não estão percebendo que alguma coisa está acontecendo no mundo? Nós precisamos amar a Deus com essa força que Nosso Senhor veio nos lembrar.

Então, que a Missa de hoje seja um momento em que nós vamos refletir um pouco mais sobre as nossas confissões, sobre os nossos pecados, não para ficarmos acabrunhados pelo pecado, mas ao contrário, para nos livrarmos dele e para termos a felicidade, a alegria, a amizade, a caridade e todos os frutos da caridade brotando no nosso coração, porque Jesus Cristo derramou seu sangue por nós, e como dizia Santa Catarina de Sena “indo ao confessionário, vou ao sangue”. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

XVII Domingo depois de pentecostes – 2021

[Baixar e-book] A Contrição Perfeita – Um livro de leitura oportuna para os dias em que vivemos

“Ao ver o título de Chave de ouro do Céu, parece-me, amado leitor, que estarás ansioso por ver se este livrinho corresponde por dentro ao que promete por fora.”

“Sim, amado leitor, sólida e legítima é a chave, e por certo bem fácil de manejar: é a contrição perfeita. Ela te abrirá, em cada dia e a cada momento, o Céu se o fechaste com o ferrolho do pecado mortal. E sobretudo se, no fim da tua vida, como pode acontecer, não tiveres nem puderes ter a teu lado o sacerdote, que é o depositário das chaves da divina misericórdia, a contrição perfeita será a última e suprema chave com que, ajudado pela graça de Deus, poderás franquear-te o Céu. Porém, para isso, é preciso que te acostumes a manejá-la em vida.”

“Pela contrição perfeita, estão salvas no Céu inumeráveis almas que, de outro modo, se teriam perdido para sempre. Já vês, pois, que é importante, e sumamente importante, o que te recomendo neste livrinho. Por isso, dizia o douto e piedoso cardeal Franzelin: “Se eu pudesse percorrer os campos pregando a palavra divina, nenhuma outra coisa pregaria com mais frequência do que a contrição perfeita”.

“queria eu, como Santo Afonso com o seu, ver este livrinho nas mãos de todos, persuadido de que a sua atenta leitura e a execução prática das doutrinas que nele se ensinam, abrirão as portas do céu a muitíssimas almas, para quem, sem ele, estariam eternamente fechadas”.

(Trechos do Prólogo e da Introdução do livro)

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O principal motivo da perdição

(Diálogo entre o discípulo e o mestre)

Mestre — Conta-se certa moça, tendo caído por desgraça num desses pecados que tanto envergonham na confissão, vivia triste e desconsolada. Passaram-se assim muitos meses, sem que nenhuma das companheiras da coitada descobrisse a causa de tanta aflição. Nesse ínterim, aconteceu que a sua melhor amiga, muito virtuosa e devota, morreu santamente. Uma noite, a chamam pelo nome, quando está no melhor do sono; reconhece perfeitamente a voz da amiguinha morta que vai repetindo: Confesse-se bem… se você soubesse o quanto Jesus e bom! A moça tomou aquela voz por uma revelação do céu, criou coragem e, decidida, confessou o pecado que era a causa de tanta vergonha e de tantas lágrimas. Naquela ocasião, tamanha foi a sua comoção, tão grande o seu alívio que depois disso, contava o fato a todo o mundo, e repetia por sua vez: “Experimentem e vejam o quanto Jesus é bom”.

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Com que idade deve a criança fazer a Primeira Comunhão? Responde-nos São Pio X

CONGREGAÇÃO DOS SACRAMENTOS

Decreto “Quam singulari”

  1. As paginas do Santo Evangelho manifestam às claras o singular amor que Jesus Cristo teve aos meninos, durante os dias da sua vida mortal. Eram suas delícias estar no meio deles; costumava impor-lhes as mãos, abraçava-os e abençoava-os. Levou a mal que os seus discípulos os apartassem dele, repreendendo-os com aquelas graves palavras:deixai que os meninos venham a mim, e não os proibais, pois deles é o Reino de Deus (Mc 10, 13. 14. 16). E quanto estimava a sua inocência e a candura de suas almas, bem o manifestou quando, chamando a um menino, disse a seus discípulos: Na verdade vos digo, se não vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Todo aquele que se humilhar como este menino, este é o maior no reino dos céus: E aquele que receber um menino tal como estes em meu nome, a Mim é que recebe (Mt 18, 3. 4. 5).

      A disciplina da Igreja primitiva 

  1. Tendo presente tudo isto, a Igreja Católica, logo desde seus princípios, curou de aproximar os pequeninos de Cristo, valendo-se da Comunhão Eucarística, que costumava administrar-lhes sendo ainda meninos de peito. Isto, como aparece prescrito em quase todos os Rituais antigos até o século XII, fazia-se no ato do Batismo, costume que em alguns sítios perseverou até tempos posteriores, e que ainda subsiste entre os gregos e os orientais. E para arredar o perigo de que os meninos de peito vomitassem o Pão consagrado, logo de princípio se generalizou o costume de administrar-lhes a Sagrada Eucaristia debaixo da espécie de vinho.
  2. E não só no ato do Batismo, mas também depois, e repetidas vezes, os meninos eram alimentados com esse divino manjar, poisfoi costume de algumas igrejas dar a Comunhão aos meninos imediatamente depois de comungar o clero; e noutras partes, depois da Comunhão dos adultos, os meninos recebiam os fragmentos que sobravam.
  3. Este costume desapareceu mais tarde na Igreja latina, e os meninos não eram admitidos à sagrada Mesa enquanto o uso da razão não estivesse de algum modo desperto neles e pudessem ter alguma idéia do Augusto Sacramento. Esta nova disciplina, já aceita nalguns Sínodos particulares, foi confirmada com a sanção solene do IV Concilio ecumênico de Latrão no ano de 1215, no célebre cânon XXI, no qual aos fiéis, depois de atingirem a idade da razão, se prescreve a Confissão sacramental e a Sagrada Comunhão: “Todo e qualquer fiel de um e outro sexo, apenas chegar aos anos da discrição, confesse fielmente todos os seus pecados ao próprio sacerdote, ao menos uma vez no ano, e faça por cumprir a penitência imposta, recebendo com reverência ao menos na Páscoa o Sacramento da Eucaristia, a não ser que, por conselho do próprio sacerdote e por algum motivo razoável, haja de se abster desta Comunhão por algum tempo”.
  4. O Concilio de Trento (sessão XXI,de Communione, c. 4), sem de modo algum reprovar a antiga disciplina, que era administrar a Eucaristia às crianças antes da idade de razão, confirmou o decreto de Latrão, e anatematizou os partidários da opinião contrária: “Se alguém negar que os cristãos dos dois sexos, todos e cada um, chegados à idade de discrição, são obrigados a comungar a cada ano pelo menos na Páscoa, consoante o preceito da nossa Santa Madre Igreja, seja anátema” (Sess. XIII, De Eucharistia, c. d, cân. 9).
  5. Portanto, por força do decreto de Latrão mais acima citado e sempre em vigor, os fiéis, desde que tenham atingido a idade da discrição, são obrigados a aproximar-se, ao menos uma vez por ano, dos Sacramentos da Penitência e da Eucaristia.

Gravíssimos abusos

  1. Mas, na determinação desta idade da razão ou da discrição, introduziram-se com o decorrer do tempo numerosos e deploráveis abusos. Uns julgavam que podiam determinar-se duas idades distintas, uma para o Sacramento da Penitência, outro para receber a Eucaristia. Para a Penitência, segundo eles, idade da discrição devia significar aquela em que se pode distinguir o bem do mal, e portanto, pecar; mas para a Eucaristia exigiam uma idade mais adiantada, em que os meninos pudessem apresentar um conhecimento mais completo da Religião e uma disposição de espírito mais amadurecida e ponderada. E assim, consoante a variedade dos usos e das opiniões, a idade da Primeira Comunhão foi fixada aqui aos 10 ou 12 anos, acolá aos 14 ou mais ainda, proibindo-se às crianças e aos adolescentes de menos idade a Comunhão.
  2. Este costume que, sob o pretexto de acautelar o respeito devido ao Augusto Sacramento, afasta dele os fiéis, foi causa de males sem conta. Sucedia, de fato, que a inocência da criança, arrancada às carícias de Jesus Cristo, não se alimentava de nenhuma seiva interior; e – desastrada conseqüência! – a juventude, privada de socorro eficaz e cercada de laços, perdia a sua candura e resvalava no vício, antes de ter saboreado os Santos Mistérios. E ainda que se preparasse a Primeira Comunhão por uma formação mais séria e uma Confissão mais cuidada, o que aliás se não faz em toda parte, sempre é muito para deplorar a perda da inocência batismal, o que talvez se pudesse ter evitado, recebendo a Santa Eucaristia em idade mais tenra.
  3. Nem merece menor censura o costume existente em muitos lugares de não confessarem os meninos não admitidos à Sagrada Mesa, ou de não os absolver, com o que é muito fácil que permaneçam longo tempo em estado de pecado, com gravíssimo perigo para sua salvação.
  4. E o mais grave ainda é que em alguns lugares, aos meninos não admitidos à primeira Comunhão, nem mesmo em perigo de morte se lhes permite receber o Santo Viático e, se falecem, enterrados como crianças, não são ajudados pelos sufrágios da Igreja.
  5. Tais danos ocasionam os que se preocupam mais do que é justo em que à Primeira Comunhão antecedam preparações extraordinárias, não atentando que essas excessivas precauções são restos de erros dos jansenistas, que sustentavam que a Santíssima Eucaristia era prêmio, não medicina da fragilidade humana.
  6. Muito ao contrário pensara o Concilio de Trento, que ensina que ele é “o antídoto por meio do qual somos livres das culpas cotidianas e preservados dos pecados mortais” (Sess. XIII,de Eucharistia), doutrina que ainda há pouco foi instantaneamente inculcada pela Sagrada Congregação do Concilio no decreto publicado a 26 de dezembro de 1905, no qual a todos se recomenda a Comunhão cotidiana, quer sejam pessoas duma idade mais adiantada, quer de tenros anos, contanto que satisfaçam as duas condições: estado de graça e intenção reta da vontade.
  7. Nem se vê, na verdade, o motivo justo por que, distribuindo-se antigamente às crianças, ainda mesmo de peito, os restos das sagradas espécies, afora se exija uma preparação extraordinária das crianças que ainda se encontram na condição felicíssima da primeira candura e inocência e que muito carecem daquele alimento místico, em razão de tantas ciladas e perigos que as assediam nesta idade. Estes abusos vêm de não terem indicado bem qual seja a idade de discrição aqueles que marcam uma idade para a Penitencia, outra para a Comunhão. O Concilio de Latrão determina a mesma idade para ambos os sacramentos, identificando a obrigação de receber um e outro. Por conseguinte, assim como para a Confissão a idade da discrição é aquela que se pode distinguir o honesto do que o não é, o que se dá quando se adquire algum uso da razão, assim para Comunhão é aquela em que o pão eucarístico se pode distinguir do pão ordinário, o que se dá igualmente logo que se tem algum uso de razão.
  8. Assim se entenderam os principais intérpretes do Concilio de Latrão, bem como os que viveram naquela época. E da história da Igreja consta que muitos Sínodos e decretos episcopais, já desde o século XII, pouco depois do Concilio de Latrão, admitiam à Primeira Comunhão os meninos de sete anos. Temos disso uma testemunho da máxima autoridade nas palavras do Doutor de Aquino: “Quando os meninos começam a teralgum uso da razão, de maneira a poderem sentir devoção a este sacramento (a Eucaristia), então pode administrar-se-lhes o mesmo sacramento” (Sum. Theol. 3 par. Q. 80, a. 9, ad 3). Este texto é comentado por Ledesma nos seguintes termos: “Afirmo consoante o parecer unânime dos autores que a todos os que tiverem uso da razão, por muito cedo que o adquiram, se deve administrar a Eucaristia, embora o menino mal saiba o que faz” (In Tom. 3 p, q. 80, a. 9, Sub. 6). Vasquez explica assim a mesma passagem: “Apenas o menino atingir o uso da razão, está logo obrigado, por direito divino, de forma que nem a Igreja o pode de modo algum dispensar” (In 3 P. S. Thom. disp. 214, c. 4, nº 63). Tal é também a posição de S. Antonino, que escreveu: “Quando (o menino) for capaz de malícia, isto é, quando puder pecar mortalmente, está obrigado ao preceito da Confissão e por conseguinte ao da Comunhão” (P. III, tit. 14, c. 2, § 5). Para a mesma conclusão nos leva o Concilio Tridentino. Ao lembrar-nos na Sess. XXI, c. 4, que “os meninos antes do uso da razão nenhuma necessidade e nenhuma obrigação tem de comungar”, dá como única razão a de que não podem pecar, “visto que (diz o Concilio) nessa idade não podem perder a graça de filhos de Deus que receberam”. Donde se vê claramente que a idéia do Concilio é que os meninos só necessitam da Comunhão e estão a ela obrigados, quando pelo pecado podem perder a graça. E com estas palavras concordam as do Concilio Romano celebrado no Pontificado de Bento XIII, e que ensina que a obrigação de receber a Eucaristia começa “desde que os meninos e meninas chegarem à idade da discrição, isto é, à idade em que estão aptos para diferençar do pão comum e profano o alimento sacramental, que não é outro senão o verdadeiro Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, e para se aproximarem da Mesa Eucarística com a devida piedade e devoção” (Istruzione per quei che debbono la prima volta ammetersi alla S. Communione. Append. XXX, p. 11). O Catecismo Romano, exprime-se por este teor: ”Em que idade se hão de dar aos meninos os sagrados mistérios, ninguém melhor o pode determinar do que o pai e o sacerdote, a quem eles confessam os seus pecados. A estes pertencem averiguar e saber dos meninos, se já adquiriram algum conhecimento deste admirável Sacramento e se tem gosto em o receber” (P. II, De Sacr. Euchar., nº 63).

          Conclusão forçosa e necessária

  1. De tudo isso se deduz que a idade de discrição para comungar é aquela em que o menino sabe distinguir o pão Eucarístico do pão comum e corporal para poder devotamente aproximar-se do altar. Portanto não se exige um conhecimento completo das verdades da Fé, pois basta só conhecer alguns elementos, isto é,teralguns conhecimentos, nem se requer o uso perfeito e cabal da razão, pois basta um princípio, isto é, algum uso da razão. Conseguintemente, protelar para mais tarde a Comunhão, e determinar idade mais adiantada para a receber, é costume que de todo se deve reprovar, e a Sé Apostólica muitas vezes o condenou. E assim Pio IX, de feliz recordação, em carta do Cardeal Antonelli aos Bispos da França, datada de 12 de março de 1866, reprovou severamente a praxe introduzida em várias dioceses de diferir a Primeira Comunhão para idade prefixa mais adiantada. Da mesma sorte a Sagrada Congregação do Concilio, a 15 de março de 1851, corrigiu um capítulo do Concilio Provincial de Ruão, que proibia dar a Comunhão aos meninos antes dos doze anos. E também assim procedeu esta Sagrada Congregação da Disciplina dos Sacramentos na causa de Estrasburgo em 25 de março de 1910, na qual, perguntando-se se podiam ou não admitir-se à Sagrada Comunhão os meninos de doze e catorze anos, respondeu: “Os meninos e meninas, logo que chegarem aos anos da discrição, ou uso da razão, devem ser admitidos a sagrada Mesa”.

Normas a seguir

16.O que tudo visto e seriamente ponderado, esta Sagrada Congregação da disciplina dos Sacramentos, reunida em assembleia geral em 15 de julho de 1910, para acabar de todo com os mencionados abusos, e para que os meninos desde a mais tenra idade se abracem com Jesus Cristo e vivam da sua vida n’Ele encontrem preservação contra os perigos da corrupção, julgou oportuno estabelecer a seguinte  norma para ser seguida em toda parte acerca da Primeira Comunhão:

I. A idade da discrição para a Comunhão é aquela em que o menino começa a raciocinar, isto é, pelos sete anos mais ou menos. Então começa a obrigação de satisfazer a ambos os preceitos da Confissão e Comunhão.

II. Para a primeira Confissão e primeira Comunhão não é necessário um pleno e perfeito conhecimento da Doutrina cristã. O menino irá depois gradualmente aprendendo todo o Catecismo segundo a sua inteligência.

III. O conhecimento da religião que se requer no menino para a primeira Comunhão é que, segundo o seu desenvolvimento, perceba os mistérios da fé necessários por necessidade de meios (necessitate medii) e distinga o pão eucarístico do pão comum e corpóreo, de sorte que se aproxime da Eucaristia com a devoção própria da sua idade.

IV. A obrigação do preceito da Confissão e Comunhão que onera o menino recai principalmente sobre aqueles que o tem ao seu cuidado, isto é, os pais, o confessor, os mestres e o pároco. Aos pais, porém, ou aos que fazem as suas vezes, e ao confessor, é que pertence admitir um menino à primeira Comunhão.

V. Uma vez ou mais no ano, cuidem os párocos de fazer alguma Comunhão geral de meninos, chamando a ela não só as crianças que comungam de novo, mas também aquelas que já comungaram pela primeira vez por consentimento dos pais e do confessor, como dissemos. Para umas e outras haja alguns dias de instrução e preparação.

VI. Os que têm a seu cuidado as crianças devem fazer com que depois da primeira Comunhão se cheguem muitas vezes à sagrada Mesa, e, se possível for, todos os dias, conforme o desejo de Jesus Cristo e da Igreja, e que o façam com a devoção própria da sua idade. Lembrem-se aqueles, a quem pertence, do gravíssimo dever que tem de providenciar para que as catequeses públicas assistam os meninos, ou ao menos provejam de algum modo à sua formação religiosa.

VII.O costume de não admitir à Confissão, e não absolver os meninos que chegarem ao uso da razão, é absolutamente reprovado. Por isso os Ordinários dos lugares cuidem de o extirpar, empregando até os remédios do Direito.

VIII.É inteiramente detestável o abuso de não administrar o Viático e a Extrema-Unção aos meninos que chegaram ao uso da razão, e de sepultá-los à maneira das crianças. Os Ordinários dos lugares castiguem severamente aqueles que disso se não emendarem.

Conclusão

  1. O Nosso Santíssimo Senhor e Papa Pio X, em audiência de 7 do corrente mês, aprovou todas as sobreditas resoluções dos Emos. Cardeais desta Sagrada Congregação, e ordenou que se publicasse e promulgasse o presente Decreto. A todos e a cada um dos Ordinários mandou que dessem conhecimento do mesmo decreto não só aos párocos e clero, mas também ao povo, a quem Sua Santidade quer que seja lido em língua vernácula todos os anos, pelo tempo da desobriga. Os mesmos Ordinários no fim de cada período de cinco anos juntamente com o relatório dos outros negócios da diocese, deverão dar conta da observância do presente Decreto.

Não obstam quaisquer disposições em contrário.

Dado em Roma no palácio da mesma Sagrada Congregação a 8 de agosto de 1910.

†  O. Cardeal D. Ferrata, Prefeito

I. Giustini, Secretário

Deus quis que assim se procedesse quanto ao Sacramento da Confissão

Quem manda, faz leis! (Diálogo entre o discípulo e o mestre)

(Discípulo) Padre, tenha a bondade de esclarecer ainda mais alguns pontos. Antes de tudo, a Confissão é mesmo necessária para apagar os pecados?

(Mestre) Sim, a confissão é indispensável. Assim como a água é necessária para lavar as manchas, não podemos lavar e destruir os pecados sem a confissão. Foi estabelecida por Deus, e Jesus Cristo a confirmou.

(Discípulo) Não lhe teria sido possível estabelecer as coisas diferentemente?

(Mestre) Sim, podia tê-lo feito, sendo Ele Deus, mas desde que achou preferível proceder assim, não nos resta senão obedecer. De mais a mais haveria uma maneira mais fácil? Não! Suponhamos que, por exemplo, para cada pecado tivesse ordenado uma esmola grande: quantas não a achariam penosa e impossível? Suponhamos ainda que tivesse estabelecido um jejum; quantos não poderiam ou não quereriam fazê-lo? Suponhamos ainda que tivesse exigido uma longa peregrinação; quantos nesse caso, mesmo querendo, não a poderiam realizar? Mas com a confissão não há nada disso, para quem quer que seja, por qualquer pecado e número de vezes, só é necessária uma coisa: confessar-se a um Ministro, cuja escolha é livre, no modo mais secreto e tudo está perdoado. Ah! diga-me: se a lei humana ou civil agisse da mesma maneira, se bastasse apresentar-se a um juiz e confessar a culpa para receber o perdão, haveria ainda prisões e penitenciárias?

(Discípulo) Absolutamente não! todos se confessariam, mesmo os mais velhacos.

(Mestre) Por que, então, achamos penosa a confissão sacramental?

(Discípulo) Pois seja: mas não bastaria uma confissão feita diretamente a Deus? Quê necessidade há de se, correr ao Sacerdote, pondo-o ao corrente dos nossos interesses?

(Mestre) Quem manda faz leis! Ouça: O Presidente e o governo mandam que paguemos impostos; pois bem, faça uma experiência; vá à capital do país para pagar diretamente ao Presidente e ao Governo. Dir-lhe-iam: vá ter com o nosso encarregado, o coletor e pague a ele, você poderia protestar à vontade que a situação não mudaria. Querem que paguemos, mas ao coletor. O mesmo dá-se com a confissão. Deus perdoa, mas por meio dos seus encarregados, que são os confessores. Continuar lendo Deus quis que assim se procedesse quanto ao Sacramento da Confissão

Peça a Deus um diretor espiritual e conserve-o sem buscar outro

“Obedecei aos vossos superiores, porque eles velam como quem há de dar conta das vossas almas”(Hb 13, 17).

Aquele que obedece à Igreja de Cristo, não obedece a uma autoridade humana, mas ao próprio Deus, pois Ele disse: “Quem vos ouve, a mim ouve”. Jamais se perdeu uma alma com a obediência; jamais se salvou uma alma sem a obediência. (São Filipe Néri). Aquele que menospreza a obediência, diz São Bernardo, e deixa-se guiar por suas próprias luzes ou paralisar por seus temores, não precisa de demônio que o tente; ele mesmo se faz demônio para si.

Guardemo-nos de temer que um diretor prudente possa enganar-se no que nos prescreve, ou que ele não conheça suficientemente o estado de nossa consciência, porque julgamos não lha ter aberto com bastante clareza. Com semelhantes temores a obediência seria sempre eludida ou suspensa. Se o vosso diretor não vos tivesse compreendido e conhecido bem, ou se não vos tivésseis explicado com clareza, ele teria continuado a interrogar-vos. Se não o fez, é porque se acha suficientemente informado.

Não é a nós que Deus manifesta o estado de nossa alma, mas àquele que deve guiar-nos em seu lugar. Baste-te ouvir de sua boca que Continuar lendo Peça a Deus um diretor espiritual e conserve-o sem buscar outro