“Aproveitemos a oportunidade de mudar nossas vidas” – Pe. Davide Pagliarani

Carta do Pe. Davide Pagliarani, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, dirigida a todos os fiéis confinados em seus lares e que não têm mais acesso à Santa Eucaristia, devido à epidemia do coronavírus.

Caríssimos fiéis,

Neste momento de provação, certamente difícil para todos vós, gostaria de vos dirigir algumas reflexões.

Não sabemos quanto tempo durará a situação atual, nem, sobretudo, como as coisas evoluirão nas próximas semanas. Diante dessa incerteza, a tentação mais natural é buscar desesperadamente garantias e explicações nos comentários e hipóteses dos mais instruídos “especialistas”. Muitas vezes, no entanto, essas hipóteses – atualmente abundante por todos os lados – se contradizem e aumentam a confusão, em vez de trazer um pouco de serenidade. Sem dúvida, a incerteza é parte integrante desta prova. Cabe a nós saber como tirar proveito disso.

Se a Providência permite uma calamidade ou um mal, sempre o faz para obter um bem maior que, direta ou indiretamente, incide sempre  em nossas almas. Sem essa premissa essencial, corremos o risco de nos desesperar, porque uma epidemia, uma outra calamidade ou qualquer provação sempre nos acharão insuficientemente preparados.

Neste ponto, o que Deus quer que entendamos? O que Ele espera de nós nesta Quaresma em particular, quando Ele parece ter decidido quais sacrifícios devemos fazer?

Um simples micróbio é capaz de colocar a humanidade de joelhos. Na era das grandes conquistas tecnológicas e científicas, é, sobretudo, o orgulho humano que ele coloca de joelhos. O homem moderno, tão orgulhoso de suas realizações, que instala cabos de fibra ótica no fundo dos oceanos, constrói porta-aviões, usinas nucleares, arranha-céus e computadores, que depois de pisar a lua continua sua conquista até Marte, este homem é impotente diante de um micróbio invisível. O alvoroço midiático nos últimos dias e o medo que podemos ter disso não devem nos fazer perder esta lição profunda e fácil de entender, para os corações simples e puros que examinam com fé os dias atuais. A Providência ainda hoje ensina por meio de eventos. A humanidade – e cada um de nós – tem a oportunidade histórica de retornar à realidade, à realidade e não ao virtual, composto de sonhos, mitos e ilusões.

Traduzida em termos evangélicos, esta mensagem corresponde às palavras de Jesus que nos pede para permanecermos unidos, o mais próximo possível, a Ele, porque sem Ele nada podemos fazer ou resolver, qualquer problema que seja (cf. Jo 15, 5). Nossos tempos incertos, a expectativa de uma solução, o sentimento de nosso desamparo e de nossa fragilidade devem nos encorajar a buscar Nosso Senhor, implorar-Lhe, pedir Seu perdão, rezar a Ele com mais fervor e, acima de tudo, abandonar-nos a Sua Providência.

A isto se acrescenta a dificuldade, ou mesmo, a impossibilidade de participar livremente da Santa Missa, o que aumenta a dureza dessa provação. Mas resta, em nossas mãos, um meio privilegiado e uma arma mais poderosa que a ansiedade, a incerteza ou o pânico que podem causar a crise do coronavírus: trata-se do Santo Rosário, que nos liga à Santíssima Virgem e ao céu.

Chegou a hora de rezar o rosário em nossas casas de forma mais sistemática e com mais fervor do que o habitual. Não percamos nosso tempo diante das telas e não se deixemos dominar pela febre midiática. Se tivermos que observar o confinamento, aproveitemos a oportunidade para transformar nossa “prisão domiciliar” em uma espécie de feliz retiro familiar, durante o qual a oração encontre seu lugar, seu tempo e a importância que merece. Leiamos os Evangelhos por completo, meditemo-los calmamente, escutemo-los em paz: as palavras do Mestre são as mais eficazes, porque alcançam facilmente a inteligência e o coração.

Agora não é o momento de deixar o mundo adentrar nossos lares, agora que as circunstâncias e as ações das autoridades nos separam do mundo! Tiremos proveito dessa situação. Demos prioridade aos bens espirituais que nenhum germe pode atacar: acumulemos tesouros no céu, onde nem os vermes nem a ferrugem nos destroem. Pois onde está nosso tesouro, alí está também nosso coração (cf. Mt 6, 20-21).

Aproveitemos a oportunidade de mudar nossas vidas, conscientes de como nos abandonar à Providência divina. E não nos esqueçamos de rezar por aqueles que estão sofrendo nesse momento. Devemos recomendar ao Senhor todos aqueles a quem o dia do julgamento se aproxima, e pedir-Lhe que tenha misericórdia de tantos contemporâneos nossos que permanecem incapazes de tirar boas lições dos acontecimentos atuais para suas almas. Rezemos para que, uma vez superada as provações, eles não voltem à sua vida anterior, sem mudar nada. As epidemias sempre serviram para trazer os tíbios à prática religiosa, ao pensamento de Deus, à detestação do pecado. Temos o dever de pedir essa graça a cada um de nossos conterrâneos, sem exceção, incluindo – e acima de tudo – aos pastores que não têm espírito de fé e que não sabem mais discernir a vontade de Deus.

Não desanimemos: Deus nunca nos abandona. Saibamos meditar nas palavras cheias de confiança que nossa Santa Madre Igreja coloca nos lábios do sacerdote em tempos de epidemia: “Ó Deus que não quereis a morte, mas a conversão dos pecadores, volvei com bondade ao vosso povo que se volta para Vós e, enquanto fiel a Vós, livrai-o com misericórdia do flagelo de Vossa cólera ”.

Recomendo a todos ante o Altar e à paternal proteção de São José. Que Deus vos abençoe!

Pe. Davide Pagliarani +

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Coronavírus: O que a Igreja pede a Deus em tempos de epidemia?

Caríssimos fiéis,

Desde tempos imemoriais, sempre foi prática da Igreja, em tempos de calamidade pública, recorrer ao Senhor, especialmente em tempos de epidemia. Sem dúvida, esta não é a primeira e nem será a última na história da humanidade. Mas, as epidemias sempre têm algo de inquietante, já que, como os demônios, você não pode ver o que está atacando você. E assim a Igreja se volta para o bom Deus, especialmente por meio dessa missa muito antiga, que celebramos para pedir a Ele que nos proteja do mal.

O que a Igreja pede a Deus?

O que a Igreja pede com essas orações? Ela certamente pede a Deus que afaste de nós essas doenças; e, se fomos infectados, que nós as vençamos; e, se é chegada a hora da nossa morte, que nos encontre preparados. Mas não só isso: ela pede ainda a luz de Deus para que, durante esses períodos que são sempre especiais, muitas vezes marcados pela desordem social, o católico manifeste a sua fé e a sua virtude, posta à prova pela falta de confiança, egoísmo e falta de caridade. Ela também pede auxílio para todos aqueles que, especialmente entre os católicos, terão que cumprir nesses tempos seu dever de estado de modo cristão. Tenho em mente especialmente os médicos, as enfermeiras e todos aqueles que cuidam dos doentes, pois sempre foi uma das missões da Igreja cuidar dos que sofrem e dos doentes.

A Igreja também ora pelas autoridades públicas, porque esse tipo de provação, esse tipo de calamidade, exige que sejamos governados de maneira justa, com prudência, com sabedoria, mesmo se não compactuamos — longe disso — com todas as posições e opiniões daqueles que nos governam. Há momentos em que devemos pedir ao bom Senhor, como São Pedro disse tão bem, que os ilumine para que possamos nos submeter a sábios mandamentos.

O sentido desses acontecimentos

A Igreja também pede para que entendamos o significado desses eventos. Nossa primeira reação deve ser um reflexo do olhar sobrenatural e aqui, talvez o mais preocupante, caríssimos fiéis, nos dias que correm, não é tanto essa epidemia, não é tanto o que está acontecendo, mas ver que o medo entrou na Igreja, e com ele a preocupação e a falta de fé.

Não é hora de esvaziar as fontes de água benta, não é hora de fechar as igrejas, não é hora de recusar a comunhão para os fiéis ou mesmo os sacramentos para os enfermos. Ao contrário, é hora de nos aproximarmos de Deus, de entendermos o significado dessas calamidades.

Historicamente, a Igreja, por ocasião de pestes e de epidemias, realizou procissões públicas com manifestações da fé; essa tem sido uma oportunidade para a Igreja pregar a penitência. Como na belíssima passagem do Antigo Testamento que acabamos de ler na epístola: o rei Davi pecou por orgulho ao querer recensear o seu povo para ter a satisfação de saber que governava sobre uma grande nação. A conseqüência disso foi punição por Deus. Sim, porque Deus castiga como um pai pode castigar seus filhos. O castigo desse orgulho foi uma epidemia terrível, mas assim que Deus viu que os corações voltaram-se para ele, interrompeu a vingança do anjo da doença.

Tempos de penitência

É chegada a hora da penitência, a hora de retornarmos a Deus, tanto os justos como os pecadores, todos temos de fazer penitência. Deus nem sempre castiga e os acontecimentos, as calamidades, nem sempre são causadas diretamente por Deus, o que pode acontecer em casos excepcionais. São as leis da natureza que produzem essas coisas: terremotos, epidemias. Essas são as consequências do fato de que, desde o pecado original, o homem não é mais o dono de tudo. Sim, o homem não é mais o dono de tudo, caríssimos fiéis.

Mas, desde a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus disse que nos protegeria dessas calamidades públicas se lhe fôssemos fiéis. O problema hoje não é que usemos meios humanos para tentar repelir essas calamidades, isso é completamente normal, tudo isso está na ordem das coisas, o problema é que dizemos a Deus “deixe-nos em paz, vamos controlar isso”. O único que tem a situação “sob controle”, como se diz hoje, é o bom Deus. Então, o que faz Nosso Senhor? Ele nos diz: “Não querem minha ajuda? Façam então tudo sozinho”, e esta é a pior coisa, a pior coisa.

Voltemo-nos para o bom Deus

Como já disse, essa não é a primeira epidemia que o mundo enfrenta, e talvez não seja a mais grave. Pensem na gripe espanhola no final da Primeira Guerra Mundial, que causou mais de cinquenta milhões de mortos! A Igreja estava na linha de frente, se têm curiosidade, procurem os arquivos fotográficos da época. Verão as freiras que cuidavam dos doentes e que já usavam a famosa máscara da qual tanto hoje se fala, nada de novo sob o sol. Os católicos estavam na linha de frente para praticar a caridade, às vezes com o risco de suas vidas.

Esta é a oportunidade de manifestar sua fé. Durante a terrível epidemia da gripe espanhola, a Igreja continuou a celebrar o culto, os sacramentos, os sacramentais, o recurso à intercessão dos santos, a grande tradição da Igreja. Devemos fazer o mesmo, caríssimos fiéis. Não sejamos, e agora me dirijo aos padres, não sejamos como aqueles maus pastores que quando vêem ao longe o lobo — ou o vírus — fogem. Sejamos bons pastores.

Vítimas com Nosso Senhor

Sempre nos perguntamos, quando há desastres, porque os bons também são afetados. Não apenas os pecadores, mas os bons. Lembrem-se de que foi durante a terrível gripe espanhola que Jacinta e Francisco, os dois pastorinhos de Fátima, morreram em condições bastante terríveis, oferecendo suas vidas pela conversão dos pecadores. Eis uma lei que durará até o fim dos tempos: o bom Deus precisa de vítimas, vítimas que expiem em união com Aquele que é vítima por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. No Evangelho, os apóstolos questionam Jesus acerca de um massacre que se deu no templo de Jerusalém: os galileus vieram rezar, oferecer o sacrifício e, nessa ocasião, Pôncio Pilatos os massacrou. Isso intrigou os Apóstolos e os discípulos de Jesus: “Como santos que oferecem o sacrifício são massacrados? Que pecado eles cometeram para Deus castigá-los dessa maneira?”

Da mesma forma, os Apóstolos interrogaram Jesus: houve uma catástrofe em Jerusalém, uma torre desabou, a torre de Siloé, fazendo dezoito mortos, e os apóstolos se fizeram a pergunta. “Que eles fizeram para morrer assim, ao vir em peregrinação a Jerusalém, sendo esmagados assim debaixo de uma torre?” Qual é a resposta de Nosso Senhor? Disse Ele: “Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem padecido tanto? Não, eu vo-lo digo; se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo”. É isso que o Senhor diz.

As calamidades são a consequência dos pecados

As calamidades devem nos fazer pensar que, se não fizermos penitência, todos pereceremos. Deus é bom, não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva. As calamidades públicas são frequentemente a conseqüência dos pecados das autoridades públicas. Hoje em dia temos razão de nos inquietar porque, todas as leis más que se multiplicam, todas as violações da lei natural, a apostasia — mesmo na Igreja — que vemos hoje, não podem deixar o bom Deus indiferente. No Antigo Testamento, lemos que os judeus protestavam que Deus não os punia: “Não nos amais, Senhor?” … Eles preferiram o castigo de Deus ao silêncio de Deus, e esse silêncio talvez seja a pior coisa.

Caríssimos fiéis, durante todo o dia, nos aparelhos de televisão, exibe-se os dados sobre doentes e mortos, e é verdadeiramente impressionante. Mas não nos esqueçamos de que, por exemplo, recentemente na Bélgica, em um ano, três mil pessoas submeteram-se a eutanásia, são números oficiais, contam-se crianças entre elas. Não estou falando sobre o número de abortos hoje. Todos esses pecados clamam aos céus. Caríssimos fiéis, devemos pensar sobre isso, devemos fazer penitência: Deus não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva.

O modo tradicional de abordar as epidemias

Caríssimos fiéis, entre os presentes vieram alguns aqui pela primeira vez, eu os conheci nesta semana. São pessoas às quais foi negada a comunhão nas igrejas porque a reivindicaram que fosse da maneira tradicional, na boca, e elas vêm aqui porque querem a comunhão.

Aqui se vê a fraqueza, para dizer o mínimo, dos responsáveis ​​na Igreja, não todos, felizmente. Não há risco maior de espalhar o vírus pela comunhão na boca do que na mão.

Além disso, um bispo — felizmente, ainda há alguns bispos assim nos Estados Unidos — lembrou em uma carta a seus fiéis: “Consultei um comitê de especialistas, médicos, antes de redigir esta carta e eles dizem que a comunhão na boca não representa um perigo maior de propagação”.

A comunhão não é fonte da morte, mas de vida.

Os fiéis têm o direito — como há alguns anos recordou a Santa Sé — de receberem a comunhão na boca. Aqueles que estão em calamidade não são privados dos sacramentos. Portanto, digo-lhes: sintam-se em casa, porque sempre encontrarão aqui a maneira usual e tradicional da Igreja de abordar epidemias. Confie também na medalha milagrosa, use-a, leve-a, é um baluarte contra todas as tentações do diabo.

Daqui a pouco, após a Missa, todos terão a possibilidade de vir à mesa da comunhão para receber a bênção com relíquias que temos, entre outras relíquias, as de São Pio X, São Pio V, do nosso querido Santo Cura d’Ars e de São João Eudes. Também há uma relíquia de São Tomás de Aquino que celebramos hoje. Não são amuletos, mas uma forma de receber a proteção desses santos, viver no cristianismo, suportar a doença e sermos protegidos dela, se essa for a vontade de Deus.

Ser como crianças

Termino dizendo que esta doença tem uma peculiaridade, tal como a vemos hoje: aparentemente, não afeta, ou pelo menos não afeta seriamente, as crianças. Talvez haja um sinal de Deus aí, porque no Evangelho Nosso Senhor nos diz: “Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus”. Não entrar no Reino dos Céus é ser condenado, esse é o pior perigo, essa é a pior calamidade.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espirito Santo. Amém.

Reprodução do belíssimo sermão do Pe. Denis Puga – FSSPX, dado no sábado (7/3/20) na igreja de Saint Nicolas-du-Chardonnet, Paris, após a “Missa votiva para tempos de epidemia”. Fonte:https://boletim.permanencia.org.br/2020/03/11/coronavirus-uma-visao-sobrenatural/

Os motivos pelos quais Deus Pai entregou Cristo à paixão e morte

Dos ensinamentos de São Tomás extraem-se os seguintes relatos indicados para meditação do segundo domingo da Quaresma:

«O que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou» (Rm 8, 32)

Cristo sofreu voluntariamente, em obediência ao Pai. E de três modos Deus Pai entregou Cristo à paixão:

1º. Conforme sua eterna vontade, determinou a paixão de Cristo para a libertação do gênero humano, de acordo com o que diz Isaías: «O Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós» (Is 53, 6)e «O Senhor quis consumi-lo com sofrimentos» (Is LIII, 10).

2º. Porque lhe inspirou a vontade de sofrer por nós, ao lhe infundir o amor. E na mesma passagem se lê: «Foi oferecido porque ele mesmo quis» (Is LIII, 7).

3º. Por não livrá-lo da paixão, expondo-o a seus perseguidores. Assim, lemos no Evangelho de Mateus que o Senhor, pendente na cruz, dizia: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?» (Mt 27, 46), ou seja, porque o expôs ao poder dos que o perseguem.

É ímpio e cruel entregar à paixão e morte um homem inocente, contra a vontade dele. Não foi assim, porém, que Deus Pai entregou Cristo, mas sim por lhe ter inspirado a vontade de sofrer por nós. Nisso se demonstra tanto a severidade de Deus, que não quis perdoar os pecados sem a pena, o que observa o Apóstolo, quando diz: «O que não poupou nem o seu próprio Filho» (Rm 8, 32), como a sua bondade, pois, dado que o homem não podia dar uma satisfação suficiente por meio de alguma pena que sofresse, deu-lhe alguém para cumprir essa satisfação. É o que assinala o Apóstolo ao dizer: «Ele o entregou por nós todos» e a Carta aos Romanos diz: «A quem, ou seja, Cristo, que Deus propôs como vítima de propiciação, em virtude de seu sangue» (Rm 3, 25).

A mesma ação é julgada boa ou má, dependendo das diferentes fontes de que proceda. Assim, foi por amor que o Pai entregou Cristo, e o próprio Cristo se entregou; por isso, ambos são louvados. Judas, porém, o entregou por cobiça. Os judeus, por inveja. E Pilatos, por temor mundano porque temia a César. Por isso, são todos censurados.

Cristo, porém, não foi devedor da morte por necessidade, mas por caridade para com os homens, por querer a salvação dos homens, e por caridade para com Deus, por querer cumprir a sua vontade, como diz no Evangelho de São Mateus: «Não como eu quero, mas sim como tu queres» (Mt 26, 39).

III, q. XLVII, a. III

II, Dist. 20, q. I, a. V

Entramos na Quaresma. É um tempo muito precioso.

Benefícios do jejum

Por Pe. Emmanuel-André

Nestas passagens, tiradas de conferências espirituais inéditas, dadas na comunidade de monges beneditinos de Mesnil-Saint-Loup, o pe. Emmanuel ressalta com clareza, apoiando-se na liturgia, os numerosos benefícios do jejum. 

Reproduzimos estes textos aqui pois a prática do jejum na Quaresma, apesar de não mais obrigatória (salvo na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa), segue sempre recomendada, desde que a saúde o permita e que não impeça o cumprimento dos deveres de estado. 

É isso que escrevia Mons. Lefebvre aos padres da Fraternidade São Pio X em 1980: «Aconselhamos vivamente que se encoraje os fiéis à observar a abstinência todas as sextas-feiras e à jejuar nas sextas-feiras da quaresma e mesmo, se puderem, estender o jejum e a abstinência a toda quaresma e às quatro Têmporas.» 

Assim, pois, recomendados pelo pe. Emmanuel e por Mons. Lefebvre, em conformidade com a Igreja, jejuemos “pacificamente, docemente, alegremente”.

Pe. Philippe François

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Entramos na Quaresma. É um tempo muito precioso. A Quaresma é uma grande graça de Deus. Como diz são Basílio, na homilia do quarto domingo da Quaresma, o jejum merece todos os elogios. Com efeito, ele alivia o peso da carne, dá à alma como que asas para mais facilmente elevar-se a Deus. Ah! lembro-me que outrora chegava a pensar no fim da Quaresma: “pena não durar para sempre”, tanto me sentia à vontade nela. É verdade, no entanto, que não teríamos forças para tanto. Se não podemos prolongar por toda a vida este tempo de penitência, aproveitemos dele quando nos é oferecido.

Pelo jejum, nos privaremos de alguma coisa. Mas é preciso saber que o jejum não consiste tão-somente na privação. Seria ruim se assim fosse: o jejum seria um fardo acabrunhante. Portanto, lembrem-se que toda virtude consiste em duas coisas: na privação e no gozo. Ora, também é assim quanto a virtude da temperança: privamos o corpo da refeição para que a alma goze de Deus. Ah! toda alma que tem amor pelo jejum compreende o que digo. Os mundanos não compreenderão nada. Leiam o prefácio da Quaresma no rito Ambrosiano, que eu reproduzi no Bulletin (fevereiro de 1896), e verão que o jejum alimenta a fé, fortifica a esperança e faz progredir a caridade.

Quanto aos jovens que estão dispensados do jejum, rezem por aqueles que jejuam. De resto, Padres e Irmãos queridos, se queremos jejuar, peçamos a Deus que nos dê força para tanto. É a Deus que devemos pedir esta graça. Sem Deus, sem sua graça, o jejum ultrapassaria nossa boa vontade, e talvez fossemos obrigados a ceder a suas reclamações.

(Terça-feira, 18 de fevereiro de 1896 – véspera da quarta-feira de cinzas)

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(…) Considerem também que há um grande número de pobres que se sentiram muito felizes se, a cada dia, pudessem se alimentar como nós nos alimentamos na Quaresma. Então não nos queixaremos, ao contrário, alegrar-nos-emos de poder fazer um pouco de penitência. Peçamos a Deus que nos dê a graça de suportar tudo o que o jejum possa ter de duro a natureza. Lembremo-nos desta palavra que pronunciamos no último domingo: Quiddamque poenitentiae da ferre — “Dai-nos suportar alguma penitência”. Sim, é muito pouco o que somos capazes de fazer! Mas Deus se contentará com isso. Jejuamos então, pois somos pecadores: se há alguém aqui que não tem pecados a expiar, que reze por nós. O jejum nos será fácil se atentarmos para esta bela oração da Igreja: Paradisi portas aperuit nobis jejunii tempus; suscipiamus illud orantes et deprecantes, ut in die resurrectionis cum Domino gloriemur — “o tempo do jejum nos abriu as portas do paraíso; recebamos-lhe, orando e suplicando, a fim de participarmos da glória do Senhor no dia da ressurreição.”

O jejum nos deu o paraíso; que seja bem-vindo, que o recebamos com ações de graças: suscipiamus illud orantes. Ah! quando se soube domar e castigar o corpo durante a Quaresma, como a alma se alegra na Páscoa! Que alegria espiritual!

Contudo, se algum de vós estiver extenuado pelo jejum, deverá me advertir; então veremos como atender as suas necessidades. Mas, a não ser em situações extraordinárias, jejuemos pacificamente, docemente, alegremente.

(25 de fevereiro de 1896)

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No próximo domingo, no ofício de matinas, faremos esta bela oração: Paradisi portas aperuit nobis jejunii tempus; suscipiamus illud orantes et deprecantes, ut in die resurrectionis cum Domino gloriemur.

Esta oração, que só encontramos uma vez na liturgia latina, é quase diariamente repetida na liturgia da Quaresma dos Gregos. Ela é maravilhosamente bela e, ademais, reveste-se de grande interesse, pois assinala a razão fundamental do jejum.

A gula nos expulsou do Paraíso na pessoa do primeiro homem: o jejum nos faz entrar nele. Oh! Quão sublimes os resultados do jejum. Mas não basta somente jejuar: a oração deve acompanhá-lo: suscipiamus illud orantes. Sem a oração, o jejum não teria nenhuma virtude; sem a oração, ele seria até impossível. Oremos e jejuemos. No início da santa Quaresma, eu vos darei diversas orientações. Em primeiro lugar, recomendo a oração. Os que não rezam dizem que não conseguem jejuar. Eu acredito no que dizem facilmente. O corpo privado de alimento protesta pela fome: o estomago vazio se queixa. É impossível resistir a estes gritos se a alma não se elevou a Deus pela oração.

É também preciso que nosso jejum seja um jejum universal. Utamur ergo parcius verbis, cibis et potibus. — “Sejamos, pois, de maior parcimônia no uso da palavra, alimentos e bebidas.” Nós nos absteremos de violar o silêncio. É por isso que nossas constituições prescrevem que, após o jantar, cada um deve se retirar para sua célula ao sinal dado pelo sino. Á partir deste momento, até as 4 horas, é o grande silêncio, semelhante ao da noite. A cada um darei um livro; e, durante este recolhimento após o jantar, cada um lerá algumas páginas, para que a alma seja alimentada e fortificada pelas santas leituras.

Ainda uma palavra sobre o refeitório. Durante a Quaresma, quando chega a hora do jantar, o apetite se faz sentir com força: temos a sensação de que comeríamos a mesa junto com os pratos que nela estão! somos levados a comer com precipitação. Ora, isso de nada vale! quanto maior a fome, mais deve-se comer devagar. Se não observarmos esta regra de higiene, nos expomos a uma má digestão. Assim, saibam que, durante a Quaresma, será preciso um pouco mais de tempo para jantar que de ordinário. Assim, a Quaresma será útil aos nossos corpos bem como às nossas almas. Sanará tanto o primeiro como o segundo; de resto, é por isso que foi instituído, conforme testemunha a Igreja na bela oração da missa do primeiro sábado da Quaresma: Hoc solemne jejunium quod animabus corporibusque curandis salubriter institutum est. — “Este solene jejum, que foi salutarmente instituído para a cura de nossas almas e de nossos corpos.

O velho padre de Villadin, nosso venerável patriarca, costumava dizer quando se aproximava a Quaresma: “Eis que o médico vem”. Este santo padre fazia a sua quaresma abstendo-se inteiramente de carne. Tinha razão quanto ao efeito do jejum: se os homens jejuassem, evitariam uma série de doenças. Com estas pequenas observações, guardando no coração os cuidados que acabo de lembrar, espero que façam todas uma boa Quaresma. Assim seja!

(2 de março de 1897)

Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/556

Meditação para Quarta-feira de Cinzas

A lembrança da morte e o jejum quaresmal

[Por Santo Afonso Maria de Ligório]

Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.

Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.

Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.

Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.

Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos”; e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.

Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante”, a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

da obra “Meditações para todos os Dias e Festas do Ano”

Preparação para a Quaresma: que ela venha como um santo exercício que nos é proposto para nossa santificação

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

Meus caríssimos irmãos, nós estamos às portas da Quaresma. Importa para nós prestarmos atenção nesses domingos de preparação para a Quaresma, de modo que chegando a quarta-feira de cinzas, ela não venha como carnaval, ela não venha como um dia qualquer, de mundanidades, mas ela venha como realmente um início de um santo exercício, o exercício que nos é proposto todos os anos pela Igreja para nossa santificação, para nossa conversão.

A igreja compreende muito bem as dificuldades que nós temos para levar adiante todos os dias do ano a graça de Deus, uma graça vibrante, uma graça iluminada. Ela sabe que nós somos atraídos covardemente pelo demônio, pelo mundo e pela carne: os nossos três inimigos. Então a Igreja nos propõe antes daquela passagem, antes daquela ressurreição, antes da Páscoa, que é necessário um tempo de penitência. E esse tempo de penitência é para valer, não é qualquer penitência. É para nós fazermos jejuns sim, e para tomarmos a mortificação como um critério de vida e fecharmos o nosso computador e fecharmos a nossa vida de festas e de churrascos na sexta-feira – porque hoje em dia só se faz churrasco na sexta-feira. Porque não é tempo de fazer churrasco, não é tempo de diversão, é tempo de penitência. Ou será que Jesus não morreu por nós? Ou será que a cruz de Nosso Senhor é apenas uma imagem que nós colocamos no altar? Ou talvez, quem sabe, em algum canto da casa, bem escondido?

 Domingo passado, septuagésima, a Igreja nos trouxe aquelas horas do dia, diversas horas do dia, para marcar como o pecado original atuou ao longo de nossa vida, como o pecado original marcou e nos desviou do caminho do Céu. Hoje, de modo um pouco semelhante, já não são mais as horas do dia, mas são as diversas situações em que a graça de Deus, não mais o pecado – agora é a solução do pecado – a graça de Deus, vai ser dada. A semente, o Verbo, a palavra que vem do Céu, a palavra que é Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, ela nos é oferecida como remédio para este mundo enlouquecido que nos arrasta para o pecado. E se arrasta para o pecado, arrasta para o inferno. 

 Nós somos devedores de Adão e Eva, nós somos devedores do seu pecado, o pecado original. Quando nós somos batizados, apaga o pecado original, mas a natureza continua inclinada para as concupiscências, e logo ela vai pecar. Então nós necessitamos desse mistério divino. O reino de Deus é um grande mistério, e nós temos que viver dentro dele para compreendermos como que nós fazemos para escapar da avalanche, para escapar do incêndio, para escapar do terremoto, que nos conduz ao inferno.

Então o Verbo de Deus sopra sobre a Terra, desde que Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou e nós acabamos de passar pelo mistério do Natal, desde que Ele nasceu entre nós, Ele distribui a todas as nossas almas o mistério do seu Verbo, o mistério da sua palavra divina. E Nosso Senhor diz aos discípulos “para vocês que conhecem o mistério – porque eu sou o mistério, eu sou a palavra encarnada – é uma coisa, para os outros eu falo em parábolas, para que ouvindo não ouçam, ouvindo não entendam”, “porque a fé vêm pelos ouvidos”, dirá São Paulo. Isso significa que nós temos que ter os ouvidos muito atentos, os olhos muito abertos para percebermos como que essa graça vai cair sobre as nossas almas, e em que situação da vida. 

Para que a Quaresma seja verdadeiramente uma Quaresma, é necessário a prática de certas virtudes, certas virtudes que nós esquecemos, deixamos de lado.

Então vejam, a palavra de Deus sopra nas nossas almas e cai no meio da estrada, calcada pelos homens, ou seja, eles passam pela estrada e deixam de lado, ninguém presta atenção. Significa nossas almas na indiferença religiosa, nossas almas que não querem prestar muita atenção nessa história de pecado, de graça, de céu e de inferno. “Ah, não é nada disso não, nós temos que aproveitar a vida”, e vai deixando passar o tempo sem oração, sem sacrifício, sem que haja realmente uma necessidade de olhar para o Céu e dizer “eu preciso conquistar este Céu”. Para o indiferente não é bem assim. “Deus é bom, Deus vai levar todo mundo para o Céu”. Pague para ver! Qual é a chance? Toda a revelação dizendo que não é assim, enquanto o mundo atual, ou seja, um grãozinho de tempo, completamente corrompido, dizendo que não tem nada disso não, que talvez nem Deus exista. Então nós pagamos para ver. Vamos para o Céu ou vamos para o inferno? Vamos praticar a virtude ou vamos praticar o vício? O vício gostoso, ah é!  O vício dá prazer”, dá! E é isso que nós vamos fazer, porque é o que  mundo fica colocando isso na internet todo dia para a gente. Se nós fizermos isso nós pereceremos para sempre. 

Então, contra a indiferença religiosa é necessário que haja no nosso coração força, fortaleza, paciência. Dará frutos na paciência, ou seja, saber sofrer. Saber sofrer junto com a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Começa já aquele mistério da palavra divina, entrando dentro de nós, para nós dizermos “a palavra não pode cair no meio da estrada, nós não podemos ser indiferentes a ela. Nós temos que, ao contrário, levá-la para terra boa”. 

Segundo caso, que Nosso Senhor apresenta “a palavra cai no pedregulho”. A palavra cai no pedregulho, porque o nosso coração é o pedregulho, somos nós que somos o pedregulho, nossa alma é o pedregulho. Ora, o pedregulho é o símbolo do orgulho. Não é que nós não recebamos o mistério, a palavra de Deus. Nosso Senhor diz “recebeu, recebeu mas não frutificou, foi sufocado, recebeu mas não deu frutos, porque não tinha umidade”. Ora, nós também somos assim. Quando a palavra de Deus cai em nossos corações e que nós, de alguma forma nos levantamos com essa índole de ser mais do que nós devemos ser, de querer ser mais inteligentes do que podemos ser, e querer achar que nós somos muito bons porque não matamos ninguém – como hoje em dia se diz assim “eu não mato ninguém, eu sou bom, vou para o céu, eu não mato ninguém”. Não, não é assim, o orgulho é a terceira concupiscência, a soberba da vida, é o mal do século XXI. A criancinha já olha para o pai dizendo “sei mais do que você”, o jovem já chega para o professor e diz assim “ você não entende nada”, e esse orgulho vai brotando e vai crescendo. Mas Nosso Senhor diz “eu falo em parábolas, para que eles ouçam e não entendam”. E é aí que está: Eles acham que sabem, mas não sabem nada, são ignorantes! São ignorantes porque nós só podemos conhecer a verdade através do mistério do Verbo divino, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo através da sua Igreja, da sua Missa, da oração, da penitência e das alegrias espirituais da Páscoa e todo o mistério da liturgia. Então contra o orgulho, a humildade.

A humildade é a virtude que nos faz conhecermos tal como nós somos. E conhecendo a nossa miséria, conhecendo o nosso nada, conhecendo também as nossas forças e as nossas virtudes, porque Deus no-las deu, nós vamos saber ponderar e estar no lugar certo, que é o nosso. Se nós somos filhos, submissos aos nossos pais; se nós somos alunos, aprendendo com nossos professores; se nós somos súditos, obedecendo às ordens do rei.E assim dói! Então a humildade é uma virtude principalíssima na nossa conversão, é uma virtude que traz para nós a verdade sobre nós mesmos. 

Depois Nosso Senhor diz que a semente cai entre espinhos; Brota, mas junto com a semente brotam os espinhos que a sufocam, e aí as riquezas, as diversões, o mundo profano, o mundo lá de fora, o mundo que não é capela, o mundo que não é Igreja. Esse mundo que seduz a todos nós, esse mundo que com seus brilhos, com seus ouros, com suas tecnologias, que vai arrastando, arrastando, e viciando e trazendo no coração do homem esta espécie de concupiscência nova, de que não consegue se livrar de um aparelho, de que não consegue se livrar de ficar conversando, de ficar fofocando, trocando ideias, perdendo tempo, sem produzir frutos. Foi o que Nosso Senhor disse “não produz frutos”, e é a nossa vida atual, é uma vida infrutífera, porque nós estamos só ligados com as coisas superficiais, e perdendo tempo com Internet e essas coisas. Então jamais nós vamos produzir frutos. Não produzimos frutos intelectuais, porque não estudamos ainda aquilo que deveríamos estudar. A Santa Religião é um tesouro de conhecimentos e aqueles que se afastam dos critérios próprios de um católico, mesmo que estudem muito, se desviam do caminho de Deus, do Verbo, do mistério e da verdade única e gloriosa, que nós veremos face a face na vida eterna. 

Também aqueles que não produzem frutos dentro do coração, porque já não têm mais caridade. Vivem do amor próprio, vivem só pensando em si, não têm humildade, não têm a fortaleza e se perdem nas diversões do mundo, voltando todo o seu pensamento e todas as suas atitudes para si próprio. Eles chamam aí fora de egoísmo, nós chamamos de amor próprio. Amor próprio significa o falso amor de si mesmo, que nos faz considerar falsamente quem nós somos, achando que nós somos mais, que nós podemos mais e que nós amamos mais, mas na verdade só amamos a nós mesmos. São Paulo dirá “o deus deles está ao ventre”, ou seja dentro de nós mesmos, nas nossas tripas. É isso que nós amamos quando não queremos o verdadeiro amor, que é Deus. É Deus que ilumina a nossa inteligência, é Deus que nos dá uma razão de combater na paciência, que é a esperança, é Deus que nos dá um verdadeiro amor no Espírito Santo dentro de nós.

E finalmente, Nosso Senhor nos dá a solução do problema. O que Ele pede para nós? Que o nosso coração seja uma terra fecunda, seja uma terra úmida, seja uma terra limpa, arada, preparada. E a Quaresma é essa preparação. Preparada para que Ele fale, Ele sopre e caia com abundância, com o orvalho do Céu, com a chuva temporã. Essa semente para brotar dentro de nós, que Ele faz brotar, que Ele faz frutificar. Então os nossos esforços não vêm de nós, vêm D’Ele. Cabe a cada um de nós ter um coração paciente, um coração dócil, um coração entregue a esta ação divina, a esta ação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é uma ação dos sentimentos. Não é porque nós vamos ficar chorando e se lamentando ou então rindo, achando tudo muito aquecido no coração, não é assim. O verdadeiro amor de Nosso Senhor Jesus Cristo muitas vezes nos torna crucificados, por causa de uma doença, por causa de uma dificuldade que nós temos em casa, por causa de uma dificuldade que nós temos no trabalho, uma amizade que nós perdemos, tudo isso fere o nosso coração e nós sangramos com o Cristo.

É assim então, que nós temos o exemplo de São Paulo. Nessa epístola extraordinária da Sexagésima, São Paulo fala sobre ele mesmo. Parece que ele fala com orgulho, mas é a sumidade da humildade; parece que ele fala sobre as suas fraquezas, mas é a sumidade da sua fortaleza. São Paulo é o exemplo que a Igreja nos traz para tudo aquilo que ela nos ensina com essa parábola do semeador que saiu para semear a sua semente. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Niterói, 16/02/2020