Entramos na Quaresma. É um tempo muito precioso.

Benefícios do jejum

Por Pe. Emmanuel-André

Nestas passagens, tiradas de conferências espirituais inéditas, dadas na comunidade de monges beneditinos de Mesnil-Saint-Loup, o pe. Emmanuel ressalta com clareza, apoiando-se na liturgia, os numerosos benefícios do jejum. 

Reproduzimos estes textos aqui pois a prática do jejum na Quaresma, apesar de não mais obrigatória (salvo na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa), segue sempre recomendada, desde que a saúde o permita e que não impeça o cumprimento dos deveres de estado. 

É isso que escrevia Mons. Lefebvre aos padres da Fraternidade São Pio X em 1980: «Aconselhamos vivamente que se encoraje os fiéis à observar a abstinência todas as sextas-feiras e à jejuar nas sextas-feiras da quaresma e mesmo, se puderem, estender o jejum e a abstinência a toda quaresma e às quatro Têmporas.» 

Assim, pois, recomendados pelo pe. Emmanuel e por Mons. Lefebvre, em conformidade com a Igreja, jejuemos “pacificamente, docemente, alegremente”.

Pe. Philippe François

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Entramos na Quaresma. É um tempo muito precioso. A Quaresma é uma grande graça de Deus. Como diz são Basílio, na homilia do quarto domingo da Quaresma, o jejum merece todos os elogios. Com efeito, ele alivia o peso da carne, dá à alma como que asas para mais facilmente elevar-se a Deus. Ah! lembro-me que outrora chegava a pensar no fim da Quaresma: “pena não durar para sempre”, tanto me sentia à vontade nela. É verdade, no entanto, que não teríamos forças para tanto. Se não podemos prolongar por toda a vida este tempo de penitência, aproveitemos dele quando nos é oferecido.

Pelo jejum, nos privaremos de alguma coisa. Mas é preciso saber que o jejum não consiste tão-somente na privação. Seria ruim se assim fosse: o jejum seria um fardo acabrunhante. Portanto, lembrem-se que toda virtude consiste em duas coisas: na privação e no gozo. Ora, também é assim quanto a virtude da temperança: privamos o corpo da refeição para que a alma goze de Deus. Ah! toda alma que tem amor pelo jejum compreende o que digo. Os mundanos não compreenderão nada. Leiam o prefácio da Quaresma no rito Ambrosiano, que eu reproduzi no Bulletin (fevereiro de 1896), e verão que o jejum alimenta a fé, fortifica a esperança e faz progredir a caridade.

Quanto aos jovens que estão dispensados do jejum, rezem por aqueles que jejuam. De resto, Padres e Irmãos queridos, se queremos jejuar, peçamos a Deus que nos dê força para tanto. É a Deus que devemos pedir esta graça. Sem Deus, sem sua graça, o jejum ultrapassaria nossa boa vontade, e talvez fossemos obrigados a ceder a suas reclamações.

(Terça-feira, 18 de fevereiro de 1896 – véspera da quarta-feira de cinzas)

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(…) Considerem também que há um grande número de pobres que se sentiram muito felizes se, a cada dia, pudessem se alimentar como nós nos alimentamos na Quaresma. Então não nos queixaremos, ao contrário, alegrar-nos-emos de poder fazer um pouco de penitência. Peçamos a Deus que nos dê a graça de suportar tudo o que o jejum possa ter de duro a natureza. Lembremo-nos desta palavra que pronunciamos no último domingo: Quiddamque poenitentiae da ferre — “Dai-nos suportar alguma penitência”. Sim, é muito pouco o que somos capazes de fazer! Mas Deus se contentará com isso. Jejuamos então, pois somos pecadores: se há alguém aqui que não tem pecados a expiar, que reze por nós. O jejum nos será fácil se atentarmos para esta bela oração da Igreja: Paradisi portas aperuit nobis jejunii tempus; suscipiamus illud orantes et deprecantes, ut in die resurrectionis cum Domino gloriemur — “o tempo do jejum nos abriu as portas do paraíso; recebamos-lhe, orando e suplicando, a fim de participarmos da glória do Senhor no dia da ressurreição.”

O jejum nos deu o paraíso; que seja bem-vindo, que o recebamos com ações de graças: suscipiamus illud orantes. Ah! quando se soube domar e castigar o corpo durante a Quaresma, como a alma se alegra na Páscoa! Que alegria espiritual!

Contudo, se algum de vós estiver extenuado pelo jejum, deverá me advertir; então veremos como atender as suas necessidades. Mas, a não ser em situações extraordinárias, jejuemos pacificamente, docemente, alegremente.

(25 de fevereiro de 1896)

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No próximo domingo, no ofício de matinas, faremos esta bela oração: Paradisi portas aperuit nobis jejunii tempus; suscipiamus illud orantes et deprecantes, ut in die resurrectionis cum Domino gloriemur.

Esta oração, que só encontramos uma vez na liturgia latina, é quase diariamente repetida na liturgia da Quaresma dos Gregos. Ela é maravilhosamente bela e, ademais, reveste-se de grande interesse, pois assinala a razão fundamental do jejum.

A gula nos expulsou do Paraíso na pessoa do primeiro homem: o jejum nos faz entrar nele. Oh! Quão sublimes os resultados do jejum. Mas não basta somente jejuar: a oração deve acompanhá-lo: suscipiamus illud orantes. Sem a oração, o jejum não teria nenhuma virtude; sem a oração, ele seria até impossível. Oremos e jejuemos. No início da santa Quaresma, eu vos darei diversas orientações. Em primeiro lugar, recomendo a oração. Os que não rezam dizem que não conseguem jejuar. Eu acredito no que dizem facilmente. O corpo privado de alimento protesta pela fome: o estomago vazio se queixa. É impossível resistir a estes gritos se a alma não se elevou a Deus pela oração.

É também preciso que nosso jejum seja um jejum universal. Utamur ergo parcius verbis, cibis et potibus. — “Sejamos, pois, de maior parcimônia no uso da palavra, alimentos e bebidas.” Nós nos absteremos de violar o silêncio. É por isso que nossas constituições prescrevem que, após o jantar, cada um deve se retirar para sua célula ao sinal dado pelo sino. Á partir deste momento, até as 4 horas, é o grande silêncio, semelhante ao da noite. A cada um darei um livro; e, durante este recolhimento após o jantar, cada um lerá algumas páginas, para que a alma seja alimentada e fortificada pelas santas leituras.

Ainda uma palavra sobre o refeitório. Durante a Quaresma, quando chega a hora do jantar, o apetite se faz sentir com força: temos a sensação de que comeríamos a mesa junto com os pratos que nela estão! somos levados a comer com precipitação. Ora, isso de nada vale! quanto maior a fome, mais deve-se comer devagar. Se não observarmos esta regra de higiene, nos expomos a uma má digestão. Assim, saibam que, durante a Quaresma, será preciso um pouco mais de tempo para jantar que de ordinário. Assim, a Quaresma será útil aos nossos corpos bem como às nossas almas. Sanará tanto o primeiro como o segundo; de resto, é por isso que foi instituído, conforme testemunha a Igreja na bela oração da missa do primeiro sábado da Quaresma: Hoc solemne jejunium quod animabus corporibusque curandis salubriter institutum est. — “Este solene jejum, que foi salutarmente instituído para a cura de nossas almas e de nossos corpos.

O velho padre de Villadin, nosso venerável patriarca, costumava dizer quando se aproximava a Quaresma: “Eis que o médico vem”. Este santo padre fazia a sua quaresma abstendo-se inteiramente de carne. Tinha razão quanto ao efeito do jejum: se os homens jejuassem, evitariam uma série de doenças. Com estas pequenas observações, guardando no coração os cuidados que acabo de lembrar, espero que façam todas uma boa Quaresma. Assim seja!

(2 de março de 1897)

Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/556

Meditação para Quarta-feira de Cinzas

A lembrança da morte e o jejum quaresmal

[Por Santo Afonso Maria de Ligório]

Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.

Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.

Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.

Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.

Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos”; e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.

Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante”, a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

da obra “Meditações para todos os Dias e Festas do Ano”

Preparação para a Quaresma: que ela venha como um santo exercício que nos é proposto para nossa santificação

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

Meus caríssimos irmãos, nós estamos às portas da Quaresma. Importa para nós prestarmos atenção nesses domingos de preparação para a Quaresma, de modo que chegando a quarta-feira de cinzas, ela não venha como carnaval, ela não venha como um dia qualquer, de mundanidades, mas ela venha como realmente um início de um santo exercício, o exercício que nos é proposto todos os anos pela Igreja para nossa santificação, para nossa conversão.

A igreja compreende muito bem as dificuldades que nós temos para levar adiante todos os dias do ano a graça de Deus, uma graça vibrante, uma graça iluminada. Ela sabe que nós somos atraídos covardemente pelo demônio, pelo mundo e pela carne: os nossos três inimigos. Então a Igreja nos propõe antes daquela passagem, antes daquela ressurreição, antes da Páscoa, que é necessário um tempo de penitência. E esse tempo de penitência é para valer, não é qualquer penitência. É para nós fazermos jejuns sim, e para tomarmos a mortificação como um critério de vida e fecharmos o nosso computador e fecharmos a nossa vida de festas e de churrascos na sexta-feira – porque hoje em dia só se faz churrasco na sexta-feira. Porque não é tempo de fazer churrasco, não é tempo de diversão, é tempo de penitência. Ou será que Jesus não morreu por nós? Ou será que a cruz de Nosso Senhor é apenas uma imagem que nós colocamos no altar? Ou talvez, quem sabe, em algum canto da casa, bem escondido?

 Domingo passado, septuagésima, a Igreja nos trouxe aquelas horas do dia, diversas horas do dia, para marcar como o pecado original atuou ao longo de nossa vida, como o pecado original marcou e nos desviou do caminho do Céu. Hoje, de modo um pouco semelhante, já não são mais as horas do dia, mas são as diversas situações em que a graça de Deus, não mais o pecado – agora é a solução do pecado – a graça de Deus, vai ser dada. A semente, o Verbo, a palavra que vem do Céu, a palavra que é Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, ela nos é oferecida como remédio para este mundo enlouquecido que nos arrasta para o pecado. E se arrasta para o pecado, arrasta para o inferno. 

 Nós somos devedores de Adão e Eva, nós somos devedores do seu pecado, o pecado original. Quando nós somos batizados, apaga o pecado original, mas a natureza continua inclinada para as concupiscências, e logo ela vai pecar. Então nós necessitamos desse mistério divino. O reino de Deus é um grande mistério, e nós temos que viver dentro dele para compreendermos como que nós fazemos para escapar da avalanche, para escapar do incêndio, para escapar do terremoto, que nos conduz ao inferno.

Então o Verbo de Deus sopra sobre a Terra, desde que Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou e nós acabamos de passar pelo mistério do Natal, desde que Ele nasceu entre nós, Ele distribui a todas as nossas almas o mistério do seu Verbo, o mistério da sua palavra divina. E Nosso Senhor diz aos discípulos “para vocês que conhecem o mistério – porque eu sou o mistério, eu sou a palavra encarnada – é uma coisa, para os outros eu falo em parábolas, para que ouvindo não ouçam, ouvindo não entendam”, “porque a fé vêm pelos ouvidos”, dirá São Paulo. Isso significa que nós temos que ter os ouvidos muito atentos, os olhos muito abertos para percebermos como que essa graça vai cair sobre as nossas almas, e em que situação da vida. 

Para que a Quaresma seja verdadeiramente uma Quaresma, é necessário a prática de certas virtudes, certas virtudes que nós esquecemos, deixamos de lado.

Então vejam, a palavra de Deus sopra nas nossas almas e cai no meio da estrada, calcada pelos homens, ou seja, eles passam pela estrada e deixam de lado, ninguém presta atenção. Significa nossas almas na indiferença religiosa, nossas almas que não querem prestar muita atenção nessa história de pecado, de graça, de céu e de inferno. “Ah, não é nada disso não, nós temos que aproveitar a vida”, e vai deixando passar o tempo sem oração, sem sacrifício, sem que haja realmente uma necessidade de olhar para o Céu e dizer “eu preciso conquistar este Céu”. Para o indiferente não é bem assim. “Deus é bom, Deus vai levar todo mundo para o Céu”. Pague para ver! Qual é a chance? Toda a revelação dizendo que não é assim, enquanto o mundo atual, ou seja, um grãozinho de tempo, completamente corrompido, dizendo que não tem nada disso não, que talvez nem Deus exista. Então nós pagamos para ver. Vamos para o Céu ou vamos para o inferno? Vamos praticar a virtude ou vamos praticar o vício? O vício gostoso, ah é!  O vício dá prazer”, dá! E é isso que nós vamos fazer, porque é o que  mundo fica colocando isso na internet todo dia para a gente. Se nós fizermos isso nós pereceremos para sempre. 

Então, contra a indiferença religiosa é necessário que haja no nosso coração força, fortaleza, paciência. Dará frutos na paciência, ou seja, saber sofrer. Saber sofrer junto com a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Começa já aquele mistério da palavra divina, entrando dentro de nós, para nós dizermos “a palavra não pode cair no meio da estrada, nós não podemos ser indiferentes a ela. Nós temos que, ao contrário, levá-la para terra boa”. 

Segundo caso, que Nosso Senhor apresenta “a palavra cai no pedregulho”. A palavra cai no pedregulho, porque o nosso coração é o pedregulho, somos nós que somos o pedregulho, nossa alma é o pedregulho. Ora, o pedregulho é o símbolo do orgulho. Não é que nós não recebamos o mistério, a palavra de Deus. Nosso Senhor diz “recebeu, recebeu mas não frutificou, foi sufocado, recebeu mas não deu frutos, porque não tinha umidade”. Ora, nós também somos assim. Quando a palavra de Deus cai em nossos corações e que nós, de alguma forma nos levantamos com essa índole de ser mais do que nós devemos ser, de querer ser mais inteligentes do que podemos ser, e querer achar que nós somos muito bons porque não matamos ninguém – como hoje em dia se diz assim “eu não mato ninguém, eu sou bom, vou para o céu, eu não mato ninguém”. Não, não é assim, o orgulho é a terceira concupiscência, a soberba da vida, é o mal do século XXI. A criancinha já olha para o pai dizendo “sei mais do que você”, o jovem já chega para o professor e diz assim “ você não entende nada”, e esse orgulho vai brotando e vai crescendo. Mas Nosso Senhor diz “eu falo em parábolas, para que eles ouçam e não entendam”. E é aí que está: Eles acham que sabem, mas não sabem nada, são ignorantes! São ignorantes porque nós só podemos conhecer a verdade através do mistério do Verbo divino, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo através da sua Igreja, da sua Missa, da oração, da penitência e das alegrias espirituais da Páscoa e todo o mistério da liturgia. Então contra o orgulho, a humildade.

A humildade é a virtude que nos faz conhecermos tal como nós somos. E conhecendo a nossa miséria, conhecendo o nosso nada, conhecendo também as nossas forças e as nossas virtudes, porque Deus no-las deu, nós vamos saber ponderar e estar no lugar certo, que é o nosso. Se nós somos filhos, submissos aos nossos pais; se nós somos alunos, aprendendo com nossos professores; se nós somos súditos, obedecendo às ordens do rei.E assim dói! Então a humildade é uma virtude principalíssima na nossa conversão, é uma virtude que traz para nós a verdade sobre nós mesmos. 

Depois Nosso Senhor diz que a semente cai entre espinhos; Brota, mas junto com a semente brotam os espinhos que a sufocam, e aí as riquezas, as diversões, o mundo profano, o mundo lá de fora, o mundo que não é capela, o mundo que não é Igreja. Esse mundo que seduz a todos nós, esse mundo que com seus brilhos, com seus ouros, com suas tecnologias, que vai arrastando, arrastando, e viciando e trazendo no coração do homem esta espécie de concupiscência nova, de que não consegue se livrar de um aparelho, de que não consegue se livrar de ficar conversando, de ficar fofocando, trocando ideias, perdendo tempo, sem produzir frutos. Foi o que Nosso Senhor disse “não produz frutos”, e é a nossa vida atual, é uma vida infrutífera, porque nós estamos só ligados com as coisas superficiais, e perdendo tempo com Internet e essas coisas. Então jamais nós vamos produzir frutos. Não produzimos frutos intelectuais, porque não estudamos ainda aquilo que deveríamos estudar. A Santa Religião é um tesouro de conhecimentos e aqueles que se afastam dos critérios próprios de um católico, mesmo que estudem muito, se desviam do caminho de Deus, do Verbo, do mistério e da verdade única e gloriosa, que nós veremos face a face na vida eterna. 

Também aqueles que não produzem frutos dentro do coração, porque já não têm mais caridade. Vivem do amor próprio, vivem só pensando em si, não têm humildade, não têm a fortaleza e se perdem nas diversões do mundo, voltando todo o seu pensamento e todas as suas atitudes para si próprio. Eles chamam aí fora de egoísmo, nós chamamos de amor próprio. Amor próprio significa o falso amor de si mesmo, que nos faz considerar falsamente quem nós somos, achando que nós somos mais, que nós podemos mais e que nós amamos mais, mas na verdade só amamos a nós mesmos. São Paulo dirá “o deus deles está ao ventre”, ou seja dentro de nós mesmos, nas nossas tripas. É isso que nós amamos quando não queremos o verdadeiro amor, que é Deus. É Deus que ilumina a nossa inteligência, é Deus que nos dá uma razão de combater na paciência, que é a esperança, é Deus que nos dá um verdadeiro amor no Espírito Santo dentro de nós.

E finalmente, Nosso Senhor nos dá a solução do problema. O que Ele pede para nós? Que o nosso coração seja uma terra fecunda, seja uma terra úmida, seja uma terra limpa, arada, preparada. E a Quaresma é essa preparação. Preparada para que Ele fale, Ele sopre e caia com abundância, com o orvalho do Céu, com a chuva temporã. Essa semente para brotar dentro de nós, que Ele faz brotar, que Ele faz frutificar. Então os nossos esforços não vêm de nós, vêm D’Ele. Cabe a cada um de nós ter um coração paciente, um coração dócil, um coração entregue a esta ação divina, a esta ação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é uma ação dos sentimentos. Não é porque nós vamos ficar chorando e se lamentando ou então rindo, achando tudo muito aquecido no coração, não é assim. O verdadeiro amor de Nosso Senhor Jesus Cristo muitas vezes nos torna crucificados, por causa de uma doença, por causa de uma dificuldade que nós temos em casa, por causa de uma dificuldade que nós temos no trabalho, uma amizade que nós perdemos, tudo isso fere o nosso coração e nós sangramos com o Cristo.

É assim então, que nós temos o exemplo de São Paulo. Nessa epístola extraordinária da Sexagésima, São Paulo fala sobre ele mesmo. Parece que ele fala com orgulho, mas é a sumidade da humildade; parece que ele fala sobre as suas fraquezas, mas é a sumidade da sua fortaleza. São Paulo é o exemplo que a Igreja nos traz para tudo aquilo que ela nos ensina com essa parábola do semeador que saiu para semear a sua semente. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Niterói, 16/02/2020

A vitória sobre nossas tentações

Por Santo Afonso de Ligório

Para perseverarmos no bem, não devemos colocar nossa confiança nas nossas resoluções. Se contarmos com nossas próprias forças, estaremos perdidos. Para nos conservarmos na graça, devemos pôr nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo. Com sua assistência perseveraremos até a morte, ainda que combatidos por todos os poderes terrestres e infernais.

Sem dúvida alguma seremos assaltados algumas vezes por tantas e tão fortes tentações que nossa queda nos parecerá inevitável. Guardemo-nos, porém, de perder então a coragem e de nos entregar ao desespero. Recorramos com toda a pressa a Jesus Crucificado, que ele impedirá a nossa queda. O Senhor permite que até aos santos sobrevenham tais tempestades, como a São Paulo, que afirma de si: “Nós fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças a ponto de nos aborrecermos da própria vida” (2 Cor 1, 8). O apóstolo aqui mostra o que ele podia por própria força e com isso nos quer ensinar que: “ Deus, de vez em quando, nos deixa ver a nossa fraqueza, para que, melhor inteirados de nossa miséria, não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Cor 1, 9) e humildemente peçamos o seu auxílio para não sucumbirmos.

Ainda mais claramente disso fala o Apóstolo em outro lugar, dizendo: “Em tudo sofremos tribulações, porém não desanimamos. Somos embaraçados, porém não desesperamos” (2 Cor 4, 8). Sentimo-nos oprimidos pela tristeza e afligidos pelas paixões, contudo não desesperamos. Somos lançados num mar tempestuoso e não vamos ao fundo, porque o Senhor nos concede com sua graça a força de resistir a todos os nossos inimigos. Mas ao mesmo tempo o Apóstolo nos exorta a que não nos esqueçamos que somos homens fracos e frágeis, que muito facilmente podemos perder de novo o tesouro da graça divina, que só poderemos conservar pela virtude divina e não pela própria força. “Nós, porém, possuímos esse tesouro em vaso de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus e não de nós” (2 Cor 4, 7).

Ainda que, conforme o sobredito, não possamos achar em nós a força necessária para evitar o pecado, mas exclusivamente na graça de Deus, devemos empregar todo o cuidado em nos tornarmos, por culpa própria, ainda mais fracos do que já somos. Certas faltas, de que não fazemos conta, podem ser a causa de Deus nos negar a luz sobrenatural, tornando-se assim o demônio mais forte contra nós.

Tais faltas são: o desejo de passar por sábio ou nobre aos olhos do mundo, a vaidade no vestir, a busca de comodidades supérfluas, o costume de se dar por ofendido com qualquer palavra picante ou com uma simples falta de atenção, o desejo de agradar a todo o mundo à custa do bem espiritual, a negligência das práticas de piedade por respeito humano, as pequenas desobediências, pequenas aversões contra alguém, pequenas murmurações, pequenas mentiras ou caçoadas, o tempo perdido em conversas ou curiosidades inúteis, em uma palavra, todo o apego às coisas criadas, toda a satisfação do amor próprio podem oferecer ao nosso inimigo ocasião para nos precipitar ao abismo. Estas faltas, cometidas com deliberação, nos roubarão, pelo menos os socorros abundantes do Senhor, que nos preservam, sem dúvida alguma, da queda no pecado.

Da obra: Escola da Perfeição Cristã

[VÍDEO] Cerimônia de Benção da Pedra Fundamental da Capela Santo Agostinho

Clique e assista o vídeo compacto da cerimônia que foi realizada em 23 de Janeiro de 2020 por Dom Lourenço Fleichman, Diretor espiritual desta comunidade fiéis da tradição católica, comunidade amiga da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

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Constituição Dogmática Sobre A Fé Católica – DEI FILIUS

Concílio Vaticano I -Sessão III (24-04-1870) –  Papa Pio IX

Agora, porém, Nós, juntamente com todos os bispos do mundo que conosco governam a Igreja, congregados no Espírito Santo neste Concílio Ecumênico, sob a nossa autoridade, apoiados na palavra de Deus, quer escrita quer transmitida por Tradição, conforme a recebemos santamente conservada e genuinamente exposta pela Igreja Católica, resolvemos professar e declarar, desta cátedra de Pedro, diante de todos, a salutar doutrina de Cristo, proscrevendo e condenando, com o poder divino a Nós confiado, os erros contrários.

Cap I. – Deus, Criador de todas as coisas

A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber [cân. 1-4].

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