O terceiro segredo de Fátima

Conferência proferida no Vatican Symposium, em Fátima, no dia 24 de novembro de 1985.

Irmão Michel de la Sainte-Trinité

Visto que ainda não se revelou oficialmente o Terceiro Segredo de Fátima, parece evidente que não se possa conhecer o seu conteúdo. Entretanto, essa é tão-somente uma primeira impressão. Porque se é verdade que esse importantíssimo segredo permanecia absolutamente imperscrutável em 1917, quando foi revelado pela Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Aljustrel, ou em 1944, quando foi redigido por Irmã Lúcia, ou ainda em 1960, quando deveria ter sido publicamente revelado ao mundo por João XXIII, já não é assim hoje. Com efeito, ao longo de mais de quarenta anos, muitos fatos a respeito do Terceiro Segredo tornaram-se conhecidos. Eles formam um imenso volume de informações seguras com que o historiador pode traçar toda a sua história e revelar a essência do seu conteúdo. Tal foi meu intento ao escrever o terceiro volume da obra Tout la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), que se concentra no mistério do Terceiro Segredo.  Leia mais

Apresentarei a vocês uma demonstração minuciosa nesta tarde, embora o faça de forma simplificada e resumida, pois a conferência não pode ser longa. Espero, contudo, que aquilo que direi será suficiente para lhes mostrar quão importante é este último segredo de Nossa Senhora, como está colocado no coração da mensagem de Fátima e, por fim, qual o motivo da urgência de ser revelado ao mundo o quanto antes, para o bem da Igreja, como Nossa Senhora ordenou.

I. O drama do Terceiro Segredo

Foi em julho/agosto de 1941, em sua terceira memória, que Irmã Lúcia mencionou pela primeira vez a divisão do Segredo de Fátima em três partes. “(…) o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar,” escreve ela. A primeira parte revela a visão do inferno e a designação do Imaculado Coração de Maria como derradeiro recurso oferecido por Deus à humanidade para a salvação das almas: “(…) para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.” A segunda parte revela a profecia de uma milagrosa paz que Deus deseja dar ao mundo através da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, e a prática da comunhão reparadora nos primeiros sábados do mês. “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz (…)”. Há também o anúncio de terríveis punições se as pessoas persistirem em não obedecer aos pedidos. Quanto à terceira parte do Segredo, em 1941, Irmã Lúcia declarou que ainda não tinha permissão de revelá-la.

O registro e a transmissão do Segredo

O relato dramático do registro e da transmissão dessa importante mensagem começa em 1943. Nessa época, Irmã Lúcia vivia no Convento das Irmãs Dorotéias, em Tuy, Espanha. Em junho de 1943 ela de súbito cai gravemente doente. Este fato alarmou muito o Bispo de Leiria, Dom José Correia da Silva. Ele temia que Irmã Lúcia morresse antes de revelar o Terceiro Segredo e acreditava que a morte dela privaria a Igreja de uma grande graça. O Cônego Galamba, amigo e conselheiro do bispo, sugeriu-lhe então uma ideia audaz: que pedisse à Irmã Lúcia para escrever sem demora o texto do Terceiro Segredo e em seguida colocasse-o num envelope selado, para que fosse aberto posteriormente.

Atendendo ao pedido, no dia 15 de setembro de 1943, D. José Correia da Silva foi a Tuy pedir a Irmã Lúcia para escrever o segredo, “se ela quisesse”. A vidente, porém, sem dúvida inspirada pelo Espírito Santo, não se contentou com essa vaga determinação. Exigiu do bispo uma ordem formal escrita — este fato é muito importante. A mensagem final de Nossa Senhora está, bem como seus primeiros pedidos, relacionada a promessas extraordinárias. É uma graça inaudita que Deus oferece ao século XX, com o intuito de curar seus problemas urgentes. Mas é preciso que os pastores da Igreja tenham a fé e a docilidade necessárias para com os desígnios de Deus, para que sejam instrumentos dessa efusão de graça que Deus deseja deitar sobre o mundo através da terna mediação de Sua Mãe Imaculada. Em 1943, fez-se a vontade de Deus: o Bispo de Leiria ordena à vidente a redação do Terceiro Segredo.

Em outubro daquele ano, D. José Correia da Silva atendeu ao pedido do Cônego Galamba. Escreveu à Irmã Lúcia, ordenando-lhe formalmente que registrasse o segredo. Porém novas dificuldades surgiriam. Na época, Lúcia foi acometida, ao longo de quase três meses, por uma misteriosa e terrível angústia. Ela relatou que toda vez que se punha a escrever o segredo, não conseguia fazê-lo. Vê-se aqui, sem dúvidas, a última investida de satanás contra a mensageira de Maria Imaculada. O demônio previa o prejuízo que o registro do Terceiro Segredo causaria ao seu domínio sobre as almas e ao seu plano de penetrar o coração da Igreja, e essa provação enfrentada pela vidente nos revela a magnitude do ato de registrar o segredo. Na noite de Natal, Irmã Lúcia confidenciou a seu diretor espiritual que ainda não havia conseguido cumprir a ordem do bispo.

Finalmente, em 2 de janeiro de 1944 (este fato é pouco conhecido) a Santíssima Virgem apareceu uma vez mais à Irmã Lúcia. Ela confirmou à vidente que era da vontade de Deus que o segredo fosse redigido e deu-lhe a luz e a força necessárias para conseguir cumprir o que lhe fora determinado.

O imenso cuidado que Irmã Lúcia então tomou para transmitir com total segurança o texto a seu depositário, D. José Correia da Silva, é mais uma prova de como considerava importante esse documento. Ela não desejava transmiti-lo a ninguém senão  ao bispo. Foi D. Manuel Ferreira, Arcebispo de Gurza, que recebeu das mãos de Irmã Lúcia o envelope selado contendo a preciosa carta. Ele a entregou na mesma noite a D. José Correia da Silva.

A respeito da transmissão do Segredo à hierarquia eclesiástica, é preciso sublinhar quatro fatos importantes:

1. O primeiro a receber o Segredo foi D. José Correia da Silva e ele o poderia ter lido de imediato. Contudo, atemorizado com a responsabilidade que assumiria, não ousou abri-lo, preferiu não o conhecer. Concordou-se então que se D. José morresse, o envelope seria confiado ao Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa. É portanto falsa a tese — muito repetida desde 1960 — de que o Terceiro Segredo estivesse destinado explicita e exclusivamente ao Santo Padre.

2. Entretanto é verdade — e forneço inúmeras provas em meu livro — que Irmã Lúcia desejava que Pio XII conhecesse o segredo sem demora. Infelizmente, isso não aconteceu.

3. Sabendo que D. José Correia da Silva se recusara a abrir a carta, Irmã Lúcia “fê-lo prometer, nas palavras do Cônego Galamba, que esta seria definitivamente aberta e lida ao mundo ou por altura da sua morte, ou em 1960, conforme o que sucedesse primeiro.” A grande quantidade de testemunhas que relataram essa afirmação nos permite julgar tal fato como absolutamente verídico.

4. Por fim, a promessa de revelar o Segredo logo após a morte de Irmã Lúcia ou “em 1960”, sem dúvida corresponde ao pedido da Própria Santíssima Virgem. Quando em 1946 o Cônego Barthas perguntou à vidente por que seria necessário esperar até 1960, Irmã Lúcia respondeu-lhe na presença de D. José Correia da Silva: “Porque a Santíssima Virgem assim o quer.”

Em resumo, como demonstrei de forma consistente em meu livro, podemos provar com segurança que Deus desejava que os pastores da Igreja acreditassem no último Segredo de Nossa Senhora e que este fosse tornado público aos fiéis. Isto devia ter sido feito ao menos em 1944 ou no máximo em 1960, pois, como Irmã Lúcia mais tarde explicaria, “seria então muito mais claro”.

O Terceiro Segredo é transferido a Roma

Não poderei demorar-me aqui num episódio ainda misterioso na história do Terceiro Segredo: em 1957, o Santo Ofício pediu o texto e manteve-o no palácio do Bispo de Leiria. Quem tomou esta iniciativa? Com que intenção? Uma análise detalhada dos fatos permitiu-me formular uma hipótese plausível, mas que não posso ainda afirmar com certeza.

Em março de 1957, D. José Correia da Silva confiou a D. João Venâncio, Bispo auxiliar de Lisboa, a responsabilidade de entregar o precioso documento a Mons. Cento, então Núncio Apostólico de Lisboa. D. João Venâncio implorou uma vez mais a D. José Correia da Silva para que lesse o Segredo e fizesse uma cópia dele antes de enviá-lo a Roma, mas o velho bispo manteve sua recusa. D. João Venâncio, que me relatou este fato em Fátima, em 13 fevereiro de 1983, teve de se contentar em olhar o envelope, levantando-o contra a luz. Ele pôde ver no seu interior uma pequena folha de papel e mediu-a. Daí sabermos que o Terceiro Segredo não é muito longo, tem provavelmente de 20 a 25 linhas, quase o mesmo tamanho do Segundo Segredo. Isto nos permite julgar como falsos vários textos mais longos, empurrados ao público por alguns falsários como sendo o verdadeiro Terceiro Segredo de Fátima.

Em 16 de abril de 1957 o envelope selado chegou a Roma. Qual foi o seu destino? O Segredo foi colocado pelo Papa Pio XII na sua secretária pessoal, numa caixinha de madeira com a inscrição, “Segredo do Santo Ofício”. Foi Madre Pascalina[1] quem confiou isso ao jornalista Robert Serrou.

Teria Pio XII lido o Segredo? A resposta pode parecer surpreendente: é quase certo que não. Assim como Pe. Alonso, forneço vários argumentos em defesa desta conclusão; notavelmente os testemunhos do Cardeal Ottaviani e de Mons. Capovilla, secretário do Papa João XXIII, que nos afirmou que o envelope ainda estava selado quando este papa o abriu em 1959, um ano após a morte de Pio XII.

Compreende-se assim as graves palavras que em dezembro de 1957 Irmã Lúcia dirigiu ao Pe. Fuentes, então postulador das causas de beatificação de Jacinta e Francisco:

“Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem (…)”

“(…) Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados.”

Portanto não há dúvidas de que Pio XII preferiu esperar até 1960, mas morreu antes. Que grande perda para a Igreja!

A fervorosa expectativa do mundo católico

Os mais velhos devem lembrar-se que à entrada de 1960, todo o mundo católico esperava confiantemente a revelação do Segredo. E vocês, italianos aqui presentes, com certeza sabem que em 1959 havia em toda a Itália um grande movimento de devoção ao Imaculado Coração de Maria. Ao longo de vários meses, a imagem de Nossa Senhora de Fátima cruzou a Península Itálica, atraindo multidões entusiastas e irradiando por todos parte graças, fervor religioso, conversões e milagres. Em 13 de setembro de 1959, os bispos italianos consagraram solenemente seu país ao Imaculado Coração de Maria. Infelizmente, o movimento foi tão pouco encorajado por João XXIII, que o silêncio e a reserva deste papa contribuíram para esfriar aquela ardente devoção.

João XXIII lê o Terceiro Segredo e se recusa a revelá-lo

Sabemos que este papa teve em mãos o envelope do Terceiro Segredo, que lhe fora entregue em Castel Gandolfo, a 17 de agosto de 1959 por Mons. Philippe, então superior do Santo Ofício. Deve-se notar que a transmissão do Segredo ao Soberano Pontífice teve, portanto, um caráter oficial e reuniu ao seu redor certa solenidade, o que demonstra o prestígio de que a mensagem de Fátima desfrutava naquela época. João XXIII não abriu o envelope de imediato. Contentou-se em declarar: “vou esperar para lê-lo com meu confessor.” Mons. Capovilla afirma que poucos dias depois o papa leu o segredo.

Mas devido a dificuldade de compreender certas expressões peculiares à língua portuguesa, pediu-se ajuda ao tradutor de português da Secretaria de Estado, Mons. Paulo José Tavarez, que mais tarde se tornou Bispo de Macau. Tempos depois, João XXIII leu o segredo para o Cardeal Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício.

Abramos um parêntese aqui. Sabemos que cabe a Hierarquia julgar “revelações privadas.” Em 1960, estava claro que a Igreja já havia reconhecido oficialmente a autenticidade divina das aparições de Fátima. Seguindo a ordem da Santíssima Virgem transmitida por Irmã Lúcia, os dois prelados responsáveis, o Bispo de Leiria e o Patriarca de Lisboa haviam se encarregado publicamente de revelar todo o conteúdo do Segredo no máximo em 1960. Por mais de 15 anos, as autoridades eclesiásticas não emitiram nenhuma declaração que refutasse essas reiteradas promessas, ecoadas em todo o mundo por cardeais, bispos e estudiosos da mensagem de Fátima, como Cônego Galamba, Cônego Barthas ou Pe. Messias Dias Coelho. A revelação dos dois primeiros segredos em 1942 — com o consentimento de Pio XII — é mais uma prova da aceitação da mensagem. Compreende-se, portanto, que os fiéis esperassem fervorosamente a prometida revelação pelas autoridades eclesiásticas. No mínimo, o Santo Padre deveria se pronunciar de maneira direta e clara a respeito do assunto.

Em 8 de fevereiro de 1960, divulgou-se através de uma agência de notícias um comunicado anunciando que o Terceiro Segredo de Fátima não seria revelado. Foi uma decisão anônima e irresponsável. Quais razões a motivaram? O comunicado do Vaticano apresentava desculpas inconsistentes e até contraditórias: “Embora a Igreja reconheça as aparições de Fátima, Ela não deseja tomar a responsabilidade de garantir a veracidade das palavras que os três pastorinhos disseram ter ouvido da Virgem Maria.” Portanto, ao que parece, o Vaticano não apenas adotou a posição insustentável do Padre Dhanis (a exposição e análise detalhada desta tese incoerente está no primeiro volume de minha obra), mas esse comunicado foi ainda mais longe, porque lançou publicamente e sem razões aceitáveis as suspeitas mais ignominiosas sobre Irmã Lúcia e toda a mensagem de Fátima!

Segundo Mons. Capovilla, consultaram-se vários prelados romanos. Mas se sabe que os peritos portugueses foram negligenciados de forma criminosa. D. João Venâncio e o Cardeal Cerejeira não foram consultados ou sequer notificados por Roma.

Ao se reler e analisar esse lamentável comunicado de 8 de fevereiro de 1960, ou, indo mais longe, ao se estudar o infeliz artigo publicado em junho pelo Pe. Caprile em Civiltà Cattolica, fica-se chocado com os inúmeros exemplos de incoerência, equívocos e mentiras pronunciados pelas autoridades romanas que estavam encarregadas da questão de Fátima. Isto nos mostra o quão injustificável e irresponsável foi a decisão de não atender à vontade da Virgem Imaculada, Rainha dos Apóstolos, que pediu a revelação do seu segredo em 1960. É certo também que prejudicou muito a causa de Fátima. Pode-se dizer que foi a partir de então, após o desdém público do “Segredo de Maria” que a devoção a Santíssima Virgem começou a declinar de forma alarmante no próprio seio da Igreja Católica. Mais que nunca, as palavras de Irmã Lúcia fizeram sentido: “A Santíssima Virgem está triste, pois ninguém faz caso de sua mensagem.” E esse desprezo, deve-se dizê-lo, causou danos incalculáveis. Porque ao se desprezarem as profecias e os pedidos de Fátima, ridicularizou-se ante o mundo inteiro a Própria Santíssima Virgem e o Próprio Deus. Como conseqüência, tornou-se inevitável a realização do trágico castigo que fora advertido condicionalmente pela Virgem Imaculada. 

II – O conteúdo do Terceiro Segredo

O Cardeal Ottaviani relatou que o Papa João XXIII colocou o Segredo “num desses arquivos que são como um poço muito profundo e escuro, ao fundo do qual caem papéis e ninguém os consegue ver mais.” Sabemos muito bem o que aconteceu ao manuscrito de Irmã Lúcia. Pode-se até descobrir o seu conteúdo essencial. Que diz Nossa Senhora neste aviso que nos deu em 13 de julho de 1917? Podemos afirmar quatro fatos a respeito do Segredo, que nos permitirão progredir na descoberta do seu mistério.

►Primeiro fato essencial: Sabemos o contexto do Terceiro Segredo. Para falar com precisão, na verdade só há um segredo, revelado por inteiro em 13 de julho de 1917. Até o momento conhecemos três das quatro partes. Sabemos o começo, as primeiras duas partes do Segredo, e o final, que consiste na conclusão: “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará, o Santo Padre consagrará a Rússia a Mim, esta será convertida e será concedido ao mundo algum tempo de paz.” É neste contexto já conhecido, seguindo o “etc.” no texto que a própria Irmã Lúcia escreveu sobre a segunda parte do Segredo, que se insere a terceira parte. Este é o primeiro fato, que nos serve de bússola na investigação do seu conteúdo. O que vem em seguida deve corresponder ao contexto e concordar harmoniosamente com o todo da Mensagem de Fátima, cuja coerência é absolutamente extraordinária.

► Segundo fato importante: Se as circunstâncias em que foi revelado nos provam a sua unidade fundamental, as circunstâncias dramáticas em que foi registrado nos revelam a sua trágica gravidade.

► Terceiro fato esclarecedor: É apenas por causa do seu conteúdo que desde 1960 os últimos papas tem se recusado a revelá-lo.

João XXIII recusou-se a revelá-lo, como já vimos, não obstante a grande expectativa de todo o mundo católico. Paulo VI adotou a mesma atitude. Eleito Papa em 21 de junho de 1963, pouco tempo depois pediu para ler o texto. Isto prova sua preocupação para com a mensagem. Como não se sabia que destino João XXIII havia dado ao texto, questionou-se o seu secretário, Mons. Capovilla, o qual indicou o local em que o manuscrito fora guardado. Paulo VI certamente leu o texto na ocasião, mas preferiu não o comentar. No entanto, em 11 de fevereiro de 1967, ano de comemoração de 50 anos das aparições, o Cardeal Ottaviani, em nome do papa, fez uma longa declaração sobre o assunto do Terceiro Segredo de Fátima, para explicar por que ainda não seria revelado. Em meu livro, cito e analiso esse texto. Seguindo os peritos portugueses, sou forçado a afirmar que, para justificar a qualquer preço a ocultação do Segredo, o Prefeito do Santo Ofício, fiador supremo da verdade na Igreja, foi compelido a multiplicar uma massa de incoerências e inverdades. E, lamentavelmente, veremos que as desculpas dadas em 1984 pelo seu sucessor, o Cardeal Ratzinger, não são menos inconsistentes.

O Papa João Paulo I era muito devoto de Nossa Senhora de Fátima; fez uma peregrinação à Cova da Iria em 1977, e um fato muito interessante é que Irmã Lúcia pediu para se encontrar com ele. O então Cardeal Luciani dirigiu-se ao Carmelo de Coimbra e conversou demoradamente com a vidente. Estou persuadido de que Irmã Lúcia falou-lhe sobre o Terceiro Segredo e lhe revelou o seu conteúdo. O segredo muito o impressionou. Ao retornar a Itália informou seu séquito sobre o impacto que o segredo lhe causara e sobre a gravidade da mensagem. Depois falou e escreveu sobre Fátima em termos vigorosos e expressou sua admiração e total confiança em Irmã Lúcia, a quem certamente considerava santa. (No quarto volume de minha obra darei todas as provas desses fatos não publicados.[2]) Quando se tornou Papa, desejava preparar a opinião pública antes de agir. Desgraçadamente, morreu antes de poder dizer qualquer coisa.

João Paulo II, antes de fazer uma peregrinação a Fátima em 13 de maio de 1982, pediu a um tradutor português da Cúria que o ajudasse a entender certas expressões peculiares ao idioma lusitano contidas no Segredo. Portanto ele também leu o Terceiro Segredo e preferiu não o tornar público.

Por fim, sabemos que o Cardeal Ratzinger também o leu, pois confiou que o havia feito ao jornalista italiano Vittorio Messori. Ratzinger falou sobre o segredo em duas ocasiões: em novembro de 1984 e em junho de 1985, aludindo ao seu conteúdo em termos bastante diversos, o que para nós é significante. Em meu livro publiquei e comentei as sinopses das duas versões publicadas.

► Quarto fato principal: Desde 1960, a profecia do Terceiro Segredo tem se desdobrado no tempo presente, diante de nossos olhos. Há de fato um itinerário, uma crônica da realização das profecias de Fátima. Por outro lado, é certo que ainda não chegamos ao tempo de conclusão do Segredo. Por quê? Porque a Rússia ainda não foi consagrada ao Imaculado Coração de Maria[3], como devia ter sido feito, e um dia o será. Irmã Lúcia deixou isso claro mesmo depois do Ato de Consagração feito por João Paulo II em 25 de março de 1984. A Rússia ainda não foi convertida e o mundo não está em paz, longe disso! Portanto ainda não chegamos ao fim da profecia.

Os eventos anunciados no Terceiro Segredo não tratam só do nosso futuro, pois temos outra marca para nos guiar: 1960. A Santíssima Virgem pediu que o Segredo fosse tornado público em 1960 porque Irmã Lúcia disse ao Cardeal Ottaviani: “Em 1960, será mais claro.” Ora, a única razão que torna uma profecia mais compreensível a partir de certa data é, sem dúvida, o começo de sua realização. Além disso, em outra ocasião Irmã Lúcia afirmou que “os castigos preditos por Nossa Senhora no Terceiro Segredo já começaram.”

Tendo sido determinado o terminus a quo (ponto de partida) e o terminus ad quem (ponto de término) da profecia, podemos garantir que estamos presentemente no período do qual fala Nossa Senhora. Estamos vivenciando o Terceiro Segredo. Estamos testemunhando os eventos que ele anuncia.

Falsos segredos e falsas hipóteses

Baseando-nos nesse material confiável, podemos descartar toda a série de falsos segredos que foram sucessivamente publicados ao longo de 25 anos. Cito-os em meu livro e demonstro, por exemplo, que o mais famoso deles, o “Segredo” divulgado em 1963 pela revista alemã Neues Europa e reimpresso em várias revistas, é uma farsa. Há nele erros monstruosos que provam suficientemente a sua falsidade. Além do mais, embora seja discutível, falam-nos sobre pequenos “extratos” do verdadeiro segredo. Esses “extratos” possuem tamanho pelo menos quatro vezes maior do que o que seria suficiente para caber na folha de papel em que Irmã Lúcia escreveu todo o Terceiro Segredo[4].

Podemos desconsiderar também muitas falsas hipóteses. Certamente, não se trata apenas de “um convite à oração e penitência”, como o Pe. Caprile ousa afirmar! A Santíssima Virgem não teria pedido que Irmã Lúcia esperasse até 1944 ou 1960 para divulgar uma mensagem que repetisse palavra por palavra Sua mensagem pública de 13 de outubro de 1917! Não faz sentido!

Também não se trata de um assunto feliz: é certo que o Terceiro Segredo de Fátima não está de acordo com a visão otimista de João XXIII, proclamando que o Concílio Vaticano II seria um “novo pentecostes, uma nova primavera na Igreja!” Se se tratasse disso, ele mesmo ou seus sucessores já nos teriam revelado o segredo. “Se o segredo fosse agradável”, disse o Cardeal Cerejeira, “teria sido revelado. Como não nos disseram nada, podemos ter certeza de que ele é triste.” Sim, é evidente que o seu conteúdo é grave e trágico.

Não se trata também do anúncio do fim do mundo, já que a profecia de Fátima termina com uma promessa maravilhosa e incondicional, que deveria ser constantemente lembrada, por ser uma fonte de grande esperança: “Por fim, Meu Imaculado Coração triunfará, o Santo Padre consagrará a Rússia ao meu Imaculado Coração, ela será convertida, e um período de paz será dado ao mundo.”

Seria o anúncio de uma Terceira Guerra Mundial? Ou de uma guerra nuclear? Seria razoável pensar que sim, já que a profecia não faria senão confirmar as análises políticas mais lúcidas. Teria a Santíssima Virgem predito essa horribilíssima guerra, que nos ameaça de forma tão dramática? Assim como o Pe. Alonso, tenho certeza de que este não é o ponto central do Terceiro Segredo. Afirmo-o por uma razão segura: o prenúncio de castigos materiais, de novas guerras e perseguições contra a Igreja constitui o conteúdo do Segundo Segredo. Meditemos na gravidade destas palavras: “Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas (…)”, “a Santíssima Virgem repetidas vezes nos disse, confidenciou Irmã Lúcia ao Pe. Fuentes, que várias nações desaparecerão da face da terra. Disse que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação.” É por isso que se deve temer que a palavra “aniquilar” tenha sido empregada em seu sentido literal: reduzir a nada, destruir totalmente. Improvável em 1917, essa catastrófica ameaça não mais está distante de nós hoje, na Era Nuclear.

Está claro: todos os castigos materiais que ainda nos ameaçam, mesmo os mais aterrorizantes, como uma guerra nuclear ou a expansão do comunismo por todo o globo, foram preditos por Nossa Senhora no Segundo Segredo, e nós sabemos os meios sobrenaturais para preveni-los antes que seja tarde. Estamos seguros de que nada disso se repete na terceira parte do Segredo, como também crê o Pe. Alonso. Se nele houver alusão a castigos materiais, este não é o seu ponto central. Com efeito, já que o Segredo é composto de três partes interligadas, mas distintas, e tendo o Céu estabelecido datas diferentes para revelá-las, podemos estar certo de que a terceira parte não irá repetir — numa folha de poucas linhas — exatamente a mesma coisa que a segunda parte.

Castigo espiritual

É certo que o Terceiro Segredo se refere essencialmente a um castigo espiritual. Muito pior, ainda mais temível que a fome, a guerra, a perseguição, pois se refere às almas, a sua salvação ou danação eterna. O Pe. Alonso, em 1966 nomeado arquivista de Fátima por D. João Venâncio, provou ser esse o conteúdo do Terceiro Segredo. Ele tratou do assunto num dos volumes de sua grande obra crítica, formada por 24 tomos, cuja publicação, infelizmente, foi proibida. Porém, antes de morrer em 12 de dezembro de 1981, conseguiu divulgar suas conclusões em vários panfletos e artigos em jornais teológicos.

A minha pesquisa permitiu-me tão-somente clarificar, completar, especificar a tese dele, provada pela publicação de novos documentos.

Eis o mais importante destes: em 10 de setembro de 1984, D. Alberto Cosme do Amaral, o atual Bispo de Leiria, em Fátima, na Aula Magna (auditório) da Universidade Técnica de Viena, declarou no momento das perguntas:

“O conteúdo do Terceiro Segredo diz respeito unicamente à nossa Fé. Identificar o Segredo com proclamações catastróficas ou com um holocausto nuclear é deformar o significado da Mensagem. A perda de fé de um continente é pior do que a aniquilação de uma nação; e a verdade é que a Fé está continuamente a diminuir na Europa.”

Por 10 anos, o Bispo de Leiria manteve-se em silêncio a respeito do conteúdo do Terceiro Segredo. E no momento em que ele abre a boca e faz uma declaração pública tão resoluta, podemos ter a certeza de que não a fez sem ter antes consultado Irmã Lúcia. Podemos estar seguros disso, pois, em 1981, ele já havia refutado alguns falsos segredos, e afirmou ter consultado a vidente sobre a questão. Estou querendo dizer que a tese do Pe. Alonso foi agora publicamente confirmada pelo Bispo de Fátima: Trata-se da terrível crise da IgrejaA Virgem Imaculada estava a nos predizer sobre a perda da Fé em nossa era, caso Seus pedidos não fossem atendidos: eis o drama que temos testemunhado desde 1960.

Tendo dito o essencial, contentar-me-ei agora em mencionar os estágios principais de minha prova quanto ao verdadeiro conteúdo do Terceiro Segredo.

A perda da Fé

No primeiro capítulo do livro, dou as razões que provam que o Terceiro Segredo trata especificamente da perda da Fé. Na verdade, sabemos apenas o seu contexto. Irmã Lúcia desejava nos indicar a primeira sentença dele, “em Portugal o dogma da Fé será sempre preservado, etc.” Esta frase curta, que por certo foi acrescentada de propósito pela vidente quando registrou o segredo pela segunda vez em suas Memórias, é muito significativa. Indica-nos, discretamente, a chave do Terceiro Segredo.

Eis o comentário sensato do Pe. Alonso: “Em Portugal o dogma da fé será sempre preservado. Essa frase implica claramente o estado crítico em que se encontrará a fé em outras nações. Significa que haverá uma crise de fé, enquanto Portugal salvará sua fé. Por conseguinte, no período que precede o grande Triunfo do Imaculado Coração de Maria, ocorrerão as coisas terríveis que são objeto da terceira parte do Segredo. Quais delas? Se, ‘em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé,’ pode-se claramente deduzir destas palavras que em outros lugares da Igreja estes dogmas vão tornar-se obscuros ou chegarão mesmo a perder-se.”

A maioria dos peritos advoga essa interpretação: Pe. Martin dos Reis, Cônego Galamba, D. João Venâncio, Pe. Luiz Kondor, Pe. Messias Dias Coelho. No dia 18 do último mês de outubro, no decurso de uma conferência que proferiu em Paris, Pe. Laurentin também declarou ser a favor desta solução. Lembremos que até mesmo o Cardeal Ratzinger se posicionou de tal maneira a Vittorio Messori, ao dizer que o Terceiro Segredo tratava “dos perigos que ameaçam a fé e a vida dos cristãos.” Finalmente, como há pouco dissemos, o atual Bispo de Fátima é ainda mais explícito em sua adesão a essa teoria. Ele deixa subentendido que é uma crise de fé, que atingirá várias nações e continentes inteiros… a Sagrada Escritura dá um nome para tamanha deserção: Apostasia. É possível que esta palavra seja mencionada no texto do Segredo.

Os erros e o castigo dos pastores

No segundo capítulo do livro, demonstro que há mais: o Terceiro Segredo certamente insiste na grave responsabilidade das almas consagradas, dos padres, e até dos próprios bispos nessa inaudita crise de fé que atinge a Igreja há 25 anos. Forneço diversas provas disso, indicações claras. Alegro-me aqui em lhes citar o Pe. Alonso:  “É portanto muito provável que o texto do Terceiro Segredo faça alusões concretas a crise de Fé dentro da Igreja e à negligência dos próprios pastores.” Ele também fala a respeito de “lutas dentro do seio da Igreja e de grave negligência pastoral pela alta hierarquia,” e de “deficiências da alta hierarquia da Igreja.”

Estas seríssimas palavras do Pe. Alonso certamente não foram postas em papel sem que se considerasse com cuidado o seu impacto. Como arquivista oficial de Fátima, após 10 anos de pesquisas e várias entrevistas e conversas com Irmã Lúcia, teria ele adotado uma postura tão firme num assunto tão grave sem ter recebido o consentimento da vidente? A resposta não deixa margens a dúvidas.

Essa declaração sobre as deficiências da Hierarquia explica a constante preocupação dos três videntes em rezar, rezar muito e sacrificar-se sem cessar pelo Santo Padre; explica também os três meses de insuportável agonia que Irmã Lúcia teve de enfrentar antes de conseguir registrar o segredo. Por fim, explica por que os papas, desde o otimista João XXIII, hesitaram, atrasaram e deixaram de lado a publicação do Terceiro Segredo, buscando ocultá-lo a todo custo.

Uma onda de desorientação diabólica

No terceiro capítulo, mostro que Irmã Lúcia ecoou o tema do Terceiro Segredo em algumas de suas palavras e cartas, nas quais enfatiza a ação do demônio em nossa era. Já em 1957, ela confiava ao Pe. Fuentes, “(…) o demônio está travando uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E como o demônio sabe o que é que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também as almas dos fiéis desamparadas pelos seus chefes, e mais facilmente se apodera delas.”

Mas é especialmente numa série de cartas escritas entre 1969-1970, pouco conhecidas mas de grande importância, que Irmã Lúcia usa expressões impressionantes para descrever a atual crise da Igreja. E, não deixemos de notar que por meio da mão de uma alma tão humilde e submissa à autoridade, tais expressões graves certamente ecoam as palavras escutadas dos lábios da própria Santíssima Virgem, em sua mensagem final a respeito da proteção da fé e do bem-estar da Igreja.

“Vejo pela sua carta,” escreve ela a um padre, “que estás preocupado com a desorientação de nosso tempo. É triste, de fato, que tantas pessoas se deixem dominar pela onda diabólica que está varrendo o mundo e que estão tão cegos a ponto de serem incapazes de ver o erro! A principal falta é que abandonaram a oração, e deste modo distanciaram-se de Deus, e sem Deus, falta tudo. O demônio é muito astuto e busca nossos pontos fracos querendo nos derrubar. Se não formos diligentes e cuidadosos para obter forças de Deus, certamente iremos cair, pois nosso tempo é muito perverso e nós somos fracos. Apenas a força de Deus pode nos sustentar.”

Numa carta a uma amiga que está zelosamente envolvida na defesa da devoção mariana, Irmã Lúcia escreve:

Nossa Senhora pediu e recomendou que se reze o Terço todos os dias, repetindo o mesmo em todas as aparições, como que prevenindo-nos para que, nestes tempos de desorientação diabólica, não nos deixemos enganar por falsas doutrinas… Infelizmente, em questões religiosas, a maioria das pessoas é ignorante e se permitem ser levadas por qualquer coisa. Daqui, a grande responsabilidade daquele que tem o dever de conduzi-las… É uma desorientação diabólica que está invadindo o mundo, perdendo as almas! É preciso fazer frente ao demônio.” 

Em 16 de setembro de 1970 ela escreve a uma religiosa amiga[5]:

“Pobre Senhor, que nos salvou com tanto amor, e tão pouco compreendido é! Tão pouco amado! Tão mal servido! É doloroso ver tanta desorientação, e em tantas pessoas que ocupam lugares de responsabilidade!… Temos nós, tanto quanto nos seja possível, que procurar reparar, por uma união cada vez mais íntima com o Senhor, identificar-nos com Ele, para que Ele seja, em nós, a luz de um mundo mergulhado nas trevas do erro, da imoralidade e do orgulho. Faz-me pena ver o que me diz, do que também já por aí se passa!… É que o demônio tem conseguido infiltrar o mal, com capa de bem, e andam cegos a guiar outros cegos, como nos diz o Senhor no seu Evangelho; e as almas vão-se deixando iludir…  De boa vontade me sacrifico, e ofereço a Deus a vida; pela paz da Sua Igreja, pelos sacerdotes e por todas as almas consagradas, sobretudo por aquelas que andam tão iludidas e tão transviadas!” 

Para a confidente de Nossa Senhora, o demônio não está apenas neste mundo “decadente”, “mergulhado nas trevas da imoralidade e do orgulho.” O demônio está presente também na própria Igreja, onde tem seus “seguidores” e “partidários”, que estão sempre “avançando com intrépida audácia.” Diante deles, há muitas “pessoas tíbias” que não têm coragem de lhes fazer frente. Demais, não se trata apenas de tibieza ou de negligência pastoral. Irmã Lúcia afirma implicitamente que é a própria Fé que está sob ataque. Ela fala de “falsas doutrinas” e de “confusão diabólica”, de “cegueira” entre os que “possuem grandes responsabilidades” na Igreja. Ela lamenta o fato de tantos pastores “se deixarem dominar pela onda diabólica que está invadindo o mundo.” Acaso há forma mais exata de descrever a atual crise da Igreja? É a crise de uma Igreja que decidiu pactuar com um mundo em que reina Satanás.

Irmã Lúcia insiste, “A Santíssima Virgem sabia que esses tempos de desorientação diabólica chegariam.” Estas palavras da vidente, além de muitas outras que poderíamos citar, serão explicadas com clareza, e colocadas em proeminência, se em 13 de julho de 1917, no seu Terceiro Segredo, a Virgem tiver predito especificamente essa “desorientação diabólica” que de súbito invadiria a Igreja caso Seus pedidos não fossem atendidos.

A grande apostasia

Certa vez, em que a questionaram sobre o conteúdo do Terceiro Segredo, Irmã Lúcia disse: “Está no Evangelho, no Apocalipse, leia-o.” Ela confiou ao Pe. Fuentes que a Santíssima Virgem fê-la ver com clareza que “estamos no final dos tempos”. Isto não significa, é preciso dizê-lo, que estamos no tempo do fim do mundo e do Juízo Final, pois que antes há de vir o Triunfo do Imaculado Coração de Maria. O próprio Cardeal Ratzinger, aludindo discretamente ao conteúdo do Segredo de Fátima, mencionou três elementos importantes: “Os perigos que ameaçam a Fé”, “a importância do fim dos tempos” e o fato de que “a profecia contida no Terceiro Segredo corresponde ao que foi anunciado na Escritura.” Sabe-se que Irmã Lúcia indicou os capítulos 8 e 13 do Apocalipse.

É por isso que, nos dois últimos capítulos de meu livro trato dos ensinamentos de Nosso Senhor, de São Paulo e São João — tão ignorados hoje — anunciando as conturbações, a heresia e por fim a grande apostasia que se desencadeará na Igreja nos “tempos derradeiros”. E a comparação objetiva entre as profecias da Escritura — particularmente as do Apocalipse — e a grande profecia da Virgem de Fátima na aurora deste século contêm, de fato, paralelos numerosos e aterradores.

III – É preciso dar ouvidos a Nossa Senhora!

Já dissemos o suficiente para se compreender que não há nada tão importante, tão necessário e tão urgente do que tornar conhecido sem demora, a todos os fiéis da Igreja, o texto completo do Segredo de Maria, em sua límpida veracidade e em sua riqueza profética e transcendente. Seria apropriado aqui citar as numerosas razões que salientam a urgência de sua divulgação. Ficarei satisfeito de mencionar os pontos principais no final desta conferência:

Por que revelar o Terceiro Segredo?

► “Porque a Santíssima Virgem o quer.” Sabemos, com efeito, que Sua vontade não mudou de maneira alguma desde o momento da graça em 13 de julho de 1917, quando revelou o Segredo aos três pastorinhos, tampouco mudou depois de 2 de janeiro de 1944, quando apareceu a Irmã Lúcia no convento de Tuy e pediu-lhe para redigi-lo. Nossa Senhora deseja que esse oráculo profético seja revelado, que seja conhecido. E sabe-se que Irmã Lúcia, Sua Mensageira, continua a pedir a sua revelação pública, e até onde lhe foi permitido, ela o fez de forma enfática aos superiores eclesiásticos.

► Pelo bem das almas. Ao contrário do que diz a tão repetida mentira, o Segredo não está destinado exclusivamente ao Santo Padre. Tal como os dois primeiros segredos, ele está destinado a todos os fiéis. Como filhos da Igreja, somos filhos de Maria. Todos nós temos o direito de conhecer a advertência salutar que Nossa Mãe Celestial nos dirige neste momento perigoso, a fim de nos ajudar — a nós, nossas crianças, nossos próximos — a manter intacta e viva em nossos corações a verdadeira Fé católica recebida de nossos antepassados.

► Enquanto este Segredo não for revelado, continuará a trágica ameaça contra a paz no mundo. Explicarei melhor. Estamos convictos de que enquanto a Rússia não for consagrada ao Imaculado Coração de Maria, como Deus quer, a Rússia não se converterá. E enquanto não tiver sido convertida, libertada do seu ateísmo e bolchevismo opressor, e do domínio das forças satânicas que a escravizam, permanecerá a ameaça de um apocalipse nuclear. Deus desejou que a paz do mundo dependa, em nosso século, de uma obediência filial e fervorosa do papa e dos bispos aos pedidos de sua Mãe Santíssima, que apareceu em Fátima. Ora, este ato de fé, de docilidade confiante para com a Medianeira Imaculada, através do qual nossos pastores devem realizar a consagração da Rússia, pressupõe também, e devo dizer até mesmo antes de tudo, a aceitação e a revelação pública do Segredo. É uma lição de História: desde 1960, o encobrimento deliberado e desdenhoso do Segredo de Nossa Senhora tem andando de mãos dadas com a recusa inflexível de realizar devidamente Seus outros pedidos. Por outro lado, a publicação do Terceiro Segredo será o sinal claro de que a Igreja oficialmente reconheceu a autenticidade divina e a importância da Mensagem de Fátima no seu todo. Um dos maiores obstáculos da consagração da Rússia será então derrubado!

► Para o bem da Igreja. No momento em que a Igreja enfrenta a pior crise de sua história, em que heresias de todos os matizes são ensinadas e propagadas em toda parte e envenenam o povo de Deus, em que a sua “autodestruição” prossegue incessantemente desde 1960, e em que a “fumaça de satanás” — para usar expressões de Paulo VI — empesteou todos os lugares, seria uma grande pena e decerto um crime continuar a negligenciar, desconsiderar, desprezar as palavras salutares da Santíssima Virgem referindo-se precisamente a esta “crise de Fé” que estamos enfrentando. Visto que em 1917 a Rainha dos Céus previu o perigo e visto que propôs os remédios, não é uma vergonha que esses remédios, que deveriam ter sido divulgados ao público até 1960, ainda nos não tenham sido revelados? Não é um escândalo que por mais de 25 anos, milhões de almas sofram dessa “desorientação diabólica” e corram o risco de se perder por toda a eternidade, sem que os pastores da Igreja tenham concedido em aceitar o extraordinário auxílio que o céu oferece a elas?

É preciso suplicar ao papa e rezar muito por ele

São muitas as razões que tornam para nós uma obrigação suplicar pela revelação do Terceiro Segredo: É para a honra de Nossa Mãe, pela salvação de nossos irmãos, pela paz no mundo, pela restauração da Igreja. Que não nos digam, como um falso relato tenta nos fazer crer, que o Segredo de Fátima não pode ser revelado porque “será mal interpretado!” A Rainha do Céu, que previu e anunciou em 1917 tantos eventos até então imprevisíveis, e que vimos se realizarem ao longo deste século, teria Ela falhado em prever este risco, a ponto de tornar Seu Segredo dispensável pela Igreja? Não faz sentido. Não, o Seu Segredo é claro, não tem ambigüidades nem dificuldades de interpretação, disto estamos seguros. Ousamos dizê-lo! Não seria a sua excessiva clareza a causa da preocupação de nossos pastores? Rezemos então sem cessar para que o Santo Padre possa receber de Deus a luz e a força que lhe permitirão derrubar os obstáculos. Já é tarde, mas Irmã Lúcia nos diz, nunca é tarde para recorrer a Jesus e a Maria.”

Por último, e com isso concluo, se o Santo Padre ainda não decidiu tornar público o segredo final de Nossa Senhora exercendo sua autoridade pessoal, não deveria ele ao menos dar plena liberdade ao Prefeito do Santo Ofício, ao Bispo de Leiria ou a própria vidente, para que obedeçam à ordem explícita de Nossa Senhora e divulguem o Segredo?

Pois é um fato assombroso que por mais de 25 anos o Terceiro Segredo de Fátima tenha sido o único texto a permanecer no Index Prohibitorum… Irmã Lúcia está confinada ao silêncio. Em 15 de novembro de 1966, o Papa Paulo VI ab-rogou os artigos 1399 e 2318 do Código de Direito Canônico, os quais proibiam a publicação de livros e panfletos que propagassem sem autorização novas revelações, aparições ou profecias ainda não aprovadas pela Igreja. Essa ab-rogação está agora no novo código, de forma que desde 1966, qualquer um pode publicar e difundir entre os fiéis as revelações mais fantásticas. Qualquer embuste, diabrura não mais é proibido. Tudo está autorizado a ser publicado, e o “pai da mentira” se aproveita habilmente desta licença para multiplicar por todo o mundo aparições falsas e mensagens fraudulentas, que se difundem por toda parte e iludem inúmeros fiéis. A Mensagem de Fátima, que não se duvida que venha de Deus, é a única mensagem que, de forma escandalosa, foi proibida de ser publicada.

A conclusão se impõe por si só: É tempo de deixar a vidente de Fátima falar. E através dela a Santíssima Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, nossa amável e toda amorosa Medianeira e Co-Redentora. É urgente ouvi-la, já que “Só ela pode nos ajudar”, como Ela mesma disse em 13 de julho de 1917.

Nossa Senhora de Fátima – nossa última esperança

Seus três segredos nos revelam de fato Seu triplo poder e a tripla missão que Deus Lhe confiou. Deus deseja manifestar de maneira extraordinária essa missão de Nossa Senhora. É através d’Ela, através da visão do inferno e da revelação de Seu Imaculado Coração no primeiro segredo, que Ele deseja converter as almas, todas elas, e salvá-las, pois Ela é a “Mãe de Misericórdia” e o “Portão do Céu”. É através d’Ela: das ordens, das promessas, das ameaças do Segundo Segredo, que Ele tem tentado salvar o cristianismo, a fim de nos poupar das horríveis guerras e da escravidão comunista. Pois Deus estabeleceu-A como “Rainha da Paz”. É através d’Ela, através da profecia do Terceiro Segredo, que Deus deseja vencer essa “onda diabólica” que rebentou sobre a Igreja, essa impiedade que invadiu até mesmo o Santuário e todas as forças satânicas que propagaram e encorajaram a apostasia moderna, pois Ela é a “defensora da verdadeira Fé” e só Ela recebeu de Nosso Senhor o poder de derrubar as heresias em toda a Igreja: Cunctas haereses tu sola interemisti in universo mundo!

Essa tripla missão da Medianeira Imaculada, que o Seu grande Segredo nos revelou, é também a base inabalável de nossa esperança. Sim, podemos ter certeza disso quando o Seu Segredo for finalmente desvendado por completo e reconhecido como autêntico, quando a Rússia por fim for consagrada a Ela, a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês for oficialmente aprovada, a fiel e poderosa Virgem, Virgo Fidelis, Virgo Potens, terá sua profecia realizada. Plenos de alegria, testemunharemos o triunfo do Seu Imaculado Coração, que preparará o reino universal do Sagrado Coração de Jesus. A Rússia, libertada de seus demônios mediante uma conversão milagrosa, retornará ao rebanho da unidade romana. Será dado ao mundo algum tempo de paz. A Fé católica será pregada em todas as nações. E inúmeras almas deverão acorrer alegres às Fontes da Salvação na Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica, sob a liderança de um só Pastor!

Sim, este tempo há de chegar, e cabe a nós apressar-lhe a chegada, realizando com amor os pedidos de Nossa Senhora a partir de agora. Pois Ela precisa de nós. “Os tempos modernos, dizia São Maximiliano Kolbe, estão dominados por Satanás, e estarão ainda mais no futuro… Só a Virgem Imaculada recebeu de Deus a promessa de vitória sobre Satanás, mas estando na glória do céu, Ela precisa de nossa ajuda hoje. Ela busca almas consagradas inteiramente a Ela e que se transformem em suas mãos numa força para derrotar Satanás, e que, sob a direção d’Ela, sejam instrumentos efetivos para o estabelecimento do Reino de Deus.”

Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós!

Tradução: Permanência

(Conferência do renomado fatimólogo Michel de la Sainte-Trinité, publicada no número 272 da Revista Permanência. Embora não conheçamos a integralidade do Terceiro Segredo de Fátima, a sua essência foi revelada pelos especialistas e deve, portanto, ser tema de meditação dos católicos.)


[1] Secretária e governanta de Pio XII. (N do T.)

[2] O quarto volume não foi publicado pelo autor. (N. do T.)

[3] Cf. Revista Permanência, n. 264, art. “Os papas e a consagração da Rússia.”

[4] [N. do E.] A presente conferência data de 1985. O autor não poderia então conhecer, evidentemente, os relatos de F. Adessa que publicamos neste número de PERMANÊNCIA. Ver “O Terceiro Segredo de Fátima – um testemunho”.

[5] Madre Teresa.

Os papas e a consagração da Rússia

Nossa Senhora, na terceira aparição em Fátima, em 13 de julho de 1917, falou pela primeira vez sobre a consagração da Rússia e a comunhão reparadora. Nestes termos ela oferecia o único remédio decisivo e eficaz contra os males do mundo atual:

Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior […]. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nossa Senhora retornou anos mais tarde, conforme havia prometido, a fim de pedir a consagração da Rússia. Aconteceu o retorno em 13 de junho de 1929, em Tui, na Espanha, no convento das Irmãs Doroteias, onde Lúcia ingressara:

É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora.

A Santíssima Virgem é clara na indicação de que se não deve consagrar nem o mundo nem outro país qualquer ao Seu Imaculado Coração, mas tão-somente a Rússia.

Não existe outro pedido explícito de consagração nas mensagens de Fátima, Pontevedra e Tui, recebidas entre 1917 e 1929 por Irmã Lúcia, a qual tem absoluta certeza de haver transmitido com fidelidade as palavras de Nossa Senhora. Atesta-o Pe. Alonso, o grande especialista oficial de Fátima:

De fato, Lúcia, em 1917, desconhecia a realidade político-geográfica da Rússia, desconhecia até mesmo o nome do país. Interrogada por seu diretor, o Pe. Gonçalves, para que esclarecesse como chegou ao conhecimento da Rússia ou porque se recordara do nome da Rússia, e para que transmitisse o que Nossa Senhora lhe pedira na aparição de julho, respondeu Lúcia: “Até então, só tinha ouvido falar dos galegos e dos espanhóis, não sabia o nome de nenhum país. Mas o que percebíamos durante as aparições de Nossa Senhora ficava de tal modo gravado em nós que nunca esqueceríamos. Por isso é que eu sei bem, e com certeza, que Nossa Senhora falou expressamente da Rússia em julho de 1917” (Por eso es que yo sé bien, y con certeza, que Nuestra Señora hablo expresamente de Rusia, en julio de 1917)[1].

Nos escritos acerca da consagração, Irmã Lúcia menciona apenas a Rússia. Veja-se por ex. a carta que ela[2] enviou ao Papa Pio XI em março de 1937, em que ademais vinculava a consagração da Rússia à devoção reparadora dos primeiros sábados:

O bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia, se Vossa Santidade se dignar fazer e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria, e aprovar e recomendar a prática da devoção reparadora[3].

Por que a Rússia?

A Rússia é o maior país do mundo, contando atualmente com 17 milhões de quilômetros quadrados e 140 milhões de habitantes. Distâncias inauditas separam os pontos extremos do território: dez mil quilômetros entre Vladvostok a leste e a fronteira polonesa a oeste (onze fusos horários); dois mil, de norte a sul. Dezenas de povos de línguas diferentes o habitam e constituem um como epítome da humanidade. Em suma, é lícito afirmar que a Rússia é o maior império do mundo em continuidade territorial[4].

Já no séc. XIX escrevia Dom Guéranger:

A cada dia aumenta o poderio dos eslavos separados da Igreja Católica. Emancipadas do jugo muçulmano, formaram-se jovens nações naquela espécie de arquipélago, que são os Balcãs, […] a direção moral e religiosa dessas nações ressuscitadas pertence à Rússia. Aproveitando as vantagens com a useira habilidade, ela estende cada vez mais sua influência no Oriente. Na Ásia seus progressos são ainda mais prodigiosos. O tzar, que no fim do séc. XVII comandava apenas 30 milhões de homens, hoje em dia governa 125 milhões; e com a só progressão normal duma população fecundíssima, em menos de 50 anos contará o império com mais de 200 milhões de súditos.

Para infelicidade da Rússia e da Igreja, tal força se deixa guiar por superstições[5].

Força é ainda não esquecer a cismática Igreja russa de Moscou, que se julga a si a terceira Roma. Já declarava o metropolitano Zózimo (1462-1533), no cânon pascal de 1492: “Cairam duas Romas[6], Moscou há de ser a terceira, e quarta não haverá”. Desde então vem se fortalecendo a idéia da terceira Roma. Em 1512 o monge Filotéio de Pskov, em A História do Mundo, dava ao cap. XII do Apocalipse esta interpretação espantosa:

A mulher vestida de sol […] abandonará a velha Roma, por causa dos ázimos[7]. […] Ela foge para a nova Roma, mas lá também não encontrará a paz[8]; foge então para a terceira Roma, que se localiza na grande e nova Rússia; agora a Igreja una e apostólica resplende por todo o universo, mais brilhante que o sol, e somente o tzar a guia e protege.

Ivan III o Grande (1462-1533) e Ivan IV o Terrível (1533-1584) estimularam bastante essa idéia[9].

Por isso não é acaso que o inimigo do gênero humano tenha escolhido a Rússia como ponto de partida para “disseminar sobre o planeta as instituições e os costumes do ateísmo[10]”.

Mas Deus, como de costume, voltará contra satã o plano diabólico: o instrumento de nossa infelicidade, depois da conversão, tornar-se-á instrumento de catolicização no mundo inteiro. Novamente Dom Guéranger:

A Rússia católica é o fim do islã e o triunfo definitivo da Cruz no Bósforo, sem riscos para a Europa; é o Império Cristão do Oriente elevado a um esplendor e poder inauditos; é a Ásia evangelizada, não mais por curas pobres e isolados, mas secundados por uma autoridade superior a de Carlos Magno. Enfim, trata-se da grande família eslava reconciliada na unidade de fé e aspirações de grandeza. Esta transformação será o maior acontecimento do século que há-de testemunhá-lo e mudará a face da terra[11].

Depois de o Papa consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, a Virgem Maria encarregar-se-á pessoalmente da conversão da Rússia[12].

Alcance teológico da consagração da Rússia

Numa carta ao diretor espiritual, de 18 de maio de 1936, escrevia Irmã Lúcia as linhas seguintes:

Intimamente, tenho falado com Nosso Senhor sobre o assunto [da consagração da Rússia]; e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração. “Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração[13] como um triunfo do Imaculado Coração de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração.” Mas, meu Deus, o Santo Padre não me há-de crer, se Vós mesmo não o moveis com uma inspiração especial. “O Santo Padre! Ora muito pelo Santo Padre! Ele há de fazê-la, mas será tarde! No entanto, o Imaculado Coração de Maria há-de salvar a Rússia. Está-Lhe confiada[14].

Deus quer a espetacular conversão da Rússia mediante a Consagração ao Imaculado Coração de Maria, para que se estabeleça no mundo esta devoção de par com a devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Demais a mais, Nossa Senhora reiterara tal vontade em 13 de maio de 1917 ([“Jesus”] quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração”.) e em 13 de julho do mesmo ano (“Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração.”)

Nosso Senhor almeja glorificar aos olhos do mundo Aquela com quem Ele se associou para o cumprimento da obra da salvação: eis o sentido da devoção reparadora dos primeiros sábados, cujo objetivo é reparar os pecados cometidos contra o Coração de Maria; eis também o sentido da consagração da Rússia e do poder atribuido ao Imaculado Coração para alcançar a vitória final: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

O Coração por que se deu o primeiro passo da salvação (o Fiat de Maria no dia da Anunciação) é agora a última oportunidade de salvação que se oferece à humanidade.

Caso os homens respondam ao triplo chamado de Fátima (conversão pessoal, devoção reparadora e consagração da Rússia), a justiça divina, que hoje pune o mundo com guerras, calamidades e toda casta de perseguições contra a Igreja, dará lugar à misericórdia que num átimo acabará com tais provações e concederá algum tempo de paz. Enquanto os homens continuem surdos aos chamados do Céu, as desgraças hão de continuar e aumentar.

A comunhão reparadora e a consagração da Rússia lograrão uma prodigiosa efusão da misericórdia divina, comparável às bênçãos agregadas às indulgências[15]: os atos que Nossa Senhora nos pediu são como que condições, cujo cumprimento nos alcança uma indulgência de dimensões mundiais.

A consagração da Rússia se remete à teologia da Aliança: “Se guardardes a minha Aliança, disse Iavé aos Hebreus, […] vós sereis para mim um povo de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex 19, 5-6). Nosso Senhor, no momento de oferecer-se ao Pai no sacrifício da Nova Aliança, disse aos discípulos: “Por eles, eu me santifico a mim, a fim de que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 19). Consagrar e santificar são sinônimos. Quem consagra a Deus, santifica; a consagração oferece a Deus um objeto, comparticipando-o de Sua santidade. Ao consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, e por este a Nosso Senhor, o Papa confiá-la-ia à ação da Misericórdia redentora, e recolocaria o triste país nos trilhos da conversão e da santificação. Compreende-se que a Rússia – outrora símbolo da independência em face de Deus, instrumento ativo e primeira vítima do processo de ateisação do mundo moderno – necessite, para que se cure, duma consagração especial que a reporá nos trilhos da dependência, de que nunca deveria ter saído. Como a consagração estará aos cuidados de Maria, esse ato também será a reafirmação solene da mediação universal de Nossa Senhora – mediação esta que é objeto da zombaria dos modernistas (e esta não é nem de longe a pior blasfêmia dirigida à Virgem).

Mas é lícito uma pessoa consagrar outrem a Deus? Não pressupõe a consagração o livre assentimento? Entende-se a objeção, mas Leão XIII a contestou na encíclica Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899, que anunciava a consagração do mundo inteiro ao Sacratíssimo Coração de Jesus:

A sua autoridade não se estende somente aos povos que professam a fé católica e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que os erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infrinjam os vínculos da caridade). […] Nós ocupamos no lugar daquele que veio salvar o que estava perdido e deu o seu sangue pela salvação de todos os homens. Eis porque nossa solicitude está continuamente dirigida àqueles que ainda jazem na sombra da morte […] comovidos pelo seu destino, recomendamo-los vivamente ao Sacratíssimo Coração de Jesus e, no que nos diz respeito, consagramo-los a ele[16].

Em primeiro lugar, a consagração é reconhecimento de pertença: consagrar algo ou alguém a Deus é reconhecer o domínio soberano de Deus sobre a pessoa ou coisa. O compromisso assumido no ato é apenas consequência desta pertença. No caso da consagração da Rússia, quem se compromete em nome do país consagrado é o responsável por sua salvação eterna – o Papa. Nossa Senhora solicita um ato solene, realizado em união com os bispos do mundo inteiro, que desta sorte reconhecerão a primazia e o poder supremo do soberano pontífice.

A mediação de Maria, pela qual se há de fazer a consagração, traz à lembrança que agora o homem está chamado a cooperar na efusão da misericórdia divina; foi o Imaculado Coração de Maria a resposta mais perfeita que uma criatura já deu ao plano da salvação inaugurado por Deus, e é este Coração o modelo perfeitíssimo da correspondência às graças que Deus quer derramar sobre a pobre Rússia para salvá-la[17].

Infelizmente os sucessores de São Pedro se mostraram mui reticentes ao cumprimento deste plano.

A Recusa de Pio XI

Entre setembro de 1930 e agosto de 1931, certamente Pio XI tomou conhecimento dos pedidos celestes sobre a devoção e a consagração da Rússia[18].

Todavia, o Papa Pio XI, ao lado das democracias ocidentais, estava comprometido desde 1922 com a política de abertura do leste, já esboçada por Bento XV[19]. Ademais o Papa fez esta declaração assustadora: “Quando se trata de salvar alguma alma e impedir os grandes males que as põem a perder, Nós sentimos coragem de discutir com o diabo em pessoa[20].” Entretanto este não foi o pedido de Nossa Senhora.

A resposta ao pedido da Consagração da Rússia foi o silêncio; a partir de 1930-31, o Papa calou até mesmo as alusões aos acontecimentos de Fátima.

Depois da recusa do Papa Pio XI, Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia, numa comunicação íntima em agosto de 1931, em Rianjo[21]:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [22].

Empreendeu-se nova tentativa no final de março de 1937: Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreveu diretamente ao Papa, que acabava de lançar a magnífica encíclica Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937). Parece que esclarecido pelos fracassos nas negociações com o que chamava de “o triângulo terrível”, il terribile triangolo[23], o Papa mudava de atitude e declarava com firmeza:

O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã [24].

O momento parecia favorável à consagração da Rússia, mas a única resposta foi um silêncio semelhante ao de 1930-1931.

Se o Papa houvesse obedecido aos pedidos celestes, certamente a Rússia converter-se-ia e não aconteceriam a II Guerra Mundial nem a assustadora expansão do comunismo.

Bem ao contrário, foi no pontificado de Pio XI que Moscou começara a instruir os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários católicos, a fim de infiltrar a Igreja e miná-la por dentro[25].

É perigoso ignorar os planos celestes de salvação e as manobras do inimigo.

As consagrações incompletas de Pio XII

Pio XI morreu em 10 de fevereiro de 1939.

Em 21 de janeiro de 1940 Irmã Lúcia propôs ao confessor, o Pe. Gonçalves, renovasse ante a Santa Sé o pedido de Consagração da Rússia. Em abril de 1940 transmitiram o recado a Pio XII. Pensava Pe. Gonçalves que o Papa realizaria a consagração em maio; era lícito esperar tal atitude do novo pontífice, pois que ele era mui devoto da Santíssima Virgem e benevolente às aparições de Fátima. Mas não houve reação em Roma.

A consagração do mundo de 1942

Por iniciativa do Mons. Manuel Ferreira, bispo titular de Gurza, decidiram os diretores espirituais de Lúcia em setembro e outubro de 1940 intentar um novo esforço perante o Santo Padre, apresentando-lhe um requerimento mais factível: a consagração do mundo, com especial menção à Rússia[26]. Mons. Ferreira ordenou Lúcia a escrever ao Papa Pio XII e formular este novo pedido que, sendo diferente do de Nossa Senhora, mergulhou-a em grande perplexidade. Em busca de nova luz Irmã Lúcia recorreu instante à oração. Eis a narração do fato:

22 de outubro de 1940. Recebi uma carta do Pe. Gonçalves e do bispo de Gurza, ordenando-me a escrever a Sua Santidade… Neste sentido, passei duas horas diante de Nosso Senhor exposto [e recebi a seguinte revelação]:

“Reza pelo Santo Padre, sacrifica-te para que o coração dele não sucumba sob a amargura que o oprime. A tribulação continuará e aumentará. Eu punirei os crimes das nações com a guerra, a fome e a perseguição à minha Igreja, que pesará especialmente sobre meu Vigário sobre a terra. Sua Santidade conseguirá que esses dias de tribulação sejam abreviados se ele obedecer aos meus desígnios e fazer o ato de consagração do mundo inteiro, com especial menção à Rússia, ao Imaculado Coração de Maria[27].

A revelação de outubro de 1940 e as dirigidas a Alexandrina Maria da Costa aparecem como o derradeiro instrumento de resgate que apresentou a misericórdia divina ante a persistente desobediência da autoridade suprema da Igreja à mensagem de Fátima. Para este pedido novo e secundário promete-se novo fruto, mui inferior àquele do pedido principal: a abreviação da grande calamidade que Nossa Senhora anunciou em 13 de julho de 1917 – a II Guerra Mundial.

Em 31 de outubro de 1942 o Papa Pio XII realizou a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e renovou-a em 8 de dezembro de 1942. O texto não fazia menção explícita à Rússia, tão-só uma alusão velada, mas de suficiente transparência, à pobre nação:

A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, […] mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.

Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente!

Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! e primeiro as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.

Estendei a vossa protecção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade, e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Luc. 2, 14).

Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor. [28]

Para reavivar a lembrança da consagração, o Papa Pio XII mais tarde fixaria a celebração do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo a ela a dignidade de festa de segunda classe[29].

A misericórdia divina outorgou o prometido fruto da consagração: mostra-nos o exame objetivo da história que, em todas as frentes de batalha, houve uma reviravolta decisiva em favor dos Aliados nos meses finais de 1942 e iniciais de 1943; decerto tal reviravolta permitiu a abreviação da duração da II Guerra Mundial.

Entretanto Irmã Lúcia não se iludia quanto aos efeitos da consagração de 1942:

“O Bom Deus tinha-me mostrado já o Seu contentamento pelo ato, ainda que incompleto, segundo o Seu desejo, do Santo Padre e de vários Bispos. Em troca, promete acabar breve a guerra. A conversão da Rússia não será já[30].

Os acordos de Ialta (4 de fevereiro de 1945) consolidaram o poder comunista em nível internacional.

É preciso recordar que, em 1941, Pio XII – sob a pressão de Roosevelt, que ansiava ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e também de Stalin – admitiu que a hierarquia católica calasse a perversidade intrínseca do comunismo e a impossibilidade de colaborar com ele. Em câmbio prometeu-se convocar a Igreja para participar do esforço de reconstrução do pós-guerra[31]. Certamente o silêncio de Pio XII facilitou em muito o trabalho da maçonaria na organização da nova ordem, que previa entregar todo o leste europeu ao comunismo, o qual fortalecido em sua nova posição avançaria mais tarde em direção à Ásia: China, Vietnã, Camboja, etc[32].

A encíclica Sacro Vergente Anno de 1952

Neste ínterim o céu manifestava-se ao Papa: nos dias 30 e 31 de outubro e 1º e 8 de novembro (dias circumpostos à data da definição solene do dogma da Assunção), o Santo Padre viu dos jardins do Vaticano a renovação do milagre do sol de 13 de outubro de 1917, mas Pio XII nada fez.

Em maio de 1952 apareceu Nossa Senhora novamente à Irmã Lúcia:

Faz saber ao Santo Padre que Eu ainda estou à espera da Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração. Sem a Consagração da Rússia, a Rússia não poderá converter-se e o mundo não terá paz[33].

Sem dúvida, após aquela mensagem e de concerto com o movimento dos católicos russos, que anelavam o cumprimento dos pedidos de Nossa Senhora, Pio XII escreve uma Carta Apostólica aos Povos da Rússia, em que declara:

Nós consagramos e de uma forma mais especial confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração [34].

“Estou triste de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escrevia Irmã Lúcia no verão[35].

Desta vez faltou ao ato a devida solenidade: nomeou-se a Rússia, mas não houve nenhuma cerimônia em particular, nem foram os bispos do mundo inteiro conclamados a unir-se nesta intenção.

No ano seguinte, em Siracusa na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria desatou a chorar e a operar milagres que abalaram o mundo[36]. Ao que parece Pio XII não associou este acontecimento à Fátima.

Ao contrário, após Sacro Vergente Anno, o Santo Padre quase já não falava de Fátima. Os adversários da aparição, por seu turno, à imitação do Pe. Dhanis, exerciam cada vez mais influência, bem como os que se opunham à doutrina de Maria Medianeira[37]. A partir de então se restringiram as visitas à Irmã Lúcia: “O Papa decidiu que somente pessoas que já a houvessem visitado poderiam vê-la sem autorização expressa da Santa Sé[38].” Começava-se a impor o silêncio à mensageira do céu.

No entanto convém precisar um ponto importante: se por interesses da política americana Pio XII teve por bem calar a Divini Redemptoris – com as consequências incalculáveis que tal silêncio acarretou –, ele rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou.

Qual não foi a sua dor quando, em outubro de 1954, provou-se que Mons. Montini, o futuro Paulo VI, então secretário substituto da Secretaria de Estado, mantinha à socapa conversações secretas com o Kremlin[39]. Pio XII decidiu afastar logo Montini, mas como sempre estivesse disposto a refrear o falatório, elevou-o a um cargo honorífico – arcebispo de Milão – sem contudo nomeá-lo cardeal. Desta forma excluía-se Mons. Montini do próximo conclave, mas infelizmente ele foi alçado a um posto bem conveniente ao que lhe reservava o futuro.

Depois de Pio XII a situação complicou-se, à medida que os papas de espírito liberal e modernista ocuparam a Sé de Pedro; mais que nunca iria concretizar-se o alerta de Nosso Senhor:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [Nosso Senhor à Irmã Lúcia, em agosto de 1931.]

A Igreja entrava numa crise sem precedentes na história[40], e a sua finalidade era a punição da hierarquia.

Imbuidos dos ideais modernos, os novos papas ficaram muito pouco à vontade com a mensagem catolicíssima da Virgem Maria em Fátima.

João XXIII e os acordos entre Roma e Moscou

Ao passo que a abrangência mundial do comunismo se tornava cada vez mais alarmante, em razão das recusas em atender aos pedidos de Nossa Senhora, o Papa João XXIII resolveu assinalar seu pontificado com o sinal do otimismo, sem levar em nenhuma conta as advertências celestes nem as dos inúmeros colaboradores que o cercavam. Sabe-se bem o que disse ele no discurso de abertura do Concílio Vaticano II:

Parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo.[41]

Soam estranhas tais palavras, se as comparam com os apelos da Virgem Santíssima em Fátima. Em agosto de 1959, ao tomar conhecimento do terceiro segredo de Fátima, o Papa decidiu não publicá-lo, decisão esta que caiu como um balde d’água fria sobre o grande fervor pela devoção de Nossa Senhora de Fátima, que aumentava sobremodo às portas dos anos 1960. A partir de 1959 João XXIII começou a diligenciar para que não fosse mais possível visitar Irmã Lúcia sem licença de Roma[42].

Nesse contexto entende-se porque nunca exigiram a consagração da Rússia durante o pontificado de João XXIII; bem ao contrário, João XXIII, na intenção de que se autorizasse o envio de dois representantes da igreja cismática da Rússia ao Concílio Vaticano II, negociou com Kruschev, por intermédio do Mons. Willebrands e do Card. Tisserant, e se comprometeu a não condenar o comunismo. Sobre o acordo disse Mons. Roche:

A decisão de convidar os observadores ortodoxos russos para o Concílio Vaticano II partiu de Sua Santidade em pessoa, encorajado pelo Cardeal Montini, que na época em que era arcebispo de Milão fora o conselheiro do patriarca de Veneza. Ou melhor, era o Card. Montini que conduzia em segredo a política da Secretaria de Estado durante a primeira sessão do Concílio, a partir do escritório clandestino que o Papa lhe arrumou na famosa Torre de São João, dentro dos muros da Cidade do Vaticano.

O Card. Tisserant recebeu ordens formais de negociar o acordo e cuidar de sua aplicação rigorosa durante o Concílio. Por isso, cada vez que um bispo começava a discutir o problema do comunismo, o cardeal, da mesa do conselho de presidência, intervinha e recordava a recomendação de silêncio, segundo a vontade do Papa[43].

O comedimento nas relações com Moscou não surtiu nenhum efeito na atenuação das perseguições: Kruschev continuou a deter os padres e multiplicou o número de igrejas fechadas. Não se deve comer com o diabo, mesmo com uma colher de cabo longo.

Paulo VI e a Ostpolitik 

O Concílio não condena o comunismo

João XXIII morreu antes do fim do Concílio; coube a Paulo VI levá-lo a termo e confirmar os acordos entre Roma e Moscou: não havia razão de desautorizar uma política de que, desde 1962, era ele um dos principais promotores.

Assim, quando em outubro de 1965 Mons. Léfèbvre remeteu ao Secretário do Concílio uma súplica, redigida por Mons. Carli e assinada por 454 bispos, em que se impetrava a inserção duma condenação ao comunismo na constituição Gaudium et Spes, que versava sobre a Igreja no mundo – a petição não foi levada em consideração. Escutemos Mons Léfèbvre narrando os fatos:

É algo absolutamente inaudito na história da Igreja. Reuniu-se um concílio pastoral, ou que se dizia pastoral, i .e., destinado ao cuidado das almas e à salvação dos fiéis e do mundo; contudo, ao maior dos males, ao mais ignóbil e dissolvente para a sociedade, a pessoa humana e a liberdade –  que é o comunismo –, afirmam: “- Não o condenaremos durante o Concílio.”

Pessoalmente conheço algo sobre o assunto. Eu, junto com Mons. Sigaud, reunimos 450 assinaturas em favor da condenação do comunismo. Eu mesmo as levei ao secretariado do Concílio. Mas foram engavetadas! Ainda tentaram veicular que nunca houve tal manifestação no Concílio. Eu mesmo levei os documentos em pessoa, e guardei a lista dos bispos que pediam a condenação. É de fato inacreditável. Fui testemunha disso. Levantei-me para protestar. Desmentiram a apresentação das 450 assinaturas, depois disseram que haviam chegado tarde demais e já não sabiam onde estavam. Na verdade, eles decidiram que não se condenaria o comunismo, para que viessem os delegados de Moscou[44].

A reunião dum concílio universal em meio ao séc. XX seria a ocasião providencial de se consagrar a Rússia de forma solene ao Imaculado Coração de Maria, tal como Nossa Senhora pediu. Os acordos entre Roma e Moscou impossibilitaram um ato desse quilate e se constituíram no principal obstáculo à paz oriunda dos céus. Mais ainda, o requerimento que Mons. de Proença apresentou, assinado por 510 bispos de 78 nações, em que se instava renovasse o Concílio a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia, teve destino semelhante àquele de condenação ao comunismo[45].

O Desprezo por Fátima

Paulo VI não escondia o desprezo por Fátima – e nesta afirmação não há nenhum exagero. Em 13 de maio de 1967 ele se dirigiu à Cova da Iria para o cinquentenário das aparições, mas se limitou a fazer uma viagem de ida e volta. Lá celebrou apenas uma missa chã em português, na presença de um milhão de peregrinos, recusou a entrevista que Irmã Lúcia lhe requereu e não rezou na Capelinha, como previa o programa da visita. No sermão exortou a humanidade ao esforço de paz, mas não aludiu à mensagem de Nossa Senhora. Escreveu Robert Serrou que Paulo VI foi até Fátima, pois “estava certo de encontrar ali uma das mais extraordinárias tribunas do mundo, donde sua voz ecoaria em toda a superfície da terra[46].” Contudo pregara ali a paz só humana, como fizera na ONU, uma vez que seus planos não coincidiam com os do Céu[47].

Além disso, na reforma litúrgica, Paulo VI rebaixou a festa do Imaculado Coração de Maria, que Pio XII elevara à dignidade de festa de segunda classe, a uma simples memória[48].

Desenvolvimento da Ostpolitik

Escutemos o Cardeal Sodano, secretário de estado, resumir a política de Paulo VI ante Moscou, cujo artífice foi Mons. Cassaroli:

Durante o pontificado de Paulo VI se desenvolve a primeira e a mais árdua fase da Ostpolitik, i. e., a negociação sobre o Cardeal Mindszenty e a possibilidade de nomear bispos na Hungria; as conversações extenuantes e intermináveis com o governo tcheco, que iriam continuar até a queda de Mur; o acordo de Belgrado com o governo de Tito; e finalmente as conversas com o governo polonês. […] Registre-se a recusa que o governo polonês contrapôs a uma viagem de Paulo VI, ainda que brevíssima, a Czestochowa, e a visita de Mons. Caseroli às dioceses polonesas em 1967, que o levou até a Cracóvia, para um encontro cordial e importante com o Cardeal Wojtyla.

No pontificado de Paulo VI, a experiência multilateral da Santa Sé toma impulso na Conferência de Helsinque (1973-1975), ocasião em que a delegação vaticana obtém o reconhecimento explícito da liberdade religiosa (sétimo princípio da Ata de Encerramento), que dá legitimação formal aos requerimentos da Igreja nas negociações bilaterais em face de cada governo. Terminaria o pontificado com o pedido do Papa ao corpo diplomático, em janeiro de 1978, para que os católicos e crentes de todas as confissões “se beneficiassem” do espaço de liberdade que se devia à fé em suas expressões pessoais e comunitárias. Este requerimento solene parece que tem o valor profético dum conselho moral de Paulo VI a seu sucessor[49].

Aprofundavam-se assim as negociações com o demônio; como tais acordos não estavam nos planos do Céu, não haveriam de terminar bem. O arcebispo tcheco Mons. Hnilica juntou coragem e deu uma resposta vigorosa ao livro de Casaroli: realmente mereceria o cardeal o título de mártir da paciência, que os editores conferiram em sua honra?

Parece-me inapropriado e injusto usar a palavra mártir em honra de certas pessoas, que não foram mártires e que, por via de ações diplomáticas sofisticadas e no caso improváveis, contribuiram de facto ao agravamento notável do verdadeiro martirio dos verdadeiros mártires. […] Neste ponto de vista, é singular o testemunho dos verdadeiros mártires. Segundo eles, seus sofrimentos cresceram sobremaneira em decorrência da ação daqueles de quem esperavam apoio e sustento[50].

João Paulo I

O pontificado de 33 dias de João Paulo I não lhe deu tempo hábil para responder aos pedidos de Nossa Senhora.

Quando era arcebispo de Veneza, ele manifestou interesse e devotamento aos acontecimentos de Fátima, e chegou mesmo a travar uma longa conversa com Irmã Lúcia, em 11 de julho de 1977, durante uma peregrinação diocesana[51].

Sublinhe-se ainda que João Paulo I aceitara totalmente o Concílio. Sobre a liberdade religiosa dizia: “Por anos ensinei a tese que aprendi no curso de direito público ministrado pelo Cardeal Ottaviani, segundo a qual só a verdade gozava de direitos. Estudei o problema a fundo e no fim me convenci de que estávamos enganados[52].” Aludindo aos tradicionalistas afirmava: “Alguns abusos na liturgia talvez favorecessem reações e atitudes que levaram à tomada de posições insustentáveis e contrárias ao Evangelho[53].”

Ele haveria segredado a um de seus conselheiros: “Se eu viver, retornarei à Fátima e consagrarei o mundo, em particular os povos da Rússia, à Santa Virgem, conforme as indicações que ela deu à Irmã Lúcia[54].”

Mas a consagração não se limita à recitação duma simples oração: antes, tal ato significaria a renúncia total à política que João XXIII e Paulo VI praticaram até então. Teria João Paulo I a força e sobretudo as convicções necessárias para realizá-la?

Nada autoriza afirmá-lo, uma vez que sua alcunha papal era a combinação das de seus predecessores imediatos; além disso, ele estava comprometido com as diretivas do Vaticano II e da reforma litúrgica.

João Paulo II prossegue a Ostpolitik

Assentado à Sé de Pedro, João Paulo II prosseguiu com a política de abertura do leste, em continuação a Paulo VI. Retornemos à conferência do Cardeal Sodano:

Em outubro de 1978, a eleição do Papa João Paulo II introduziu novidades importantíssimas nas relações com o leste: 1) a experiência pessoal dum pastor que suportara a opressão e as injustiças cometidas contra seu povo; 2) a afirmação inscrita na encíclica Redemptor Hominis, de que os direitos do homem e as liberdades fundamentais têm sua raiz única na dignidade da pessoa e constituem o critério de verificação da legitimidade dos regimes de qualquer país; 3) o orgulho da nação polonesa que reivindicava a restituição de sua dignidade cristã.

Este foi um amplo desafio que o Papa do leste lançou à URSS e aos demais regimes comunistas, enquanto as negociações prosseguiam com maior impulso sob a condução do Cardeal Caseroli, agora secretário de estado. […As conversações] almejavam a recuperação dos espaços de oração, a possibilidade da formação para a catequese, a difusão de idéias quais a dignidade da pessoa e a liberdade de consciência, que contraditavam a ideologia e a organização do mundo comunista. Deste modo a ação paciente e infatigável contribuira, durante muito tempo […] para que se operasse a erosão do sistema dos regimes comunistas, atingindo-os justamente no que consideravam essencial à sua ideologia – o controle das mentes[55].

Os homens da Igreja não diligenciavam pelo reino de Jesus e de Maria, fruto da consagração da Rússia, mas pela difusão dos Direitos Humanos e da liberdade de consciência; de fato este plano não veio do Céu.

Além disso, no começo de seu pontificado, João Paulo II era indiferente à Fátima; contudo a tentativa de assassinato de 13 de maio de 1981 atraiu-lhe de súbito a atenção à mensagem de Nossa Senhora, quiçá devido a remorsos de consciência. Decidiu-se pois a fazer alguma coisa.

Tentativas de consagração

Quando se publicou o terceiro segredo de Fátima em 2000, Mons. Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, relatou as tentativas de consagração que João Paulo II intentou. Aqui a versão oficial do Vaticano.

Reagrupamos as consagrações de 1981 e 1982, pois os textos são idênticos.

Após o atentado de 13 de maio de 1981, João Paulo II pediu a sobrecarta em que estava a terceira parte do “segredo”. […]

Como se sabe, o Papa João Paulo II logo pensou na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e chegou a compor uma oração para o que definia como “um ato de consagração” a celebrar-se na basílica de Santa Maria Maior, em 7 de junho de 1981, na solenidade de Pentecostes, em dia escolhido para comemorar o 1600º aniversário do I Concílio de Constantinopla e o 1550º aniversário do Concílio de Éfeso. Estando o Papa ausente, por força das circunstâncias[56], transmitiu-se a alocução em gravação. Aqui oferecemos o texto que se refere exatamente ao ato de consagração:

“Ó Mãe dos homens e dos povos, Tu[57] conheces todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Tu sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas que agitam o mundo — acolhe o nosso grito dirigido no Espírito Santo, diretamente ao Teu coração e abraça com o amor da Mãe e da Serva do Senhor os povos que mais esperam este abraço, e ao mesmo tempo os povos cuja consagração Tu também esperas de modo particular. Toma debaixo da tua proteção maternal a família humana inteira que, com afetuoso transporte, a Ti, ó Mãe, nós confiamos. Aproxime-se para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança.” [58]

Esta cerimônia não é a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, mas antes a entrega, mediada pelo Papa, da “família humana inteira” às mãos da “Mãe dos Homens e dos Povos”.

Não se nomeou claramente o Imaculado Coração de Maria: o texto menciona “coração” sem mais precisões.

O Papa renovará o ato em 13 de maio de 1982, em Fátima.

A Irmã Lúcia reagiu imediatamente, remetendo o seguinte texto ao Mons. Portalupi, núncio apostólico em Portugal:

No ato de oferecimento de 13 de maio de 1982, a Rússia não apareceu claramente como o objeto da consagração. Os bispos não organizaram em suas dioceses cerimônias públicas e solenes de reparação e de consagração da Rússia. O Papa João Paulo II simplesmente renovou a consagração do mundo feita por Pio XII em 31 de outubro de 1942. Podem-se esperar alguns benefícios, mas não a conversão da Rússia[59].

E conclui ela:

A consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu. Eu não pude fazer esta declaração até agora porque não tinha autorização da Santa Sé[60].

A consagração de 25 de março de 1984

Prossigamos com o texto de Mons. Bertone:

A fim de responder com plenitude aos pedidos de “Nossa Senhora[61]”, quisera o Santo Padre explicitar, no curso do Ano Santo da Redenção, o ato de consagração de 7 de junho de 1981, repetido em Fátima em 13 de maio de 1982. Em 25 de março de 1984, na praça de São Pedro, em união espiritual com todos os bispos do mundo – “convocados” previamente – e à evocação do fiat de Maria no momento da Anunciação, o Papa consagrou ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com inflexões que recordam as palavras comoventes de 1981:

“Ó Mãe dos Homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o nosso mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao Vosso Coração; e abraçai, com o amor da Mãe e da Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.”

“De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações, que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade.”

“‘À Vossa proteção nos acolhemos Santa Mãe de Deus!’ Não desprezeis as nossas súplicas que a Vós elevamos, nós que estamos em provação!”

“Encontrando-nos hoje diante de Vós, Mãe de Cristo, diante do Vosso Coração Imaculado, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos com a consagração que, por nosso amor, o Vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Por eles eu consagro-me a Mim mesmo – foram as suas palavras – para eles serem também consagrados na verdade (Jo. 17,19).”

“Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação.”

“A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história, e que, de fato, despertou nos nossos tempos.”

Oh! quão profundamente sentimos a necessidade de consagração, pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser pelo mundo participada por meio da Igreja. […]

“Ajudai-nos[62] a viver na verdade da consagração de Cristo pela inteira família humana do mundo contemporâneo.”

“Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no Vosso Coração materno[63].”

Seria esta a consagração que Nossa Senhora pediu?

Antes do mais, João Paulo II, em união com os bispos, consagrou o mundo; chega até a repeti-lo diversas vezes, sem alusões – ainda que veladas – à Rússia[64]. Na homilia da missa da manhã, celebrada em Roma, o Papa declara sua intenção:

Cumprir duma vez por todas o que meus predecessores já fizeram: confiar o mundo ao Coração de Maria.

Todo o mundo sabe que seus predecessores não consagraram a Rússia ao Imaculado Coração. Demais, apenas um deles realizou consagração solene: Pio XII, ao consagrar o mundo em 1942. João Paulo II afirma claramente que não fará mais nada além disso.

Se quisesse consagrar a Rússia, diria ele: “Como ainda não se consagrou a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, decidi-me em consagrá-la hoje e assim responder aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima.”

Estava o Papa tão certo de não haver respondido aos pedidos da Santa Virgem que, na noite do dia da consagração, numa oração a Nossa Senhora, referira-se aos “povos pelos quais tu esperas nosso ato de consagração[65]”. Apesar da cerimônia da manhã, o Papa sabia que a Virgem ainda estava à espera do ato.

Quando o Mons. Cordes, presidente do Conselho Pontifício para os Leigos, perguntou por que razão o Papa não quis pronunciar o nome da Rússia, respondeu ele que temia “que os dirigentes soviéticos interpretassem suas palavras como provocação[66].”

É verdade que, desta vez, na fórmula de João Paulo II, mencionou-se com todas as letras o Imaculado Coração de Maria, o que não aconteceu nas consagrações de 1981 e 1982, em que o Papa se limitava a dizer: “Nós dirigimos diretamente ao teu coração.” Entretanto o conjunto do texto é bem confuso e a leitura suscita uma dúvida: não é possível saber se a consagração se fez à “Mãe dos Homens e dos Povos” ou se destinou ao Imaculado Coração de Maria[67].

Irmã Lúcia não se deixou embair: três dias antes da consagração – quinta-feira, 22 de março de 1984 – lhe perguntou a Sra. [Eugênia] Pestana: “Então, Lúcia, domingo é a consagração?”, ao que ela fez sinal negativo e acrescentou: “Tal consagração não pode ter um caráter decisivo.[68]” Irmã Lúcia estava ciente do que se tratava, pois tinha ela em mãos o texto a ser lido pelo Papa.

No ano seguinte, numa entrevista publicada em Sol de Fátima, de setembro de 1985, acerca da consagração de 1984, declara Irmã Lúcia: “Não houve participação de todos os bispos e não houve menção da Rússia.” À pergunta: “Então a consagração não foi feita como foi pedida por Nossa Senhora?’, deu Irmã Lúcia a seguinte resposta: “Não. Muitos Bispos não deram importância a este ato.”

Em Chrétiens-Magazine, de março de 1987, revelava o mui progressista Pe. Laurentin: “Irmã Lúcia continua insatisfeita. […] Ela pensa, parece, que a consagração não foi feita de acordo com o pedido de Nossa Senhora.”

Está claro que as consagrações de João Paulo II em 1981, 1982 e 1984 não atenderam aos pedidos expressos de Nossa Senhora.

Após a Perestróica

O Vaticano se opõe à consagração da Rússia

Ostpolitik de João Paulo II chegou ao auge em 1º de dezembro de 1989, menos de um mês após a queda da cortina de ferro, quando o Vaticano recebeu Mikhail Gorbachev, presidente do Soviete Supremo da URSS[69].

Neste instante Roma inaugurou uma nova política. Apesar da facilitação do acesso aos países do leste, não se empreendeu uma campanha de evangelização mas, ao contrário, lançou-se mão do ecumenismo conciliar. Os católicos e os cismáticos assinaram, em 23 de junho de 1993, os acordos de Balamand, que se concluíram “excluindo-se doravante todo o proselitismo e a vontade de expansão dos católicos em prejuízo da Igreja Ortodoxa (nº 35)[70].”

Já não se pode resistir ao desejo da Virgem Maria de converter a Rússia. O Pe. Alonso, historiador oficial de Fátima, escrevia em 1976:

“…poderíamos dizer que Lúcia sempre pensou que a ‘conversão’ da Rússia não se entende apenas pelo retorno dos povos da Rússia à religião cristão-ortodoxa, rechaçando o ateísmo marxista e ateu dos sovietes, mas antes se refere pura e simplesmente à conversão total e integral, ao retorno à única e verdadeira Igreja católica e romana[71].

A reviravolta de Irmã Lúcia?

Em maio de 1989, confiava Irmã Lúcia ao Cardeal Law, arcebispo de Boston, estas palavras sobre a consagração:

O Santo Padre acha que já a realizou, considerando as possibilidades e segundo as circunstâncias. Mas se a realizou seguindo a fórmula estrita da consagração colegiada que [Nossa Senhora] pediu e desejava? Não, isso não foi feito[72].

Irmã Lúcia diz aqui claramente que:

  • é o Papa quem considera realizada a consagração;
  • a consagração não correspondeu aos pedidos expressos de Nossa Senhora.

Este texto é importante, pois é a última vez que a Irmã Lúcia afirma que a Rússia não foi consagrada, tal como a Santa Virgem pediu. Em seguida, a partir de junho, parece que Irmã Lúcia chegou a dizer que a consagração estava feita[73].

No ano 2000, à época da publicação da terceira parte do segredo de Fátima, o Mons. Bertone, no documento que já citamos, foi ainda muito mais explícito:

A Irmã Lúcia confirma em pessoa que este ato solene e universal de consagração [de 1984] correspondia ao desejo de Nossa Senhora (“Sim, está feita, tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de março de 1984”; carta de novembro de 1989). Por isso, qualquer discussão ou nova petição não tem fundamento[74].

Não obstante, fica claro que não se realizou a consagração tal como Nossa Senhora a pediu. Haveria Irmã Lúcia se persuadido de que o Céu aceitara o ato incompleto de 1984? Diferentes causas poderiam explicar a mudança de discurso: a pressão das autoridades vaticanas, a queda da cortina de ferro, a cessação das perseguições físicas[75] na Rússia e a total desinformação acerca da situação real do país. De qualquer modo, a nova atitude da vidente permitia a Roma apresentar a Perestróica como o resultado da consagração de 1984[76] e atribuir esta glória a João Paulo II. Essa interpretação era um modo de encerrar duma vez para sempre o processo de Fátima: a consagração estava feita, Fátima pertence ao passado[77].

No entanto, como parte do mundo católico ainda exigisse a consagração da Rússia[78], Mons. Bertone dirigiu-se pessoalmente ao Carmelo de Coimbra para obter nova confirmação de Irmã Lúcia. Ele a mandou dizer: “A consagração desejada por Nossa Senhora foi feita em 1984 e o Céu a aceitou[79].”

A leitura atenta do texto porém causa perplexidade: por um lado, o extrato da conversa de uma hora e meia a duas horas que o prelado travou com a vidente contém apenas poucas dezenas de palavras; por outro lado, Mons. Bertone põe na boca de Irmã Lúcia que ela “leu detidamente e meditou o fascículo que a Congregação para a Doutrina da Fé publicara, e confirmou tudo o que ali se dizia[80].”

Ora nesse texto de apresentação do Terceiro Segredo de Fátima, o Cardeal Ratzinger refere-se nomeadamente ao “teólogo flamengo E. Dhanis, eminente conhecedor desta matéria” [81].

Demais a mais, não hesita em declarar:

É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do “segredo” de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do “segredo” [82]. […] A conclusão do « segredo » lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé [83].

Põem-se assim em grandes dúvidas as aparições e a mensagem de Fátima.

Como pôde Irmã Lúcia aprovar um texto desses? Ou é falsa a confirmação de “tudo o que foi dito”, ou fê-lo apenas por obediência.

Qualquer que seja o mistério – a partir de 1989 – em torno do testemunho de Irmã Lúcia, cuja morte lança sobre a questão um véu definitivo[84], convém valer-se do conselho de Nosso Senhor: “A árvore se reconhece pelos frutos” (Mt 12, 33).  Se o Céu aceitou a consagração de 1984, dever-se-ia enxergar os frutos. Que são deles após vinte anos?

O Céu ainda está esperando

São três os frutos de que Nossa Senhora enriqueceu este solene e público ato de reparação e consagração da Rússia ao Imaculado Coração, segundo a mensagem de 13 de julho de 1917:

  • a conversão da Rússia;
  • certo tempo de paz concedido ao mundo;
  • salvação eterna de muitas almas.

Basta observar a situação do mundo e da Igreja vinte anos após a pretensa consagração de 1984 para constatar a ausência completa dos três efeitos e do triunfo do Imaculado Coração de Maria que haveria de se seguir.

A Rússia não se converteu

Em 13 de julho de 1917 revelara Nossa Senhora: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá.” Qual a situação da Rússia hoje?

Usemos Portugal como ponto de comparação: o país foi consagrado ao Imaculado Coração de Maria em 1931; o resultado, uma ressurreição extraordinária do catolicismo no país[85]. Após a consagração de 1984 aconteceu algo análogo na Rússia?

Atualmente o povo russo está soçobrando em profundíssimo desespero e refugiando-se no alcoolismo: cerca de 50% dos homens e 17% das mulheres[86] são viciados em álcool. As cifras demográficas revelam ainda mais o afundamento moral do país: 2/3 das crianças concebidas são hoje em dia vítimas do aborto. Em 1999 houve 2.300.000 abortos e só 1.214.000 nascimentos.

A natalidade baixíssima unida à significativa mortalidade obrada pelo alcoolismo, os acidentes rodoviários, os suicídios (até entre as crianças), os crimes e a péssima saúde da população fizeram com que a Rússia perdesse mais de três milhões de habitantes entre 1989 (queda do Muro de Berlim) e 2004[87]; de fato se conta a cada nascimento dois falecimentos[88]. O déficit populacional avizinha-se de um milhão de pessoas por ano – um caso único no mundo[89].

Eis os números dum povo desesperado e incapaz de divisar o próprio futuro; tais cifras costumam encontrar-se apenas entre povos em guerra.

Continuando no campo da moralidade: Boris Yeltzin legalizou em 1993 o homossexualismo na Rússia, que se tornou um centro internacional de pornografia infantil[90].

Numa entrevista ao semanário argentino Cristo Hoy, o Pe. Hector Muñoz O.P., após retornar de três anos de ministério na Rússia, confidenciava:

A Rússia é uma terra devastada pelo marxismo, pelos séculos que o precederam e pela passagem brutal e irracional para outro sistema. O ateísmo entranhou-se profundamente. Segundo os dados dos popes, os fiéis praticantes da sua religião não chegam a 2%. Os dirigentes políticos sofrem muitos ataques, e com razão: a corrupção atingiu níveis de escândalo público, o salário médio dum operário é de oitenta dólares por mês, e o dum trabalhador rural é de trinta dólares; a pensão das viúvas orça em catorze dólares. A porcentagem de divórcios em Moscou chega a 70%, e na Rússia como um todo a 45%, o que significa que a metade das famílias é atingida[91].

Osservatore Romano em língua portuguesa, de 30 de outubro de 1999 (p.9-10) confirmava essa apreciação ao publicar que:

A evangelização da Rússia representa um empreendimento de dificuldades inimagináveis. Basta observar que o número de crentes que praticam a fé, contando-se aqui todas as confissões cristãs, corresponde a cerca de 2 a 3% da população.

Para piorar o quadro, parece que as autoridades políticas por seu turno encarniçam-se contra a ação da Igreja Católica na Rússia: a lei de “liberdade religiosa” adotada em 1997, resultado da pressão do patriarcado cismático de Moscou, é uma verdadeira lei de perseguição contra a Igreja Católica. Com efeito esta lei faz distinção entre:

  • as “organizações religiosas” que tem o estatuto de pessoa moral e, portanto, beneficiam-se duma existência legal e plena na Rússia. Quatro são as religiões assim reconhecidas: a igreja cismática russa, o judaísmo, o islão e o budismo;
  • e os “grupos religiosos” que não se beneficiam do estatuto precedente e por isso conservam-se em situação precaríssima no país. Puseram a Igreja Católica nesta categoria, ao nível das seitas. Em consequência não possui ela o direito de ensinar a religião nas escolas públicas, de fundar escolas próprias, de manter capelanias nas prisões, nos hospitais e nas casas de retiro, nem mesmo a de ser proprietária de gráficas, jornais, etc.

Não acabou a perseguição contra a Igreja, mas apenas mudou de forma.

Acrescente-se a este quadro moral e religioso o fato de a Rússia estar em processo de reconquistar um poder político e militar um tanto inquietante, em razão

  • do refortalecimento do poder central;
  • da recuperação do poder nuclear;
  • da cooperação econômica e militar com o Irã e a China;
  • da expansão econômica (ainda que não melhore em nada o nível de vida do cidadão médio).

No atribulado contexto internacional que conhecemos, poderia a Rússia tornar-se facilmente uma nova ameaça ao Ocidente.

Há de se dizer ainda mais: não apenas a Rússia não se converteu, mas seus erros estão hoje espalhados pelo mundo inteiro[92]. Esta situação, que está piorando cada vez mais – vinte anos após o ato de João Paulo II em 1984 –, prova a posteriori e com evidência que não se fez a consagração.

O mundo não está em paz

Esta é outra promessa de que a Virgem Santa enriqueceu a consagração da Rússia: “Será concedido ao mundo algum tempo de paz” (13 de julho de 1917).

Ora o mundo encontra-se atualmente em meio a guerras contínuas, provocadas pelo estado de instabilidade.

Desde a II Guerra Mundial – que seria a punição dos crimes do mundo, segundo a profecia de Nossa Senhora na mensagem de 13 de julho de 1917 –, nunca mais houve paz global na terra. E mesmo depois da consagração de 1984 a situação permanece imutável: provam-no as guerras do Kôsovo, do Afeganistão e do Iraque, sem contar as guerras civis que estouram aqui e ali, na África ou alhures, devastando países inteiros. O jornal português 24 Horas, de 18 de abril de 1999, publicou um mapa das guerras civis que se desenrolaram no mundo durante a década de 1990: o periódico recenseou cerca de seis milhões de mortos; o relatório não incluia as vítimas das guerrilhas comunistas da América Latina.

Irmã Lúcia, na obra Apelos da Mensagem de Fátima, que ela terminou em 1997 (logo, treze anos após a consagração de João Paulo II) e cuja publicação o Vaticano autorizou em dezembro de 2001, escrevia:

Lancemos uma vista de olhos sobre o mundo! Que vemos? Qual é o quadro que se depara a nossos olhos? – Guerras, ódios, ambições, raptos, roubos, vinganças, fraudes, homicídios, imoralidades, etc. E, em castigo de tantos pecados: catástrofes, doenças, desastres, fome e toda a espécie de dor e sofrimento, sob cujo peso a humanidade geme e chora.

Os homens que se julgam sábios e poderosos continuam projetando mais guerras, mortes, misérias e desgraças …mais derramamento de sangue, em cujo mar afogam os povos[93].

Não se poderia traçar quadro mais trágico da situação mundial. Além disso, João Paulo II chega a mesma constatação, manifestando assim que o ato de 1984 de nada serviu:

Em alguns dias recordaremos o trágico atentado das “torres gêmeas’ de Nova Iorque. Infelizmente, junto com as torres, parece que ruiram as numerosas esperanças de paz. As guerras e os conflitos continuam a se espalhar e a envenenar a vida de muitos povos, em particular nos países mais pobres da África, da Ásia e da América Latina[94].

Observando-se a situação atual do mundo, constata-se apenas o impressionante fluxo das múltiplas manifestações sociais e políticas do mal: da desordem social à anarquia e à guerra, da injustiça à violência contra o próximo e a sua supressão[95]?

Para obter a paz, João Paulo II deposita toda a esperança no ecumenismo, e não na mensagem da Virgem Maria em Fátima:

Vendo quanto os povos tinham a necessidade urgente de sonhar com um futuro de paz e prosperidade para todos, convidei os crentes das diversas religiões do mundo para se reunirem em oração em favor da paz. Tinha diante dos meus olhos a grande visão do profeta Isaias: todos os povos do mundo, de diversos pontos da terra, vinham se reunir em torno de Deus como uma única família, grande e multiforme[96]. Eis a visão que guardava no coração o bemaventurado João XXIII e que o levou a escrever a encíclica Pacem in Terris. Em Assis este sonho assumiu uma forma concreta e visível[97].

A exemplo do ato de 1984, constatou João Paulo II que os encontros interreligiosos não trouxeram a paz sobre a terra. Ora a Santíssima Virgem prometera “algum tempo de paz”, se se atendessem os pedidos. As guerras permanentes que continuam a devastar o mundo demonstram a insistência com que se desobedece à Santa Virgem.

Cada vez mais almas caem no inferno

Enfim a Virgem Maria enriqueceu duma terceira promessa a consagração da Rússia: “Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas” (13 de julho de 1917).

Um mundo onde salvar-se-iam muitas almas viveria oficial e mormente no respeito às regras da moral, em particular às santas leis do casamento cristão.

Ora não são necessárias longas demonstrações para constatar-se que o mundo afunda numa imoralidade que ultrapassa em muito os crimes de Sodoma e Gomorra.

No seu último livro Irmã Lúcia também tem observações a fazer a este respeito. Assim, acerca do sexto mandamento de Deus, escreve ela:

Nestes tempos em que a sociedade parece ter querido fazer desse pecado uma lei, a Sagrada Escritura continua repetindo o mandamento de Deus: “Não cometerás adultério” (Dt 5, 17). […] Assusta olhar para o mundo de hoje, com a desordem que reina a tal respeito e a facilidade com que se mergulha na imoralidade[98].

Sobre o nono mandamento diz ela ainda:

“Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Dt 5, 21). Tal é a desordem que vai pelo mundo contra este mandamento, que me pergunto a mim mesma: ainda vale a pena falar dele? A resposta é afirmativa: porque ainda que todo o mundo se afogue no abismo, a palavra de Deus permanece[99].

Nos Apelos insiste Irmã Lúcia em apontar estes dois pecados, pois tem ela em mente o que a Santa Virgem dissera à pequena Jacinta: “Os pecados que mais levam almas para o inferno são os pecados da carne[100].”

A Virgem Maria prometeu que, se a Rússia fosse consagrada ao Imaculado Coração, salvar-se-iam inúmeras almas. Pelo contrário, a atual condição do mundo leva grande número de almas ao inferno. Eis aí uma prova de que a Rússia não foi consagrada.

Não foi exaltado o Imaculado Coração

Não se realizou nenhuma das três promessas ligadas à consagração da Rússia. E eis que resta fazer a observação mais importante de todas: certo dia Irmã Lúcia perguntou a Nosso Senhor porque esses três benefícios maravilhosos não seriam concedidos se o Papa não consagrasse a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Respondeu Nosso Senhor:

Porque quero que toda a minha Igreja reconheça esta consagração [conversão da Rússia] […] a devoção a este Imaculado Coração[101].

Não foi o que aconteceu a partir de 25 de março de 1984: a devoção ao Imaculado Coração de Maria nunca esteve tão sumida; e ainda serviram-se da queda do Muro de Berlim para exaltar não a Virgem Maria, senão a política de João Paulo II; à morte deste, os meios de comunicação o saudaram como “o demolidor do comunismo[102]”, “o artífice da derrocada do comunismo na Polônia[103]”; escrevia o Osservatore Romano: “Muito se insiste sobre o papel que o Papa desempenhou na derrocada do comunismo; esta é uma história que em grande parte ainda não foi contada[104].” João Paulo II em pessoa declarou em 1994:

Seria simplista acreditar que a derrocada do comunismo tenha sido provocada pela intervenção direta da Divina Providência. […] O comunismo caiu sozinho, por causa de sua fraqueza imanente[105].

O Papa não afirma que consagrou a Rússia, não associa a queda do Muro de Berlim à consagração de 1984, nem atribui a presente situação da Rússia à ação do Imaculado Coração de Maria; em verdade, chega a dizer que o muro caiu sozinho.

Estamos aqui mui distantes dum triunfo do Coração de Nossa Senhora, pois é manifesto que João Paulo II não consagrou a Rússia segundo o pedido de Nossa Senhora. Acrescente-se ainda que nunca se fez nada para que se disseminasse a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês.

Epílogo

No domingo de Páscoa de 1984, encerrava assim o sermão Mons. Lefebvre:

Deseja a Santíssima Virgem que seja a Rússia consagrada ao Imaculado Coração. Para quê? Para que reine seu Filho na Rússia e retorne o reino de Nosso Senhor àquele país que neste momento está entregue nas mãos de satã como instrumento para destruir o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a humanidade e o mundo inteiro. Sabe assim a Santíssima Virgem – a que esmagou a cabeça da serpente e luta contra satã – que é para lá que se há de levar as bênçãos de Deus; ela deseja ser a rainha da Rússia para entregar seu reino ao Filho, por isso pediu que lhe fosse consagrada a Rússia.

Parece que ninguém quer declarar “Nós consagramos a Rússia ao Imaculado Coração de Maria”, para que as graças da Santíssima Virgem convertam o pais e o transformem em terra de missão, que ao invés de instrumento de satã, será um país missionário.

Em verdade vivemos numa época admirável e espantosa: permite o bom Deus que o reino de satã possua uma extensão inacreditável. Logo, devemos lutar contra satã, secundados pelos auxílios da Santíssima Virgem, para que reine Nosso Senhor Jesus Cristo, seu divino filho[106].

Neste combate dos últimos tempos, guardamos uma esperança invencível fundamentada na promessa infalível de Nosso Senhor: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu farei minha igreja, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

Nosso Senhor revelou a Irmã Lúcia, em Rianjo, ecoando as palavras do Evangelho:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [107].

Em 29 de agosto de 1931, numa carta a Mons. Silva, bispo de Leiria-Fátima, Irmã Lúcia esclarecia que Nosso Senhor também afirmara: “Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria[108].”

“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

(Nossa Senhora, em 13 de julho de 1917.)

Anexo

Consagração da Rússia

Crônica da resistência à graça

Apresentamos aqui os acontecimentos axiais da longa história dum notável e terrível paradoxo: desde que há um século o Céu ofereceu à hierarquia católica um meio fácil de vencer os inimigos de Deus, conluiados para aniquilar o cristianismo de sobre a terra, os homens da Igreja iniciaram uma resistência a este plano de salvação, precipitando a si e ao mundo inteiro na desgraça.

13 de julho de 1917 – A Virgem Maria anuncia às três crianças de Fátima que há de pedir a consagração da Rússia ao Imaculado Coração e a consagração reparadora, a fim de obter a conversão da Rússia, a paz do mundo e salvação eterna de muitas almas, mas que não se dissesse nada a ninguém até a hora certa;

Pontificado de Pio XI

13 de junho de 1929 – Doze anos após as primeiras aparições em Fátima, e conforme a promessa de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora aparece novamente à Irmã Lúcia em Tui, na Espanha, para lhe dizer que era chegado o momento de fazer o ato solene e público de reparação e consagração da Rússia ao Imaculado Coração;

Entre setembro de 1930 e agosto de 1931 – Pio XI toma conhecimento dos pedidos celestes, contudo está comprometido desde 1922 com a política de abertura do leste, por isso responde a eles com o silêncio; a partir de então, deixa de aludir ao Imaculado Coração;

Mas em Rianjo, em agosto de 1931, diz Nosso Senhor à Irmã Lúcia, numa comunicação íntima:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição. Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e Maria[109].

13 de maio de 1931 – Os bispos de Portugal consagram o país ao Imaculado Coração de Maria[110]. Deste então, o pais vai conhecer (até o fim do governo de Salazar em 1968) uma milagrosa renovação religiosa e política. Portugal se torna assim “a vitrina de Nossa Senhora”, e o mundo inteiro testemunha as graças que o Céu concederia às outras nações, se se consagrassem ao Imaculado Coração de Maria;

1932 – Começa a punição dos homens da Igreja: naquele ano o Pe. de Lubac, futuro inspirador do Vaticano II, elabora sua nova teologia; o Pe. Congar começa a assistir cursos de teologia numa faculdade protestante; Pe. Chenu é nomeado lente em Saulchoir; Karl Rahner acompanha os cursos de Heidegger em Friburgo. No ano seguinte Maritain expõe suas novas idéias políticas.

Neste momento Moscou começa a instruir a todos os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários, para infiltrar a Igreja e miná-la por dentro.

1º de agosto de 1935 – Nosso Senhor ordena a uma mística portuguesa, Alexandrina Maria da Costa, escrevesse ao Santo Padre para pedir-lhe a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Deste modo intenta o Céu obter um ato nem tão grandioso quanto a consagração da Rússia, mas que poderia prepará-la;

19 de março de 1937 – Instruido pelos fracassos de sua política em face do “triângulo vermelho de terror e sangue[111]”, Pio XI escreve a magnífica encíclica Divini Redemptoris, em que declara o comunismo “intrinsecamente perverso’;

Fins de março de 1937 – Acreditando propício o momento. Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreve diretamente ao Papa para lhe solicitar a consagração da Rússia; um silêncio semelhante ao de 1930-31 foi a única resposta;

25-26 de janeiro de 1938 – Realização da profecia feita por Nossa Senhora em 13 de julho de 1917: naquela noite avistou-se uma espécie de aurora boreal, dum vermelho cor de sangue, na Europa, no Norte da África e na América do Norte, onde causou estupefação e inquietude – era o sinal de que guerra que vai punir o mundo está próxima;

Junho de 1938 – O Pe. Pinho, confessor de Alexandrina Maria da Costa, prega o retiro anual dos bispos portugueses em Fátima; ele sugere aos bispos que escrevam uma carta conjunta ao Papa para solicitar a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. O Papa não a responde; morre a 10 de fevereiro de 1939;

Pontificado de Pio XII

Abril de 1940 – O Pe. Gonçalves, confessor de Irmã Lúcia, transmite a Pio XII o pedido de consagração da Rússia, mas não houve reação em Roma;

2 de dezembro de 1940 – Irmã Lúcia escreve ao Papa sobre a abreviação da guerra, se se consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia; esta consagração é um paliativo que não logrará a conversão da Rússia, mas abreviará a provação da guerra. É a primeira vez que Lúcia consigna em papel os dois pedidos: a comunhão reparadora e a consagração da Rússia. Acrescenta ela que a proteção que Nossa Senhora prometeu a Portugal durante a guerra é a prova das graças que concederia às demais nações se elas fossem consagradas ao Imaculado Coração de Maria;

Julho de 1941 – Tão logo concluiu o pacto com Hitler em 1939 – pacto este que precipitou o início da guerra –, Stalin alia-se aos aliados; esta tática vai propiciar à Rússia considerável influência sobre o mundo;

Agosto de 1941 – Irmã Lúcia recebe inspiração divina para dar a público conhecimento as duas primeiras partes do grande segredo de 13 de julho de 1917, a fim de advertir o mundo do perigo que o está ameaçando[112];

Setembro de 1941 – Sob pressão de Roosevelt, que queria ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e de Stalin, Pio XII aceita que a hierarquia católica silencie a perversidade intrínseca do comunismo; contudo, rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou;

No curso do ano de 1942 – Segundo Mons. Roche, Mons. Montini assina um acordo secreto com Stalin sem informar Pio XII;

6 de setembro de 1942 – Numa carta ao Pe. Gonçalves Irmã Lúcia escreve que, durante um retiro em Fátima, os bispos portugueses enviaram a Roma uma súplica para que seja o mundo consagrado ao Imaculado Coração de Maria;

31 de outubro e 8 de dezembro de 1942 – Pio XII consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Ele não fez menção explícita à Rússia, mas apenas uma alusão velada. – A partir daí a guerra sofre uma reviravolta decisiva: em 3 de novembro Rommel é derrotado em Al Alamein; em 8 os Americanos desembarcavam na África do Norte. Em 2 de fevereiro do ano seguinte o VI Exército alemão do Marechal Paulus capitula em Stalingrado;

4 de maio de 1944 – Para comemorar a lembrança da consagração de 1942, Pio XII fixa a festa do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo-lhe a dignidade de festa de segunda classe. – Neste mesmo ano de 1944 um jesuíta belga, o Pe. Édouard Dhanis, publica uma tese em que lança dúvidas sobre a autenticidade do segredo de 13 de julho de 1917. No ano seguinte pretextava ele que era moralmente impossível consagrar a Rússia, em razão das reações que poderia suscitar;

De 4 a 11 de fevereiro de 1945 – Na conferência de Ialta Roosevelt entrega a Stalin a Europa Central e Oriental, e depois lhe abandona imensas regiões do Extremo Oriente, deixando a Ásia desassistida contra a invasão comunista;

15 de julho de 1946 – Numa entrevista a William Thomas Walsh Irmã Lúcia reafirma claramente que o Papa e todos os bispos devem consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, ou então aquela nação espalhará seus erros no mundo inteiro;

13 de maio de 1947 – Uma imagem de Nossa Senhora de Fátima é levada em triunfo da Cova da Iria até o congresso mariano de Maastricht, nos Países Baixos. Este é o começo da “jornada mundial”, durante a qual a Virgem Peregrina percorrerá os cinco continentes, realizando inúmeras conversões e atraindo os não-católicos. No curso de cinco anos o mundo inteiro vai testemunhar o poder do Imaculado Coração de Maria;

Outubro de 1947 – Após uma longa conversa com Irmã Lúcia Pe. Colgan e John Haffert fundam o Exército Azul, cujo objetivo é reavivar diariamente a mensagem de Fátima no espírito dos fiéis e trabalhar para a obtenção da consagração da Rússia; o Exército Azul espalhar-se-á rapidamente em 110 países;

De 8 a 14 de dezembro de 1947 – A Santíssima Virgem impede um golpe de estado comuno-soviético na França, ao aparecer a quatro meninas em Île-Bouchard;

1949 – O Pe. Dhanis é nomeado professor da Universidade Gregoriana em Roma; sua influência crescerá mais e mais até que o Pe. Fonseca refute com mestria sua tese;

1950 – Prossegue a maldição de Deus sobre os homens de Igreja; os anos de 1950-53 veem um aumento alarmante do progressismo na Igreja, instado pelo auxílio de figuras poderosas – Em 6 de junho Mons. Roncalli, o futuro João XXIII, então núncio apostólico a Paris, escreve à Sra. Marc Sangnier uma carta em que reabilita o fundador do Sillon[113]; essa carta circula nos meios políticos da França. – Em 8 de setembro, numa entrevista ao filósofo Jean Guitton. Mons. Montini, o futuro Paulo VI, relativiza em muito as condenações da encíclica Humani Generis, com intenção de abonar os teólogos franceses mirados pelo documento[114]. – Quanto a assuntos políticos, está-se no começo da descolonização, que entrega ao comunismo imensos territórios, nos quais a Igreja perde a influência missionária e civilizatória;

30 de outubro e 8 de novembro de 1950 – Nos dias à cerca da definição solene do dogma da Assunção, Pio XII testemunha em privado, nos jardins do Vaticano, a renovação do milagre do sol de 13 de outubro de 1917;

Maio de 1952 – Nossa Senhora aparece novamente a Irmã Lúcia para dizer que ainda espera pela consagração da Rússia;

7 de julho de 1952 – Certamente após a mensagem acima e, ao mesmo tempo, em razão do movimento dos católicos russos, que anelavam o cumprimento dos pedidos da Virgem Santíssima, Pio XII escreve a carta apostólica Sacro Vergente Anno, em que ele consagra e de forma especial confia todos os povos da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Nomeou-se a Rússia no texto, mas não se realizou nenhuma cerimônia pública e solene, nem houve a conclamação dos bispos do mundo inteiro para que se unissem ao ato. “Dá-me pena de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escreveu Irmã Lúcia naquele verão. A partir daí Pio XII diminui aos poucos as menções à Fátima e ordena que se restrinjam as visitas à Irmã Lúcia;

De 29 de agosto a 1º de setembro de 1953 – Em Siracusa, na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria desata a chorar e operar inúmeros milagres que agitam o mundo inteiro. Pio XII parece que não associa o fenômeno à Fátima;

Outono de 1954 – Com estupefação e dor Pio XII descobre a traição de Mons. Montini, secretário substituto na Secretaria de Estado, que ainda mantinha relações secretas com o Kremlin. O Papa o afasta de Roma ao nomeá-lo arcebispo de Milão, mas não o alça ao cardinalato;

9 de outubro de 1958 – Morte de Pio XII. Papas de espírito liberal e modernista acedem à Sé de Pedro. Mais que nunca iria realizar-se o aviso de Nosso Senhor:

Não quiseram atender ao meu pedido. Como o Rei de França, arrepender-se-ão, e fá-la-ão, mas será tarde. [Nosso Senhor a Irmã Lúcia, em agosto de 1931.]

Pontificado de João XXIII

A Igreja entra numa crise sem precedentes na história[115]: trata-se da punição da hierarquia. Imbuidos das ideias modernas, os novos Papas ficaram muito pouco à vontade com a autêntica catolicidade da mensagem da Virgem Maria em Fátima.

Agosto de 1959 – João XXIII decide não publicar a terceira parte do segredo de Fátima, ao passo que Nossa Senhora queria a publicação do segredo em 1960; contudo, nada foi anunciado;

Setembro de 1959 – Quando a Virgem Peregrina chega em triunfo a Roma, João XXIII lhe manifesta uma indiferença glacial. Neste mesmo ano ele toma medidas para que não seja possível visitar Irmã Lúcia sem a licença de Roma. – Durante seu pontificado, não há nenhum esforço para consagrar-se a Rússia;

8 de fevereiro de 1960 – O Vaticano comunica que provavelmente nunca revelará o terceiro segredo de Fátima; dessa forma, corta-se rente o imenso fervor devocional a Nossa Senhora de Fátima, suscitado pela espera da revelação do segredo e a jornada mundial;

12 e 13 de outubro de 1960 – Por iniciativa de Mons. Venâncio, bispo de Leiria-Fátima, organizou-se uma peregrinação de oração e penitência à Cova da Iria, em reparação às ofensas aos Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria, para conquistar ao Céu a verdadeira paz com a conversão da Rússia. Está presente o Cardeal Cerejeira bem como milhares de peregrinos. Os bispos do mundo inteiro foram convidados, a partir de suas dioceses, a unirem-se a este ato; centenas de bispos responderam ao apelo, mas João XXIII guardou silêncio. – A peregrinação se dá em meio a um temporal, debaixo de rolos de vento e aguaceiro. – O resultado dela não se deixou esperar: apesar de estarmos num dos momentos mais tensos da Guerra Fria e Kruschev mostrar-se mais arrogante que nunca, no mês de outubro os soviéticos sofrem reveses catastróficos em seus experimentos aeroespaciais e nucleares: em 12 de outubro, na ONU, Kruschev descalça-se e espanca a bancada com o sapato, pois acabava de saber do fiasco do lançamento da primeira sonda para Marte; em 24 de outubro, na base de Baikonur, um míssil R-16, o estado da arte em armamento estratégico na Rússia, explode durante uma demonstração e mata o marechal Nedelin (comandante-em-chefe das unidades soviéticas de projéteis e Vice-Ministro da Defesa) e mais 164 militares;

1962 – No intento de conseguir o envio de dois representantes da Igreja Ortodoxa Russa ao Concílio Vaticano II João XXIII, por intermédio de Mons. Willebrands e do Cardeal Tisserant, negocia com Kruschev e compromete-se a não condenar o comunismo. Inaugura Roma uma política que vai de encontro aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima; apesar disso, Kruschev não diminui o ímpeto persecutório contra a Igreja.

Pontificado de Paulo VI

6 de junho de 1963 – Com uma nota do Cardeal Wyszinski, a Santa Sé previne os bispos franceses e superiores maiores dos religiosos da residência da França, alertando-os contra as atividades do Grupamento Pax, que não passa dum braço de Moscou para dividir e dominar a Igreja[116];

29 de outubro de 1963 – Em razão do ecumenismo, o Concílio Vaticano II recusa-se a elaborar um esquema particular sobre a Virgem Santíssima. Escreve o Pe. Berto: “A Santa Virgem obstava o Concílio. […] Tiraram-na discretamente […] e os destinos da segunda sessão foram selados. […]  Enquanto isso, o Espírito Santo […] observava do paraíso[117].” Não há uma passagem sequer deste concílio “pastoral” que ao menos aluda à recitação do terço, a fim de encorajar sua prática entre os fiéis. Neste ano de 1963 Paulo VI nomeia o Pe. Dhanis reitor da Universidade Gregoriana em Roma;

3 de fevereiro de 1964 – Mons. de Proença Sigaud remete pessoalmente ao Papa um requerimento com assinaturas de 510 bispos de 78 nações, em que instava renovasse o Concílio a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia;

21 de novembro de 1964 – No discurso de fechamento da terceira sessão do Concílio Paulo VI “confia” – seria em atendimento à petição? – o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, mas foi apenas um discurso, e não uma cerimônia solene, e ademais não se nomeou a Rússia;

Outubro de 1965 – Mons. Lefebvre leva ao secretário do Concílio uma súplica com as assinaturas de 450 bispos, em que se demandava a condenação do comunismo; mas uma vez que o Vaticano empenhava-se em não condenar o comunismo: a petição desapareceu numa gaveta;

1966 – Mons. Venâncio encarrega o Pe. Alonso, claretano, da organização duma história crítica e exaustiva das aparições de Fátima, para defender a mensagem de seus oponentes, sobretudo do Pe. Dhanis;

13 de maio de 1967 – Em comemoração ao cinquentenário das aparições, Paulo VI faz uma viagem-relâmpago à Fátima. Ele não vai rezar na Capelinha, recusa-se a falar com Irmã Lúcia e profere um sermão em que exortava a humanidade a trabalhar pela paz, mas sem alusões à mensagem de Nossa Senhora. Mais tarde, confidencia ele a Jean Guitton que a viagem lhe foi uma penitência. – As idéias de Paulo VI estão bem afastadas da mensagem de Fátima: esta foi a época em que ele inaugurou oficialmente a Ostpolitik com os governos comunistas do leste europeu; Mons. Casaroli era seu representante;

1969 – Na reforma litúrgica Paulo VI rebaixa a festa do Imaculado Coração de Maria à condição de simples memória;

De 1973 a 1975 – Na conferência de Helsinque a delegação vaticana obtém dos países do leste o reconhecimento explícito da liberdade religiosa. – Em realidade, declara Mons. Hnilica, a situação dos católicos piora a cada momento nos países comunistas; os bispos concedidos à Igreja são instrumentos do partido[118].

Pontificado de João Paulo I

Em 1977, após uma longa entrevista com Irmã Lúcia, João Paulo I, ainda arcebispo de Veneza, segredou a um de seus conselheiros que gostaria de consagrar a Rússia, tal como Nossa Senhora de Fátima pediu. Seu curtíssimo pontificado não lhe deixou tempo de fazer o que quer que fosse, mas não é certo de que ele teria a coragem e as convicções necessárias para a realização dum tal ato, pois era um dos cooptados pelos erros do Vaticano II.

5 de setembro de 1978 – João Paulo I recebe Mons. Nikodim, metropolitano cismático de Leningrado, que morre de súbito durante a audiência, depois de aparentemente ter-se convertido. Em 22 de maio de 1975 ele fez uma peregrinação privada à Fátima[119].

Pontificado de João Paulo II

16 de outubro de 1978 – Eleição do Papa João Paulo II, que continua de imediato a Ostpolitik de seu predecessor;

1980 – Depois de apenas três anos de vasta campanha, o Cardeal Josef Slipyj leva ao Vaticano um abaixo-assinado com três milhões de assinaturas, em que se pedia a consagração da Rússia. No mesmo ano, na presença do Cardeal Wyszinski, Mons. Hnilica afirma a João Paulo II que o ato mais importante a que seu pontificado poderia almejar seria a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com todos os bispos[120]. Responde-lhe o Papa que não gostaria de se imiscuir nos assuntos russos e também porque pensava não ter jurisdição para fazer o ato;

13 de maio de 1981 – Atentado contra João Paulo II na Praça São Pedro. O Papa compreende a ligação entre este acontecimento e Fátima. No hospital ele manda trazer as Memórias de Irmã Lúcia;

7 de junho de 1981 – Ainda no hospital o Papa ordena que leiam em Santa Maria Maior um texto no qual ele entrega “toda a família humana” nas mãos da “Mãe dos Homens e dos Povos”; não se trata da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria;

21 de março de 1982 – A instâncias do Pe. Caillon, Mons. Sante Portalupi, núncio em Lisboa, visita Irmã Lúcia, que lhe diz que a Rússia nunca foi consagrada e falta fazê-lo;

De julho a agosto de 1982 – A Soul Magazine, do Exército Azul, veicula que, segundo Irmã Lúcia, a consagração da Rússia aconteceu na cerimônia de 13 de maio de 1982; assim, o Exército Azul já não tem mais motivos para lutar: aos poucos ele vai adotando as teses modernistas sobre Fátima e rebatiza-se de “Apostolado Mundial de Fátima”;

8 de dezembro de 1983 – João Paulo II escreve aos bispos católicos do mundo inteiro, pedindo-lhes se juntassem a ele em 25 de março do ano seguinte, dia em que consagrará o mundo a Nossa Senhora;

8 de junho de 1983 – Durante uma audiência geral o Pe. Caillon consegue aproximar-se de João Paulo II na Praça São Pedro. Ao perguntar ao Papa quando ele consagraria a Rússia, recebe apenas isto como resposta: “Já está feito, já está feito. É sempre a mesma história.” Com grande perseverança o Pe. Caillon vai aproximar-se do Papa muitas outras vezes e outras tantas será despedido da mesma maneira;

25 de março de 1984 – Em Roma, diante de 250.000 pessoas, João Paulo II oferece e consagra o mundo à “Mãe dos Homens e dos Povos”, sem nenhuma menção à Rússia. Ainda naquela manhã declarou ele que não desejava fazer nada além do que já haviam feito seus predecessores; e à noite, numa oração à Maria, diz: “Tu esperas nosso ato de consagração.” Três dias antes da consagração, confiara Irmã Lúcia a Mons. Pestana que aquele ato não tinha caráter decisivo;

Setembro de 1985 – Em entrevista ao Sol de Fátima confirma Irmã Lúcia que a Rússia nunca foi consagrada tal como Nossa Senhora pediu;

1º de fevereiro de 1986 – Mons. Luciano Guerra, diretor da revista Voz de Fátima, escreve nesta publicação: “Para nós, que escrevemos de Fátima, Gorbachev é o homem escolhido por Deus para dar o primeiro passo em direção à realização da profecia de Maria neste lugar sagrado.”;

27 de outubro de 1986 – João Paulo II reúne as falsas religiões em Assis para rezarem pela paz mundial, indo de encontro ao pedido da Rainha do Céu em Fátima. – Nesse mesmo ano o Cardeal Gagnon requer de João Paulo II a autorização para encontrar-se com Irmã Lúcia. “Ah, não! responde o Papa, não vale a pena; a consagração já está feita, acabou[121].”;

20 de julho de 1987 – Interrogada à pressa, quando estava fora do convento, a fim de votar, Irmã Lúcia confirma ao jornalista Enrico Romero que ainda não se tinha feito a consagração da Rússia;

22 de agosto de 1987.– Visto que piorava a cada dia a crise da Igreja, que é a punição à desobediência da hierarquia, Mons. Léfèbvre, com seus principais colaboradores, vai em peregrinação à Fátima; lá implora ele a Nossa Senhora que o ilumine para saber se deve consagrar os bispos e realizar “a operação de sobrevivência da Tradição”. Após a missa celebrada para 2000 fiéis, o fundador da Fraternidade São Pio X lê um texto de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria[122].

1989 – Mais de 350 bispos respondem à carta do Pe. Nicholas Grüner e assim corroboram com a consagração da Rússia em união com o Papa, segundo a solicitação de Nossa Senhora de Fátima. O Pe. Grüner distribui para o mundo anglófono a revista Fatima Cruzader, com o fim de espalhar a mensagem de Fátima. O Vaticano recebeu, desde 1980, mais de um milhão de assinaturas suplementares pedindo a consagração da Rússia;

Maio de 1989 – Quanto à consagração da Rússia, diz Irmã Lúcia ao Cardeal Law (arcebispo de Boston):

O Santo Padre acha que já a realizou, considerando as possibilidades e segundo as circunstâncias. Mas se a realizou seguindo a fórmula estrita da consagração colegiada que [Nossa Senhora] pediu e desejava? Não, isso não foi feito.[123]

Foi a última vez, ao menos parece, que Irmã Lúcia afirma que não se consagrou a Rússia tal como Nossa Senhora pediu. A partir de junho declara ela que “a consagração já está feita”.

9 de novembro de 1989 – Queda do Muro de Berlim;

1º de dezembro de 1989 – Mikhail Gorbachev, presidente do Soviete Supremo da URSS, foi recebido no Vaticano; a visita é o auge e o triunfo da Ostpolitik;

13 de maio de 1991 – João Paulo II está de novo em Fátima; ele conversa com Irmã Lúcia durante cerca de meia hora, mas nada se sabe do tema do encontro;

8 de dezembro de 1991 – Fim da União Soviética (URSS), substituida pela CEI (Comunidade de Estado Independentes);

8 de outubro de 1992 – O Pe. Nicholas Grüner consegue que 65 bispos vão à Fátima, para que o ouçam discorrer sobre a consagração da Rússia, mas cerca de 35 são dissuadidos de irem à reunião; dois dias mais tarde o Pe. Grüner é agredido pelos empregados do santuário[124];

11 de outubro de 1992 e 11 de outubro de 1993 – Organizam-se dois encontros entre Irmã Lúcia e vários prelados e leigos; serve-lhes de interprete o Sr. Carlos Evaristo. – Mais tarde Evaristo publica um extravagante resumo das conversações, no qual põe ele em boca de Irmã Lúcia que já se haviam atendido aos pedidos de Nossa Senhora com todas as consagrações dos papas até então e que a conversão da Rússia já começara[125];

23 de junho de 1993 – Os acordos de Balamend, entre a Igreja Católica e os ortodoxos cismáticos, “excluem doravante todo o proselitismo e a vontade de expansão dos católicos em prejuízo da Igreja Ortodoxa (nº 35).” Deste modo opõe-se Roma à conversão da Rússia;

Outubro de 1994 – O Secretário de Estado e o núncio apostólico de Portugal escrevem aos bispos do mundo inteiro aconselhando-os a não assistirem à Segunda Conferência pela Paz, organizada pelo Pe. Nicholas Grüner, que se há de realizar no México. Vistos são recusados e muitos outros obstáculos se interpõem no caminho dos 100 bispos católicos que aceitaram o convite à conferência;

De 18 a 24 de agosto de 1996 – A comissão teológica do Congresso Mariológico Internacional de Czestochowa e uma nota da Academia Pontificia Mariana rejeitam o requerimento da definição dogmática de Maria Corredentora, Medianeira e Advogada. Numerosas petições a favor da definição do novo dogma chegam a Roma;

Novembro de 1996 – Em Roma a Terceira Conferência pela Paz, organizada pelo Pe. Grüner, reune 200 bispos, malgrado as pressões que se fizeram;

1997 – Na Rússia a nova lei de liberdade religiosa põe a Igreja Católica numa situação tão precária quanto a das seitas;

De 12 a 18 de outubro de 1999 – Nova Conferência organizada pelo Pe. Grüner em Hamilton nos Estados Unidos (Ontário); porém está se tornando cada vez mais difícil convencer padres e bispos por causa das pressões do Vaticano. Estão presentes apenas alguns bispos e padres, bem como 300 leigos;

13 de maio de 2000 – João Paulo II está em Fátima para a beatificação de Francisco e Jacinta. No curso da cerimônia o Cardeal Sodano anuncia que a terceira parte do segredo vai se publicar por ordem do Papa;

5 de junho de 2000 – O Cardeal Castrillon-Hoyos envia uma carta ao Pe. Grüner ameaçando-o de excomunhão;

26 de junho de 2000 – A Congregação para a Doutrina da Fé publica a terceira parte do segredo de Fátima. No texto de apresentação, Mons. Bertone alude às palavras de Irmã Lúcia, em que ela dizia que já se fez a consagração da Rússia tal como Nossa Senhora pediu. Acrescenta ele que qualquer discussão ou nova petição não tem fundamento. No mesmo documento o Cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, refere-se explicitamente ao Pe. Dhanis e afirma que a devoção ao Imaculado Coração de Maria é uma noção “surpreendente para pessoas provenientes da atmosfera cultural anglo-saxônica e germânica”;

8 de outubro de 2000 – Na Praça São Pedro, em presença de 76 cardeais e de 1400 bispos reunidos para o grande jubileu do ano 2000, pronuncia João Paulo II um “ato de confiança” à Virgem Maria: “Viemos à tua presença para consagrar à tua solicitude materna nós mesmos, a Igreja, o mundo inteiro.” Em razão da solenidade, retira-se a estátua de Nossa Senhora de Fátima da Cova da Iria;

Dezembro de 2000 – Aparecimento do último livro de Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, que ela terminou de escrever em 25 de março de 1997. Ela não alude à consagração da Rússia, mas ao contrário o panorama que delineia sobre a situação do mundo prova à evidência que a Rússia nunca foi consagrada;

12 de setembro de 2001 – A secretaria de imprensa do Vaticano publica uma advertência ao Pe. Grüner, a propósito da nova Conferência pela Paz no Mundo, que vai se realizar em Roma de 7 a 13 de outubro. O prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal Dario Castrillon-Hoyos, assina o texto em que se declara que o Pe. Grüner está suspens a divinis[126];

17 de novembro de 2001 – Mons. Bertone visita Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra. O resumo da conversação de uma hora e meia a duas horas com a vidente contém apenas poucas dezenas de palavras; ele põe na boca da vidente a afirmação de que o Céu aceitou a consagração de 1984 e a confirmação de todo o conteúdo do documento que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou em junho de 2000;

13 de fevereiro de 2005 – Deus chama Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra;

2 de abril de 2005 – Falecimento do Papa João Paulo II em Roma. Os meios de comunicação o saudaram como o “o demolidor do comunismo”, mas em 1994 ele de si mesmo declarou que o comunismo caiu sozinho, sem intervenção direta da Providência. – Ele morreu no primeiro sábado do mês, embora jamais houvesse encorajado a devoção reparadora dos primeiros sábados;

19 de abril de 2005 – O Cardeal Ratzinger é eleito Papa e adota o nome de Bento XVI. Dele agora depende o cumprimento ou a recusa dos pedidos de Nossa Senhora em Fátima.

***

Dominicus

Artigo publicado na Revista Permanência nº 264 (Tempo do Natal 2011)

[Fonte: Le sel de la terre nº 53]

Tradução: Permanência


 [1] Padre Joaquim Maria Alonso, Fatima ante la esfinge el mensaje escatologico de Tuy, Ed. Sol de Fatima, Madrid, 1979, p. 92. Nunca se traduziu este livro em francês [nem em português] [N. do T.: tradução da versão francesa de Dominicus]. – O padre Joaquin-Maria Alonso (1913-1981), claretano espanhol, é decerto o mais autorizado especialista das aparições de Fátima. Em 1966 Mons. Venâncio, bispo de Leiria-Fátima, encarregou-o dum estudo crítico e exaustivo da história e da mensagem de Fátima. Suas pesquisas o levaram a se encontrar diversas vezes com Irmã Lúcia. Em 1975 já estavam encerrados os trabalhos, quando Mons. Amaral, bispo de Leiria-Fátima, proibiu a publicação. Foi necessário esperar até 1992 para que o santuário publicasse, em português, o primeiro volume dos documentos. Desde então saíram mais três volumes, mas o conjunto da obra (24 livros de 800 páginas cada) ainda está inacessível.

[2] N. do T.: equivoca-se o articulista: o subscritor da carta foi em realidade D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria-Fátima, que a remeteu ao Papa Pio XI às instâncias de Irmã Lúcia. Adiante Dominicus cita de novo este fato, já agora se referindo com acerto ao verdadeiro autor, D. Corrêa da Silva.

[3] Citação do Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, contribution de six experts à la connaissance de Fatima, Paris, Téqui, 1973, p. 50 [N. do T.: esta é quase ipsis verbis a resposta de Irmã Lúcia à quinta pergunta do questionário que Pe. Gonçalves – à época, confessor da vidente de Fátima – lhe enviou em maio de 1930; a pergunta dizia respeito ao desejo e à vontade de Nosso Senhor em relação à Rússia].

[4] Ver B. De Lespielle, “La Russie ou ‘l’empire intérieur’”, em Civitas nº 10, 4º trimestre de 2003, p. 61-67 (artigo mui favorável a Vladimir Putin; sem querer prejulgar o futuro, teríamos neste ponto uma grande prudência).

[5] Dom Guéranger, Anné Liturgique, 12 de novembro, festa de São Josafá.

[6] Alude ele à Roma católica (“primeira Roma”), que já acredita decaída, e à queda de Constantinopla (‘segunda Roma”).

[7] Na época do cisma os orientais condenavam a Igreja Romana pela utilização do pão ázimo na consagração do Corpo de Nosso Senhor na Missa.

[8] Trata-se de Constantinopla.

[9] Ver Gaston Zananiri, Pape et patriarches, Paris, NEL, 1962, p. 63-66.

[10] Padre Calmel O.P., “Le Coeur Immaculé de Marie et la paix du monde”, em Itinéraire 38, dezembro de 1959, p. 24.

[11] No final do séc. XIX e começo do séc. XX surgiu entre os católicos um fervor em prol da conversão da Rússia. Deus parecia que preparava os corações para os acontecimentos de Fátima. Ver o artigo do padre Emmanuel-Marie O.P.: “Le père Emmanuel et l’Orient chrétien” em Le Sel de la terre 44, p. 424-449; e Antoine Wenger, Rome et Moscou, 1900-1950, Paris, DDB, 1987, p. 18, sobre o padre Alzon, que remeteu a Pio IX em 1878 uma Mémoire sur un essai d’évangelisation en Russie.

[12] Note-se que Nossa Senhora não falou da “conversão dos russos”, mas da “conversão da Rússia”, designando assim o país na qualidade de entidade política e social. Não diz respeito apenas à conversão da maioria da população – precondição necessária para qualquer restauração – mas também à regeneração das instituições da Rússia, que se há de transformar num autêntico país cristão.

[13] Esperava-se encontrar a palavra conversão. Parece se tratar dum lapsus calami de Irmã Lúcia.

[14] Carta que o Pe. A.M. Martins S.J. transcreveu em Memórias e cartas da irmã Lúcia, Porto, L.E., 1973, p. 415 [Ver também Irmã Lúcia, O Segredo de Fátima nas Memórias e Cartas da Irmã Lúcia (Introdução e notas pelo Pe. Dr. Antônio Maria Martins, S.J.), São Paulo, Ed. Loyola, 1974, p. 171]. Nesta obra apresentam-se as cartas de Irmã Lúcia em língua portuguesa, francesa e inglesa. Diz-se no texto original em português mas será tarde: Um erro grosseiro, encontradiço em certas obras, acrescenta às traduções francesas e inglesas “ce sera trop tard, it will be too late”. Escreverá Irmã Lúcia ao Mons. Silva em 19 de agosto de 1931: “Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria” (carta citada por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 43).

[15] Sobre o problema das indulgências, o leitor pode consultar Sel de la terra 46 (p. 23-53) e 48 (p. 79-118).

[16] Leão XIII, Carta Encíclica Annum Sacrum, em Documentos de Leão XIII, São Paulo, Paulus, 2005, p. 724 e 727.

[17] Resumimos aqui um artigo do Padre Joseph de Sainte-Marie O.C.D., “

[18] Ver: Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 2, Saint-Pares-lès-Vaudes, CRC, 1986, terceira seção; ou o resumo desta obra, do Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima joie intime événement mondial, CRC, 1991, cap. 10.

[19] A 5 de agosto de 1921, Bento XV faz ao mundo um apelo em favor da Rússia, para que enviem ajuda a ela por ocasião da grande fome que a assolou, em decorrência da guerra de 1914-1918. Logo após, ele entrou em negociações com o governo de Lênin, para combinar a distribuição de víveres. Era louvável a intenção caridosa, mas a operação favorecia deveras o governo comunista, que naquele momento tentava obter o reconhecimento das grandes potências. Na continuação dos esforços Pio XI foi muito mais longe: na Conferência de Gênova de 1922, o primeiro encontro internacional em que tomaram assento os bolcheviques, sugeriu Mons. Pizzardo “a readmissão da Rússia na comunidade dos países civilizados” em troca da liberdade de consciência e da liberdade de culto. Mons. d’Herbigny foi um dos agentes mais ativos dessa política. Ver: Ulisse Floridi, Moscou et le Vatican, Paris, France-Empire, 1979; Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute verité sur Fatima, t. 2, ibid., p. 351-382.

[20] Pio XI, Alocução Ecco una aos professores e aos alunos do Colégio Mondragone, 14 de maio de 1929, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/speeches/documents/hf_p-xi_spe_19290514_ecco-una_it.html (acessado em 19 de outubro de 2011).

[21] Pequena cidade marítima próxima a Pontevedra, para onde enviaram a repouso a adoentada Irmã Lúcia.

[22] Carta de Irmã Lúcia citada por Pe. Alonso e reproduzida por Irmão Michel de la Sainte-Trinité em Toute la vérité sur Fatima, t. 2, ibid., p. 344. – Há de se sublinhar certas datas, que levam a acreditar na punição dos homens de Igreja já a partir daquele momento. Em 1932 o Pe. de Lubac, que elaborou sua “Nova Teologia” inspirada em Blondel, deu a público na Revue de sciences religieuses um artigo conducente ao enfraquecimento da autoridade da Igreja sobre a sociedade temporal. Também em 1932 o Pe. Congar começou a seguir os cursos na faculdade de teologia protestante; neste ano, Karl Rahner ingressou na Universidade de Friburgo, a fim de ali seguir os cursos de Heidegger, ao passo que o Pe. Chenu era nomeado reitor de estudos no convento dominicano de Saulchoir. Em 1933 Maritan expôs pela primeira vez suas novas idéias políticas em Du régime temporel et de la liberté. Segundo inúmeros testemunhos convergentes, começou nos anos 30 a infiltração comunista dos seminários (ver infra).

[23] Os vértices desse “triângulo” eram a Rússia (onde a diplomacia de Pio XI não logrou o fim das perseguições), o México (onde a diplomacia livrara os Cristeros dum fim trágico) e a Espanha (que soçobrava no terror).

[24] Pio XI, carta encíclica Divini Redeptoris, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/ documents/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris_po.html (acessado em 19 de outubro de 2011). – Curiosamente, esta passagem se omitiu na edição dos Enseigmenents pontificaux de Solesmes, Paris, Desclée, 1952, volume intitulado La paix intérieure des nations. Não a encontramos também no Dezinger de 1957, nem no Dezinger-Schönmetzer de 1976 (ambos limitam-se a citar breves passagens da encíclica).

[25] Antigos comunistas testemunharam o fato, nos Estados Unidos (Bella Dodd: “Nos anos 30, infiltramos 1100 nos seminários, a fim de destruir a igreja por dentro”; Douglas Hyde, etc.) e na França (Henri Barbé – 1901-1966; Albert Vassart – 1898-1958, etc.). Ver Sel de la terre 45. P. 207-208 e 27, p. 188-190; Itinéraires 227, p. 151; Catholic Family News, agosto de 1991. – Baseada nesses acontecimentos, escreveu Marie Carré um célebre romance: ES 1025, ou les mémoires d’un anti-apôtre, Chiré-en-Montreuil, Éditions de Chiré, 1978. – Mais tarde, em 1945, o Gen. Serov, chefe dos serviços secretos da União Soviética, funda o grupamento “Pax”, cuja missão era infiltrar-se na Igreja Católica a partir da Polônia (ver L’affaire Pax en France, suplemento do nº 86 de Itinéraires). Na época do Concílio dobrou-se o orçamento do Pax (ver Itinéraires 79, p. 55-57); o grupamento colaborou nos ataques então assestados contra a Cúria Romana (ver Itinéraires 88, p. 14-18).

[26] A idéia da consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria veio duma mística portuguesa, Alexandrina Maria da Costa, que recebia revelações particulares de Nosso Senhor. Como a investigação acerca da seriedade dessas comunicações resultasse mui positiva, os bispos de Portugal referendaram, já em junho de 1938, aquele pedido ao Papa Pio XI. Ante as dificuldades em obter-se a consagração da Rússia, Mons. Ferreira achou por bem juntar os dois pedidos num só. – Ver o artigo do Sr. Pe. Delestre, “Pourquoi ne pas obéir à la Mère de Dieu comme il le faudrait?”, em Le Sel de la terre 32, sobretudo a páginas 53 e 54.

[27] Texto publicado por Pe. A.M. Martins e reproduzido por Irmão François Marie-des-Anges em Fatima joie intime, ibid., p. 233-234 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[28] Pio XII, Radiomensagem aos fiéis portugueses por ocasião da  Consagração da Igreja e do Gênero humano ao Coração Imaculado de Maria (31 de outubro de 1942) em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/speeches/1942/documents/hf_p-…. (acessado em 19 de outubro de 2011).

[29] Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, de 4 de maio de 1944, AAS, 1945, p. 37-52.

[30] Carta de Irmã Lúcia, de 28 de fevereiro de 1943, ao bispo de Gurza.

[31] Ver Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, ibid., t. 3, p. 94-97.

[32] Foi uma intervenção especial de Nossa Senhora, em Ile-Bouchard, que salvou a França do comunismo em 1947 (ver o artigo do Sr. Paul Chaussée em Le sel de la terre 53).

[33] Esta aparição está relatada a páginas 440 da obra Il Pellegrinaggio delle Meraviglie, publicada sob os auspícios do episcopado italiano em 1960, na cidade de Roma. Afirma a obra que a mensagem foi transmitida ao Papa em junho. O cônego Barthas chega a mencionar o fato numa comunicação, durante o congresso mariológico de Lisboa e Fátima, em 1967: “De primordiis cultus mariani”, Acta congressus mariologici in Lusitania anno 1967 celebrati, Roma, 1970, p. 517 (ver Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 3, ibid., p. 217, nota 1) [N. do T.: ver também http://www.fatima.org/port/crusader/portcr84_ferrara.asp, acessado em 31 de outubro de 2011 ].

[34] Pio XII, Carta apostólica Sacro Vergente Anno, de 7 de julho de 1952, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/apost_letters/documents/hf_p-… (consultado em 19 de outubro de 2011).

[35] Carta citada por Pe. Alonso e reproduzida na obra coletiva Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 56 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[36] Produziu-se o fenômeno de 29 de agosto a 1º de setembro de 1953. Aconteceu na casa do casal Jannuso. Ângelo, o marido, acabara de alistar-se no partido comunista. Remeta-se à obra de Mons. Ottavio Musemeci, A Syracuse, la Madone a pleuré, Paris, Casterman, 1956.

[37] O padre Dhanis S.J. começara as críticas em 1944. Pretendia ele fazer distinção entre “Fatima I” (as aparições de 1917, que têm o reconhecimento oficial da Igreja) e “Fatima II” (as aparições posteriores de Nosso Senhor e Nossa Senhora em Pontevedra e Tui, de cuja autenticidade duvidava, atribuindo-as sobretudo à imaginação da vidente). Essa atitude lhe permitia por ao largo a consagração da Rússia e a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês e a reduzir Fátima tão-somente a uma mensagem de oração e penitência que não incomodava ninguém. A tese do Pe. Dhani acabou vencedora no Vaticano, não obstante a refutação magistral e de primeira hora do Pe. Fonseca, e mais tarde a de Pe. Alonso, especialista oficial de Fátima, mormente no artigo Fatima y la critica, publicado na revista espanhola de teologia mariana que estava sob sua direção: Ephemerides Mariologicae 18 (1968), p. 393-435. Ver o artigo do Sr. Pe. Delestre: “Comment Fatima s’est imposé à l’Église” em Sel de la terre 53.

[38] John Haffert, Fatima, apostolat mondial, Paris, Téqui, 1984, p. 54.

[39] Sobre a descoberta da inaudita traição a Pio XII, ver o Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 1985, t.3, p. 299-305.- Mons. Roche, que durante 25 anos foi íntimo colaborador do Cardeal Tisserant, escreveu a Jean Madiran que as relações entre Montini e Stalin duraram pelo menos doze anos: “Parece que vós ignorais um acordo precedente, fechado durante a recente guerra mundial, em 1942 para ser mais exato, cujos protagonistas foram Mons. Montini e Stalin em pessoa. O acordo de 1942 me parece de importância considerável.” (Itinéraires 285, p. 153). L’Ostpolitik conduzida após a morte de Pio XII não foi fruto da súbita decisão de João XXIII: já havia muito que estava em preparação.

[40] Demonstrou-o com mestria o Papa São Pio X, na encíclica Pascendi, em que constata que o modernismo é o “esgoto coletor de todas as heresias.”

[41] João XXIII, discurso de abertura do Concílio, em 11 de outubro de 1962, http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_… (acessado em 19 de outubro de 2011). – Segreda João XXIII: “Estou sobretudo grato ao Senhor pelo temperamento que me deu, que me preserva de incômodas inquietações e de desânimos.” (João XXIII, Diário Íntimo, Lisboa, Livraria Agir Editora, 1964, p. 340).

[42] Remeta-se ao livro do Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul, 1er, le pape du secret (Toute vérité sur Fatima, t. 4), Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 56-68.

[43] Mons. Roche, carta a Jean Madiran, publicada em Itinéraires 285, p. 154.

[44] Conferência de imprensa de Mons. Léfèbvre no aeroporto de Roissy, em 9 de dezembro de 1983.

[45] Aconteceu em 1964. É de se lamentar que não tenham requerido tão-só a consagração da Rússia, mesmo que assim não surtisse melhor efeito em Paulo VI. No discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio, em 21 de novembro de 1964, declarou Paulo VI apenas isto: “Nosso predecessor Pio XII, de venerável memória, com inspiração do alto, consagrou solenemente [o mundo inteiro] ao Imaculado Coração de Maria.” Ao que acrescentou: “Ao teu Imaculado Coração, ó Maria, confiamos o gênero humano.” Mas trata-se dum discurso, e não duma cerimônia solene, e além disso não se nomeou a Rússia. Depois do que dissemos acerca das meias consagrações de Pio XII, não se pode considerar este discurso como resposta aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima. Ainda, Paulo VI usa o termo confiar (em latim committimus) e não o consagrar, empregado por Pio XII.

[46] Robert Serrou, Paris-Match nº 946, de 27 de maio de 1967, p. 52-53.

[47] Demais a mais, confessará Paulo VI que a viagem à Fátima lhe foi penosa: “Acredito que ao ir a Roma, o general de Gaulle fez uma peregrinação de penitência, como a que fiz à Fátima.” (Aludido por Jean Guitton, Journal de ma vie, Paris, DDB, t.2, p. 226-228.)

[48] Recordemos neste lugar que o desejo de Lúcia, expresso a Pio XII na carta de 2 de dezembro de 1940, era de “que a festa em honra do Imaculado Coração de Maria seja estendida a todo o Mundo, como uma das principais na Santa Igreja” (carta publicada nas obras de Antônio Maria Martins S.J., Memórias e cartas de Irmã Lúcia, Porto, ibid., p. 439, e também Irmã Lúcia, O Segredo…, São Paulo, ibid., p. 182.). Se a festa de segunda classe não é das principais festas da Igreja, que dizer duma simples memória? – No missal de Paulo VI a memória ao Imaculado Coração de Maria atualmente se encontra no sábado após o segundo domingo depois de Pentecostes, no dia seguinte à festa do Sagrado Coração de Jesus.

[49] Vê-se aqui a continuidade perfeita da política inaugurada por Montini em 1942. Estas linhas do Cardeal Sodano são extratos da apresentação à imprensa e às altas autoridades políticas, em 27 de junho de 2000, do livro póstumo do Cardeal Casaroli (morto em junho de 1998): Il martirio dell pazienza. La Santa Sedee i paesi comunisti (1963-1989), Einaudi editore. [N. do T.: tradução da versão francesa] – O Sr. Mikail Gorbachev, último presidente da URSS antes da abertura do Muro de Berlim, assistia à conferência, cujo transcrito encontra-se na DC de 6 e 20 de agosto de 2000, nº 2231, p. 721 a 724.

[50] Mons. Hnilica, no artigo publicado em Pro Deo et Fratribus, nº 40-41, de março-abril de 2001.

[51] O Cardeal Luciani publicou um relato da visita no hebdomadário católico e veneziano Gente veneta, de 23 de julho de 1977 (texto integral no livro do Irmão François de Marie-des-Anges, Jean Paul Ier, le pape du secret, p. 321-322).

[52] Citado pelo Irmão François de Marie-des-Anges, Toute la vérité sur Fatima, t.4, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, p. 343.

[53] DC 1750, de 15 de outubro de 1978, p. 860. Há de se perguntar como o Irmão François de Marie-des-Anges e a CRC conseguiram ver em João Paulo I um novo São Pio X, e apresentá-lo na condição de eleito do Imaculado Coração de Maria.

[54] Citado pelo Irmão François de Marie-des-Anges, ibid., t.4, p. 347.

[55] Cardeal Sodano, DC 2231,p. 723-724.

[56] Estava ele ainda no hospital.

[57] Note-se o tuteamento.

[58] DC 2230, p. 672.

[59] Citação do Irmão François de Marie-des-Anges, em Fatima, joie, événement mondial, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 1991, p. 360 [N. do T.: tradução da versão francesa]. Além disso, é possível duvidar que seja a mesma consagração de Pio XII, que proferiu mui claramente: “É ao Vosso Imaculado Coração que consagramos ao mundo”; João Paulo II não o disse. Demais, as consagrações de 1981 e de 1982 não obtiveram frutos visíveis.

[60] Tenha-se esta frase em mente: Irmã Lúcia só disse o que lhe permitiu a hierarquia [N. do T.: trecho extraído de www.fatima.org/port/crusader/cr76/cr76pg65.pdf (consultado em 19 de outubro de 2011)].

[61] Reconhece Mons. Bertone que as consagrações de 1981 e 1982 não correspondiam de todo aos pedidos da Virgem Maria. As aspas que apôs em “Nossa Senhora” são estranhíssimas e deixam dúvidas acerca da autenticidade das aparições.

[62] Aqui se dirige João Paulo II à Santa Virgem.

[63] DC 2230, ibid., p. 672-673 [N. do T.: tradução extraída de http://www.fatima.pt/portal/index.php?id=15355, acessada em 22 de outubro de 2011].

[64] João Paulo II fala das “nações particularmente necessitadas desta oferenda e desta consagração”, mas as palavras desta frase, que abrange várias nações, não deixa entrever a Rússia, ao passo que o texto de Pio XII era mais límpido, pois que mencionava “o ícone […] escondido e guardado para dias melhores”.

[65] ORLF, de 27 de março de 1984, p. 5.

[66] Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, événement mondial, ibid., p. 363-364.

[67] As hesitações e imprecisões de linguagem se originam mormente do fato de que a noção de Imaculado Coração de Maria é de difícil compreensão ao atual clero oficial. Chegou a declarar o Cardeal Ratzinger: “Indica-se como caminho […] – caminho surpreendente para pessoas provenientes da atmosfera cultural anglo-saxônica e germânica – a devoção ao Imaculado Coração de Maria. (Cardeal Joseph Ratzinger, Compreender a mensagem de Fátima, DC 2230, p. 681. Este texto é parte do dossiê O Segredo de Fátima, que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou em 27 de junho de 2000.) Terrível é esta frase: se dermos crédito a ela, a mensagem de Fátima, centrada no Imaculado Coração de Maria, não seria universal, mas abrangeria tão-somente países latinos, os únicos capazes de compreendê-la.

[68] Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, événement mondial, ibid., p. 361 [N. do T.: ver também www.fatima.org/span/crusader/cr83/cr83pg20.pdf, acessado em 31 de outubro de 2011].

[69] Começou a desmantelar-se a cortina de ferro em 9 de novembro de 1989. Sobre o tema consulte-se a obra de Pascal Bernardin, L’Empire écologique, Cannes, Éditions Notre-Dame des Grâces, 1998, cap. II. Explica o autor que a Perestróica, preparada havia muito pela KGB, marca nova fase da Revolução Mundial. – Ver também, de Hélène Blanc, KGB connexion, Le système Poutine, Éditions Hors Commerce, 14/18 rue Kléber, 75012 Paris, 2004 (www.horscommerce.com)

[70] Déclaration de la Commission mixte internationale pour le dialogue théologique entre l’Église catholique et l’Église orthodoxe, DC 2077, 1º e 15 de agosto de 1993, p. 714.

[71] Pe. Joaquin Alonso, La Verdad Sobre el Secreto de Fatima, Fatima sin mitos, Madrid, Ejercito Azul, 1988, p. 78. Transcrita de www.fatima.org/span/peaceconf/brazil_2007/transcripts/jv2.pdf (consultado em 19 de outubro de 2011).

[72] Ver Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, ibid., p. 374 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[73] O Irmão François de Marie-des-Anges, em Jean-Paul Ier, le pape du secret, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 451, dá certo número de testemunhos sobre o tema. Afirma o Pe. Caillon: “O Papa disse que já se fez a consagração. Ele obrigou a Irmã Lúcia a dizer a mesma coisa.”

[74] DC, de 16 de julho de 200, ibid., p. 673 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[75] Como falaremos adiante, perseguições morais e administrativas ainda seviciam o catolicismo na Rússia. Não esqueçamos que as perseguições físicas continuam, por ex., na China e na Coréia do Norte. Ver sobretudo Harry Hu: Retour au Laogai, La vérité sur les camps de la morte dans la Chine d’aujourd’hui, Paris, Belfond, 1996;

[76] Os aliados da tese também sairam em sua defesa. Assim, em La Nef nº 158, de março de 2005, num artigo intitulado: “In memoriam Soeur Lucie”; Alian de Penanster não hesita em escrever: “Em 1985, [Irmã Lúcia] respondeu que enfim a condição [exigida por Nossa Senhora para se converter a Rússia] cumpriu-se e Maria estava satisfeita. Daí aconteceu à Rússia Gorbatchev e a Perestróica. A conversão da Rússia poderia começar.” Notemos antes do mais um grosseiro erro cronológico: foi a partir de 1989, e não de 1985 – após o começo da Perestróica, e não antes – que Irmã Lúcia começava a mudar de discurso. Por outro lado, parece que Alain de Penanster ignora a situação atual da Rússia: veremos mais adiante o que resultou da “conversão” do país.

[77] Afirma claramente o Cardeal Ratzinger: “Antes de tudo, temos de afirmar com o Cardeal Sodano: “A Mensagem de Fátima se relaciona inteiramente com acontecimentos que, agora, pertencem ao passado”. (DC 2230, de 16 de julho de 2000, p. 683.) [N. do T.: ver também http://www.fatima.org/port/essentials/opposed/croncvrport.asp]

[78] É possível assinalarmos a ação perseverante e corajosa do Pe. Nicholas Grüner, diretor da revista Fatima Crusader. (Ver Le Sel de la terre 39, p. 249)

[79] ORLF, de 1º de janeiro de 2002, p. 6.

[80] Este fascículo está reproduzido em DC2230, ibid. [N. do T.: encontra-se a tradução oficial em português deste fascículo em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html, acesso em 22 de outubro de 2011]

[81] DC, ibid., p. 679. [N. do. T.: remeta-se o leitor ao endereço eletrônico acima] – Já sublinhamos que o Pe. Dhanis era o principal responsável pelo descrédito que Roma votava à autenticidade do segredo de Fátima.

[82] O cardeal está misturando as coisas: a visão do inferno e a do terceiro segredo é possível que Deus as tenha causado na imaginação das crianças, o que não quer dizer que seriam tais visões uma invenção. Contudo, grave seria a pretensão de que se houvesse inventado a visão de Nossa Senhora: que fazer então com os fenômenos atmosféricos que todos constaram, e sobretudo com o milagre do sol, testemunhado por 70.000 pessoas, dentre as quais inúmeros incréus? (O cardeal não alude a este milagre em seu texto). Em razão da queimadura que o brilho da luz da aparição causou em seus olhos, Irmã Lúcia teve de usar óculos pelo resto da vida. Ver Le Sel de la terre 43 (editorial) e 53 (artigo sobre o reavivamento miraculoso de Portugal, no parágrafo sobre os fenômenos atmosféricos vinculados à aparição).

[83] DC, ibid., p. 680, 682. [N. do T.: remeta-se o eleitor etc.] – Um comentário de conclusão ao segredo nestes termos é decerto um escândalo.

[84] Interessante notar que Mons. Bertone, agora cardeal, foi o enviado do Vaticano para celebrar os obséquios de Irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 2005, impondo ele os selos na porta da cela da religiosa.

[85] Ver o artigo “Le renouveau miraculeux du Portugal”, em Le Sel de la terre 53.

[86] Artigo de Pierre Lagier: “L’alcoolisme, fléau de la Russie”, em La Montagne (jornal local da região de Clermont-Ferrand), de 15 de outubro de 2000.

[87] Artigo de Alain Blum: “La mortalité augmente”, em La Croix, de 6 de maio de 2005, caderno central p. II

[88] Artigo de Jean-Claude Chesnais: “L’Europe centrale deviendra aussi une etrre d’immigration”, em Le Figaro, de 12 de agosto de 2002.

[89] Artigo de Evgueni Primakov: “Les trois handcaps de la Russie”, em Le Figaro, de 3 de setembro de 2002. – Acerca da demografia russa, remeta-se o leitor ao estudo de Alexandre Avdeev e Alain Monnier, publicado pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED) em 1996: Mouvements de la population de la Russie, 1959-1994: tableaux démographiques. – ver também Alain Blum, Naître, vivre et mourrir en URSS, Paris, Payot, 2004.

[90] “Um comunicado da agência Associeted Press, de 9 de agosto de 2001, revelou que em Moscou existe um centro de pornografia infantil ligado a outro organismo semelhante no Texas”, escreveu John Vennari em Catholic Family News, de fevereiro de 2002, p. 17.

[91] Entrevista do Pe. Hector Muñoz O.P. ao Sr. Humberto J. Macchi, publicado no semanário argentino Cristo Hoy, de 30 de setembro de 1999, p. 18 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[92] Ver o artigo de Pascal Bernardin, “La Russie répandra ses erreus”, em Le Sel de la terre 53.

[93] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, Fátima, Ed. Secretariado dos Pastorinhos, 2003, p. 78. Todavia, os editores da obra não hesitaram em reproduzir uma fotografia do ato de 1984 com a seguinte legenda: “Na praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II, diante da Imagem da Capelinha, em união com todos os bispos da Igreja, consagra o mundo e a Rússia ao Imaculado Coração de Maria (25 de março de 1984).” Encontra-se a fotografia e a legenda nas Memórias de Irmã Lúcia, do Secretariado dos Pastorinhos, Fátima, 2003, p. 155.

[94] João Paulo II, “O sonho de um mundo livre de guerras”, ORLF, de 9 de setembro de 2003, p. 1-2. Comentamos este texto em Le Sel de la terre 47, p. 248-253.

[95] João Paulo II, “Mensagem de celebração da Jornada Mundial da Paz, de 1º de janeiro de 2005”, ORLF, de 21 de dezembro de 2004, p. 6.

[96] Em realidade, a visão de Isaías é uma profecia sobre a Igreja, que reuniria todos os povos sob a mesma fé, e não sobre um conglomerado em que cada qual conservaria sua religião.

[97] João Paulo II, ORLF, de 9 de setembro de 2003, ibid.

[98] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, ibid., p. 239 e 242.

[99] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, ibid., p. 253.

[100] Citação do Pe. de Marchi em Temognages sor les apparitions de Fatima Fátima, Ed. Missões Consolata, 1966, p. 279. [N. do T.: Ver também Irmã Lúcia, O Segredo…, São Paulo, ibid., p. 93]– Versa sobre uma aparição particular da Virgem Maria à Jacinta, de que tomamos conhecimento por mãe desta, D. Olímpia. Jacinta entendeu que o que a Santa Virgem pedia era se não comesse carne (vianda) nos dias interditos! Mas Jacinta também acrescentava: “Virão modas que ofenderão muito a Nosso Senhor.”

[101] Carta de Irmã Lúcia, de 18 de maio de 1936, que o Pe. A.M. Martins S.J. reproduziu em Memórias e cartas de Irmã Lúcia, ibid, p. 415 [Ver também Irmã Lúcia, O Segredo…, ibid.]

[102] Nota da Agência France-Presse, de 13 de abril de 2005.

[103] Nota da agência americana Associeted Press, de 4 de abril de 2005.

[104] ORLF, de 5 de abril de 2005, p. 13. Notemos que se colocou um pedaço do Muro de Berlim, protegido sob uma redoma de vidro, numa das entradas mais movimentadas da grande esplanada do Santuário de Fátima. Ao lado dele encontra-se escrito em português uma frase da homilia de João Paulo II em Fátima, em 12 de maio de 1991: “Obrigado, celeste pastora, por terdes guiado com carinho maternal os povos para a liberdade!” (ORLF, de 28 de maio de 1991, p. 7)

[105] João Paulo II, Entrez dans l’espérance, Paris, Plon-Mame, 1994, p. 204 (Título em português: Cruzando o Limiar da Esperança, Francisco Alves, 1994, p. ).

[106] Mons. Marcel Lefebvre, Homélie du dimanche de Pâques, 22 avril 1984, à Êcône, extraído do magnífico CD: Pour l’amour de l’Église, le Christ-Roi, Homélies et allocutions de Mgr Lefebvre, de cuja edição se encarregou o setor de gravações do Seminário S. Pio X (CH – 1908, Riddes), volume 1.

[107] Texto citado por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 42.

[108] Carta citada por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 43.

[109] Em 1936 Irmã Lúcia esclarecera que Nosso Senhor lhe dissera também: “Fá-la-ão [o ato de consagração] mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições à Igreja. O Santo Padre terá muito que sofrer”.

[110] A consagração, renovada em 13 de maio de 1938, salvará Portugal dos efeitos da revolução comunista na Espanha e da II Guerra Mundial.

[111] Rússia, México e Espanha.

[112] A carta de 1940 a Pio XII permanecera secreta.

[113] Carta reproduzida em Itinéraires, de novembro de 1980, p. 152-153.

[114] Ver Jean Guitton, Dialogues avec Paul VI, Paris, Fayard, 1967, p. 26-32. Jean Guitton, logo após a entrevista, apressar-se-á em difundir a novidade à nata do modernismo francês (ver o irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 3, p. 234.)

[115] Demonstrou-o com mestria o Papa São Pio X na encíclica Pascendi, em que constata que o modernismo é “o esgoto coletor de todas as heresias.”

[116] Ver L’affaire Pax en France, suplemento da Revista Itinéraires nº86 (3º trimestre de 1964).

[117] Ver Le Sel de la terre 43, p. 29,30.

[118] Ver a obra de Ulisse Floridi, Moscou et le Vatican, Paris, France-Empire, 1979.

[119] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean Paul Ier, le pape du secret, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 399-404. – João Paulo I quis guardar segredo das conversações com Mons. Nikodim. Nada permite a confirmação da idéia que Vladmir Volkov divulgou no seu romance O Hóspede do Papa (2004), segundo a qual essa entrevista centrava-se em Fátima.

[120] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul Ier, ibid., p. 410.

[121] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul Ier, ibid., p. 449.

[122] A reprodução do sermão da missa e o texto de consagração está em Le Sel de la terre 53.

[123] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, ibid., p. 374.

[124] N. do T.: Segundo a confissão de um dos agressores ao Pe. Grüner, foi Mons. Luciano Guerra quem ordenou lhe aplicassem a tareia; neste particular caso, não há de que duvidar: nomen est omen.

[125] Ver a apreciação crítica do livro de Evaristo, Fatima, soeur Lucia témoigne, le message authentique, do Sr. Pe. Delestre, em Le Sel de la terre 35, p. 72-88; ver também os arrazoados do Sr. Paul Chaussée sobre o tema em Le Sel de la terre 39, p. 250-254. – Citemos apenas dois fatos que permitem o julgamento da falta de seriedade desta obra. Para que se desse crédito à consagração da Rússia, embora não a tivessem nomeado, põe Evaristo as seguintes palavras na boca de Irmã Lúcia: “O que importa é a sua intenção, como quando um padre tem a intenção de consagrar uma Hóstia”. Mas se o padre não pronuncia as palavras da consagração, a hóstia não fica consagrada! Irmã Lúcia ainda teria dito que Gorbachev na visita ao Vaticano se ajoelhara diante do Papa, a fim de lhe pedir perdão; o porta-voz da Santa Sé, em 2 de março de 1998, desmentiu em público esta última afirmação. – O livro, lançado em português em 1998, foi traduzido e difundido em francês pela Editora Fleurus-Mame em 1999, com uma apresentação de 45 páginas de Yves Chiron.

[126] ORLF, de 25 de setembro de 2001, p. 11. Ver Le Sel de la terre 39, p. 249.

AS SETE DORES DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA

Carta do Pe. Juan María de Montagut, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no Brasil (Casa Autônoma do Brasil)

Anápolis-GO, 30 de marco de 2020

Caros fiéis da Fraternidade São Pio X no Brasil,

No passado 27 de março, o Superior Geral da FSSPX, Revmo. Pe. Davide Pagliarani, enviou uma carta a todos os membros em vista à celebração, na próxima sexta-feira, da memória solene de Nossa Senhora das Dores. No ano passado, esta comemoração litúrgica foi elevada a festa de primeira classe para a nossa Congregação, por ser a Virgem das Dores a padroeira das Irmãs da Fraternidade São Pio X.

Aproveitando a ocasião, o Superior Geral pediu para que todos os padres celebrem a Santa Missa, nesse dia, na intenção de pedir a proteção de Nossa Senhora sobre «toda a família espiritual da Fraternidade», e luz «para que Ela nos inspire as decisões certas a serem tomadas nestes tempos difíceis; tudo isso, para que a Fraternidade tire desta provação novas forças, e um impulso apostólico igualmente renovado». Ademais, determinou que em todos os priorados seja renovada a Consagração da FSSPX ao Coração Doloroso e Imaculado de Maria nessas intenções, perante o Santíssimo Sacramento exposto. Ele convida, nesta difícil situação mundial, aos fiéis todos se unirem ao ato, que para os nossos priorados do Brasil, acontecerá sexta-feira, 3 de abril às 18 horas.

Assim, caros fiéis e amigos, reservem esse momento para a oração em família, lá onde não é possível acudir às capelas da Fraternidade. Tentem preparar-se da melhor maneira possível, pela meditação na co-redenção de Nossa Senhora e nas suas Sete Dores, em espírito de adoração aos desígnios da Providência divina. Deus nosso Senhor, que pela sua Paixão e morte na Cruz restaurou a Justiça e alcançou a salvação para os homens arrependidos, não deixará de abençoar e encher de graças seus filhos fiéis em meio a esta misteriosa provação.

Aproveito para convidá-los ao uso da medalha de Nossa Senhora das Graças. Com efeito, o que valeu para esta medalha o título popular de “Medalha Milagrosa” foi a proteção da Virgem com motivo de uma peste em Paris: «1832. A epidemia da cólera levou mais de 20.000 almas. Em Junho, começaram as Filhas da Caridade a distribuir as 2.000 primeiras medalhas principalmente ente os infeccionados que enchiam os hospitais. As curas se multiplicaram, e a especial proteção contra a doença, incluindo a cura da aflição emocional. O efeito foi avassalador. A população de Paris começou a chamar a medalha de “milagrosa”».

Com a minha benção sacerdotal.

Meditação

AS SETE DORES DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA

Comemoração das sete Dores de Maria Santíssima

“Ó vós todos os que passais pelo ca­minho, atendei e vede, se há dor semelhante à minha dor”

Sumário. Bem compete à Bem-Aventurada Virgem o título de Rainha dos Mártires, porque, semelhante em tudo a Jesus, sofreu, em toda a sua vida, no coração um martírio, ao mesmo tempo o mais longo e o mais doloroso. E o seu martírio não ficou estéril; muito ao contrário, produziu um fruto inestimável de vida eterna, de modo que todos os que se salvam, são disso devedores, depois de Jesus Cristo, às dores de Maria. Se nos queremos mostrar verdadeiros filhos da nossa aflita Mãe, imitemos a sua paciência e resignação.

Assim como Jesus se chama Rei de Dores e Rei dos Mártires, porque padeceu na sua vida mais que todos os outros mártires; assim Maria é com razão chamada Rainha dos Mártires. Mereceu este título por ter sofrido o martírio mais longo e mais doloroso que se possa padecer depois do de seu Filho.

A Virgem pôde dizer o que o Senhor disse pela boca de Davi: “A minha vida passou-se toda em dor e lágrimas”, porquanto a minha dor, que era a compaixão de meu amado Filho, não se afastava jamais do meu pensamento, vendo eu sempre todas as penas e a morte que Ele um dia devia padecer. Revelou a mesma divina Mãe a Santa Brígida, que, ainda depois da morte do Filho e depois de sua ascensão ao céu, a lembrança da sua paixão estava sempre fixa e recente no seu terno coração de mãe, quer comesse, quer trabalhasse.

O martírio de Maria foi também de todos o mais doloroso, porquanto, ao passo que os outros mártires tiveram o corpo dilacerado pelo ferro, ela teve a alma traspassada e martirizada, como já lhe predisse São Simeão: “E uma espada (de dor) te traspassará a alma”. Ora, quanto a alma é mais nobre que o corpo, tanto maior foi a dor de Maria que a de todos os mártires. A tudo isso acresce que ela padeceu sem alívio algum. Para os outros mártires, o seu amor a Jesus fazia-lhes os tor­mentos doces e suaves; para a divina Mãe, porém, o mesmo amor se lhe tornou cruel algoz, e fazia todo o seu martírio. Numa palavra, conclui um sábio escritor, o martírio de Maria na Paixão do Filho foi tão grande, porque ela só podia dignamente compadecer-se da morte de um Deus feito homem.

A dor de Maria na Paixão de Jesus Cristo não foi estéril, como a das mães comuns à vista dos filhos que sofrem. Não; foi, ao contrário, uma dor que produziu frutos abundantes de vida eterna. São Cipriano, falando dos mártires, disse que o seu sangue era como que uma semente de cristãos, querendo dizer que por um só homem que caía vítima da perseguição, surgiam logo muitos pagãos a pedirem o batismo e abraçarem a religião perseguida. Esta fecundidade, porém, do martírio, nada é em comparação da do martírio da Rainha dos Mártires.

Com efeito, sabemos que pelo mérito do sacrifício dolo­roso que Maria fez na morte de seu Filho, foi ela feita de­positária dos merecimentos de Jesus Cristo, Co-Redentora do gênero humano e Mãe de todos os fiéis que lhe foram confiados na pessoa de João: “Mulher, eis aí teu filho”. De sorte que todos os que se salvaram, se salvam e ainda vierem a salvar-se, todos serão devedores da sua salvação, depois de Jesus Cristo, ao martírio do Coração de Maria. Se, portanto, nós também quisermos um dia ir gozar no céu, sejamos devotos servos desta querida Mãe, e, à imitação dela, soframos com paciência as penas que tenhamos a sofrer, e todas as graças que queiramos pedir ao Senhor, peçamo-las pelos merecimentos das incomensuráveis dores que ela sofreu no correr de toda a sua vida, e especial­mente na Paixão de seu Filho.

Sim, ó Rainha dos Mártires, prometemos ser-vos fiéis; mas vós mesma deveis alcançar-nos esta graça.

“E Vós, ó meu Deus, em cuja paixão, segundo a profecia de Simeão, a alma dulcíssima da gloriosa Virgem e Mãe Maria foi traspassada por uma espada de dor: concedei propício que nós, que celebramos a memória de suas dores e padecimentos, possamos, pelos méritos gloriosos e intercessão de todos os Santos que se acharam ao pé da cruz, obter os felizes frutos dessa mesma paixão”.

Primeira dor de Maria Santíssima: Profecia de São Simeão

“Uma espada transpassará a tua alma” 

Sumário. O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que as tenhamos de sofrer uma só vez. Maria Santíssima, ao contrário, depois da profecia de São Simeão, tinha sempre diante dos olhos e padecia continuamente todas as penas que a esperavam na Paixão do Filho. Mas se Jesus e Maria inocentes tanto padeceram por nosso amor, como ousaremos lamentar-nos, nós que somos pecadores, quando temos de padecer um pouco por amor deles?

Neste vale de lágrimas, cada homem nasce para chorar e cada um deve padecer sofrendo aqueles males que diariamente lhe acontecem. Mas quanto mais triste seria a vida, se cada um soubesse também os males futuros que o têm de afligir! O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que, se as temos de padecer, ao menos as padeçamos uma só vez. Mas Deus não usou semelhante compaixão para com Maria, a qual, porque Deus quis que fosse Rainha das dores e toda semelhante ao Filho, teve sempre de ver diante dos olhos e de padecer continuamente todas as penas que a esperavam; e estas foram as penas da paixão e morte de seu amado Jesus.

Eis que no templo de Jerusalém, Simeão, depois de ter recebido o divino Infante em seus braços, lhe prediz que aquele seu Filho devia ser alvo de todas as contradições e perseguições dos homens e que por isso a espada de dor devia traspassar-lhe a alma: “Uma espada transpassará a tua alma”.  Davi, no meio de todas as suas delícias e grandezas reais, quando ouviu que o Profeta Natan lhe anunciava a morte do filho, não tinha mais paz: chorava, jejuava, dormia à terra nua. Não é assim que fez Maria. Com suma paz recebeu Ela a nova da morte do Filho e com a mesma paz continuou a sofrê-la; mas ainda assim, que dor não devia sentir o seu Coração!

Nem serviu para lha mitigar o conhecimento que já de antemão tinha do sacrifício a fazer, pois que, como foi revelado a Santa Teresa, a bendita Mãe conheceu então em particular e mais distintamente todas as circunstâncias dos sofrimentos, tanto exteriores como interiores, que haviam de atormentar o seu Jesus na sua Paixão. Numa palavra, a mesma Bem-Aventurada Virgem disse a Santa Matilde, que a este aviso de São Simeão toda a sua alegria se converteu em tristeza.

A dor de Maria não achou alívio com o correr do tempo; ao contrário, ia sempre aumentando, à medida que Jesus, crescendo em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e junto dos homens, se tornava mais amável aos olhos de sua Mãe, e se avizinhava mais o tempo da sua amargosa Paixão. Eis o que a própria divina Mãe revelou a Santa Brígida:“Cada vez que eu olhava para meu Filho, sentia o meu coração oprimido de nova dor e enchiam-se meus olhos de lágrimas”. Ruperto abade contempla Maria dizendo ao Filho enquanto o alimentava: “O meu amado é para mim como uma bolsa de mirra, colocada sobre o meu peito”. Ah, Filho meu, eu te aperto entre meus braços porque muito te amo; mas quanto mais te amo, tanto mais para mim te transformas em ramalhete de mirra e de dor, pensando em tuas penas. Tu és a fortaleza dos Santos, e um dia entrarás em agonia; és a beleza do paraíso, e um dia serás desfigurado; és o Senhor do mundo, mas um dia serás preso como um réu; és o Criador do universo, mas um dia te verei lívido pelas pancadas; numa palavra, tu és o Juiz de todos, a glória dos céus, o Rei dos reis, mas um dia serás sentenciado, desprezado, coroado de espinhos, tratado como rei de escárnio e pregado num infame patíbulo. E eu, que sou tua Mãe, eu, que te amo mais que a mim mesma, terei de ver-te morrer de dor, sem te poder dar o menor alívio: “O meu amado é para mim um ramalhete de mirra”.

Se, pois, Jesus, nosso Rei, e Maria, nossa Mãe, bem que inocentes, não recusaram por nosso amor padecer durante toda a sua vida uma pena tão atroz, não é justo que nós nos lamentemos, se padecemos um pouco; nós que porventura muitas vezes temos merecido o inferno.

Segunda dor de Maria Santíssima: Fuga para o Egito

“Toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito” 

Sumário. A profecia de São Simeão acerca da Paixão de Jesus e das dores de Maria começou desde logo a realizar-se na fugida que teve de fazer para o Egito, a fim de subtrair o Filho à perseguição de Herodes. Pobre Mãe! Quanto não devia ela sofrer tanto na viagem como durante a sua permanência naquele país entre os infiéis! Vendo a Sagrada Família na sua fugida, lembremo-nos que nós também somos peregrinos sobre a terra. Para sentirmos menos os sofrimentos do exílio, à imitação de São José tenhamos conosco no coração a Jesus e Maria.

Como cerva, que ferida pela flecha, aonde vai leva a sua dor, trazendo sempre consigo a flecha que a feriu; assim a divina Mãe, depois da profecia funesta de São Simeão, levava sempre consigo a sua dor com a memória contínua da paixão do Filho. Tanto mais, que aquela profecia começou desde logo a realizar-se na fugida que o Menino Jesus teve de fazer para o Egito, a fim de se subtrair à perseguição de Herodes: “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito.”

Que pena, exclama São João Crisóstomo, devia causar ao Coração de Maria, o ouvir a intimação daquele duro exílio com seu Filho! “Ó Deus”, disse então Maria suspirando, como contempla o Bem-aventurado Alberto Magno, “deve, pois fugir dos homens aquele que veio a salvar os homens?”

Cada um pode considerar quanto padeceu a Santíssima Virgem naquela viagem. A estrada, conforme à descrição de São Boaventura, era áspera, desconhecida, cheia de bosques, pouco frequentada, e sobretudo muito longa, de modo que a viagem foi ao menos de trinta dias. O tempo era de inverno; por isso tiveram de viajar com neves, chuvas e ventos, por caminhos arruinados cheios de lama, sem terem quem os guiasse ou servisse. Maria tinha então quinze anos, e era uma donzela delicada, não acostumada a semelhantes viagens. Que dó fazia ver aquela Virgenzinha com o Menino nos braços e acompanhada somente de São José!

Pergunta São Boaventura: “De que alimentavam-se? Onde passavam as noites?” E de que outra coisa podiam alimentar-se, senão de um pedaço de pão duro, trazido por São José, ou mendigado? Onde deviam dormir, especialmente no extenso deserto pelo qual deviam passar, senão sobre a terra, ao relento, com perigo de ladrões ou de feras em que abunda o Egito? Oh! Quem tivera encontrado aqueles três grandes personagens, por quem as haveria então reputado senão por três pobres mendigos e vagabundos?

Opina Santo Anselmo que os santos peregrinos no Egito habitaram a cidade de Heliópolis. Considere-se aqui a grande pobreza em que deviam viver nos sete anos que ali permaneceram, como afirma Santo Antônio com Santo Tomás e outros. Eram estrangeiros, desconhecidos, sem rendimentos, sem dinheiro, sem parentes. Como diz São Basílio, chegaram com dificuldade a sustentar-se com os seus pobres trabalhos. Escreve Landolfo de Saxônia (e isto seja dito para consolação dos pobres), que Maria se achava em tão grande pobreza, que algumas vezes não tinha nem sequer um pouco de pão, que o Filho lhe pedia, obrigado pela fome.

Ver assim Jesus, Maria e José andarem fugitivos, peregrinando por este mundo, ensina-nos que também devemos viver nesta terra como peregrinos, sem que nos apeguemos aos bens que o mundo oferece, pois que em breve os havemos de deixar e de ir para a eternidade: “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura”. Demais, ensina-nos que abracemos as cruzes, já que neste mundo não se pode viver sem cruz. A Bem-aventurada Verônica de Binasco, Agostiniana, foi levada em espírito a acompanhar Maria com o Menino Jesus na viagem ao Egito, finda a qual lhe disse a divina Mãe: “Filha, acabas de ver com quantas fadigas chegamos a este país; sabe, pois, que ninguém recebe graças sem padecer.”

Quem deseja sentir menos os trabalhos desta vida, deve, à imitação de São José, tomar consigo Jesus e Maria: “Toma o Menino e sua Mãe”. A quem pelo amor traz no coração este Filho e esta Mãe, se lhe tornam leves, quiçá doces e estimáveis, todas as penas. Amemo-los, pois, e consolemos a Maria acolhendo o seu Filho dentro dos nossos corações, que ainda hoje é continuamente perseguido pelos homens com os seus pecados.

Terceira dor de Maria Santíssima: Perda de Jesus no templo

“Eis que teu pai e eu Te andávamos buscando cheios de aflição” 

Sumário. A dor de Maria pela perda de Jesus foi sem dúvida uma das mais acerbas; porque ela então sofria longe de Jesus, e a humildade fazia-lhe crer que o Filho se tinha apartado dela por causa de alguma negligência sua. Sirva-nos esta dor de conforto nas desolações espirituais; e ensine-nos o modo de buscarmos a Deus, se jamais para nossa desgraça viermos a perdê-Lo por nossa culpa. Lembremo-nos, porém, de que quem quiser achar a Jesus, não O deve buscar entre os prazeres e delícias, mas no pranto, entre as cruzes e mortificações, assim como Maria o procurou.

Quem nascer cego, pouco sente a pena de ser privado de ver a luz do dia; mas quem noutro tempo teve a vista e gozou a luz, muita pena sente em se ver dela privado. E assim igualmente as almas infelizes que, cegas pelo lodo desta terra, pouco têm conhecido a Deus, pouco sentem a pena de O não acharem. Ao contrário, quem, iluminado pela luz celeste, foi feito digno de achar no amor a doce presença do supremo Bem, ó Deus! Que tristeza sente em ver-se dela privado.

Vejamos, portanto, o muito que a Maria, acostumada a gozar continuamente a dulcíssima presença de seu Jesus, devia ser dolorosa a terceira espada que a feriu, quando, havendo-O perdido em Jerusalém, por três dias se viu dele separado. Alguns escritores opinam que esta dor não foi somente uma das maiores que teve Maria na sua vida, mas que foi em verdade a maior e mais acerba. E com razão, porque então ela não sofria em companhia de Jesus, como nas outras dores; e porque a sua humildade lhe fazia crer que Jesus se tinha afastado dela por alguma negligência no seu serviço. Por esta razão aqueles três dias lhe foram excessivamente longos e se lhe afiguraram séculos, cheios de amargura e de lágrimas.

“Vistes porventura àquele a quem ama a minha alma?”. É assim que a divina Mãe, como a Esposa dos Cantares, andava perguntando por toda a parte. E depois, cansada pela fadiga, mas sem O ter achado, oh, com quanto maior ternura não terá dito o que disse Ruben de seu irmão: “O menino não aparece, e eu para onde irei?” O meu Jesus não aparece, e eu não sei que mais possa fazer para O achar; mas aonde irei sem o meu tesouro? Ah, meu filho dileto! Cara luz de meus olhos: faze-me saber onde estás, a fim de que eu não ande mais errando e buscando-Te em vão. Numa palavra, afirma Orígenes que pelo amor que esta santa Mãe tinha a seu Filho, padeceu mais nesta perda de Jesus que qualquer outro mártir no tormento que o privou da vida.

Esta dor de Maria, em primeiro lugar, deve servir de conforto àquelas almas que estão desoladas e não gozam a doce presença de seu Senhor, gozada em outros tempos. Chorem, sim, mas chorem com paz, como chorou Maria a ausência de seu Filho. Não temam por isso de terem perdido a divina graça, animando-se com o que disse Deus mesmo a Santa Teresa: “Ninguém se perde sem o conhecer; e ninguém fica enganado sem querer ser enganado”. Se o Senhor se ausenta dos olhos da alma que o ama, nem por isso se ausenta do coração. Esconde-se muitas vezes para ser por ela buscado com mais desejo e amor. Mas quem quer achar a Jesus, é preciso que o busque, não entre as delícias e os prazeres do mundo, mas entre as cruzes e mortificações, como o buscou Maria: “Nós Te andávamos buscando cheios de aflição”.

Além disso, neste mundo não devemos buscar outro bem senão Jesus. Jó não foi, por certo, infeliz quando perdeu tudo o que possuía neste mundo, até descer a um monturo. Porque tinha consigo Deus, também então era feliz. Verdadeiramente infelizes e miseráveis são aquelas almas que perderam a Deus. Se, pois, Maria chorou a ausência do Filho, quanto mais deveriam chorar os pecadores que perderam a divina graça, e aos quais Deus diz: “Vós não sois meu povo, e eu não serei mais vosso”.

Mas a maior desgraça para aquelas pobres almas, diz Santo Agostinho, é que, se perdem um boi, não deixam de procurá-lo; se perdem uma ovelha, não poupam diligência para achá-la; se perdem um jumento, não têm mais repouso; mas se perdem o sumo Bem, que é Deus, comem, bebem e ficam quietos. Ah, Maria, minha Mãe amabilíssima, se por minha desgraça eu também perdi a Jesus pelos meus pecados, rogo-vos, pelos méritos das vossas dores, fazei que eu depressa O vá buscar e O ache, para nunca mais tornar a perdê-Lo em toda a eternidade.

Quarta Dor de Maria Santíssima: Encontro com Jesus, que carrega a cruz

“Vimo-Lo, e não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos”

Sumário. Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.

Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: “Não há quem a console entre todos os seus queridos”. Veio finalmente São João e lhe disse: “Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.

Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.

Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O conhece, dizendo então com Isaías: “Nós O vimos e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lhe faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então traspassadas aquelas almas amantes!

Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue, muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser crucificada com Ele.

Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte também a nossa.

Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.

Quinta Dor de Maria Santíssima: Morte de Jesus

“A tua vida estará como suspensa diante de ti” 

Sumário. Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo e ver todas as penas que Ele padecia, sem, contudo, Lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Ó, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos vemos nós como filhos?

Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cômoda; serve-lhe refrescos, e assim a própria mãe procura mitigar a própria dor. Ah, mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! Incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-Lhe algum alívio.

Maria ouviu o Filho dizer: tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de água para Lhe mitigar a sede. Só pode dizer-Lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Filho, não tenho senão a água de minhas lágrimas. Via que sobre aquele leito de morte, Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-Lo para Lhe dar alívio, ao menos para O deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem O consolasse, como Ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías. Mas quem entre os homens O desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um O blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-O como um impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.

O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-Lo sobre a cruz lamentar-se de o Eterno Pai também O ter abandonado: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Palavras, como disse a Bem-aventurada Virgem à Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da ideia, enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-Lo, mas não podia. Pobre Mãe!

Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia se não oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça e por conseguinte somos filhos de suas dores: “Mulher, eis aí teu filho”.

Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. — Desde então começou Maria a exercer para conosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egito. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem-aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?

Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu, enfim, vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com sua morte venceu o inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor Lhe servirão. Não recuseis, entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a Vosso Filho. Ah, Mãe de Misericórdia! Em primeiro lugar pela morte de seu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna.

Sexta Dor de Maria Santíssima: Jesus é descido da cruz

“José, depondo-O da cruz, O amortalhou no sudário”

Sumário. Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemos, o descem da cruz e O depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-Lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.

Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimatéia, obtivesse de Pilatos o corpo de seu Jesus, a fim de que ao menos morto O pudesse guardar e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-Lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Santo Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.

Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida, que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaphrastes. Depois, segurando um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-O e depois senta-se debaixo da cruz.

Vê a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-Lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés traspassados, e diz: Ah, meu Filho! A que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! Meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não me vês. Fala, dize-me uma palavra e consola-me; mas já não falas, porque estás morto… Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!

Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vo-Lo restitui. Mas, ó Deus! Como mo restituis tu? Dizia então Maria ao mundo. “Meu Filho era branco e vermelho”, não pela cor, mas pelas chagas que Lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; Ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem O vê.

Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? E que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-Lo e crucificá-Lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: “Pecadores, voltai ao Coração” ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e Ele vos acolherá. Revelou a mesma Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-Lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para Ele.

Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha Mãe! Tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e O tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo amor? Ah Maria! Vós consolais a todos; consolai-me também a mim.

Sétima Dor de Maria Santíssima: Sepultura de Jesus

“Amortalhou-O no sudário, e depositou-O no sepulcro”

Sumário. Consideremos como a Mãe dolorosa quis acompanhar os discípulos que levaram Jesus morto à sepultura. Depois de O ter acomodado com suas próprias mãos, diz um último adeus ao Filho e ao sepulcro, e volta para casa, deixando o coração sepultado com Jesus. Nós também, à imitação de Maria, encerremos o nosso coração no santo tabernáculo, onde reside Jesus, já não morto, mas vivo e verdadeiro como está no céu. Para isso é mister que o nosso coração esteja desapegado de todas as coisas da terra.

Quando uma mãe assiste a seu filho que padece e morre, sem dúvida ela sente e sofre todas as penas do filho; mas quando o filho atormentado, já morto, deve ser sepultado e a aflita mãe deve despedir-se dele, ó Deus! O pensamento de o não tornar a ver é uma dor que excede todas as outras dores. Essa foi a última espada que traspassou o coração aflito de Maria.

Para melhor considerá-la, voltemos ao Calvário e observemos atentamente a aflita Mãe, que ainda tem abraçado seu Jesus morto e se consome de dor ao beijar-Lhe as chagas. Os santos discípulos, temendo que ela expirasse pela veemência da dor, animaram-se a tirar-lhe do regaço o depósito sagrado, para o sepultarem. Com violência respeitosa tiraram-lh’O dos braços, e embalsamando-O com aromas, envolveram-No em um sudário adrede preparado. Eis que já O levam à sepultura; já se põe em movimento o cortejo fúnebre. Os discípulos carregam o corpo exânime; inúmeros anjos do céu O acompanham; as santas mulheres O seguem e juntamente com elas vai a Mãe aflitíssima, acompanhando o Filho à sepultura.

Chegados que foram ao lugar destinado, a divina Mãe acomoda nele com suas próprias mãos o corpo sacrossanto; e, ó! Com quanta vontade Maria se sepultaria ali viva com seu Jesus! Quando depois levantaram a pedra para fechar o sepulcro, afigura-se-me que os discípulos do Salvador se voltaram para a Virgem com estas palavras: Eia, Senhora, deve-se fechar o sepulcro: tende paciência, vede pela última vez o vosso Filho e despedi-vos d’Ele. Ah! Meu querido Filho (assim deve ter falado então a aflita Mãe), não te hei então de tornar a ver? Recebe, pois, nesta última vez que te vejo, recebe o último adeus de mim, tua afetuosa Mãe.

Finalmente os discípulos levantam a pedra e encerram no santo sepulcro o corpo de Jesus, aquele grande tesouro, a que não há igual nem na terra nem no céu. Diz São Boaventura, que a divina Mãe, antes de deixar o sepulcro, abençoou aquela sagrada pedra. E assim dando o último adeus ao Filho e ao sepulcro, volta para sua casa, mas deixa o seu coração sepultado com Jesus.

Sim, porque Jesus é todo o seu tesouro, e, como disse Jesus: “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. E nós, onde teremos sepultado o nosso coração? Talvez nas criaturas? No lodo? E porque não o teremos sepultado com Jesus, o qual, bem que subido ao céu, contudo quis ficar, não morto, mas vivo, no Santíssimo Sacramento do altar, precisamente para ter consigo e possuir os nossos corações? Imitemos, pois, Maria; encerremos os nossos corações no santo Tabernáculo, para não mais o tornarmos a tomar. Entretanto, colocando-nos em espírito com a dolorosa Mãe junto ao sepulcro de Jesus, unamos os nossos afetos com os de Maria e digamos com amor:

Ó meu Jesus sepultado! Beijo a pedra que Vos encerra. Mas ressuscitastes ao terceiro dia. Ah! Pelos méritos de vossa gloriosa ressurreição, fazei com que no último dia eu ressuscite convosco na glória, para estar sempre unido convosco no céu, para Vos louvar e amar eternamente. Eu Vo-lo peço pela vossa paixão, e pela dor que sentiu a vossa querida Mãe, quando Vos acompanhou ao sepulcro.

Soledade de Maria Santíssima depois da sepultura de Jesus

“Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” 

Sumário. Ah, que noite de dor foi para Maria a que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! A desolada Mãe volve os olhos em torno de si, e já não vê o seu Jesus, mas representam-se-lhe diante dos olhos todas as recordações da bela vida e da desapiedada morte do Filho. Como se não pudesse crer em seus próprios olhos: Filho, pergunta a João, aonde está o teu mestre? E à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto?… Minha alma, roga a Santíssima Virgem, que te admita a chorar consigo. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor dos teus pecados.

Diz São Boaventura que, depois da sepultura de Jesus, as mulheres piedosas velaram a Bem-aventurada Virgem com um manto lúgubre, que lhe cobria todo o rosto. Acrescenta São Bernardo, que na volta do sepulcro para a sua casa a pobre Mãe andava tão aflita e triste, que comovia muitos a chorarem, ainda que involuntariamente. De modo que, por onde passava, todos aqueles que a encontravam, não podiam conter as lágrimas. Os santos discípulos e as mulheres que a acompanhavam, quase que choravam mais as penas de Maria do que a perda de seu Senhor.

Quando a Virgem passou por diante da Cruz, banhada ainda com o sangue do seu Jesus, foi a primeira a adorá-la. Ó santa Cruz, disse então, eu te beijo e te adoro, já que não és mais madeiro infame, mas trono de amor e altar de misericórdia, consagrado com o sangue do Cordeiro divino, que em ti foi imolado pela salvação do mundo. Deixa depois a Cruz e volta à sua casa. Chegada ali, a aflita Mãe volve os olhos em torno, e não vê mais o seu Jesus; em vez da presença do querido Filho, apresentam-se-lhe aos olhos todas as recordações da sua bela vida e da sua desapiedada morte.

Recorda-se dos abraços dados ao Filho no presépio de Belém, da conversação com ele por trinta anos na casa de Nazaré; recorda-se dos mútuos afetos, dos olhares cheios de amor, das palavras de vida eterna saídas daquela boca divina. E depois se lhe representa a cena funesta presenciada naquele mesmo dia; veem-lhe à memória os cravos, os espinhos, as carnes dilaceradas do Filho, as chagas profundas, os ossos descarnados, a boca aberta, os olhos escurecidos. E com tão funesta recordação, quem poderá dizer qual tenha sido a dor, a desolação de Maria?

Ah, que noite de dor foi para a Bem-aventurada Virgem aquela que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! Voltando-se a dolorosa Mãe para São João, perguntou-lhe com voz triste: Ah! Filho. Onde está o teu mestre? Depois perguntou à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto? Ó Deus! Quem no-Lo tirou?… Chora Maria, e todos os que estão com ela choram também. E tu, minha alma, não choras? Ah! Volta-te a Maria, e roga-lhe que te admita consigo a chorar. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor de teus pecados: “Fazei que eu chore convosco”.

Minha aflita Mãe, não vos quero deixar só a chorar; não, quero acompanhar-vos também com as minhas lágrimas. Eis a graça que hoje vos peço; alcançai-me uma memória contínua, junto com uma terna devoção para com a paixão de Jesus e a vossa; a fim de que todos os dias que me restam de vida, não me sirvam senão para chorar as vossas dores e as do meu Redentor. Espero que, na hora de minha morte, essas dores me darão confiança e força para não desesperar à vista das ofensas que tenho feito ao meu Senhor. Elas devem impetrar-me o perdão, a perseverança e o paraíso.

E Vós, † “ó meu Senhor Jesus Cristo, que para resgatar o mundo quisestes nascer, receber a circuncisão, ser condenado pelos judeus, traído por Judas com um ósculo, acorrentado, levado para o sacrifício como inocente cordeiro, arrastado com tanta ignomínia diante de Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, flagelado, esbofeteado, carregado de opróbrios, coberto de escarros, coroado de espinhos, ferido com uma cana, vendado, despojado de vossos vestidos, pregado e levantado na cruz entre dois ladrões, abeberado de fel e vinagre e traspassado por uma lança; suplico-Vos, ó Senhor, em nome dessas santas penas que venero, ainda que indigno, suplico-Vos por vossa santa cruz e morte, livrai-me do inferno e dignai-Vos levar-me para onde levastes o bom ladrão crucificado convosco, ó meu Jesus, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém”

Referências: LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921.

COROA DAS SETE DORES DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA

Pela dor que sofreste ao ouvir a profecia de Simeão de que uma espada de dor transpassaria o vosso coração, Mãe de Deus, ouvi a nossa prece. Ave Maria… Glória…

Pela dor que sofreste quando fugiste para o Egito, apertando ao peito virginal o Menino Jesus, para o salvar da fúria do ímpio Herodes, Virgem Imaculada ouvi a nossa prece.  Ave Maria… Glória…  

Pela dor que sofrestes quando da perda do Menino Jesus por três dias, Santíssima Senhora, ouvi a nossa prece. Ave Maria… Glória…   

Pela dor que sofrestes quando viste o querido Jesus com a cruz ao ombro, a caminho do Calvário, Virgem Mãe das Dores, ouvi a nossa Prece. Ave Maria… Glória…  

Pela dor que sofreste quando assististes à morte de Jesus, crucificado entre dois ladrões,Mãe da Divina Graça, ouvi a nossa prece.  Ave Maria… Glória…

Pela dor que sofreste quando recebestes em vossos braços o corpo inanimado de Jesus, descido da Cruz, Mãe dos Pecadores, ouvi a nossa prece. Ave Maria… Glória…  

Pela dor que sofrestes quando o corpo de Jesus foi depositado no sepulcro, ficando Vós na mais triste solidão, Senhora de Todos os Povos, ouvi a nossa prece. Ave Maria… Glória…  

Oração Final

Dai-nos, Senhora, a graça de compreender o oceano de angústias que fizeram de Vós a “Mãe das Dores”, para que possamos participar de vosso sofrimento e Vós consolemos pelo nosso amor e nossa fidelidade.

Choramos convosco, ó Rainha dos Mártires, na esperança de ter a felicidade de um dia nos alegrarmos convosco no céu.

Amém.

Consagração a Nossa Senhora

Ó Santa Mãe Dolorosa de Deus, ó Virgem Dulcíssima, eu Vos ofereço o meu coração afim de que o conserveis intacto como o Vosso Coração Imaculado.

Eu Vos ofereço a minha inteligência, para que ela conceba apenas pensamentos de paz e de bondade, de pureza e verdade.

Eu Vos ofereço a minha vontade, para que ela se mantenha viva e generosa ao serviço de Deus.

Eu vos ofereço meu trabalho, minhas dores, meus sofrimentos, minhas angustias, minhas tribulações e minhas lágrimas, no meu presente e meu futuro, para serem apresentadas por Vós ao Vosso Divino Filho, para purificação da minha vida.

Mãe Compassiva, eu me refúgio em Vosso Coração Imaculado, para acalmar as dolorosas palpitações de minhas tentações, de minha aridez, de minha indiferença e das minha negligencias. 

Escutai-me ó Mãe, guiai-me, sustentai-me e defendei-me, contra todos os perigos da alma e do corpo, agora e por toda a eternidade. Amém.

Nossa Senhora, mãe que não sentiu dor no parto

Nossa Senhora realmente não sentiu dor no parto. O nascimento de Jesus foi algo sobrenatural. As dores de parto são uma consequência do pecado original (cf. Gn 3,16), mas Maria não teve esse pecado, logo, não teve dores de parto (cf. Is 66,7). 


O Papa Alexandre III na carta Carta Ex litteris tuis expôs que Maria “deu à luz sem dor e emigrou deste mundo sem corrupção, em conformidade com a palavra do anjo, aliás, de Deus por meio do anjo, para que fosse provado que ela é plena, não semiplena de graça…”

No mesmo sentido, o Catecismo Romano do Concílio de Trento reafirma “A Eva foi dito: Em dores darás a luz [teus] filhos. Maria ficou isenta desta lei. Conservando a integridade de sua virginal pureza, […] Maria deu à luz a Jesus, Filho de Deus, sem sofrer dor de espécie alguma.” 

Por sua vez, Santo Agostinho, referindo-se à Virgem Mãe, diz: “Assim como a sua concepção deixou-lhe intacta a virgindade, assim no seu parto nenhuma dor sofreu.”

Um arremate consistente para a questão encontramos em São Tomás de Aquino, que em sua Suma Teológica, disseca nestes termos:

As dores de uma parturiente são causadas pela compressão dos meatos por onde vem à luz o filho. Ora, Cristo veio à luz sem detrimento da virgindade de sua mãe que, portanto, não sofreu nenhuma espécie de compressão. Por isso, nesse parto não houve nenhuma dor, como não houve nenhuma corrupção, mas antes, houve uma alegria máxima por ter vindo ao mundo o homem Deus…

A dor que a mulher sofre no parto resultou da concepção. Donde, depois de ter dito a Escritura: Em dor parirás teus filhos, acrescenta: e estarás sob o poder de teu marido. Donde o dizer Agostinho, que dessa sentença foi excluída a Virgem Mãe de Deus que, por ter sido isenta do pecado e ter concebido a Cristo sem nenhuma união carnal, gerou sem dor e, sem violação da sua integridade, permanecendo totalmente virgem…

Assim como Cristo, morrendo, livrou-nos da morte eterna, assim com as suas dores livrou-nos das nossas. Por isso quis morrer no meio delas. Mas, as dores do parto de sua mãe não seriam as de Cristo, que veio para satisfazer pelos nossos pecados. Logo, não era necessário que sua mãe tivesse um parto doloroso.

O Evangelho diz que a Santa Virgem enfaixou e reclinou numa manjedoura o filho que deu à luz. Donde diz Jerônimo: Nenhuma parteira aí esteve, nenhum cuidado de mãos servis e práticas. A própria mãe cuidou do fruto das suas entranhas. Enfaixou, diz o Evangelho, e reclinou o menino numa manjedoura.

Por Claudiomar Filho

O Presente Natal da Virgem Maria

Por Dom Lourenço Fleichman, OSB

Desde o início do Advento temos meditado nos mistérios da Virgem Maria. Escolhi Nossa Senhora como objeto de nossa preparação ao Natal e tenho procurado acompanhá-la em todos os cuidados e prerrogativas com que foi agraciada por Deus. 

A vida extraordinária da Mãe de Deus começa com o mistério da sua concepção imaculada, preservada que foi do Pecado Original. Consideramos este primeiro pecado transmitido a todos os filhos de Adão e Eva como um óbice, um obstáculo à graça divina introduzido na alma de todos os filhos de Adão e Eva, por modo de geração. Todas as almas criadas por Deus para animar um corpo concebido neste mundo trazem essa tara, esse defeito inicial, pelo fato mesmo de terem sido gerados. Como a natureza humana em Adão e Eva deixou o Jardim do Éden ferida e decaída, tendo perdido a graça e também os dons preternaturais, era natural que todos nascessem sem o domínio da razão sobre as concupiscências. A natureza humana, depois do pecado, perdeu seu estado de integridade, tornando-se decaída. Além desse estado de miséria que nos arrasta tantas vezes ao pecado, Deus quis que nascêssemos todos com a mancha daquele pecado que nossos primeiros pais cometeram desgraçadamente.

Poderíamos pensar ser grande injustiça a terrível herança de um pecado que não cometemos. Mas se observarmos como seria o mundo se Deus não nos tivesse feito participar da miséria dos nossos primeiros pais, perceberemos que injustiça haveria nesse caso, e isto por duas razões. Primeiro porque Deus teria feito vistas grossas ao infinito orgulho e desobediência de Adão e Eva, permitindo que a humanidade guardasse a integridade de sua natureza e a possibilidade de alcançar a glória do céu sem nenhuma relação com o que aconteceu debaixo de certa árvore do Jardim do Éden. Em segundo lugar, porque Deus estaria desvinculando todos os homens dos laços que nos unem aos nossos pais. Adão e Eva expulsos do Paraíso, sofrendo as terríveis consequências do seu pecado, e nós, seus filhos, tranquilamente gozando da felicidade trazida pela integridade da natureza e pela vida da graça. Isso sim, seria uma situação de grave injustiça.

Continuar lendo O Presente Natal da Virgem Maria

A comunhão de Nossa Senhora com Jesus

Se ontem nós festejamos a Festa de Nossa Senhora da Conceição, cabe, então, hoje nós voltarmos a falar dela e tentarmos ver como que Nossa Senhora comungou com Jesus. Que tipo de comunhão Nossa Senhora teve e tem ainda hoje com Nosso Senhor, porque do modo como Nossa Senhora comunga, nós também comungamos. Podemos ter ali o modelo da nossa comunhão.

Continuar lendo A comunhão de Nossa Senhora com Jesus