Amar a Deus exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados.

Sermão de Dom Lourenço Fleichman, OSB

Caríssimos irmãos,

São Paulo abre o domingo de hoje nessa parte do ensinamento… Todo domingo nós temos um ensinamento a ouvir, faz parte da nossa Missa, faz parte do preceito. É por isso que em todas as Missas do domingo é necessário um sermão para explicar, para meditar as palavras que nós ouvimos na epístola e, sobretudo, no evangelho, assim como também em outros textos da Missa. Mas, ele diz: Rogo-vos que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados. Que vocação é essa se não o nosso batismo? Hoje mesmo nós fizemos batismo de duas crianças já grandinhas, que já compreendem o que significa o batismo e responderam, inclusive, as perguntas. E nós, quando nós renovamos as promessas do nosso batismo, será que passa pela nossa cabeça nesse momento todos os atos da nossa vida, como talvez passe no momento em que Nosso Senhor vem nos chamar? Tantos e tantos morrendo, e no momento da morte certamente Nosso Senhor nos dá uma visão de toda a nossa vida. Estou pronto ou não estou pronto?

Hoje nós precisamos estar prontos, hoje nós precisamos renovar no fundo do nosso coração as promessas que nós fizemos através dos nossos padrinhos, ou nós mesmos, no dia do nosso batismo, no dia em que o pecado original foi completamente apagado da nossa alma e que Nosso Senhor Jesus Cristo tomou conta do nosso coração. Então ele apresenta os meios para nós sermos salvos, os meios para nós irmos para o céu, e é necessário estar atento a isso. E o primeiro deles ele acaba de nos dizer: Amarás ao Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com toda a tua alma, com todo o teu espírito. Esse amor de Deus, acima de todas as coisas que é necessário antes de tudo para nós. Amar a Deus, amar a Deus de verdade. E quando diante da morte nós passamos toda a nossa vida num relâmpago, é evidente que do outro lado da balança estará o amor de Deus. Será que eu amei a Deus verdadeiramente?

Não há como todos serem monges! Cada um tem seu dever de estado, cada um tem suas obrigações. E cumprir os mandamentos começa pelas obrigações. Não foi o que Nossa Senhora disse em Fátima para Lúcia? “Nos últimos tempos a grande mortificação será cumprir seu dever de estado”. Mas isso não é mortificação, isso é obrigação. E ela sabia disso. Nossa Senhora sabia que era só a nossa obrigação e que isso não tinha prêmio nenhum. Mas os últimos tempos serão tempos estranhos, então, quem cumprir suas obrigações já estará no bom caminho. E o que significa cumprir as nossas obrigações? Não é fazer o trabalho que nós temos que fazer, isso vem depois. Primeiro: amar a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus de um modo prático, não apenas belas intenções que nós temos de vez em quando, mas de um modo prático; na nossa oração em primeiro lugar, na nossa vida espiritual, cumprindo nossas obrigações espirituais. Para mostrarmos a Nosso Senhor: “Senhor, quando eu me levanto no domingo, que vou para a Missa eu estou cumprindo as minhas obrigações e, no entanto, é por amor que eu faço”. Eu preciso desenvolver no meu coração o verdadeiro amor de Deus mesmo quando eu cumpro obrigações. Há uma conjunção, há uma união daquilo que nós fazemos porque é obrigatório fazer, por exemplo vir à Missa no domingo e que nós somamos a isso um ato de amor voluntário e livre, “eu quero estar na Missa, eu preciso estar na Missa, porque é através da Missa que eu vou aprender a amar Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nosso Senhor depois de ter nos dado o caminho da salvação através do primeiro mandamento, o maior de todos, o máximo de todos: amar a Deus, dessa forma complexa que ele apresenta diante de nós, ele vai falar sobre o segundo mandamento. O segundo mandamento é amar ao próximo como a si mesmo. E ele diz uma coisa importantíssima, que é preciso nós compreendermos: a segunda tábua é semelhante a primeira, ou seja, os sete mandamentos que sobram na segunda tábua são semelhantes aos da primeira tábua, que são relativas a Deus. Amar a Deus, honrar o Santo nome de Deus e cumprir os preceitos que Deus nos estabelece na vida. Quando nós ouvimos que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro, é necessário nós olharmos para a nossa vida mais uma vez e dizer. “Muito bem, eu já vi num relâmpago que o meu amor por Deus não foi tão intenso como poderia ser, eu cumpria apenas as minhas obrigações, e olhe lá. Eu poderia ter colocado meu coração também naquilo que a fé me obrigava a fazer. Agora, eu tenho que fazer isso em relação ao próximo”.

E em primeiro lugar amar ao pai e à mãe com todas as forças da alma, amar ao pai e à mãe como sendo delegados de Deus para receberem o nosso amor. Mas não é isso que nós dizemos no catecismo, nós dizemos honrar pai e mãe, não dizemos amar. E o catecismo de Trento vai explicar: Não é amar não, é honrar, porque aquele que honra já ama, aquele que só ama, pode amar e não honrar. Então não basta dizer eu amo meus pais de todo o meu coração, não, é necessário honrar aos pais e isso significa uma dose de amor que é necessário por tudo que nós recebemos deles, pelo fato de que é o caminho também para nós alcançarmos o amor de Deus, mas mais do que isso, nós devemos respeito, nós devemos silêncio, nós não podemos levantar a voz, nós não podemos falar como se fosse um coleguinha nosso, nós falamos com nossos pais de outra forma, e é preciso aprender isso. No mundo atual é preciso reaprender isso, porque nós esquecemos. E tratamos todos sem a menor cerimônia, estejamos diante do papa, ou diante de um bispo, e a gente vê isso. Nós temos que ter certos ritos. E esse rito que se tem diante do bispo, se tem também com um sacerdote, se tem com os pais dentro de casa, se tem também quando se senta à mesa. Uma coisa que eu tive que ensinar muitos aqui; não se senta à mesa para uma refeição sem camisa, não se anda sem camisa. São coisas que o mundo moderno não está nem aí, as pessoas vão nos supermercados sem camisa, o que é, além do mais, falta de caridade para com os outros. Então nós temos muito o que aprender nesses dois mandamentos que Nosso Senhor nos apresenta.

Eu queria trazer para vocês curiosamente neste domingo, que é o terceiro domingo de setembro. No terceiro domingo de setembro a igreja nos traz o livro de Tobias. Eu sempre recomendo que leiam o livro de Tobias, é tão próximo de nós. Tobias era um homem muito piedoso, um homem muito santo. Se casa com Ana, tem um filho ao qual ele dá o nome de Tobias, seu próprio nome. Eles são deportados para a Síria e lá ele tem a amizade do rei, que deixava ele ir onde ele quisesse. E quando todos se reuniam para as grandes refeições e banquetes, ele descia para Jerusalém para louvar o Senhor. Era uma viagem longa, mas o rei permitia. E ele ia para Jerusalém chorar os seus pecados, era um homem santo. Mas depois morre o rei e vem seu filho e começa a perseguir os hebreus. Era proibido enterrar os mortos dos hebreus e Tobias enterrava escondido. Não é o que nós estamos fazendo hoje? Estamos enterrando nossos mortos, alguns até com proibição do estado de nós irmos lá para fazer o culto necessário. Aquele homem cumpria os mandamentos, aquele homem vivia preocupado, “será que a vida que eu estou levando é a vida de amor de Deus que eu deveria estar levando?”. Mas, se nós queremos amar a Deus sobre todas as coisas, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma, virá o sofrimento, todo aquele que ama a Jesus Cristo passa por provações, está escrito isso. E nós também passamos por provações.

Então acontece de um passarinho fazer suas necessidades, que vão cair no olho de Tobias. Depois que ele já estava cansado de tanto passar a noite enterrando os mortos ele dorme, e ali cai o esterco do passarinho no olho dele, e ele fica cego. E aí vem toda a história do filho que vai com São Rafael, o Arcanjo, para encontrar-se com Sara. E Sara, no momento em que Tobias, o pai, rezava em sua casa por causa dos mortos, Sara rezava longe dali. E curiosamente a Sagrada Escritura quis revelar para nós que a oração dos dois juntou-se diante de Deus, e Deus então envia o filho Tobias para ir buscar um pouquinho de dinheiro porque eles estavam pobres, não podiam trabalhar. Foi perseguido pelo rei Senaqueribe, não podia trabalhar, teve seus bens todos levados. E mais uma coisa curiosa do livro de Tobias: cita Jó, o santo Jó, e compara os sofrimentos de Tobias com os sofrimentos de Jó. É muito curioso e isso deve nos fazer refletir. Mas o fato é que Tobias filho vai encontrar-se com um sujeito que precisava pagar uma dívida para o seu pai e vai se casar com Sara, porque todos os maridos com quem ela ia se casar morriam antes de se casar com eles, e era desprezada pelo povo porque matava os maridos. E foi nessa hora que ela rezava e que encontraram-se a oração de Sara com a oração de Tobias, “eu estou aqui querendo cumprir os vossos mandamentos” os dois falaram isso ao mesmo tempo. E foi então Tobias até lá, encontrou-se por acaso com Sara, que era filha daquele homem que devia o dinheiro para Tobias, e casa-se com ela. E voltam para a casa de Tobias. O anjo Rafael então, aplica o remédio que tiraram do peixe e cura a cegueira de Tobias. Tudo isso em torno de cumprir os mandamentos de Deus de um modo piedoso, de um modo profundo.

Eu preciso falar um pouquinho sobre isso: as nossas confissões.

A nossa confissão é o sacramento que nos traz de volta para os mandamentos de Deus, para o amor de Deus acima de tudo e para o amor do próximo também. Acontece que nós estamos vendo que estamos vivendo num tempo parecido com o de Tobias, nós estamos sofrendo coisas parecidas com as de Jó. As nossas confissões não podem ser um pique, “eu vou lá, me confesso porque aí eu vou comungar, todo mundo vai ver que eu estou comungando”, passa dois, três dias e a gente tem que voltar para o confessionário. Prestem atenção, nós não podemos viver assim.  Àqueles que estão voltando de três em três dias ao confessionário ou toda semana que seja: nós não podemos viver assim. A confissão é um sacramento e nós temos que respeitar esse dom maravilhoso de Deus que quis que nós tivéssemos solução para as nossas fraquezas, defeitos e pecados antes da morte. A disposição do fiel é para que ele recupere o verdadeiro amor de Deus, mas não para que ele faça um pique para vir comungar. Isso é o abuso do sacramento. E é preciso entender que esse sacramento da confissão exige de nós certas atitudes. A primeira delas nos ensina o catecismo: é a contrição dos pecados. E a contrição significa “quebrar”, algo se quebra dentro de nós. É precisa quebrar o apego aos pecados, é preciso vencer os vícios que nos levam de volta ao pecado às vezes no mesmo dia da confissão.

Eu tenho perguntado: qual o efeito que o sacramento produz na nossa alma? O padre abaixa sua mão fazendo um sinal da Cruz, que é de Jesus Cristo, não é dele, explode no nosso coração a graça santificante que nós não merecemos, mas que Ele dá de graça. O que Ele exige de nós? A confissão certinha de todos os pecados sem esconder nenhum. Às vezes a gente esquece, mas esquecimento não é esconder. E o que acontece dentro de nós? Nós recuperamos a amizade de Deus, nós saímos no confessionário como nós saímos da pia batismal, quase. Não é exatamente igual por causa da pena temporal, mas vamos abstrair essa questão. E o que vamos nós fazer com aquela alma recuperada, com aquela alma lavada? Vamos sujar ela no mesmo dia, no dia seguinte, daqui a dois dias, na mesma semana? Então não teve efeito nenhum. Teve efeito sobre a minha alma, mas não teve efeito sobre a minha vontade. Não serviu de nada para mim? Tem alguma coisa errada. As pessoas estão morrendo e Tobias está enterrando.

Eu suplico a todos: vamos parar com isso, vamos entender o que é o sacramento da confissão, vamos entender que amar a Deus com todas as forças, com toda a alma, com todo o espírito, com toda a vontade, com todo amor, exige de nós uma postura católica, uma postura guerreira, uma postura de crismados. Nós temos que vencer isso, porque se nós não vencermos esses vícios, os vícios nos vencerão. Qual a probabilidade das pessoas que ficam “confessa…, cai;  confessa…, cai;”, de morrer num momento que está confessado? É mínima, é mínima! Certamente vai morrer no momento em que estiver com o pecado mortal, porque passa a maior parte do tempo em pecado mortal. É uma questão matemática. Será que nós temos tantas dificuldades na vida para viver uma vida cristã, para rezarmos todos os dias, para virmos para Missa, sermos perseguidos pelas autoridades tanto civis quanto espirituais, para depois ir para o inferno assim, de graça? Não é possível, eu não creio que isso seja possível, que passa na cabeça de alguém, mas se não passa isso na cabeça de ninguém e no entanto estamos todos voltando para o confessionário três dias depois, então nós estamos cegos.

Vamos ouvir o que São Paulo acaba de nos dizer: Vivestes segundo a vocação a que fostes chamados, segundo esse batismo maravilhoso que nos lavou do pecado original, que abriu a porta do Paraíso para nós. Prestemos atenção ao amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua vida por nós sem precisar morrer do jeito que morreu. Pensemos que nós estamos enterrando nossos mortos. Vocês não estão percebendo que alguma coisa está acontecendo no mundo? Nós precisamos amar a Deus com essa força que Nosso Senhor veio nos lembrar.

Então, que a Missa de hoje seja um momento em que nós vamos refletir um pouco mais sobre as nossas confissões, sobre os nossos pecados, não para ficarmos acabrunhados pelo pecado, mas ao contrário, para nos livrarmos dele e para termos a felicidade, a alegria, a amizade, a caridade e todos os frutos da caridade brotando no nosso coração, porque Jesus Cristo derramou seu sangue por nós, e como dizia Santa Catarina de Sena “indo ao confessionário, vou ao sangue”. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

XVII Domingo depois de pentecostes – 2021

Modo de socorrer os moribundos

Pelo Pe. Manuel José Gonçalves Couto

Modo de socorrer os moribundos que nunca fizeram confissão geral, e que viveram sempre no descuido de sua salvação, confessando-se apenas de ano a ano.

                Convém que em todas as povoações haja uma pessoa de virtude, podendo ser um sacerdote, mas, na falta dele, qualquer homem ou mulher de zelo e caridade que saiba ler. Apenas se saiba que alguma pessoa está enferma na povoação, logo esta pessoa de caridade deve ir visitar a dita enferma ou enfermo. Depois de a cumprimentar e conversar alguma coisa, deve consolá-la se estiver aflita; deve confortá-la e animá-la se estiver desesperada; deve pacificá-la e sossegá-la se estiver impaciente; persuadindo-lhe que se conforme com a vontade de Nosso Senhor, porque não se pode salvar sem passar por algum purgatório. E então que melhor é padecer neste mundo aquelas dores, que no outro chamas de fogo, e talvez por muitos anos. Se a enfermidade for grave e ela disser que não tem mal nenhum, prudentemente deve desenganá-la e mostrar-lhe o perigo em que está, que facilmente pode morrer, como tem acontecido a muitos enfermos e grandes pecadores, os quais morreram sem o esperar. E como não esperavam morrer daquela vez, não se prepararam para a morte, e assim morreram desgraçadamente.

                 Depois de algumas destas coisas, deve-lhe falar em confissão, que convém confessar-se, que os sacramentos não fazem agravar a moléstia, antes sendo eles dignamente recebidos até muitas vezes dão a saúde corporal, e que até não há coisa que mais console um enfermo do que uma confissão bem feita, que isto se observa todos os dias em imensos pecadores que verdadeiramente se convertem e confessam – e que deve ser uma confissão geral, conforme o tempo o permitir, porque as confissões de ano são quase todas nulas por falta de verdadeira dor. Quem se confessa de ano a ano quase nunca se emenda. Ora, quem não se emenda, não dá provas de verdadeira conversão. E por isso, a confissão deve ser geral, ainda mesmo nessa hora, e ninguém deve sossegar sem ela. Resolvido a fazer a sua confissão geral, deve-se-lhe chamar o melhor confessor que aparecer, ainda que seja de léguas distante,[…] um sacerdote de ciência e virtude.

                Mas se o enfermo não quiser sujeitar-se a estas direções? Nesse caso, deve alistado na Confraria do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria, na qual se roga pelos pecadores. Deve o diretor com o povo recitar por ele uma ladainha, e aplicar por ele as comunhões que puder naqueles dias. Todas as pessoas devotas se devem empenhar na conversão daquele enfermo. Finalmente, devem levar a medalha indulgenciada, e a lançá-la ao pescoço. É por este modo que se tem convertido muitos e grandes pecadores na ocasião de grave enfermidade. Temos disto imensos exemplos.

                Pecadores que já não se tinham confessado há muitos anos, cheios de crimes, e que morreram com a maior satisfação interior, dizendo muitos deles com lágrimas nos olhos: Ó Santa Religião! Ó Religião Católica! Quão tarde te conheci! Ah, tu és a religião da paz e da felicidade neste e no outro mundo! Ó quanto é doce morrer convertido verdadeiramente para Deus! Eu nunca pensei que era tão suave o jugo do Senhor! Agora sim, agora é que eu morro com a maior satisfação, e na paz do mesmo Senhor.

                Mas quem poderá ter esta satisfação na hora da sua morte? Todos quantos se confessarem verdadeiramente arrependidos, porque dado o caso que o arrependimento seja verdadeiro, o perdão é certo, seja na hora em que for. Por isso ninguém desesperar da sua salvação, ainda mesmo na hora da morte, porque a misericórdia de Deus é infinita para com o pecador verdadeiramente arrependido. Depois de recebidos os sacramentos da Santa Igreja, compete ao Confessor visitá-lo, e assistir-lhe, e neste caso ele bem sabe os seus deveres. Mas se ele não puder por ter outras obrigações, então essa pessoa de caridade é que lhe deve assistir, dizendo-lhe aquilo que melhor lhe convier à sua salvação. E é uma das coisas principais que faça testamento, se tem de que. E se o enfermo estiver em maior perigo, pode dizer-lhe as seguintes orações, mas muito devagar, para que ele possa acompanhar e também dizer.

Orações para dizer com os moribundos

                Ó meu Deus, eu vos entrego a minha alma. Eu desprezo voluntariamente todas as coisas deste mundo, que não são mais do que uma pura vaidade. De todo o meu coração me arrependo, e muito me pesa de todos os meus pecados, e isto só pelo amor para com o meu Deus. Eu prometo fazer todos os esforços para não cair nas culpas que tão frequentemente cometo, e das quais desejo sinceramente emendar-me. Eu creio em um só Deus, que são três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. Creio firmemente tudo o que a Santa Igreja ensina que se deve crer, e assim o creio porque Deus o disse, e Ele é a própria verdade, e por isso não nos pode enganar, nem ser enganado. Eu espero na bondade de Deus o perdão dos meus pecados, e a graça de o servir fielmente na terra, a fim de o possuir eternamente no Céu. Eu amo ao meu Deus com todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, por Ele ser infinitamente bom e amável, e amo também ao meu próximo como a mim mesmo e por amor do meu Deus. Totalmente me entrego à disposição da santíssima vontade de Deus, e estou pronto para padecer, viver ou morrer, como for do seu agrado. Eu sinceramente desejo que se cumpra em mim agra e sempre a sua santíssima vontade. E quero sofrer pacientemente todos os trabalhos que Ele me enviar. Eu encomendo a minha alma ao Sagrado Coração de Jesus e ao Santíssimo Coração de Maria. Dignai-vos, ó meu bom e dulcíssimo Jesus, esconder-me dentro da chaga de vosso sacrossanto lado. E vós, ó gloriosíssima Virgem Maria, minha amorosíssima Mãe e advogada, defendei-me das ciladas dos inimigos, recolhendo-me dentro do vosso maternal coração. Diletíssimo Anjo da minha guarda, São José, São Joaquim, Santa Ana, Santo do meu nome, vós, ó Santos e anjos todos sede meus protetores, alcançai-me as graças de que agora mais necessito, e assisti-me todos na hora da minha morte, para depois ser como vós glorificado lá nos Céus. Amém.

                Meu Jesus, e meu Juiz, perdoai-me antes de me julgar. Meu Deus, ó quem nunca vos tivera ofendido! Vós não merecíeis ser tratado como eu vos tratei, por isso me arrependo de vos ter ofendido, bondade infinita. Eu vos tenho abandonado, tenho desprezado a vossa graça, tenho-vos perdido voluntariamente, perdoai-me por amor, e em nome do Vosso Filho. Pecados malditos, que me tendes feito perder a Deus, eu vos detesto, aborreço e abomino. Daqui por diante em todo o tempo que me restar de vida eu quero amar-vos, por isso, meu Jesus, tende piedade de mim. Em expiação dos meus pecados eu vos ofereço a minha morte, e todos os sofrimentos que nela experimentar. Vós, Senhor, tendes razão de me castigar, porque vos ofendi muito, mas eu vos peço que me castigueis nesta vida, e me perdoeis na outra. Ó Mãe Santíssima, obtende-me uma verdadeira contrição de meus pecados, o perdão e a perseverança.

                Meu Deus, porque sois uma bondade infinita, digno de um amor infinito, eu vos amo mais que tudo, mais do que a mim mesmo, de todo o coração Vos amo, Senhor. Eu não sou digno de Vos amar, porque Vos ofendi, mas pelo amor de Jesus fazei que eu Vos ame. Ó meu Jesus, eu quero sofrer e morrer por Vós, que tanto sofrestes e morrestes por mim. Tratai-me, Senhor, como Vos agradar, mas não me priveis da felicidade de Vos amar. Quando poderei dizer, ó meu Deus: Eu não posso jamais perder-Vos? Ah, eu só queria amar-Vos tanto quanto Vós mereceis. Ó Mãe Santíssima, atraí-me todo a Deus. Obtende-me a graça de amar muito a Deus sequer tanto quanto O tenho ofendido.

                Meu Deus, se tem sido muitos e muito grandes os meus pecados, muito maior ainda é a Vossa misericórdia, porque é infinita. E assim arrependido verdadeiramente como estou, e com o propósito firme de nunca mais pecar, espero que me tereis perdoado, e que me dareis a bem-aventurança, porque me criastes e remistes com o Vosso preciosíssimo sangue.

                Meu Senhor Jesus Cristo, que por meu amor sofrestes uma morte acompanhada de incompreensíveis tormentos, em comparação dos quais nada é o que eu sofro. Se até agora, entregue ao mundo, só procurava as suas comodidades e os seus gozos, agora, que desenganado das suas vaidades só aspiro a felicidade do Céu, aceito todas as dores, padecimentos, e a mesma morte. E tudo isto reunido aos merecimentos da Vossa paixão e morte, tudo ofereço ao Vosso Eterno Pai em satisfação dos meus pecados. Aumentai, Senhor em mim estes sentimentos, nos quais quero viver e morrer.

                Tende Piedade de mim, ó meu Deus, porque a minha alma pões em Vós a Sua confiança. Ah, se chegam os meus inimigos para procurarem a minha ruina e devorarem a minha alma. Mas Vós, Senhor, sois a minha luz e a minha salvação. Sois Vós, Senhor, meu Jesus, toda a minha esperança.

                Ó meu Jesus, eu quero dar sobre este leito da morte uma pública satisfação à Vossa infinita Majestade por mim ofendida. Aceito a morte, e todas as dores, moléstias e aflições que padeço, em satisfação dos meus pecados. Não Vos lembreis mais, Senhor, dos pecados da minha mocidade, nem das minhas ignorâncias. Se quereis, meu Deus, que eu morra, estou pronto, faça-se a Vossa vontade, quero morrer. Se quereis que eu viva, assim seja, faça-se a Vossa vontade. Eu desejo e quero fazer ou padecer aquilo que vós quereis que eu faça ou padeça. O meu coração está pronto para tudo, para viver, para morrer, para ir para o Céu, e para se demorar cá na terra. Eu descanso em Vós, ó meu Deus. Eu me entrego a Vos. Eu Vos entrego o cuidado do meu corpo, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Nada mais tenho a pedir-vos, senão que façais de mim o que Vos agradar. Amado Jesus, José e Maria, o meu coração Vos dou, e alma minha. Amado Jesus, José e Maria, assisti-me na minha última agonia. Amado Jesus, José e Maria, expire em paz entre Vós a alma minha. (Isto pode repetir-se por várias vezes, se se julgar conveniente).

                (Quando o enfermo já estiver sem fala, poderá pedir-se por ele do modo seguinte):

                Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, seja contigo, alma cristã. E por Sua paixão e sagrados merecimentos, sejas perdoada, amparada e livre destas angústias. A Santíssima Virgem seja tua advogada, e te alcance de Deus esforço e aumento de esperança. Te livre de todo o perigo, aparte de ti toda a tentação, e não te deixe enquanto não entrares na glória. Todos os Anjos e Santos roguem por ti, e te alcancem as graças de que agora mais necessitas. Aquele verdadeiro Deus, que é fonte de misericórdia, seja contigo. Ele te conforte e te console. Ele te ampare e te alumie. Ele te guie neste temeroso caminho para a pátria dos bem-aventurados. Ele te leve a essa pátria celestial por ministério de seus santos Anjos. Ele te livre destas agonias.  Ele receba as tuas dores em desconto dos teus pecados por Sua infinita misericórdia. O piedoso Senhor, que te criou, te dê inteiro sentido para o chamares com firme esperança, e mande lançar fora deste lugar todo o espírito maligno e tentador, toda a tristeza e má tentação.

                Os santos Anjos estejam aqui contigo enquanto não saíres deste mundo, e te levem à glória. E quando for vontade de Nosso Senhor tirar-te deste mundo, dele te apartes com a remissão dos teus pecados e cheio de gozo. Em nome de Deus Pai, Todo-Poderoso, que te criou, em nome de Deus Filho, que te remiu, e em nome do Divino Espírito Santo, que te alumiou, aparta-te e sai desse corpo mortal com o favor e amparo de todos os Anjos e Santos. Deus se sirva dar-te lugar de descanso e gozo de paz eterna na Santa Cidade de Jerusalém triunfante. Deus misericordioso, Deus clemente e piedoso, ponde os olhos favorável neste Vosso servo, ouvi-o propício, e concedei-lhe piedoso o perdão de todas as suas fraquezas e pecados, pois de todo o seu coração vo-lo pede por meio de sua humilde confissão. Renovai, Pai Divino, e reparai as quebras e ruínas desta alma, e os pecados que ela fez e contraiu, ou pela fraqueza de sua carne, ou pela astúcia e engano do demônio, os perdoai-lhe. Admiti-a e a incorporai no corpo da Vossa Igreja triunfante, como membro vivo dela, e remida com o sangue precioso de Vosso Filho. Amparai, Senhor, esta alma, e socorrei-a. Ela não tem posto sua esperança senão em Vossa misericórdia, por isso admiti-a em Vossa graça e amizade. Eu te encomendo, irmão (ou irmã) a Deus Todo-Poderoso, a quem peço te ampare e favoreça como criatura Sua, para que ao saíres deste mundo chegues a ver teu Criador, que do pó da terra te formou. Quando tua alma sair do corpo, te saia a receber um exército brilhante de santos Anjos, para te acompanhar, defender e festejar-te. O glorioso colégio dos Apóstolos te favoreça, sendo juízes assessores de tua causa. As triunfadoras legiões dos Mártires te amparem. A nobilíssima caterva dos ilustres Confessores te recolham no meio, e te confortem. Os coros das Santas Virgens, alegres e contentes, te recebam. Toda aquela bem-aventurada companhia de cortesãos celestes com estreitos abraços de verdadeira amizade te deem entrada no seio glorioso dos Patriarcas. Manso, piedoso e aprazível te apareça Nosso Senhor Jesus Cristo, e te dê lugar entre aqueles que para sempre assistem na sua presença. Nunca chegues a experimentar o horror das trevas eternas, nem as penas que atormentam os condenados. Satanás se renda com toda a sua quadrilha. E quando passares por diante dele, acompanhada dos Anjos, ele trema e se retire às trevas da sua caverna infernal. Deus se levante em teu favor, e os teus inimigos sejam desbaratados e fujam da tua presença. Os malditos demônios, inimigos rebeldes, se desfaçam como o fumo no ar. E os justos, contentes e alegres, se sentem contigo à mesa celestial. Cristo, que por ti foi crucificado, te livre do inferno. Cristo, que por ti deu a sua vida, te livre da morte eterna. Cristo, Filho de Deus vivi, te ponha entre os prados e florestas do Paraíso. E como verdadeiro pastor te reconheça por ovelha do Seu rebanho. Ele te absolva de todos os teus pecados e te assente à Sua direita entre os escolhidos e predestinados. Deus te faça tão ditosa, que vejas teu Redentor face a face, que assistas em sua presença, que reconheças a Sua Divindade claramente, e que gozes da doçura de sua eterna contemplação por todos os séculos dos séculos. Amém. (Isto se pode repetir mais vezes, se se julgar conveniente, e também rezar a Ladainha de Nossa Senhora, mas em lugar de responderem Rogai por nós, dirão Rogai por ele (ou por ela).

                Logo que morre um enfermo, deve fazer-se tenção que ele nas chamas abrasadoras do Purgatório, porque muito raros são os que vão imediatamente para o Céu. Mesmo alguns Santos tem caído no Purgatório. E então todos devem acudir a apagar-lhe aquele fogo abrasador.  E com que? Com missas ditas, e ouvidas com esmolas, orações , ofícios e votos de renuncia, isto é, dar-lhe todo o satisfatório e indulgências por certo tempo.

A COMUNHÃO ESPIRITUAL: um desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente

A comunhão espiritual consiste, como diz São Tomás, em um desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente. O sagrado Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e exorta todos os fiéis a praticá-la.

O Senhor mesmo muitas vezes manifestou às almas fervorosas quanto este ato lhe é agradável. Um dia apareceu Jesus Cristo a sóror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Senna de Nápoles, como se refere na sua vida, e lhe mostrou dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que conservava no vaso de ouro suas comunhões sacramentais e no de prata as espirituais. Em outro dia, disse a venerável Joana da Cruz que, toda a vez que ela dava uma graça de alguma sorte semelhante a que ela recebia nas comunhões reais. O padre João Nider, dominicano, conta de mais a este respeito em certa cidade, um homem do povo, muito virtuoso, desejava comungar frequentemente; mas não sendo isto usado no lugar, ele, para não parecer singular, contentava-se de comungar só espiritualmente. Para esse fim, se confessava antes, fazia sua meditação, assistia a missa e se preparava para a comunhão. Depois abria a boca como se recebesse Jesus Cristo. O autor acrescenta que, quando ele abria a boca, sentia vir repousar sobre sua língua a sagrada partícula e experimentava na alma uma extrema doçura. E, uma manhã, para verificar se isto realmente acontecia, levou a mão a boca, e a hóstia lhe ficou segura no dedo. Depois, a tornou a colocar sobre a língua e engoliu. Foi assim que o Senhor recompensou o desejo do seu bom servo. O Beato Pedro Fabro, da Companhia de Jesus, dizia que as comunhões espirituais ajudam muito a fazer com maior fruto as comunhões sacramentais. É por isso que os santos tiveram o hábito de praticá-la frequentemente. A Beata Ângela da Cruz, dominicana, chegava até a dizer: “Se meu confessor não me houvesse ensinado a comungar espiritualmente, perece-me que eu não teria podido viver”. E por isso ela fazia cem comunhões espirituais durante o dia e outras cem durante a noite. Mas, direis vós, para que tantas comunhões? Por mim vos responda Santo Agostinho: Dai-me uma alma que não ame senão a Jesus Cristo, e não se admitirá disto.

A comunhão espiritual é muito fácil de se fazer muitas vezes ao dia. Como não exige o jejum, nem o ministério do sacerdote, nem muito tempo, pode-se repetir, cada dia, quantas vezes se queira. É o que fazia dizer a venerável Joana da Cruz: “Ó meu Deus, que bela maneira de comungar! Sem ser vista, nem notada, sem falar ao meu padre espiritual, e sem depender de nenhum outro senão de vós, que, na solidão, me nutris a alma e lhe falais ao coração”!

Aplicai-vos pois também a fazer muitas comunhões espirituais, especialmente durante a oração e na visita ao Santíssimo Sacramento, e, sobretudo, cada vez que ouvirdes missa, quando o sacerdote comunga: fazei então um ato de fé, crendo firmemente que Jesus Cristo está na Eucaristia; um ato de amor acompanhado do arrependimento dos pecados; um ato de desejo, convidando Jesus Cristo a vir a vossa alma, para uni-la inteiramente a ele; e, depois disso, agradecei-lhe, como se o tivésseis recebido. Estes atos podem ser formulados assim:

Meu Jesus, que estais vivo real e verdadeiramente no Santíssimo Sacramento. Eu vos amo de todo o meu coração, e porque vos amo, me arrependo de vos ter ofendido. Vinde a minha alma, que vos deseja. Eu vos abraço, meu amor, e me dou toda a vós. Não permitais que me separe de vós. Desta maneira, podeis facilmente fazer as comunhões espirituais que quiserdes.

Do livro: “A Esposa de Cristo”, de Santo Afonso Maria de Ligório

O principal motivo da perdição

(Diálogo entre o discípulo e o mestre)

Mestre — Conta-se certa moça, tendo caído por desgraça num desses pecados que tanto envergonham na confissão, vivia triste e desconsolada. Passaram-se assim muitos meses, sem que nenhuma das companheiras da coitada descobrisse a causa de tanta aflição. Nesse ínterim, aconteceu que a sua melhor amiga, muito virtuosa e devota, morreu santamente. Uma noite, a chamam pelo nome, quando está no melhor do sono; reconhece perfeitamente a voz da amiguinha morta que vai repetindo: Confesse-se bem… se você soubesse o quanto Jesus e bom! A moça tomou aquela voz por uma revelação do céu, criou coragem e, decidida, confessou o pecado que era a causa de tanta vergonha e de tantas lágrimas. Naquela ocasião, tamanha foi a sua comoção, tão grande o seu alívio que depois disso, contava o fato a todo o mundo, e repetia por sua vez: “Experimentem e vejam o quanto Jesus é bom”.

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Explicação: Noção dos Sacramentos

CATECISMO ROMANO – II PARTE: DOS SACRAMENTOS – excertos

Explicação real: Noção dos Sacramentos

Embora haja várias explicações boas e admissíveis, nenhuma iguala à justa e luminosa definição de Santo Agostinho, perfilhada mais tarde por todos os teólogos escolásticos.”Sacramento, diz ele, é o sinal de uma coisa sagrada”. Noutros termos, que exprimem a mesma ideia: “Sacramento é o sinal visível de uma graça invisível, instituído para a nossa justificação”. 

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Atitudes e gestos litúrgicos

As cerimônias que evolucionam em torno de elementos materiais, expressão dos sentimentos religiosos do homem e símbolos em certo modo produtivos da graça – Sacramentos, Sacramentais – figuram e realizam eficazmente o comércio do homem, prisioneiro das aparências sensíveis, e de Deus, “que habita uma luz inacessível”.

Mas não basta. Por causa da mútua dependência fisiológica atual do espírito e da matéria que se compõe, o homem tem necessidade de recorrer constantemente à atividade do corpo para excitar e manifestar a atividade da alma.

A Liturgia, simples espetáculo para os incrédulos, é para os fiéis um drama, um drama grandioso no qual todos os cristãos que transpõem o limiar do tempo devem tomar parte, ser atores. A atividade da alma e do corpo deve expandir-se em cânticos, salmos, responsórios, versículos, leituras e orações. E quem sublinhará estas fórmulas ou as suprirá nos momentos de silêncio, de oração recolhida? E quando nas assembleias litúrgicas a voz dos fiéis se encerrar pertinazmente num frio e indiferente mutismo, quem manterá ainda em contato o coro e a nave, o clero e o povo solidarizados na realização de um só drama? As atitudes e os gestos corporais.

ATITUDES

As atitudes do corpo têm por fim criar e manter no homem disposições favoráveis à oração; provocar ou simplesmente traduzir “atitudes da alma” em face do seu Deus – aniquilamento, adoração, súplica, ação de graças.

As principais atitudes prescritas pela Liturgia são as seguintes:

De pé

O cristão é filho adotivo de Deus. Possui o Espírito Santo que continuamente lhe inspira esse grito de amor filial – Abba Pater.

“Pai, Pai”. Diante de seu Pai o cristão deve tomar uma atitude de reverência, sim, mas também de confiança: deve estar de pé. É também esta a atitude que convém a um homem, livre das prisões do pecado, a um homem ressuscitado para a vida divina.

Convencidos desta verdade, os primeiros cristãos oravam ordinariamente de pé; e, em sinal de humildade e de súplica, elevavam os olhos e as mãos ao céu.

A Liturgia conserva esta atitude em todas as suas orações (exceto nos dias de penitência), no canto do Evangelho, do Benedictus, Magnificat, Nunc dimittis, Te-Deum, etc, prescreve que se reze ou cante de pé a antífona final do Ofício nos domingos e durante todo o Tempo pascal (Esta prescrição que tem por fim honrar a Ressurreição de Jesus estende-se à devoção extra litúrgica das Ave-Marias).

Inclinação

Filho adotivo de Deus, o homem não deixa de ser uma débil criatura. Como tal, deve aliar à atitude de confiança a atitude de respeito e de aniquilamento. Daí as inclinações, genuflexões e prostrações.

O cerimonial litúrgico distingue várias espécies de inclinações: de corpo – profunda medíocre; de cabeça – máxima, média e mínima.

Estas inclinações, às vezes, são uma simples reverência; uma saudação à Cruz, às imagens de Jesus e dos Santos, aos objetos sagrados, às pessoas constituídas em dignidade; a Jesus, a Maria, ao Santo do dia, ao Papa reinante, ao pronunciar os seus nomes. Em cada caso a espécie de inclinação varia, segundo a excelência da pessoa ou objeto que se honra – bispo, cônego, celebrante, ministro e leigo.

Outras vezes, as inclinações têm por fim manifestar exteriormente os sentimentos de adoração, humildade ou súplica sugeridos por uma fórmula. Quando intensos, estes sentimentos inspiram ao cristão essa posição (inclinação profunda), própria do supliciado que com o corpo dobrado – subplicare – oferecia o pescoço à espada do lictor ou suplicava a graça do perdão.

Genuflexão

A genuflexão, diz Bossuet, é “uma queda no nada”. É a humilhação do homem que, fugindo da grandeza de Deus, se abisma na sua miséria.

A ação de ajoelhar-se com um ou dois joelhos é uma simples reverência devida aos bispos, ao Papa, à verdadeira Cruz e ao SS. Sacramento encerrado no sacrário ou exposto à veneração dos fiéis.

A atitude de permanecer de joelhos é ditada pelo temor, pela penitência e pela humildade. Encontra-se esta atitude nas religiões do paganismo e no culto do Antigo Testamento. Os fiéis do Novo Testamento, desde os tempos apostólicos (At. 7, 60; 9,40; 20, 36; 21, 5, etc), em momentos de maior angústia e em dias de penitência, também curvam os joelhos para orar.

As Missas da Quaresma, das Quatro-Têmporas e das Vigílias, que são muito antigas, conservam a ordem de ajoelhar-se dada pelo Diácono: Flectamus genua (Entre o Flec-tamus genua e o Levate intercalavam-se alguns momentos de oração em silêncio).

Esta atitude, contudo, era cuidadosamente evitada nos Domingos e no Tempo pascal.

Hoje que, infelizmente, a Liturgia perdeu grande parte da sua influência e do seu caráter, estes matizes tão delicados na atitude da assembleia cristã, reveladores de uma perfeita compreensão das verdades fundamentais do cristianismo, apagaram-se e fundiram-se na uniformidade de uma mesma prática, observada indistintamente em todos os dias do ano.

Prostração

A genuflexão transforma-se muitas vezes na prostração do corpo inteiro. Esta atitude, em que o homem se confunde com a terra de que foi tirado, era muito frequente outrora, como o provam os monumentos da arte antiga. É prescrita ainda hoje na colação das Ordens maiores, consagração das Virgens, procissão monacal, e no ritual do Tríduo pascal e Vigília do Pentecostes. E não se diga que esta atitude avilta o homem, igualando-o aos vermes da terra. Não há nada que tanto o enobreça. “Descer por espírito de religião abaixo de todas as coisas, é subir acima de tudo e verdadeiramente elevar-se ao cume dos céus. Honrar, até se aniquilar diante d’Ele, “o que está sentado no trono”, é elevar-se até esse trono e sentar-se nele à direita de Deus. Assim, nos são representados os Bem-aventurados do Paraíso: prostrados e exaltados; humildes e coroados de glória; aniquilados pelo seu amor para com Deus e seu Cristo e investidos de honra; inebriado de alegria pelo amor que lhes têm Deus e o seu Cristo” (GAY, Élé-vations sur la vie et la doctrina de N.S.J.C. t. I p.70).

Sentar-se

Estar sentado é o próprio do doutor que ensina, do chefe que preside. Desde os primeiros séculos, o Bispo tinha no fundo das igrejas domésticas ou na abside da cripta das catacumbas e das basílicas romanas, a sua cadeira – cátedra. Ao redor dela vieram juntar-se os bancos para os presbíteros, cooperadores do Bispo – presbítero.

Os fiéis estavam habitualmente de pé. Todavia os Atos dos Apóstolos (At. 20, 9), S. Paulo (1Cor.14, 30). S. Justino, Orígenes e outros dão a entender que os fiéis se sentavam algumas vezes, sobretudo durante a leitura e a pregação.

Santo Agostinho recomenda ao Diácono Deográcias de Cartago que mande sentar o povo durante o sermão para que se não canse. A Regra de São Bento prescreve que os monges ouçam sentados as leituras e se levantem para a Glória do responsório da última lição.

Os assentos de que serviam os monges e o clero passaram pelas seguintes metamorfoses: – esteira, escabelo, banco, simples cadeira, cadeira coral, com todos os meios de comodidade e adornos da arte.

GESTOS

As atitudes do corpo não bastam para exprimir todos os cambiantes dos sentimentos da alma. Estes manifestam-se de um modo mais delicado pelos gestos.

Os gestos são o complemento natural das palavras.

  1. a) – Sublinham uma expressão. A bênção da pia batismal e o Qui pridie do Cânon são acompanhados de gestos que vão salientando e descrevendo uma a uma as suas ideias.
  2. b) – Acentuam um sentimento. Estender os braços a rezar é excitar o fervor da oração; baixar os olhos ao Suscipe, Sancte Pater, sobre a hóstia oferecida pelos pecados do próprio sacerdote é reconhecer a sua própria “indignidade”; bater no peito ao mea culpa, peccatores, miserere nobis, é provocar sentimentos de contrição.
  3. c) – Completam uma frase. Volta-se para a assembleia e estender-lhe as mãos ao Dominus vobiscum é a maneira mais natural de a saudar. Fazer o sinal da cruz ao Deus in adjuntorium, Adjuntorium nostrum, etc., é confessar que todas as graças nos vêm dos merecimentos da cruz.
  4. d) – Indicam um objeto. Os sinais da cruz às palavras – Hostiam † puram, etc. Panem † sanctum, Calicem † salutis, Cor†pus, San†guinem, mostram a Vítima imolada, o Corpo e o Sangue de Jesus realmente presentes no altar.
  5. Os gestos suprem eloquentemente, em certos casos, as palavras. Elevar em silêncio as mãos e os olhos ao céu e logo inclinar-se e apoiar-se no altar antes de entrar no Cânon é proclamar que o homem, embora revestido da mais sublime dignidade, é nada, e que só de Deus lhe vêm todo o poder. A mesma ideia é ainda expressa por um gesto quase idêntico antes do Munda cor, Suscipe Sancte Pater, Veni Sanctificator, Suscipe Sancta Trinitas.

Por vezes os gestos são historicamente anteriores às fórmulas. Neste caso as fórmulas vêm interpretar e completar o sentido dos gestos, por ex., no ofertório, na incensação, no Lavabo.

Há gestos que são simplesmente vestígios muito reduzidos de cerimônias, motivadas por razões históricas ou de necessidade. – Ao ofertório, o celebrante faz com a patena e o cálix, ao depô-los sobre o corporal – recordação da maneira de dispor os pães em forma de cruz sobre o altar ou talvez do movimento de oscilação com que eram oferecidas certas oblações no ritual moisaico. O celebrante lê a Epístola na missa, sustentando o livro na mão ou colocando as mãos sobre o livro, porque nesse momento exerce uma função própria do Subdiácono que, à diferença do diácono, sustenta o Epistolário em que lê. No Offerimus tibi o Diácono sustenta o cálix ou o braço do Celebrante; outrora, com efeito, o peso do cálix tornava indispensável a ajuda do ministro.

Estas noções gerais bastam para mostrar como a Santa Igreja sabe utilizar a presente condição do homem, ser revestido de matéria, dependente das coisas sensíveis no exercício das suas faculdades, para elevá-lo à contemplação do invisível por meio de cerimônias visíveis – emprego de elementos materiais, atitudes, gestos.

“Tal é o método de intuição que a Liturgia aplica integralmente à formação espiritual da humanidade. A princípio influi diretamente nas almas pelas impressões dos sentidos, da imaginação, pelo conhecimento intelectual do particular; estas experiências de qualidade comum abrem caminho à iluminação interior em todos os seus graus. Enfim, a alma, assim preparada, elevada, exercitada, entra em comércio íntimo com as realidades de invisível – comércio mediato da fé ou comércio imediato do misticismo” (DOM FESTUGIÈRE, Lit. Cath. P. 127).

Fonte: Curso de Liturgia Romana, de Dom Antonio Coelho, OSB.