Como conservar as virtudes

Toda virtude é preciosa perante Deus e perante os homens. Mas a virtude rainha, a virtude angélica, é a santa pureza, tesouro inestimável, que torna o homem semelhante aos anjos, embora vivendo ainda na terra. Com efeito, na ressurreição, nem eles se casam e nem elas se dão em casamento, mas serão como anjos no céu (Mt 22, 30). Essa virtude é como o centro ao redor do qual se congregam e se conservam todos os bens e, se por desgraça, viermos a perdê-la, todas as outras virtudes também se corromperão. Com ela me vieram todos os bens, de suas mãos, riqueza incalculável (Sb 7, 11).

               Mas, essa virtude que tanto agrada a Jesus e Maria, é muito atacada pelo inimigo, que costuma usar de vários meios para a manchar e a destruir. Por esse motivo, indico algumas normas e armas espirituais, com as quais com certeza você alcançará a graça de a preservar e repelir o Tentador.

A arma principal é o pudor. A pureza é um diamante de grande valor; se alguém expõe um tesouro perante a vista de ladrões, corre grande perigo de ser assaltado. São Gregório Magno declara que se alguém carrega em público uma riqueza, é sinal de que deseja ser roubado.

Junto com o pudor, é preciso frequentemente se confessar com extrema sinceridade, comungar sempre e evitar pessoas que com atos ou palavras, demonstrem não apreciar a virtude da pureza.

                Recorde o aviso do Senhor, de que algumas tentações, somente com jejuns e orações podem ser vencidas. Jejum significa mortificações dos sentidos: refrear os olhares, a gula, fugir do ócio e consentir ao corpo somente o descanso estritamente necessário. Jesus Cristo recomenda a oração persistente, fervorosa e cheia de fé, até que a tentação se afaste.

                As jaculatórias também são armas formidáveis, podemos dizer: Meu Jesus tem misericórdia de mim! Maria, concebida sem pecado, rogai por mim que recorro a vós! Maria, auxilio dos cristãos, rogai por mim! Doce coração de Maria, sede a minha salvação! É também muito eficaz beijar o crucifixo, alguma medalha benta ou o escapulário de Nossa Senhora.

                Finalmente, podemos recorrer a uma arma invencível, a presença de Deus, que tudo observa. Será que teremos a ousadia de ofendê-lo diante de sua presença? O patriarca José, quando era ainda escravo no Egito, sendo tentado a cometer um ato abominável, respondeu: Como poderia eu realizar um tão grande mal e pecar contra Deus? (Gn 39, 9).

                Também, você amigo deve dizer: Como poderei deixar-me induzir a cometer este pecado na presença de Deus, meu Criador e Salvador, este que pode precipitar-me no inferno?

                Creio ser impossível se deixar vencer pelas tentações, sempre que pensar na presença de Deus.

Devoção à Maria Santíssima

                Um grande sustentáculo é a devoção a Maria Santíssima. Tenha a mais íntima convicção de que obterá todas as graças desta boa Mãe, contanto que seus pedidos contenham retidão. Deve pedir com insistência particular, três favores que são necessários.

                O primeiro é de não cometer nenhum pecado mortal. Entende o que significa pecado mortal? Renunciar ser filho de Deus, para tornar escravo de Satanás: perder todos os merecimentos adquiridos para a vida eterna, ficar pendurado na boca do poço do inferno, ofender a Bondade Divina. Todas as graças recebidas seriam inúteis se cair no pecado mortal. Peça a Maria, sempre a graça de não cair em pecado mortal, de manhã e de noite, em todas as práticas de piedade que fizer.

                O  segundo  favor  é  a  conservação  da virtude da pureza, quem a conserva é semelhante aos anjos do Céu; o Anjo da Guarda o considera como um irmão e se alegra de estar sempre em sua companhia.

                Para preservar essa bela virtude, aconselho que evite a companhia do sexo oposto em ambientes perigosos, como por exemplo, só os dois em uma casa. Tenha muito respeito nas conversas. A guarda dos sentidos contribui muito para a conservação dessa bela virtude, portanto, evite o excesso na comida e na bebida, muito cuidado na escolha dos programas de divertimento, que, atualmente em sua grande maioria, são a ruína dos bons costumes.

                Guarde principalmente os olhos, que são as janelas pelas quais o pecado entra no coração e o demônio vem tomar posse de nossa alma. Nunca se detenha em olhar para algo que seja contrário ao pudor.

                Certa vez, perguntaram a um jovem, porque era tão recatado no olhar, este respondeu: Tomei a resolução de nunca fitar uma mulher, com intenções dúbias, para assim, poder sempre contemplar o rosto puríssimo de Maria Santíssima.

                A terceira graça que você deve implorar da Virgem Imaculada é a de ficar sempre afastado da companhia de pessoas, que possuem um péssimo linguajar, mesmo que sejam da própria família. Posso garantir que é mais prejudicial a companhia de um desses, que a do próprio demônio. Fugindo dessas companhias, você será feliz e trilhará o caminho que conduz ao Paraíso. Por isso, quando algum amigo proferir blasfêmias, desprezar as práticas religiosas e dizer palavras que vão contra a virtude da pureza, fuja como se fosse da peste. Fique certo de que quanto mais puros forem os olhares e as conversas, tanto mais Maria intercederá por você, junto de seu Filho e nosso Redentor.

                Com certeza, você alcançará de Nossa Senhora esses favores, se sempre for devoto sincero, proferindo-lhe jaculatórias e rezando todos os dias o Rosário.

Conselhos para aqueles que participam de alguma associação

                Caso esteja participando ou pertença a alguma congregação, movimento ou associação, leiga ou religiosa, procure frequentar continuamente e observe suas normas com exatidão. Tenha grande respeito pelos diretores, comunicando-lhes quando tiver que se ausentar. Na capela, diante do Santíssimo, esteja sempre comedido e em silêncio, rezando ou lendo algum livro espiritual, até que se comecem as meditações.

É muito importante que os mais experientes, edifiquem e ajudem na formação dos mais novos. Lembre-se de que o testemunho é o principal meio de apostolado, por isso, evite apelidos pejorativos e seja sempre verdadeiro, pois caso deslize em alguma mentira, além de ofender Deus, terá prestado péssimo serviço perante os amigos e superiores. Recomendo que tenha filial confiança no diretor espiritual, sempre recorrendo a ele, quando tiver alguma dúvida. Por fim, acolha com humildade as tarefas indicadas.

A vocação

                Nos seus eternos desígnios, Deus marcou cada um de nós com uma determinada condição de vida e nos nutre com as graças para corresponder. Como em todas as realidades, também nessa, que é de capital importância, deve o cristão procurar conhecer a vontade divina, imitando Jesus Cristo, que proclamava: Meu alimento é fazer a vontade daquele quem me enviou e consumar sua obra (Jo 4, 34).

                Algumas almas foram favorecidas por Deus, de modo extraordinário, para que soubessem claramente a vocação que lhes eram destinadas. Você, caro amigo, não precisa pretender tanto, fique consolado com a segurança de que Deus o guiará pelo reto caminho, desde que não se afaste dos meios oportunos para tomar essa decisão.

                Um desses meios é se conservar puro durante a infância e a juventude ou desagravar com sincera penitência os pecados cometidos.

Outro meio é a oração humilde e perseverante. Podemos dizer: Senhor, que quereis que eu faça? Ensinai-me a fazer vossa vontade, porque vós sois o meu Deus.

                Quando chegar o momento de acolher a sua vocação, suplique ao Senhor com orações, novenas, abstinências, peregrinações e aplique a Santa Missa para essa finalidade. Recorra a Nossa Senhora, que é Mãe do bom conselho; a São José, que sempre foi fidelíssimo às ordens divinas; ao Anjo da Guarda e aos seus Santos Padroeiros. Sendo possível, diante de tamanha decisão, é frutuoso recorrer a um retiro espiritual.

                Acontecendo que pais ou responsáveis queiram persuadi-lo de mudar o caminho traçado por Deus, lembre-se então de que é o caso de pôr em prática o conselho do Evangelho, isto é, obediência a Deus acima da obediência aos homens, não esquecendo o respeito e a honra que lhes deve. Consulte o diretor espiritual, dizendo com toda clareza os detalhes e suas disposições.

Quando São Francisco de Sales manifestou perante seus familiares, que Deus o chamava ao sacerdócio, os pais lhe disseram que na qualidade de primogênito, deveria ser o apoio e sustentáculo para a família; que a inclinação ao estado eclesiástico era passageira e que poderia ser santo vivendo no mundo; e até para tentar dissuadi-lo de suas intenções, propuseram-lhe um casamento muito vantajoso. Mas nada pôde removê-lo do propósito. Colocou constantemente a vontade de Deus, acima da pretensão de seus pais, aos quais respeitava e amava com muita ternura; preferiu renunciar todas as vantagens temporais, a faltar com a graça de sua vocação. E os pais, que eram piedosos, mais tarde, reconheceram a escolha certa do filho e ficaram orgulhosos.

Fugir do ócio

                A principal arma que o demônio utiliza é o ócio, origem de todos os vícios. Perceba que o homem nasceu para trabalhar e quando evita o labor, está fora de seu centro e ofende Deus.

                A ocupação nobre combate e vence a inércia. O que mais atormenta os condenados no inferno, é saber que ficaram no ócio, enquanto Deus lhes fornecia o trabalho para que se salvassem. Pelo contrário, é grande a satisfação dos bem-aventurados do Céu, saber que todo tempo empregado na glória de Deus, proporcionou-lhes a felicidade eterna.

                Isso não significa que você deve ficar ocupado o dia inteiro sem nenhum descanso. Eu lhe quero muito bem e concedo de bom grado, um tempo para o lazer. Todavia, não posso deixar de recomendar, que busque atividades que mesmo sendo para recreação, sejam de utilidade para a formação. Como por exemplo: bons livros, jogos e entretenimentos lícitos. Lembre-se de que fraudes, trapaças, alcunhas e palavras obscenas causam discórdias e podem ofender os amigos, além de serem um contratestemunho cristão.

                Mesmo nessas ocupações, não deixe de elevar o pensamento a Deus, também oferecendo esses momentos para sua honra e glória. Certa vez, São Luiz, enquanto se entretinha alegremente com os amigos, foi indagado no que faria, se naquele momento aparecesse um Anjo avisando que em quinze minutos, Deus o chamaria ao juízo. Prontamente respondeu que continuaria sua ocupação, porque estava certo de que aquelas atividades agradavam a Deus.

Cuidado com certas amizades

                Há três espécies de companheiros: os bons, os maus e os que estão no meio termo. Com os bons podemos nos relacionar, que será muito frutuoso; com os medíocres somente quando houver necessidade, mas sem contrair familiaridade; quanto aos maus, de vemos evitar sempre.

                Quem são esses terríveis maus companheiros? Todos que não se envergonham de ter conversas obscenas, murmuradores, mentirosos, blasfemadores; os que têm vida escandalosa e aconselham a desobedecer aos pais, a roubar, a transgredir os deveres. Todos esses são péssimos companheiros e ministros de Satanás, dos quais você deve fugir mais do que da peste e do demônio.

                Quem andar com o virtuoso, será também virtuoso. Estando com os bons, eu garanto que alcançará o Paraíso. Pelo contrário, permanecendo com os perversos, sua alma corre grande perigo.

                Alguém poderá dizer: São tantos os maus, que seria preciso sair deste mundo para poder evitá-los. É verdade que são numerosos e, é justamente por isso que o risco é grande. Lembre-se de que sempre terá a companhia de Jesus Cristo, da Bem-aventurada Virgem Maria e do Santo Anjo da Guarda. Existirão companheiros melhores que esses?

                É possível encontrar bons amigos, juntos poderão frequentar os Sacramentos da Confissão e da Eucaristia; amigos que com palavras e exemplos, estimularão o cumprimento dos deveres sociais e religiosos.

Desde que Davi, quando jovem, conheceu Jônatas, tornaram-se grandes amigos com proveito recíproco, porque um animava o outro nas práticas das virtudes.

Evitar conversas fúteis

                Muitos estão no inferno por terem escutado conversas frívolas! Essa verdade já preocupava São Paulo, quando dizia que as coisas inconvenientes não devem ser comentadas entre cristãos. As más companhias corrompem os bons costumes (1 Cor 15, 33). As conversas são como alimentos: por muito bom que seja o prato, é suficiente que contenha uma só gota de veneno para matar. O mesmo acontece com conversas obscenas. Uma palavra, um gesto, uma anedota basta para propagar a malícia e o vício.

                Às vezes poderá estar em um local que não é possível evitar, então,  como  fugir  de  conversas desse tipo?  Caso haja  possibilidade de diálogo, corrija com carinho e firmeza, do contrário ignore a conversa não participando nem com sorrisos ou palavras e no coração desagrave Deus com alguma jaculatória.

                Pode acontecer que alguém escarneça e ria, mas não se preocupe, tempo virá em que o riso e o sarcasmo dos malvados se transformarão em pranto, o desprezo dos bons costumes se converterá na mais consoladora alegria no Céu. Em verdade, em verdade, vos digo: chorais e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará. Vós se entristeceis, mas vossa tristeza se transformará em alegria (Jo 16, 20). Perceba que permanecendo fiel a Deus, com o tempo esses mesmos que detratam, serão obrigados a prezar a sua virtude.

                Onde se encontrava São Luiz Gonzaga, ninguém se atrevia a proferir palavras indecentes ou quando se aproximava, diziam logo: Silêncio! Aí vem Luiz.

Evitar escândalos

                A palavra escândalo significa tropeço. Denomina-se escandaloso aquele que, com palavras ou obras, oferece ocasião a outros de ofender Deus. O escândalo é um enorme pecado, porque rouba de Deus as almas que foram criadas para o Céu e resgatadas pelo sangue precioso de Jesus Cristo. O escandaloso é um verdadeiro agente do maligno. Quando o demônio com seus artifícios não consegue se apoderar de sua presa, costuma se servir dos escandalosos.

                O que devemos dizer dos que ensinam malícias aos inocentes? O Senhor tendo tomado pela mão uma criança, disse: Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que lhe prendessem ao pescoço a mó que os jumentos movem e o atirassem ao mar (Mc 9, 42).

                Uma menina, ao ouvir uma conversa escandalosa, disse a quem falava: Foge daqui, demônio maldito. Se você meu caro, quer ser verdadeiro amigo de Jesus e Maria, deve não somente fugir dos escândalos, mas se empenhar em reparar com o bom exemplo, o grande mal que esses fazem às almas.

                Por isso suas conversas sejam boas e modestas; seja devoto na igreja, obediente e respeitoso com os superiores. Como diz Santo Agostinho: O que alcança a salvação de uma alma, também pode esperar a salvação de sua alma.

Cuidado com as leituras

                Nunca leia obras de cuja seriedade não esteja seguro, peça antes conselho a quem pode discernir com critério justo. Caso possua livros perniciosos o melhor é destruí-los.

                Quando falamos de livros contra os bons costumes, entenda obras que vão contra a moral, a religião e as práticas de piedade e que atacam a Igreja e seus ministros. Porque não só os costumes, mas principalmente a fé deve se conservar pura e imaculada; aquela fé sem a qual, como diz São Paulo, não podemos agradar a Deus; aquela fé pela qual, milhares de mártires derramaram o próprio sangue.

                Mesmo que os livros dessa espécie sejam atraentes e estejam em voga, devemos evitá-los. Por acaso você beberia com prazer um licor, se soubesse que está envenenado, só por que foi oferecido em um cálice de ouro?

                Ainda mais que nós, católicos, não precisamos recorrer a tais livros, pois possuímos uma vasta e riquíssima literatura que pode perfeitamente entreter e instruir.

Evitar espetáculos imorais

                Frederico Ozanam, fundador das Conferências de São Vicente de Paulo e professor da Universidade da Sorbone, em Paris, gloriava-se na presença do célebre Ampére, de nunca ter pisado num teatro público.

                Os doutores da Igreja foram sempre unânimes em condenar as cenas teatrais. As razões para isso são a moral distorcida que apresentam e a apologia a todo tipo de vício.

                É claro, que excetuo as representações e filmes de caráter honesto, que podem divertir, sem nenhum perigo para os bons costumes e a fé; infelizmente, tais exibições são raras, ao passo que em grande escala se exibem espetáculos dúbios, onde a moral e a religião são desvirtuadas.

Retirado da obra “O cristão bem formado” de São João Bosco.

A ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do Cristão

“Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Ps. 117, 24).

Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.

O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1).

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a Ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com Ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)

Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) — “Se morrermos com Ele, com Ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus… esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine — “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.

“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

1. 1 Cor. 15, 20.
2. Ap 5,12.
3. 2 Tim. 2, 11.
4. Io. 5, 28.
5. Iob 19, 25.
6. Or.festi curr.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

A COMUNHÃO ESPIRITUAL: um desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente

A comunhão espiritual consiste, como diz São Tomás, em um desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente. O sagrado Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e exorta todos os fiéis a praticá-la.

O Senhor mesmo muitas vezes manifestou às almas fervorosas quanto este ato lhe é agradável. Um dia apareceu Jesus Cristo a sóror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Senna de Nápoles, como se refere na sua vida, e lhe mostrou dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que conservava no vaso de ouro suas comunhões sacramentais e no de prata as espirituais. Em outro dia, disse a venerável Joana da Cruz que, toda a vez que ela dava uma graça de alguma sorte semelhante a que ela recebia nas comunhões reais. O padre João Nider, dominicano, conta de mais a este respeito em certa cidade, um homem do povo, muito virtuoso, desejava comungar frequentemente; mas não sendo isto usado no lugar, ele, para não parecer singular, contentava-se de comungar só espiritualmente. Para esse fim, se confessava antes, fazia sua meditação, assistia a missa e se preparava para a comunhão. Depois abria a boca como se recebesse Jesus Cristo. O autor acrescenta que, quando ele abria a boca, sentia vir repousar sobre sua língua a sagrada partícula e experimentava na alma uma extrema doçura. E, uma manhã, para verificar se isto realmente acontecia, levou a mão a boca, e a hóstia lhe ficou segura no dedo. Depois, a tornou a colocar sobre a língua e engoliu. Foi assim que o Senhor recompensou o desejo do seu bom servo. O Beato Pedro Fabro, da Companhia de Jesus, dizia que as comunhões espirituais ajudam muito a fazer com maior fruto as comunhões sacramentais. É por isso que os santos tiveram o hábito de praticá-la frequentemente. A Beata Ângela da Cruz, dominicana, chegava até a dizer: “Se meu confessor não me houvesse ensinado a comungar espiritualmente, perece-me que eu não teria podido viver”. E por isso ela fazia cem comunhões espirituais durante o dia e outras cem durante a noite. Mas, direis vós, para que tantas comunhões? Por mim vos responda Santo Agostinho: Dai-me uma alma que não ame senão a Jesus Cristo, e não se admitirá disto.

A comunhão espiritual é muito fácil de se fazer muitas vezes ao dia. Como não exige o jejum, nem o ministério do sacerdote, nem muito tempo, pode-se repetir, cada dia, quantas vezes se queira. É o que fazia dizer a venerável Joana da Cruz: “Ó meu Deus, que bela maneira de comungar! Sem ser vista, nem notada, sem falar ao meu padre espiritual, e sem depender de nenhum outro senão de vós, que, na solidão, me nutris a alma e lhe falais ao coração”!

Aplicai-vos pois também a fazer muitas comunhões espirituais, especialmente durante a oração e na visita ao Santíssimo Sacramento, e, sobretudo, cada vez que ouvirdes missa, quando o sacerdote comunga: fazei então um ato de fé, crendo firmemente que Jesus Cristo está na Eucaristia; um ato de amor acompanhado do arrependimento dos pecados; um ato de desejo, convidando Jesus Cristo a vir a vossa alma, para uni-la inteiramente a ele; e, depois disso, agradecei-lhe, como se o tivésseis recebido. Estes atos podem ser formulados assim:

Meu Jesus, que estais vivo real e verdadeiramente no Santíssimo Sacramento. Eu vos amo de todo o meu coração, e porque vos amo, me arrependo de vos ter ofendido. Vinde a minha alma, que vos deseja. Eu vos abraço, meu amor, e me dou toda a vós. Não permitais que me separe de vós. Desta maneira, podeis facilmente fazer as comunhões espirituais que quiserdes.

Do livro: “A Esposa de Cristo”, de Santo Afonso Maria de Ligório

Os motivos pelos quais Deus Pai entregou Cristo à paixão e morte

Dos ensinamentos de São Tomás extraem-se os seguintes relatos indicados para meditação do segundo domingo da Quaresma:

«O que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou» (Rm 8, 32)

Cristo sofreu voluntariamente, em obediência ao Pai. E de três modos Deus Pai entregou Cristo à paixão:

1º. Conforme sua eterna vontade, determinou a paixão de Cristo para a libertação do gênero humano, de acordo com o que diz Isaías: «O Senhor carregou sobre ele a iniquidade de todos nós» (Is 53, 6)e «O Senhor quis consumi-lo com sofrimentos» (Is LIII, 10).

2º. Porque lhe inspirou a vontade de sofrer por nós, ao lhe infundir o amor. E na mesma passagem se lê: «Foi oferecido porque ele mesmo quis» (Is LIII, 7).

3º. Por não livrá-lo da paixão, expondo-o a seus perseguidores. Assim, lemos no Evangelho de Mateus que o Senhor, pendente na cruz, dizia: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?» (Mt 27, 46), ou seja, porque o expôs ao poder dos que o perseguem.

É ímpio e cruel entregar à paixão e morte um homem inocente, contra a vontade dele. Não foi assim, porém, que Deus Pai entregou Cristo, mas sim por lhe ter inspirado a vontade de sofrer por nós. Nisso se demonstra tanto a severidade de Deus, que não quis perdoar os pecados sem a pena, o que observa o Apóstolo, quando diz: «O que não poupou nem o seu próprio Filho» (Rm 8, 32), como a sua bondade, pois, dado que o homem não podia dar uma satisfação suficiente por meio de alguma pena que sofresse, deu-lhe alguém para cumprir essa satisfação. É o que assinala o Apóstolo ao dizer: «Ele o entregou por nós todos» e a Carta aos Romanos diz: «A quem, ou seja, Cristo, que Deus propôs como vítima de propiciação, em virtude de seu sangue» (Rm 3, 25).

A mesma ação é julgada boa ou má, dependendo das diferentes fontes de que proceda. Assim, foi por amor que o Pai entregou Cristo, e o próprio Cristo se entregou; por isso, ambos são louvados. Judas, porém, o entregou por cobiça. Os judeus, por inveja. E Pilatos, por temor mundano porque temia a César. Por isso, são todos censurados.

Cristo, porém, não foi devedor da morte por necessidade, mas por caridade para com os homens, por querer a salvação dos homens, e por caridade para com Deus, por querer cumprir a sua vontade, como diz no Evangelho de São Mateus: «Não como eu quero, mas sim como tu queres» (Mt 26, 39).

III, q. XLVII, a. III

II, Dist. 20, q. I, a. V

Meditação para Quarta-feira de Cinzas

A lembrança da morte e o jejum quaresmal

[Por Santo Afonso Maria de Ligório]

Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.

Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.

Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.

Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.

Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos”; e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.

Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante”, a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

da obra “Meditações para todos os Dias e Festas do Ano”

A vitória sobre nossas tentações

Por Santo Afonso de Ligório

Para perseverarmos no bem, não devemos colocar nossa confiança nas nossas resoluções. Se contarmos com nossas próprias forças, estaremos perdidos. Para nos conservarmos na graça, devemos pôr nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo. Com sua assistência perseveraremos até a morte, ainda que combatidos por todos os poderes terrestres e infernais.

Sem dúvida alguma seremos assaltados algumas vezes por tantas e tão fortes tentações que nossa queda nos parecerá inevitável. Guardemo-nos, porém, de perder então a coragem e de nos entregar ao desespero. Recorramos com toda a pressa a Jesus Crucificado, que ele impedirá a nossa queda. O Senhor permite que até aos santos sobrevenham tais tempestades, como a São Paulo, que afirma de si: “Nós fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças a ponto de nos aborrecermos da própria vida” (2 Cor 1, 8). O apóstolo aqui mostra o que ele podia por própria força e com isso nos quer ensinar que: “ Deus, de vez em quando, nos deixa ver a nossa fraqueza, para que, melhor inteirados de nossa miséria, não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Cor 1, 9) e humildemente peçamos o seu auxílio para não sucumbirmos.

Ainda mais claramente disso fala o Apóstolo em outro lugar, dizendo: “Em tudo sofremos tribulações, porém não desanimamos. Somos embaraçados, porém não desesperamos” (2 Cor 4, 8). Sentimo-nos oprimidos pela tristeza e afligidos pelas paixões, contudo não desesperamos. Somos lançados num mar tempestuoso e não vamos ao fundo, porque o Senhor nos concede com sua graça a força de resistir a todos os nossos inimigos. Mas ao mesmo tempo o Apóstolo nos exorta a que não nos esqueçamos que somos homens fracos e frágeis, que muito facilmente podemos perder de novo o tesouro da graça divina, que só poderemos conservar pela virtude divina e não pela própria força. “Nós, porém, possuímos esse tesouro em vaso de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus e não de nós” (2 Cor 4, 7).

Ainda que, conforme o sobredito, não possamos achar em nós a força necessária para evitar o pecado, mas exclusivamente na graça de Deus, devemos empregar todo o cuidado em nos tornarmos, por culpa própria, ainda mais fracos do que já somos. Certas faltas, de que não fazemos conta, podem ser a causa de Deus nos negar a luz sobrenatural, tornando-se assim o demônio mais forte contra nós.

Tais faltas são: o desejo de passar por sábio ou nobre aos olhos do mundo, a vaidade no vestir, a busca de comodidades supérfluas, o costume de se dar por ofendido com qualquer palavra picante ou com uma simples falta de atenção, o desejo de agradar a todo o mundo à custa do bem espiritual, a negligência das práticas de piedade por respeito humano, as pequenas desobediências, pequenas aversões contra alguém, pequenas murmurações, pequenas mentiras ou caçoadas, o tempo perdido em conversas ou curiosidades inúteis, em uma palavra, todo o apego às coisas criadas, toda a satisfação do amor próprio podem oferecer ao nosso inimigo ocasião para nos precipitar ao abismo. Estas faltas, cometidas com deliberação, nos roubarão, pelo menos os socorros abundantes do Senhor, que nos preservam, sem dúvida alguma, da queda no pecado.

Da obra: Escola da Perfeição Cristã