Se somos de Deus, o mundo não pode deixar de nos perseguir

Jesus Cristo dizia aos seus discípulos: “Em verdade vos digo: Vós chorareis, pranteareis, e estareis tristes; mas vossa tristeza se converterá em gozo.” Já meus irmãos, se aproximava o tempo em que os discípulos haviam de ver e gozar as glórias de Jesus Cristo. Já se aproximava o tempo em que seriam mudados em homens espirituais e celestes. Por isso Jesus Cristo conforme o estilo ordinário os quis provar com uma grande e amargosa tribulação.

Eles viram o seu Divino Mestre preso, desprezado e morto.  O mundo  gozou  do  seu  infeliz  triunfo.   Eles andavam desunidos e espalhados, pobres de conselho e consolação. Porém as suas tristezas e amarguras se converteram em um gozo, que o mundo não lhes pôde tirar. Notai aqui, meus irmãos; se vos virdes em tribulações, desprezos e perseguições, , com paciência e resignação. Porque Deus vos prepara para as suas graças. Quanto maior for a tormenta das tribulações e perseguições, tanto maior depois será o gozo e a consolação. E se não tendes tido destas provas, também não estareis muito adiantados no espírito.

E que direi eu, se ainda vos recusais às ocasiões que o Senhor vos envia de sofrer e padecer por Ele? Se ainda não quereis ser abatidos, humilhados e desprezados? Direi que estais a fugir da cruz, e que não sois verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, porque não imitais o Divino Mestre nem os seus discípulos. Estas provas – diz o devoto Tomás de Kempis, provam o novo soldado, e fabricam a coroa do Céu.

De quantos Santos venera a Santa Igreja, não podemos citar um só que não padecesse tribulação e perseguição. É máxima de São Paulo: que todos aqueles que querem viver piamente em Jesus Cristo, hão de padecer perseguição. Que tormentos e desprezos não sofreram os Santos Mártires em poder dos tiranos, chegando a crucificá-los aos milhares mesmo no chão, por não haver tantas cruzes! Que grandes trabalhos não choveram sobre os Santos Prelados que defenderam a Igreja contra os hereges! Que trabalhos e perigos, que desprezos e perseguições não tiveram todos esses Missionários Apostólicos, que passearam por todo o mundo para desenganar os pecadores, e salvar as almas! Quantos cristãos perseguidos fugiram para os ermos, para os montes, e vivos se foram enterrar nas cavernas da terra!

Desenganai-vos; quando qualquer se converte de verdade para Deus, e se resolve a seguir a virtude, logo sente o mundo contra si. Logo o mundo lhe faz uma grande guerra, e ele ao mundo.

Portanto, meus irmãos, perseguições e mais perseguições, desprezos e mais desprezos, guerra e mais guerra, é o que temos de sofrer neste mundo, se formos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, e se imitarmos os Santos. Porque nós ou somos de Deus, ou somos do mundo.

Se somos de Deus, o mundo não pode deixar de nos perseguir e aborrecer, porque é nosso verdadeiro inimigo.

Deixai-vos pois lavrar por Deus, deixai-vos purificar, que ao seu tempo dareis copiosos frutos de justiça e santidade, e tereis um gozo, que o mundo não vos poderá tirar.

(Fonte: Missão Abreviada)

Ocasiões em que parece não termos mais forças para resistir

[Por São Francisco de Sales]

A Providência de Deus é admirável e infinita. Intervém em tudo e tudo faz reverter em glória Sua. Deus fornece aos homens todos os meio necessários para chegarem ao seu fim.  O sol comunica a sua luz e virtude a todo o universo. Sem ele não haveria beleza nem bondade neste mundo corpóreo.

A Providência e a Bondade divinas animam todas as almas para a sua salvação e convidam todos os corações para o seu amor e serviço, sem que ninguém se subtraia às suas celestes influências. Com esta intenção Deus nos fez à Sua imagem e semelhança pela encarnação, depois da qual sofreu a morte para remir e salvar toda a raça humana.

É fora de dúvida que devíamos contemplar cem vezes por dia esta amorosa Providência de Deus que tem sempre o seu coração voltado para nós.

Deus meu, quanto prazer deviam ter as nossas inteligências, nos frequentes pensamentos da vossa divindade, pois que é tão boa, tão bela e tão doce para conosco e tão disposta a comunicar-se soberanamente!

Ah, quanto Deus nos ama! Como nos protege e conduz suavemente! Quer que sejamos seus. Não procuremos pois outros braços para descansar  senão os da Sua Divina Providência. Não espalhemos ao longe a nossa vista e não descansemos o espírito senão n’Ele. Contentemo-nos de sermos governados por ele. Não pensemos tanto em nós e vivamos sempre ao sabor da Sua Divina Providência. Tudo irá muito bem se a nossa alma não seguir outro caminho e os nossos negócios sairão bem quando Deus nos assistir. Pode morrer a criança quando estiver nos braços de um Pai poderosíssimo?

Nada desejeis. Deixai-vos, bem como todos os vossos negócios, aos cuidados da Providência Divina. Deixai-a fazer de vós o que quiser, assim como as criancinhas se deixam governar por suas mães. Leve-vos no seu braço direito ou esquerdo, como queira. Uma criança não tem escolha. Deite-vos ou levante-vos, deixai-a obrar, porque é uma boa Mãe que sabe melhor o que nos convém do que nós mesmos. Quero dizer que se a Providência divina permitir que vos sucedam aflições e mortificações, não as recuseis, mas aceitai-as de bom grado, amorosa e tranquilamente. E se as não envia, não as desejeis, e preparai assim o vosso coração para receber os acidentes diversos da Providência Divina. Não digo só na doçura e paz das prosperidades, o que cada um sabe fazer, mas nas tempestades e desventuras, o que é próprio dos filhos de Deus. Arme-se contra mim o céu, amotinem-se a terra e os elementos. Declarem-me guerra todas as criaturas. Nada temo. Basta-me saber que estou com Deus e que Deus está comigo.

Volte-nos Nosso Senhor para a direita ou para a esquerda. Aperte-nos e dê-nos cem voltas, como Jacó. Volte-nos de um lado para outro, dê-nos mil males. Não o deixaremos contudo sem nos dar a Sua eterna benção. Nunca o nosso bom Deus nos abandona senão para melhor nos reter. Nunca nos deixa senão para nos guardar melhor. Nunca luta conosco, senão para se entregar a nós e nos abençoar.

Ó Deus, que felicidade é resignarmo-nos assim à vontade do nosso doce Salvador, por um abandono do nosso ser ao Seu bom juízo e à Sua santa Providência! Como seríamos felizes, se submetendo a nossa vontade à Deus, o adorássemos quando nos envia tribulações como no tempo das consolações, crendo que os diversos sucessos que nos envia a Sua divina mão,são para utilidade nossa, para nos purificar na Sua santa caridade!

Embarquemo-nos, pois, no mar da Providência divina, sem alimentos, sem remos, sem velas, e finalmente sem preparativo algum. Mas deixemos a Nosso Senhor todo o cuidado dos nossos negócios, sem réplica nem temor algum. A Sua bondade suprirá tudo.

Nosso Senhor ensinou-me a confiar na Sua Providência divina desde a minha juventude, e se tornasse a nascer, quereria deixar-me governar, até nas coisas mínimas, por Ele, com uma simplicidade de criança e um desprezo profundo de toda prudência humana. É para mim um grande gosto caminhar com os olhos fechados, conduzido pela Providência. Os Seus desígnios são impenetráveis, mas sempre doces e suaves para os que n’Ele confiam. Deixemos pois conduzir a nossa alma, que está no seu barco, e ele nos levará a bom porto. Felizes os que confiam no que pode como Deus  e quer com Pai dar-nos tudo o que é bom. Desgraçados pelo contrário os que põem a sua confiança na criatura. Esta compromete tudo, dá pouco e faz pagar caro o que dá.

Finalmente, já que a Providência divina é assim para conosco, sejamos por tal forma seus que a ninguém pertençamos senão a Ele, porque ninguém pode servir a dois senhores.

A Providência não difere o seu socorro senão para provocar a nossa confiança. Se nosso Pai Celeste não nos concede tudo o que pedimos, é para nos conservar perto de Si e dar-nos lugar a impeli-la por uma doce violência, como o fez bem notar aos dois peregrinos de Emaús, com os quais não parou senão ao declinar do dia e quando eles o obrigaram. Nada nos separe pois do seu amor. Esteja o nosso coração lânguido, moribundo ou vivo, nenhuma vida tenha senão n’Ele e por Ele, e seja Ele sempre o Deus do nosso coração.

Ruja embora a tempestade, não morrereis porque estais com Jesus. Se vos assaltar o temor, gritai: “Ó meu Salvador, salvai-me!” Dar-vos-á a mão, apertai e ide contentes sem filosofar sobre o vosso mal. Enquanto São Pedro confiou, não o submergiu a tempestade. Mas quando temeu, afogou-se.

O temor é um mal ainda maior que o próprio mal. Quanto a mim, há ocasiões em que me parece não ter mais forças para resistir, e que se se apresentasse a ocasião, sucumbiria. Mas então mais confio em Deus, e por mais certo tenho que em presença da ocasião Deus me revestiria com a Sua força e devoraria os meus inimigos como argueiros.

Espero que Deus vos fortificará cada vez mais, e nos pensamentos ou antes tentações de tristeza, pelo receio de que o vosso furor e atenção não durem sempre, respondei uma vez por todas, que os que confiam em Deus não serão confundidos, e que tanto relativamente ao espírito como ao corpo, se entregais a Deus os vossos cuidados, Ele vos sustentará. Sirvamos pois hoje a Deus e Ele amanhã providenciará. Cada dia terá seu cuidado. Não vos lembreis de amanhã, porque Deus, que reina hoje, reinará amanhã. Ou não vos enviará males, ou se vos enviar, dar-vos-á a coragem precisa para os suportar. Se sois tentados, não desejeis ser livres das tentações. É bom que as experimentemos pra termos ocasião de as combater e colher vitórias. Isto serve para praticar as virtudes mais excelentes e estabelecê-las solidamente na alma.

Por conseqüência, tende os olhos erguidos para Deus. Engrandecei a coragem na santa humildade, fortificai a sua doçura, confirmai-a na igualdade, tornai o vosso espírito perfeitamente senhor das tendências e paixões, não permitais que as apreensões reinem em vossas almas. Tenho atravessado muitos caminhos com a divina graça. A mesma graça se vos apresentará nas ocasiões seguintes e vos livrará das dificuldades e maus caminhos, embora tivesse de mandar um anjo para vos conduzir aos sítios mais perigosos.

Não volteis a vista para as enfermidades e fraquezas, senão para humilhardes e nunca para desanimardes. Vede muitas vezes Deus à vossa direita e os dois anjos que vos destinou, um para a vossa pessoa e outra para a direção da vossa família. Pedi-lhes que vos forneçam ordinariamente o conhecimento da vontade divina, que contemplem as inspirações que Nossa Senhora quer que recebais de seu seio cheio de amor. Não contempleis esta variedade de imperfeições que vivem em nós e em todas as pessoas que Nosso Senhor e Nossa Senhora nos confiaram, senão pra vos conservar no santo temor de ofender a Deus, mas nunca para vos espantar, porque não é necessário examinar se cada erva e cada flor requerem o seu particular cuidado no jardim.

Da obra Pensamentos Consoladores

Amor aos inimigos: nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma

[Retirado do Catecismo Romano]

O que Cristo Nosso Senhor manda observar neste preceito tem por fim promover nossa paz com todos os homens. Ele mesmo disse, na explicação deste preceito: “Se ao levares tua oferta te ocorrer que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferenda diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois virás oferecer o teu sacrifício.”(Mt 5,23). E veja-se o mais que diz a mesma passagem. Na explicação destas palavras, precisa o pároco ensinar que nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma. Quando pois, explicar este Preceito, o pároco fará o que estiver ao seu alcance, para concitar os fiéis à prática dessa caridade, porque nela resplandece, sobremaneira, a virtude do amor ao próximo. Sendo o ódio expressamente proibido por este Preceito, porque “é homicida aquele que odeia a seu irmão”(I Jo 3, 15), segue-se necessariamente que isso também inclui o preceito do amor e da caridade .

Mas, ordenando o amor e a caridade, este preceito impõe também todos os deveres e traças, que costumam nascer da caridade. ”A caridade é paciente”, diz São Paulo (I Cor 13, 4). Logo, aqui há para nós o preceito da paciência, pela qual havemos de possuir nossas almas, conforme ensina o Nosso Salvador.

Benignidade e beneficência

Depois, uma companheira inseparável da caridade é a beneficência, porque a “caridade é benigna”. Ora, a virtude da benignidade e da beneficência é de ampla atuação. Seu fito principal consiste, para nós, em dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, de vestir aos que estão nus; em usar de maior largueza a generosidade, na medida que alguém mais precisar de nossa assistência.

Amor aos inimigos

Estes serviços de caridade e bondade, nobres por sua natureza, tornam-se muito mais grandiosos, quando são prestados aos inimigos. Pois Nosso Salvador declarou: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Mt 5, 41). O mesmo conselho dá o Apóstolo: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer. Se tiver sede, dá-lhe de beber. Fazendo assim, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”(Rm 12, 20 ss). Enfim, se considerarmos o preceito da caridade, enquanto esta é benigna, reconheceremos que ela nos obriga a praticar tudo o que se refira à mansidão, à brandura, e a outras virtudes semelhantes.

Perdão das injúrias

Um dever que, de muito, supera todos os mais, abrangendo em si toda a plenitude da caridade, e ao qual nos cumpre aplicar nosso maior esforço, consiste em esquecermos e perdoarmos, de bom coração, todas as injúrias recebidas. Para o conseguirmos na realidade, as Sagradas Escrituras nos exortam e aconselham muitas vezes, não só chamando bem-aventurados os que perdoam sinceramente (Mt 5, 4; 9, 44), mas também afirmando que eles já alcançaram de Deus o perdão de seus pecados; e que não alcançam perdão os que deixam de perdoar de fato, ou não querem fazê-lo de maneira alguma (Mt 6, 15; 18, 34). Ora, estando quase que arraigado no coração dos homens o instinto de vingança, faça o pároco todo o possível, não só para ensinar que o cristão deve perdoar e esquecer as injúrias, como também por deixar os fiéis plenamente persuadidos de tal obrigação. Desse ponto falam muito os escritores eclesiásticos. Deve o pároco consultá-los, a fim de poder quebrar a pertinácia daqueles que se obstinaram e empederniram no desejo de vingança. Tenha sempre à mão aqueles fortíssimos e oportuníssimos argumentos que os Santos Padres usavam com religiosa convicção, quando tratavam da presente matéria.

Motivação dessa caridade:

o sofrimento vem de Deus…

Para esse fim, são três as principais razões que o pároco deve desenvolver. A primeira é conseguir de quem se julga ofendido a firme persuasão de que a primeira causa de seu dano ou ofensa não é a pessoa, da qual deseja vingar-se. Assim procedeu Jó, aquele varão admirável que, sendo gravemente lesado pelos Sabeus, Caldeus, e pelo próprio demônio, não lhes atribuiu nenhuma responsabilidade; mas, como homem justo e sobremaneira piedoso, proferiu as acertadas palavras: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou” (Jó 1, 21). Pela palavra e pelo exemplo desse varão pacientíssimo, tenham os cristãos, como absoluta verdade, que tudo quanto sofremos nesta vida vem de Nosso Senhor, Pai e Autor de toda a justiça e misericórdia.

Os homens são meros instrumentos de Deus

Em Sua bondade, Ele não nos castiga, como se fôssemos Seus inimigos; pelo contrário, como a filhos é que nos educa e corrige. Se bem atendermos, os homens nestas coisas não deixam de ser realmente ministros e como que instrumentos de Deus. Pode o homem nutrir profundo ódio contra seu semelhante, e desejar a sua ruína total, mas não poderá absolutamente fazer-lhe mal algum, sem a permissão de Deus. Compenetrado desta verdade, aturou José, com paciência, as ímpias maquinações de seus irmãos, e Davi os doestos que lhe dirigia Semei (Gn 45, 4 ss.; 2Sm 16, 10 ss). Aqui vem a propósito um pensamento que São João Crisóstomo desenvolveu, com grande insistência e igual erudição: Ninguém pode ser lesado senão por si próprio. Pois os que se julgam mal tratados por outrem, quando examinarem a coisa com isenção de espírito, hão de descobrir que de outros não receberam nenhuma ofensa ou dano. Com serem injuriados por agentes exteriores, são eles que causam a si mesmos o maior dano, se por isso maculam o próprio coração com o pecado do ódio, da vingança e da inveja.

O perdão das ofensas traz vantagens

A segunda razão está em duas imensas vantagens, reservadas aos que, por filial amor a Deus, perdoam as ofensas de bom coração. A primeira vantagem é que Deus promete perdão dos próprios pecados a quem perdoa as ofensas de seus semelhantes. De tal promessa transparece o quanto Deus se compraz nesse ato de caridade.

A segunda vantagem é que assim conseguimos certa nobreza e perfeição da alma. Pois o perdão das injúrias nos torna, de certo modo, semelhantes a Deus, “que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos”.

Castigos da implacabilidade

A terceira razão para ser explicada, está nos castigos que havemos de incorrer, se não quisermos perdoar as injúrias que nos forem feitas. Às pessoas obstinadas em negar perdão aos inimigos, ponha-lhes o pároco diante dos olhos não só que o ódio é grave pecado, mas também que se incrusta cada vez mais na alma, quanto mais se prolongar a sua duração. Pois, quando tal sentimento de ódio se apoderou da alma, a pessoa fica sequiosa do sangue de seu inimigo, nutre plena esperança de poder vingar-se, vive dia e noite numa funesta agitação que a persegue continuamente. Assim parece que não abandona um instante sequer a ideia de homicídio ou de outra proeza nefasta. Acontece, pois, que tal pessoa nunca, ou só com muita dificuldade, se decide a perdoar plenamente, ou pelo menos em parte, as ofensas recebidas. Seu estado de alma, com razão, se compara ao de uma ferida em que o dardo permanece cravado.

O ódio engendra outros pecados

Muitos são os males e pecados que, por certa conexão, se ligam necessariamente a este pecado único de ódio. Por isso, foi nesse sentido que dizia São João: “Quem odeia seu irmão está em trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2, 14). Logo, é fatal que caia muitas vezes. Do contrário, como poderia alguém fazer justiça às palavras e ações de uma pessoa, se nutre ódio contra ela? Daí nascem, portanto, os juízos temerários e injustos, as iras, as invejas, as detrações, e outros pecados semelhantes, que costumam envolver também as pessoas que a ela se ligam por parentesco e amizade. Deste modo acontece, muitas vezes, que de um só pecado nascem muitos outros. E não é sem cabimento que este pecado se chama “pecado do demônio” (1Jo 3, 10-11), porque o demônio foi homicida desde o início. Por esta razão é que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os fariseus queriam dar-lhe a morte, declarou que eles tinham por pai o demônio.

A pena perpétua do inferno não contradiz a justiça divina

Não contradiz a justiça divina sofrer alguém a pena perpétua, porque nem as leis humanas exigem que as penas sejam medidas pelo tempo para serem adequadas à culpa. Ora, para os pecados de adultério, de homicídio, cometidos que são em breve tempo, a lei humana impõe, às vezes, o exílio perpétuo, ou até mesmo a morte, pela qual para sempre o criminoso é afastado da sociedade. Se o exílio não é perpétuo, isso é por acidente, porque a vida humana não é perpétua, mas parece que a intenção do juiz é punir o criminoso perpetuamente. Por isso, também não é injusto se, para um pecado feito momentaneamente no tempo, Deus impuser uma pena eterna.

Deve-se também considerar que ao pecador é inflingida pena eterna, mas somente àquele que não se arrepende do pecado, e, assim, nele, o pecado perdura até a morte. E porque na sua intenção peca para sempre, é razoável que Deus o puna eternamente.

Além disso, cada pecado cometido contra Deus tem um certo grau infinito, se considerarmos que ele é cometido contra Deus. É certo que quanto mais importante é a pessoa contra quem se peca, tanto mais grave é o pecado: considera-se de maior gravidade dar uma tapa num militar, que num camponês; e, de muito maior gravidade, se for dada num príncipe ou no rei. Ora, sendo Deus de grandeza infinita, a ofensa contra Ele cometida, é, de certo modo, infinita. Logo, a pena devida a essa ofensa deve ser também, de certo modo, infinita.

Essa pena, porém, não pode ser infinita de modo intensivo, porque nada de criado é infinito em intensidade. Resta, por conseguinte, que ao pecado mortal é devida uma pena de duração infinita.

Ademais, ao que pode ser corrigido, a pena temporal lhe é imposta para a correção ou purificação. Se, portanto, alguém não mais pode ser corrigido do pecado, porque a sua vontade está obstinadamente firme no pecado, como acontece com os condenados acima descritos, a sua pena não pode também ter fim.


Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino, Capítulo CLXXXIII

Desanimar é desconfiar de Deus

Desanimar é desconfiar de Deus, de sua palavra, das suas promessas, da sua bondade, da sua misericórdia, da sua própria justiça, e, sobretudo da sua paternal providência. É bem, pois, como uma falta de fé. Como somos injustos!

O cristão que quer lutar não deve cessar de notar e de recordar que tem diante de si três inimigos: o mundo, o demônio e a carne. O mundo, cuja atmosfera é malsã, nauseabunda, e que deslustra com a sua poeira os corações, mesmo mais religiosos. O demônio que, mesmo decaído, ficou sendo anjo; donde resulta que, se Deus o deixasse fazer, ele seria capaz de pulverizar o universo. Enfim, a carne, isto é, os sentidos que o pecado original ofendeu, o ser todo em que as paixões às vezes refervem com a lava de um vulcão.

Como quereis que a vossa pobre vontadezinha, franzina e raquítica qual flor de inverno, resista, sem nunca desfalecer, a inimigos tão poderosos? Ela pode ser vitoriosa, mas com a condição de se apoiar com humilde confiança em Deus, que é só quem a pode sustentar e lhe assegurar forças: isso deve bastar para afastar do vosso coração toda dúvida capaz de deprimi-lo.

O desânimo é o amor-próprio desiludido, de uma alma que contava consigo mesma e que se aflige com a sua fraqueza, que enrubesce vendo-se vil e desprezível. Toda alma desanimada tem medo. Medo do esforço, medo do sacrifício, medo da opinião dos homens. Se tivéssemos a coragem ferrada no coração, se não temêssemos incomodar-nos, privar-nos, sacudir-nos, vencer-nos, sofrer, agir e ir ao escopo apesar de todos os obstáculos, conservaríamos intactas a força e a firmeza cristãs.

Vede como tudo se encadeia: começa-se pelo tédio e pelo aborrecimento, que roem a alma. Quando alguém tem esse tédio das coisas de Deus, naturalmente volta-se para os prazeres… Quando se começa a morder os prazeres proibidos, quer-se sempre mais. Um primeiro ato acarreta outro…

E logo o hábito, a necessidade intensa, quase necessária, e que se exaspera cada vez mais. Nestas condições, não se pensa mais em Deus nem na própria alma. Foge-se de si mesmo, tem-se medo de entrar na própria consciência, pois se teme encontrar ai o olhar inexorável a quem Caim fugia por toda parte e que o perseguia até no túmulo. Sucedendo-se as quedas, a graça desprezada, contrariada, expulsa, não torna mais, Deus se cala…e a pessoa finalmente cai na impenitência final.

Em resumo, pois, o desânimo é a desconfiança de Deus. A dúvida das suas bondades, uma espécie de negação da divindade. Por ele, desfigura-se o Criador emprestando- Lhe, a nosso respeito, sentimentos indiferentes, baixos, indignos de um Pai. O desânimo é o princípio do desespero, essa última e mais terrível expressão do orgulho! É o pecado de Judas, o pecado de Caim. Precisareis, pois de coragem para lutar contra o desânimo se ele se apresenta; porque, convém confessar, os casos desta terrível e dolorosa doença não são raros.

Lutai! Caíres, talvez; mas na vida espiritual, enquanto se quer lutar nunca se é vencido.

(Padre Baeteman – A Formação da Donzela )

O que temos nós a ver com o feitor iníquo da parábola?

[Sermão de Dom Lourenço Fleichman]

A parábola do administrador infiel – Lucas 16, 1-8

“E o senhor louvou o feitor iníquo por ter procedido prudentemente, porque os fílhos deste século são mais hábeis na sua geração que os filhos da luz.”

Caríssimos irmãos,

Nós nos perguntamos muitas vezes o que temos nós a ver com esse feitor iníquo (do evangelho) para que seja dado um elogio como esse. Por que razão Nosso Senhor diz que devemos espelhar nossa prudência e a nossa religiosidade, nessa prudência mundana, profana, desse feitor iníquo? Na verdade, nós deveríamos nos perguntar é como nós devemos fazer para que a nossa prudência sobrenatural, a nossa sabedoria espiritual nos leve a ter para as coisas de Deus e para as coisas da nossa vida o mesmo zelo, a mesma preocupação, a mesma intensidade de amor que os profanos têm nas suas coisas, nos seus afazeres. Como que nós podemos lidar com a nossa vida sobrenatural, com essa mesma igualdade de intensidade, de preocupação, de estar o tempo todo focado naquilo que interessa a eles. E a chave dessa questão para nós, está nessa epístola de São Paulo aos romanos, quando ele diz: “É pelo Espírito que vós vivereis, não pelas coisas da carne”. Então nós temos que aprender a lidar com as coisas da nossa vida profana, da carne, com os critérios espirituais de qualquer batizado. Nós fomos elevados a uma outra vida: a vida de Cristo. Nós fomos configurados com Cristo e enxertados na vida Dele e na alma D’Ele. Somos feitos uma mesma planta, diz São Paulo. Somos uma mesma planta com Ele. Não é possível que o batismo não traga para nós consequências nos nossos atos, em todos os atos. Não apenas quando nós rezamos, mas também quando nós saímos para o trabalho, quando nós vamos ganhar dinheiro. É necessário ganhar dinheiro na vida moderna, e ai daquele que negligenciar essa obrigação! É necessário nós cuidarmos da escola e estudarmos. As crianças precisam estudar. Obrigação das crianças. Com que espírito vão elas então, cuidar dessas coisas? Nós somos católicos quando rezamos e profanos quando cuidamos das coisas do mundo? Não é assim. 

Nós fomos transformados em “in ictu oculi” (em um piscar de olhos), “fez assim” e nossa alma já não é mais a mesma, somos outra pessoa. E é necessário que essa outra pessoa tenha atitudes, atos próprios de uma alma consagrada, de uma alma que foi assumida pela própria Alma Divina. Deus nos assumiu como seus filhos, coerdeiros de Cristo somos nós. Por causa do espírito. É pelo espírito que nós viveremos. Como que nós podemos realizar as obras do espírito, como que nós devemos realizar as obras que realmente interessam para nós, para nos levar para o Paraíso? É aí que está toda a questão: com o mesmo amor que os profanos agem nas suas obras. É isso que Nosso Senhor está dizendo para nós. Então, como fazer com que as coisas aconteçam do modo correto?

Em primeiro lugar, nós temos uma relação para com Deus. Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. Será o único no Céu. Aqui na terra não é o único, mas é o principal. E deve ser o principal. Nós devemos estar com esta ideia presente em tudo aquilo que nós fazemos. O primeiro critério nosso para ganhar dinheiro é Deus. O primeiro critério nosso para construir uma casa é Deus. O primeiro critério nosso para passar de ano na escola é Deus. É sempre Ele que tem a primazia, é sempre Ele que tem a finalidade última da nossa vida. É Ele. Nós não podemos deixá-lo de lado hora nenhuma, em nada que nós fazemos. E não é fácil isso, porque nós nos envolvemos com as coisas do mundo, nós nos envolvemos com as nossas necessidades. São lícitas, são boas, precisamos disso, mas esquecemos de Deus. E vamos usando critérios, e alguém apita no nosso ouvido: “Olha, faz assim”, ” vá por ali”,  “dê um jeitinho”, e nós esquecemos que Deus olha tudo aquilo que nós fazemos e que nós temos uma obrigação de finalizar tudo em Deus, na perfeição divina que está dentro de nós pela graça.

 Então Deus é o primeiro objeto do nosso conhecimento, do nosso amor. E depois nós temos um segundo, que somos nós mesmos, nós precisamos trabalhar para a vida eterna. Tudo que nós fazemos nessa vida deve ter como finalidade a vida eterna. Então temos que nos dedicar às coisas de Deus e temos que nos dedicar às coisas profanas, do mundo, com a intenção de irmos para o Céu. Eu não posso fazer nada que desvie a minha alma da vida eterna, que desvie a minha alma da salvação. Qualquer coisa que seja proposta pelo mundo moderno ou pelo melhor amigo que seja, que vá me provocar um pecado, nós temos que recusar. E nós temos que recusar todos os instrumentos do pecado que pululam hoje no mundo, e que são muitos, e que são realmente instrumentos de pecado, e que estão aí, nessas coisas todas que o mundo inventou e que vai desviando nossa capacidade de trabalhar em tudo por causa do amor de Deus. 

 Em terceiro lugar, nós temos que olhar em volta de nós e olharmos para o nosso próximo. O amor de Deus em primeiro lugar, o amor de si mesmo como modelo do amor do próximo. E quando nós nos dedicamos ao próximo, nós devemos fazer isso sempre com um critério católico, sempre com um critério espiritual, sempre com o olhar do Céu. Do mesmo modo que eu quero o Céu para mim eu tenho que querer o Céu para aquele que está do meu lado, pode ser o pai, a mãe, os filhos, pode ser um amigo, pode ser um companheiro de trabalho, pode ser um mendigo na rua. Nós temos que nos preocupar com a salvação das almas. “O que será dessa pobre coitada mulher que carrega seu filho pobre, que não tem dinheiro, que é miserável, que está deitada numa calçada? O que acontecerá com seu filho? Entrará no Paraíso? Quando eu estiver no Paraíso, eu vou encontrá-lo lá?”. Pelo menos um olhar de misericórdia, pelo menos uma Ave Maria nós devemos rezar, nós temos essa obrigação. Muitas vezes não temos mais condição de dar uma esmola no sinal. Um moleque pede esmola, e vai cheirar cola com aquele dinheirinho que a gente dá para ele. Não, não somos obrigados a fomentar o inferno dele. Mas temos que nos preocupar. Temos que rezar pelo menos uma Ave Maria, temos que ser espirituais e termos critérios espirituais. 

Que os homens cuidem das coisas materiais, mas nós cuidamos das coisas espirituais para aqueles que nós não podemos cuidar completamente. Daqueles que nós temos condições de cuidar completamente, desses nós temos que cuidar do espírito e da carne, do espírito e do corpo. 

 Santo Ambrósio, numa leitura de matinas dessa noite, mostra como que nós podemos nos enganar nesse modo de encarar as coisas de Deus e as coisas dos homens. E ele diz “os judeus muitas vezes são zelosos” naquela época não havia protestante, nós poderíamos dizer o mesmo com os protestantes, “são zelosos, são piedosos, querem agradar a Deus”, mas se perdem. Por que eles se perdem? Porque não conhecem a Deus pela verdadeira ciência, diz Santo Ambrósio, não amam a Deus pela verdadeira sabedoria, pela verdadeira caridade. Isso falando dos judeus. Então quando eles se circuncisam, não agradam a Deus. E por que não agradam a Deus? Porque veio Jesus Cristo e elevou o judaísmo a outro nível, ao nível do batismo sacramental, que nos torna iguais, semelhantes a Deus. Não é mais um sinal de pertencer a uma raça, pertencer a um povo. A circuncisão caducou, não serve mais. Então quando eles fazem, podem está fazendo com um sentimento bom, mas não serve para a  vida eterna deles, não leva para o Céu, já não faz parte da vida religiosa, já não faz parte da religião revelada. A mesma coisa nós podemos dizer de tudo aquilo que acontece no mundo moderno. E hoje em dia, são as seitas que estão em volta de nós, com seus altos falantes, gritando do nosso ouvido, e muitas vezes são pessoas boas, são pessoas piedosas. E muitas vezes nós ouvimos “Ah, mas eles são piedosos”, são piedosos no mundo, são piedosos sem eficácia, porque a religião deles não é a religião revelada, não é a religião de Jesus Cristo. Qual a eficácia que pode ter a oração? Nenhuma. No máximo pode fazer deles pessoas boazinhas. Mas isso não leva para o Céu. 

 Então, qual nossa atitude para com eles? 

Uma preocupação verdadeira. “O que acontecerá com aquele pobre pastor que está enganado, que é honesto na sua preocupação com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que está enganado, porque ensinaram errado para ele, o caminho dele é o caminho do inferno?”  

 Então nós temos que rezar por eles, temos que converter o mundo todo, nós temos que carregar esse mundo todo nas costas: na oração, no sacrifício, na penitência. Rezar por todos esses que se desviaram do reto caminho, para que eles voltem para o caminho da salvação, para que eles voltem para a luz de Jesus Cristo, o verdadeiro Cristo. Então tudo isso são atitudes que nós temos que ponderar. Com que espírito nós rezamos? Com que espírito nós trabalhamos? Com que espírito nós encontramos as pessoas lá fora? E eles? Com que espírito eles fazem essas coisas? Qual o papel que nós temos para trazer de volta essas almas ao caminho da salvação? 

 Então, quando nós ouvimos Nosso Senhor falar, deste feitor iníquo, que por causa da perda do emprego, vai dar um desconto a todos os seus devedores do seu senhor, e com isso vai sair dali para talvez encontrar outro emprego, Nosso Senhor diz: está vendo? Ele teve cuidado para se preparar para o momento em que ele perdeu o emprego. E nós temos cuidado para não perdermos o Céu? Nós temos cuidado para não perdermos o Paraíso? É isso que Nosso Senhor está tentando nos dizer. E muita das vezes nós somos surdos, não ouvimos as suas palavras, não entendemos o que realmente Ele quer dizer, e vamos agindo no mundo com aquele critério profano, imitando todos os colegas do trabalho, todas as pessoas da rua, todos os jornais que inventam moda todo dia e nós vamos mergulhando nessa moda, e vamos mergulhando nos seus filmes e nós vamos mergulhando nas suas séries, e vamos contaminado nosso espírito e perdemos contato com essa espiritualidade.  

 Existe um livro do Père Emmanuel – esse que tem alguns livros já editados pela Permanência – tem um livrinho que eu ainda não editei, mas gostaria de editar, que se chama “O católico do mundo e o católico do evangelho”, católico que vive com os critérios do mundo e católico que vive com os critérios do evangelho. Como que nós vamos viver? Qual vai ser o efeito da nossa oração? Como nós vamos viver para que realmente nosso catolicismo não seja apenas de palavras soltas no ar, mas que seja eficazes no amor de Deus, produzam em nosso coração o amor de Deus, e façam com que esse amor seja realmente uma transformação das nossas almas? Se nós não tivermos nossa vida focada, centrada com critérios sobrenaturais de vida de oração e também de vida lá fora, no mundo, então nós nos perderemos. É fácil o mundo nos engolir, com todas as nossas orações, e elas passarão a ser vazias, como a circuncisão dos judeus é vazia, como Santo Ambrósio nos ensina.

 Então peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo que sopre em nós o verdadeiro espírito pelo qual nós trabalhamos em tudo na vida, de modo a não perder o caminho da salvação.