Coronavírus: O que a Igreja pede a Deus em tempos de epidemia?

Caríssimos fiéis,

Desde tempos imemoriais, sempre foi prática da Igreja, em tempos de calamidade pública, recorrer ao Senhor, especialmente em tempos de epidemia. Sem dúvida, esta não é a primeira e nem será a última na história da humanidade. Mas, as epidemias sempre têm algo de inquietante, já que, como os demônios, você não pode ver o que está atacando você. E assim a Igreja se volta para o bom Deus, especialmente por meio dessa missa muito antiga, que celebramos para pedir a Ele que nos proteja do mal.

O que a Igreja pede a Deus?

O que a Igreja pede com essas orações? Ela certamente pede a Deus que afaste de nós essas doenças; e, se fomos infectados, que nós as vençamos; e, se é chegada a hora da nossa morte, que nos encontre preparados. Mas não só isso: ela pede ainda a luz de Deus para que, durante esses períodos que são sempre especiais, muitas vezes marcados pela desordem social, o católico manifeste a sua fé e a sua virtude, posta à prova pela falta de confiança, egoísmo e falta de caridade. Ela também pede auxílio para todos aqueles que, especialmente entre os católicos, terão que cumprir nesses tempos seu dever de estado de modo cristão. Tenho em mente especialmente os médicos, as enfermeiras e todos aqueles que cuidam dos doentes, pois sempre foi uma das missões da Igreja cuidar dos que sofrem e dos doentes.

A Igreja também ora pelas autoridades públicas, porque esse tipo de provação, esse tipo de calamidade, exige que sejamos governados de maneira justa, com prudência, com sabedoria, mesmo se não compactuamos — longe disso — com todas as posições e opiniões daqueles que nos governam. Há momentos em que devemos pedir ao bom Senhor, como São Pedro disse tão bem, que os ilumine para que possamos nos submeter a sábios mandamentos.

O sentido desses acontecimentos

A Igreja também pede para que entendamos o significado desses eventos. Nossa primeira reação deve ser um reflexo do olhar sobrenatural e aqui, talvez o mais preocupante, caríssimos fiéis, nos dias que correm, não é tanto essa epidemia, não é tanto o que está acontecendo, mas ver que o medo entrou na Igreja, e com ele a preocupação e a falta de fé.

Não é hora de esvaziar as fontes de água benta, não é hora de fechar as igrejas, não é hora de recusar a comunhão para os fiéis ou mesmo os sacramentos para os enfermos. Ao contrário, é hora de nos aproximarmos de Deus, de entendermos o significado dessas calamidades.

Historicamente, a Igreja, por ocasião de pestes e de epidemias, realizou procissões públicas com manifestações da fé; essa tem sido uma oportunidade para a Igreja pregar a penitência. Como na belíssima passagem do Antigo Testamento que acabamos de ler na epístola: o rei Davi pecou por orgulho ao querer recensear o seu povo para ter a satisfação de saber que governava sobre uma grande nação. A conseqüência disso foi punição por Deus. Sim, porque Deus castiga como um pai pode castigar seus filhos. O castigo desse orgulho foi uma epidemia terrível, mas assim que Deus viu que os corações voltaram-se para ele, interrompeu a vingança do anjo da doença.

Tempos de penitência

É chegada a hora da penitência, a hora de retornarmos a Deus, tanto os justos como os pecadores, todos temos de fazer penitência. Deus nem sempre castiga e os acontecimentos, as calamidades, nem sempre são causadas diretamente por Deus, o que pode acontecer em casos excepcionais. São as leis da natureza que produzem essas coisas: terremotos, epidemias. Essas são as consequências do fato de que, desde o pecado original, o homem não é mais o dono de tudo. Sim, o homem não é mais o dono de tudo, caríssimos fiéis.

Mas, desde a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus disse que nos protegeria dessas calamidades públicas se lhe fôssemos fiéis. O problema hoje não é que usemos meios humanos para tentar repelir essas calamidades, isso é completamente normal, tudo isso está na ordem das coisas, o problema é que dizemos a Deus “deixe-nos em paz, vamos controlar isso”. O único que tem a situação “sob controle”, como se diz hoje, é o bom Deus. Então, o que faz Nosso Senhor? Ele nos diz: “Não querem minha ajuda? Façam então tudo sozinho”, e esta é a pior coisa, a pior coisa.

Voltemo-nos para o bom Deus

Como já disse, essa não é a primeira epidemia que o mundo enfrenta, e talvez não seja a mais grave. Pensem na gripe espanhola no final da Primeira Guerra Mundial, que causou mais de cinquenta milhões de mortos! A Igreja estava na linha de frente, se têm curiosidade, procurem os arquivos fotográficos da época. Verão as freiras que cuidavam dos doentes e que já usavam a famosa máscara da qual tanto hoje se fala, nada de novo sob o sol. Os católicos estavam na linha de frente para praticar a caridade, às vezes com o risco de suas vidas.

Esta é a oportunidade de manifestar sua fé. Durante a terrível epidemia da gripe espanhola, a Igreja continuou a celebrar o culto, os sacramentos, os sacramentais, o recurso à intercessão dos santos, a grande tradição da Igreja. Devemos fazer o mesmo, caríssimos fiéis. Não sejamos, e agora me dirijo aos padres, não sejamos como aqueles maus pastores que quando vêem ao longe o lobo — ou o vírus — fogem. Sejamos bons pastores.

Vítimas com Nosso Senhor

Sempre nos perguntamos, quando há desastres, porque os bons também são afetados. Não apenas os pecadores, mas os bons. Lembrem-se de que foi durante a terrível gripe espanhola que Jacinta e Francisco, os dois pastorinhos de Fátima, morreram em condições bastante terríveis, oferecendo suas vidas pela conversão dos pecadores. Eis uma lei que durará até o fim dos tempos: o bom Deus precisa de vítimas, vítimas que expiem em união com Aquele que é vítima por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. No Evangelho, os apóstolos questionam Jesus acerca de um massacre que se deu no templo de Jerusalém: os galileus vieram rezar, oferecer o sacrifício e, nessa ocasião, Pôncio Pilatos os massacrou. Isso intrigou os Apóstolos e os discípulos de Jesus: “Como santos que oferecem o sacrifício são massacrados? Que pecado eles cometeram para Deus castigá-los dessa maneira?”

Da mesma forma, os Apóstolos interrogaram Jesus: houve uma catástrofe em Jerusalém, uma torre desabou, a torre de Siloé, fazendo dezoito mortos, e os apóstolos se fizeram a pergunta. “Que eles fizeram para morrer assim, ao vir em peregrinação a Jerusalém, sendo esmagados assim debaixo de uma torre?” Qual é a resposta de Nosso Senhor? Disse Ele: “Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem padecido tanto? Não, eu vo-lo digo; se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo”. É isso que o Senhor diz.

As calamidades são a consequência dos pecados

As calamidades devem nos fazer pensar que, se não fizermos penitência, todos pereceremos. Deus é bom, não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva. As calamidades públicas são frequentemente a conseqüência dos pecados das autoridades públicas. Hoje em dia temos razão de nos inquietar porque, todas as leis más que se multiplicam, todas as violações da lei natural, a apostasia — mesmo na Igreja — que vemos hoje, não podem deixar o bom Deus indiferente. No Antigo Testamento, lemos que os judeus protestavam que Deus não os punia: “Não nos amais, Senhor?” … Eles preferiram o castigo de Deus ao silêncio de Deus, e esse silêncio talvez seja a pior coisa.

Caríssimos fiéis, durante todo o dia, nos aparelhos de televisão, exibe-se os dados sobre doentes e mortos, e é verdadeiramente impressionante. Mas não nos esqueçamos de que, por exemplo, recentemente na Bélgica, em um ano, três mil pessoas submeteram-se a eutanásia, são números oficiais, contam-se crianças entre elas. Não estou falando sobre o número de abortos hoje. Todos esses pecados clamam aos céus. Caríssimos fiéis, devemos pensar sobre isso, devemos fazer penitência: Deus não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva.

O modo tradicional de abordar as epidemias

Caríssimos fiéis, entre os presentes vieram alguns aqui pela primeira vez, eu os conheci nesta semana. São pessoas às quais foi negada a comunhão nas igrejas porque a reivindicaram que fosse da maneira tradicional, na boca, e elas vêm aqui porque querem a comunhão.

Aqui se vê a fraqueza, para dizer o mínimo, dos responsáveis ​​na Igreja, não todos, felizmente. Não há risco maior de espalhar o vírus pela comunhão na boca do que na mão.

Além disso, um bispo — felizmente, ainda há alguns bispos assim nos Estados Unidos — lembrou em uma carta a seus fiéis: “Consultei um comitê de especialistas, médicos, antes de redigir esta carta e eles dizem que a comunhão na boca não representa um perigo maior de propagação”.

A comunhão não é fonte da morte, mas de vida.

Os fiéis têm o direito — como há alguns anos recordou a Santa Sé — de receberem a comunhão na boca. Aqueles que estão em calamidade não são privados dos sacramentos. Portanto, digo-lhes: sintam-se em casa, porque sempre encontrarão aqui a maneira usual e tradicional da Igreja de abordar epidemias. Confie também na medalha milagrosa, use-a, leve-a, é um baluarte contra todas as tentações do diabo.

Daqui a pouco, após a Missa, todos terão a possibilidade de vir à mesa da comunhão para receber a bênção com relíquias que temos, entre outras relíquias, as de São Pio X, São Pio V, do nosso querido Santo Cura d’Ars e de São João Eudes. Também há uma relíquia de São Tomás de Aquino que celebramos hoje. Não são amuletos, mas uma forma de receber a proteção desses santos, viver no cristianismo, suportar a doença e sermos protegidos dela, se essa for a vontade de Deus.

Ser como crianças

Termino dizendo que esta doença tem uma peculiaridade, tal como a vemos hoje: aparentemente, não afeta, ou pelo menos não afeta seriamente, as crianças. Talvez haja um sinal de Deus aí, porque no Evangelho Nosso Senhor nos diz: “Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus”. Não entrar no Reino dos Céus é ser condenado, esse é o pior perigo, essa é a pior calamidade.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espirito Santo. Amém.

Reprodução do belíssimo sermão do Pe. Denis Puga – FSSPX, dado no sábado (7/3/20) na igreja de Saint Nicolas-du-Chardonnet, Paris, após a “Missa votiva para tempos de epidemia”. Fonte:https://boletim.permanencia.org.br/2020/03/11/coronavirus-uma-visao-sobrenatural/

Amor aos inimigos: nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma

[Retirado do Catecismo Romano]

O que Cristo Nosso Senhor manda observar neste preceito tem por fim promover nossa paz com todos os homens. Ele mesmo disse, na explicação deste preceito: “Se ao levares tua oferta te ocorrer que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferenda diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois virás oferecer o teu sacrifício.”(Mt 5,23). E veja-se o mais que diz a mesma passagem. Na explicação destas palavras, precisa o pároco ensinar que nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma. Quando pois, explicar este Preceito, o pároco fará o que estiver ao seu alcance, para concitar os fiéis à prática dessa caridade, porque nela resplandece, sobremaneira, a virtude do amor ao próximo. Sendo o ódio expressamente proibido por este Preceito, porque “é homicida aquele que odeia a seu irmão”(I Jo 3, 15), segue-se necessariamente que isso também inclui o preceito do amor e da caridade .

Mas, ordenando o amor e a caridade, este preceito impõe também todos os deveres e traças, que costumam nascer da caridade. ”A caridade é paciente”, diz São Paulo (I Cor 13, 4). Logo, aqui há para nós o preceito da paciência, pela qual havemos de possuir nossas almas, conforme ensina o Nosso Salvador.

Benignidade e beneficência

Depois, uma companheira inseparável da caridade é a beneficência, porque a “caridade é benigna”. Ora, a virtude da benignidade e da beneficência é de ampla atuação. Seu fito principal consiste, para nós, em dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, de vestir aos que estão nus; em usar de maior largueza a generosidade, na medida que alguém mais precisar de nossa assistência.

Amor aos inimigos

Estes serviços de caridade e bondade, nobres por sua natureza, tornam-se muito mais grandiosos, quando são prestados aos inimigos. Pois Nosso Salvador declarou: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Mt 5, 41). O mesmo conselho dá o Apóstolo: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer. Se tiver sede, dá-lhe de beber. Fazendo assim, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”(Rm 12, 20 ss). Enfim, se considerarmos o preceito da caridade, enquanto esta é benigna, reconheceremos que ela nos obriga a praticar tudo o que se refira à mansidão, à brandura, e a outras virtudes semelhantes.

Perdão das injúrias

Um dever que, de muito, supera todos os mais, abrangendo em si toda a plenitude da caridade, e ao qual nos cumpre aplicar nosso maior esforço, consiste em esquecermos e perdoarmos, de bom coração, todas as injúrias recebidas. Para o conseguirmos na realidade, as Sagradas Escrituras nos exortam e aconselham muitas vezes, não só chamando bem-aventurados os que perdoam sinceramente (Mt 5, 4; 9, 44), mas também afirmando que eles já alcançaram de Deus o perdão de seus pecados; e que não alcançam perdão os que deixam de perdoar de fato, ou não querem fazê-lo de maneira alguma (Mt 6, 15; 18, 34). Ora, estando quase que arraigado no coração dos homens o instinto de vingança, faça o pároco todo o possível, não só para ensinar que o cristão deve perdoar e esquecer as injúrias, como também por deixar os fiéis plenamente persuadidos de tal obrigação. Desse ponto falam muito os escritores eclesiásticos. Deve o pároco consultá-los, a fim de poder quebrar a pertinácia daqueles que se obstinaram e empederniram no desejo de vingança. Tenha sempre à mão aqueles fortíssimos e oportuníssimos argumentos que os Santos Padres usavam com religiosa convicção, quando tratavam da presente matéria.

Motivação dessa caridade:

o sofrimento vem de Deus…

Para esse fim, são três as principais razões que o pároco deve desenvolver. A primeira é conseguir de quem se julga ofendido a firme persuasão de que a primeira causa de seu dano ou ofensa não é a pessoa, da qual deseja vingar-se. Assim procedeu Jó, aquele varão admirável que, sendo gravemente lesado pelos Sabeus, Caldeus, e pelo próprio demônio, não lhes atribuiu nenhuma responsabilidade; mas, como homem justo e sobremaneira piedoso, proferiu as acertadas palavras: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou” (Jó 1, 21). Pela palavra e pelo exemplo desse varão pacientíssimo, tenham os cristãos, como absoluta verdade, que tudo quanto sofremos nesta vida vem de Nosso Senhor, Pai e Autor de toda a justiça e misericórdia.

Os homens são meros instrumentos de Deus

Em Sua bondade, Ele não nos castiga, como se fôssemos Seus inimigos; pelo contrário, como a filhos é que nos educa e corrige. Se bem atendermos, os homens nestas coisas não deixam de ser realmente ministros e como que instrumentos de Deus. Pode o homem nutrir profundo ódio contra seu semelhante, e desejar a sua ruína total, mas não poderá absolutamente fazer-lhe mal algum, sem a permissão de Deus. Compenetrado desta verdade, aturou José, com paciência, as ímpias maquinações de seus irmãos, e Davi os doestos que lhe dirigia Semei (Gn 45, 4 ss.; 2Sm 16, 10 ss). Aqui vem a propósito um pensamento que São João Crisóstomo desenvolveu, com grande insistência e igual erudição: Ninguém pode ser lesado senão por si próprio. Pois os que se julgam mal tratados por outrem, quando examinarem a coisa com isenção de espírito, hão de descobrir que de outros não receberam nenhuma ofensa ou dano. Com serem injuriados por agentes exteriores, são eles que causam a si mesmos o maior dano, se por isso maculam o próprio coração com o pecado do ódio, da vingança e da inveja.

O perdão das ofensas traz vantagens

A segunda razão está em duas imensas vantagens, reservadas aos que, por filial amor a Deus, perdoam as ofensas de bom coração. A primeira vantagem é que Deus promete perdão dos próprios pecados a quem perdoa as ofensas de seus semelhantes. De tal promessa transparece o quanto Deus se compraz nesse ato de caridade.

A segunda vantagem é que assim conseguimos certa nobreza e perfeição da alma. Pois o perdão das injúrias nos torna, de certo modo, semelhantes a Deus, “que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos”.

Castigos da implacabilidade

A terceira razão para ser explicada, está nos castigos que havemos de incorrer, se não quisermos perdoar as injúrias que nos forem feitas. Às pessoas obstinadas em negar perdão aos inimigos, ponha-lhes o pároco diante dos olhos não só que o ódio é grave pecado, mas também que se incrusta cada vez mais na alma, quanto mais se prolongar a sua duração. Pois, quando tal sentimento de ódio se apoderou da alma, a pessoa fica sequiosa do sangue de seu inimigo, nutre plena esperança de poder vingar-se, vive dia e noite numa funesta agitação que a persegue continuamente. Assim parece que não abandona um instante sequer a ideia de homicídio ou de outra proeza nefasta. Acontece, pois, que tal pessoa nunca, ou só com muita dificuldade, se decide a perdoar plenamente, ou pelo menos em parte, as ofensas recebidas. Seu estado de alma, com razão, se compara ao de uma ferida em que o dardo permanece cravado.

O ódio engendra outros pecados

Muitos são os males e pecados que, por certa conexão, se ligam necessariamente a este pecado único de ódio. Por isso, foi nesse sentido que dizia São João: “Quem odeia seu irmão está em trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2, 14). Logo, é fatal que caia muitas vezes. Do contrário, como poderia alguém fazer justiça às palavras e ações de uma pessoa, se nutre ódio contra ela? Daí nascem, portanto, os juízos temerários e injustos, as iras, as invejas, as detrações, e outros pecados semelhantes, que costumam envolver também as pessoas que a ela se ligam por parentesco e amizade. Deste modo acontece, muitas vezes, que de um só pecado nascem muitos outros. E não é sem cabimento que este pecado se chama “pecado do demônio” (1Jo 3, 10-11), porque o demônio foi homicida desde o início. Por esta razão é que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os fariseus queriam dar-lhe a morte, declarou que eles tinham por pai o demônio.

A pena perpétua do inferno não contradiz a justiça divina

Não contradiz a justiça divina sofrer alguém a pena perpétua, porque nem as leis humanas exigem que as penas sejam medidas pelo tempo para serem adequadas à culpa. Ora, para os pecados de adultério, de homicídio, cometidos que são em breve tempo, a lei humana impõe, às vezes, o exílio perpétuo, ou até mesmo a morte, pela qual para sempre o criminoso é afastado da sociedade. Se o exílio não é perpétuo, isso é por acidente, porque a vida humana não é perpétua, mas parece que a intenção do juiz é punir o criminoso perpetuamente. Por isso, também não é injusto se, para um pecado feito momentaneamente no tempo, Deus impuser uma pena eterna.

Deve-se também considerar que ao pecador é inflingida pena eterna, mas somente àquele que não se arrepende do pecado, e, assim, nele, o pecado perdura até a morte. E porque na sua intenção peca para sempre, é razoável que Deus o puna eternamente.

Além disso, cada pecado cometido contra Deus tem um certo grau infinito, se considerarmos que ele é cometido contra Deus. É certo que quanto mais importante é a pessoa contra quem se peca, tanto mais grave é o pecado: considera-se de maior gravidade dar uma tapa num militar, que num camponês; e, de muito maior gravidade, se for dada num príncipe ou no rei. Ora, sendo Deus de grandeza infinita, a ofensa contra Ele cometida, é, de certo modo, infinita. Logo, a pena devida a essa ofensa deve ser também, de certo modo, infinita.

Essa pena, porém, não pode ser infinita de modo intensivo, porque nada de criado é infinito em intensidade. Resta, por conseguinte, que ao pecado mortal é devida uma pena de duração infinita.

Ademais, ao que pode ser corrigido, a pena temporal lhe é imposta para a correção ou purificação. Se, portanto, alguém não mais pode ser corrigido do pecado, porque a sua vontade está obstinadamente firme no pecado, como acontece com os condenados acima descritos, a sua pena não pode também ter fim.


Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino, Capítulo CLXXXIII

Deus semeando trigo no seu campo

Sermão de Dom Lourenço Fleichman

Se nós compreendêssemos a beleza da criação

Caríssimos irmãos, assim foi no início do tempo, Deus plantou o seu trigo. Tudo que Ele criou, a maravilha da criação, todos os astros, a ordem que está nesses astros todos, desde o momento em que o mundo começou a se embelezar por obra da Providência Divina, preparando o lugar onde seria criado o homem para depois então nascer o Salvador, tudo isso é obra das mãos de Deus com uma beleza que poderia nos trazer uma certa contemplação suficiente pro resto das nossas vidas. Se nós compreendêssemos a beleza da criação, se nós pudéssemos vislumbrar um pouco aquilo que na sua pureza inicial estava presente na vida de Adão e Eva, aquele Paraíso era o menos de tudo. O Paraíso era para eles um lugar de delícias, mas era um lugarzinho no centro daquela terra maravilhosa que Deus criou para o homem. O centro daquelas estrelas, milhares e miríades de estrelas que Deus criou para o homem, todos os sóis e todos os sistemas planetários foram feitos para embelezar a noite do homem e iluminar o seu dia. E ali viviam Adão e Eva. Viviam em plena felicidade e não precisavam de Continuar lendo Deus semeando trigo no seu campo

O Deus remunerador

Por Pe. Júlio Maria, na obra Comentário Apologético do Evangelho Dominical

Esta palavra significa que Deus recompensa ou castiga o homem – a sua criatura racional, conforme obedece ou desobedece às leis que lhe são traçadas pelo Criador.

Estudemos este assunto importante, examinando com amor estes dois pontos importantes que dizem respeito à remuneração:

1º Em que consiste a remuneração divina.

2º As provas desta remuneração.

O homem sendo atraído ao bem pela esperança de uma recompensa, e afastado do mal, pelo temor, estas considerações nos estimularão no cumprimento do nosso dever.

A remuneração ou sanção

Existe uma lei divina: é certo.

Ora, toda lei deve ter uma sanção.

Logo, Deus não pode tratar do mesmo modo os que cumprem esta lei e aqueles que a desprezam, e deve necessariamente, em virtude da sua justiça recompensar os bons e castigar os maus.

Esta sanção é imperfeita e perfeita

Ela imperfeita neste mundo para os indivíduos, porém ela é perfeita para as nações. A razão é que os homens têm um destino eterno, e podem receber na outra vida uma sanção perfeita: o céu para os bons, o inferno para os maus. As nações tendo apenas uma existência terrestre, recebem aqui na terra, a recompensa ou o castigo de seus atos.

Na terra Deus aplica a sanção imperfeita;

Pela voz da consciência, que aprova ou condena, que é alegre ou cheia de remorsos, conforme os nossos atos.

Fazendo um ato bom, sentimos uma aprovação interior deste ato, uma consolação que sustenta e anima; ao passo que, fazendo mal, sentimos uma espécie de mordedura no coração, um desgosto íntimo: é o remorso. Nem os aplausos do público, nem a fortuna, nem as honras são capazes de impor silêncio a este testemunho inexorável.

O homem mau, embora rico e honrado pelo mundo, ouve no meio dos prazeres, sorrisos e adulações, uma voz estridente que lhe brada: – Tu és um miserável! Tu não mereces estas honras!

As provas desta remuneração

A remuneração ou sanção imperfeita é visível, palpável. Basta observar os fatos; porém lá não se limita a sanção divina: há uma outra perfeita na outra vida.

De fato a sanção temporal falta muitas vezes, e deve, faltar, porque, se os justos fossem sempre recompensados neste mundo, e os maus sempre castigados, os homens serviriam a Deus por interesse temporal, por medo, por egoísmo, e não por amor, e deste modo, a ordem moral fundada sobre a obediência livre, seria complemente destruída

É preciso pois que haja uma sanção perfeita na outra vida, que consiste numa recompensa eterna ou num castigo sem fim.

Tal sanção eterna nos é revelada pela fé, e não pela simples razão. Podemos, entretanto, mostrá-la por motivo da razão:

  1. a) Corresponde às aspirações de nossa natureza;
  2. b) É admitida por todos os povos.

A nossa natureza aspira de toda a sua força a uma felicidade integral, sem fim.

Ora, não encontramos aqui na terra uma tal felicidade.

Logo, deve existir na outra vida.

É duro, sem dúvida, o pensamento de um castigo eterno, para as faltas cometidas neste mundo, e não expiadas, porém basta lembrar-nos:

  1. a) de que o homem morto num estado de rebelião voluntária contra Deus, fica fixado definitivamente neste estado, de modo que não pode mais ser objeto de qualquer recompensa.
  2. b) de que se o castigo do crime não fosse eterno, a sanção imposta por Deus seria impotente para evitar o mal, e a sua justiça poderia ser insultada impunemente pelo pecador, que poderia dizer-lhe: Tu serás obrigado a perdoar-me um dia, ou a aniquilar-me, e num ou noutro caso, escaparei aos teus rigores.

Conclusão

Os homens admitem facilmente a eternidade de felicidade, mas repugna-lhes a eternidade de suplícios.

A segunda, entretanto, é a consequência necessária da primeira. Se Deus é justo e bom, Ele deve recompensar a virtude…, e quem recompensa a virtude deve necessariamente castigar o mal, pois é a destruição da virtude.

Para todo pecado há misericórdia, neste mundo; não porém no outro. A razão é simples.

Neste mundo o homem pode converter-se porque passado o instante do pecado, resta-lhe outro instante em que pode arrepender-se.

A eternidade é um ponto imutável. Não é uma sucessão sem fim de séculos, anos e minutos, mas sim um presente eterno, não há mais mudança possível: qual se entra, tal se fica.

O justo entra e fica justo: recebe a recompensa. O mau entra e fica mau: logo o castigo abate-se sobre ele, enquanto for mau: e não podendo mais mudar, fica mau eternamente e merece como tal um castigo eterno.

Como queres receber de Deus os castigos por teus pecados?

Por São Luiz Maria Grignion de Montfort

Com efeito, queridos Amigos da Cruz, sois todos pecadores. Não há um só dentre vós que não mereça o inferno, e eu mais que ninguém. É preciso que nossos pecados sejam castigados neste mundo ou no outro. Se o forem neste, não o serão no outro.

Se Deus os castigar neste mundo de acordo conosco, esta punição será amorosa: quem há de castigar será a misericórdia, que reina neste mundo, e não a justiça rigorosa. O castigo será leve e passageiro, acompanhado de atenuantes e de méritos, seguido de recompensas no tempo e na eternidade.

Mas se o castigo necessário dos pecados que cometemos for no tempo reservado para o outro mundo, a punição caberá à justiça vingadora de Deus, que leva tudo a fogo e sangue! Castigo espantoso, horrendo, inefável, incompreensível: Quem conhece o poder de tua cólera?” ( Sl 89, 2). Castigo sem misericórdia, sem piedade, sem alívio, sem méritos, sem limite e sem fim. Sim, sem fim: esse pecado mortal de um momento, que cometestes; esse pensamento mau e voluntário, que escapou a vosso conhecimento, essa palavra que o vento levou; essa açãozinha contra a lei de Deus, que durou tão pouco, será punida eternamente, enquanto Deus for Deus, com os demônios no inferno, sem que o Deus das vinganças tenha piedade de vossos soluços e de vossas lágrimas, capazes de fender as pedras! Sofrer para sempre sem mérito, sem misericórdia e sem fim!

Será que pensamos nisto, queridos Irmãos e Irmãs, quando sofremos alguma pena neste mundo? Como somos felizes de poder trocar tão vantajosamente uma pena eterna e infrutífera por outra, passageira e meritória, carregando nossa cruz com paciência! Quantas dívidas temos a pagar! Quantos pecados temos, cuja expiação, mesmo após amarga contrição e confissão sincera, será preciso que soframos no purgatório durante séculos inteiros, porque nos contentamos, neste mundo, de penitências leves demais! Ah! Paguemos neste mundo de forma amigável, levando bem nossa cruz! Tudo deverá ser pago rigorosamente no outro, até o último centavo, mesmo uma palavra ociosa. “No dia do castigo deveremos dar conta de toda palavra ociosa que houvermos dito” (Mt 12, 36). Se pudéssemos arrebatar ao demônio o livro de morte, onde anotou os nossos pecados todos e a pena que lhes corresponde, que grande “debet” verificaríamos, e como nos sentiríamos encantados de sofrer durante anos inteiros neste mundo, para não sofrer um só dia no outro!

CARTA AOS AMIGOS DA CRUZ