Sermão da primeira Santa Missa celebrada na Capela Santo Agostinho

Por Dom Lourenço Fleichman, em 22/06/2021

Caríssimos irmãos,

Acho que essa missa de hoje é um evento histórico para nós. É claro que se fosse já a inauguração da igreja, ela prontinha, toda bonitinha, pintadinha, seria muito mais importante. Mas, o fato é que graças a esse grande esforço que foi feito nesses últimos meses nós podemos a partir de hoje ter nossas reuniões, nossas missas aqui na nossa igreja. Isso muda tudo pra nós. Agora nós temos um lugar.

Ainda não temos um altar definitivo, mas nós temos pelo menos um altar montado. Agora o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo já acontece! Como se um raio do céu viesse e iluminasse para sempre este lugar, porque o Santo Sacrifício da Missa está sendo celebrado… a transubstanciação vai acontecer daqui a pouco pela primeira vez debaixo desse teto, para que se repita, e se repita, e se repita… por gerações e gerações, formando essas crianças, formando nossas famílias em torno do altar, em torno de Nosso Senhor Jesus Cristo. Já não tem mais desculpa para nenhuma das nossas famílias de achar que isso aqui é longe. Se é longe hoje, é longe amanhã, é longe depois de amanhã, e será sempre longe. Então, das duas, uma: ou nós temos que ir ao longe para termos nosso domingo, ou não teremos nosso domingo. Mas se nós somos membros da Capela Santo Agostinho, então é aqui. O Paraíso também é longe, o Céu também é longe, muito mais longe do que aqui e, no entanto, todos querem ir pro Céu.

Então é necessário que todos nós tenhamos a consciência da grandeza do que está se realizando aqui neste local, na Igreja Santo Agostinho. Não há nenhum outro lugar no Brasil em que uma igreja dedicada à Missa Tradicional esteja sendo construída, e continua sendo construída, e vão as paredes se levantando para que rapidamente ela esteja terminada. O Brasil está de olho nesse pequeno pedaço de terra. O Brasil tem mandado sua ajuda, gente de toda parte, para que a gente não pare.

Evidentemente dá um sabor, dá um prazer nós vermos as paredes se levantando. Vejam como muda tudo. Uma vez levantada a estrutura nós já sentimos uma presença diferente, de alguma coisa. Antes nosso olhar passava, ia embora pro horizonte. Agora, não. Agora os volumes começam a aparecer porque tem paredes. É assim quando a gente faz uma casa. Quando tiver tudo pintadinho vai aparecer mais ainda. E vai dando cada vez mais a noção de um lugar transformado, onde os homens vem se reunir. Nas casas, para sua vida de família. Aqui para a família espiritual, formando uma pequena comunidade católica, uma pequena paróquia católica. Por mais que nós sejamos marginalizados pelas autoridades da Igreja, o que nós temos pra ensinar é a verdadeira Missa, é a verdadeira fé, é a Palavra do Evangelho a tempo e contratempo como nós acabamos de ouvir São Paulo dizendo: Prega a tempo e contratempo, porque virá tempo em que já não suportarão a sã doutrina. O que é a sã doutrina senão aquilo que a Igreja nos ensina há dois mil anos. E o que é aquilo que é ensinado hoje nas paróquias? Algo diferente! E é por isso que nós viemos nos refugiar aqui, e Deus abençoando este refúgio… onde Jesus nasce, onde Jesus virá na transubstanciação: Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo presente.

Hoje é um dia histórico! Entendam isso, levem isso para suas casas! Hoje aconteceu um milagre aqui.  Nós já tivemos em alguns lugares diferentes celebrando Missa, alguns muito pequenininhos, mas nós nunca tivemos um lugar nosso, um lugar onde Jesus Cristo diga: é meu lar, é minha casa. Vocês estão aparelhando a minha casa para que Eu possa nascer todos os dias para vocês.

Venham! Venham para o catecismo, venham para o terço, venham assistir à Missa filmada em Niterói, venham para formar o espírito de família que nós precisamos. Não fujam, não deem falsas desculpas. Cansaço…, longe…, nada disso vai explicar a ausência em nossas atividades. Nós precisamos ter todos em torno do altar, em torno da morte de Cristo, em torno de Sua ressurreição.

Então, que este momento histórico que nós estamos vivendo aqui hoje com essa Santa Missa. É uma grande alegria para todas as nossas famílias, uma grande recompensa por todos os esforços que foram feitos até aqui. E que isso possa perdurar.

Na hora que tivermos um Priorado da Fraternidade São Pio X em Fortaleza, a Capela Santo Agostinho, de Parnaíba, é a primeira capela do Priorado. O Priorado é casa matriz e a primeira capela é Parnaíba. Isso significa que haverá uma vinda de padres, não vou dizer toda semana talvez, mas de quinze em quinze dias. E aí, como é que fica a nossa vida? Quando nós tínhamos duas Missas por ano, ou nem isso, e vocês tinham que entrar em um carro pra ir até Fortaleza… Daqui a pouco pode ser que nós possamos dizer: sim, agora nós temos Missa de quinze em quinze dias. Os padres vêm lá de Fortaleza e ficam aqui vários dias atendendo as confissões, vendo as famílias, batizando, casando, e a vida de paróquia católica vai se formando aqui. Contra ventos e marés, a tempo e contratempo.

Então na Missa de hoje, apesar da tristeza de estarmos rezando por um falecido que não precisava ter morrido, no mundo estranho que a gente vive com essa doença mais estranha ainda, mas, é com grande alegria que nós nos reunimos aqui para agradecer a Deus. Agradecer por todas as graças que Ele nos tem dado, e que nós tenhamos uma coesão, uma união muito grande, muito forte, todas as famílias em torno do Nosso Senhor. E que Santo Agostinho nos proteja também, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!

A 13 de maio, na Cova da Iria

AVE DE FÁTIMA

Harm: A. Cartageno

(versão do Santuário de Fátima)

A treze de maio

Na cova da Iria

Apareceu brilhando

A Virgem Maria.

AVE, AVE, AVE MARIA

AVE, AVE, AVE MARIA

A Virgem Maria

Cercada de luz,

Nossa Mãe bendita

E Mãe de Jesus.

Foi aos Pastorinhos

Que a Virgem falou.

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Reflexos de Fátima

“Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus; os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas creia-me, senhor Padre, Deus vai castigar o mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.”

Entrevista com Pe. Fuentes (Dezembro de 1957)

PRIMEIRA PARTE: “A TREZE DE MAIO NA COVA DA IRIA…”

Quem parte de Lisboa rumo à Serra do Aire, encontra a pitoresca aldeia de Aljustrel, que há um século contava exatas vinte e seis casinhas. O seu relativo isolamento poupara a aldeia da laicização promovida pela recente República liberal. Por todo o país, padres eram presos, igrejas eram fechadas e religiosos deportados. “A perseguição não assolava Fátima tão fortemente, talvez porque a distância da capital nos fazia passar quase despercebidos”, escreveria Lúcia.

Apesar da austeridade em que viviam, que parece excessiva à moleza do nosso tempo, não eram exatamente pobres para os padrões da região: os pais da Lúcia tinham um patrimônio modesto, formado por terras e um pequeno rebanho. A proximidade das casas do vilarejo explica um pouco a amizade entre as famílias dos pastorinhos, estreitada ainda mais pelo parentesco: Ti Olímpia (1864-1956), mãe de Francisco e Jacinta, era a cunhada da mãe da Lúcia, até casar-se em segundas núpcias com Manuel Pedro Marto (1873-1957), conhecido como “o homem mais sério do lugar”. 

Apesar de muito sisudo, Ti Marto foi seguramente o mais simpático dos coadjuvantes da história de Fátima. Ex-soldado, de porte ereto e olhar arguto, acreditou desde a primeira hora na veracidade dos fatos: “mentir, ai Jesus, os cachopos foram sempre tão contrários a isto”. Nós o vemos tomar o partido dos pastorinhos em todas as oportunidades e desde o começo.

Ele sempre teve grande simpatia pela sobrinha. Ao reencontrá-la em Maio de 1946, quando a Irmã Lúcia retornou ao lugar para identificar os locais das aparições do Anjo, travou com ela este simpático diálogo:

– Que bela cachopa tu estás!… Tu sim, que valeu a pena vires a este mundo! Lembras-te da minha Jacinta e do meu Francisco?

– Então, Tio, não me hei-de lembrar?!

– Se fossem vivos seriam como tu!…

– Seriam como eu!… Seriam melhores do que eu! Nosso Senhor desta vez enganou-se: devia ter deixado cá um deles, e deixou-me a mim!… 1

Era o exato oposto da mãe da Lúcia, Ti Maria Rosa, uma camponesa severa e corpulenta que não concebia que a filha pudesse estar a dizer a verdade. Para obrigá-la a desmentir-se, como dizia, não hesitava injuriá-la, castigá-la, cobri-la de pancadas com o cabo da vassoura. Algumas irmãs da Lúcia, sentindo-se abrigadas pelas opiniões da mãe, uniam-se a ela, debochando e rindo.

Um diálogo travado então com um tipo que insultava a pastorinha é revelador dos seus sentimentos:

– Então, ti Maria Rosa, que me diz das visões da sua filha?

– Não sei – respondeu. – Parece-me que não passa duma intrujona que traz meio mundo enganado.

– Não diga isso muito alto; senão, alguém é capaz de matá-la. Parece que há por aí quem Ihe tem boa vontade.

– Ah! Não me importa, contanto que a obriguem a confessar a verdade! Eu é que hei-de dizer sempre a verdade, seja contra meus filhos, seja contra quem for, nem que seja contra mim 2

Nosso Senhor, contudo, dobraria essa resistência da mãe da Lúcia do modo mais admirável, pois, no grande Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917, aquela que mais duvidou, pôde assistir a tudo ajoelhada ao lado da filha. 

Não devemos fazer uma opinião demasiado severa a respeito dos seus parentes, que formavam uma família simples e dedicada ao trabalho. A mãe de Lúcia era uma mulher de extrema honestidade e piedade, “uma santa”, no dizer do pároco de Fátima. Mãe de sete filhos, unia aos seus muitos afazeres domésticos o encargo de enfermeira de Aljustrel, e não havia ninguém que caísse doente, sem que ela largasse tudo para acorrer ao enfermo. Mesmo quando veio a gripe espanhola, apesar do risco real de contágio, não mudou em nada sua rotina, cuidando dos doentes como se fossem seus filhos. “O importante”, dizia a boa senhora, “é fazer o bem, ajudar os outros para que Deus também nos ajude”. Gabava-se de nunca ter perdido uma Missa, mesmo quando amamentava, e de já ter caminhado certa vez dez quilômetros para assistir a um ofício. “A grande virtude da minha mãe”, dirá Lúcia, “repousa sobre a rocha da lei de Deus e de sua Igreja”. 

Quanto ao seu marido, Antônio dos Santos, pequeno agricultor e criador de ovelhas, conhecido pelo apelido de “abóbora”, nunca deixou que mendigo algum passasse por sua residência sem receber esmola, e tinha em casa uma porção de carne sempre pronta para o caso de algum necessitado aparecer. Muito amigo e próximo da filha, foi ele quem a ensinou a chamar a lua de “candeia de Nossa Senhora”, e as estrelas de “candeias dos anjos”. “Exemplos admiráveis de família cristã”, descreveria Lúcia. 

Os pastorinhos

Foi nesse ambiente de Fé que cresceram os pastorinhos de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta, que tinham, no momento das aparições da Santíssima Virgem, respectivamente 10, 9 e 7 anos. Suas personalidades, tão distintas, seriam marcadas de forma definitiva pelos acontecimentos.

Francisco Marto foi o consolador de Nosso Senhor, tão ofendido pelos nossos pecados. Muito manso e introspectivo, era essencialmente um contemplativo. “O desejo do Céu e a contemplação das coisas divinas”, escreveu o Pe. João de Marchi, “enchiam a transbordar o coraçãozito do Francisco”, a ponto de torná-lo estranho às coisas do mundo. Quando alguma criança roubava nas brincadeiras, dizia com indiferença: “Pensas que ganhaste tu? Pois sim! A mim isso não me importa”. Repetia o mesmo ainda quando outras crianças más apanhavam suas coisas, embora fosse suficientemente robusto para retomá-las à força. “Parece-me que, se houvesse crescido, o seu principal defeito seria o de não-te-rales”, declararia mais tarde a sua prima.

Mas este desapego, diga-se, nunca se traduzia em respeito humano. Certa vez, ele se deparou com uma pobre mulher que fingia benzer terços e objetos religiosos, e que o convidou a ajudá-la. Francisco respondeu com severidade: – Eu não posso benzer e vossemecê também não! São só os Senhores Padres.

Outra vez, a sua mãe, a sra. Olímpia, disse-lhe para aproveitar a ausência da madrinha para levar as ovelhas a pastorear na sua propriedade. Francisco retrucou: – Ah, isso é que eu não faço! – ganhou logo uma bofetada pela resposta. O menino respondeu sem alterar a voz: – Então, é a minha mãe que me está a ensinar a roubar? – Quando Lúcia, depois das aparições, cedendo a rogos de familiares e vizinhos, aceitou participar da organização de uma festança, o menino interpelou-a: – E tu voltas a essas cozinhadas e brincadeiras?

A sua irmã, Jacinta Marto foi, segundo a sentença da Irmã Lúcia, “aquela a quem a Santíssima Virgem comunicou maior abundância de graça, conhecimento de Deus e da virtude”. Dizia-se que só se assemelhava ao Francisco pelos mesmos olhos castanho-escuros e os traços bem-feitos. Muito expansiva e sensível, a voluntariosa Jacinta era alegre como um passarinho. Sua espiritualidade era apostólica e, sobretudo após a visão do inferno, terá como missão a conversão dos pecadores: Da mihi animas, tolle coetera, poderia ser seu lema. Não media esforços para convertê-los, e jejuava e vigiava e fazia mortificações dignas de um cartuxo, a tal ponto que escreveu Garrigou-Lagrange: “Jacinta é uma das almas mais generosas do século XX”. Dentre os inúmeros sacrifícios que fez, impressiona a resignação e o abandono com que se submeteu a uma dolorosa cirurgia no final da sua vida, como veremos. 

A mãe da Lúcia era a catequista de Aljustrel, e antes da primeira comunhão da filha, ensinou-lhe o que pedir ao receber Jesus no coração: “Sobretudo, pede a Nosso Senhor que te faça uma santa”. “Essas palavras”, dirá mais tarde a Lúcia, “se me gravaram tão indeléveis no coração, que foram as primeiras que disse a Nosso Senhor logo que o recebi”. Santa Lúcia de Fátima, santa pela obediência heróica, pela obscuridade e paciência da sua vida escondida – foi ela que ouviu primeiro de Nossa Senhora que iria para o Céu. Sua missão foi resumida por Jacinta pouco antes desta última ir para o hospital: “Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. (…) que o Coração de Jesus quer que, a seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria”. Este será sempre seu ideal, e as aparições posteriores em Pontevedra (1925-26) e Tuy (1929) têm implicações consideráveis para nossas vidas.

1915 – O prelúdio

Ao completar sete anos, a mãe de Lúcia decidiu que era chegado o momento de a menina começar a trabalhar e a incumbiu da guarda das ovelhas da família. Antônio dos Santos e as demais filhas protestaram, julgando-a muito pequena para a tarefa. Mas Maria Rosa não era do mesmo sentimento: “É como todas”, disse, pondo fim à questão.

A nova responsabilidade não desagradava a Lúcia, que se sentia “uma menina grande”. Foi assim que, no dia combinado, partiu junto com três moças da aldeia vizinha, Maria Rosa, Maria Justino e Teresa Matias, que se ofereceram para acompanhá-la. O destino escolhido para as pastagens era um vale mais ermo conhecido pelo nome de Cova da Iria, aonde chegavam atravessando hortas e pomares. Costumavam passar ali boa parte do dia, quando não rumavam mais para o sul, para brincar num lugar chamado Valinhos, onde eram abundantes o capim para as ovelhas e a sombra para descansarem. Desse lugar, podia-se subir ao Cabeço, uma elevação mais escarpada, cercada por tojos e rosmaninhos, de onde se avistava uma espécie de gruta a que chamavam Loca do Cabeço.

Certo dia, por volta de uma da tarde, começaram a rezar o terço e uma delas chamou a atenção das demais para uma figura suspensa no ar, sobre o arvoredo – era a primeira de três manifestações que veria naquele ano com aquelas moças. A figura parecia-lhes uma estátua de neve atravessada pelos raios do sol, mas nunca disse palavra. 

– Que é aquilo? – perguntaram-se as companheiras, meio assustadas.

– Não sei!

Lúcia guardou silêncio sobre o que vira, mas as moças trataram de espalhar o acontecido por toda a aldeia. A mãe de Lúcia, desgostosa, perguntou à filha:

– Ouve lá: dizem que viste para aí não sei o quê. O que é que tu viste?

– Não sei! – respondeu Lúcia.

E como não sabia explicar-se, acrescentou:

– Parecia uma pessoa embrulhada num lençol. Não se lhe conheciam olhos nem mãos.

– Tolices de crianças! – sentenciou Ti Maria Rosa. 

1916 – As aparições do anjo

Havia algo de misterioso na forte amizade que Jacinta sentia pela prima: “Não sei por quê, a Jacinta, com seu irmãozinho Francisco, tinham por mim uma predileção especial e buscavam-me, quase sempre, para brincar”, escreveu Lúcia. De modo que, quando souberam que a prima começaria a pastorear, e não poderia portanto tornar a brincar com eles, correram inconformados a pedir à mãe autorização para acompanhá-la, mas isso lhes foi negado. Nesse tempo, portanto, Lúcia só os encontrava à noitinha, quando retornava do pasto.

Contudo, aos dois pequenitos custava-lhes conformar-se com a ausência da sua antiga companheira. Por isso, renovavam continuamente as instâncias junto de sua mãe, para que pudessem guardar o seu rebanho. Ti Olímpia, talvez para ver-se livre de tanta insistência, acabou consentindo, e foi assim que, no ano de 1916, Lúcia já não pastoreava com as antigas companheiras, mas com os primos.

Jacinta por vezes metia-se no meio do rebanho:

– Jacinta – perguntava-lhe Lúcia – para que vais aí, no meio das ovelhas?

– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.

Foi nesse ano de 1916, espaçado pelas estações do ano (primavera, verão e outono), que Lúcia tornou a ver o anjo, que dessa vez comunica-se com ela. É pouco o que diz, mas que profundidade!

A primeira aparição ocorreu na Loca do Cabeço. O anjo disse-lhes: “Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo”. É digno de nota que o anjo tenha se apresentado assim, pois Portugal acabara de entrar oficialmente na Grande Guerra e o país, governado pelos maçons, vivia intensa perseguição religiosa.

O Anjo da Paz prostrou-se e ensinou aos pastorinhos uma oração que consiste, na primeira parte, num ato de fé, esperança e caridade (“Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-vos”), e, na segunda, num ato de reparação (“Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam”).

– Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.

Dito isso, desapareceu, deixando os pastorinhos a tal ponto subjugados e imersos no sobrenatural, que mal conseguiam falar: “A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar” 3, escreveu Lúcia.

Note-se que o anjo refere-se aos “Corações de Jesus e Maria”. Será assim nas três aparições, mas sempre obedecendo a uma gradação: aqui alude aos “Corações de Jesus e Maria”; na segunda aparição falará dos “Corações Santíssimos de Jesus e Maria” e, na terceira, do “Santíssimo Coração [de Jesus] e do Coração Imaculado de Maria”. Essa gradação tem um valor pedagógico e aponta para aquilo que escreveu o Cardeal Cerejeira: “Fátima será para o culto do Coração Imaculado de Maria o que foi Paray-le-Monial para o culto do Coração de Jesus. Fátima, de certo modo, é a continuação, ou melhor, a conclusão de Paray-le-Monial: Fátima reúne estes dois Corações que Deus mesmo uniu na obra divina da Redenção.” 

A segunda aparição do anjo ocorreu no verão do mesmo ano. Por conta do calor, as crianças fizeram a sesta em casa e foram brincar no poço do Arneiro, uns 50 metros da casa da Lúcia. Foi aí que o anjo lhes apareceu:

– Que fazeis? Orai, orai muito. Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente, ao Altíssimo, orações e sacrifícios.

– Como nos havemos de sacrificar? – perguntou Lúcia.

– De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos envia.

Nota-se outra gradação pedagógica na fala do anjo. Na primeira aparição, pediu um ato de reparação, nesta pede sacrifícios. 

A terceira aparição do anjo ocorreu no outono. Foi aqui que ele deu a comunhão aos pastorinhos. Antes, porém, ensinou aos pastorinhos uma oração de reparação a Nosso Senhor:

– Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

O anjo deu a comunhão aos serranitos pronunciando as palavras:

– Tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.

Repetiu ainda mais uma vez a oração acima, e desapareceu.

Mais tarde, Lúcia seria interrogada pelo Bispo de Viseu, D. José Pedro da Silva:

– Quando a Irmã comungou da mão do Anjo, sentiu na boca o contacto físico das Sagradas Espécies, tal como hoje quando comunga?

– Sim.

– Lembra-se de ter engolido a Sagrada Hóstia?

– Sim.

Eis aqui uma primeira prova de que, em Fátima, não se tratava de umas “visões imaginativas”, como quiseram alguns. Há outras provas. Por exemplo, quando os pastorinhos viam Nossa Senhora, por vezes baixavam os olhos, o que logo chamou a atenção de alguns. Eles explicaram que a luz da Virgem, de tão forte, cegava.

1917 – As aparições de Nossa Senhora

Em Maio de 1917 começaram as aparições de Nossa Senhora. Assim como o anjo, ela era toda de luz, e brilhava mais do que o sol, “luz sobre luz”, esclareceria a Lúcia. A Virgem aparecia-lhes de pé sobre a copa duma carrasqueira, árvore de folhas brilhosas e cheias de espinhos, com cerca de um metro de altura. Os pastorinhos ficavam bem próximos, dentro da luz que dela emanava. Embora tudo nela exprimisse a paz celestial, o seu olhar era triste – ela não sorriu nenhuma vez em todas as aparições – embora tomado de solicitude maternal; sua voz era fina, doce e melodiosa. Quanto às crianças, havia uma curiosa gradação: Francisco apenas via; Jacinta, via e ouvia; Lúcia, via, ouvia e falava com a Virgem4. As aparições duravam alguns minutos, menos do que o tempo de se rezar um terço. 

As crianças estavam a brincar antes da primeira aparição; construíam uma casinha com pequenas pedras, quando, subitamente, relampeou e elas, temendo chuva, resolveram voltar para casa. Novo relampear e, um pouco mais adiante, deram com a Virgem.

– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

– De onde é Vossemecê? – perguntou-lhe a Lúcia.

– Sou do Céu.

Aqui, observa um autor, nota-se a precisão e a beleza da resposta de Nossa Senhora. Ela não diz que “veio” do Céu, como talvez responderia algum outro santo. Ela diz, ao contrário, “Sou do Céu” – isso é mais exato, pois trata-se da Imaculada Conceição, onde o pecado jamais teve morada, nem por um instante sequer.

 – E que é que Vossemecê me quer?

Nossa Senhora então pede que voltem para lá no dia 13 durante seis meses seguidos, que no final dirá quem é e o que quer. E afirma que virá ainda uma sétima vez.

Segue o diálogo conhecido. Lúcia quer saber se vai para o Céu. “Sim, vais”. Resposta que lhe encheu de uma alegria indescritível. E a Jacinta? “Também”. O Francisco? “Também, mas tem que rezar muitos terços.”5

– A Maria das Neves já está no Céu?

– Sim, está.

– E a Amélia?

– Estará no purgatório até o fim do mundo.

Ao ler isso, nossa atenção se volta naturalmente para o triste fim da Amélia – moça que morrera poucos meses antes e que, segundo os pesquisadores, pecava contra a pureza. Mas é preciso reconhecer que a sorte de Maria das Neves é muito consoladora: Ela está no Céu! Não foi nenhuma grande santa, nenhuma grande penitente, apenas uma boa católica – e está no Céu.

– Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

– Sim, queremos – respondeu a Lúcia em nome dos três.

Desde aquele momento, comenta o Pe. João de Marchi, os três pastorinhos começaram a ser heróis.

– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Em seguida, Nossa Senhora comunicou-lhe uma misteriosa luz, que era Deus. Finalmente, despediu-se com as palavras:

 – Rezem o terço todos os dias 6, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Nossa Senhora se foi. Voltou as costas para os pastorinhos e foi-se embora em direção ao nascente, desaparecendo pouco a pouco. 

Os serranitos ficaram novamente imersos no sobrenatural, porém, desta vez, não sentiam o aniquilamento físico que a aparição do anjo lhes causava. Ao contrário, sentiam-se exultantes, eufóricos, e não lhes foi difícil contar imediatamente ao Francisco o que ouviram. Este, cruzando as mãos sobre o peito, exclamou contente:

 – Ó minha Nossa Senhora, terços rezo todos quantos Vós quiserdes. – Deve ter cumprido muito bem a exigência que lhe fora feita, porque já na segunda aparição Nossa Senhora lhe promete levar logo para o Céu, como veremos.

Passaram assim o resto da tarde, saboreando tudo que lhes acontecera, recordando a beleza da branca Senhora que se dignara aparecer-lhes:

– Ai, que Senhora tão bonita! – exclamava a Jacinta, para daqui a pouco tornar a exclamar:

– Ai, que bonita Senhora! – suspirava de novo a Jacinta, o rosto iluminado de alegria.

– Estou mesmo a ver – dizia Lúcia – ainda vais a dizer a alguém.

– Não, digo, não –  respondia Jacinta –  está descansada.

Eles voltaram a Aljustrel, Jacinta sempre repetindo “Ai, tão bonita!”. Lúcia, antes de despedir-se da prima, ainda chamou-a uma vez: 

– Psiu!… mesmo com a mãe.

– Pois sim! – assegurava-a novamente a Jacinta.

O Sr. Marto e a Sra. Olímpia ainda não haviam voltado do mercado, aonde foram comprar  uma porca para a engorda. A Jacinta os esperava inquieta. Mal os viu, saiu correndo toda alvoroçada ao encontro deles para publicar a sua alegria: 

– Ó mãe, vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria.

Certa de que era alguma brincadeira de criança, a mãe fez pouco caso: “És bem doidinha!” – disse, e foi direto para os seus afazeres. Isso se passou à porta de casa. Eles entraram e a Jacinta lhe disse:

– Minha mãe, vou rezar o terço com o Francisco, que foi o que Nossa Senhora mandou que nós fizéssemos. – E lá se foram rezar.

Na hora do jantar, contudo, junto à lareira, na presença de toda a família e também do pai da Lúcia, que lá estava por acaso, a mãe perguntou à filha:

– Ó, Jacinta, conta lá como foi isso de Nossa Senhora na Cova da Iria.

Era tudo o que Jacinta queria ouvir! A menina começou a falar com entusiasmo:

– Era uma Senhora tão linda, tão bonita!… Tinha um vestido branco, e um cordão de ouro ao pescoço até ao peito… Ai, que bonito!… Tinha as mãos juntas, assim – e a pequena levantava-se do banquinho, juntava as mãos à altura do peito para imitar a visão.

– Entre os dedos tinha as contas. Ai, que lindo tercinho ela tinha… todo de ouro, brilhante, como as estrelas da noite, e um crucifixo que luzia… que luzia… Ai, que linda Senhora!… Falou muito com a Lúcia, mas nunca falou comigo, nem com o Francisco… Eu ouvia tudo o que elas diziam… Ó mãe, é preciso rezar o terço todos os dias… A Senhora disse isso à Lúcia. E disse também que nos levava os três para o Céu, a Lúcia, o Francisco e mais eu… E mais outras coisas disse que eu não sei mas que a Lúcia sabe… Quando Ela entrou pelo Céu dentro, parece que as portas se fecharam com tanta pressa que até os pés iam ficando de fora entalados… Era tão lindo o Céu… Havia lá tantas rosas albardeiras! 7

Os adultos perguntaram ao Francisco se isso tudo era verdade. Ele confirmou a história e a notícia rapidamente se espalhou. O calvário de Lúcia apenas começava.

A segunda aparição (13 de junho de 1917)

A segunda aparição ocorreu no dia 13 de junho, na mesma hora e local. O rumor fez com que umas cinqüenta pessoas estivessem presentes na Cova da Iria. Eles não viram nem ouviram Nossa Senhora, mas notaram uns fenômenos estranhos no momento da aparição: os galhos da azinheira se vergaram repentinamente sob o peso de algo que não percebiam. Alguns puderam ouvir algo que não distinguiam, mas que se assemelhava a um zumbido de abelha. Foi suficiente para que retornassem entusiasmados com o pouco que viram, e dessem publicidade ainda maior aos fatos.

Nesta ocasião, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos que voltassem no mês seguinte, rezassem o terço e aprendessem a ler. Disse que os primos iriam logo para o Céu, mas não a Lúcia, que haveria de ficar aqui para propagar a devoção ao seu Imaculado Coração, e acrescentou: A quem a abraçar, prometo a salvação”. Palavras importantes que deveriam ficar gravadas em nossos corações.

– Fico cá sozinha? – perguntou Lúcia.

– Não, filha. E tu sofres muito? – respondeu Nossa Senhora, para concluir com palavras que, segundo o sentimento de Lúcia, não se destinavam apenas a ela. – Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus 8

Finalmente, Nossa Senhora abriu as mãos, comunicando o reflexo de uma luz imensa na qual os pastorinhos puderam ver o Imaculado Coração de Maria cravejado de espinhos. Anos depois, interrogada por Dom José Pedro da Silva:

– Poderá, de algum modo, descrever a luz que Nossa Senhora lhe “meteu no peito”?

– Não posso: porque não conheço palavras que a descrevam.

Uma observação interessante foi feita pelo Pe. Chautard. A representação clássica do Coração doloroso de Maria apresenta-o traspassado por uma espada: é nova a imagem do seu coração coroado de espinhos. Indica talvez que a dor que Nossa Senhora mais ressente é a recusa do reinado social de Cristo, inagurado pelo Liberalismo, após a Revolução em França, e que culminaria naquele mesmo ano no Comunismo, com a Revolução bolchevique.

O segredo (13 de julho de 1917)

A terceira aparição é a mais importante, pois foi a do grande segredo. Costuma-se falar em Terceiro Segredo de Fátima, mas trata-se na verdade de um único segredo em três partes, comunicado de uma só vez neste dia. Segundo o Irmão François de Marie des Anges, as três partes do Segredo referem-se: a primeira às almas; a segunda às nações; a terceira, à Igreja.

As semanas que precederam o grande dia 13 de julho foram particularmente sofridas para Lúcia, pois sua mãe redobrara os esforços para fazer com que a filha “se desmentisse”, levando-a para tanto até o pároco de Fátima.

 – Não me rales mais! Agora diz ao Senhor Prior que mentiste, para que ele possa, no domingo, dizer na Igreja que foi mentira e assim acabar tudo. Isto tem lá jeito! Toda a gente a correr para a Cova de Iria, a rezar diante duma carrasqueira!

O padre recebeu-a com muita amabilidade e, após interrogar a menina, encerrou dizendo:

 – Não me parece uma revelação do Céu. Quando se dão estas coisas, por ordinário, Nosso Senhor manda essas almas a quem se comunica, dar conta do que se passa a seus confessores ou párocos e esta, ao contrário, retrai-se quanto pode. Isto também pode ser um engano do demônio. Vamos a ver.

Influenciada pela dupla autoridade do pároco e da mãe, e percebendo que sua vida virara ao avesso desde o início das aparições, Lúcia concluiu que talvez estivesse mesmo sendo vítima de um engano diabólico e decidiu não tornar à Cova da Iria. 

Contudo, no dia 13 de julho, ao aproximar-se a hora em que deveria partir, sentiu-se impelida por algo que não lhe era fácil resistir, e pôs-se a caminho, passando antes pela casa dos seus tios a ver se Francisco e Jacinta ainda estavam lá. Encontrou-os chorando.

– Então vocês não vão? – perguntou-lhes

– Sem ti não nos atrevemos a ir. Anda, vem.

Os três pastorinhos partiram contentes rumo à Cova da Iria, e corriam tanto, que a gente pedia que reduzissem o passo.

Apesar do sol escaldante, havia cerca de 4 mil pessoas ao redor da azinheira. Dessa feita Ti Marto resolveu ir e ficou rente à sua Jacinta. Na sua linguagem simples, narrou o que viu:

“A Lúcia, ajoelhada um pouco mais à frente, passava as contas e todos respondiam em voz alta. Acabado o terço, levanta-se tão rápida que aquilo não era força dela. Olha assim para o nascente e grita: ‘Fechem os chapéus, fechem os chapéus, que já aí vem Nossa Senhora’. Eu, por mais que olhasse, nada via. Começando então a afirmar-me, vi assim a modo uma nuvenzinha acinzentada que pairava sobre a azinheira. O sol enturviscou-se e começou a correr uma aragem tão fresquinha que consolava. Nem parecia estarmos no pino do Verão. O povo estava mudo que até metia impressão. E então comecei a ouvir um rumor, uma zoada, assim a modo como um moscardo dentro dum cântaro vazio. Mas de palavras, nada!” 9

Ao ver Nossa Senhora, Lúcia entrou em êxtase e emudeceu. Jacinta despertou-a: 

– Anda, fala-Lhe, que Nossa Senhora já está a falar.

– Vossemecê o que me quer? – perguntou Lúcia.

Os presentes não ouviam as respostas. As crianças, inteiramente alheias à multidão silenciosa que as rodeava, adquiriam nesses momentos um não-sei-quê de angelical, os rostos cresciam em alvura e ganhavam uma beleza que não é deste mundo. Crisparam-se subitamente os pastorinhos de horror, e puseram-se a gritar: 

– Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!

Era o início do grande Segredo. A Virgem mostrou-lhes o inferno, e os três viram um mar de fogo onde flutuavam sem peso nem equilíbrio os condenados ao lado de demônios de formas horríveis e asquerosas, como animais desconhecidos. “Creio que teríamos morrido de susto e pavor”, escreveu a Lúcia. Os pastorinhos não viram o inferno como que ao longe, mas desde muito perto; podiam ouvir a grita e o desespero dos condenados. Muitos anos mais tarde, quando alguém perguntava a Irmã Lúcia sobre o que viu nesse dia, a sua fisionomia imediatamente exprimira tamanho horror, que não era preciso mais nada para que o interlocutor acreditasse na realidade da visão.

Também a Jacinta ficaria profundamente marcada com o que viu. Desde esse dia, costumava dizer:

 – O inferno!, o inferno!, que pena eu tenho das almas que vão para o inferno! E as pessoas lá vivas a arder como a lenha no fogo!

Outras vezes dizia:

 – Francisco, Francisco, vocês estão a rezar comigo? É preciso rezar muito, para livrar as almas do inferno. Vão para lá tantas!, tantas!

Ora, nesse mesmo dia, após a espantosa visão, Nossa Senhora falou aos pastorinhos:

– Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre10. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé, etc. 11

A quarta aparição  (19 de agosto de 1917)

A quarta aparição foi precedida de grandes provações: os três foram seqüestrados pelo Administrador de Ourém, Artur Oliveira Santos, um maçom apelidado de “latoeiro”, que os levou para a Administração e os lançou na prisão para forçá-los a revelar o Segredo. Os demais presos diziam-lhes:

– Mas vocês, digam ao Senhor Administrador lá esse segredo. Que Ihes importa que essa Senhora não queira?

– Isso não! – respondia a Jacinta com vivacidade. – Antes quero morrer.

Quando a Jacinta chorava na prisão com pena de não tornar a ver a mãe, Francisco a consolava:

– A mãe, se a não tornarmos a ver, paciência, oferecemos pela conversão dos pecadores. O pior é se Nossa Senhora não volta mais! Isso é o que mais me custa! Mas também o ofereço pelos pecadores.

O Administrador trouxe um médico para examiná-los, na esperança de obter um diagnóstico que os declarasse desequilibrados, mas em vão. No dia seguinte, conduziu-os novamente para sua própria casa, onde, numa tentativa final, ameaçou de morte um a um, dizendo que os havia de queimar em óleo fervente. Todos resistiram bravamente e ao latoeiro só restou soltá-los.

No dia 13 de agosto, estando os pastorinhos presos, dez a vinte mil pessoas foram à Cova da Iria e, na hora prevista, novos fenômenos ocorreram: deu-se uma queda impressionante da luminosidade e umas nuvenzinhas se formaram perto da Carrasqueira e se ergueram por uns 6 metros até se desfazerem. O povo percebeu que havia ali qualquer coisa de sobrenatural, e voltou-se furioso contra o Administrador que seqüestrara os pastorinhos, e mesmo contra o Sr. Prior, que julgavam ser seu cúmplice. Tudo terminaria mal, não fosse pela intervenção de Ti Marto: “Sosseguem, rapazes! Não façam mal a ninguém. Quem merece castigo recebe-lo-á. Tudo isso é por desígnio do Alto.” 

Para provar sua inocência, o pároco de Fátima escreveu um texto sobre os fatos e o fez publicar em diversos jornais de Lisboa, dando aos acontecimentos uma repercussão em escala nacional.

A quarta aparição da Virgem, contudo, ocorreu no dia 19 de agosto nos Valinhos. Depois da aparição, os pastorinhos colheram uns raminhos da azinheira que tocaram nos vestidos da nívea Senhora, e correram muito depressa a levá-los para casa. A Jacinta mesma os mostrou para a mãe da Lúcia:

– Olhe, tia, Nossa Senhora colocou um pé neste raminho e outro neste.

– Dá-me cá! Deixa ver!

A Jacinta deu-lho e Ti Maria Rosa levou-o ao nariz.

– Mas a que cheira isto? – e continuava a cheirar. – Não é perfume… não é incenso… sabonete… cheiro de rosa também não é, nem de nada que eu conheça… Mas é um cheiro bom!12

Depois desse dia, apesar de sempre continuar a duvidar das aparições, proibiu as filhas de debocharem da Lúcia. 

A quinta aparição

A mais breve das aparições ocorreu no dia 13 de setembro de 1917, quando estiveram presentes em torno de 25 mil pessoas. O Pe. Manuel Nunes Formigão partiu numa charrete com um grupo de peregrinos da Benedita, ansiosos para ver os fenômenos que se produziam todo dia 13 na Cova da Iria:

“À hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada comovi-me imenso e por mais duma vez me assomaram as lágrimas aos olhos ao constatar a Fé e a piedade ardente de tantos milhares de romeiros.

“Os caminhos e atalhos iam cheios de gente. Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas à estrada. Era uma peregrinação verdadeiramente digna deste nome, cuja vista, só por si, fazia chorar de comoção. Nunca me fora dado presenciar em toda a minha vida uma tão grande e tão empolgante manifestação de Fé. Não se via nem se ouvia coisa alguma que traduzisse o mais imperceptível sentimento de leviandade ou mesmo um propósito de divertimento inocente.”

Passaram em Aljustrel tão logo chegaram para fotografar e conversar com os videntes:

“Foi essa a cena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquela simplicidade angélica e aquela absoluta despreocupação, que elas manifestavam, não pode mentir. Não têm o acanhamento próprio das crianças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá falar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas que dão são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir.”

Outro sacerdote presente na hora da aparição de setembro foi o Cônego José Galamba de Oliveira, que chegou a Fátima acompanhado de um grupo de seminaristas:

“Não dei por nada junto do local mas, após a aparição, não posso indicar o momento preciso, olho para o Céu, talvez porque alguém a isso me convidasse, e vejo à distância aparente de um metro do Sol um como globo luminoso que em breve começou a descer em direção ao poente e, da linha do horizonte, voltou a subir de novo em direção ao Sol.

“Apoderou-se de nós uma justificada comoção. Rezávamos de rijo a pedir não sei o quê. Todos os presentes puderam ver o mesmo globo à exceção de um meu condiscípulo, hoje sacerdote também, natural de Torres Novas. Tomei-o pelo braço para lhe mostrar mas nessa altura perdi o dito globo de vista sem que ele lograsse notá-lo, o que o levou a dizer entre lágrimas: ‘Por que será que eu não vejo? Quem sabe se estou em pecado mortal?’

“Antes ou depois, mas decerto no mesmo dia, começamos eu e outros, não sei se todos os presentes, a ver uma queda como de pétalas de rosas ou flores de neve que vinham do alto e desapareciam um pouco acima das nossas cabeças, sem que as pudéssemos tocar.

“Eu não vi mais nada. Mas isso bastou para nos encher de consolação e partimos com a certeza íntima, uma como intuição, de que estava ali o dedo de Deus.”

Nossa Senhora pediu mais uma vez o terço diário e prometeu fazer um milagre, para que todos pudessem crer, no dia 13 de Outubro.

O grande milagre

“O clero do lugar e das redondezas mantém uma atitude de prudente reserva, ao menos na aparência, em relação aos fatos. É o costume da Igreja. Ela proclama abertamente que, em tais circunstâncias, é lícito duvidar. Mas, secretamente, rejubila-se com a grande afluência de peregrinos, que desde o mês de maio aumentou cada vez mais.

“Existem até pessoas que sonham com uma igreja grande e magnífica, sempre cheia; nas proximidades, hotéis, esplendidamente instalados com os mais requintados confortos modernos; lojas imensas, perfeitamente apetrechadas com mil e um objetos de piedade e lembranças de Nossa Senhora de Fátima; estradas de ferro que conduzam convenientemente os peregrinos até ao futuro santuário milagroso, em vez desses ônibus que são um desrespeito à massa dos fiéis e dos curiosos…” 13

Essas linhas odiosas, anteriores aos acontecimentos do 13 de outubro, foram escritas pelo jornalista Avelino de Almeida, um maçom de quatro costados, para o jornal “O Século”, principal diário português. 

Sem acreditar na realidade dos fenômenos, foi como jornalista que se uniu aos milhares de peregrinos que se dirigiam então a Fátima para presenciar um milagre com dia, local e hora marcados para acontecer. Calcula-se em torno de 70 mil o número dos que foram à Cova da Iria, sem se importar com a chuva torrencial que então caía. 

Em Aljustrel, a tensão chegou ao cúmulo. “Tinha-se espalhado o boato que as autoridades haviam decidido fazer explodir uma bomba junto de nós, no momento da aparição”, recorda a Ir. Lúcia. Sua família temia pelo que lhes poderia suceder se não houvesse o tal milagre, e assim, às vésperas do dia, Ti Maria Rosa procurou a filha: 

– Ó, Lúcia, é melhor irmo-nos confessar. Dizem que havemos de morrer amanhã na Cova da Iria… Se a Senhora não faz o milagre, o povo mata-nos. Portanto é melhor que nos confessemos, a fim de estarmos preparados para a morte.

A filha não demonstrava medo algum: 

– Se a mãe quer confessar-se, eu vou também; mas não por esse motivo. Não tenho medo de que nos matem. Estou certíssima que a Senhora há-de fazer amanhã tudo o que prometeu 14.

Um vizinho procurou o pai do Francisco e da Jacinta:

 – Ó, tio Marto, é melhor não ir… Porque poderia calhar ser maltratado. Os pequenos, não; são crianças e ninguém lhes vai fazer mal. Mas você é que está em risco de ser enxovalhado.

O caminho até a Cova da Iria estava apinhado de gente, e não foi sem dificuldade que os pequenos venceram a distância que separava a sua casa materna da Cova da Iria. Lúcia vinha de mãos dadas com o pai, mas a mãe também a acompanhava: “Se a minha filha vai morrer, quero morrer ao seu lado!”, declarou.

Entre os circunstantes, percebiam-se alguns homens armados com varapaus que pareciam inclinados a iniciar uma confusão na primeira oportunidade. Muitos havia que lá foram movidos tão-somente pela curiosidade, como era o caso do Sr. Alfredo da Silva Santos, que poucos dias antes ouvira de um amigo numa cafeteria em Lisboa: 

– Lá em casa, depois de amanhã, vai tudo a Fátima. Parece que tem havido por ali qualquer coisa de extraordinário e está tudo cheio de curiosidade de ver o que há ao certo. 

– Pois também vou! – respondeu. O relato do que viu, como veremos adiante, é espetacular. 

Apesar da chuva, toda a multidão rezava o terço, estando os serranitos ajoelhados diante da azinheira. Por volta das doze horas, houve um princípio de confusão: um padre aproximou-se impaciente dos pequenos e começou a empurrá-los, querendo enxotá-los para longe: “Fora com tudo isto! É tudo uma ilusão!” Lúcia, quase a chorar, recusou-se a sair: “Veio das outras vezes e agora também há de vir!”. Murmúrios e queixas se ouviam, quando finalmente a Lúcia gritou: “Já vi o relâmpago”.

Naquele momento exato, a chuva cessou. O rosto da pequena transformou-se, adquirindo uma beleza indizível. Ela sorria enquanto, de uma ponta a outra do vale, reinava o silêncio mais absoluto:

– Que é que Vossemecê me quer? 

– Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.

– Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc.

– Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.

E tomando um aspecto mais triste, Nossa Senhora encerrou as aparições na Cova da Iria com esta palavra que é como que um resumo de toda a mensagem de Fátima:

– Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.

Abrindo as mãos, fê-las refletir no sol. A Lúcia, levada por um movimento interior, gritou a todos que olhassem para o sol. Deu-se então o grande milagre:

“Não posso então explicar o que se deu”, narrou o Sr. Alfredo da Silva Santos, que veio de Lisboa. “O sol começou a bailar e a certa altura pareceu deslocar-se do firmamento e, em rodas de fogo, precipitar-se sobre nós. Minha mulher – estávamos casados havia pouco – desmaiou e eu não tive coragem para a amparar. Foi o meu cunhado João Vassalo que a susteve nos braços. Caí de joelhos esquecido de tudo. E quando me levantei não sei o que disse; acho que me pus a gritar como os outros.” 15

Aos olhos da multidão, o sol adquiriu movimentos nunca antes vistos. Primeiro, deixou-se ver por longos minutos sem queimar a vista. Em seguida, descreveu no firmamento uma tripla dança, rodopiando ao redor do próprio eixo como um pneu de bicicleta e bailando para lá e para cá. Finalmente, o momento mais assustador: o sol se desprendeu do céu ameaçando cair sobre o povo aterrorizado:

“A gente gritava: ‘Ai, Jesus, que aqui morremos todos!, Ai Jesus, que aqui morremos todos!…’

“Outros bradavam: ‘Nossa Senhora nos valha!’, e rezavam o ato de contrição.

“Houve até uma senhora que fez confissão geral e dizia em altas vozes: ‘Eu fiz isto, aquilo e aqueloutro!’”

O fenômeno foi testemunhado não apenas pelas multidões em Fátima, mas mesmo em outras aldeias, como São Pedro de Muel (40 km de distância), ou Alburitel (18 km). O Padre Inácio Lourenço relata o que viu nesse dia:

«Tinha apenas 9 anos e freqüentava a escola de primeiras letras da minha aldeia (18 ou 19 quilômetros da Fátima).

…Era meio-dia mais ou menos quando fomos sobressaltados pelos gritos e exclamações de alguns homens e mulheres que passavam na rua diante da nossa escola. A professora, muito boa e piedosa, mas facilmente impressionável e excessivamente tímida, foi a primeira a correr para a rua, sem poder impedir que todas as crianças corressem atrás dela.

Na rua o povo chorava e gritava, apontando para o sol, sem atender às perguntas que, aflitíssima, lhe fazia a nossa professora.

Era o grande Milagre, que se via distintissimamente do alto do monte, onde fica situada a minha terra: era o Milagre do sol com todos os seus fenômenos extraordinários.

Sinto-me incapaz de o descrever, como o vi e senti então. Eu olhava fixamente para o sol, e parecia-me pálido, de modo que não cegava os olhos; era como um globo de neve a rodar sobre si mesmo.

Depois, de repente, pareceu que baixava em ziguezague, ameaçando cair sobre a terra. Aterrado, corri a meter-me no meio da gente. Todos choravam, aguardando de um instante para o outro o fim do mundo.

Junto de nós estava um incrédulo, sem religião, que tinha passado a manhã a mofar dos simplórios que faziam toda aquela caminhada a Fátima para irem ver uma rapariga. Olhei para ele: estava como paralisado, assombrado, com os olhos fitos no sol. Depois vi-o tremer dos pés à cabeça e, levantando as mãos ao Céu, caiu de joelhos na lama, gritando: “Nossa Senhora! Nossa Senhora!”» 16

Quando o sol retornou ao seu lugar, e todos perceberam que não havia perigo, foi uma ação de graças coletiva: – Milagre! Milagre! Bendita seja Nossa Senhora!

Conversões espantosas ocorreram, como a do jovem rico que fora com a mãe. Ela, voltando para o carro onde o deixara, perguntou-lhe:

– Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus? 

– Não, minha mãe – respondeu-lhe o jovem com os olhos marejados de lágrimas. – Não, agora é impossível.

Um sujeito de barbas brancas, de Santarém, apostrofava contra os ateus: – Há ou não há sobrenatural? E a Lúcia, que subira nos ombros de um jovem advogado que viera lhe ajudar a deixar a Cova da Iria, gritava para o povo, como um pregador numa cátedra: – Penitência! Penitência! Nossa Senhora quer que façam penitência. Se fizerem, a guerra acabará! – Sua atitude enérgica, seu entusiasmo de fogo, calavam fundo. Era como se ouvissem a voz inspirada de um profeta.

Ao fim, enquanto o povo deixava o local cantando o Salve Rainha, via-se aqui e ali, largados pelo caminho, alguns livre-pensadores, confusos, embrutecidos.

E o que escreveu o jornalista Avelino de Almeida, cujas linhas desrespeitosas lemos acima? Após o fenômeno, publicou em “O Século”:

“Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos, fora de todas as leis cósmicas – o sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses.”

Não foi o único jornal a relatar os acontecimentos. Lemos em “O Dia” as seguintes linhas, publicadas em 19 de Outubro de 1917:

“…o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar e girar em volta do círculo das nuvens afastadas! Foi um grito só em todas as bocas; caíram de joelhos na terra encharcada os milhares de criaturas de Deus que a fé levantava até ao Céu!”

O célebre Dr. Almeida Garrett, catedrático e escritor, esteve presente no dia e deixou narrado o que viu:

“Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos, sem um deslumbramento na retina que cegasse. Este fenômeno, com duas breves interrupções, em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos. Este disco tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.

“De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sangüíneo, avança sobre a terra, ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.”

SEGUNDA PARTE: “Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração…”

Depois dos prodígios tão admiráveis do dia 13 de outubro, quando toda a gente vira o sol bailar, suporíamos que Fátima ganharia o mundo, que o clero haveria de aderir em peso e aprovaria apressado o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Mas, não foi assim: o selo oficial de aprovação do clero a Fátima teria de esperar ainda treze anos. 

No ínterim, o governo maçônico fez de tudo para impedir aquilo que chamavam de “reação jesuíta” e denegrir o “fanatismo obscurantista”, que supunham tramado pelos curas para derrubar a República. O clero, por sua vez, não saía de sua prudente indiferença: o pároco de Fátima mesmo não cedia aos que pediam sua aprovação para a construção de uma capelinha no local das aparições, declarando não “querer se meter com estas coisas”; e quando a capelinha foi finalmente construída, por iniciativa exclusiva dos fiéis, nenhum padre quis benzê-la. Em Lisboa, num Congresso Católico, um conferencista referiu-se à Jacinta, que acabara de falecer, como uma vidente, o que suscitou uma gargalhada geral, a que se associou Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Antônio Mendes Belo. Mesmo a família de Lúcia, que num primeiro momento constatara aliviada o milagre do sol, retornava pouco a pouco à sua descrença e hostilidade inicial. “Ocorreu-me pensar que tudo estava terminado. Senti uma amargura profunda de ver que a Santíssima Virgem não seria jamais venerada lá, como havia pedido. Pensava freqüentemente nisso. Esta idéia não me saía do espírito e me afligia”, escreveria Lúcia.

Aparentemente, era preciso mais do que um baile solar para Fátima conquistar a Igreja. 

Morte do Francisco 

Nos fins de 1918, um surto de gripe pneumônica chegava a Portugal. Na Serra do Aire, os sinos da igreja repicavam diariamente dando notícia de mais algum vizinho que partia – eram tantos os óbitos que, em algumas aldeias portuguesas, o dobre de finados foi proibido para evitar o pânico.

Francisco adoeceu primeiro, e o seu estado era grave.

– Se Nossa Senhora te curar – dizia-lhe a madrinha – prometo oferecer-Lhe o teu peso em trigo.

– Não vale a pena. Nossa Senhora não lhe fará essa graça – respondeu o Francisco, com um sorriso angélico. E a todos que lhe asseveravam que haveria de melhorar, respondia com ar misterioso: não.

A doença progredia e o pequeno ardia em febre. O desfecho parecia iminente.

– Ô, pai, queria receber o Pai do Céu, antes de morrer.

– Já vou tratar disso – respondeu o bom homem, e partiu a toda pressa a chamar o padre.

O sacerdote ouviu-lhe a confissão. Quis saber se era verdade que tinha visto Nossa Senhora, e o pequeno respondeu que sim. No dia seguinte, Francisco fez sua primeira e última comunhão. 

– Olhe, mãe, que luz tão linda ali, junto da porta! – Foram estas as suas últimas palavras. Francisco sorriu, dum sorriso angélico. “O Céu aproximava-se”, e o menino voou “nos braços da Mãe celeste”17.

Morte da Jacinta

A morte da Jacinta, cercada de tantos pormenores tocantes, aponta para a mão da Virgem Maria a guiar os últimos dias do seu anjinho na terra. Ela contou à Lúcia que a Bela Senhora lhe tornara a aparecer para comunicar novas cruzes, disse que iria para dois hospitais e depois morreria sozinha: 

– Ô, minha Mãezinha do Céu, então eu hei de morrer sozinha? – lamentava-se Jacinta.

– Que te importa morrer sozinha, se Nossa Senhora te vem buscar? – animava-a Lúcia.

– É verdade, não me importa nada. Mas não sei como é: às vezes não me lembro que Ela me vai a buscar, só me lembro que morro sem tu estares ao pé de mim.

– Coragem, então, Jacinta. A ti já te falta pouco para ires para o Céu, mas a mim!

– Coitadinha! Não chores… Lá hei-de pedir muito e muito por ti… Tu ficas… mas é Nossa Senhora que quer assim. 

Abriu-se um abcesso no lado esquerdo, o pus escorria, o peito alagava-se e ela não conseguia dormir. Os tratamentos que Jacinta recebera ao longo de dois meses no hospital de Vila Nova de Ourém revelaram-se inúteis, e a morte era iminente. Os pais não cogitavam enviar a menina para a capital, não só porque lá os custos do tratamento seriam elevados demais, mas por acreditarem que era tudo inútil. Mas não foi isso o que a Providência estabelecera.

Por aquele tempo, apareceu em Aljustrel um senhor acompanhado da esposa; tratava-se de um médico de Lisboa. O casal vinha de adquirir um carro, e decidira que a primeira viagem com o veículo seria para a Cova da Iria. De passagem por Santarém, cumprimentaram o Rev. Dr. Formigão, que se dispôs a acompanhá-los, e foi assim que chegaram à casa da família Marto. Ao ver o triste estado em que a Jacinta se encontrava, o médico não sossegou até convencer a família a levá-la para a capital, onde seria tratada pelos melhores pediatras portugueses.

O pai foi comunicar sua decisão à filha, que respondeu:

— Ó, meu pai ! (…) Se eu for para Lisboa, o pai pode dizer-me adeus.

Ela não tardou a partir. Suas últimas palavras de despedida para Lúcia são comoventes:

— Nunca mais nos tornaremos a ver!… Reza muito por mim até que eu vá para o Céu; depois lá eu peço muito por ti. Não digas nunca o segredo a ninguém, ainda que te matem. Ama muito a Jesus e ao Imaculado Coração de Maria e faz muitos sacrifícios pelos pecadores.

Chegando a Lisboa, a pequena hospedou-se provisoriamente no Orfanato Nossa Senhora dos Milagres, situado na Rua da Estrela, enquanto aguardava o internamento no Hospital D. Estefânia. Sua mãe não pôde ficar com ela, pois seus outros filhos seguiam doentes, e Jacinta ficou sozinha.

Contudo, longe de ser um lugar lúgubre e triste, o Orfanato lhe dava grandes alegrias, pois a Santa Missa era celebrada diariamente numa capela contígua, o que permitia à serranita, levada ao colo pela Madre Superiora, comungar diariamente. Passava todo o tempo que lhe permitiam rezando e meditando na capelinha — rezava sentada, pois já não conseguia ajoelhar-se. 

No orfanato moravam vinte e cinco crianças, mantidas à custa de esmolas. Jacinta dava-se bem com todas, mas preferia uma em especial, que regulava em idade com ela. Costumava-lhe fazer breves pregações. A madre superiora, sempre atenta a tudo o que se passava, ouvia às ocultas a conversa da pastorinha:

— Não deves mentir, nem faltar nunca à verdade — dizia-lhe. — Não deves ser preguiçosa; deves ser muito obediente e suportar tudo por amor de Nosso Senhor com paciência, se queres ir para o Céu.

Madre Maria da Purificação Godinho era o nome da superiora — uma religiosa franciscana que se vestia com trajes seculares, pois as leis da República proibiam o hábito religioso. Todas as crianças, porém, costumavam chamá-la de madrinha, costume que Jacinta logo adotou. A sua nova madrinha narra admirada a sabedoria precoce da criança, como prova de que algo verdadeiramente sobrenatural tocava a pequenita. Eis algumas sentenças que a superiora compilou da boca da menina, e que denotam uma espiritualidade profunda:

Se os homens soubessem o que é a eternidade, faziam tudo para mudar de vida.

Os homens perdem-se, porque não pensam na morte de Nosso Senhor e não fazem penitência.

A confissão é um Sacramento de misericórdia. Por isso é preciso aproximarem-se do confessionário com confiança e alegria. Sem confissão não há salvação.

Os médicos não têm luz para curar os doentes, porque não têm amor a Deus.

Quem foi que te ensinou estas coisas? Perguntou-lhe a Madre Godinho.

— Foi Nossa Senhora: mas algumas penso-as eu. Gosto muito de pensar.

A serranita parecia possuir ainda o dom da profecia. Certa vez, sua mãe foi visitá-la no orfanato. Madre Godinho perguntou então a ti Olímpia:

— Gostava que tuas filhas Florinda e Teresa seguissem vida religiosa?

— Deus me livre! — respondeu a boa mulher.

Momentos depois a Jacinta, que não tinha ouvido a conversa da mãe com a Superiora, disse muito séria a esta última:

— Nossa Senhora gostava muito que minhas irmãs se fizessem freiras. Minha mãe não quer, mas por isso Nossa Senhora não tardará a levá-las para o Céu.

Assim foi: as duas meninas morreram pouco depois da Jacinta. Florinda tinha sete anos e Teresa, dezesseis.

Quando finalmente ingressou no hospital Dona Estefânia, de Lisboa, ninguém sabia que se tratava de uma das videntes de Fátima. As enfermeiras relataram que, à primeira vista, parecia uma criança igual às outras, mas não tardariam a perceber que havia qualquer coisa de muito especial naquela menina: “Esta menina era muito diferente das outras. Muito paciente… uma santinha! Jamais nós a ouvimos chorar, jamais nós a vimos aborrecer-se”. Jacinta foi operada no dia 10 de fevereiro, e o cirurgião, o Dr. Castro Freire, que também ignorava tratar-se da pastorinha de Fátima, testemunhou a paciência heróica da serranita, que não pôde ser cloroformizada por sua extrema fraqueza. Diz ele: “Para a abertura de uma fístula, a anestesia local está longe de suprimir todas as dores… as únicas palavras que a ouvi pronunciar durante a operação foram ‘Ai! Jesus! Ai! Meu Deus!’”. Na cirurgia, foram-lhe tiradas duas costelas do lado esquerdo, deixando uma abertura do tamanho de um punho.

Passada a operação, a Jacinta melhorava dia após dia. Contudo, no dia 20 de fevereiro, a menina pediu pelo Prior da freguesia, querendo confessar-se e receber os últimos sacramentos, dizendo que havia de morrer em breve. O padre, vendo-a tão bem, não entendeu o pedido e recusou. Jacinta ainda insistiu, mas sem sucesso. Horas mais tarde, morreu sozinha, como Nossa Senhora disse que morreria.

O cadáver da santinha foi levado provisoriamente para a Igreja dos Anjos, em Lisboa. Imediatamente, iniciou-se uma verdadeira romaria de fiéis que levavam terços e imagens para tocar nos vestidos da pastorinha. Passados três dias e meio do falecimento, a face da Jacinta conservava uma cor viva e corada, e o corpo exalava um perfume delicado, semelhante a um ramalhete de flores, coisa que não se poderia explicar naturalmente e que causou grande impressão na agência funerária. 

A família recebeu com grande emoção o comboio que chegava com o corpo da serranita. O pai da Jacinta narrou o episódio:

“Quando cheguei à Vila e vi aquele grupo de pessoas em volta do caixãozinho da minha filha… desatei a chorar como uma criança. Fiquei esgotado. Nunca chorei tanto!..

Nada te valeu! Nada te aproveitou!…

Foste aqui dois meses e depois foste para Lisboa…

E lá morreste sozinha!…”

Anos mais tarde, em 1935, o Sr. Bispo de Leiria decidiu trasladar os restos mortais da pequena vidente para um jazigo novo localizado no cemitério de Fátima. Antes da partida, porém, o caixão de chumbo foi aberto e, para surpresa de todos os presentes, o rosto da criança apresentava-se incorrupto.

Lúcia parte para as Dorotéias

Francisco e Jacinta já haviam morrido quando S.Ex.Rev.ma D. José Alves Coreia da Silva tomou posse da Diocese de Leiria 18. Um dos primeiros cuidados do novo bispo foi tirar Lúcia do local das aparições e mandá-la para um colégio distante — idéia que o Pe. Formigão acalentava desde o término das aparições. 

— Tu não dizes nada a ninguém para onde vais.

— Sim, Senhor Bispo — respondeu a pequena.

— No Colégio para onde vais não dizes quem és.

— Sim, Senhor Bispo.

— Nem dizes mais nada sobre as Aparições de Fátima.

— Sim, Senhor Bispo.

Esse procedimento não era sem razão: a menina expunha-se à graves perigos ficando em Fátima, tanto de ordem espiritual como físicos. Por aquele tempo, o clero mantinha certa distância dos acontecimentos, e Lúcia viu-se colocada no centro das atenções, alvo de incessantes interrogatórios e da adulação dos peregrinos. Por outro lado, não se deve diminuir o risco real de vida: a perseguição religiosa era intensa e fazia pouco que Sidónio Pais fora assassinado em Lisboa. A própria Lúcia sofrera ameaça de morte no ano de 192019.

Era preciso partir. Assim, por determinação do bispo, a pequenita deixou sua aldeia natal de madrugada rumo à cidade do Porto, sem se despedir de ninguém, nem informar aonde ia. A instrução era não retornar a Fátima, nem se corresponder com ninguém da aldeia.

Para uma menina que pouco se afastara de casa, a partida era dilacerante:

“Para onde o Sr. Bispo me quer levar, não sei como será, é com a condição de não voltar mais a casa, por isso não voltarei mais a ver a família, nem estes lugares benditos! Cova da Iria, Loca do Cabeço, Valinhos, Poço do Arneiro, a Igreja onde fica o meu Jesus Escondido e onde tantas graças tenho recebido! O sorriso da minha primeira Comunhão! Vila Nova de Ourém, onde fica a Jacinta, o cemitério onde ficam os restos mortais de meu querido pai e Francisco! Nunca mais voltar a pisar esta terra abençoada, para ir, sabe Deus para onde! Sem nem sequer poder escrever diretamente a minha Mãe! Impossível, não vou!”

Mas a menina de quatorze anos obedeceu, e partiu levando sobre os ombros a dura missão de espalhar a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Antes de subir no trem, na estação de Leiria, despediu-se comovida da mãe, que, sempre torturada pela dúvida, disse-lhe: “Vai, filha, que, se é verdade que viste Nossa Senhora, ela te guardará, mas se mentiste, então vais ser uma desgraçada.”20

Como Fátima conquistou a Igreja

Por todo o período que se sucedeu à série de aparições da Cova da Iria, o governo republicano português protagonizou uma verdadeira ópera bufa buscando impedir a repercussão dos acontecimentos. Não que suas intenções não fossem realmente hostis, mas eram acometidos de uma singular incompetência sempre que se lançavam contra Fátima.

O governo ordenou que a azinheira onde a Virgem aparecera fosse arrancada e arrastada a reboque de um carro pelas ruas da cidade, contando que este ultraje afastaria definitivamente o povo da nova devoção — foram pela noite e arrancaram… a árvore errada! Em seguida, foi a vez de uns livre-pensadores fazerem um comício contra as “fantochadas de Fátima” na saída da Missa paroquial. Chegado o dia, não encontram ninguém por lá — o Pároco havia transferido a Missa daquele dia para a Capela de Nossa Senhora de Urtiga. Para impedir as procissões, o governo lançava mão da Guarda Municipal e fechava nos dias 13 o trânsito para Fátima21. — Tudo inútil! O povo desvia caminho e chegava ao local das aparições atravessando as fazendas. 

Os guardas mesmos irritavam-se com as ordens que recebiam. Um deles declarou: 

— Se o senhor soubesse o que me custa estar aqui!… Cumpro ordens e cumpro-as à risca, mas creia que, cá por dentro, tudo isto me revolta. Eu sou religioso, senhor, e não compreendo que utilidade haja em estar a proibir essa pobre gente de ir rezar lá abaixo!… Isto até dá vontade de chorar!… Tenho uma irmã que foi a Senhora de Fátima que lhe salvou a vida22.

Não é tudo: em 1922, na ânsia de pôr um fim ao culto de Fátima, os maçons puseram bombas na capelinha das aparições bem como na azinheira — novo fiasco! A dinamite posta na azinheira não explodiu, e as demais apenas derrubaram o telhado da minúscula capelinha. O bispo de Leiria proibiu que fosse restaurada, pois raciocinava como Gamaliel: “se esta idéia ou esta obra vem dos homens, ela mesma se desfará; mas, se vem de Deus, não a podereis desfazer” (At 5, 38-39)

Enquanto tudo isso ocorria, de um extremo a outro de Portugal, desde as margens do Douro aos campos férteis do Algarve, almas atribuladas continuavam a vir a Fátima em busca de socorro para as suas angústias, remédio para as suas dores, lenitivo para os seus males. No ano mesmo do malogrado atentado ao santuário, quarenta mil peregrinos estiveram em Fátima. Dois anos depois, em 1924, o número aumentara para duzentos mil peregrinos — três vezes mais do que no milagre do Sol. Parecia que cada vez vinha mais gente, todos movidos pelas numerosas graças e milagres alcançados pela intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Maria da Capelinha narra que, por esse tempo, eram muitos os que vinham apenas para agradecer. Uma vez, viu um homem de Torres Novas chorando diante da azinheira. Havia muitos anos que tinha uma ferida na perna que deitava pus, e parecia não ter cura. Sua esposa veio de Fátima com um punhado de terra e, misturando a terra com água, pediu-lhe que a deixasse lavar a sua perna com aquela lama. O homem, que não tinha crença alguma, retrucou que sua perna precisava de asseio, não de sujeira. A mulher insistiu e terminou por dobrar a resistência do marido. Durante nove dias, lavou sua perna com aquela lama e, a cada dia, parecia-lhe que a ferida ficava menor. No nono dia estava perfeitamente curado. Converteu-se e partiu logo para a Cova da Iria — caminhando com os próprios pés, como fazia questão de dizer. Outra vez foi um tuberculoso de Tomar, também descrente. A mulher lhe fez beber um chá com a terra da Cova da Iria. Contrariado, ele bebeu, e curou-se inexplicavelmente. 

O Pe. Formigão, assíduo nas peregrinações populares, foi mais de uma vez testemunha de curas espantosas. Uma senhora de nome Helena Violeta, de Foz do Douro, paralítica das mãos e membros inferiores, foi a Fátima. Carregada então por religiosos servitas até a Imagem de Nossa Senhora, sentiu-se subitamente curada. Soltou-se dos braços dos religiosos e ajoelhou em fervorosa ação de graças à Virgem. Em seguida, tomada de alegria e exultação, pôs-se à correr em direção à capela das missas, para adorar e agradecer a sua cura a Jesus Sacramentado. 

“Não foi a Igreja que impôs Fátima à fé popular; foi Fátima que se impôs à Igreja”, declarou o Cardeal Cerejeira, patriarca de Lisboa. O que ocorreu após as aparições da Cova da Iria foi um milagre de Fé! Em face de tantas conversões, e do espetáculo edificante de tantos devotos que acorriam à Fátima, o clero começou a aderir. Já no ano de 1926, o Núncio Apostólico veio visitar o Mosteiro da Batalha e, por curiosidade, quis ir ao local das aparições. A impressão que lhe causou foi tamanha, que três meses depois, em 21 de Janeiro de 1927, Roma concedia a Fátima o privilégio da Missa Votiva. A partir daí, os bispos portugueses começaram, um a um, a visitar a Cova da Iria e, em 1930, finalmente, o bispo de Fátima-Leiria declarou como dignas de crédito as visões dos pastorinhos e permitiu oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.

A renovação de Portugal

Os acontecimentos da Cova da Iria ultrapassaram a piedade individual e adquiriram uma repercussão profunda no tecido social do país: “Quem tivesse fechado os olhos há vinte e cinco anos e os abrisse agora já não reconheceria Portugal, tão vasta foi a transformação operada pelo fator modesto e invisível da aparição da Santíssima Virgem em Fátima. De fato, Nossa Senhora quer salvar Portugal”, declararam os bispos portugueses numa Pastoral Coletiva.

O renascimento católico que se seguiu aos acontecimentos de 1917 foi espantoso. As vocações dispararam: quase quadruplicou o número de religiosos num período de dez anos, enquanto os seminários encheram-se. Na diocese de Portalegre, por exemplo, havia 18 seminaristas em 1917; anos depois, em 1933, o número aumentou para 201. Na pequena diocese de Leiria, o seminário estava fechado nos tempos das aparições: dez anos mais tarde fora reaberto e contavam-se 75 seminaristas. No bastião católico do norte, o que ocorreu foi uma explosão de vitalidade: só em Braga o número alcançou 478 seminaristas. Ao lado de tudo isso, a imprensa e o rádio católico desenvolviam-se, bem como os retiros e outras obras de apostolado. 

A romaria a Fátima era cada vez mais concorrida: em 1937, o número de peregrinos na primeira grande peregrinação nacional chegou a meio milhão. O escritor William Thomas Walsh narrou o que viu:

“Entre as estrofes, elevavam-se súplicas individuais e esperanças incontidas, às vezes entremeadas de soluços comovedores: ‘Senhor, nós Vos adoramos!’, ‘Senhos, nós Vos amamos!’, ‘Jesus, tende piedade de nós!’, ‘Senhor, se quiseres, podes curar-me!’ Sim, essas vozes pareciam pertencer a outros tempos mais sinceros e mais ardorosos que o nosso. Pareciam vir das planícies de Esdrelon, das muralhas de Jericó e de Constantinopla, dos campos de Túnis, como pulsações da fé e da dignidade humana, irrompendo através da mediocridade e do nivelamento rasteiro da idade da máquina.” 23

Essa renovação espiritual repercutiu politicamente com a subida pacífica ao poder de um grande líder, António de Oliveira Salazar, que conduziu um programa verdadeiramente católico e contra-revolucionário. Adversário encarniçado do socialismo e do liberalismo, Salazar combatia tudo o que militava contra a família, e contribuiu para fazer do seu país, tido como o mais instável e caótico da Europa, no mais estável de todos — note-se que, entre 1910 e 1926, quarenta e cinco governos haviam se alternado, e o país via-se afundado em dívidas com uma inflação descontrolada. Com Salazar, Portugal viveu em paz, e foi preservado tanto do contágio comunista, que levou a vizinha Espanha a uma terrível guerra civil, como dos horrores da Segunda Guerra Mundial 24. Os estrangeiros que chegavam da Itália, Inglaterra ou França no início dos anos 40, não acreditavam no que viam: enquanto o continente vivia o horror, e boa parte da população viril era ceifada, nas cidades portuguesas a rotina seguia tão inalterada como antes. “O que teve lugar em Portugal proclama o milagre”, declarou o Cardeal Cerejeira, “e prefigura o que o Imaculado Coração de Maria preparou para o mundo”. 

Vilar, Porto (1921-1925)

Num subúrbio do Porto, ao lado de uma fábrica, ficava o Instituto Arcediago van Zeller, colégio destinado à educação de moças e administrado pelas senhoras dorotéias. A Ordem de Santa Dorotéia fora fundada em 1834 por Santa Paula Frassinetti (1809-1882) e aprovada por Pio IX, em 1863. Contando com doze estabelecimentos em Portugal, a ordem estava solidamente estabelecida quando sobreveio a revolução de 1910. A partir de então, perseguidas e maltratadas pelos republicanos, as irmãs foram impedidas de usar os hábitos religiosos e viram a maior parte dos seus estabelecimentos ser fechada pelo novo governo. 

Um dos poucos remanescentes era o Colégio do Vilar, cuja superiora chamava-se Madre Maria das Dores Magalhães. Pouco simpática às aparições de Fátima — que ainda não haviam sido aprovadas por aquele tempo — chegou a pedir a Dom José que a dispensasse da obrigação de receber a vidente, pois temia que contaminasse as outras com os modos rudes da gente do campo. “Sim, é uma simples — respondeu-lhe o bispo — mas não creio que vá achá-la simplória. E desejo que a pequena fique aí por uns tempos.”

A primeira impressão que Lúcia causou não foi exatamente favorável, e a madre superiora julgou que seus temores se mostrariam justificados. O confessor do Instituto, Pe. Manuel Pereira Lopes, mudou o nome da menina e tratou de lhe passar severas recomendações: 

— A menina agora muda de nome. A Senhora Diretora tem gosto que fique com o seu, por isso fica a chamar-se Maria das Dores. Se lhe perguntarem de que terra é, diz apenas que é de perto de Lisboa e nada mais. Não fale de Fátima, nem da sua família, nada.

Apesar da tristeza inicial, em que tudo parecia “uma sepultura em vida”, como ela mesma escreveu, a nova vida não iria desagradá-la de todo, sobretudo por ter-se livrado do interrogatório incessante dos curiosos. A rotina era rígida e bem diferente da que levava em Aljustrel: 5:30 despertar; 6:00 meditação; 6:30 missa e comunhão; 7:30 arrumação do dormitório; 7:45 café da manhã; 8:00 aulas e trabalho; 12:00 visita ao Santíssimo Sacramento; 12:15 almoço; 12:45 recreação; 13:30 aulas e trabalho; 16:30 lanche e recreação; 17:00 estudo e trabalho; 19:00 terço; 19:30 jantar; 20:00 recreação; 20:30 oração da noite e dormir. A Lúcia dormia num dormitório coletivo, mas isso não lhe impediria de manter suas práticas de mortificação, como a corda que trazia à cinta desde os tempos de pastorinha. 

Pouco a pouco, a menina perdia seus modos rudes, tornava-se uma boa aluna e conquistava a todos. Eis como a madre superiora a descreveu numa carta ao bispo de Leiria:

“Ao que pese minha total falta de crédito às aparições, observei que não era uma moça comum. Muitas vezes, as irmãs vinham dizer-me que Lúcia tinha qualquer coisa de extraordinário com Nossa Senhora, pois, quando falava dela, era sempre diferente das outras e percebia-se que possuía um amor extraordinário pela Santíssima Virgem. Suas companheiras do Asilo costumavam dizer que não havia quem a igualasse nas bonitas histórias que costumava contar durante o recreio”.

Sim, como em Aljustrel, onde Ti Maria Rosa exclamava “Não sei que atrativo possas ter; as crianças correm para junto de ti como se fossem para uma festa!” 25, Lúcia atraía para junto de si as moças do Asilo do Vilar que se encantavam com sua personalidade e suas histórias. Contudo, jamais falava sobre os acontecimentos que vivera em Fátima. Quanto a isso, nem uma palavra. Sua obediência era heróica: apesar de ter visto Deus Nosso Senhor e a Santíssima Virgem com os próprios olhos, e de tudo isto explodir em seu coração, a moça jamais tocou no assunto para as demais moças do Instituto. Mesmo com a mãe, que a visitou duas vezes, nunca falou a respeito. 

“Quanto à obediência”, continua a Madre superiora, “ela sempre se distinguia, pois fazia tudo muito bem, sem torcer o nariz, sempre de bom coração. Várias vezes, suas companheiras me disseram que Lúcia costumava escolher para si o trabalho menos agradável, deixando os melhores às demais. E fazia tudo com uma simplicidade encantadora.”

O silêncio a respeito das aparições era tão absoluto, que Madre Magalhães veio a supor que a menina havia se esquecido de todo do ocorrido. Para investigar, perguntou-lhe: 

— Lembras do que se passou em Fátima, entre Nossa Senhora e tu? 

A menina baixou os olhos e, ruborizada, respondeu simplesmente: 

— Se me lembro? Penso nisso a todo tempo. 

Pontevedra (10/1925-7/1926) – A devoção reparadora dos cinco primeiro sábados

O seu fervor deixava entrever uma vocação. “Suas companheiras dizem amiúde que não há menina mais piedosa e que a capela era onde mais se regozijava, tamanha era sua piedade. Lá, nunca a víamos sentada, mas longe do assento, com as mãos postas sobre o banco. Esta era a sua atitude, que encantava”, escreveu a Madre superiora. E, segundo uma companheira de colégio: “Observá-la na capela, era observar um anjo!“.

Quando a Lúcia procurou-a querendo entrar em religião, a madre pediu que esperasse, e passou-se um ano. Completos dezoito anos, porém, sua superiora interrogou-a se ainda pensava tornar-se religiosa. “Eu desejo, eu quero!”, explodiu a Lúcia. A menina queria entrar no Carmelo de Lisieux, como sua querida Santa Teresinha, mas a madre dissuadiu-a. “Não tens bastante saúde para tais austeridades, filha”. Na sua humildade, Lúcia aceitou esse conselho como se fosse a palavra mesma de Deus e, depois de refletir um pouco, pediu que fosse aceita na própria instituição das Irmãs de Santa Dorotéia, o que alegrou bastante a madre superiora e o bispo de Leiria, Dom José. 

Assim, tomou o trem e cruzou a fronteira de Espanha em outubro de 1925, para o Convento de Tuy, antiga cidade da Galícia, onde as dorotéias portuguesas exiladas estabeleceram seu noviciado poucos anos antes. Tão logo chegou, a Madre provincial conduziu-a à Capela e lhe pediu consagrar-se inteiramente a Nosso Senhor: “Meu Jesus! Eu me abandono toda a Vós. Minha Mãe do Céu, cuidai de mim”. O período de postulado, contudo, Lúcia o faria numa outra casa das dorotéias, na cidade de Pontevedra, distante três horas de carro, para onde seguiu dois dias depois.

A velha casa de Pontevedra não era a mais apropriada às exigências da sua vocação, pois, por também servir de internato a barulhentas crianças, não encontrava nela o recolhimento que desejava. Se isso a consternava tremendamente, era ocasião de oferecer novos e dolorosos sacrifícios a Nosso Senhor. Por aquele tempo, escreveu então ao seu confessor, o Pe. Pereira Lopes: “Estou feliz e não quero outra coisa senão tonar-me uma santa para maior honra e glória de Deus, para obter a salvação dos pobres pecadores e em reparação dos meus pecados”. 

A correspondência entre a superiora do instituto e o bispo de Leiria, Dom José, mostra que a postulante já tinha fama de santidade: 

“Quanto a mim, considero uma graça tê-la aqui por estes cinco meses de preparação, e conto mesmo que, por meio dela, Nossa Senhora concederá bênçãos especiais para esta casa. E para ser bem franca com Vossa Excelência, devo confessar que eu mesma já recebi grandes graças! 

“(…) Rogai a Nosso Senhor para que eu aprenda com ela a ser boa, para que ao menos na minha velhice eu seja aquilo que já deveria ser, depois de tanto tempo de vida religiosa. Por vezes, envergonho-me ao lado dela.”26

Foi na noite de 10 de dezembro de 1925 que a Santíssima Virgem dignou-se visitar mais uma vez a sua protegida, imersa então num mar de angústias. O quarto alumiou-se de repente e Lúcia viu-se diante da Virgem. Esta pousou docemente sua mão maternal no seu ombro, como que para encorajá-la, ao passo que mostrava o coração cravejado de espinhos na outra mão. O Menino Jesus, que a acompanhava, disse-lhe:

– Tem pena do Coração de tua SS. Mãe que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam sem haver quem faça um acto de reparação para os tirar.

Eis aqui, nas palavras de Nosso Senhor, o fim desta devoção: reparar pelos pecados e consolar Nossa Senhora. A comunhão deve ser feita com o propósito de desagravar o Imaculado Coração de Maria27. Sem esta intenção, insiste o irmão Marie des Anges, todo o resto perde valor.

A Santíssima Virgem, por sua vez, falou:

– Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante 5 meses, ao 1.° sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.

Refletindo sobre o que viu, escreveu a Lúcia:

“Depois desta graça, como poderia me subtrair do mais pequeno sacrifício que Deus quisesse me pedir? Para consolar o Coração da minha querida Mãe do Céu, ficava contente em beber até a última gota do cálice mais amargo.

“Quereria sofrer todos os martírios para reparar o Coração Imaculado de Maria, minha querida Mãe, e um por um tirar-lhe todos os espinhos que o dilaceram, mas compreendi que estes espinhos são o símbolo dos numerosos pecados que vão contra o Filho, trespassando o Coração da Mãe. Sim, porque por eles, muitos outros filhos se perdem eternamente.” 28

É espantoso pensar o quanto nos é prometido com a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados. A parte que nos cabe, porém, não poderia ser mais modesta – dir-se-ia que em tempos tão ingratos, o Céu reduziu suas exigências ao mínimo. Cinco sábados, poucas horas se somarmos tudo, em troca da promessa sem igual de não sermos reprovados. Uma devoção para tempos de apostasia. 

No entanto, é preciso dizer que costumamos considerar a devoção reparadora desde a ótica dos benefícios prometidos, e esquecemos que se trata de um pedido de Nossa Senhora: “virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados”, foram as suas palavras. Quem sabe não foi pela negligência em se atender a este pedido que a Rússia jamais foi consagrada ao Imaculado Coração? Nesse sentido, o Cardeal Alfredo Schuster comparava essa devoção a uma grande cruzada, e dizia que o que foi Lepanto contra o crescente deveria ser Fátima contra a foice e o martelo.

Apesar de não ter sido expressamente dito nas comunicações de Nossa Senhora, está no espírito de Fátima que esta devoção seja utilizada em prol da salvação dos nossos amigos e familiares – assim compreendia a Irmã Lúcia, que fazia todo mês a comunhão reparadora. Ela escreveu a propósito desta devoção: “Os Santíssimos Corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto, porque se servem dele para atrair as almas, e é este todo o seu desejo: Salvar almas, muitas almas, todas as almas.”

Infelizmente, a Devoção reparadora dos primeiros sábados jamais recebeu um ato oficial de aprovação ou incentivo, quer da hierarquia portuguesa 29, quer de Roma. Há pior: a própria vidente viria a ser proibida de falar a respeito durante os pontificados de João XXIII e de Paulo VI 30

Tuy – A consagração da Rússia

Em 1926, a Irmã Maria das Dores foi abruptamente transferida para o noviciado de Tuy, após externar mais uma vez o desejo de fazer-se carmelita. Não era sem rigores a vida das irmãs – todas lançavam mão regularmente de uma dura rotina de cilícios e flagelos 31 – mas isso não era suficiente para a vidente de Fátima, que aspirava pelo perfeito recolhimento e obscuridade da vida de clausura. Dom José, bispo de Leiria, e a superiora das dorotéias não concordaram com seus anseios e a religiosa aquiesceu, pensando “Vontade de Deus, tu és o meu Paraíso!”

O Pe. Formigão, que a visitou por esse tempo, escreveu numa carta a seu respeito:

“A pequena continua a mesma, como tu a conheceste. Ela tem uma simplicidade e uma humildade admirável. Que piedade profunda, tão admirável e tão alegre! Que espírito extraordinário de obediência! Que amor do sacrifício e da mortificação!”

Atribuem-se milagres a ela durante esse período. Por exemplo, a cura de uma criança de três anos, de nome Teresinha do Menino Jesus, filha de um cônsul português, que sofria fortemente por conta de dois tumores. A intervenção cirúrgica não lhe servira de nada, e os pais angustiavam-se tremendamente. Lúcia tomou conhecimento da grave doença da criança e procurou os pais para dizer-lhes que não deviam se afligir, pois Teresinha ficaria boa. “Foi neste momento”, escreveu o pai, “que se deu um fenômeno inexplicável para nós. Durante a noite, e contrariamente ao que previa o doutor, tudo desapareceu: a febre, o tumor, o inchaço da perna. Quando nós vimos nossa filha pela manhã, tão desfigurada e tomada de febre poucas horas antes, e agora sem traços do mal que durante três meses a atormentou, ficamos verdadeiramente estupefatos! Teresinha ria e queria ir no chão”. O médico não ficou menos surpreso e declarou que não havia explicação natural para o fato.

No entanto, o grande favor do Céu que obteve em Tuy, e que marcaria definitivamente não apenas a sua própria vida, mas todo o nosso século, foi a Teofania do dia 13 de junho de 1929. Neste dia, dirigiu-se para a capela para fazer sozinha a hora santa. Estava tudo escuro, exceto pela luz de uma lamparina. De repente, contudo, toda a Capela iluminou-se com uma luz sobrenatural, e sobre o Altar apareceu uma Cruz que se erguia até o teto. Irmã Lúcia viu então a Santíssima Trindade, recebendo luzes que, conforme disse, não lhe era permitido revelar. Nosso Senhor pendia na cruz, tendo por cima uma pomba a representar o Espírito Santo e Deus Pai. Sangue pingava das faces do Crucificado e duma ferida do seu peito numa hóstia, e desta para um cálice. No lado direito, Nossa Senhora com seu Imaculado Coração cravejado de espinhos e ardendo num fogo, do outro lado, umas letras grandes que diziam “Graça e Misericórdia”. Nossa Senhora disse-lhe em seguida:

– É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre que faça, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora.

Aqui também se trata de um pedido de reparação: este é um dos sentidos profundos da Consagração da Rússia. Como escreveu a irmã ao seu confessor, o Padre Gonçalves; “Se não me engano, o bom Deus promete pôr fim à perseguição na Rússia, se o Santo Padre se dignar fazer, e ordenar aos bispos do mundo católico igualmente de fazerem um ato solene e público de reparação e de consagração aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria (…)”. 

Como escreveu um autor, a tomada de um país pelo comunismo é comparável à possessão de um demônio sobre um corpo. A Rússia foi desde o início o instrumento de Satanás para o castigo do triste século XX: Já em 1918, a Igreja foi praticamente declarada ilegal. No mesmo ano, surgiam os primeiros campos de concentração e tinha início a deskulakização. Escreveu Pio XI sobre a Rússia:

“A recrudescência e a publicidade oficial de tantas blasfêmias e impiedades requerem a mais universal e solene das reparações. Durante as últimas festas de Natal, não apenas muitas centenas de igrejas foram fechadas, inúmeros ícones foram queimados, mas os trabalhadores e estudantes foram todos obrigados a trabalhar; os domingos foram suprimidos, e chegou-se a obrigar os trabalhadores das usinas, homens e mulheres, a assinar uma declaração formal de apostasia e de ódio contra Deus, sob pena de serem privados de suas cartas de pão, vestuário e alojamento, sem as quais todo habitante dessa nação infeliz é reduzido a morrer de fome, miséria e frio.” 32

A promessa relacionada à Consagração da Rússia seria meramente a do fim da União Soviética? O Pe. Alonso, maior estudioso de Fátima, explica: “É preciso afirmar que Lúcia sempre julgou que esta conversão não se resume ao retorno do povo russo à religião ortodoxa, com a rejeição do marxismo ateu dos soviéticos. Antes, refere-se pura, simples e totalmente à conversão total da Russia à única verdadeira Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica.” 33

Por que a necessidade de uma consagração? Ou, por outra, por que o bom Deus não converte a Rússia sem o concurso dos homens? Eis o que explicou Lúcia:

“(…) intimamente tenho falado a nosso Senhor do assunto e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração.

– Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o seu culto, e pôr ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção desse Imaculado Coração.”

Assim como fizera com os cinco sábados, propondo um meio fácil para a salvação das almas, Nosso Senhor depositou nas mãos de seu Vigário o poder de repelir o grande flagelo do nosso tempo, mas, infelizmente!, nenhum papa desde Pio XI valeu-se dele: a Rússia nunca foi consagrada solenemente em união com todos os bispos do mundo 34. Por essa razão, ela não se converteu, nem o Imaculado Coração de Maria foi exaltado.

Irmã Lúcia adoeceu no ano de 1930 e, para repousar, foi enviada por suas superioras a uma pequena cidade marítima nas proximidades, de nome Rianjo. Foi provavelmente numa capela dedicada a Nossa Senhora, que ouviu esta terrível reprimenda do Céu: “Faça saber aos meus ministros que, dado que seguem o exemplo do rei de França retardando a execução do meu pedido, eles o seguirão no infortúnio. Jamais será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria.” 35

A verdade é que naquele mesmo ano, como nota o Irmão François de Marie des Anges, os castigos começam a ocorrer. Na Espanha, a revolução anti-monárquica levou a maçonaria ao poder, fazendo com que a lepra bolchevique se alastrasse pela Península Ibérica. Não passariam cinco anos até o terrorismo vermelho começar a destruir igrejas e conventos na Espanha, enquanto manifestantes desfraldavam bandeiras vermelhas nas ruas, aos gritos de Viva Rusia! 

Foi ainda naquele período que Moscou começou a instruir os partidos comunistas a infiltrarem os seminários católicos, a fim de minar a Igreja desde dentro. 

O Terceiro Segredo

Nos anos 30, a verdadeira identidade da Irmã Maria das Dores não era segredo para mais ninguém, e o Convento de Tuy começou a ser muito requisitado por devotos e curiosos. Para cúmulo, as superioras muitas vezes aquiesciam aos visitantes e faziam com que Lúcia fosse aqui ou ali apenas para exibi-la. Por essas razões, o desejo de se retirar para trás das grades do carmelo tornou-se dominante, mas ainda não seria dessa vez que a religiosa subiria esta montanha santa, pois, movidos talvez pelo desejo muito humano de ter no seu instituto a vidente de Fátima, suas superioras não acediam às suas aspirações. À Lúcia restava o consolo da sabedoria de Santa Gemma Galgani: “um pouco mais de morte para ti mesma, e teus problemas não serão nada”. 

Escreveu então:

“Ofereci-me, desejando ser aceite, para, enquanto que o Senhor me não abre as portas do Claustro, ir a terras africanas, ao lado dos Missionários, levar às almas o Amor que abrasa, a Esperança que fortifica, a Fé que guia e eleva da terra ao Céu! – Ir com a Divina Pastora, conduzir as ovelhas às pastagens verdejantes, onde correm as águas cristalinas da eterna fonte.”

É admirável como algumas passagens do seu diário remetem-nos as mais belas páginas de Santa Teresinha:

“Mas não me explico, como sinto em mim aspirações tão opostas! Contente voaria pelos sertões da África, em conquista das almas dos meus queridos Irmãos distantes, e chego até a invejar os que têm essa sorte. Feliz me imolaria nos hospitais junto dos membros doloridos de Cristo, para, com os meus serviços, lhes prestar toda a classe de alívios. Mais feliz ainda me enterraria nas leprosarias, colhendo os gemidos da Humanidade em decadência, oferecendo-os a Deus como vítimas expiatórias pelos pecados do mundo.

“Gostaria de adquirir todas as ciências para transmiti-las às almas como reflexo da eterna Sabedoria, fonte donde emana toda a luz da inteligência e ciência adquirida, e poder assim elevá-las do rasto da terra, à luz do sobrenatural! Mas pobrezinha de mim que nada sou e nada tenho! Levanto-me do próprio nada e, na união da minha alma com Cristo, encontro tudo, porque é das profundezas da abjeção que Deus me eleva às alturas do sobrenatural, é pela humildade que se desce ao fundo do Oceano, é aí que se encontra a Luz, a força, a alegria e onde Deus concede a graça de atingir o cume do Amor! Daí o meu ardente desejo de imolar-me a sós com Ele no silêncio dum claustro, onde possa dar-Lhe tudo numa união mais perfeita, num encontro mais íntimo pela Igreja minha Mãe e pelas almas dos meus queridos Irmãos.” 36

No ano de 1943, Lúcia foi acometida de grave pleurisia: escarrava sangue, assim como a santa de Lisieux, e a febre não lhe deixava. O risco de morte era grande:

“Escrevo na cama, onde estou já há 17 dias com febre bastante alta… Talvez que tudo isto seja o princípio do fim, e estou contente”, escreveu então a Dom José, bispo de Leiria. “É bem que, à maneira que a minha missão na terra vai acabando, o bom Deus me vá preparando os caminhos para o Céu.” 

O Cônego Galamba, no entanto, desejoso de conhecer e fazer conhecer a mensagem de Fátima, inquietava-se, temendo que a vidente viesse a morrer sem nunca revelar a parte final do Segredo. Por isso, renovou suas instâncias para que o bispo a fizesse escrever, e assim, no dia 15 de setembro de 1943, Dom José sugeriu à vidente que, se quisesse, colocasse por escrito a terceira parte do segredo. A vidente respondeu que, para fazê-lo, precisaria receber do bispo uma ordem formal, pois não tinha recebido ainda “autorização de Nosso Senhor” para revelá-lo.

Como persistisse uma infecção purulenta na sua perna, Irmã Lúcia teve de ser hospitalizada e submetida a uma cirurgia. Temendo que, sob a medicação, fizesse alguma indiscrição a respeito do Segredo, pediu para não receber anestesia geral – mas os médicos não concordaram. A operação transcorreu bem e não demorou para a vidente retornar a Tuy. Escrevia então no seu diário:

“Se o Bom Deus não tiver algo a mais a me pedir ou se não agravar a doença que me enviou, dentro em pouco poderei começar a trabalhar. Mas que Ele faça o que quiser. Não Lhe peço nem a saúde, nem a doença, nem a vida, nem a morte. Que me envie o que mais Lhe agradar!”

Em novembro de 1943, a religiosa finalmente recebeu de Dom José Correia da Silva uma ordem formal para redigir o terceiro segredo. Mas algo estranho se passou. Muito embora não sentisse nenhuma dificuldade para escrever sobre qualquer assunto, por mais que tentasse registrar o Segredo, nada saia do papel. “Ainda não escrevi o que V.Exª.Rev.ma me mandou: já o intentei cinco vezes e não fui capaz”, escreveu então a Dom José; “não sei o que é, no momento de pousar a pena no papel, põe-se-me a mão a tremer e não sou capaz de escrever letra alguma: parece-me que não é nervoso natural, porque no mesmo instante passo a escrever outra coisa diferente e tenho a mão firme”. Concluiu: “Mas, quem sabe, será o demônio que me queira impedir este ato de obediência?”

Passaram-se semanas nessa agonia. Até que uma tarde, estando a sós na capela durante uma visita ao Santíssimo, o rosto mergulhado entre as mãos, sentiu que lhe tocava o ombro a mão amiga da Rainha do Céu:

– Não temas, quis Deus provar a tua obediência, Fé e humildade. Está em paz e escreve o que mandam, não porém o que te é dado entender do seu significado. Depois de escrito, fecha-o e lacra-o e escreve por fora, que só pode ser aberto em 1960, pelo Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Sr. Bispo de Leiria.

Continua a Lúcia descrevendo o que sentiu:

“Senti o espírito inundado por um mistério de luz que é Deus e Nele vi e ouvi, – A ponta da lança como chama que se desprende, toca o eixo da terra, – Ela estremece: montanhas, cidades, vilas e aldeias com os seus moradores são sepultados. O mar, os rios e as nuvens saem dos seus limites, transbordam, inundam e arrastam consigo num redemoinho, moradias e gente em número que não se pode contar, é a purificação do mundo pelo pecado em que se mergulha. O ódio, a ambição provocam a guerra destruidora! Depois senti no palpitar acelerado do coração e no meu espírito o eco duma voz suave que dizia: – No tempo, uma só Fé, um só Batismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica. Na eternidade, o Céu! Esta palavra Céu encheu a minha alma de paz e felicidade, de tal forma que quase sem me dar conta, fiquei repetindo por muito tempo: – O Céu! O Céu! Apenas passou a maior força do sobrenatural, fui escrever e fi-lo sem dificuldade, no dia 3 de janeiro de 1944, de joelhos, apoiada sobre a cama que me serviu de mesa.” 37

O escrito foi entregue ao Bispo devidamente envelopado. Este, temeroso com a alta responsabilidade que lhe incumbia, não queria lê-lo, o que levou a irmã fazê-lo prometer que abriria o envelope antes de 1960 ou assim que ela morresse, o que ocorresse primeiro. 

Por que o ano de 1960? O Cardeal Silvio Oddi, outrora Prefeito da Congregação para o Clero, tratou da questão:

“Que ocorreu em 1960 que poderíamos relacionar com o Segredo de Fátima? O evento mais importante foi sem dúvida o início da fase preparatória do Segundo Concílio Vaticano. Assim, eu não me surpreenderia se o Segredo guardasse alguma relação com a convocação do Vaticano II… Não me surpreenderia se o Terceiro Segredo fizesse alusão a tempos obscuros para a Igreja, graves confusões e apostasias perturbadoras dentro do próprio Catolicismo… Se considerarmos a grave crise por que temos passado desde o Concílio, os sinais de que esta profecia foi cumprida não parecem faltar…”

Diz ainda o mesmo cardeal que o Segredo não tem nada a ver com Gorbatchev: “a Santíssima Virgem nos alertou sobre a apostasia na Igreja”. 

Essa também é a opinião do Cardeal Mario Luigi Ciappi, teólogo da Casa Pontifícia, que escreveu: “No terceiro segredo se prevê, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começará do seu ponto mais alto”.

Também parece ser este o pensamento do Cardeal Alfredo Ottaviani, que leu o Segredo e foi a Portugal entrevistar a Irmã Lúcia: “Eu tive a graça e o dom de ler o texto do terceiro segredo. […] Posso lhes dizer apenas isto: que virão tempos muito difíceis para a Igreja e que é preciso muita oração para que a apostasia não seja grande demais”.

O texto então tem relação com o Concílio? O jornalista Antonio Socci relata que João XXIII encontrou-se nos primeiros meses do seu pontificado com o Cardeal Fernando Cento, antigo núncio em Portugal, e tratou-se da leitura do Segredo: 

“… João XIII disse: ‘Não, espere’. Primeiro, ele queria anunciar a convocação do Concílio Vaticano II, quase como se quisesse colocar perante o Céu um fait accompli (…)

“João XXIII inquietava-se e quis adiar a leitura do Segredo obstinadamente, para o caso de ele conter algo que desaconselhasse este anúncio. Evidentemente, Roncalli quis tomar esta enorme decisão para a Igreja sem ser ‘influenciado’ pela Mãe do Bom Conselho, sem ser iluminado pela Rainha dos Apóstolos, sem ser assistido pela Mãe de Deus, pela Mãe da Divina Graça, pelo Auxílio dos Cristãos. Assim, depois que o anúncio foi feito, depois que a sua própria vontade foi realizada, João XXIII consentiu: agora que tudo já foi decidido, podemos ver o que a Senhora de Fátima disse.”38

Era então grande a expectativa do mundo católico, pois aproximava-se a data prevista para a revelação do segredo. Os bispos italianos vinham de consagrar solenemente o seu país ao Imaculado Coração de Maria e a devoção à Nossa Senhora do Rosário de Fátima ganhava o mundo. Acompanhado do seu confessor e de um tradutor de português, o papa leu o Segredo com desgosto: “isto não se refere ao meu pontificado”, resmungou. Pouco depois, por meio de um comunicado do Vaticano, foi anunciado que o Segredo não seria revelado, pois “[a Igreja] não deseja tomar a responsabilidade de garantir a veracidade das palavras que os três pastorinhos disseram ter ouvido da Virgem Maria” 39. Todo esse episódio serviu para lançar o descrédito nas aparições de Fátima. Em Portugal, o Cardeal Cerejeira, autoridade maior da hierarquia católica portuguesa, ficou sabendo de tudo pelos jornais, como se fosse um fiel qualquer. 

Anos antes, porém, o Cardeal Eugenio Paccelli havia compreendido a gravidade do que estava em jogo: 

“Suponha que o Comunismo foi somente o mais visível dos instrumentos de subversão usados contra as tradições da Revelação Divina. As mensagens da Santíssima Virgem à Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma. Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-La ter remorsos do Seu passado histórico. Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: – Para onde O levaram?”

O silêncio

Em março de 1948, Irmã Lúcia finalmente foi recebida no Carmelo de Coimbra – percebendo que o recurso aos seus superiores era inútil, teve de escrever uma carta ao próprio papa pedindo autorização para transferir-se, procedimento esse que lhe foi causa de grandes angústias. Ela chegou no mosteiro às cinco da manhã, e entrou “como os israelitas, muito cedinho antes do nascer do sol, para colher o maná no deserto”. A comunidade recebeu-a em absoluto silêncio. Uma a uma, as irmãs abraçaram-na com um amável sorriso, e seguiram para o coro: “Como é doce, sobretudo nestes dias, a solidão, o recolhimento, e o silêncio aos pés do Sacrário! Mistério admirável, diante do qual se esquecem todos os sofrimentos, todas as penas, todas as amarguras, porque nada há que se possa comparar às penas e dores do nosso Deus!”, escreveu a nova flos carmeli. 

Acompanhada da prioresa, uma espanhola de nome Madre Maria do Carmo, a Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado (este foi o nome que tomou ao receber o santo hábito) conheceu a sua célula, na qual uma grande cruz vazia dominava a parede branca:

– Sabes por que esta Cruz está aí na parede sem o Cristo?

E sem que a nova carmelita tivesse tempo de responder, completou:

– É para que te crucifiques nela.

*

Iniciava um longo período de reclusão de que pouca notícia temos. A vidente que se afastara do contato externo pela reclusão do carmelo, foi “desligada” por uma imposição romana em 1959. Não apenas estava proibida de falar do conteúdo do Segredo, como não poderia receber ninguém sem licença de Roma – nem mesmo o Cônego Galamba ou o Padre Aparício, seu antigo confessor, poderão falar com ela – apenas seus familiares estavam excetuados. Enquanto isso, sem que pudesse se defender, uma campanha de difamação era desferida contra as aparições por padres modernistas em periódicos tão importantes quanto o Civiltá Cattòlica.

Até hoje, dezessete anos após a publicação do Terceiro Segredo, seguem proibidas a publicação da entrevista da vidente com o Pe. Joseph Schweigl, bem como a obra monumental do Padre Alonso, maior especialista em Fátima. Seguem inéditas as cartas da vidente aos papas, os quatro volumes dos seus diários bem como um livro redigido por Lúcia no ano de 1955 e remetido à Santa Sé. O que querem nos ocultar?

Um livro posteriormente publicado, chamado Apelos da Mensagem de Fátima40foi minuciosamente “revisado” por Roma, e há uma razoável dúvida a respeito da autenticidade de diversos escritos e declarações que lhe foram atribuídas no final de sua vida. 

Por essas razões, a sua entrevista com o Pe. Fuentes, de 1957, é considerada por alguns como a última sem restrições da vidente de Fátima, e seu testamento. Os trechos seguintes são dela:

“Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, e não uma coisa alegre, se, antes, o mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados. Esta é a terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora, que ficará em segredo até 1960 (…)

“Senhor Padre, o demônio está travando uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E como o demônio sabe o que é que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também as almas dos fiéis desamparadas pelos seus chefes, e mais facilmente se apodera delas.

(…)

“Senhor Padre, eis por que a minha missão não é indicar ao mundo os castigos materiais que certamente virão se antes o mundo não rezar e se sacrificar. Não! A minha missão é indicar a todos o perigo iminente em que estamos de perder as nossas almas para toda a eternidade, se nos obstinarmos no pecado.

(…)

“Senhor Padre, não devemos esperar que venha de Roma, da parte do Santo Padre, um apelo ao mundo para que faça penitência. Nem devemos esperar que esse apelo à penitência venha dos nossos Bispos, nas nossas Dioceses, nem das congregações religiosas. Não! Nosso Senhor já usou muitas vezes destes meios, e o mundo não prestou atenção. Eis por que, agora, é necessário que cada um de nós comece a reformar-se espiritualmente. Cada pessoa deve não só salvar a sua alma como também ajudar a salvar todas as almas que Deus colocou no seu caminho.”

ANEXO

(Terceira Parte do Segredo, tal como publicada em 26 de Junho de 2000)

“Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n’uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.”

Alexandre Bastos (Revista Permanência 288)

  1. 1.Francisco de Fátima, Fernando Leite S. J., p. 11.
  2. 2.Memórias de Fátima, 2a. Memóriap. 88.
  3. 3.Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 169.
  4. 4.Podemos nos indagar se essa misteriosa gradação não corresponderia à vocação particular de cada um. Francisco, o contemplativo, via apenas; Jacinta além de ver, ouviu do anjo e, depois, da Virgem o apelo de reparação para a conversão dos pecadores; e Lúcia, que falava, terá a missão de comunicar ao mundo os pedidos do Céu e pregar a devoção ao Imaculado Coração de Maria.
  5. 5.Daí em diante, o terço seria o companheiro inseparável de Francisco. “O meu irmão Francisco era inocente e piedoso”, falou João Marto, irmão do pastorinho de Fátima, “Diz a Lúcia que rezava muitos terços enquanto andava com o gado no monte. Isso não posso afirmar porque não vi. O que posso garantir é que em casa só queria rezar terços. Até digo com vergonha que fugia dele para me ver livre de tanto terço! À noite não nos largava enquanto o não rezássemos”.
  6. 6.O Irmão François de Marie des Anges faz uma observação importante: em algumas versões lê-se que Nossa Senhora pediu para se rezar o Rosário; outras dizem que foi o terço. Qual a verdade? Ora, anos mais tarde, Lúcia entrará num convento na Espanha, país em que se utiliza a palavra Rosario indiscriminadamente para significar tanto o terço como o Rosário propriamente dito. Essa é a origem da confusão. Lúcia esclarecerá posteriormente que Nossa Senhora se referia ao Terço.
  7. 7.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, Editora Missões Consolata, Fátima, p. 49.
  8. 8.“Creio que esta promessa não é para mim só, mas para todas as almas que queiram se refugiar no Coração da nossa Mãe do Céu e se deixar conduzir pelos caminhos traçados por ela. Parece-me que estas também são as intenções do Coração Imaculado de Maria: fazer brilhar nas almas sempre mais este raio de luz, mostrar-lhes sempre mais este porto de salvação, sempre prestes a acolher todos os náufragos deste mundo.” (Carta de 14 de abril de 1945.) Citado em Soeur Lucie, confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC.
  9. 9.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, Editora Missões Consolata, Fátima, p. 80.
  10. 10.A “luz desconhecida” ocorreu na noite de 25 para 26 de janeiro de 1938, quando uma aurora boreal de amplitude extraordinária foi vista na Europa (da Noruega a Portugal), mas também no Norte da África, Canadá, América e México. Irmã Lúcia, que contemplava o céu com as irmãs do convento, sabia que essa era a luz que Nossa Senhora mencionara anos antes. – É impressionante constatar que, anos depois, num dia 25 de janeiro, aniversário do “grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo”, foi anunciado o Concílio Vaticano II.
  11. 11.Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 178.
  12. 12.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, cap. XVIII, p. 115.
  13. 13.Nossa Senhora de Fátima, William Thomas Walsh, Ed. Quadrante, p. 161.
  14. 14.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, cap. XXIII, p. 156.
  15. 15.Ibidem, p. 175.
  16. 16.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, p. 176.
  17. 17.Memórias da Irmã Lúcia, 4a. memória, p. 164.
  18. 18.A diocese fora restaurada dois anos antes por um breve de Bento XV. Até então, Fátima estava na dependência do patriarcado de Lisboa. Quanto ao bispo, diga-se que nos tempos da revolução de 1910, foi preso cinco vezes e torturado pelos republicanos – na prisão, viu-se obrigado a passar noite e dia com os pés imersos em água gelada – resultando em dificuldades de locomoção.
  19. 19.“Dois militares escoltavam-na em direção a Aljustrel, porém, ao ver um terreno com umas covas abertas, um disse ao outro: – Aqui estão covas abertas. Com uma das nossas espadas cortamos-lhe a cabeça e aqui a deixamos, já enterrada. Assim acabamos com isto duma vez para sempre.” (Memórias da Irmã Lúcia, 2a. Memória,  p. 107.)
  20. 20.Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 124.
  21. 21.Um telegrama da época, redigido por José Dantas Baracho, Governador Civil, dava instruções muito claras:“Administrador do Concelho de V. N. de Ourém;“Conforme combinação ontem aqui… se proibirá qualquer manifestação religiosa, que será impedida aí, para o que se reforça posto no local, para onde foi numerosa força armada.”
  22. 22.Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, Pe. João de Marchi, p. 295.
  23. 23.Nossa Senhora de Fátima, William Thomas Walsh, Quadrante, São Paulo, 2015, p. 240.
  24. 24.Em 1945, a vidente de Fátima escreveu ao bispo de Leiria: “O bom Deus quer que os senhores bispos, nos poucos dias que antecedem as eleições, falem ao povo, por meio do clero e da imprensa, para dizer que Salazar é a pessoa escolhida para continuar a governar a nossa pátria, que é a ele que serão concedidas luz e graça para conduzir nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade”. E, em 1958, escreveu: “Não podeis imaginar como sofri por nosso tão digno Salazar da ingratidão de tanta gente que não quer ver tudo o que lhe devemos!”. Citado em Soeur LucieConfidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, pp. 360-361.
  25. 25.Memórias da Irmã Lúcia, 2a memória, p. 117.
  26. 26.Soeur LucieConfidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, p. 175.
  27. 27.Numa aparição posterior, narrada pela vidente, a necessidade desta intenção particular fica clara. Grifos meus: “ [A Lúcia] Apresentou a Jesus a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:– Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e que tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.Ela perguntou:– Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?Jesus respondeu: – Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar” (Memórias, p. 194)
  28. 28.Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, pp. 170-171.
  29. 29.O bispo de Leiria, Dom José Alves Correia da Silva, muito embora se mostrasse favorável à devoção, a recomendasse em sermões e aprovasse a sua propagação em Portugal, não chegou a recomendá-la oficialmente.
  30. 30.Por aquele tempo, relata o Irmão François Marie des Anges, uma religiosa, estranhando que Lúcia não mencionasse mais na sua correspondência a prática dos cinco primeiros sábados, escreveu-lhe perguntando a razão deste procedimento. Recebeu do Carmelo de Coimbra uma carta protocolar datilografada com os seguintes dizeres: “A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado recebeu sua carta e reza nas vossas intenções. Quanto à questão: Por que ela não recomendou precedentemente a devoção dos primeiros sábados? Porque é preciso esperar pela autorização eclesiástica”. Soeur Lucie, Confidente du Coeur Immaculé de Marie, Ir. François Marie des Anges, CRC, p. 374.
  31. 31.A esses rigores, Lúcia somava, entre outros, a corda que trazia amarrada à cintura e abstinência de água três dias por semana. Quanto às práticas de piedade, além dos exercícios regulares da comunidade, Lúcia rezava diariamente o rosário e fazia a Via Sacra. Às quintas, fazia a hora santa, das 23h00 às 24h00
  32. 32.Fatima, joie intime, événement mondial, Irmão François de Marie des Anges, CRC, p. 211.
  33. 33.The Fourth secret of Fatima, Antonio Socci, Loreto Publications, 2006, p. 118.
  34. 34.Remetemos o leitor interessado numa análise detalhada sobre este ponto ao artigo Os papas e a consagração da Rússia, Dominicus, Revista Permanência 264. [Também publicado no nosso site: http://permanencia.org.br/drupal/node/5224 ]
  35. 35.Estas palavras de Nosso Senhor são misteriosas. Como é sabido, Santa Margarida Maria escreveu em 17 de junho de 1689 ao rei de França pedindo a consagração da França ao Sagrado Coração de Jesus. Luís XIV desprezou o pedido do Céu e, exatos 100 anos depois, ocorreu a sangrenta Revolução Francesa e o rei foi decapitado. Assim, as palavras de Nosso Senhor em Rianjo parecem indicar que o não cumprimento dos seus pedidos resultará numa terrível efusão de sangue. O Céu pediu reparação e propôs um meio fácil, mas a rejeição dos meios propostos terá de ser compensada de modo cruento. Esta é apenas uma interpretação, mas podemos corroborá-la com outros escritos da Irmã Lúcia, como a carta que escreveu em 1943 para Dom Garcia y Garcia, Arcebispo de Valladolid, a respeito da situação da Espanha: “Eu Lhe pedi instantemente que usasse de misericórdia para remediar os males da Espanha… mas Ele me respondeu que, se sua justiça não fosse apaziguada pelos meios que pedia, ela o seria pelo sangue dos mártires” (grifos meus). Tudo isso remete à visão do Terceiro Segredo, tal como publicada no ano 2000. Outra carta da Irmã Lúcia, escrita durante o início da Segunda Guerra Mundial ao Pe. Gonçalves, também vai neste sentido: “Deus quer que o momento da consagração da Rússia chegue bem rápido… Se este ato pelo qual a paz nos será concedida não se der, a guerra somente terminará quando o sangue derramado pelos mártires for suficiente para aplacar a justiça divina.
  36. 36.Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 282.
  37. 37.Um caminho sob o olhar de Maria, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, 2013, p. 267.
  38. 38.The forth secret of Fatima, Antonio Socci, p. 195.
  39. 39.Note-se que, na visão publicada no ano 2000, não há referência a palavras ditas pela Virgem Maria. Este é apenas um dos pontos que nos fazem suspeitar que o Segredo não foi integralmente revelado por Roma no ano 2000. Há outros argumentos neste mesmo sentido. Por exemplo, sabe-se que, em setembro de 1952, Pio XII enviou o Pe. Joseph Schweigl para entrevistar a irmã Lúcia a propósito do Terceiro Segredo. De regresso, afirmou: “Não posso revelar nada do que aprendi em Fátima acerca do Terceiro Segredo, mas posso dizer que ele possui duas partes. Uma diz respeito ao papa, a outra, logicamente, embora não possa dizer nada, teria de ser a continuação das palavras, ‘em Portugal o dogma da Fé será sempre preservado’”. Ora, a visão publicada no ano 2000 não contém a continuação destas palavras de Nossa Senhora.
  40. 40.O título original do livro era “A transmissão da mensagem de Nossa Senhora”. Antes de ser publicado, o texto foi todo revisado e corrigido “sob a autoridade direta de João Paulo II”, como explicou o Pe. Luis Kondor ao Irmão François Marie des Anges. Foram incluídas diversas citações de Encíclicas de Paulo VI e João Paulo II que não constavam dos originais, foram suprimidas diversas passagens, outras foram reescritas, além de alterada a ordem dos capítulos. O livro não faz menção à devoção dos cinco sábados, pois a vidente estava proibida de falar do assunto.

O terceiro segredo de Fátima

Conferência proferida no Vatican Symposium, em Fátima, no dia 24 de novembro de 1985.

Irmão Michel de la Sainte-Trinité

Visto que ainda não se revelou oficialmente o Terceiro Segredo de Fátima, parece evidente que não se possa conhecer o seu conteúdo. Entretanto, essa é tão-somente uma primeira impressão. Porque se é verdade que esse importantíssimo segredo permanecia absolutamente imperscrutável em 1917, quando foi revelado pela Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Aljustrel, ou em 1944, quando foi redigido por Irmã Lúcia, ou ainda em 1960, quando deveria ter sido publicamente revelado ao mundo por João XXIII, já não é assim hoje. Com efeito, ao longo de mais de quarenta anos, muitos fatos a respeito do Terceiro Segredo tornaram-se conhecidos. Eles formam um imenso volume de informações seguras com que o historiador pode traçar toda a sua história e revelar a essência do seu conteúdo. Tal foi meu intento ao escrever o terceiro volume da obra Tout la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), que se concentra no mistério do Terceiro Segredo.  Leia mais

Apresentarei a vocês uma demonstração minuciosa nesta tarde, embora o faça de forma simplificada e resumida, pois a conferência não pode ser longa. Espero, contudo, que aquilo que direi será suficiente para lhes mostrar quão importante é este último segredo de Nossa Senhora, como está colocado no coração da mensagem de Fátima e, por fim, qual o motivo da urgência de ser revelado ao mundo o quanto antes, para o bem da Igreja, como Nossa Senhora ordenou.

I. O drama do Terceiro Segredo

Foi em julho/agosto de 1941, em sua terceira memória, que Irmã Lúcia mencionou pela primeira vez a divisão do Segredo de Fátima em três partes. “(…) o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar,” escreve ela. A primeira parte revela a visão do inferno e a designação do Imaculado Coração de Maria como derradeiro recurso oferecido por Deus à humanidade para a salvação das almas: “(…) para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.” A segunda parte revela a profecia de uma milagrosa paz que Deus deseja dar ao mundo através da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, e a prática da comunhão reparadora nos primeiros sábados do mês. “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz (…)”. Há também o anúncio de terríveis punições se as pessoas persistirem em não obedecer aos pedidos. Quanto à terceira parte do Segredo, em 1941, Irmã Lúcia declarou que ainda não tinha permissão de revelá-la.

O registro e a transmissão do Segredo

O relato dramático do registro e da transmissão dessa importante mensagem começa em 1943. Nessa época, Irmã Lúcia vivia no Convento das Irmãs Dorotéias, em Tuy, Espanha. Em junho de 1943 ela de súbito cai gravemente doente. Este fato alarmou muito o Bispo de Leiria, Dom José Correia da Silva. Ele temia que Irmã Lúcia morresse antes de revelar o Terceiro Segredo e acreditava que a morte dela privaria a Igreja de uma grande graça. O Cônego Galamba, amigo e conselheiro do bispo, sugeriu-lhe então uma ideia audaz: que pedisse à Irmã Lúcia para escrever sem demora o texto do Terceiro Segredo e em seguida colocasse-o num envelope selado, para que fosse aberto posteriormente.

Atendendo ao pedido, no dia 15 de setembro de 1943, D. José Correia da Silva foi a Tuy pedir a Irmã Lúcia para escrever o segredo, “se ela quisesse”. A vidente, porém, sem dúvida inspirada pelo Espírito Santo, não se contentou com essa vaga determinação. Exigiu do bispo uma ordem formal escrita — este fato é muito importante. A mensagem final de Nossa Senhora está, bem como seus primeiros pedidos, relacionada a promessas extraordinárias. É uma graça inaudita que Deus oferece ao século XX, com o intuito de curar seus problemas urgentes. Mas é preciso que os pastores da Igreja tenham a fé e a docilidade necessárias para com os desígnios de Deus, para que sejam instrumentos dessa efusão de graça que Deus deseja deitar sobre o mundo através da terna mediação de Sua Mãe Imaculada. Em 1943, fez-se a vontade de Deus: o Bispo de Leiria ordena à vidente a redação do Terceiro Segredo.

Em outubro daquele ano, D. José Correia da Silva atendeu ao pedido do Cônego Galamba. Escreveu à Irmã Lúcia, ordenando-lhe formalmente que registrasse o segredo. Porém novas dificuldades surgiriam. Na época, Lúcia foi acometida, ao longo de quase três meses, por uma misteriosa e terrível angústia. Ela relatou que toda vez que se punha a escrever o segredo, não conseguia fazê-lo. Vê-se aqui, sem dúvidas, a última investida de satanás contra a mensageira de Maria Imaculada. O demônio previa o prejuízo que o registro do Terceiro Segredo causaria ao seu domínio sobre as almas e ao seu plano de penetrar o coração da Igreja, e essa provação enfrentada pela vidente nos revela a magnitude do ato de registrar o segredo. Na noite de Natal, Irmã Lúcia confidenciou a seu diretor espiritual que ainda não havia conseguido cumprir a ordem do bispo.

Finalmente, em 2 de janeiro de 1944 (este fato é pouco conhecido) a Santíssima Virgem apareceu uma vez mais à Irmã Lúcia. Ela confirmou à vidente que era da vontade de Deus que o segredo fosse redigido e deu-lhe a luz e a força necessárias para conseguir cumprir o que lhe fora determinado.

O imenso cuidado que Irmã Lúcia então tomou para transmitir com total segurança o texto a seu depositário, D. José Correia da Silva, é mais uma prova de como considerava importante esse documento. Ela não desejava transmiti-lo a ninguém senão  ao bispo. Foi D. Manuel Ferreira, Arcebispo de Gurza, que recebeu das mãos de Irmã Lúcia o envelope selado contendo a preciosa carta. Ele a entregou na mesma noite a D. José Correia da Silva.

A respeito da transmissão do Segredo à hierarquia eclesiástica, é preciso sublinhar quatro fatos importantes:

1. O primeiro a receber o Segredo foi D. José Correia da Silva e ele o poderia ter lido de imediato. Contudo, atemorizado com a responsabilidade que assumiria, não ousou abri-lo, preferiu não o conhecer. Concordou-se então que se D. José morresse, o envelope seria confiado ao Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa. É portanto falsa a tese — muito repetida desde 1960 — de que o Terceiro Segredo estivesse destinado explicita e exclusivamente ao Santo Padre.

2. Entretanto é verdade — e forneço inúmeras provas em meu livro — que Irmã Lúcia desejava que Pio XII conhecesse o segredo sem demora. Infelizmente, isso não aconteceu.

3. Sabendo que D. José Correia da Silva se recusara a abrir a carta, Irmã Lúcia “fê-lo prometer, nas palavras do Cônego Galamba, que esta seria definitivamente aberta e lida ao mundo ou por altura da sua morte, ou em 1960, conforme o que sucedesse primeiro.” A grande quantidade de testemunhas que relataram essa afirmação nos permite julgar tal fato como absolutamente verídico.

4. Por fim, a promessa de revelar o Segredo logo após a morte de Irmã Lúcia ou “em 1960”, sem dúvida corresponde ao pedido da Própria Santíssima Virgem. Quando em 1946 o Cônego Barthas perguntou à vidente por que seria necessário esperar até 1960, Irmã Lúcia respondeu-lhe na presença de D. José Correia da Silva: “Porque a Santíssima Virgem assim o quer.”

Em resumo, como demonstrei de forma consistente em meu livro, podemos provar com segurança que Deus desejava que os pastores da Igreja acreditassem no último Segredo de Nossa Senhora e que este fosse tornado público aos fiéis. Isto devia ter sido feito ao menos em 1944 ou no máximo em 1960, pois, como Irmã Lúcia mais tarde explicaria, “seria então muito mais claro”.

O Terceiro Segredo é transferido a Roma

Não poderei demorar-me aqui num episódio ainda misterioso na história do Terceiro Segredo: em 1957, o Santo Ofício pediu o texto e manteve-o no palácio do Bispo de Leiria. Quem tomou esta iniciativa? Com que intenção? Uma análise detalhada dos fatos permitiu-me formular uma hipótese plausível, mas que não posso ainda afirmar com certeza.

Em março de 1957, D. José Correia da Silva confiou a D. João Venâncio, Bispo auxiliar de Lisboa, a responsabilidade de entregar o precioso documento a Mons. Cento, então Núncio Apostólico de Lisboa. D. João Venâncio implorou uma vez mais a D. José Correia da Silva para que lesse o Segredo e fizesse uma cópia dele antes de enviá-lo a Roma, mas o velho bispo manteve sua recusa. D. João Venâncio, que me relatou este fato em Fátima, em 13 fevereiro de 1983, teve de se contentar em olhar o envelope, levantando-o contra a luz. Ele pôde ver no seu interior uma pequena folha de papel e mediu-a. Daí sabermos que o Terceiro Segredo não é muito longo, tem provavelmente de 20 a 25 linhas, quase o mesmo tamanho do Segundo Segredo. Isto nos permite julgar como falsos vários textos mais longos, empurrados ao público por alguns falsários como sendo o verdadeiro Terceiro Segredo de Fátima.

Em 16 de abril de 1957 o envelope selado chegou a Roma. Qual foi o seu destino? O Segredo foi colocado pelo Papa Pio XII na sua secretária pessoal, numa caixinha de madeira com a inscrição, “Segredo do Santo Ofício”. Foi Madre Pascalina[1] quem confiou isso ao jornalista Robert Serrou.

Teria Pio XII lido o Segredo? A resposta pode parecer surpreendente: é quase certo que não. Assim como Pe. Alonso, forneço vários argumentos em defesa desta conclusão; notavelmente os testemunhos do Cardeal Ottaviani e de Mons. Capovilla, secretário do Papa João XXIII, que nos afirmou que o envelope ainda estava selado quando este papa o abriu em 1959, um ano após a morte de Pio XII.

Compreende-se assim as graves palavras que em dezembro de 1957 Irmã Lúcia dirigiu ao Pe. Fuentes, então postulador das causas de beatificação de Jacinta e Francisco:

“Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem (…)”

“(…) Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados.”

Portanto não há dúvidas de que Pio XII preferiu esperar até 1960, mas morreu antes. Que grande perda para a Igreja!

A fervorosa expectativa do mundo católico

Os mais velhos devem lembrar-se que à entrada de 1960, todo o mundo católico esperava confiantemente a revelação do Segredo. E vocês, italianos aqui presentes, com certeza sabem que em 1959 havia em toda a Itália um grande movimento de devoção ao Imaculado Coração de Maria. Ao longo de vários meses, a imagem de Nossa Senhora de Fátima cruzou a Península Itálica, atraindo multidões entusiastas e irradiando por todos parte graças, fervor religioso, conversões e milagres. Em 13 de setembro de 1959, os bispos italianos consagraram solenemente seu país ao Imaculado Coração de Maria. Infelizmente, o movimento foi tão pouco encorajado por João XXIII, que o silêncio e a reserva deste papa contribuíram para esfriar aquela ardente devoção.

João XXIII lê o Terceiro Segredo e se recusa a revelá-lo

Sabemos que este papa teve em mãos o envelope do Terceiro Segredo, que lhe fora entregue em Castel Gandolfo, a 17 de agosto de 1959 por Mons. Philippe, então superior do Santo Ofício. Deve-se notar que a transmissão do Segredo ao Soberano Pontífice teve, portanto, um caráter oficial e reuniu ao seu redor certa solenidade, o que demonstra o prestígio de que a mensagem de Fátima desfrutava naquela época. João XXIII não abriu o envelope de imediato. Contentou-se em declarar: “vou esperar para lê-lo com meu confessor.” Mons. Capovilla afirma que poucos dias depois o papa leu o segredo.

Mas devido a dificuldade de compreender certas expressões peculiares à língua portuguesa, pediu-se ajuda ao tradutor de português da Secretaria de Estado, Mons. Paulo José Tavarez, que mais tarde se tornou Bispo de Macau. Tempos depois, João XXIII leu o segredo para o Cardeal Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício.

Abramos um parêntese aqui. Sabemos que cabe a Hierarquia julgar “revelações privadas.” Em 1960, estava claro que a Igreja já havia reconhecido oficialmente a autenticidade divina das aparições de Fátima. Seguindo a ordem da Santíssima Virgem transmitida por Irmã Lúcia, os dois prelados responsáveis, o Bispo de Leiria e o Patriarca de Lisboa haviam se encarregado publicamente de revelar todo o conteúdo do Segredo no máximo em 1960. Por mais de 15 anos, as autoridades eclesiásticas não emitiram nenhuma declaração que refutasse essas reiteradas promessas, ecoadas em todo o mundo por cardeais, bispos e estudiosos da mensagem de Fátima, como Cônego Galamba, Cônego Barthas ou Pe. Messias Dias Coelho. A revelação dos dois primeiros segredos em 1942 — com o consentimento de Pio XII — é mais uma prova da aceitação da mensagem. Compreende-se, portanto, que os fiéis esperassem fervorosamente a prometida revelação pelas autoridades eclesiásticas. No mínimo, o Santo Padre deveria se pronunciar de maneira direta e clara a respeito do assunto.

Em 8 de fevereiro de 1960, divulgou-se através de uma agência de notícias um comunicado anunciando que o Terceiro Segredo de Fátima não seria revelado. Foi uma decisão anônima e irresponsável. Quais razões a motivaram? O comunicado do Vaticano apresentava desculpas inconsistentes e até contraditórias: “Embora a Igreja reconheça as aparições de Fátima, Ela não deseja tomar a responsabilidade de garantir a veracidade das palavras que os três pastorinhos disseram ter ouvido da Virgem Maria.” Portanto, ao que parece, o Vaticano não apenas adotou a posição insustentável do Padre Dhanis (a exposição e análise detalhada desta tese incoerente está no primeiro volume de minha obra), mas esse comunicado foi ainda mais longe, porque lançou publicamente e sem razões aceitáveis as suspeitas mais ignominiosas sobre Irmã Lúcia e toda a mensagem de Fátima!

Segundo Mons. Capovilla, consultaram-se vários prelados romanos. Mas se sabe que os peritos portugueses foram negligenciados de forma criminosa. D. João Venâncio e o Cardeal Cerejeira não foram consultados ou sequer notificados por Roma.

Ao se reler e analisar esse lamentável comunicado de 8 de fevereiro de 1960, ou, indo mais longe, ao se estudar o infeliz artigo publicado em junho pelo Pe. Caprile em Civiltà Cattolica, fica-se chocado com os inúmeros exemplos de incoerência, equívocos e mentiras pronunciados pelas autoridades romanas que estavam encarregadas da questão de Fátima. Isto nos mostra o quão injustificável e irresponsável foi a decisão de não atender à vontade da Virgem Imaculada, Rainha dos Apóstolos, que pediu a revelação do seu segredo em 1960. É certo também que prejudicou muito a causa de Fátima. Pode-se dizer que foi a partir de então, após o desdém público do “Segredo de Maria” que a devoção a Santíssima Virgem começou a declinar de forma alarmante no próprio seio da Igreja Católica. Mais que nunca, as palavras de Irmã Lúcia fizeram sentido: “A Santíssima Virgem está triste, pois ninguém faz caso de sua mensagem.” E esse desprezo, deve-se dizê-lo, causou danos incalculáveis. Porque ao se desprezarem as profecias e os pedidos de Fátima, ridicularizou-se ante o mundo inteiro a Própria Santíssima Virgem e o Próprio Deus. Como conseqüência, tornou-se inevitável a realização do trágico castigo que fora advertido condicionalmente pela Virgem Imaculada. 

II – O conteúdo do Terceiro Segredo

O Cardeal Ottaviani relatou que o Papa João XXIII colocou o Segredo “num desses arquivos que são como um poço muito profundo e escuro, ao fundo do qual caem papéis e ninguém os consegue ver mais.” Sabemos muito bem o que aconteceu ao manuscrito de Irmã Lúcia. Pode-se até descobrir o seu conteúdo essencial. Que diz Nossa Senhora neste aviso que nos deu em 13 de julho de 1917? Podemos afirmar quatro fatos a respeito do Segredo, que nos permitirão progredir na descoberta do seu mistério.

►Primeiro fato essencial: Sabemos o contexto do Terceiro Segredo. Para falar com precisão, na verdade só há um segredo, revelado por inteiro em 13 de julho de 1917. Até o momento conhecemos três das quatro partes. Sabemos o começo, as primeiras duas partes do Segredo, e o final, que consiste na conclusão: “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará, o Santo Padre consagrará a Rússia a Mim, esta será convertida e será concedido ao mundo algum tempo de paz.” É neste contexto já conhecido, seguindo o “etc.” no texto que a própria Irmã Lúcia escreveu sobre a segunda parte do Segredo, que se insere a terceira parte. Este é o primeiro fato, que nos serve de bússola na investigação do seu conteúdo. O que vem em seguida deve corresponder ao contexto e concordar harmoniosamente com o todo da Mensagem de Fátima, cuja coerência é absolutamente extraordinária.

► Segundo fato importante: Se as circunstâncias em que foi revelado nos provam a sua unidade fundamental, as circunstâncias dramáticas em que foi registrado nos revelam a sua trágica gravidade.

► Terceiro fato esclarecedor: É apenas por causa do seu conteúdo que desde 1960 os últimos papas tem se recusado a revelá-lo.

João XXIII recusou-se a revelá-lo, como já vimos, não obstante a grande expectativa de todo o mundo católico. Paulo VI adotou a mesma atitude. Eleito Papa em 21 de junho de 1963, pouco tempo depois pediu para ler o texto. Isto prova sua preocupação para com a mensagem. Como não se sabia que destino João XXIII havia dado ao texto, questionou-se o seu secretário, Mons. Capovilla, o qual indicou o local em que o manuscrito fora guardado. Paulo VI certamente leu o texto na ocasião, mas preferiu não o comentar. No entanto, em 11 de fevereiro de 1967, ano de comemoração de 50 anos das aparições, o Cardeal Ottaviani, em nome do papa, fez uma longa declaração sobre o assunto do Terceiro Segredo de Fátima, para explicar por que ainda não seria revelado. Em meu livro, cito e analiso esse texto. Seguindo os peritos portugueses, sou forçado a afirmar que, para justificar a qualquer preço a ocultação do Segredo, o Prefeito do Santo Ofício, fiador supremo da verdade na Igreja, foi compelido a multiplicar uma massa de incoerências e inverdades. E, lamentavelmente, veremos que as desculpas dadas em 1984 pelo seu sucessor, o Cardeal Ratzinger, não são menos inconsistentes.

O Papa João Paulo I era muito devoto de Nossa Senhora de Fátima; fez uma peregrinação à Cova da Iria em 1977, e um fato muito interessante é que Irmã Lúcia pediu para se encontrar com ele. O então Cardeal Luciani dirigiu-se ao Carmelo de Coimbra e conversou demoradamente com a vidente. Estou persuadido de que Irmã Lúcia falou-lhe sobre o Terceiro Segredo e lhe revelou o seu conteúdo. O segredo muito o impressionou. Ao retornar a Itália informou seu séquito sobre o impacto que o segredo lhe causara e sobre a gravidade da mensagem. Depois falou e escreveu sobre Fátima em termos vigorosos e expressou sua admiração e total confiança em Irmã Lúcia, a quem certamente considerava santa. (No quarto volume de minha obra darei todas as provas desses fatos não publicados.[2]) Quando se tornou Papa, desejava preparar a opinião pública antes de agir. Desgraçadamente, morreu antes de poder dizer qualquer coisa.

João Paulo II, antes de fazer uma peregrinação a Fátima em 13 de maio de 1982, pediu a um tradutor português da Cúria que o ajudasse a entender certas expressões peculiares ao idioma lusitano contidas no Segredo. Portanto ele também leu o Terceiro Segredo e preferiu não o tornar público.

Por fim, sabemos que o Cardeal Ratzinger também o leu, pois confiou que o havia feito ao jornalista italiano Vittorio Messori. Ratzinger falou sobre o segredo em duas ocasiões: em novembro de 1984 e em junho de 1985, aludindo ao seu conteúdo em termos bastante diversos, o que para nós é significante. Em meu livro publiquei e comentei as sinopses das duas versões publicadas.

► Quarto fato principal: Desde 1960, a profecia do Terceiro Segredo tem se desdobrado no tempo presente, diante de nossos olhos. Há de fato um itinerário, uma crônica da realização das profecias de Fátima. Por outro lado, é certo que ainda não chegamos ao tempo de conclusão do Segredo. Por quê? Porque a Rússia ainda não foi consagrada ao Imaculado Coração de Maria[3], como devia ter sido feito, e um dia o será. Irmã Lúcia deixou isso claro mesmo depois do Ato de Consagração feito por João Paulo II em 25 de março de 1984. A Rússia ainda não foi convertida e o mundo não está em paz, longe disso! Portanto ainda não chegamos ao fim da profecia.

Os eventos anunciados no Terceiro Segredo não tratam só do nosso futuro, pois temos outra marca para nos guiar: 1960. A Santíssima Virgem pediu que o Segredo fosse tornado público em 1960 porque Irmã Lúcia disse ao Cardeal Ottaviani: “Em 1960, será mais claro.” Ora, a única razão que torna uma profecia mais compreensível a partir de certa data é, sem dúvida, o começo de sua realização. Além disso, em outra ocasião Irmã Lúcia afirmou que “os castigos preditos por Nossa Senhora no Terceiro Segredo já começaram.”

Tendo sido determinado o terminus a quo (ponto de partida) e o terminus ad quem (ponto de término) da profecia, podemos garantir que estamos presentemente no período do qual fala Nossa Senhora. Estamos vivenciando o Terceiro Segredo. Estamos testemunhando os eventos que ele anuncia.

Falsos segredos e falsas hipóteses

Baseando-nos nesse material confiável, podemos descartar toda a série de falsos segredos que foram sucessivamente publicados ao longo de 25 anos. Cito-os em meu livro e demonstro, por exemplo, que o mais famoso deles, o “Segredo” divulgado em 1963 pela revista alemã Neues Europa e reimpresso em várias revistas, é uma farsa. Há nele erros monstruosos que provam suficientemente a sua falsidade. Além do mais, embora seja discutível, falam-nos sobre pequenos “extratos” do verdadeiro segredo. Esses “extratos” possuem tamanho pelo menos quatro vezes maior do que o que seria suficiente para caber na folha de papel em que Irmã Lúcia escreveu todo o Terceiro Segredo[4].

Podemos desconsiderar também muitas falsas hipóteses. Certamente, não se trata apenas de “um convite à oração e penitência”, como o Pe. Caprile ousa afirmar! A Santíssima Virgem não teria pedido que Irmã Lúcia esperasse até 1944 ou 1960 para divulgar uma mensagem que repetisse palavra por palavra Sua mensagem pública de 13 de outubro de 1917! Não faz sentido!

Também não se trata de um assunto feliz: é certo que o Terceiro Segredo de Fátima não está de acordo com a visão otimista de João XXIII, proclamando que o Concílio Vaticano II seria um “novo pentecostes, uma nova primavera na Igreja!” Se se tratasse disso, ele mesmo ou seus sucessores já nos teriam revelado o segredo. “Se o segredo fosse agradável”, disse o Cardeal Cerejeira, “teria sido revelado. Como não nos disseram nada, podemos ter certeza de que ele é triste.” Sim, é evidente que o seu conteúdo é grave e trágico.

Não se trata também do anúncio do fim do mundo, já que a profecia de Fátima termina com uma promessa maravilhosa e incondicional, que deveria ser constantemente lembrada, por ser uma fonte de grande esperança: “Por fim, Meu Imaculado Coração triunfará, o Santo Padre consagrará a Rússia ao meu Imaculado Coração, ela será convertida, e um período de paz será dado ao mundo.”

Seria o anúncio de uma Terceira Guerra Mundial? Ou de uma guerra nuclear? Seria razoável pensar que sim, já que a profecia não faria senão confirmar as análises políticas mais lúcidas. Teria a Santíssima Virgem predito essa horribilíssima guerra, que nos ameaça de forma tão dramática? Assim como o Pe. Alonso, tenho certeza de que este não é o ponto central do Terceiro Segredo. Afirmo-o por uma razão segura: o prenúncio de castigos materiais, de novas guerras e perseguições contra a Igreja constitui o conteúdo do Segundo Segredo. Meditemos na gravidade destas palavras: “Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas (…)”, “a Santíssima Virgem repetidas vezes nos disse, confidenciou Irmã Lúcia ao Pe. Fuentes, que várias nações desaparecerão da face da terra. Disse que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação.” É por isso que se deve temer que a palavra “aniquilar” tenha sido empregada em seu sentido literal: reduzir a nada, destruir totalmente. Improvável em 1917, essa catastrófica ameaça não mais está distante de nós hoje, na Era Nuclear.

Está claro: todos os castigos materiais que ainda nos ameaçam, mesmo os mais aterrorizantes, como uma guerra nuclear ou a expansão do comunismo por todo o globo, foram preditos por Nossa Senhora no Segundo Segredo, e nós sabemos os meios sobrenaturais para preveni-los antes que seja tarde. Estamos seguros de que nada disso se repete na terceira parte do Segredo, como também crê o Pe. Alonso. Se nele houver alusão a castigos materiais, este não é o seu ponto central. Com efeito, já que o Segredo é composto de três partes interligadas, mas distintas, e tendo o Céu estabelecido datas diferentes para revelá-las, podemos estar certo de que a terceira parte não irá repetir — numa folha de poucas linhas — exatamente a mesma coisa que a segunda parte.

Castigo espiritual

É certo que o Terceiro Segredo se refere essencialmente a um castigo espiritual. Muito pior, ainda mais temível que a fome, a guerra, a perseguição, pois se refere às almas, a sua salvação ou danação eterna. O Pe. Alonso, em 1966 nomeado arquivista de Fátima por D. João Venâncio, provou ser esse o conteúdo do Terceiro Segredo. Ele tratou do assunto num dos volumes de sua grande obra crítica, formada por 24 tomos, cuja publicação, infelizmente, foi proibida. Porém, antes de morrer em 12 de dezembro de 1981, conseguiu divulgar suas conclusões em vários panfletos e artigos em jornais teológicos.

A minha pesquisa permitiu-me tão-somente clarificar, completar, especificar a tese dele, provada pela publicação de novos documentos.

Eis o mais importante destes: em 10 de setembro de 1984, D. Alberto Cosme do Amaral, o atual Bispo de Leiria, em Fátima, na Aula Magna (auditório) da Universidade Técnica de Viena, declarou no momento das perguntas:

“O conteúdo do Terceiro Segredo diz respeito unicamente à nossa Fé. Identificar o Segredo com proclamações catastróficas ou com um holocausto nuclear é deformar o significado da Mensagem. A perda de fé de um continente é pior do que a aniquilação de uma nação; e a verdade é que a Fé está continuamente a diminuir na Europa.”

Por 10 anos, o Bispo de Leiria manteve-se em silêncio a respeito do conteúdo do Terceiro Segredo. E no momento em que ele abre a boca e faz uma declaração pública tão resoluta, podemos ter a certeza de que não a fez sem ter antes consultado Irmã Lúcia. Podemos estar seguros disso, pois, em 1981, ele já havia refutado alguns falsos segredos, e afirmou ter consultado a vidente sobre a questão. Estou querendo dizer que a tese do Pe. Alonso foi agora publicamente confirmada pelo Bispo de Fátima: Trata-se da terrível crise da IgrejaA Virgem Imaculada estava a nos predizer sobre a perda da Fé em nossa era, caso Seus pedidos não fossem atendidos: eis o drama que temos testemunhado desde 1960.

Tendo dito o essencial, contentar-me-ei agora em mencionar os estágios principais de minha prova quanto ao verdadeiro conteúdo do Terceiro Segredo.

A perda da Fé

No primeiro capítulo do livro, dou as razões que provam que o Terceiro Segredo trata especificamente da perda da Fé. Na verdade, sabemos apenas o seu contexto. Irmã Lúcia desejava nos indicar a primeira sentença dele, “em Portugal o dogma da Fé será sempre preservado, etc.” Esta frase curta, que por certo foi acrescentada de propósito pela vidente quando registrou o segredo pela segunda vez em suas Memórias, é muito significativa. Indica-nos, discretamente, a chave do Terceiro Segredo.

Eis o comentário sensato do Pe. Alonso: “Em Portugal o dogma da fé será sempre preservado. Essa frase implica claramente o estado crítico em que se encontrará a fé em outras nações. Significa que haverá uma crise de fé, enquanto Portugal salvará sua fé. Por conseguinte, no período que precede o grande Triunfo do Imaculado Coração de Maria, ocorrerão as coisas terríveis que são objeto da terceira parte do Segredo. Quais delas? Se, ‘em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé,’ pode-se claramente deduzir destas palavras que em outros lugares da Igreja estes dogmas vão tornar-se obscuros ou chegarão mesmo a perder-se.”

A maioria dos peritos advoga essa interpretação: Pe. Martin dos Reis, Cônego Galamba, D. João Venâncio, Pe. Luiz Kondor, Pe. Messias Dias Coelho. No dia 18 do último mês de outubro, no decurso de uma conferência que proferiu em Paris, Pe. Laurentin também declarou ser a favor desta solução. Lembremos que até mesmo o Cardeal Ratzinger se posicionou de tal maneira a Vittorio Messori, ao dizer que o Terceiro Segredo tratava “dos perigos que ameaçam a fé e a vida dos cristãos.” Finalmente, como há pouco dissemos, o atual Bispo de Fátima é ainda mais explícito em sua adesão a essa teoria. Ele deixa subentendido que é uma crise de fé, que atingirá várias nações e continentes inteiros… a Sagrada Escritura dá um nome para tamanha deserção: Apostasia. É possível que esta palavra seja mencionada no texto do Segredo.

Os erros e o castigo dos pastores

No segundo capítulo do livro, demonstro que há mais: o Terceiro Segredo certamente insiste na grave responsabilidade das almas consagradas, dos padres, e até dos próprios bispos nessa inaudita crise de fé que atinge a Igreja há 25 anos. Forneço diversas provas disso, indicações claras. Alegro-me aqui em lhes citar o Pe. Alonso:  “É portanto muito provável que o texto do Terceiro Segredo faça alusões concretas a crise de Fé dentro da Igreja e à negligência dos próprios pastores.” Ele também fala a respeito de “lutas dentro do seio da Igreja e de grave negligência pastoral pela alta hierarquia,” e de “deficiências da alta hierarquia da Igreja.”

Estas seríssimas palavras do Pe. Alonso certamente não foram postas em papel sem que se considerasse com cuidado o seu impacto. Como arquivista oficial de Fátima, após 10 anos de pesquisas e várias entrevistas e conversas com Irmã Lúcia, teria ele adotado uma postura tão firme num assunto tão grave sem ter recebido o consentimento da vidente? A resposta não deixa margens a dúvidas.

Essa declaração sobre as deficiências da Hierarquia explica a constante preocupação dos três videntes em rezar, rezar muito e sacrificar-se sem cessar pelo Santo Padre; explica também os três meses de insuportável agonia que Irmã Lúcia teve de enfrentar antes de conseguir registrar o segredo. Por fim, explica por que os papas, desde o otimista João XXIII, hesitaram, atrasaram e deixaram de lado a publicação do Terceiro Segredo, buscando ocultá-lo a todo custo.

Uma onda de desorientação diabólica

No terceiro capítulo, mostro que Irmã Lúcia ecoou o tema do Terceiro Segredo em algumas de suas palavras e cartas, nas quais enfatiza a ação do demônio em nossa era. Já em 1957, ela confiava ao Pe. Fuentes, “(…) o demônio está travando uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E como o demônio sabe o que é que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também as almas dos fiéis desamparadas pelos seus chefes, e mais facilmente se apodera delas.”

Mas é especialmente numa série de cartas escritas entre 1969-1970, pouco conhecidas mas de grande importância, que Irmã Lúcia usa expressões impressionantes para descrever a atual crise da Igreja. E, não deixemos de notar que por meio da mão de uma alma tão humilde e submissa à autoridade, tais expressões graves certamente ecoam as palavras escutadas dos lábios da própria Santíssima Virgem, em sua mensagem final a respeito da proteção da fé e do bem-estar da Igreja.

“Vejo pela sua carta,” escreve ela a um padre, “que estás preocupado com a desorientação de nosso tempo. É triste, de fato, que tantas pessoas se deixem dominar pela onda diabólica que está varrendo o mundo e que estão tão cegos a ponto de serem incapazes de ver o erro! A principal falta é que abandonaram a oração, e deste modo distanciaram-se de Deus, e sem Deus, falta tudo. O demônio é muito astuto e busca nossos pontos fracos querendo nos derrubar. Se não formos diligentes e cuidadosos para obter forças de Deus, certamente iremos cair, pois nosso tempo é muito perverso e nós somos fracos. Apenas a força de Deus pode nos sustentar.”

Numa carta a uma amiga que está zelosamente envolvida na defesa da devoção mariana, Irmã Lúcia escreve:

Nossa Senhora pediu e recomendou que se reze o Terço todos os dias, repetindo o mesmo em todas as aparições, como que prevenindo-nos para que, nestes tempos de desorientação diabólica, não nos deixemos enganar por falsas doutrinas… Infelizmente, em questões religiosas, a maioria das pessoas é ignorante e se permitem ser levadas por qualquer coisa. Daqui, a grande responsabilidade daquele que tem o dever de conduzi-las… É uma desorientação diabólica que está invadindo o mundo, perdendo as almas! É preciso fazer frente ao demônio.” 

Em 16 de setembro de 1970 ela escreve a uma religiosa amiga[5]:

“Pobre Senhor, que nos salvou com tanto amor, e tão pouco compreendido é! Tão pouco amado! Tão mal servido! É doloroso ver tanta desorientação, e em tantas pessoas que ocupam lugares de responsabilidade!… Temos nós, tanto quanto nos seja possível, que procurar reparar, por uma união cada vez mais íntima com o Senhor, identificar-nos com Ele, para que Ele seja, em nós, a luz de um mundo mergulhado nas trevas do erro, da imoralidade e do orgulho. Faz-me pena ver o que me diz, do que também já por aí se passa!… É que o demônio tem conseguido infiltrar o mal, com capa de bem, e andam cegos a guiar outros cegos, como nos diz o Senhor no seu Evangelho; e as almas vão-se deixando iludir…  De boa vontade me sacrifico, e ofereço a Deus a vida; pela paz da Sua Igreja, pelos sacerdotes e por todas as almas consagradas, sobretudo por aquelas que andam tão iludidas e tão transviadas!” 

Para a confidente de Nossa Senhora, o demônio não está apenas neste mundo “decadente”, “mergulhado nas trevas da imoralidade e do orgulho.” O demônio está presente também na própria Igreja, onde tem seus “seguidores” e “partidários”, que estão sempre “avançando com intrépida audácia.” Diante deles, há muitas “pessoas tíbias” que não têm coragem de lhes fazer frente. Demais, não se trata apenas de tibieza ou de negligência pastoral. Irmã Lúcia afirma implicitamente que é a própria Fé que está sob ataque. Ela fala de “falsas doutrinas” e de “confusão diabólica”, de “cegueira” entre os que “possuem grandes responsabilidades” na Igreja. Ela lamenta o fato de tantos pastores “se deixarem dominar pela onda diabólica que está invadindo o mundo.” Acaso há forma mais exata de descrever a atual crise da Igreja? É a crise de uma Igreja que decidiu pactuar com um mundo em que reina Satanás.

Irmã Lúcia insiste, “A Santíssima Virgem sabia que esses tempos de desorientação diabólica chegariam.” Estas palavras da vidente, além de muitas outras que poderíamos citar, serão explicadas com clareza, e colocadas em proeminência, se em 13 de julho de 1917, no seu Terceiro Segredo, a Virgem tiver predito especificamente essa “desorientação diabólica” que de súbito invadiria a Igreja caso Seus pedidos não fossem atendidos.

A grande apostasia

Certa vez, em que a questionaram sobre o conteúdo do Terceiro Segredo, Irmã Lúcia disse: “Está no Evangelho, no Apocalipse, leia-o.” Ela confiou ao Pe. Fuentes que a Santíssima Virgem fê-la ver com clareza que “estamos no final dos tempos”. Isto não significa, é preciso dizê-lo, que estamos no tempo do fim do mundo e do Juízo Final, pois que antes há de vir o Triunfo do Imaculado Coração de Maria. O próprio Cardeal Ratzinger, aludindo discretamente ao conteúdo do Segredo de Fátima, mencionou três elementos importantes: “Os perigos que ameaçam a Fé”, “a importância do fim dos tempos” e o fato de que “a profecia contida no Terceiro Segredo corresponde ao que foi anunciado na Escritura.” Sabe-se que Irmã Lúcia indicou os capítulos 8 e 13 do Apocalipse.

É por isso que, nos dois últimos capítulos de meu livro trato dos ensinamentos de Nosso Senhor, de São Paulo e São João — tão ignorados hoje — anunciando as conturbações, a heresia e por fim a grande apostasia que se desencadeará na Igreja nos “tempos derradeiros”. E a comparação objetiva entre as profecias da Escritura — particularmente as do Apocalipse — e a grande profecia da Virgem de Fátima na aurora deste século contêm, de fato, paralelos numerosos e aterradores.

III – É preciso dar ouvidos a Nossa Senhora!

Já dissemos o suficiente para se compreender que não há nada tão importante, tão necessário e tão urgente do que tornar conhecido sem demora, a todos os fiéis da Igreja, o texto completo do Segredo de Maria, em sua límpida veracidade e em sua riqueza profética e transcendente. Seria apropriado aqui citar as numerosas razões que salientam a urgência de sua divulgação. Ficarei satisfeito de mencionar os pontos principais no final desta conferência:

Por que revelar o Terceiro Segredo?

► “Porque a Santíssima Virgem o quer.” Sabemos, com efeito, que Sua vontade não mudou de maneira alguma desde o momento da graça em 13 de julho de 1917, quando revelou o Segredo aos três pastorinhos, tampouco mudou depois de 2 de janeiro de 1944, quando apareceu a Irmã Lúcia no convento de Tuy e pediu-lhe para redigi-lo. Nossa Senhora deseja que esse oráculo profético seja revelado, que seja conhecido. E sabe-se que Irmã Lúcia, Sua Mensageira, continua a pedir a sua revelação pública, e até onde lhe foi permitido, ela o fez de forma enfática aos superiores eclesiásticos.

► Pelo bem das almas. Ao contrário do que diz a tão repetida mentira, o Segredo não está destinado exclusivamente ao Santo Padre. Tal como os dois primeiros segredos, ele está destinado a todos os fiéis. Como filhos da Igreja, somos filhos de Maria. Todos nós temos o direito de conhecer a advertência salutar que Nossa Mãe Celestial nos dirige neste momento perigoso, a fim de nos ajudar — a nós, nossas crianças, nossos próximos — a manter intacta e viva em nossos corações a verdadeira Fé católica recebida de nossos antepassados.

► Enquanto este Segredo não for revelado, continuará a trágica ameaça contra a paz no mundo. Explicarei melhor. Estamos convictos de que enquanto a Rússia não for consagrada ao Imaculado Coração de Maria, como Deus quer, a Rússia não se converterá. E enquanto não tiver sido convertida, libertada do seu ateísmo e bolchevismo opressor, e do domínio das forças satânicas que a escravizam, permanecerá a ameaça de um apocalipse nuclear. Deus desejou que a paz do mundo dependa, em nosso século, de uma obediência filial e fervorosa do papa e dos bispos aos pedidos de sua Mãe Santíssima, que apareceu em Fátima. Ora, este ato de fé, de docilidade confiante para com a Medianeira Imaculada, através do qual nossos pastores devem realizar a consagração da Rússia, pressupõe também, e devo dizer até mesmo antes de tudo, a aceitação e a revelação pública do Segredo. É uma lição de História: desde 1960, o encobrimento deliberado e desdenhoso do Segredo de Nossa Senhora tem andando de mãos dadas com a recusa inflexível de realizar devidamente Seus outros pedidos. Por outro lado, a publicação do Terceiro Segredo será o sinal claro de que a Igreja oficialmente reconheceu a autenticidade divina e a importância da Mensagem de Fátima no seu todo. Um dos maiores obstáculos da consagração da Rússia será então derrubado!

► Para o bem da Igreja. No momento em que a Igreja enfrenta a pior crise de sua história, em que heresias de todos os matizes são ensinadas e propagadas em toda parte e envenenam o povo de Deus, em que a sua “autodestruição” prossegue incessantemente desde 1960, e em que a “fumaça de satanás” — para usar expressões de Paulo VI — empesteou todos os lugares, seria uma grande pena e decerto um crime continuar a negligenciar, desconsiderar, desprezar as palavras salutares da Santíssima Virgem referindo-se precisamente a esta “crise de Fé” que estamos enfrentando. Visto que em 1917 a Rainha dos Céus previu o perigo e visto que propôs os remédios, não é uma vergonha que esses remédios, que deveriam ter sido divulgados ao público até 1960, ainda nos não tenham sido revelados? Não é um escândalo que por mais de 25 anos, milhões de almas sofram dessa “desorientação diabólica” e corram o risco de se perder por toda a eternidade, sem que os pastores da Igreja tenham concedido em aceitar o extraordinário auxílio que o céu oferece a elas?

É preciso suplicar ao papa e rezar muito por ele

São muitas as razões que tornam para nós uma obrigação suplicar pela revelação do Terceiro Segredo: É para a honra de Nossa Mãe, pela salvação de nossos irmãos, pela paz no mundo, pela restauração da Igreja. Que não nos digam, como um falso relato tenta nos fazer crer, que o Segredo de Fátima não pode ser revelado porque “será mal interpretado!” A Rainha do Céu, que previu e anunciou em 1917 tantos eventos até então imprevisíveis, e que vimos se realizarem ao longo deste século, teria Ela falhado em prever este risco, a ponto de tornar Seu Segredo dispensável pela Igreja? Não faz sentido. Não, o Seu Segredo é claro, não tem ambigüidades nem dificuldades de interpretação, disto estamos seguros. Ousamos dizê-lo! Não seria a sua excessiva clareza a causa da preocupação de nossos pastores? Rezemos então sem cessar para que o Santo Padre possa receber de Deus a luz e a força que lhe permitirão derrubar os obstáculos. Já é tarde, mas Irmã Lúcia nos diz, nunca é tarde para recorrer a Jesus e a Maria.”

Por último, e com isso concluo, se o Santo Padre ainda não decidiu tornar público o segredo final de Nossa Senhora exercendo sua autoridade pessoal, não deveria ele ao menos dar plena liberdade ao Prefeito do Santo Ofício, ao Bispo de Leiria ou a própria vidente, para que obedeçam à ordem explícita de Nossa Senhora e divulguem o Segredo?

Pois é um fato assombroso que por mais de 25 anos o Terceiro Segredo de Fátima tenha sido o único texto a permanecer no Index Prohibitorum… Irmã Lúcia está confinada ao silêncio. Em 15 de novembro de 1966, o Papa Paulo VI ab-rogou os artigos 1399 e 2318 do Código de Direito Canônico, os quais proibiam a publicação de livros e panfletos que propagassem sem autorização novas revelações, aparições ou profecias ainda não aprovadas pela Igreja. Essa ab-rogação está agora no novo código, de forma que desde 1966, qualquer um pode publicar e difundir entre os fiéis as revelações mais fantásticas. Qualquer embuste, diabrura não mais é proibido. Tudo está autorizado a ser publicado, e o “pai da mentira” se aproveita habilmente desta licença para multiplicar por todo o mundo aparições falsas e mensagens fraudulentas, que se difundem por toda parte e iludem inúmeros fiéis. A Mensagem de Fátima, que não se duvida que venha de Deus, é a única mensagem que, de forma escandalosa, foi proibida de ser publicada.

A conclusão se impõe por si só: É tempo de deixar a vidente de Fátima falar. E através dela a Santíssima Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, nossa amável e toda amorosa Medianeira e Co-Redentora. É urgente ouvi-la, já que “Só ela pode nos ajudar”, como Ela mesma disse em 13 de julho de 1917.

Nossa Senhora de Fátima – nossa última esperança

Seus três segredos nos revelam de fato Seu triplo poder e a tripla missão que Deus Lhe confiou. Deus deseja manifestar de maneira extraordinária essa missão de Nossa Senhora. É através d’Ela, através da visão do inferno e da revelação de Seu Imaculado Coração no primeiro segredo, que Ele deseja converter as almas, todas elas, e salvá-las, pois Ela é a “Mãe de Misericórdia” e o “Portão do Céu”. É através d’Ela: das ordens, das promessas, das ameaças do Segundo Segredo, que Ele tem tentado salvar o cristianismo, a fim de nos poupar das horríveis guerras e da escravidão comunista. Pois Deus estabeleceu-A como “Rainha da Paz”. É através d’Ela, através da profecia do Terceiro Segredo, que Deus deseja vencer essa “onda diabólica” que rebentou sobre a Igreja, essa impiedade que invadiu até mesmo o Santuário e todas as forças satânicas que propagaram e encorajaram a apostasia moderna, pois Ela é a “defensora da verdadeira Fé” e só Ela recebeu de Nosso Senhor o poder de derrubar as heresias em toda a Igreja: Cunctas haereses tu sola interemisti in universo mundo!

Essa tripla missão da Medianeira Imaculada, que o Seu grande Segredo nos revelou, é também a base inabalável de nossa esperança. Sim, podemos ter certeza disso quando o Seu Segredo for finalmente desvendado por completo e reconhecido como autêntico, quando a Rússia por fim for consagrada a Ela, a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês for oficialmente aprovada, a fiel e poderosa Virgem, Virgo Fidelis, Virgo Potens, terá sua profecia realizada. Plenos de alegria, testemunharemos o triunfo do Seu Imaculado Coração, que preparará o reino universal do Sagrado Coração de Jesus. A Rússia, libertada de seus demônios mediante uma conversão milagrosa, retornará ao rebanho da unidade romana. Será dado ao mundo algum tempo de paz. A Fé católica será pregada em todas as nações. E inúmeras almas deverão acorrer alegres às Fontes da Salvação na Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica, sob a liderança de um só Pastor!

Sim, este tempo há de chegar, e cabe a nós apressar-lhe a chegada, realizando com amor os pedidos de Nossa Senhora a partir de agora. Pois Ela precisa de nós. “Os tempos modernos, dizia São Maximiliano Kolbe, estão dominados por Satanás, e estarão ainda mais no futuro… Só a Virgem Imaculada recebeu de Deus a promessa de vitória sobre Satanás, mas estando na glória do céu, Ela precisa de nossa ajuda hoje. Ela busca almas consagradas inteiramente a Ela e que se transformem em suas mãos numa força para derrotar Satanás, e que, sob a direção d’Ela, sejam instrumentos efetivos para o estabelecimento do Reino de Deus.”

Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós!

Tradução: Permanência

(Conferência do renomado fatimólogo Michel de la Sainte-Trinité, publicada no número 272 da Revista Permanência. Embora não conheçamos a integralidade do Terceiro Segredo de Fátima, a sua essência foi revelada pelos especialistas e deve, portanto, ser tema de meditação dos católicos.)


[1] Secretária e governanta de Pio XII. (N do T.)

[2] O quarto volume não foi publicado pelo autor. (N. do T.)

[3] Cf. Revista Permanência, n. 264, art. “Os papas e a consagração da Rússia.”

[4] [N. do E.] A presente conferência data de 1985. O autor não poderia então conhecer, evidentemente, os relatos de F. Adessa que publicamos neste número de PERMANÊNCIA. Ver “O Terceiro Segredo de Fátima – um testemunho”.

[5] Madre Teresa.

Os papas e a consagração da Rússia

Nossa Senhora, na terceira aparição em Fátima, em 13 de julho de 1917, falou pela primeira vez sobre a consagração da Rússia e a comunhão reparadora. Nestes termos ela oferecia o único remédio decisivo e eficaz contra os males do mundo atual:

Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior […]. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nossa Senhora retornou anos mais tarde, conforme havia prometido, a fim de pedir a consagração da Rússia. Aconteceu o retorno em 13 de junho de 1929, em Tui, na Espanha, no convento das Irmãs Doroteias, onde Lúcia ingressara:

É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora.

A Santíssima Virgem é clara na indicação de que se não deve consagrar nem o mundo nem outro país qualquer ao Seu Imaculado Coração, mas tão-somente a Rússia.

Não existe outro pedido explícito de consagração nas mensagens de Fátima, Pontevedra e Tui, recebidas entre 1917 e 1929 por Irmã Lúcia, a qual tem absoluta certeza de haver transmitido com fidelidade as palavras de Nossa Senhora. Atesta-o Pe. Alonso, o grande especialista oficial de Fátima:

De fato, Lúcia, em 1917, desconhecia a realidade político-geográfica da Rússia, desconhecia até mesmo o nome do país. Interrogada por seu diretor, o Pe. Gonçalves, para que esclarecesse como chegou ao conhecimento da Rússia ou porque se recordara do nome da Rússia, e para que transmitisse o que Nossa Senhora lhe pedira na aparição de julho, respondeu Lúcia: “Até então, só tinha ouvido falar dos galegos e dos espanhóis, não sabia o nome de nenhum país. Mas o que percebíamos durante as aparições de Nossa Senhora ficava de tal modo gravado em nós que nunca esqueceríamos. Por isso é que eu sei bem, e com certeza, que Nossa Senhora falou expressamente da Rússia em julho de 1917” (Por eso es que yo sé bien, y con certeza, que Nuestra Señora hablo expresamente de Rusia, en julio de 1917)[1].

Nos escritos acerca da consagração, Irmã Lúcia menciona apenas a Rússia. Veja-se por ex. a carta que ela[2] enviou ao Papa Pio XI em março de 1937, em que ademais vinculava a consagração da Rússia à devoção reparadora dos primeiros sábados:

O bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia, se Vossa Santidade se dignar fazer e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria, e aprovar e recomendar a prática da devoção reparadora[3].

Por que a Rússia?

A Rússia é o maior país do mundo, contando atualmente com 17 milhões de quilômetros quadrados e 140 milhões de habitantes. Distâncias inauditas separam os pontos extremos do território: dez mil quilômetros entre Vladvostok a leste e a fronteira polonesa a oeste (onze fusos horários); dois mil, de norte a sul. Dezenas de povos de línguas diferentes o habitam e constituem um como epítome da humanidade. Em suma, é lícito afirmar que a Rússia é o maior império do mundo em continuidade territorial[4].

Já no séc. XIX escrevia Dom Guéranger:

A cada dia aumenta o poderio dos eslavos separados da Igreja Católica. Emancipadas do jugo muçulmano, formaram-se jovens nações naquela espécie de arquipélago, que são os Balcãs, […] a direção moral e religiosa dessas nações ressuscitadas pertence à Rússia. Aproveitando as vantagens com a useira habilidade, ela estende cada vez mais sua influência no Oriente. Na Ásia seus progressos são ainda mais prodigiosos. O tzar, que no fim do séc. XVII comandava apenas 30 milhões de homens, hoje em dia governa 125 milhões; e com a só progressão normal duma população fecundíssima, em menos de 50 anos contará o império com mais de 200 milhões de súditos.

Para infelicidade da Rússia e da Igreja, tal força se deixa guiar por superstições[5].

Força é ainda não esquecer a cismática Igreja russa de Moscou, que se julga a si a terceira Roma. Já declarava o metropolitano Zózimo (1462-1533), no cânon pascal de 1492: “Cairam duas Romas[6], Moscou há de ser a terceira, e quarta não haverá”. Desde então vem se fortalecendo a idéia da terceira Roma. Em 1512 o monge Filotéio de Pskov, em A História do Mundo, dava ao cap. XII do Apocalipse esta interpretação espantosa:

A mulher vestida de sol […] abandonará a velha Roma, por causa dos ázimos[7]. […] Ela foge para a nova Roma, mas lá também não encontrará a paz[8]; foge então para a terceira Roma, que se localiza na grande e nova Rússia; agora a Igreja una e apostólica resplende por todo o universo, mais brilhante que o sol, e somente o tzar a guia e protege.

Ivan III o Grande (1462-1533) e Ivan IV o Terrível (1533-1584) estimularam bastante essa idéia[9].

Por isso não é acaso que o inimigo do gênero humano tenha escolhido a Rússia como ponto de partida para “disseminar sobre o planeta as instituições e os costumes do ateísmo[10]”.

Mas Deus, como de costume, voltará contra satã o plano diabólico: o instrumento de nossa infelicidade, depois da conversão, tornar-se-á instrumento de catolicização no mundo inteiro. Novamente Dom Guéranger:

A Rússia católica é o fim do islã e o triunfo definitivo da Cruz no Bósforo, sem riscos para a Europa; é o Império Cristão do Oriente elevado a um esplendor e poder inauditos; é a Ásia evangelizada, não mais por curas pobres e isolados, mas secundados por uma autoridade superior a de Carlos Magno. Enfim, trata-se da grande família eslava reconciliada na unidade de fé e aspirações de grandeza. Esta transformação será o maior acontecimento do século que há-de testemunhá-lo e mudará a face da terra[11].

Depois de o Papa consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, a Virgem Maria encarregar-se-á pessoalmente da conversão da Rússia[12].

Alcance teológico da consagração da Rússia

Numa carta ao diretor espiritual, de 18 de maio de 1936, escrevia Irmã Lúcia as linhas seguintes:

Intimamente, tenho falado com Nosso Senhor sobre o assunto [da consagração da Rússia]; e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração. “Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração[13] como um triunfo do Imaculado Coração de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração.” Mas, meu Deus, o Santo Padre não me há-de crer, se Vós mesmo não o moveis com uma inspiração especial. “O Santo Padre! Ora muito pelo Santo Padre! Ele há de fazê-la, mas será tarde! No entanto, o Imaculado Coração de Maria há-de salvar a Rússia. Está-Lhe confiada[14].

Deus quer a espetacular conversão da Rússia mediante a Consagração ao Imaculado Coração de Maria, para que se estabeleça no mundo esta devoção de par com a devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Demais a mais, Nossa Senhora reiterara tal vontade em 13 de maio de 1917 ([“Jesus”] quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração”.) e em 13 de julho do mesmo ano (“Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração.”)

Nosso Senhor almeja glorificar aos olhos do mundo Aquela com quem Ele se associou para o cumprimento da obra da salvação: eis o sentido da devoção reparadora dos primeiros sábados, cujo objetivo é reparar os pecados cometidos contra o Coração de Maria; eis também o sentido da consagração da Rússia e do poder atribuido ao Imaculado Coração para alcançar a vitória final: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

O Coração por que se deu o primeiro passo da salvação (o Fiat de Maria no dia da Anunciação) é agora a última oportunidade de salvação que se oferece à humanidade.

Caso os homens respondam ao triplo chamado de Fátima (conversão pessoal, devoção reparadora e consagração da Rússia), a justiça divina, que hoje pune o mundo com guerras, calamidades e toda casta de perseguições contra a Igreja, dará lugar à misericórdia que num átimo acabará com tais provações e concederá algum tempo de paz. Enquanto os homens continuem surdos aos chamados do Céu, as desgraças hão de continuar e aumentar.

A comunhão reparadora e a consagração da Rússia lograrão uma prodigiosa efusão da misericórdia divina, comparável às bênçãos agregadas às indulgências[15]: os atos que Nossa Senhora nos pediu são como que condições, cujo cumprimento nos alcança uma indulgência de dimensões mundiais.

A consagração da Rússia se remete à teologia da Aliança: “Se guardardes a minha Aliança, disse Iavé aos Hebreus, […] vós sereis para mim um povo de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex 19, 5-6). Nosso Senhor, no momento de oferecer-se ao Pai no sacrifício da Nova Aliança, disse aos discípulos: “Por eles, eu me santifico a mim, a fim de que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 19). Consagrar e santificar são sinônimos. Quem consagra a Deus, santifica; a consagração oferece a Deus um objeto, comparticipando-o de Sua santidade. Ao consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, e por este a Nosso Senhor, o Papa confiá-la-ia à ação da Misericórdia redentora, e recolocaria o triste país nos trilhos da conversão e da santificação. Compreende-se que a Rússia – outrora símbolo da independência em face de Deus, instrumento ativo e primeira vítima do processo de ateisação do mundo moderno – necessite, para que se cure, duma consagração especial que a reporá nos trilhos da dependência, de que nunca deveria ter saído. Como a consagração estará aos cuidados de Maria, esse ato também será a reafirmação solene da mediação universal de Nossa Senhora – mediação esta que é objeto da zombaria dos modernistas (e esta não é nem de longe a pior blasfêmia dirigida à Virgem).

Mas é lícito uma pessoa consagrar outrem a Deus? Não pressupõe a consagração o livre assentimento? Entende-se a objeção, mas Leão XIII a contestou na encíclica Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899, que anunciava a consagração do mundo inteiro ao Sacratíssimo Coração de Jesus:

A sua autoridade não se estende somente aos povos que professam a fé católica e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que os erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infrinjam os vínculos da caridade). […] Nós ocupamos no lugar daquele que veio salvar o que estava perdido e deu o seu sangue pela salvação de todos os homens. Eis porque nossa solicitude está continuamente dirigida àqueles que ainda jazem na sombra da morte […] comovidos pelo seu destino, recomendamo-los vivamente ao Sacratíssimo Coração de Jesus e, no que nos diz respeito, consagramo-los a ele[16].

Em primeiro lugar, a consagração é reconhecimento de pertença: consagrar algo ou alguém a Deus é reconhecer o domínio soberano de Deus sobre a pessoa ou coisa. O compromisso assumido no ato é apenas consequência desta pertença. No caso da consagração da Rússia, quem se compromete em nome do país consagrado é o responsável por sua salvação eterna – o Papa. Nossa Senhora solicita um ato solene, realizado em união com os bispos do mundo inteiro, que desta sorte reconhecerão a primazia e o poder supremo do soberano pontífice.

A mediação de Maria, pela qual se há de fazer a consagração, traz à lembrança que agora o homem está chamado a cooperar na efusão da misericórdia divina; foi o Imaculado Coração de Maria a resposta mais perfeita que uma criatura já deu ao plano da salvação inaugurado por Deus, e é este Coração o modelo perfeitíssimo da correspondência às graças que Deus quer derramar sobre a pobre Rússia para salvá-la[17].

Infelizmente os sucessores de São Pedro se mostraram mui reticentes ao cumprimento deste plano.

A Recusa de Pio XI

Entre setembro de 1930 e agosto de 1931, certamente Pio XI tomou conhecimento dos pedidos celestes sobre a devoção e a consagração da Rússia[18].

Todavia, o Papa Pio XI, ao lado das democracias ocidentais, estava comprometido desde 1922 com a política de abertura do leste, já esboçada por Bento XV[19]. Ademais o Papa fez esta declaração assustadora: “Quando se trata de salvar alguma alma e impedir os grandes males que as põem a perder, Nós sentimos coragem de discutir com o diabo em pessoa[20].” Entretanto este não foi o pedido de Nossa Senhora.

A resposta ao pedido da Consagração da Rússia foi o silêncio; a partir de 1930-31, o Papa calou até mesmo as alusões aos acontecimentos de Fátima.

Depois da recusa do Papa Pio XI, Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia, numa comunicação íntima em agosto de 1931, em Rianjo[21]:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [22].

Empreendeu-se nova tentativa no final de março de 1937: Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreveu diretamente ao Papa, que acabava de lançar a magnífica encíclica Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937). Parece que esclarecido pelos fracassos nas negociações com o que chamava de “o triângulo terrível”, il terribile triangolo[23], o Papa mudava de atitude e declarava com firmeza:

O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã [24].

O momento parecia favorável à consagração da Rússia, mas a única resposta foi um silêncio semelhante ao de 1930-1931.

Se o Papa houvesse obedecido aos pedidos celestes, certamente a Rússia converter-se-ia e não aconteceriam a II Guerra Mundial nem a assustadora expansão do comunismo.

Bem ao contrário, foi no pontificado de Pio XI que Moscou começara a instruir os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários católicos, a fim de infiltrar a Igreja e miná-la por dentro[25].

É perigoso ignorar os planos celestes de salvação e as manobras do inimigo.

As consagrações incompletas de Pio XII

Pio XI morreu em 10 de fevereiro de 1939.

Em 21 de janeiro de 1940 Irmã Lúcia propôs ao confessor, o Pe. Gonçalves, renovasse ante a Santa Sé o pedido de Consagração da Rússia. Em abril de 1940 transmitiram o recado a Pio XII. Pensava Pe. Gonçalves que o Papa realizaria a consagração em maio; era lícito esperar tal atitude do novo pontífice, pois que ele era mui devoto da Santíssima Virgem e benevolente às aparições de Fátima. Mas não houve reação em Roma.

A consagração do mundo de 1942

Por iniciativa do Mons. Manuel Ferreira, bispo titular de Gurza, decidiram os diretores espirituais de Lúcia em setembro e outubro de 1940 intentar um novo esforço perante o Santo Padre, apresentando-lhe um requerimento mais factível: a consagração do mundo, com especial menção à Rússia[26]. Mons. Ferreira ordenou Lúcia a escrever ao Papa Pio XII e formular este novo pedido que, sendo diferente do de Nossa Senhora, mergulhou-a em grande perplexidade. Em busca de nova luz Irmã Lúcia recorreu instante à oração. Eis a narração do fato:

22 de outubro de 1940. Recebi uma carta do Pe. Gonçalves e do bispo de Gurza, ordenando-me a escrever a Sua Santidade… Neste sentido, passei duas horas diante de Nosso Senhor exposto [e recebi a seguinte revelação]:

“Reza pelo Santo Padre, sacrifica-te para que o coração dele não sucumba sob a amargura que o oprime. A tribulação continuará e aumentará. Eu punirei os crimes das nações com a guerra, a fome e a perseguição à minha Igreja, que pesará especialmente sobre meu Vigário sobre a terra. Sua Santidade conseguirá que esses dias de tribulação sejam abreviados se ele obedecer aos meus desígnios e fazer o ato de consagração do mundo inteiro, com especial menção à Rússia, ao Imaculado Coração de Maria[27].

A revelação de outubro de 1940 e as dirigidas a Alexandrina Maria da Costa aparecem como o derradeiro instrumento de resgate que apresentou a misericórdia divina ante a persistente desobediência da autoridade suprema da Igreja à mensagem de Fátima. Para este pedido novo e secundário promete-se novo fruto, mui inferior àquele do pedido principal: a abreviação da grande calamidade que Nossa Senhora anunciou em 13 de julho de 1917 – a II Guerra Mundial.

Em 31 de outubro de 1942 o Papa Pio XII realizou a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e renovou-a em 8 de dezembro de 1942. O texto não fazia menção explícita à Rússia, tão-só uma alusão velada, mas de suficiente transparência, à pobre nação:

A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, […] mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.

Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente!

Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! e primeiro as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.

Estendei a vossa protecção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade, e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Luc. 2, 14).

Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor. [28]

Para reavivar a lembrança da consagração, o Papa Pio XII mais tarde fixaria a celebração do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo a ela a dignidade de festa de segunda classe[29].

A misericórdia divina outorgou o prometido fruto da consagração: mostra-nos o exame objetivo da história que, em todas as frentes de batalha, houve uma reviravolta decisiva em favor dos Aliados nos meses finais de 1942 e iniciais de 1943; decerto tal reviravolta permitiu a abreviação da duração da II Guerra Mundial.

Entretanto Irmã Lúcia não se iludia quanto aos efeitos da consagração de 1942:

“O Bom Deus tinha-me mostrado já o Seu contentamento pelo ato, ainda que incompleto, segundo o Seu desejo, do Santo Padre e de vários Bispos. Em troca, promete acabar breve a guerra. A conversão da Rússia não será já[30].

Os acordos de Ialta (4 de fevereiro de 1945) consolidaram o poder comunista em nível internacional.

É preciso recordar que, em 1941, Pio XII – sob a pressão de Roosevelt, que ansiava ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e também de Stalin – admitiu que a hierarquia católica calasse a perversidade intrínseca do comunismo e a impossibilidade de colaborar com ele. Em câmbio prometeu-se convocar a Igreja para participar do esforço de reconstrução do pós-guerra[31]. Certamente o silêncio de Pio XII facilitou em muito o trabalho da maçonaria na organização da nova ordem, que previa entregar todo o leste europeu ao comunismo, o qual fortalecido em sua nova posição avançaria mais tarde em direção à Ásia: China, Vietnã, Camboja, etc[32].

A encíclica Sacro Vergente Anno de 1952

Neste ínterim o céu manifestava-se ao Papa: nos dias 30 e 31 de outubro e 1º e 8 de novembro (dias circumpostos à data da definição solene do dogma da Assunção), o Santo Padre viu dos jardins do Vaticano a renovação do milagre do sol de 13 de outubro de 1917, mas Pio XII nada fez.

Em maio de 1952 apareceu Nossa Senhora novamente à Irmã Lúcia:

Faz saber ao Santo Padre que Eu ainda estou à espera da Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração. Sem a Consagração da Rússia, a Rússia não poderá converter-se e o mundo não terá paz[33].

Sem dúvida, após aquela mensagem e de concerto com o movimento dos católicos russos, que anelavam o cumprimento dos pedidos de Nossa Senhora, Pio XII escreve uma Carta Apostólica aos Povos da Rússia, em que declara:

Nós consagramos e de uma forma mais especial confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração [34].

“Estou triste de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escrevia Irmã Lúcia no verão[35].

Desta vez faltou ao ato a devida solenidade: nomeou-se a Rússia, mas não houve nenhuma cerimônia em particular, nem foram os bispos do mundo inteiro conclamados a unir-se nesta intenção.

No ano seguinte, em Siracusa na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria desatou a chorar e a operar milagres que abalaram o mundo[36]. Ao que parece Pio XII não associou este acontecimento à Fátima.

Ao contrário, após Sacro Vergente Anno, o Santo Padre quase já não falava de Fátima. Os adversários da aparição, por seu turno, à imitação do Pe. Dhanis, exerciam cada vez mais influência, bem como os que se opunham à doutrina de Maria Medianeira[37]. A partir de então se restringiram as visitas à Irmã Lúcia: “O Papa decidiu que somente pessoas que já a houvessem visitado poderiam vê-la sem autorização expressa da Santa Sé[38].” Começava-se a impor o silêncio à mensageira do céu.

No entanto convém precisar um ponto importante: se por interesses da política americana Pio XII teve por bem calar a Divini Redemptoris – com as consequências incalculáveis que tal silêncio acarretou –, ele rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou.

Qual não foi a sua dor quando, em outubro de 1954, provou-se que Mons. Montini, o futuro Paulo VI, então secretário substituto da Secretaria de Estado, mantinha à socapa conversações secretas com o Kremlin[39]. Pio XII decidiu afastar logo Montini, mas como sempre estivesse disposto a refrear o falatório, elevou-o a um cargo honorífico – arcebispo de Milão – sem contudo nomeá-lo cardeal. Desta forma excluía-se Mons. Montini do próximo conclave, mas infelizmente ele foi alçado a um posto bem conveniente ao que lhe reservava o futuro.

Depois de Pio XII a situação complicou-se, à medida que os papas de espírito liberal e modernista ocuparam a Sé de Pedro; mais que nunca iria concretizar-se o alerta de Nosso Senhor:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [Nosso Senhor à Irmã Lúcia, em agosto de 1931.]

A Igreja entrava numa crise sem precedentes na história[40], e a sua finalidade era a punição da hierarquia.

Imbuidos dos ideais modernos, os novos papas ficaram muito pouco à vontade com a mensagem catolicíssima da Virgem Maria em Fátima.

João XXIII e os acordos entre Roma e Moscou

Ao passo que a abrangência mundial do comunismo se tornava cada vez mais alarmante, em razão das recusas em atender aos pedidos de Nossa Senhora, o Papa João XXIII resolveu assinalar seu pontificado com o sinal do otimismo, sem levar em nenhuma conta as advertências celestes nem as dos inúmeros colaboradores que o cercavam. Sabe-se bem o que disse ele no discurso de abertura do Concílio Vaticano II:

Parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo.[41]

Soam estranhas tais palavras, se as comparam com os apelos da Virgem Santíssima em Fátima. Em agosto de 1959, ao tomar conhecimento do terceiro segredo de Fátima, o Papa decidiu não publicá-lo, decisão esta que caiu como um balde d’água fria sobre o grande fervor pela devoção de Nossa Senhora de Fátima, que aumentava sobremodo às portas dos anos 1960. A partir de 1959 João XXIII começou a diligenciar para que não fosse mais possível visitar Irmã Lúcia sem licença de Roma[42].

Nesse contexto entende-se porque nunca exigiram a consagração da Rússia durante o pontificado de João XXIII; bem ao contrário, João XXIII, na intenção de que se autorizasse o envio de dois representantes da igreja cismática da Rússia ao Concílio Vaticano II, negociou com Kruschev, por intermédio do Mons. Willebrands e do Card. Tisserant, e se comprometeu a não condenar o comunismo. Sobre o acordo disse Mons. Roche:

A decisão de convidar os observadores ortodoxos russos para o Concílio Vaticano II partiu de Sua Santidade em pessoa, encorajado pelo Cardeal Montini, que na época em que era arcebispo de Milão fora o conselheiro do patriarca de Veneza. Ou melhor, era o Card. Montini que conduzia em segredo a política da Secretaria de Estado durante a primeira sessão do Concílio, a partir do escritório clandestino que o Papa lhe arrumou na famosa Torre de São João, dentro dos muros da Cidade do Vaticano.

O Card. Tisserant recebeu ordens formais de negociar o acordo e cuidar de sua aplicação rigorosa durante o Concílio. Por isso, cada vez que um bispo começava a discutir o problema do comunismo, o cardeal, da mesa do conselho de presidência, intervinha e recordava a recomendação de silêncio, segundo a vontade do Papa[43].

O comedimento nas relações com Moscou não surtiu nenhum efeito na atenuação das perseguições: Kruschev continuou a deter os padres e multiplicou o número de igrejas fechadas. Não se deve comer com o diabo, mesmo com uma colher de cabo longo.

Paulo VI e a Ostpolitik 

O Concílio não condena o comunismo

João XXIII morreu antes do fim do Concílio; coube a Paulo VI levá-lo a termo e confirmar os acordos entre Roma e Moscou: não havia razão de desautorizar uma política de que, desde 1962, era ele um dos principais promotores.

Assim, quando em outubro de 1965 Mons. Léfèbvre remeteu ao Secretário do Concílio uma súplica, redigida por Mons. Carli e assinada por 454 bispos, em que se impetrava a inserção duma condenação ao comunismo na constituição Gaudium et Spes, que versava sobre a Igreja no mundo – a petição não foi levada em consideração. Escutemos Mons Léfèbvre narrando os fatos:

É algo absolutamente inaudito na história da Igreja. Reuniu-se um concílio pastoral, ou que se dizia pastoral, i .e., destinado ao cuidado das almas e à salvação dos fiéis e do mundo; contudo, ao maior dos males, ao mais ignóbil e dissolvente para a sociedade, a pessoa humana e a liberdade –  que é o comunismo –, afirmam: “- Não o condenaremos durante o Concílio.”

Pessoalmente conheço algo sobre o assunto. Eu, junto com Mons. Sigaud, reunimos 450 assinaturas em favor da condenação do comunismo. Eu mesmo as levei ao secretariado do Concílio. Mas foram engavetadas! Ainda tentaram veicular que nunca houve tal manifestação no Concílio. Eu mesmo levei os documentos em pessoa, e guardei a lista dos bispos que pediam a condenação. É de fato inacreditável. Fui testemunha disso. Levantei-me para protestar. Desmentiram a apresentação das 450 assinaturas, depois disseram que haviam chegado tarde demais e já não sabiam onde estavam. Na verdade, eles decidiram que não se condenaria o comunismo, para que viessem os delegados de Moscou[44].

A reunião dum concílio universal em meio ao séc. XX seria a ocasião providencial de se consagrar a Rússia de forma solene ao Imaculado Coração de Maria, tal como Nossa Senhora pediu. Os acordos entre Roma e Moscou impossibilitaram um ato desse quilate e se constituíram no principal obstáculo à paz oriunda dos céus. Mais ainda, o requerimento que Mons. de Proença apresentou, assinado por 510 bispos de 78 nações, em que se instava renovasse o Concílio a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia, teve destino semelhante àquele de condenação ao comunismo[45].

O Desprezo por Fátima

Paulo VI não escondia o desprezo por Fátima – e nesta afirmação não há nenhum exagero. Em 13 de maio de 1967 ele se dirigiu à Cova da Iria para o cinquentenário das aparições, mas se limitou a fazer uma viagem de ida e volta. Lá celebrou apenas uma missa chã em português, na presença de um milhão de peregrinos, recusou a entrevista que Irmã Lúcia lhe requereu e não rezou na Capelinha, como previa o programa da visita. No sermão exortou a humanidade ao esforço de paz, mas não aludiu à mensagem de Nossa Senhora. Escreveu Robert Serrou que Paulo VI foi até Fátima, pois “estava certo de encontrar ali uma das mais extraordinárias tribunas do mundo, donde sua voz ecoaria em toda a superfície da terra[46].” Contudo pregara ali a paz só humana, como fizera na ONU, uma vez que seus planos não coincidiam com os do Céu[47].

Além disso, na reforma litúrgica, Paulo VI rebaixou a festa do Imaculado Coração de Maria, que Pio XII elevara à dignidade de festa de segunda classe, a uma simples memória[48].

Desenvolvimento da Ostpolitik

Escutemos o Cardeal Sodano, secretário de estado, resumir a política de Paulo VI ante Moscou, cujo artífice foi Mons. Cassaroli:

Durante o pontificado de Paulo VI se desenvolve a primeira e a mais árdua fase da Ostpolitik, i. e., a negociação sobre o Cardeal Mindszenty e a possibilidade de nomear bispos na Hungria; as conversações extenuantes e intermináveis com o governo tcheco, que iriam continuar até a queda de Mur; o acordo de Belgrado com o governo de Tito; e finalmente as conversas com o governo polonês. […] Registre-se a recusa que o governo polonês contrapôs a uma viagem de Paulo VI, ainda que brevíssima, a Czestochowa, e a visita de Mons. Caseroli às dioceses polonesas em 1967, que o levou até a Cracóvia, para um encontro cordial e importante com o Cardeal Wojtyla.

No pontificado de Paulo VI, a experiência multilateral da Santa Sé toma impulso na Conferência de Helsinque (1973-1975), ocasião em que a delegação vaticana obtém o reconhecimento explícito da liberdade religiosa (sétimo princípio da Ata de Encerramento), que dá legitimação formal aos requerimentos da Igreja nas negociações bilaterais em face de cada governo. Terminaria o pontificado com o pedido do Papa ao corpo diplomático, em janeiro de 1978, para que os católicos e crentes de todas as confissões “se beneficiassem” do espaço de liberdade que se devia à fé em suas expressões pessoais e comunitárias. Este requerimento solene parece que tem o valor profético dum conselho moral de Paulo VI a seu sucessor[49].

Aprofundavam-se assim as negociações com o demônio; como tais acordos não estavam nos planos do Céu, não haveriam de terminar bem. O arcebispo tcheco Mons. Hnilica juntou coragem e deu uma resposta vigorosa ao livro de Casaroli: realmente mereceria o cardeal o título de mártir da paciência, que os editores conferiram em sua honra?

Parece-me inapropriado e injusto usar a palavra mártir em honra de certas pessoas, que não foram mártires e que, por via de ações diplomáticas sofisticadas e no caso improváveis, contribuiram de facto ao agravamento notável do verdadeiro martirio dos verdadeiros mártires. […] Neste ponto de vista, é singular o testemunho dos verdadeiros mártires. Segundo eles, seus sofrimentos cresceram sobremaneira em decorrência da ação daqueles de quem esperavam apoio e sustento[50].

João Paulo I

O pontificado de 33 dias de João Paulo I não lhe deu tempo hábil para responder aos pedidos de Nossa Senhora.

Quando era arcebispo de Veneza, ele manifestou interesse e devotamento aos acontecimentos de Fátima, e chegou mesmo a travar uma longa conversa com Irmã Lúcia, em 11 de julho de 1977, durante uma peregrinação diocesana[51].

Sublinhe-se ainda que João Paulo I aceitara totalmente o Concílio. Sobre a liberdade religiosa dizia: “Por anos ensinei a tese que aprendi no curso de direito público ministrado pelo Cardeal Ottaviani, segundo a qual só a verdade gozava de direitos. Estudei o problema a fundo e no fim me convenci de que estávamos enganados[52].” Aludindo aos tradicionalistas afirmava: “Alguns abusos na liturgia talvez favorecessem reações e atitudes que levaram à tomada de posições insustentáveis e contrárias ao Evangelho[53].”

Ele haveria segredado a um de seus conselheiros: “Se eu viver, retornarei à Fátima e consagrarei o mundo, em particular os povos da Rússia, à Santa Virgem, conforme as indicações que ela deu à Irmã Lúcia[54].”

Mas a consagração não se limita à recitação duma simples oração: antes, tal ato significaria a renúncia total à política que João XXIII e Paulo VI praticaram até então. Teria João Paulo I a força e sobretudo as convicções necessárias para realizá-la?

Nada autoriza afirmá-lo, uma vez que sua alcunha papal era a combinação das de seus predecessores imediatos; além disso, ele estava comprometido com as diretivas do Vaticano II e da reforma litúrgica.

João Paulo II prossegue a Ostpolitik

Assentado à Sé de Pedro, João Paulo II prosseguiu com a política de abertura do leste, em continuação a Paulo VI. Retornemos à conferência do Cardeal Sodano:

Em outubro de 1978, a eleição do Papa João Paulo II introduziu novidades importantíssimas nas relações com o leste: 1) a experiência pessoal dum pastor que suportara a opressão e as injustiças cometidas contra seu povo; 2) a afirmação inscrita na encíclica Redemptor Hominis, de que os direitos do homem e as liberdades fundamentais têm sua raiz única na dignidade da pessoa e constituem o critério de verificação da legitimidade dos regimes de qualquer país; 3) o orgulho da nação polonesa que reivindicava a restituição de sua dignidade cristã.

Este foi um amplo desafio que o Papa do leste lançou à URSS e aos demais regimes comunistas, enquanto as negociações prosseguiam com maior impulso sob a condução do Cardeal Caseroli, agora secretário de estado. […As conversações] almejavam a recuperação dos espaços de oração, a possibilidade da formação para a catequese, a difusão de idéias quais a dignidade da pessoa e a liberdade de consciência, que contraditavam a ideologia e a organização do mundo comunista. Deste modo a ação paciente e infatigável contribuira, durante muito tempo […] para que se operasse a erosão do sistema dos regimes comunistas, atingindo-os justamente no que consideravam essencial à sua ideologia – o controle das mentes[55].

Os homens da Igreja não diligenciavam pelo reino de Jesus e de Maria, fruto da consagração da Rússia, mas pela difusão dos Direitos Humanos e da liberdade de consciência; de fato este plano não veio do Céu.

Além disso, no começo de seu pontificado, João Paulo II era indiferente à Fátima; contudo a tentativa de assassinato de 13 de maio de 1981 atraiu-lhe de súbito a atenção à mensagem de Nossa Senhora, quiçá devido a remorsos de consciência. Decidiu-se pois a fazer alguma coisa.

Tentativas de consagração

Quando se publicou o terceiro segredo de Fátima em 2000, Mons. Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, relatou as tentativas de consagração que João Paulo II intentou. Aqui a versão oficial do Vaticano.

Reagrupamos as consagrações de 1981 e 1982, pois os textos são idênticos.

Após o atentado de 13 de maio de 1981, João Paulo II pediu a sobrecarta em que estava a terceira parte do “segredo”. […]

Como se sabe, o Papa João Paulo II logo pensou na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e chegou a compor uma oração para o que definia como “um ato de consagração” a celebrar-se na basílica de Santa Maria Maior, em 7 de junho de 1981, na solenidade de Pentecostes, em dia escolhido para comemorar o 1600º aniversário do I Concílio de Constantinopla e o 1550º aniversário do Concílio de Éfeso. Estando o Papa ausente, por força das circunstâncias[56], transmitiu-se a alocução em gravação. Aqui oferecemos o texto que se refere exatamente ao ato de consagração:

“Ó Mãe dos homens e dos povos, Tu[57] conheces todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Tu sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas que agitam o mundo — acolhe o nosso grito dirigido no Espírito Santo, diretamente ao Teu coração e abraça com o amor da Mãe e da Serva do Senhor os povos que mais esperam este abraço, e ao mesmo tempo os povos cuja consagração Tu também esperas de modo particular. Toma debaixo da tua proteção maternal a família humana inteira que, com afetuoso transporte, a Ti, ó Mãe, nós confiamos. Aproxime-se para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança.” [58]

Esta cerimônia não é a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos do mundo inteiro, mas antes a entrega, mediada pelo Papa, da “família humana inteira” às mãos da “Mãe dos Homens e dos Povos”.

Não se nomeou claramente o Imaculado Coração de Maria: o texto menciona “coração” sem mais precisões.

O Papa renovará o ato em 13 de maio de 1982, em Fátima.

A Irmã Lúcia reagiu imediatamente, remetendo o seguinte texto ao Mons. Portalupi, núncio apostólico em Portugal:

No ato de oferecimento de 13 de maio de 1982, a Rússia não apareceu claramente como o objeto da consagração. Os bispos não organizaram em suas dioceses cerimônias públicas e solenes de reparação e de consagração da Rússia. O Papa João Paulo II simplesmente renovou a consagração do mundo feita por Pio XII em 31 de outubro de 1942. Podem-se esperar alguns benefícios, mas não a conversão da Rússia[59].

E conclui ela:

A consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu. Eu não pude fazer esta declaração até agora porque não tinha autorização da Santa Sé[60].

A consagração de 25 de março de 1984

Prossigamos com o texto de Mons. Bertone:

A fim de responder com plenitude aos pedidos de “Nossa Senhora[61]”, quisera o Santo Padre explicitar, no curso do Ano Santo da Redenção, o ato de consagração de 7 de junho de 1981, repetido em Fátima em 13 de maio de 1982. Em 25 de março de 1984, na praça de São Pedro, em união espiritual com todos os bispos do mundo – “convocados” previamente – e à evocação do fiat de Maria no momento da Anunciação, o Papa consagrou ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com inflexões que recordam as palavras comoventes de 1981:

“Ó Mãe dos Homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o nosso mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao Vosso Coração; e abraçai, com o amor da Mãe e da Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.”

“De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações, que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade.”

“‘À Vossa proteção nos acolhemos Santa Mãe de Deus!’ Não desprezeis as nossas súplicas que a Vós elevamos, nós que estamos em provação!”

“Encontrando-nos hoje diante de Vós, Mãe de Cristo, diante do Vosso Coração Imaculado, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos com a consagração que, por nosso amor, o Vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Por eles eu consagro-me a Mim mesmo – foram as suas palavras – para eles serem também consagrados na verdade (Jo. 17,19).”

“Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação.”

“A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história, e que, de fato, despertou nos nossos tempos.”

Oh! quão profundamente sentimos a necessidade de consagração, pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser pelo mundo participada por meio da Igreja. […]

“Ajudai-nos[62] a viver na verdade da consagração de Cristo pela inteira família humana do mundo contemporâneo.”

“Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no Vosso Coração materno[63].”

Seria esta a consagração que Nossa Senhora pediu?

Antes do mais, João Paulo II, em união com os bispos, consagrou o mundo; chega até a repeti-lo diversas vezes, sem alusões – ainda que veladas – à Rússia[64]. Na homilia da missa da manhã, celebrada em Roma, o Papa declara sua intenção:

Cumprir duma vez por todas o que meus predecessores já fizeram: confiar o mundo ao Coração de Maria.

Todo o mundo sabe que seus predecessores não consagraram a Rússia ao Imaculado Coração. Demais, apenas um deles realizou consagração solene: Pio XII, ao consagrar o mundo em 1942. João Paulo II afirma claramente que não fará mais nada além disso.

Se quisesse consagrar a Rússia, diria ele: “Como ainda não se consagrou a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, decidi-me em consagrá-la hoje e assim responder aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima.”

Estava o Papa tão certo de não haver respondido aos pedidos da Santa Virgem que, na noite do dia da consagração, numa oração a Nossa Senhora, referira-se aos “povos pelos quais tu esperas nosso ato de consagração[65]”. Apesar da cerimônia da manhã, o Papa sabia que a Virgem ainda estava à espera do ato.

Quando o Mons. Cordes, presidente do Conselho Pontifício para os Leigos, perguntou por que razão o Papa não quis pronunciar o nome da Rússia, respondeu ele que temia “que os dirigentes soviéticos interpretassem suas palavras como provocação[66].”

É verdade que, desta vez, na fórmula de João Paulo II, mencionou-se com todas as letras o Imaculado Coração de Maria, o que não aconteceu nas consagrações de 1981 e 1982, em que o Papa se limitava a dizer: “Nós dirigimos diretamente ao teu coração.” Entretanto o conjunto do texto é bem confuso e a leitura suscita uma dúvida: não é possível saber se a consagração se fez à “Mãe dos Homens e dos Povos” ou se destinou ao Imaculado Coração de Maria[67].

Irmã Lúcia não se deixou embair: três dias antes da consagração – quinta-feira, 22 de março de 1984 – lhe perguntou a Sra. [Eugênia] Pestana: “Então, Lúcia, domingo é a consagração?”, ao que ela fez sinal negativo e acrescentou: “Tal consagração não pode ter um caráter decisivo.[68]” Irmã Lúcia estava ciente do que se tratava, pois tinha ela em mãos o texto a ser lido pelo Papa.

No ano seguinte, numa entrevista publicada em Sol de Fátima, de setembro de 1985, acerca da consagração de 1984, declara Irmã Lúcia: “Não houve participação de todos os bispos e não houve menção da Rússia.” À pergunta: “Então a consagração não foi feita como foi pedida por Nossa Senhora?’, deu Irmã Lúcia a seguinte resposta: “Não. Muitos Bispos não deram importância a este ato.”

Em Chrétiens-Magazine, de março de 1987, revelava o mui progressista Pe. Laurentin: “Irmã Lúcia continua insatisfeita. […] Ela pensa, parece, que a consagração não foi feita de acordo com o pedido de Nossa Senhora.”

Está claro que as consagrações de João Paulo II em 1981, 1982 e 1984 não atenderam aos pedidos expressos de Nossa Senhora.

Após a Perestróica

O Vaticano se opõe à consagração da Rússia

Ostpolitik de João Paulo II chegou ao auge em 1º de dezembro de 1989, menos de um mês após a queda da cortina de ferro, quando o Vaticano recebeu Mikhail Gorbachev, presidente do Soviete Supremo da URSS[69].

Neste instante Roma inaugurou uma nova política. Apesar da facilitação do acesso aos países do leste, não se empreendeu uma campanha de evangelização mas, ao contrário, lançou-se mão do ecumenismo conciliar. Os católicos e os cismáticos assinaram, em 23 de junho de 1993, os acordos de Balamand, que se concluíram “excluindo-se doravante todo o proselitismo e a vontade de expansão dos católicos em prejuízo da Igreja Ortodoxa (nº 35)[70].”

Já não se pode resistir ao desejo da Virgem Maria de converter a Rússia. O Pe. Alonso, historiador oficial de Fátima, escrevia em 1976:

“…poderíamos dizer que Lúcia sempre pensou que a ‘conversão’ da Rússia não se entende apenas pelo retorno dos povos da Rússia à religião cristão-ortodoxa, rechaçando o ateísmo marxista e ateu dos sovietes, mas antes se refere pura e simplesmente à conversão total e integral, ao retorno à única e verdadeira Igreja católica e romana[71].

A reviravolta de Irmã Lúcia?

Em maio de 1989, confiava Irmã Lúcia ao Cardeal Law, arcebispo de Boston, estas palavras sobre a consagração:

O Santo Padre acha que já a realizou, considerando as possibilidades e segundo as circunstâncias. Mas se a realizou seguindo a fórmula estrita da consagração colegiada que [Nossa Senhora] pediu e desejava? Não, isso não foi feito[72].

Irmã Lúcia diz aqui claramente que:

  • é o Papa quem considera realizada a consagração;
  • a consagração não correspondeu aos pedidos expressos de Nossa Senhora.

Este texto é importante, pois é a última vez que a Irmã Lúcia afirma que a Rússia não foi consagrada, tal como a Santa Virgem pediu. Em seguida, a partir de junho, parece que Irmã Lúcia chegou a dizer que a consagração estava feita[73].

No ano 2000, à época da publicação da terceira parte do segredo de Fátima, o Mons. Bertone, no documento que já citamos, foi ainda muito mais explícito:

A Irmã Lúcia confirma em pessoa que este ato solene e universal de consagração [de 1984] correspondia ao desejo de Nossa Senhora (“Sim, está feita, tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de março de 1984”; carta de novembro de 1989). Por isso, qualquer discussão ou nova petição não tem fundamento[74].

Não obstante, fica claro que não se realizou a consagração tal como Nossa Senhora a pediu. Haveria Irmã Lúcia se persuadido de que o Céu aceitara o ato incompleto de 1984? Diferentes causas poderiam explicar a mudança de discurso: a pressão das autoridades vaticanas, a queda da cortina de ferro, a cessação das perseguições físicas[75] na Rússia e a total desinformação acerca da situação real do país. De qualquer modo, a nova atitude da vidente permitia a Roma apresentar a Perestróica como o resultado da consagração de 1984[76] e atribuir esta glória a João Paulo II. Essa interpretação era um modo de encerrar duma vez para sempre o processo de Fátima: a consagração estava feita, Fátima pertence ao passado[77].

No entanto, como parte do mundo católico ainda exigisse a consagração da Rússia[78], Mons. Bertone dirigiu-se pessoalmente ao Carmelo de Coimbra para obter nova confirmação de Irmã Lúcia. Ele a mandou dizer: “A consagração desejada por Nossa Senhora foi feita em 1984 e o Céu a aceitou[79].”

A leitura atenta do texto porém causa perplexidade: por um lado, o extrato da conversa de uma hora e meia a duas horas que o prelado travou com a vidente contém apenas poucas dezenas de palavras; por outro lado, Mons. Bertone põe na boca de Irmã Lúcia que ela “leu detidamente e meditou o fascículo que a Congregação para a Doutrina da Fé publicara, e confirmou tudo o que ali se dizia[80].”

Ora nesse texto de apresentação do Terceiro Segredo de Fátima, o Cardeal Ratzinger refere-se nomeadamente ao “teólogo flamengo E. Dhanis, eminente conhecedor desta matéria” [81].

Demais a mais, não hesita em declarar:

É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do “segredo” de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do “segredo” [82]. […] A conclusão do « segredo » lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé [83].

Põem-se assim em grandes dúvidas as aparições e a mensagem de Fátima.

Como pôde Irmã Lúcia aprovar um texto desses? Ou é falsa a confirmação de “tudo o que foi dito”, ou fê-lo apenas por obediência.

Qualquer que seja o mistério – a partir de 1989 – em torno do testemunho de Irmã Lúcia, cuja morte lança sobre a questão um véu definitivo[84], convém valer-se do conselho de Nosso Senhor: “A árvore se reconhece pelos frutos” (Mt 12, 33).  Se o Céu aceitou a consagração de 1984, dever-se-ia enxergar os frutos. Que são deles após vinte anos?

O Céu ainda está esperando

São três os frutos de que Nossa Senhora enriqueceu este solene e público ato de reparação e consagração da Rússia ao Imaculado Coração, segundo a mensagem de 13 de julho de 1917:

  • a conversão da Rússia;
  • certo tempo de paz concedido ao mundo;
  • salvação eterna de muitas almas.

Basta observar a situação do mundo e da Igreja vinte anos após a pretensa consagração de 1984 para constatar a ausência completa dos três efeitos e do triunfo do Imaculado Coração de Maria que haveria de se seguir.

A Rússia não se converteu

Em 13 de julho de 1917 revelara Nossa Senhora: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá.” Qual a situação da Rússia hoje?

Usemos Portugal como ponto de comparação: o país foi consagrado ao Imaculado Coração de Maria em 1931; o resultado, uma ressurreição extraordinária do catolicismo no país[85]. Após a consagração de 1984 aconteceu algo análogo na Rússia?

Atualmente o povo russo está soçobrando em profundíssimo desespero e refugiando-se no alcoolismo: cerca de 50% dos homens e 17% das mulheres[86] são viciados em álcool. As cifras demográficas revelam ainda mais o afundamento moral do país: 2/3 das crianças concebidas são hoje em dia vítimas do aborto. Em 1999 houve 2.300.000 abortos e só 1.214.000 nascimentos.

A natalidade baixíssima unida à significativa mortalidade obrada pelo alcoolismo, os acidentes rodoviários, os suicídios (até entre as crianças), os crimes e a péssima saúde da população fizeram com que a Rússia perdesse mais de três milhões de habitantes entre 1989 (queda do Muro de Berlim) e 2004[87]; de fato se conta a cada nascimento dois falecimentos[88]. O déficit populacional avizinha-se de um milhão de pessoas por ano – um caso único no mundo[89].

Eis os números dum povo desesperado e incapaz de divisar o próprio futuro; tais cifras costumam encontrar-se apenas entre povos em guerra.

Continuando no campo da moralidade: Boris Yeltzin legalizou em 1993 o homossexualismo na Rússia, que se tornou um centro internacional de pornografia infantil[90].

Numa entrevista ao semanário argentino Cristo Hoy, o Pe. Hector Muñoz O.P., após retornar de três anos de ministério na Rússia, confidenciava:

A Rússia é uma terra devastada pelo marxismo, pelos séculos que o precederam e pela passagem brutal e irracional para outro sistema. O ateísmo entranhou-se profundamente. Segundo os dados dos popes, os fiéis praticantes da sua religião não chegam a 2%. Os dirigentes políticos sofrem muitos ataques, e com razão: a corrupção atingiu níveis de escândalo público, o salário médio dum operário é de oitenta dólares por mês, e o dum trabalhador rural é de trinta dólares; a pensão das viúvas orça em catorze dólares. A porcentagem de divórcios em Moscou chega a 70%, e na Rússia como um todo a 45%, o que significa que a metade das famílias é atingida[91].

Osservatore Romano em língua portuguesa, de 30 de outubro de 1999 (p.9-10) confirmava essa apreciação ao publicar que:

A evangelização da Rússia representa um empreendimento de dificuldades inimagináveis. Basta observar que o número de crentes que praticam a fé, contando-se aqui todas as confissões cristãs, corresponde a cerca de 2 a 3% da população.

Para piorar o quadro, parece que as autoridades políticas por seu turno encarniçam-se contra a ação da Igreja Católica na Rússia: a lei de “liberdade religiosa” adotada em 1997, resultado da pressão do patriarcado cismático de Moscou, é uma verdadeira lei de perseguição contra a Igreja Católica. Com efeito esta lei faz distinção entre:

  • as “organizações religiosas” que tem o estatuto de pessoa moral e, portanto, beneficiam-se duma existência legal e plena na Rússia. Quatro são as religiões assim reconhecidas: a igreja cismática russa, o judaísmo, o islão e o budismo;
  • e os “grupos religiosos” que não se beneficiam do estatuto precedente e por isso conservam-se em situação precaríssima no país. Puseram a Igreja Católica nesta categoria, ao nível das seitas. Em consequência não possui ela o direito de ensinar a religião nas escolas públicas, de fundar escolas próprias, de manter capelanias nas prisões, nos hospitais e nas casas de retiro, nem mesmo a de ser proprietária de gráficas, jornais, etc.

Não acabou a perseguição contra a Igreja, mas apenas mudou de forma.

Acrescente-se a este quadro moral e religioso o fato de a Rússia estar em processo de reconquistar um poder político e militar um tanto inquietante, em razão

  • do refortalecimento do poder central;
  • da recuperação do poder nuclear;
  • da cooperação econômica e militar com o Irã e a China;
  • da expansão econômica (ainda que não melhore em nada o nível de vida do cidadão médio).

No atribulado contexto internacional que conhecemos, poderia a Rússia tornar-se facilmente uma nova ameaça ao Ocidente.

Há de se dizer ainda mais: não apenas a Rússia não se converteu, mas seus erros estão hoje espalhados pelo mundo inteiro[92]. Esta situação, que está piorando cada vez mais – vinte anos após o ato de João Paulo II em 1984 –, prova a posteriori e com evidência que não se fez a consagração.

O mundo não está em paz

Esta é outra promessa de que a Virgem Santa enriqueceu a consagração da Rússia: “Será concedido ao mundo algum tempo de paz” (13 de julho de 1917).

Ora o mundo encontra-se atualmente em meio a guerras contínuas, provocadas pelo estado de instabilidade.

Desde a II Guerra Mundial – que seria a punição dos crimes do mundo, segundo a profecia de Nossa Senhora na mensagem de 13 de julho de 1917 –, nunca mais houve paz global na terra. E mesmo depois da consagração de 1984 a situação permanece imutável: provam-no as guerras do Kôsovo, do Afeganistão e do Iraque, sem contar as guerras civis que estouram aqui e ali, na África ou alhures, devastando países inteiros. O jornal português 24 Horas, de 18 de abril de 1999, publicou um mapa das guerras civis que se desenrolaram no mundo durante a década de 1990: o periódico recenseou cerca de seis milhões de mortos; o relatório não incluia as vítimas das guerrilhas comunistas da América Latina.

Irmã Lúcia, na obra Apelos da Mensagem de Fátima, que ela terminou em 1997 (logo, treze anos após a consagração de João Paulo II) e cuja publicação o Vaticano autorizou em dezembro de 2001, escrevia:

Lancemos uma vista de olhos sobre o mundo! Que vemos? Qual é o quadro que se depara a nossos olhos? – Guerras, ódios, ambições, raptos, roubos, vinganças, fraudes, homicídios, imoralidades, etc. E, em castigo de tantos pecados: catástrofes, doenças, desastres, fome e toda a espécie de dor e sofrimento, sob cujo peso a humanidade geme e chora.

Os homens que se julgam sábios e poderosos continuam projetando mais guerras, mortes, misérias e desgraças …mais derramamento de sangue, em cujo mar afogam os povos[93].

Não se poderia traçar quadro mais trágico da situação mundial. Além disso, João Paulo II chega a mesma constatação, manifestando assim que o ato de 1984 de nada serviu:

Em alguns dias recordaremos o trágico atentado das “torres gêmeas’ de Nova Iorque. Infelizmente, junto com as torres, parece que ruiram as numerosas esperanças de paz. As guerras e os conflitos continuam a se espalhar e a envenenar a vida de muitos povos, em particular nos países mais pobres da África, da Ásia e da América Latina[94].

Observando-se a situação atual do mundo, constata-se apenas o impressionante fluxo das múltiplas manifestações sociais e políticas do mal: da desordem social à anarquia e à guerra, da injustiça à violência contra o próximo e a sua supressão[95]?

Para obter a paz, João Paulo II deposita toda a esperança no ecumenismo, e não na mensagem da Virgem Maria em Fátima:

Vendo quanto os povos tinham a necessidade urgente de sonhar com um futuro de paz e prosperidade para todos, convidei os crentes das diversas religiões do mundo para se reunirem em oração em favor da paz. Tinha diante dos meus olhos a grande visão do profeta Isaias: todos os povos do mundo, de diversos pontos da terra, vinham se reunir em torno de Deus como uma única família, grande e multiforme[96]. Eis a visão que guardava no coração o bemaventurado João XXIII e que o levou a escrever a encíclica Pacem in Terris. Em Assis este sonho assumiu uma forma concreta e visível[97].

A exemplo do ato de 1984, constatou João Paulo II que os encontros interreligiosos não trouxeram a paz sobre a terra. Ora a Santíssima Virgem prometera “algum tempo de paz”, se se atendessem os pedidos. As guerras permanentes que continuam a devastar o mundo demonstram a insistência com que se desobedece à Santa Virgem.

Cada vez mais almas caem no inferno

Enfim a Virgem Maria enriqueceu duma terceira promessa a consagração da Rússia: “Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas” (13 de julho de 1917).

Um mundo onde salvar-se-iam muitas almas viveria oficial e mormente no respeito às regras da moral, em particular às santas leis do casamento cristão.

Ora não são necessárias longas demonstrações para constatar-se que o mundo afunda numa imoralidade que ultrapassa em muito os crimes de Sodoma e Gomorra.

No seu último livro Irmã Lúcia também tem observações a fazer a este respeito. Assim, acerca do sexto mandamento de Deus, escreve ela:

Nestes tempos em que a sociedade parece ter querido fazer desse pecado uma lei, a Sagrada Escritura continua repetindo o mandamento de Deus: “Não cometerás adultério” (Dt 5, 17). […] Assusta olhar para o mundo de hoje, com a desordem que reina a tal respeito e a facilidade com que se mergulha na imoralidade[98].

Sobre o nono mandamento diz ela ainda:

“Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Dt 5, 21). Tal é a desordem que vai pelo mundo contra este mandamento, que me pergunto a mim mesma: ainda vale a pena falar dele? A resposta é afirmativa: porque ainda que todo o mundo se afogue no abismo, a palavra de Deus permanece[99].

Nos Apelos insiste Irmã Lúcia em apontar estes dois pecados, pois tem ela em mente o que a Santa Virgem dissera à pequena Jacinta: “Os pecados que mais levam almas para o inferno são os pecados da carne[100].”

A Virgem Maria prometeu que, se a Rússia fosse consagrada ao Imaculado Coração, salvar-se-iam inúmeras almas. Pelo contrário, a atual condição do mundo leva grande número de almas ao inferno. Eis aí uma prova de que a Rússia não foi consagrada.

Não foi exaltado o Imaculado Coração

Não se realizou nenhuma das três promessas ligadas à consagração da Rússia. E eis que resta fazer a observação mais importante de todas: certo dia Irmã Lúcia perguntou a Nosso Senhor porque esses três benefícios maravilhosos não seriam concedidos se o Papa não consagrasse a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Respondeu Nosso Senhor:

Porque quero que toda a minha Igreja reconheça esta consagração [conversão da Rússia] […] a devoção a este Imaculado Coração[101].

Não foi o que aconteceu a partir de 25 de março de 1984: a devoção ao Imaculado Coração de Maria nunca esteve tão sumida; e ainda serviram-se da queda do Muro de Berlim para exaltar não a Virgem Maria, senão a política de João Paulo II; à morte deste, os meios de comunicação o saudaram como “o demolidor do comunismo[102]”, “o artífice da derrocada do comunismo na Polônia[103]”; escrevia o Osservatore Romano: “Muito se insiste sobre o papel que o Papa desempenhou na derrocada do comunismo; esta é uma história que em grande parte ainda não foi contada[104].” João Paulo II em pessoa declarou em 1994:

Seria simplista acreditar que a derrocada do comunismo tenha sido provocada pela intervenção direta da Divina Providência. […] O comunismo caiu sozinho, por causa de sua fraqueza imanente[105].

O Papa não afirma que consagrou a Rússia, não associa a queda do Muro de Berlim à consagração de 1984, nem atribui a presente situação da Rússia à ação do Imaculado Coração de Maria; em verdade, chega a dizer que o muro caiu sozinho.

Estamos aqui mui distantes dum triunfo do Coração de Nossa Senhora, pois é manifesto que João Paulo II não consagrou a Rússia segundo o pedido de Nossa Senhora. Acrescente-se ainda que nunca se fez nada para que se disseminasse a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês.

Epílogo

No domingo de Páscoa de 1984, encerrava assim o sermão Mons. Lefebvre:

Deseja a Santíssima Virgem que seja a Rússia consagrada ao Imaculado Coração. Para quê? Para que reine seu Filho na Rússia e retorne o reino de Nosso Senhor àquele país que neste momento está entregue nas mãos de satã como instrumento para destruir o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a humanidade e o mundo inteiro. Sabe assim a Santíssima Virgem – a que esmagou a cabeça da serpente e luta contra satã – que é para lá que se há de levar as bênçãos de Deus; ela deseja ser a rainha da Rússia para entregar seu reino ao Filho, por isso pediu que lhe fosse consagrada a Rússia.

Parece que ninguém quer declarar “Nós consagramos a Rússia ao Imaculado Coração de Maria”, para que as graças da Santíssima Virgem convertam o pais e o transformem em terra de missão, que ao invés de instrumento de satã, será um país missionário.

Em verdade vivemos numa época admirável e espantosa: permite o bom Deus que o reino de satã possua uma extensão inacreditável. Logo, devemos lutar contra satã, secundados pelos auxílios da Santíssima Virgem, para que reine Nosso Senhor Jesus Cristo, seu divino filho[106].

Neste combate dos últimos tempos, guardamos uma esperança invencível fundamentada na promessa infalível de Nosso Senhor: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu farei minha igreja, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

Nosso Senhor revelou a Irmã Lúcia, em Rianjo, ecoando as palavras do Evangelho:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [107].

Em 29 de agosto de 1931, numa carta a Mons. Silva, bispo de Leiria-Fátima, Irmã Lúcia esclarecia que Nosso Senhor também afirmara: “Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria[108].”

“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

(Nossa Senhora, em 13 de julho de 1917.)

Anexo

Consagração da Rússia

Crônica da resistência à graça

Apresentamos aqui os acontecimentos axiais da longa história dum notável e terrível paradoxo: desde que há um século o Céu ofereceu à hierarquia católica um meio fácil de vencer os inimigos de Deus, conluiados para aniquilar o cristianismo de sobre a terra, os homens da Igreja iniciaram uma resistência a este plano de salvação, precipitando a si e ao mundo inteiro na desgraça.

13 de julho de 1917 – A Virgem Maria anuncia às três crianças de Fátima que há de pedir a consagração da Rússia ao Imaculado Coração e a consagração reparadora, a fim de obter a conversão da Rússia, a paz do mundo e salvação eterna de muitas almas, mas que não se dissesse nada a ninguém até a hora certa;

Pontificado de Pio XI

13 de junho de 1929 – Doze anos após as primeiras aparições em Fátima, e conforme a promessa de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora aparece novamente à Irmã Lúcia em Tui, na Espanha, para lhe dizer que era chegado o momento de fazer o ato solene e público de reparação e consagração da Rússia ao Imaculado Coração;

Entre setembro de 1930 e agosto de 1931 – Pio XI toma conhecimento dos pedidos celestes, contudo está comprometido desde 1922 com a política de abertura do leste, por isso responde a eles com o silêncio; a partir de então, deixa de aludir ao Imaculado Coração;

Mas em Rianjo, em agosto de 1931, diz Nosso Senhor à Irmã Lúcia, numa comunicação íntima:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição. Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e Maria[109].

13 de maio de 1931 – Os bispos de Portugal consagram o país ao Imaculado Coração de Maria[110]. Deste então, o pais vai conhecer (até o fim do governo de Salazar em 1968) uma milagrosa renovação religiosa e política. Portugal se torna assim “a vitrina de Nossa Senhora”, e o mundo inteiro testemunha as graças que o Céu concederia às outras nações, se se consagrassem ao Imaculado Coração de Maria;

1932 – Começa a punição dos homens da Igreja: naquele ano o Pe. de Lubac, futuro inspirador do Vaticano II, elabora sua nova teologia; o Pe. Congar começa a assistir cursos de teologia numa faculdade protestante; Pe. Chenu é nomeado lente em Saulchoir; Karl Rahner acompanha os cursos de Heidegger em Friburgo. No ano seguinte Maritain expõe suas novas idéias políticas.

Neste momento Moscou começa a instruir a todos os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários, para infiltrar a Igreja e miná-la por dentro.

1º de agosto de 1935 – Nosso Senhor ordena a uma mística portuguesa, Alexandrina Maria da Costa, escrevesse ao Santo Padre para pedir-lhe a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Deste modo intenta o Céu obter um ato nem tão grandioso quanto a consagração da Rússia, mas que poderia prepará-la;

19 de março de 1937 – Instruido pelos fracassos de sua política em face do “triângulo vermelho de terror e sangue[111]”, Pio XI escreve a magnífica encíclica Divini Redemptoris, em que declara o comunismo “intrinsecamente perverso’;

Fins de março de 1937 – Acreditando propício o momento. Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreve diretamente ao Papa para lhe solicitar a consagração da Rússia; um silêncio semelhante ao de 1930-31 foi a única resposta;

25-26 de janeiro de 1938 – Realização da profecia feita por Nossa Senhora em 13 de julho de 1917: naquela noite avistou-se uma espécie de aurora boreal, dum vermelho cor de sangue, na Europa, no Norte da África e na América do Norte, onde causou estupefação e inquietude – era o sinal de que guerra que vai punir o mundo está próxima;

Junho de 1938 – O Pe. Pinho, confessor de Alexandrina Maria da Costa, prega o retiro anual dos bispos portugueses em Fátima; ele sugere aos bispos que escrevam uma carta conjunta ao Papa para solicitar a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. O Papa não a responde; morre a 10 de fevereiro de 1939;

Pontificado de Pio XII

Abril de 1940 – O Pe. Gonçalves, confessor de Irmã Lúcia, transmite a Pio XII o pedido de consagração da Rússia, mas não houve reação em Roma;

2 de dezembro de 1940 – Irmã Lúcia escreve ao Papa sobre a abreviação da guerra, se se consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia; esta consagração é um paliativo que não logrará a conversão da Rússia, mas abreviará a provação da guerra. É a primeira vez que Lúcia consigna em papel os dois pedidos: a comunhão reparadora e a consagração da Rússia. Acrescenta ela que a proteção que Nossa Senhora prometeu a Portugal durante a guerra é a prova das graças que concederia às demais nações se elas fossem consagradas ao Imaculado Coração de Maria;

Julho de 1941 – Tão logo concluiu o pacto com Hitler em 1939 – pacto este que precipitou o início da guerra –, Stalin alia-se aos aliados; esta tática vai propiciar à Rússia considerável influência sobre o mundo;

Agosto de 1941 – Irmã Lúcia recebe inspiração divina para dar a público conhecimento as duas primeiras partes do grande segredo de 13 de julho de 1917, a fim de advertir o mundo do perigo que o está ameaçando[112];

Setembro de 1941 – Sob pressão de Roosevelt, que queria ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e de Stalin, Pio XII aceita que a hierarquia católica silencie a perversidade intrínseca do comunismo; contudo, rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou;

No curso do ano de 1942 – Segundo Mons. Roche, Mons. Montini assina um acordo secreto com Stalin sem informar Pio XII;

6 de setembro de 1942 – Numa carta ao Pe. Gonçalves Irmã Lúcia escreve que, durante um retiro em Fátima, os bispos portugueses enviaram a Roma uma súplica para que seja o mundo consagrado ao Imaculado Coração de Maria;

31 de outubro e 8 de dezembro de 1942 – Pio XII consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Ele não fez menção explícita à Rússia, mas apenas uma alusão velada. – A partir daí a guerra sofre uma reviravolta decisiva: em 3 de novembro Rommel é derrotado em Al Alamein; em 8 os Americanos desembarcavam na África do Norte. Em 2 de fevereiro do ano seguinte o VI Exército alemão do Marechal Paulus capitula em Stalingrado;

4 de maio de 1944 – Para comemorar a lembrança da consagração de 1942, Pio XII fixa a festa do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo-lhe a dignidade de festa de segunda classe. – Neste mesmo ano de 1944 um jesuíta belga, o Pe. Édouard Dhanis, publica uma tese em que lança dúvidas sobre a autenticidade do segredo de 13 de julho de 1917. No ano seguinte pretextava ele que era moralmente impossível consagrar a Rússia, em razão das reações que poderia suscitar;

De 4 a 11 de fevereiro de 1945 – Na conferência de Ialta Roosevelt entrega a Stalin a Europa Central e Oriental, e depois lhe abandona imensas regiões do Extremo Oriente, deixando a Ásia desassistida contra a invasão comunista;

15 de julho de 1946 – Numa entrevista a William Thomas Walsh Irmã Lúcia reafirma claramente que o Papa e todos os bispos devem consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, ou então aquela nação espalhará seus erros no mundo inteiro;

13 de maio de 1947 – Uma imagem de Nossa Senhora de Fátima é levada em triunfo da Cova da Iria até o congresso mariano de Maastricht, nos Países Baixos. Este é o começo da “jornada mundial”, durante a qual a Virgem Peregrina percorrerá os cinco continentes, realizando inúmeras conversões e atraindo os não-católicos. No curso de cinco anos o mundo inteiro vai testemunhar o poder do Imaculado Coração de Maria;

Outubro de 1947 – Após uma longa conversa com Irmã Lúcia Pe. Colgan e John Haffert fundam o Exército Azul, cujo objetivo é reavivar diariamente a mensagem de Fátima no espírito dos fiéis e trabalhar para a obtenção da consagração da Rússia; o Exército Azul espalhar-se-á rapidamente em 110 países;

De 8 a 14 de dezembro de 1947 – A Santíssima Virgem impede um golpe de estado comuno-soviético na França, ao aparecer a quatro meninas em Île-Bouchard;

1949 – O Pe. Dhanis é nomeado professor da Universidade Gregoriana em Roma; sua influência crescerá mais e mais até que o Pe. Fonseca refute com mestria sua tese;

1950 – Prossegue a maldição de Deus sobre os homens de Igreja; os anos de 1950-53 veem um aumento alarmante do progressismo na Igreja, instado pelo auxílio de figuras poderosas – Em 6 de junho Mons. Roncalli, o futuro João XXIII, então núncio apostólico a Paris, escreve à Sra. Marc Sangnier uma carta em que reabilita o fundador do Sillon[113]; essa carta circula nos meios políticos da França. – Em 8 de setembro, numa entrevista ao filósofo Jean Guitton. Mons. Montini, o futuro Paulo VI, relativiza em muito as condenações da encíclica Humani Generis, com intenção de abonar os teólogos franceses mirados pelo documento[114]. – Quanto a assuntos políticos, está-se no começo da descolonização, que entrega ao comunismo imensos territórios, nos quais a Igreja perde a influência missionária e civilizatória;

30 de outubro e 8 de novembro de 1950 – Nos dias à cerca da definição solene do dogma da Assunção, Pio XII testemunha em privado, nos jardins do Vaticano, a renovação do milagre do sol de 13 de outubro de 1917;

Maio de 1952 – Nossa Senhora aparece novamente a Irmã Lúcia para dizer que ainda espera pela consagração da Rússia;

7 de julho de 1952 – Certamente após a mensagem acima e, ao mesmo tempo, em razão do movimento dos católicos russos, que anelavam o cumprimento dos pedidos da Virgem Santíssima, Pio XII escreve a carta apostólica Sacro Vergente Anno, em que ele consagra e de forma especial confia todos os povos da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Nomeou-se a Rússia no texto, mas não se realizou nenhuma cerimônia pública e solene, nem houve a conclamação dos bispos do mundo inteiro para que se unissem ao ato. “Dá-me pena de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escreveu Irmã Lúcia naquele verão. A partir daí Pio XII diminui aos poucos as menções à Fátima e ordena que se restrinjam as visitas à Irmã Lúcia;

De 29 de agosto a 1º de setembro de 1953 – Em Siracusa, na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria desata a chorar e operar inúmeros milagres que agitam o mundo inteiro. Pio XII parece que não associa o fenômeno à Fátima;

Outono de 1954 – Com estupefação e dor Pio XII descobre a traição de Mons. Montini, secretário substituto na Secretaria de Estado, que ainda mantinha relações secretas com o Kremlin. O Papa o afasta de Roma ao nomeá-lo arcebispo de Milão, mas não o alça ao cardinalato;

9 de outubro de 1958 – Morte de Pio XII. Papas de espírito liberal e modernista acedem à Sé de Pedro. Mais que nunca iria realizar-se o aviso de Nosso Senhor:

Não quiseram atender ao meu pedido. Como o Rei de França, arrepender-se-ão, e fá-la-ão, mas será tarde. [Nosso Senhor a Irmã Lúcia, em agosto de 1931.]

Pontificado de João XXIII

A Igreja entra numa crise sem precedentes na história[115]: trata-se da punição da hierarquia. Imbuidos das ideias modernas, os novos Papas ficaram muito pouco à vontade com a autêntica catolicidade da mensagem da Virgem Maria em Fátima.

Agosto de 1959 – João XXIII decide não publicar a terceira parte do segredo de Fátima, ao passo que Nossa Senhora queria a publicação do segredo em 1960; contudo, nada foi anunciado;

Setembro de 1959 – Quando a Virgem Peregrina chega em triunfo a Roma, João XXIII lhe manifesta uma indiferença glacial. Neste mesmo ano ele toma medidas para que não seja possível visitar Irmã Lúcia sem a licença de Roma. – Durante seu pontificado, não há nenhum esforço para consagrar-se a Rússia;

8 de fevereiro de 1960 – O Vaticano comunica que provavelmente nunca revelará o terceiro segredo de Fátima; dessa forma, corta-se rente o imenso fervor devocional a Nossa Senhora de Fátima, suscitado pela espera da revelação do segredo e a jornada mundial;

12 e 13 de outubro de 1960 – Por iniciativa de Mons. Venâncio, bispo de Leiria-Fátima, organizou-se uma peregrinação de oração e penitência à Cova da Iria, em reparação às ofensas aos Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria, para conquistar ao Céu a verdadeira paz com a conversão da Rússia. Está presente o Cardeal Cerejeira bem como milhares de peregrinos. Os bispos do mundo inteiro foram convidados, a partir de suas dioceses, a unirem-se a este ato; centenas de bispos responderam ao apelo, mas João XXIII guardou silêncio. – A peregrinação se dá em meio a um temporal, debaixo de rolos de vento e aguaceiro. – O resultado dela não se deixou esperar: apesar de estarmos num dos momentos mais tensos da Guerra Fria e Kruschev mostrar-se mais arrogante que nunca, no mês de outubro os soviéticos sofrem reveses catastróficos em seus experimentos aeroespaciais e nucleares: em 12 de outubro, na ONU, Kruschev descalça-se e espanca a bancada com o sapato, pois acabava de saber do fiasco do lançamento da primeira sonda para Marte; em 24 de outubro, na base de Baikonur, um míssil R-16, o estado da arte em armamento estratégico na Rússia, explode durante uma demonstração e mata o marechal Nedelin (comandante-em-chefe das unidades soviéticas de projéteis e Vice-Ministro da Defesa) e mais 164 militares;

1962 – No intento de conseguir o envio de dois representantes da Igreja Ortodoxa Russa ao Concílio Vaticano II João XXIII, por intermédio de Mons. Willebrands e do Cardeal Tisserant, negocia com Kruschev e compromete-se a não condenar o comunismo. Inaugura Roma uma política que vai de encontro aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima; apesar disso, Kruschev não diminui o ímpeto persecutório contra a Igreja.

Pontificado de Paulo VI

6 de junho de 1963 – Com uma nota do Cardeal Wyszinski, a Santa Sé previne os bispos franceses e superiores maiores dos religiosos da residência da França, alertando-os contra as atividades do Grupamento Pax, que não passa dum braço de Moscou para dividir e dominar a Igreja[116];

29 de outubro de 1963 – Em razão do ecumenismo, o Concílio Vaticano II recusa-se a elaborar um esquema particular sobre a Virgem Santíssima. Escreve o Pe. Berto: “A Santa Virgem obstava o Concílio. […] Tiraram-na discretamente […] e os destinos da segunda sessão foram selados. […]  Enquanto isso, o Espírito Santo […] observava do paraíso[117].” Não há uma passagem sequer deste concílio “pastoral” que ao menos aluda à recitação do terço, a fim de encorajar sua prática entre os fiéis. Neste ano de 1963 Paulo VI nomeia o Pe. Dhanis reitor da Universidade Gregoriana em Roma;

3 de fevereiro de 1964 – Mons. de Proença Sigaud remete pessoalmente ao Papa um requerimento com assinaturas de 510 bispos de 78 nações, em que instava renovasse o Concílio a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia;

21 de novembro de 1964 – No discurso de fechamento da terceira sessão do Concílio Paulo VI “confia” – seria em atendimento à petição? – o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, mas foi apenas um discurso, e não uma cerimônia solene, e ademais não se nomeou a Rússia;

Outubro de 1965 – Mons. Lefebvre leva ao secretário do Concílio uma súplica com as assinaturas de 450 bispos, em que se demandava a condenação do comunismo; mas uma vez que o Vaticano empenhava-se em não condenar o comunismo: a petição desapareceu numa gaveta;

1966 – Mons. Venâncio encarrega o Pe. Alonso, claretano, da organização duma história crítica e exaustiva das aparições de Fátima, para defender a mensagem de seus oponentes, sobretudo do Pe. Dhanis;

13 de maio de 1967 – Em comemoração ao cinquentenário das aparições, Paulo VI faz uma viagem-relâmpago à Fátima. Ele não vai rezar na Capelinha, recusa-se a falar com Irmã Lúcia e profere um sermão em que exortava a humanidade a trabalhar pela paz, mas sem alusões à mensagem de Nossa Senhora. Mais tarde, confidencia ele a Jean Guitton que a viagem lhe foi uma penitência. – As idéias de Paulo VI estão bem afastadas da mensagem de Fátima: esta foi a época em que ele inaugurou oficialmente a Ostpolitik com os governos comunistas do leste europeu; Mons. Casaroli era seu representante;

1969 – Na reforma litúrgica Paulo VI rebaixa a festa do Imaculado Coração de Maria à condição de simples memória;

De 1973 a 1975 – Na conferência de Helsinque a delegação vaticana obtém dos países do leste o reconhecimento explícito da liberdade religiosa. – Em realidade, declara Mons. Hnilica, a situação dos católicos piora a cada momento nos países comunistas; os bispos concedidos à Igreja são instrumentos do partido[118].

Pontificado de João Paulo I

Em 1977, após uma longa entrevista com Irmã Lúcia, João Paulo I, ainda arcebispo de Veneza, segredou a um de seus conselheiros que gostaria de consagrar a Rússia, tal como Nossa Senhora de Fátima pediu. Seu curtíssimo pontificado não lhe deixou tempo de fazer o que quer que fosse, mas não é certo de que ele teria a coragem e as convicções necessárias para a realização dum tal ato, pois era um dos cooptados pelos erros do Vaticano II.

5 de setembro de 1978 – João Paulo I recebe Mons. Nikodim, metropolitano cismático de Leningrado, que morre de súbito durante a audiência, depois de aparentemente ter-se convertido. Em 22 de maio de 1975 ele fez uma peregrinação privada à Fátima[119].

Pontificado de João Paulo II

16 de outubro de 1978 – Eleição do Papa João Paulo II, que continua de imediato a Ostpolitik de seu predecessor;

1980 – Depois de apenas três anos de vasta campanha, o Cardeal Josef Slipyj leva ao Vaticano um abaixo-assinado com três milhões de assinaturas, em que se pedia a consagração da Rússia. No mesmo ano, na presença do Cardeal Wyszinski, Mons. Hnilica afirma a João Paulo II que o ato mais importante a que seu pontificado poderia almejar seria a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com todos os bispos[120]. Responde-lhe o Papa que não gostaria de se imiscuir nos assuntos russos e também porque pensava não ter jurisdição para fazer o ato;

13 de maio de 1981 – Atentado contra João Paulo II na Praça São Pedro. O Papa compreende a ligação entre este acontecimento e Fátima. No hospital ele manda trazer as Memórias de Irmã Lúcia;

7 de junho de 1981 – Ainda no hospital o Papa ordena que leiam em Santa Maria Maior um texto no qual ele entrega “toda a família humana” nas mãos da “Mãe dos Homens e dos Povos”; não se trata da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria;

21 de março de 1982 – A instâncias do Pe. Caillon, Mons. Sante Portalupi, núncio em Lisboa, visita Irmã Lúcia, que lhe diz que a Rússia nunca foi consagrada e falta fazê-lo;

De julho a agosto de 1982 – A Soul Magazine, do Exército Azul, veicula que, segundo Irmã Lúcia, a consagração da Rússia aconteceu na cerimônia de 13 de maio de 1982; assim, o Exército Azul já não tem mais motivos para lutar: aos poucos ele vai adotando as teses modernistas sobre Fátima e rebatiza-se de “Apostolado Mundial de Fátima”;

8 de dezembro de 1983 – João Paulo II escreve aos bispos católicos do mundo inteiro, pedindo-lhes se juntassem a ele em 25 de março do ano seguinte, dia em que consagrará o mundo a Nossa Senhora;

8 de junho de 1983 – Durante uma audiência geral o Pe. Caillon consegue aproximar-se de João Paulo II na Praça São Pedro. Ao perguntar ao Papa quando ele consagraria a Rússia, recebe apenas isto como resposta: “Já está feito, já está feito. É sempre a mesma história.” Com grande perseverança o Pe. Caillon vai aproximar-se do Papa muitas outras vezes e outras tantas será despedido da mesma maneira;

25 de março de 1984 – Em Roma, diante de 250.000 pessoas, João Paulo II oferece e consagra o mundo à “Mãe dos Homens e dos Povos”, sem nenhuma menção à Rússia. Ainda naquela manhã declarou ele que não desejava fazer nada além do que já haviam feito seus predecessores; e à noite, numa oração à Maria, diz: “Tu esperas nosso ato de consagração.” Três dias antes da consagração, confiara Irmã Lúcia a Mons. Pestana que aquele ato não tinha caráter decisivo;

Setembro de 1985 – Em entrevista ao Sol de Fátima confirma Irmã Lúcia que a Rússia nunca foi consagrada tal como Nossa Senhora pediu;

1º de fevereiro de 1986 – Mons. Luciano Guerra, diretor da revista Voz de Fátima, escreve nesta publicação: “Para nós, que escrevemos de Fátima, Gorbachev é o homem escolhido por Deus para dar o primeiro passo em direção à realização da profecia de Maria neste lugar sagrado.”;

27 de outubro de 1986 – João Paulo II reúne as falsas religiões em Assis para rezarem pela paz mundial, indo de encontro ao pedido da Rainha do Céu em Fátima. – Nesse mesmo ano o Cardeal Gagnon requer de João Paulo II a autorização para encontrar-se com Irmã Lúcia. “Ah, não! responde o Papa, não vale a pena; a consagração já está feita, acabou[121].”;

20 de julho de 1987 – Interrogada à pressa, quando estava fora do convento, a fim de votar, Irmã Lúcia confirma ao jornalista Enrico Romero que ainda não se tinha feito a consagração da Rússia;

22 de agosto de 1987.– Visto que piorava a cada dia a crise da Igreja, que é a punição à desobediência da hierarquia, Mons. Léfèbvre, com seus principais colaboradores, vai em peregrinação à Fátima; lá implora ele a Nossa Senhora que o ilumine para saber se deve consagrar os bispos e realizar “a operação de sobrevivência da Tradição”. Após a missa celebrada para 2000 fiéis, o fundador da Fraternidade São Pio X lê um texto de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria[122].

1989 – Mais de 350 bispos respondem à carta do Pe. Nicholas Grüner e assim corroboram com a consagração da Rússia em união com o Papa, segundo a solicitação de Nossa Senhora de Fátima. O Pe. Grüner distribui para o mundo anglófono a revista Fatima Cruzader, com o fim de espalhar a mensagem de Fátima. O Vaticano recebeu, desde 1980, mais de um milhão de assinaturas suplementares pedindo a consagração da Rússia;

Maio de 1989 – Quanto à consagração da Rússia, diz Irmã Lúcia ao Cardeal Law (arcebispo de Boston):

O Santo Padre acha que já a realizou, considerando as possibilidades e segundo as circunstâncias. Mas se a realizou seguindo a fórmula estrita da consagração colegiada que [Nossa Senhora] pediu e desejava? Não, isso não foi feito.[123]

Foi a última vez, ao menos parece, que Irmã Lúcia afirma que não se consagrou a Rússia tal como Nossa Senhora pediu. A partir de junho declara ela que “a consagração já está feita”.

9 de novembro de 1989 – Queda do Muro de Berlim;

1º de dezembro de 1989 – Mikhail Gorbachev, presidente do Soviete Supremo da URSS, foi recebido no Vaticano; a visita é o auge e o triunfo da Ostpolitik;

13 de maio de 1991 – João Paulo II está de novo em Fátima; ele conversa com Irmã Lúcia durante cerca de meia hora, mas nada se sabe do tema do encontro;

8 de dezembro de 1991 – Fim da União Soviética (URSS), substituida pela CEI (Comunidade de Estado Independentes);

8 de outubro de 1992 – O Pe. Nicholas Grüner consegue que 65 bispos vão à Fátima, para que o ouçam discorrer sobre a consagração da Rússia, mas cerca de 35 são dissuadidos de irem à reunião; dois dias mais tarde o Pe. Grüner é agredido pelos empregados do santuário[124];

11 de outubro de 1992 e 11 de outubro de 1993 – Organizam-se dois encontros entre Irmã Lúcia e vários prelados e leigos; serve-lhes de interprete o Sr. Carlos Evaristo. – Mais tarde Evaristo publica um extravagante resumo das conversações, no qual põe ele em boca de Irmã Lúcia que já se haviam atendido aos pedidos de Nossa Senhora com todas as consagrações dos papas até então e que a conversão da Rússia já começara[125];

23 de junho de 1993 – Os acordos de Balamend, entre a Igreja Católica e os ortodoxos cismáticos, “excluem doravante todo o proselitismo e a vontade de expansão dos católicos em prejuízo da Igreja Ortodoxa (nº 35).” Deste modo opõe-se Roma à conversão da Rússia;

Outubro de 1994 – O Secretário de Estado e o núncio apostólico de Portugal escrevem aos bispos do mundo inteiro aconselhando-os a não assistirem à Segunda Conferência pela Paz, organizada pelo Pe. Nicholas Grüner, que se há de realizar no México. Vistos são recusados e muitos outros obstáculos se interpõem no caminho dos 100 bispos católicos que aceitaram o convite à conferência;

De 18 a 24 de agosto de 1996 – A comissão teológica do Congresso Mariológico Internacional de Czestochowa e uma nota da Academia Pontificia Mariana rejeitam o requerimento da definição dogmática de Maria Corredentora, Medianeira e Advogada. Numerosas petições a favor da definição do novo dogma chegam a Roma;

Novembro de 1996 – Em Roma a Terceira Conferência pela Paz, organizada pelo Pe. Grüner, reune 200 bispos, malgrado as pressões que se fizeram;

1997 – Na Rússia a nova lei de liberdade religiosa põe a Igreja Católica numa situação tão precária quanto a das seitas;

De 12 a 18 de outubro de 1999 – Nova Conferência organizada pelo Pe. Grüner em Hamilton nos Estados Unidos (Ontário); porém está se tornando cada vez mais difícil convencer padres e bispos por causa das pressões do Vaticano. Estão presentes apenas alguns bispos e padres, bem como 300 leigos;

13 de maio de 2000 – João Paulo II está em Fátima para a beatificação de Francisco e Jacinta. No curso da cerimônia o Cardeal Sodano anuncia que a terceira parte do segredo vai se publicar por ordem do Papa;

5 de junho de 2000 – O Cardeal Castrillon-Hoyos envia uma carta ao Pe. Grüner ameaçando-o de excomunhão;

26 de junho de 2000 – A Congregação para a Doutrina da Fé publica a terceira parte do segredo de Fátima. No texto de apresentação, Mons. Bertone alude às palavras de Irmã Lúcia, em que ela dizia que já se fez a consagração da Rússia tal como Nossa Senhora pediu. Acrescenta ele que qualquer discussão ou nova petição não tem fundamento. No mesmo documento o Cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, refere-se explicitamente ao Pe. Dhanis e afirma que a devoção ao Imaculado Coração de Maria é uma noção “surpreendente para pessoas provenientes da atmosfera cultural anglo-saxônica e germânica”;

8 de outubro de 2000 – Na Praça São Pedro, em presença de 76 cardeais e de 1400 bispos reunidos para o grande jubileu do ano 2000, pronuncia João Paulo II um “ato de confiança” à Virgem Maria: “Viemos à tua presença para consagrar à tua solicitude materna nós mesmos, a Igreja, o mundo inteiro.” Em razão da solenidade, retira-se a estátua de Nossa Senhora de Fátima da Cova da Iria;

Dezembro de 2000 – Aparecimento do último livro de Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, que ela terminou de escrever em 25 de março de 1997. Ela não alude à consagração da Rússia, mas ao contrário o panorama que delineia sobre a situação do mundo prova à evidência que a Rússia nunca foi consagrada;

12 de setembro de 2001 – A secretaria de imprensa do Vaticano publica uma advertência ao Pe. Grüner, a propósito da nova Conferência pela Paz no Mundo, que vai se realizar em Roma de 7 a 13 de outubro. O prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal Dario Castrillon-Hoyos, assina o texto em que se declara que o Pe. Grüner está suspens a divinis[126];

17 de novembro de 2001 – Mons. Bertone visita Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra. O resumo da conversação de uma hora e meia a duas horas com a vidente contém apenas poucas dezenas de palavras; ele põe na boca da vidente a afirmação de que o Céu aceitou a consagração de 1984 e a confirmação de todo o conteúdo do documento que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou em junho de 2000;

13 de fevereiro de 2005 – Deus chama Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra;

2 de abril de 2005 – Falecimento do Papa João Paulo II em Roma. Os meios de comunicação o saudaram como o “o demolidor do comunismo”, mas em 1994 ele de si mesmo declarou que o comunismo caiu sozinho, sem intervenção direta da Providência. – Ele morreu no primeiro sábado do mês, embora jamais houvesse encorajado a devoção reparadora dos primeiros sábados;

19 de abril de 2005 – O Cardeal Ratzinger é eleito Papa e adota o nome de Bento XVI. Dele agora depende o cumprimento ou a recusa dos pedidos de Nossa Senhora em Fátima.

***

Dominicus

Artigo publicado na Revista Permanência nº 264 (Tempo do Natal 2011)

[Fonte: Le sel de la terre nº 53]

Tradução: Permanência


 [1] Padre Joaquim Maria Alonso, Fatima ante la esfinge el mensaje escatologico de Tuy, Ed. Sol de Fatima, Madrid, 1979, p. 92. Nunca se traduziu este livro em francês [nem em português] [N. do T.: tradução da versão francesa de Dominicus]. – O padre Joaquin-Maria Alonso (1913-1981), claretano espanhol, é decerto o mais autorizado especialista das aparições de Fátima. Em 1966 Mons. Venâncio, bispo de Leiria-Fátima, encarregou-o dum estudo crítico e exaustivo da história e da mensagem de Fátima. Suas pesquisas o levaram a se encontrar diversas vezes com Irmã Lúcia. Em 1975 já estavam encerrados os trabalhos, quando Mons. Amaral, bispo de Leiria-Fátima, proibiu a publicação. Foi necessário esperar até 1992 para que o santuário publicasse, em português, o primeiro volume dos documentos. Desde então saíram mais três volumes, mas o conjunto da obra (24 livros de 800 páginas cada) ainda está inacessível.

[2] N. do T.: equivoca-se o articulista: o subscritor da carta foi em realidade D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria-Fátima, que a remeteu ao Papa Pio XI às instâncias de Irmã Lúcia. Adiante Dominicus cita de novo este fato, já agora se referindo com acerto ao verdadeiro autor, D. Corrêa da Silva.

[3] Citação do Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, contribution de six experts à la connaissance de Fatima, Paris, Téqui, 1973, p. 50 [N. do T.: esta é quase ipsis verbis a resposta de Irmã Lúcia à quinta pergunta do questionário que Pe. Gonçalves – à época, confessor da vidente de Fátima – lhe enviou em maio de 1930; a pergunta dizia respeito ao desejo e à vontade de Nosso Senhor em relação à Rússia].

[4] Ver B. De Lespielle, “La Russie ou ‘l’empire intérieur’”, em Civitas nº 10, 4º trimestre de 2003, p. 61-67 (artigo mui favorável a Vladimir Putin; sem querer prejulgar o futuro, teríamos neste ponto uma grande prudência).

[5] Dom Guéranger, Anné Liturgique, 12 de novembro, festa de São Josafá.

[6] Alude ele à Roma católica (“primeira Roma”), que já acredita decaída, e à queda de Constantinopla (‘segunda Roma”).

[7] Na época do cisma os orientais condenavam a Igreja Romana pela utilização do pão ázimo na consagração do Corpo de Nosso Senhor na Missa.

[8] Trata-se de Constantinopla.

[9] Ver Gaston Zananiri, Pape et patriarches, Paris, NEL, 1962, p. 63-66.

[10] Padre Calmel O.P., “Le Coeur Immaculé de Marie et la paix du monde”, em Itinéraire 38, dezembro de 1959, p. 24.

[11] No final do séc. XIX e começo do séc. XX surgiu entre os católicos um fervor em prol da conversão da Rússia. Deus parecia que preparava os corações para os acontecimentos de Fátima. Ver o artigo do padre Emmanuel-Marie O.P.: “Le père Emmanuel et l’Orient chrétien” em Le Sel de la terre 44, p. 424-449; e Antoine Wenger, Rome et Moscou, 1900-1950, Paris, DDB, 1987, p. 18, sobre o padre Alzon, que remeteu a Pio IX em 1878 uma Mémoire sur un essai d’évangelisation en Russie.

[12] Note-se que Nossa Senhora não falou da “conversão dos russos”, mas da “conversão da Rússia”, designando assim o país na qualidade de entidade política e social. Não diz respeito apenas à conversão da maioria da população – precondição necessária para qualquer restauração – mas também à regeneração das instituições da Rússia, que se há de transformar num autêntico país cristão.

[13] Esperava-se encontrar a palavra conversão. Parece se tratar dum lapsus calami de Irmã Lúcia.

[14] Carta que o Pe. A.M. Martins S.J. transcreveu em Memórias e cartas da irmã Lúcia, Porto, L.E., 1973, p. 415 [Ver também Irmã Lúcia, O Segredo de Fátima nas Memórias e Cartas da Irmã Lúcia (Introdução e notas pelo Pe. Dr. Antônio Maria Martins, S.J.), São Paulo, Ed. Loyola, 1974, p. 171]. Nesta obra apresentam-se as cartas de Irmã Lúcia em língua portuguesa, francesa e inglesa. Diz-se no texto original em português mas será tarde: Um erro grosseiro, encontradiço em certas obras, acrescenta às traduções francesas e inglesas “ce sera trop tard, it will be too late”. Escreverá Irmã Lúcia ao Mons. Silva em 19 de agosto de 1931: “Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria” (carta citada por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 43).

[15] Sobre o problema das indulgências, o leitor pode consultar Sel de la terra 46 (p. 23-53) e 48 (p. 79-118).

[16] Leão XIII, Carta Encíclica Annum Sacrum, em Documentos de Leão XIII, São Paulo, Paulus, 2005, p. 724 e 727.

[17] Resumimos aqui um artigo do Padre Joseph de Sainte-Marie O.C.D., “

[18] Ver: Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 2, Saint-Pares-lès-Vaudes, CRC, 1986, terceira seção; ou o resumo desta obra, do Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima joie intime événement mondial, CRC, 1991, cap. 10.

[19] A 5 de agosto de 1921, Bento XV faz ao mundo um apelo em favor da Rússia, para que enviem ajuda a ela por ocasião da grande fome que a assolou, em decorrência da guerra de 1914-1918. Logo após, ele entrou em negociações com o governo de Lênin, para combinar a distribuição de víveres. Era louvável a intenção caridosa, mas a operação favorecia deveras o governo comunista, que naquele momento tentava obter o reconhecimento das grandes potências. Na continuação dos esforços Pio XI foi muito mais longe: na Conferência de Gênova de 1922, o primeiro encontro internacional em que tomaram assento os bolcheviques, sugeriu Mons. Pizzardo “a readmissão da Rússia na comunidade dos países civilizados” em troca da liberdade de consciência e da liberdade de culto. Mons. d’Herbigny foi um dos agentes mais ativos dessa política. Ver: Ulisse Floridi, Moscou et le Vatican, Paris, France-Empire, 1979; Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute verité sur Fatima, t. 2, ibid., p. 351-382.

[20] Pio XI, Alocução Ecco una aos professores e aos alunos do Colégio Mondragone, 14 de maio de 1929, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/speeches/documents/hf_p-xi_spe_19290514_ecco-una_it.html (acessado em 19 de outubro de 2011).

[21] Pequena cidade marítima próxima a Pontevedra, para onde enviaram a repouso a adoentada Irmã Lúcia.

[22] Carta de Irmã Lúcia citada por Pe. Alonso e reproduzida por Irmão Michel de la Sainte-Trinité em Toute la vérité sur Fatima, t. 2, ibid., p. 344. – Há de se sublinhar certas datas, que levam a acreditar na punição dos homens de Igreja já a partir daquele momento. Em 1932 o Pe. de Lubac, que elaborou sua “Nova Teologia” inspirada em Blondel, deu a público na Revue de sciences religieuses um artigo conducente ao enfraquecimento da autoridade da Igreja sobre a sociedade temporal. Também em 1932 o Pe. Congar começou a seguir os cursos na faculdade de teologia protestante; neste ano, Karl Rahner ingressou na Universidade de Friburgo, a fim de ali seguir os cursos de Heidegger, ao passo que o Pe. Chenu era nomeado reitor de estudos no convento dominicano de Saulchoir. Em 1933 Maritan expôs pela primeira vez suas novas idéias políticas em Du régime temporel et de la liberté. Segundo inúmeros testemunhos convergentes, começou nos anos 30 a infiltração comunista dos seminários (ver infra).

[23] Os vértices desse “triângulo” eram a Rússia (onde a diplomacia de Pio XI não logrou o fim das perseguições), o México (onde a diplomacia livrara os Cristeros dum fim trágico) e a Espanha (que soçobrava no terror).

[24] Pio XI, carta encíclica Divini Redeptoris, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/ documents/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris_po.html (acessado em 19 de outubro de 2011). – Curiosamente, esta passagem se omitiu na edição dos Enseigmenents pontificaux de Solesmes, Paris, Desclée, 1952, volume intitulado La paix intérieure des nations. Não a encontramos também no Dezinger de 1957, nem no Dezinger-Schönmetzer de 1976 (ambos limitam-se a citar breves passagens da encíclica).

[25] Antigos comunistas testemunharam o fato, nos Estados Unidos (Bella Dodd: “Nos anos 30, infiltramos 1100 nos seminários, a fim de destruir a igreja por dentro”; Douglas Hyde, etc.) e na França (Henri Barbé – 1901-1966; Albert Vassart – 1898-1958, etc.). Ver Sel de la terre 45. P. 207-208 e 27, p. 188-190; Itinéraires 227, p. 151; Catholic Family News, agosto de 1991. – Baseada nesses acontecimentos, escreveu Marie Carré um célebre romance: ES 1025, ou les mémoires d’un anti-apôtre, Chiré-en-Montreuil, Éditions de Chiré, 1978. – Mais tarde, em 1945, o Gen. Serov, chefe dos serviços secretos da União Soviética, funda o grupamento “Pax”, cuja missão era infiltrar-se na Igreja Católica a partir da Polônia (ver L’affaire Pax en France, suplemento do nº 86 de Itinéraires). Na época do Concílio dobrou-se o orçamento do Pax (ver Itinéraires 79, p. 55-57); o grupamento colaborou nos ataques então assestados contra a Cúria Romana (ver Itinéraires 88, p. 14-18).

[26] A idéia da consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria veio duma mística portuguesa, Alexandrina Maria da Costa, que recebia revelações particulares de Nosso Senhor. Como a investigação acerca da seriedade dessas comunicações resultasse mui positiva, os bispos de Portugal referendaram, já em junho de 1938, aquele pedido ao Papa Pio XI. Ante as dificuldades em obter-se a consagração da Rússia, Mons. Ferreira achou por bem juntar os dois pedidos num só. – Ver o artigo do Sr. Pe. Delestre, “Pourquoi ne pas obéir à la Mère de Dieu comme il le faudrait?”, em Le Sel de la terre 32, sobretudo a páginas 53 e 54.

[27] Texto publicado por Pe. A.M. Martins e reproduzido por Irmão François Marie-des-Anges em Fatima joie intime, ibid., p. 233-234 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[28] Pio XII, Radiomensagem aos fiéis portugueses por ocasião da  Consagração da Igreja e do Gênero humano ao Coração Imaculado de Maria (31 de outubro de 1942) em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/speeches/1942/documents/hf_p-…. (acessado em 19 de outubro de 2011).

[29] Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, de 4 de maio de 1944, AAS, 1945, p. 37-52.

[30] Carta de Irmã Lúcia, de 28 de fevereiro de 1943, ao bispo de Gurza.

[31] Ver Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, ibid., t. 3, p. 94-97.

[32] Foi uma intervenção especial de Nossa Senhora, em Ile-Bouchard, que salvou a França do comunismo em 1947 (ver o artigo do Sr. Paul Chaussée em Le sel de la terre 53).

[33] Esta aparição está relatada a páginas 440 da obra Il Pellegrinaggio delle Meraviglie, publicada sob os auspícios do episcopado italiano em 1960, na cidade de Roma. Afirma a obra que a mensagem foi transmitida ao Papa em junho. O cônego Barthas chega a mencionar o fato numa comunicação, durante o congresso mariológico de Lisboa e Fátima, em 1967: “De primordiis cultus mariani”, Acta congressus mariologici in Lusitania anno 1967 celebrati, Roma, 1970, p. 517 (ver Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 3, ibid., p. 217, nota 1) [N. do T.: ver também http://www.fatima.org/port/crusader/portcr84_ferrara.asp, acessado em 31 de outubro de 2011 ].

[34] Pio XII, Carta apostólica Sacro Vergente Anno, de 7 de julho de 1952, em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/apost_letters/documents/hf_p-… (consultado em 19 de outubro de 2011).

[35] Carta citada por Pe. Alonso e reproduzida na obra coletiva Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 56 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[36] Produziu-se o fenômeno de 29 de agosto a 1º de setembro de 1953. Aconteceu na casa do casal Jannuso. Ângelo, o marido, acabara de alistar-se no partido comunista. Remeta-se à obra de Mons. Ottavio Musemeci, A Syracuse, la Madone a pleuré, Paris, Casterman, 1956.

[37] O padre Dhanis S.J. começara as críticas em 1944. Pretendia ele fazer distinção entre “Fatima I” (as aparições de 1917, que têm o reconhecimento oficial da Igreja) e “Fatima II” (as aparições posteriores de Nosso Senhor e Nossa Senhora em Pontevedra e Tui, de cuja autenticidade duvidava, atribuindo-as sobretudo à imaginação da vidente). Essa atitude lhe permitia por ao largo a consagração da Rússia e a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês e a reduzir Fátima tão-somente a uma mensagem de oração e penitência que não incomodava ninguém. A tese do Pe. Dhani acabou vencedora no Vaticano, não obstante a refutação magistral e de primeira hora do Pe. Fonseca, e mais tarde a de Pe. Alonso, especialista oficial de Fátima, mormente no artigo Fatima y la critica, publicado na revista espanhola de teologia mariana que estava sob sua direção: Ephemerides Mariologicae 18 (1968), p. 393-435. Ver o artigo do Sr. Pe. Delestre: “Comment Fatima s’est imposé à l’Église” em Sel de la terre 53.

[38] John Haffert, Fatima, apostolat mondial, Paris, Téqui, 1984, p. 54.

[39] Sobre a descoberta da inaudita traição a Pio XII, ver o Irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 1985, t.3, p. 299-305.- Mons. Roche, que durante 25 anos foi íntimo colaborador do Cardeal Tisserant, escreveu a Jean Madiran que as relações entre Montini e Stalin duraram pelo menos doze anos: “Parece que vós ignorais um acordo precedente, fechado durante a recente guerra mundial, em 1942 para ser mais exato, cujos protagonistas foram Mons. Montini e Stalin em pessoa. O acordo de 1942 me parece de importância considerável.” (Itinéraires 285, p. 153). L’Ostpolitik conduzida após a morte de Pio XII não foi fruto da súbita decisão de João XXIII: já havia muito que estava em preparação.

[40] Demonstrou-o com mestria o Papa São Pio X, na encíclica Pascendi, em que constata que o modernismo é o “esgoto coletor de todas as heresias.”

[41] João XXIII, discurso de abertura do Concílio, em 11 de outubro de 1962, http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_… (acessado em 19 de outubro de 2011). – Segreda João XXIII: “Estou sobretudo grato ao Senhor pelo temperamento que me deu, que me preserva de incômodas inquietações e de desânimos.” (João XXIII, Diário Íntimo, Lisboa, Livraria Agir Editora, 1964, p. 340).

[42] Remeta-se ao livro do Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul, 1er, le pape du secret (Toute vérité sur Fatima, t. 4), Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 56-68.

[43] Mons. Roche, carta a Jean Madiran, publicada em Itinéraires 285, p. 154.

[44] Conferência de imprensa de Mons. Léfèbvre no aeroporto de Roissy, em 9 de dezembro de 1983.

[45] Aconteceu em 1964. É de se lamentar que não tenham requerido tão-só a consagração da Rússia, mesmo que assim não surtisse melhor efeito em Paulo VI. No discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio, em 21 de novembro de 1964, declarou Paulo VI apenas isto: “Nosso predecessor Pio XII, de venerável memória, com inspiração do alto, consagrou solenemente [o mundo inteiro] ao Imaculado Coração de Maria.” Ao que acrescentou: “Ao teu Imaculado Coração, ó Maria, confiamos o gênero humano.” Mas trata-se dum discurso, e não duma cerimônia solene, e além disso não se nomeou a Rússia. Depois do que dissemos acerca das meias consagrações de Pio XII, não se pode considerar este discurso como resposta aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima. Ainda, Paulo VI usa o termo confiar (em latim committimus) e não o consagrar, empregado por Pio XII.

[46] Robert Serrou, Paris-Match nº 946, de 27 de maio de 1967, p. 52-53.

[47] Demais a mais, confessará Paulo VI que a viagem à Fátima lhe foi penosa: “Acredito que ao ir a Roma, o general de Gaulle fez uma peregrinação de penitência, como a que fiz à Fátima.” (Aludido por Jean Guitton, Journal de ma vie, Paris, DDB, t.2, p. 226-228.)

[48] Recordemos neste lugar que o desejo de Lúcia, expresso a Pio XII na carta de 2 de dezembro de 1940, era de “que a festa em honra do Imaculado Coração de Maria seja estendida a todo o Mundo, como uma das principais na Santa Igreja” (carta publicada nas obras de Antônio Maria Martins S.J., Memórias e cartas de Irmã Lúcia, Porto, ibid., p. 439, e também Irmã Lúcia, O Segredo…, São Paulo, ibid., p. 182.). Se a festa de segunda classe não é das principais festas da Igreja, que dizer duma simples memória? – No missal de Paulo VI a memória ao Imaculado Coração de Maria atualmente se encontra no sábado após o segundo domingo depois de Pentecostes, no dia seguinte à festa do Sagrado Coração de Jesus.

[49] Vê-se aqui a continuidade perfeita da política inaugurada por Montini em 1942. Estas linhas do Cardeal Sodano são extratos da apresentação à imprensa e às altas autoridades políticas, em 27 de junho de 2000, do livro póstumo do Cardeal Casaroli (morto em junho de 1998): Il martirio dell pazienza. La Santa Sedee i paesi comunisti (1963-1989), Einaudi editore. [N. do T.: tradução da versão francesa] – O Sr. Mikail Gorbachev, último presidente da URSS antes da abertura do Muro de Berlim, assistia à conferência, cujo transcrito encontra-se na DC de 6 e 20 de agosto de 2000, nº 2231, p. 721 a 724.

[50] Mons. Hnilica, no artigo publicado em Pro Deo et Fratribus, nº 40-41, de março-abril de 2001.

[51] O Cardeal Luciani publicou um relato da visita no hebdomadário católico e veneziano Gente veneta, de 23 de julho de 1977 (texto integral no livro do Irmão François de Marie-des-Anges, Jean Paul Ier, le pape du secret, p. 321-322).

[52] Citado pelo Irmão François de Marie-des-Anges, Toute la vérité sur Fatima, t.4, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, p. 343.

[53] DC 1750, de 15 de outubro de 1978, p. 860. Há de se perguntar como o Irmão François de Marie-des-Anges e a CRC conseguiram ver em João Paulo I um novo São Pio X, e apresentá-lo na condição de eleito do Imaculado Coração de Maria.

[54] Citado pelo Irmão François de Marie-des-Anges, ibid., t.4, p. 347.

[55] Cardeal Sodano, DC 2231,p. 723-724.

[56] Estava ele ainda no hospital.

[57] Note-se o tuteamento.

[58] DC 2230, p. 672.

[59] Citação do Irmão François de Marie-des-Anges, em Fatima, joie, événement mondial, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 1991, p. 360 [N. do T.: tradução da versão francesa]. Além disso, é possível duvidar que seja a mesma consagração de Pio XII, que proferiu mui claramente: “É ao Vosso Imaculado Coração que consagramos ao mundo”; João Paulo II não o disse. Demais, as consagrações de 1981 e de 1982 não obtiveram frutos visíveis.

[60] Tenha-se esta frase em mente: Irmã Lúcia só disse o que lhe permitiu a hierarquia [N. do T.: trecho extraído de www.fatima.org/port/crusader/cr76/cr76pg65.pdf (consultado em 19 de outubro de 2011)].

[61] Reconhece Mons. Bertone que as consagrações de 1981 e 1982 não correspondiam de todo aos pedidos da Virgem Maria. As aspas que apôs em “Nossa Senhora” são estranhíssimas e deixam dúvidas acerca da autenticidade das aparições.

[62] Aqui se dirige João Paulo II à Santa Virgem.

[63] DC 2230, ibid., p. 672-673 [N. do T.: tradução extraída de http://www.fatima.pt/portal/index.php?id=15355, acessada em 22 de outubro de 2011].

[64] João Paulo II fala das “nações particularmente necessitadas desta oferenda e desta consagração”, mas as palavras desta frase, que abrange várias nações, não deixa entrever a Rússia, ao passo que o texto de Pio XII era mais límpido, pois que mencionava “o ícone […] escondido e guardado para dias melhores”.

[65] ORLF, de 27 de março de 1984, p. 5.

[66] Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, événement mondial, ibid., p. 363-364.

[67] As hesitações e imprecisões de linguagem se originam mormente do fato de que a noção de Imaculado Coração de Maria é de difícil compreensão ao atual clero oficial. Chegou a declarar o Cardeal Ratzinger: “Indica-se como caminho […] – caminho surpreendente para pessoas provenientes da atmosfera cultural anglo-saxônica e germânica – a devoção ao Imaculado Coração de Maria. (Cardeal Joseph Ratzinger, Compreender a mensagem de Fátima, DC 2230, p. 681. Este texto é parte do dossiê O Segredo de Fátima, que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou em 27 de junho de 2000.) Terrível é esta frase: se dermos crédito a ela, a mensagem de Fátima, centrada no Imaculado Coração de Maria, não seria universal, mas abrangeria tão-somente países latinos, os únicos capazes de compreendê-la.

[68] Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, événement mondial, ibid., p. 361 [N. do T.: ver também www.fatima.org/span/crusader/cr83/cr83pg20.pdf, acessado em 31 de outubro de 2011].

[69] Começou a desmantelar-se a cortina de ferro em 9 de novembro de 1989. Sobre o tema consulte-se a obra de Pascal Bernardin, L’Empire écologique, Cannes, Éditions Notre-Dame des Grâces, 1998, cap. II. Explica o autor que a Perestróica, preparada havia muito pela KGB, marca nova fase da Revolução Mundial. – Ver também, de Hélène Blanc, KGB connexion, Le système Poutine, Éditions Hors Commerce, 14/18 rue Kléber, 75012 Paris, 2004 (www.horscommerce.com)

[70] Déclaration de la Commission mixte internationale pour le dialogue théologique entre l’Église catholique et l’Église orthodoxe, DC 2077, 1º e 15 de agosto de 1993, p. 714.

[71] Pe. Joaquin Alonso, La Verdad Sobre el Secreto de Fatima, Fatima sin mitos, Madrid, Ejercito Azul, 1988, p. 78. Transcrita de www.fatima.org/span/peaceconf/brazil_2007/transcripts/jv2.pdf (consultado em 19 de outubro de 2011).

[72] Ver Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, ibid., p. 374 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[73] O Irmão François de Marie-des-Anges, em Jean-Paul Ier, le pape du secret, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 451, dá certo número de testemunhos sobre o tema. Afirma o Pe. Caillon: “O Papa disse que já se fez a consagração. Ele obrigou a Irmã Lúcia a dizer a mesma coisa.”

[74] DC, de 16 de julho de 200, ibid., p. 673 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[75] Como falaremos adiante, perseguições morais e administrativas ainda seviciam o catolicismo na Rússia. Não esqueçamos que as perseguições físicas continuam, por ex., na China e na Coréia do Norte. Ver sobretudo Harry Hu: Retour au Laogai, La vérité sur les camps de la morte dans la Chine d’aujourd’hui, Paris, Belfond, 1996;

[76] Os aliados da tese também sairam em sua defesa. Assim, em La Nef nº 158, de março de 2005, num artigo intitulado: “In memoriam Soeur Lucie”; Alian de Penanster não hesita em escrever: “Em 1985, [Irmã Lúcia] respondeu que enfim a condição [exigida por Nossa Senhora para se converter a Rússia] cumpriu-se e Maria estava satisfeita. Daí aconteceu à Rússia Gorbatchev e a Perestróica. A conversão da Rússia poderia começar.” Notemos antes do mais um grosseiro erro cronológico: foi a partir de 1989, e não de 1985 – após o começo da Perestróica, e não antes – que Irmã Lúcia começava a mudar de discurso. Por outro lado, parece que Alain de Penanster ignora a situação atual da Rússia: veremos mais adiante o que resultou da “conversão” do país.

[77] Afirma claramente o Cardeal Ratzinger: “Antes de tudo, temos de afirmar com o Cardeal Sodano: “A Mensagem de Fátima se relaciona inteiramente com acontecimentos que, agora, pertencem ao passado”. (DC 2230, de 16 de julho de 2000, p. 683.) [N. do T.: ver também http://www.fatima.org/port/essentials/opposed/croncvrport.asp]

[78] É possível assinalarmos a ação perseverante e corajosa do Pe. Nicholas Grüner, diretor da revista Fatima Crusader. (Ver Le Sel de la terre 39, p. 249)

[79] ORLF, de 1º de janeiro de 2002, p. 6.

[80] Este fascículo está reproduzido em DC2230, ibid. [N. do T.: encontra-se a tradução oficial em português deste fascículo em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html, acesso em 22 de outubro de 2011]

[81] DC, ibid., p. 679. [N. do. T.: remeta-se o leitor ao endereço eletrônico acima] – Já sublinhamos que o Pe. Dhanis era o principal responsável pelo descrédito que Roma votava à autenticidade do segredo de Fátima.

[82] O cardeal está misturando as coisas: a visão do inferno e a do terceiro segredo é possível que Deus as tenha causado na imaginação das crianças, o que não quer dizer que seriam tais visões uma invenção. Contudo, grave seria a pretensão de que se houvesse inventado a visão de Nossa Senhora: que fazer então com os fenômenos atmosféricos que todos constaram, e sobretudo com o milagre do sol, testemunhado por 70.000 pessoas, dentre as quais inúmeros incréus? (O cardeal não alude a este milagre em seu texto). Em razão da queimadura que o brilho da luz da aparição causou em seus olhos, Irmã Lúcia teve de usar óculos pelo resto da vida. Ver Le Sel de la terre 43 (editorial) e 53 (artigo sobre o reavivamento miraculoso de Portugal, no parágrafo sobre os fenômenos atmosféricos vinculados à aparição).

[83] DC, ibid., p. 680, 682. [N. do T.: remeta-se o eleitor etc.] – Um comentário de conclusão ao segredo nestes termos é decerto um escândalo.

[84] Interessante notar que Mons. Bertone, agora cardeal, foi o enviado do Vaticano para celebrar os obséquios de Irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 2005, impondo ele os selos na porta da cela da religiosa.

[85] Ver o artigo “Le renouveau miraculeux du Portugal”, em Le Sel de la terre 53.

[86] Artigo de Pierre Lagier: “L’alcoolisme, fléau de la Russie”, em La Montagne (jornal local da região de Clermont-Ferrand), de 15 de outubro de 2000.

[87] Artigo de Alain Blum: “La mortalité augmente”, em La Croix, de 6 de maio de 2005, caderno central p. II

[88] Artigo de Jean-Claude Chesnais: “L’Europe centrale deviendra aussi une etrre d’immigration”, em Le Figaro, de 12 de agosto de 2002.

[89] Artigo de Evgueni Primakov: “Les trois handcaps de la Russie”, em Le Figaro, de 3 de setembro de 2002. – Acerca da demografia russa, remeta-se o leitor ao estudo de Alexandre Avdeev e Alain Monnier, publicado pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED) em 1996: Mouvements de la population de la Russie, 1959-1994: tableaux démographiques. – ver também Alain Blum, Naître, vivre et mourrir en URSS, Paris, Payot, 2004.

[90] “Um comunicado da agência Associeted Press, de 9 de agosto de 2001, revelou que em Moscou existe um centro de pornografia infantil ligado a outro organismo semelhante no Texas”, escreveu John Vennari em Catholic Family News, de fevereiro de 2002, p. 17.

[91] Entrevista do Pe. Hector Muñoz O.P. ao Sr. Humberto J. Macchi, publicado no semanário argentino Cristo Hoy, de 30 de setembro de 1999, p. 18 [N. do T.: tradução da versão francesa].

[92] Ver o artigo de Pascal Bernardin, “La Russie répandra ses erreus”, em Le Sel de la terre 53.

[93] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, Fátima, Ed. Secretariado dos Pastorinhos, 2003, p. 78. Todavia, os editores da obra não hesitaram em reproduzir uma fotografia do ato de 1984 com a seguinte legenda: “Na praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II, diante da Imagem da Capelinha, em união com todos os bispos da Igreja, consagra o mundo e a Rússia ao Imaculado Coração de Maria (25 de março de 1984).” Encontra-se a fotografia e a legenda nas Memórias de Irmã Lúcia, do Secretariado dos Pastorinhos, Fátima, 2003, p. 155.

[94] João Paulo II, “O sonho de um mundo livre de guerras”, ORLF, de 9 de setembro de 2003, p. 1-2. Comentamos este texto em Le Sel de la terre 47, p. 248-253.

[95] João Paulo II, “Mensagem de celebração da Jornada Mundial da Paz, de 1º de janeiro de 2005”, ORLF, de 21 de dezembro de 2004, p. 6.

[96] Em realidade, a visão de Isaías é uma profecia sobre a Igreja, que reuniria todos os povos sob a mesma fé, e não sobre um conglomerado em que cada qual conservaria sua religião.

[97] João Paulo II, ORLF, de 9 de setembro de 2003, ibid.

[98] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, ibid., p. 239 e 242.

[99] Irmã Lúcia, Apelos da mensagem de Fátima, ibid., p. 253.

[100] Citação do Pe. de Marchi em Temognages sor les apparitions de Fatima Fátima, Ed. Missões Consolata, 1966, p. 279. [N. do T.: Ver também Irmã Lúcia, O Segredo…, São Paulo, ibid., p. 93]– Versa sobre uma aparição particular da Virgem Maria à Jacinta, de que tomamos conhecimento por mãe desta, D. Olímpia. Jacinta entendeu que o que a Santa Virgem pedia era se não comesse carne (vianda) nos dias interditos! Mas Jacinta também acrescentava: “Virão modas que ofenderão muito a Nosso Senhor.”

[101] Carta de Irmã Lúcia, de 18 de maio de 1936, que o Pe. A.M. Martins S.J. reproduziu em Memórias e cartas de Irmã Lúcia, ibid, p. 415 [Ver também Irmã Lúcia, O Segredo…, ibid.]

[102] Nota da Agência France-Presse, de 13 de abril de 2005.

[103] Nota da agência americana Associeted Press, de 4 de abril de 2005.

[104] ORLF, de 5 de abril de 2005, p. 13. Notemos que se colocou um pedaço do Muro de Berlim, protegido sob uma redoma de vidro, numa das entradas mais movimentadas da grande esplanada do Santuário de Fátima. Ao lado dele encontra-se escrito em português uma frase da homilia de João Paulo II em Fátima, em 12 de maio de 1991: “Obrigado, celeste pastora, por terdes guiado com carinho maternal os povos para a liberdade!” (ORLF, de 28 de maio de 1991, p. 7)

[105] João Paulo II, Entrez dans l’espérance, Paris, Plon-Mame, 1994, p. 204 (Título em português: Cruzando o Limiar da Esperança, Francisco Alves, 1994, p. ).

[106] Mons. Marcel Lefebvre, Homélie du dimanche de Pâques, 22 avril 1984, à Êcône, extraído do magnífico CD: Pour l’amour de l’Église, le Christ-Roi, Homélies et allocutions de Mgr Lefebvre, de cuja edição se encarregou o setor de gravações do Seminário S. Pio X (CH – 1908, Riddes), volume 1.

[107] Texto citado por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 42.

[108] Carta citada por Pe. Alonso em Marie sous le symbole du coeur, ibid., p. 43.

[109] Em 1936 Irmã Lúcia esclarecera que Nosso Senhor lhe dissera também: “Fá-la-ão [o ato de consagração] mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições à Igreja. O Santo Padre terá muito que sofrer”.

[110] A consagração, renovada em 13 de maio de 1938, salvará Portugal dos efeitos da revolução comunista na Espanha e da II Guerra Mundial.

[111] Rússia, México e Espanha.

[112] A carta de 1940 a Pio XII permanecera secreta.

[113] Carta reproduzida em Itinéraires, de novembro de 1980, p. 152-153.

[114] Ver Jean Guitton, Dialogues avec Paul VI, Paris, Fayard, 1967, p. 26-32. Jean Guitton, logo após a entrevista, apressar-se-á em difundir a novidade à nata do modernismo francês (ver o irmão Michel de la Sainte-Trinité, Toute la vérité sur Fatima, t. 3, p. 234.)

[115] Demonstrou-o com mestria o Papa São Pio X na encíclica Pascendi, em que constata que o modernismo é “o esgoto coletor de todas as heresias.”

[116] Ver L’affaire Pax en France, suplemento da Revista Itinéraires nº86 (3º trimestre de 1964).

[117] Ver Le Sel de la terre 43, p. 29,30.

[118] Ver a obra de Ulisse Floridi, Moscou et le Vatican, Paris, France-Empire, 1979.

[119] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean Paul Ier, le pape du secret, Saint-Parres-lès-Vaudes, CRC, 2003, p. 399-404. – João Paulo I quis guardar segredo das conversações com Mons. Nikodim. Nada permite a confirmação da idéia que Vladmir Volkov divulgou no seu romance O Hóspede do Papa (2004), segundo a qual essa entrevista centrava-se em Fátima.

[120] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul Ier, ibid., p. 410.

[121] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Jean-Paul Ier, ibid., p. 449.

[122] A reprodução do sermão da missa e o texto de consagração está em Le Sel de la terre 53.

[123] Ver o Irmão François de Marie-des-Anges, Fatima, joie intime, ibid., p. 374.

[124] N. do T.: Segundo a confissão de um dos agressores ao Pe. Grüner, foi Mons. Luciano Guerra quem ordenou lhe aplicassem a tareia; neste particular caso, não há de que duvidar: nomen est omen.

[125] Ver a apreciação crítica do livro de Evaristo, Fatima, soeur Lucia témoigne, le message authentique, do Sr. Pe. Delestre, em Le Sel de la terre 35, p. 72-88; ver também os arrazoados do Sr. Paul Chaussée sobre o tema em Le Sel de la terre 39, p. 250-254. – Citemos apenas dois fatos que permitem o julgamento da falta de seriedade desta obra. Para que se desse crédito à consagração da Rússia, embora não a tivessem nomeado, põe Evaristo as seguintes palavras na boca de Irmã Lúcia: “O que importa é a sua intenção, como quando um padre tem a intenção de consagrar uma Hóstia”. Mas se o padre não pronuncia as palavras da consagração, a hóstia não fica consagrada! Irmã Lúcia ainda teria dito que Gorbachev na visita ao Vaticano se ajoelhara diante do Papa, a fim de lhe pedir perdão; o porta-voz da Santa Sé, em 2 de março de 1998, desmentiu em público esta última afirmação. – O livro, lançado em português em 1998, foi traduzido e difundido em francês pela Editora Fleurus-Mame em 1999, com uma apresentação de 45 páginas de Yves Chiron.

[126] ORLF, de 25 de setembro de 2001, p. 11. Ver Le Sel de la terre 39, p. 249.

Temos obrigação de continuar rezando pelo Brasil

Por Dom Lourenço Fleichman

Nós vivemos num mundo que não suporta que Jesus Cristo reine sobre as nações

Domingo passado foi a Festa de Cristo Rei. Do mesmo modo que na leitura do Apocalipse está dito que aquele Cristo, aquele Senhor que reina no Céu reina também sobre todas as nações, Nosso Senhor também é apresentado pela Igreja como Senhor de todos os povos, de todas as nações. Senhor de todas as políticas, chefe de todas as políticas que há na terra. Porém, nós vivemos num mundo que recusa o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós vivemos num mundo que não suporta que Jesus Cristo reine sobre as nações. E inventaram teorias, filosofias, políticas para tentar convencer os homens de que Continuar lendo Temos obrigação de continuar rezando pelo Brasil